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segunda-feira, 13 de maio de 2024

A INDIGNAÇÃO DO MINISTRO PETISTA É JUSTIFICADA, MAS FOI SEU PARTIDO QUEM DEIXOU O OVO DA SERPENTE CRESCER TANTO

Abaixo reproduzo trechos de um desabafo do ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Paulo Pimenta, contra a infestação de fake news. Ele tem a minha total solidariedade. 

Vale lembrarmos, contudo, que a postura do partido do Pimenta era bem diferente em 2007, quando nós, da esquerda que era e continua sendo revolucionária, enfrentávamos o mesmíssimo problema. 

Se os petistas houvessem então somado forças conosco contra as viúvas da ditadura e os novos fascistas que estavam formando, provavelmente o ovo da serpente nem sequer teria eclodido e infernizado a tal ponto o cotidiano dos brasileiros. 

Pimenta soaria muito mais verdadeiro agora se sua catilinária viesse acompanhada por uma sincera autocrítica, pois a eternidade que tal ficha demorou a cair para o PT se mede, inclusive, pelo número de mortes evitáveis mas não evitadas durante a recente pandemia: uns 400 mil brasileiros dizimados como consequência da sabotagem vacinal  (por Celso Lungaretti)
"CONFESSO QUE PERDI A
 CABEÇA COM MENTIROSOS"  
"
Na madrugada em que se completaram dez dias do maior desastre meteorológico da história do meu estado natal, fiquei acordado respondendo diversas mensagens de preocupação. 

Dezenas de pessoas me enviavam em seus celulares um vídeo onde supostamente eu era linchado à noite em uma visita a um abrigo. Amigos, companheiros, familiares me perguntavam se eu estava bem, se precisava de ajuda. 

O vídeo é mais um episódio de uma estratégia organizada de desinformação que acontece no Rio Grande do Sul. As imagens são de uma assembleia sindical no Ceará, onde alguém (que não sou eu) é alvo de violência, porém as mensagens não apenas davam a entender que o vídeo era atual e me envolviam, como diziam que eu estava tendo a recepção que merecia. 

Mentir não é novidade, a mentira não nasceu com o WhatsApp, mas é nas redes sociais que surge o fenômeno de produção de mentiras em escala industrial, com ações coordenadas e métodos para desinformar.

É difícil de entender que em um momento de tamanha fragilidade, pessoas se escondam em suas telas produzindo conteúdos que sabem ser mentirosos para que tenham algum tipo de ganho político ou econômico. 

Por isso me indigno. Por isso, falei que deviam prender quem tem propositalmente produzido essas mentiras de forma estratégica para desinformar as pessoas, por isso oficiei a Advocacia Geral da União e a Polícia Federal para que investiguem essas pessoas como criminosos.
" (ministro Paulo Pimenta, da Secom)
Observações  antes tarde do que nunca, o PT não só denuncia o uso desembestado da mentira por parte da extrema-direita para desqualificar seus adversários políticos, como pede que tal prática seja investigada e punida com prisão dos responsáveis.  

Eu concordo, até porque já defendia a adoção de tais medidas... em 2007! (vide  aqui, p. ex., uma denúncia que então fiz e o tiroteio cerrado que provocou nos comentários). 

Se a força majoritária da nossa esquerda tivesse também erguido tal bandeira quando nós, os sobreviventes da luta armada, sofríamos idêntica campanha de satanização virtual (um balão de ensaio para a atual produção de mentiras de forma estratégica a que se refere Pimenta), talvez o infame palhaço assassino nem sequer tivesse sido eleito na mais mentirosa e manipulada eleição brasileira de todos os tempos, a de 2018. 

Contudo, o inimigo de classe naquele tempo era subestimado pelos petistas, que se mostravam muito mais hostis a nós do que aos ultradireitistas, praticamente os ignorando, como se fossem malucos sem real importância. 

Deu no que está dando. (CL)

terça-feira, 7 de maio de 2024

SOBRE O DILÚVIO GAÚCHO, A IMINÊNCIA DO FIM, A WEB DA SERPENTE E O INFERNO BOCÓ

Tragédia maior do que as mortes, os refugiados, os dramas e os danos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul é a certeza de que, assim como praticamente nada se fez para atenuar o previsível impacto de tudo isso, nada se fará depois que o dilúvio gaúcho cessar e outro horror qualquer, em qualquer outro lugar do planeta, se tornar o assunto do momento.

Que o aquecimento global e as alterações climáticas produzirão cada vez mais e piores catástrofes passou a ser, já no século passado, um óbvio ululante. E não dá para continuarmos nos iludindo quanto ao fato de que o fim da espécie humana nos espera adiante, bem mais cedo do que supúnhamos. A única dúvida é quando, como e se há escapatória possível.

Bem vistas as coisas, a única esperança que resta é a de que uma ocorrência mais apocalíptica ainda enfim convença todos nós a enfrentarmos unidos nosso pior desafio desde que saímos das cavernas. 

Isto esteve próximo de acontecer em 2011, quando um megaterremoto seguido de um tsunami quase causou ao Japão uma devastação ainda maior que a das bombas atômicas em 1945.

A pergunta que não quer calar é se tal ocorrência apocalíptica sucederá antes ou depois de as consequências cumulativas do aquecimento global se tornarem impossíveis de reversão.

Pois o pior pesadelo será sermos dizimados pelas catástrofes pipocando no mundo inteiro sem sequer vislumbrarmos uma chance de sobrevivência, como os condenados à morte que só esperam a data da execução. 

Vou encerrar com uma autocrítica. Eterno otimista, cheguei a acreditar que a quase impossível (dada a desigualdade de forças) vitória conquistada pelo nosso lado em 2011 no Caso Battisti, contra os poderes avassaladores da imprensa burguesa e as pressões escandalosas de um país do 1º mundo, prenunciavam um cenário no qual a internet nos permitiria confrontarmos com êxito a lavagem cerebral da indústria cultural.

Hoje vejo que aquela foi apenas uma moeda que caiu em pé, com a web em seguida se revelando um ovo da serpente: amplificadora não do pensamento crítico, mas sim da ignorância, do egoísmo e dos preconceitos da maioria da população nesta sociedade reduzida a terra arrasada pela ganância capitalista. 
A igualação não se deu por cima, como sonhei e tantos outros idealistas sonharam, mas bem por baixo, descendo até ao nível do esgoto bolsonarista. 

E, como o simplismo panfletário das fake news é bem mais compreensível para os simplórios do que uma visão crítica dos fenômenos sociais, nunca tantos fizeram seus zurros ecoarem tanto e causando tantas distorções na vida social quanto nestes melancólicos tempos presentes. (numa linha próxima à minha, recomendo a leitura deste ótimo artigo do economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca).

Paulo Francis, que morreu em 1994, cunhou a expressão inferno bocó (ou pamonha) para denominar o estado de embrutecimento a que foi reduzida a vida cultural na sociedade de consumo, à medida que a prioridade suprema passou a ser a de bajular o consumidor e espelhar suas limitações. 

Não tinha ideia de quão imenso ainda viria a ser o retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

OS MORTOS NAS ENCHENTES SÃO, ISTO SIM, VÍTIMAS DO CAPITALISMO ASSASSINO!

dalton rosado
A TRAGÉDIA HABITACIONAL (E FUNDIÁRIA) BRASILEIRA
O Brasil possui cerca de 24,57 habitante para cada km², o que lhe confere a condição de país com baixa densidade demográfica. 

Para se ter uma ideia do que isto representa, a União Europeia tem cerca de 32 hab/km² e os Estados Unidos, 33,22 hab/km².

Somos um país continente e com longas extensões de terras inabitadas. Entretanto, o nosso povo não tem terra para plantar e, principalmente, faltam-lhe terras para morar. 

Como se admitir que a população amazonense precise morar em palafitas, às margens dos rios e em casas-barcos que sobem e descem à medida que ocorrem as enchentes sazonais na Amazônia?

Jamais fizemos a reforma agrária, que, vale lembrar, é uma bandeira capitalista: a lógica do capital implica o aumento da produção de mercadorias e as terras improdutivas não contribuem para o aumento da arrecadação de impostos e do próprio capital. 

Mas o pensamento conservador elitista do Brasil tradicional jamais compreendeu esta questão, tanto que nem sequer fizemos a reforma agrária (a deposição de Jango se deveu, entre outros motivos, à sua disposição de a realizar) e fomos um dos últimos países das Américas a dar fim à escravidão. 

A abolição dos escravos negros era bandeira capitalista: propunha a escravismo pelo salário como alternativa ao feudalismo escravista direto das senzalas.
O povo ajudando bombeiros a socorrerem vítimas de deslizamento em Franco da Rocha, SP
Assim é que se formaram núcleos habitacionais nos morros do Rio de Janeiro, cujas terras, no final do século 19, eram desprovidas de valor econômico; não serviam para plantar num país com terras abundantes nas mãos dos senhores feudais, e nem para morar, numa época em que até os animais de cargas teriam dificuldades de escalar suas encostas íngremes e o abastecimento de água seria precário. 

Canções como "Lata d'água", de Candeias Jota Jr. (“Lata d’agua na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria, sobe o morro e não se cansa, pela mão leva a criança, lá vai Maria..”) bem demonstram qual era e ainda é a realidade de uma mulher negra, mãe e morando num barraco mal construído nos morros brasileiros. 

A verdade é que o povo brasileiro de baixa renda, em sua grande maioria, mora em casas toscas, com precárias infraestruturas urbanas (de água, luz, vias pavimentadas, transporte, escolas e postos de saúde); e os que estão abaixo da linha da pobreza (cerca de 67,7 milhões em todo o país, ou 32,1% da população brasileira) se veem obrigados a improvisar moradias nas áreas de risco. 
Inundação ameaçando piorar em Natividade, RJ

Todas as pessoas que morreram nas recentes enchentes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia são vítimas do capitalismo assassino, que agride o meio ambiente e provoca as mudanças climáticas das quais decorreram os recentes incêndios, nevascas intensas e ciclones no sul, meio-oeste e nordeste dos EUA, bem como os incêndios no centro-oeste e enchentes no nordeste e sudeste do Brasil. 

E é esse mesmo capitalismo que torna a mercadoria terra urbana e rural inacessível à maioria dos brasileiros. 

A questão habitacional no Brasil revela quão perversa é a cisão social existente nas cidades brasileiras, nas quais se observa uma colossal disparidade de qualidade habitacional entre os bairros elegantes e providos de infraestrutura urbana e os bairros com ruas esburacadas e mal iluminadas, com casas construídas em terrenos acidentados e sem critérios urbanísticos de construções, não tendo sido projetados de modo a proporcionar segurança contra enchentes. 

A terra urbana é proibitivamente cara para a média salarial brasileira, e isto para quem ainda está empregado. Como temos uma das mais altas taxas de desemprego dos países em desenvolvimento, já se pode imaginar o porquê de tenta gente morando em áreas de risco de desabamentos e inundações quando vem a temporada de chuvas, que hoje estão cada vez mais intensas em breves períodos ou fracas e ausentes por longos tempos.
Machacalis, MG, foi um município fortemente atingido pelas águas de dezembro
Sofre-se com as enchentes; lamenta-se a redução de volume dos reservatórios num país no qual a energia hidráulica é fundamental; e tornam-se improdutivas as áreas degradadas pelas secas. Enquanto isso, segue o baile macabro da hipocrisia política...

Mas não é somente a terra que é proibitivamente cara para os trabalhadores assalariados; mais cara ainda é a construção confortável de uma casa e a infraestrutura ao seu redor. Calcula-se que o valor da terra urbana popular é apenas 20% do custo de uma habitação. 

Ora, se o trabalhador assalariado não pode comprar um lote de terra, mesmo pequeno, mas situado em área segura, e considerando que tal custo habitacional é de apenas 20% do total, como poderá adquirir uma casa construída com as condições de habitabilidade necessárias? 

Agora com a alta dos juros e da inflação, os programas de financiamentos habitacionais populares de longo prazo estão inviabilizados, ou seja, a cada dia que se passa a coisa piora, principalmente com um governo desvairado como  o que temos.  
Itabuna, BA:  quadro desolador com as chuvas de 2022
Não é difícil entendermos por que são os pobres e suas construções precárias são soterrados nos deslizamentos dos morros: trata-se de um retrato sem retoques da exclusão social étnica histórica. 

O poder público é elitista e seletivo quando às construções de infraestrutura urbanística de sua alçada na periferia das cidades. Os bairros ricos recebem tratamento vip, enquanto os bairros pobres são tratados a pontapés, com negligência amiúde assassina. 

O traçado urbanístico das cidades denuncia a cisão social existente, resultante da ordem segregacionista e desumana à qual estamos submetidos, e que é a responsável final por todas as vítimas que acabam de ser soterradas em São Paulo, a meca do capitalismo nacional. 

Até quando??? (por Dalton Rosado)
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