Os versos acima são da canção tropicalista Domingo, mas caem muito bem para o momento atual.
Quase seis décadas se passaram e as notícias, inclusive as de horrores dantescos, continuam se repetindo sem cessar. Estamos condenados ao eterno retorno? Ao trem fantasma?
Agora assistimos à nova temporada de extermínio perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, que continuam seguindo fielmente os passos de Hitler.
Dos EUA eu não esperava algo diferente, mas os israelitas traem sua própria história (vide aqui): sofreram o Holocausto no século passado e agora o impõem aos países árabes.
Israel é o quarto Reich e os Estados Unidos em nada mudaram desde que despejaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, talvez o pior crime de guerra da história da humanidade.
A única novidade que talvez vejamos será a extinção da Organização das Nações Unidas, por haver se tornado uma despesa inútil: existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas.
Não comentarei as novas agressões covardes e sanguinárias a nações muito mais fracas. São iguais a todas que as antecederam, também impunes. De que adianta as deplorarmos se nada de concreto resulta?!
Fazem enorme falta as brigadas de voluntários estrangeiros que foram combater os fascistas na guerra civil espanhola. Os novos assírios (o povo mais cruel de todos os tempos) mataram inclusive nossas esperanças e nossa disposição de lutar por causas justas. (por Celso Lungaretti)
"E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia" (Apocalipse 13:1)
"E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a boca de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio"(Apocalipse 13:2)
"E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta" (Apocalipse 13:3)
"E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como o dragão" (Apocalipse 13:11)
"E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada" (Apocalipse 13:12)
"Aqui está a sabedoria. Aquele que tem discernimento calcule o número da besta, pois é número de homem; e esse número é seiscentos e sessenta e seis". (Apocalipse, 13:18)
Pode-se dizer que esta meia-dúzia de versículos está por trás de todo o alarmismo dos mercadores do templo através dos tempos; e de todos enredos de ficções literárias, teatrais, cinematográficas e musicais sobre a vinda de um anticristo.
Ultimamente foi acrescentado um pitoresco complemento à profecia, qual seja a identificação das duas bestas: a primeira seria o Hitler e a segunda, o Trump. Besteirol ambíguo tem a vantagem de poder ser interpretado ao gosto do freguês.
Há, contudo, uma reminiscência de pouco mais de dois milênios atrás que me tira o sono. E não se trata de um produto da imaginação inflamada ou calculista, mas sim de um verdadeiro acontecimento histórico, datado de 10 de janeiro de 49a.C.
Foi quando o general Júlio César, reagindo às decisões do Senado romano contra ele, gritou A sorte está lançada!, atravessou o rubicão com suas tropas e tomou o poder.
É que, apesar das guerras civis, nenhum senhor da guerra ousara até então desafiar a proibição tradicional de transpor o riacho à frente de suas legiões e chegar ao coração do reino (e, em seguida, da república) para impor-se como o novo mandachuva.
Parafraseando a frase célebre dele sobre a conquista da Gália, César ousou, viu e venceu, inaugurando o ciclo dos imperadores.
Mas, era de esperar-se que mais dia, menos dia, alguém cederia à tentação de lançar a sorte, esperando dar-se bem.
Fico matutando que desde 9 de agosto de 1945 ninguém mais se atreveu a usar uma bomba atômica contra seu inimigo, pois as imagens dos horrores de Hiroshima e Nagasaki serviram para dissuadir até os mais empedernidos detentores dessas armas apocalípticas.
E, quando a primeira bomba atômica soviética foi testada com sucesso em 29 de agosto de 1949, um motivo ainda mais assustador para ninguém tentar a sorte foi acrescentado: o receio de que a explosão da primeira bomba provoque reação idêntica do inimigo ou de algum aliado seu, gerando uma escalada que acabe extinguindo a espécie humana.
Na célebre crise dos misseis cubanos, em 1962, chegou-se muito perto de derrubar a primeira pedra do dominó macabro. Mas John Kennedy e Nikita Kruschev, vendo abrir-se à frente deles o abismo que poderia tragar a humanidade, recuaram no enésimo momento. E nunca mais o risco foi tão grande.
Vai sê-lo agora? O Irã possuirá mesmo uma bomba atômica pronta para lançar contra Israel? Trump pretende mesmo cumprir a ameaça de assassinar à distância o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, se o país não render-se incondicionalmente?
O certo é que a responsabilidade de evitar o pior está sobre os ombros de Trump e não nos do aiatolá, que já não tem mais para onde recuar, com seu país reduzido a escombros; nem nos do corrupto Netanyhau, que deixará de ser premiê tão logo a crise chegue ao desfecho.
Só nos resta torcer para que o alarmismo supersticioso não passe mesmo de um disparate e Trump só tenha do anticristo o narcisismo exacerbado. E, por via das dúvidas, que tal dar três batidinhas na mesa? (por Celso Lungaretti)
Tragédia maior do que as mortes, os refugiados, os dramas e os danos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul é a certeza de que, assim como praticamente nada se fez para atenuar o previsível impacto de tudo isso, nada se fará depois que o dilúvio gaúcho cessar e outro horror qualquer, em qualquer outro lugar do planeta, se tornar o assunto do momento.
Que o aquecimento global e as alterações climáticas produzirão cada vez mais e piores catástrofes passou a ser, já no século passado, um óbvio ululante. E não dá para continuarmos nos iludindo quanto ao fato de que o fim da espécie humana nos espera adiante, bem mais cedo do que supúnhamos. A única dúvida é quando, como e se há escapatória possível.
Bem vistas as coisas, a única esperança que resta é a de que uma ocorrência mais apocalíptica ainda enfim convença todos nós a enfrentarmos unidos nosso pior desafio desde que saímos das cavernas.
Isto esteve próximo de acontecer em 2011, quando um megaterremoto seguido de um tsunami quase causou ao Japão uma devastação ainda maior que a das bombas atômicas em 1945.
A pergunta que não quer calar é se tal ocorrência apocalíptica sucederá antes ou depois de as consequências cumulativas do aquecimento global se tornarem impossíveis de reversão.
Pois o pior pesadelo será sermos dizimados pelas catástrofes pipocando no mundo inteiro sem sequer vislumbrarmos uma chance de sobrevivência, como os condenados à morte que só esperam a data da execução.
Vou encerrar com uma autocrítica. Eterno otimista, cheguei a acreditar que a quase impossível (dada a desigualdade de forças) vitória conquistada pelo nosso lado em 2011 no Caso Battisti, contra os poderes avassaladores da imprensa burguesa e as pressões escandalosas de um país do 1º mundo, prenunciavam um cenário no qual a internet nos permitiria confrontarmos com êxito a lavagem cerebral da indústria cultural.
Hoje vejo que aquela foi apenas uma moeda que caiu em pé, com a web em seguida se revelando um ovo da serpente: amplificadora não do pensamento crítico, mas sim da ignorância, do egoísmo e dos preconceitos da maioria da população nesta sociedade reduzida a terra arrasada pela ganância capitalista.
A igualação não se deu por cima, como sonhei e tantos outros idealistas sonharam, mas bem por baixo, descendo até ao nível do esgoto bolsonarista.
E, como o simplismo panfletário das fake news é bem mais compreensível para os simplórios do que uma visão crítica dos fenômenos sociais, nunca tantos fizeram seus zurros ecoarem tanto e causando tantas distorções na vida social quanto nestes melancólicos tempos presentes. (numa linha próxima à minha, recomendo a leitura deste ótimo artigo do economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca).
Paulo Francis, que morreu em 1994, cunhou a expressão inferno bocó (ou pamonha) para denominar o estado de embrutecimento a que foi reduzida a vida cultural na sociedade de consumo, à medida que a prioridade suprema passou a ser a de bajular o consumidor e espelhar suas limitações.
Não tinha ideia de quão imenso ainda viria a ser o retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)
Tendo este blog publicado uma excelente crítica do filme Oppenheimer (clique aqui para acessá-la), vou acrescentar uns poucos aspectos históricos que considero importantes e o chinfrim diretor Christopher Nolan omitiu ou diluiu na mixórdia de informações atiradas na tela sem uma correta hierarquização por ordem de importância.
Como se ainda estivesse lidando com personagens de HQ como o Batman, Nolan produziu muito estardalhaço e pirotecnia para, no final, deixar o espectador leigo no assunto com a impressão de que Oppenheimer tenha sido herói e vítima, enquanto os falcões que o perseguiram durante o macartismo seriam os únicos vilãos. Ou seja, quem não sabia nada agora sabe quase nada...
Primeiramente, não fica claro que uma verdadeira histeria obnubilou o raciocínio dos principais físicos da época face à possibilidade de Adolf Hitler contar com uma bomba atômica para seus desígnios hediondos. Tiveram um pesadelo à noite e, ao acordarem pela manhã, estavam convertidos em alarmistas atônitos.
Então, sem hesitarem um segundo, correram a pedir socorro para o Tio Sam, como se dotarem os EUA de um poder apocalíptico garantisse que o mundo ficaria mais seguro.
O resultado dessa obtusidade dos scholars para enxergarem o que está fora do seu nicho específico foi o verdadeiro milagre de até agora a espécie humana não haver sido destruída por uma guerra atômica.
As peças do dominó, vale lembrar, estiveram muito próximas de caírem uma a uma na crise dos mísseis cubanos, em 1962. Fomos buscar na bacia das almas uma sobrevida que já dura sete décadas, mas se sustenta até hoje sobre um equilíbrio precário. Amanhã poderá ser nenhum dia, ou então o day after...
Como bem ressaltou o David Emanuel Coelho, esses cientistas, com o húngaro Leo Szilard à frente, tinham em comum o propósito de salvarem os judeus e/ou os esquerdistas do nazi-nazismo.
E convenceram Albert Einstein a endossar suas preocupações numa carta escrita por Szilard e assinada também pelo pai da teoria da relatividade, que era respeitadíssimo pelo presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt.
A partir daí vieram a decisão política e os recursos financeiros para u projeto atômico dos EUA.
Físico da segunda prateleira, que nem antes nem depois ganhou o Prêmio Nobel, Oppenheimer percebeu o mesmo que os colegas mais ilustres: passara a existir uma possibilidade teórica de se fabricar uma bomba atômica.
E foi escolhido pelo chefe militar do Projeto Manhattan, o general Leslie Groves, para comandar a parte científica do empreendimento. Por quê? Por ter mais jogo de cintura, saber lidar pragmaticamente com diversos aspectos do empreendimento, enquanto os dotados de melhores cérebros sabiam muito de sua especialidade e quase nada de todo o resto.
Talvez Groves também haja percebido que aquele jogador da série B obcecado por ascender à série A se prestaria aos papéis mais repulsivos para preservar seu posto, como delatar um companheiro suspeito de traição e até tornar-se um destruidor de mundos (conforme a frase de efeito que depois andou pretensiosamente citando, sem perceber que ela mais o incriminava do que o favorecia).
E, quando o perigo nazista, que não era tão sólido quanto os ingênuos cientistas supunham (os aliados, ao ocuparem a Alemanha, encontraram o projeto atômico nazista ainda longe da conclusão) se desmanchou no ar, foi forte a rejeição entre os medalhões do projeto à ideia de usar-se a bomba contra o Japão. Não era para isto que eles tinham trabalhado com tanto afinco.
Casal Rosenberg: a corda arrebenta sempre do lado mais fraco.
Oppenheimer, contudo, afiançou-lhes que os líderes políticos e militares sabiam o que estavam fazendo.
Ou seja, mentiu descaradamente, pois participara de suficientes reuniões com essa gente podre para depreender que ela era capaz de mandar pelos ares uma cidade nipônica apenas para justificar, diante dos eleitores, os US$ 2 bilhões até então despendidos na empreitada.
Consta também que, quando do teste definitivo da bomba em Los Alamos, Oppenheimer estava mais ansioso do que marido na maternidade à espera do parto da esposa. Os técnicos tiveram de pedir-lhe que se retirasse do recinto, pois deixava todo mundo nervoso. Preocupações humanitárias? Conta outra.
Bombas fabricadas e explodidas, algo entre 150 mil e 250 mil seres humanos exterminados nos primeiros tempos (afora os que morreriam ao longo dos anos seguintes), não escapou a Oppenheimer que aquele horror todo o faria ser visto doravante como um dr. Frankenstein da vida real, pois a etapa seguinte seria a de os muitos culpados eximirem-se da responsabilidade moral pelo monstro, deixando-as nas costas de vocês sabem quem.
Foi quando ele trocou sua fantasia de salvador das vidas dos soldados que morreriam se os EUA fossem obrigados a invadirem o Japão pela de opositor da bomba de hidrogênio e propositor de medidas irrealistas para evitarem-se novos novas bestialidades como as de Hiroshima e Nagasaki. O melhor momento do filme é quando o presidente Truman se indigna com as lágrimas de crocodilo de Oppenheimer e grita-lhe que a responsabilidade pelo uso da bomba cabia ao stablishment político e militar, não aos cientistas que a criaram. Uma lição de realpolitik.
Mas Nolan preferiu passar pano na imagem do cientista louco, contrapondo-lhe os mais loucos ainda falcões do Pentágono e caçadores de bruxas do macartismo. Para o público que engole as lorotas de Hollywood, acaba ficando a impressão de que Oppenheimer não foi tão ruim, afinal. Minha opinião é exatamente a oposta.
Por último, aponto os grandes ausentes do melodrama político de Nolan: Julius e Ethel Rosenberg, o casal de comunistas de passeata que serviram de estafetas para o repasse à espionagem soviética de informações sobre o Projeto Manhattan.
Foi outra opção de realpolitik: as altas autoridades estadunidenses consideraram preferível isentar os figurões da física que subsidiaram a URSS para que se estabelecesse um equilíbrio do terror (ou seja, visando evitar que o monopólio da destruição do mundo permanecesse nas mãos dos Estados Unidos). Como alternativa, o país que prega justiça para todos proveu catarse para a opinião pública eletrocutando quem estava mais à mão.
Afinal, alguém precisava pagar pela epidemia de diarreia que se espalhou pelo país inteiro quando se ficou sabendo que os soviéticos também possuíam sua bomba. Azar desses dois pobres coitados que não entendiam bulhufas dos dados técnicos que estavam passando adiante! (por Celso Lungaretti)
É por lembrar das crianças de Hiroshima que nunca perdoarei
quem de alguma forma concorreu para seu extermínio