Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de março de 2022

ELE FOI UM IMPRESCINDÍVEL NA RESISTÊNCIA DA IMPRENSA À DITADURA

jornal carioca Correio da Manhã foi o primeiro veículo da grande imprensa a posicionar-se firmemente contra a quartelada de 1964.

Reunia uma plêiade de grandes jornalistas de esquerda, como Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves. Jânio de Freitas, Márcio Moreira Alves, Paulo Francis e Sérgio Augusto. 

Muitas das contundentes crônicas políticas que Cony escreveu logo após o golpe foram lançadas em livro (O ato e o fato) ainda naquele ano.

E, assim como Paulo Francis viria a ser o guru d'O Pasquim, quem cumpria tal papel no Correio da Manhã era Otto Maria Carpeaux (1900-1978).

Daí o interesse com que devorei o tributo a ele prestado por André Rosa na Folha de S. Paulo desta 3ª feira (1º de março), com o título de Carpeaux, 80. 

André Rosa, para quem não se lembra, foi responsável por um grande momentos deste blog, ao liberar para publicarmos aqui a primeira tradução brasileira, de sua autoria, do monumental poema de Ievguêni Ievtuchenko sobre o massacre de Bábi Yar, um dos crimes mais hediondos da era stalinista (vide aqui). 

Como seu texto sobre o Carpeaux excede em muito a extensão habitual dos artigos deste blog e tem um enfoque mais apropriado para cadernos culturais, selecionei os trechos que considerei de maior interesse para o público do
Náufrago.  

Os interessados em lê-lo na íntegra, contudo, o encontrarão disponibilizado aqui. (CL)
Q
uando chegou ao Brasil, em setembro de 1939, após uma longa fuga da fúria nazista, Carpeaux ainda não sabia português. 

O seu único contato com a literatura brasileira até então havia se dado no momento da vinda, no navio, por meio de uma tradução francesa da crônica O Velho Senado, de Machado de Assis, emprestada da biblioteca de bordo. 

A recepção fraternal ao amigo que deixava para trás uma Europa em ruínas foi, sem dúvida, um fator determinante para o florescimento de uma obra vigorosa e criativa e seguramente evitou um destino trágico como o de seu compatriota Stefan Zweig.

Com o golpe militar de 1964, Carpeaux resolveu deixar a literatura para se dedicar à luta política. Tornou-se um opositor veemente da ditadura. Passou a escrever textos políticos para jornais como o Folha da Semana, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, e revistas como a Encontros com a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, à época a mais importante publicação da esquerda.

Os seus prefácios já não figuravam mais entre livros de literatura, mas sim em obras engajadas como Argélia, o Caminho da Independência (Civilização Brasileira, 1966) e O Poder Jovem (Civilização Brasileira, 1966), de Arthur José Poerner. 
O Correio dedicou 10 páginas à 6ª feira sangrenta 
de 68; depois se soube que a ditadura matara 28 pessoas!
No entanto, para não dizer que a literatura ficou totalmente de lado durante os anos de enfrentamento, Carpeaux recorreu a Os Sertões, de Euclides da Cunha, a fim de fazer uma defesa da guerrilha do Caparaó.

Intitulado A Lição de Canudos, sempre atual, o texto de 1966 parte da resistência dos sertanejos para exaltar a insurreição armada. 

O texto, que circulou clandestinamente e sem assinatura, só foi descoberto na década de 1990, entre as coisas de Carpeaux...

Vale notar que, antes do Brasil, o caminho de Carpeaux já havia sido longo. Na Áustria, gozou da confiança de chefes de Estado e dirigiu algumas das mais importantes publicações católicas da Europa. Conheceu pessoalmente Franz Kafka e foi aluno de Benedetto Croce. 

Só conseguiu chegar ao Brasil, acompanhado de sua esposa Hélene Silberherz, por conta de uma intervenção do papa Pio 12 junto a Getúlio Vargas.

Aos poucos, como previu Antônio Houaiss, a fisionomia moral e intelectual de Otto Maria Carpeaux será reconstituída mediante um exame atento de sua obra. É importante que as novas gerações de leitores e estudiosos estejam atentas ao seu legado, que, entre nós, teve início há 80 anos e ainda não se esgotou. 
(André Rosa é jornalista, tradutor e mestrando
em literatura comparada pelo PPGCL‐UFRJ/Capes)

sábado, 12 de fevereiro de 2022

PAULO FRANCIS: ATÉ SEU AUGE COMO GURU DO "PASQUIM", ELE FOI UM TITÃ.

"Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão"

(Brecht, Aos que virão depois de nós)
Passou praticamente despercebido, na semana passada, o 25º aniversário da morte de um dos jornalistas brasileiros mais influentes da segunda metade do século passado: o analista político e crítico de cultura Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis, que morreu no dia 4 de fevereiro de 1997, de enfarte, aos 66 anos de idade.

Os mais jovens, que não conheceram o Francis d'O Pasquim e da vibrante participação inicial na Folha de S. Paulo (quando esta ainda tinha como diretor de redação o inesquecível Cláudio Abramo, defenestrado pelos militares em 1977), guardam dele a imagem  antipática, às vezes até reacionária, da segunda metade de sua carreira.

Eu não considero Francis um típico esquerdista que endireitou ao se tornar sexagenário, conforme a frase célebre do presidente Lula.

Prefiro vê-lo como quem caiu numa armadilha da História, pois suas convicções arraigadas e um cenário enganador o induziram a um terrível erro de avaliação. E não sobreviveu tempo suficiente para cair na real e, talvez, corrigir seu rumo.

Para um melhor entendimento do que estou falando, vou evocar sua trajetória toda.

Ele estudou em colégios de jesuítas e beneditinos, cursando depois, por uns tempos, a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Trocou-a por uma pós-graduação em Literatura Dramática na Universidade de Columbia (Nova York), também não concluída.

Chegou a ser ator e diretor teatral, mas acabou no nicho tradicional dos que são melhores para escrever sobre suas paixões artísticas do que para personificá-las: a crítica, a partir de 1959, no Diário Carioca.

Paralelamente, colaborava com a revista Senhor (que mais tarde viria a editar) e escrevia sobre política no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Relatou, mais tarde, um episódio pitoresco do seu noviciado. Entregou uma crítica teatral toda pomposa, repleta de termos pernósticos, ao seu editor. 

Ao recebê-la de volta, havia um grosso traço vermelho circundando a expressão via de regra. E o comentário cáustico: Via de regra é a buceta...

[Para os jovens que desconhecem o linguajar de outrora, esclareço que regras era um eufemismo para menstruação.]

Francis disse que essa foi a primeira e única lição aproveitável de jornalismo que recebeu: escrever com simplicidade e clareza, em vez de pavonear-se com exibições desnecessárias de erudição.

Também comentou que tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação. Daí sua avaliação de que o fundamental para o exercício dessa profissão é uma formação cultural sólida, humanística e universalizante.

Ou seja, jornalismo tem tudo a ver com história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, política, economia, literatura. Isto, sim, é que deveria ser priorizado na formação de um jornalista, segundo Francis.

[E assim o lecionavam, p. ex., na Escola de Comunicações e Artes da USP quando a cursei, entre as décadas de 1970 e 1980. Os dois primeiros anos eram voltados para a formação geral e só os dois últimos para a formação específica – a proporção de 3 x 1 seria mais apropriada ainda. Depois, tragicamente, sobreveio a capitulação diante do capitalismo pós-industrial, que execra o pensamento crítico e reduz o ensino à mera capacitação profissional.]
NA TRINCHEIRA DAS PALAVRAS Embora não deixasse de registrar os erros e limitações das esquerdas brasileiras, por ele tidas como muito distantes da grandeza histórica e intelectual do seu ídolo de então (Trotsky, o homem que liderou a tomada de poder pelos bolcheviques em 1917 e criou o Exército Vermelho, assegurando a sobrevivência da revolução na guerra civil de 1918-1921), Francis considerava que a prioridade era combater as forças de direita.
Amigos como Carlos Heitor Cony atribuíram seu enfarte à
astronômica indenização que teria de pagar à Petrobrás
por esta declaração, que o petrolão provaria ser correta!
 

Foi o que fez no conturbado período da renúncia de Jânio Quadros, da tentativa de golpe para impedir a posse do vice-presidente eleito e do ziguezagueante governo de João Goulart.


Não desistiu depois do golpe militar. No
 Correio da Manhã, na Tribuna da Imprensa e na revista Realidade, continuou manifestando seu inconformismo com o país da ordem unida.

O lançamento do semanário O Pasquim, em junho de 1969, lhe deu projeção nacional. A Senhor e a Realidade já o haviam tornado conhecido noutros estados, mas num circulo restrito de intelectuais e pessoas sofisticadas. O Pasquim conquistou o público jovem, atingindo tiragens mirabolantes para um veículo alternativo.

E o Francis era o guru da turma em todos os assuntos referentes à política nacional e internacional, bem como à visão de esquerda da cultura. Com seus conhecimentos vastíssimos, dominava qualquer discussão.

Leitor assíduo de um sem-número de publicações estrangeiras, tinha sempre algo novo a dizer sobre a Guerra do Vietnã, um dos grandes temas da época.

Furando toda a grande imprensa, Francis, n'O Pasquim, foi o primeiro a informar os leitores brasileiros sobre o massacre de My Lai, que fez crescer em muito o repúdio mundial à intervenção estadunidense.

Disponibilizava as informações que a mídia, por ideologia, covardia ou incompetência, sonegava do seu público.
Alfinetada do Instituto Liberal: Francis teria começado
no trotskismo e acabado no capitalismo selvagem.
 

Era também um crítico implacável da postura israelense de impor sua vontade pela força no Oriente Médio, o que lhe acarretava acusações rasteiras de que isto se deveria à sua ascendência alemã.


E, sendo um dos opositores mais contundentes do reacionarismo dos EUA, também não poupava a URSS, que colocava praticamente no mesmo plano, como grande potência que priorizava sempre seus interesses (e não os da revolução). 

Isto só fazia aumentar o seu prestígio aos olhos de uma geração que se decepcionara terrivelmente com o esmagamento da Primavera de Praga.

Cansado de ser preso pela ditadura, mudou em 1971 para Nova York, de onde mandava seus textos para o próprio Pasquim, a Tribuna da Imprensa, a revista Status e a Folha de S. Paulo (à qual chegou pelas mãos do diretor de redação Cláudio Abramo, também de formação trotskista).

Continuava, basicamente, um homem de esquerda, mas travava polêmicas azedas com quem ele considerava esquerdistas de salão, como a feminista Irede Cardoso. [Ela sofreu um dos maiores massacres intelectuais que já acompanhei.]
SOB OS HOLOFOTES GLOBAIS – Paulo Francis, como muitos outros intelectuais de sua geração, foi perdendo o pique à medida que a ditadura ia deixando de exibir suas garras. Seu talento sobreviveu à ditadura, mas definhou na praia da redemocratização.

A partir de seu posto de observação privilegiado, captou bem a tendência desestatizante do final do século passado.
A polêmica mais famosa de Francis: com Caetano Veloso.
E foi quando toda sua história de opositor ferrenho da estatização compulsória e autoritária que caracterizaram o stalinismo fê-lo cometer um desatino: ajudou entusiasticamente a impulsionar a desestatização de Thatcher e Reagan, com seus escritos em O Estado de S. Paulo e suas participações no jornalismo da Rede Globo, bem como no Manhattan Connection.

Se estava certo quanto à falta de pujança da economia soviética e o parasitismo das estatais brasileiras, não percebeu que o mundo engendrado pela globalização viria a ser uma versão mais desumanizada ainda do capitalismo selvagem.

O oásis que vislumbrou era ilusório. Todos aqueles avanços científicos e tecnológicos que estavam ocorrendo simultaneamente (informática, biotecnologia, engenharia genética, novos materiais e processos) pareciam mesmo augurar um futuro melhor para a humanidade... mas desembocaram, isto sim, numa forma mais avançada de dominação, como Marcuse previra. 

Ou seja, a ciência e a tecnologia acabaram ajudando a perpetuar a desigualdade social, as injustiças mais aberrantes e o embotamento do senso crítico.

Só que não era tão fácil adivinhar-se tal evolução naquele instante de enorme otimismo e euforia, assim como poucos em 1970 apostariam que o milagre brasileiro de Delfim e Médici fosse ter fôlego tão curto.

A intuição de Francis o traiu quando mais precisava dela, para evitar a nódoa final numa biografia impecável.
Ironia era com ele mesmo

Acabou como um daqueles medalhões midiáticos que antes ridicularizava, aclamado mais por ter se tornado celebridade do sistema do que pela real qualidade do seu trabalho – como suas incursões pela literatura, em que a racionalidade e a mordacidade excessivas deixam tudo com um jeitão artificial, de tramas concebidas mecanicamente para demonstrar teses, ridicularizando comportamentos e desafetos.


Morreu na hora certa, antes que o admirável mundo novo erguido sobre os escombros do muro de Berlim mostrasse suas feições monstruosas, sepultando, en passant, as análises e avaliações que Francis fazia em seus últimos escritos – os quais acabaram se revelando, mesmo, agônicos...

Ou, pelo contrário, talvez tenha perdido a chance de constatar que o fim do socialismo real não significava o fim da História, com o status quo se tornando tão insuportável que os homens estão sendo obrigados a buscar uma nova utopia.

Quem sabe até, em mais uma reviravolta surpreendente, não teria sido ele um dos arautos dessa nova utopia?

O certo é que, independentemente de, em seus estertores, haver-se extraviado num labirinto do destino, foi um intelectual articulado e consistente como dificilmente se vê nestes tristes trópicos, deixando o legado de uma atuação memorável nas décadas de 1960 e 1970.

Talvez o melhor epitáfio para Paulo Francis seja outra de suas frases célebres: Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros. (por  Celso Lungaretti)
Documentário de longa-metragem sobre Paulo Francis, realizado
por Nelson Hoineff em 2009, incluindo depoimentos dos
seus amigos, admiradores e detratores...

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

A ÉTICA É A ESTÉTICA DO FUTURO

Godard, Belmondo e Jean Seberg quando filmavam Acossado
Quem colocou esta frase em circulação foi o genial cineasta Jean-Luc Godard. 

Ao citá-la num de seus filmes dos anos 60, ele atribuiu a autoria a Lênin. Mas, dado aos chistes e ao non sense, Godard pode ter sido ele próprio o autor. 

Pouco importa. O fato é que sintetiza bem a visão de mundo da juventude mais idealista do século passado.

Em 1968 e anos seguintes, tivemos:
— a primavera de Paris e a de Praga; 
 o repúdio universal à intervenção dos EUA no Vietnã;
 a resistência às ditaduras em todos os quadrantes;
 movimentos os mais diversos em defesa da justiça social e dos direitos das minorias;
 bem como a revolução de costumes conhecida como contracultura

Ventos de mudança varreram o planeta. Foi um impulso generoso, solidário, irmanando os melhores seres humanos na busca de um futuro digno para a humanidade.

Houve, portanto, um tempo em que muitos acreditaram piamente na iminência de uma sociedade na qual os relacionamentos entre os seres humanos, de tão éticos e gratificantes, iriam se tornar a realização da estética no cotidiano. Não precisaríamos mais da arte para sonhar acordados com uma beleza inexistente na vida real. O paraíso seria agora.
"Ventos de mudança varreram o planeta"

Depois, claro, veio a reação. E as flores foram sendo, uma a uma, arrancadas, à medida que o capitalismo triunfante ia moldando o planeta à sua imagem e semelhança. 

Competitividade, ganância, desigualdade, parasitismo, guerras inúteis, agressões insensatas ao meio ambiente, consumismo exacerbado, condenação de vastos contingentes humanos ao desemprego crônico e à miséria aviltante, degradação do pensamento, da arte e dos padrões morais: o que veio nas décadas seguintes fez lembrar terra arrasada!

Carlos Heitor Cony, que busca (1) afoitamente outros privilégios (2) mas foi privilegiado com dotes de grande escritor, escreveu em 1974 um romance profético, Pilatos. Mostra como seria um mundo em que os homens não tivessem nenhuma motivação idealista, sentimento nobre ou limites morais. Todas as suas ações visariam apenas à satisfação de apetites e de necessidades primárias.

Era um inferno mais assustador que o descrito nas religiões. E tinha tudo a ver com aquele Brasil dos yuppies enriquecidos pelo milagre econômico e das massas anestesiadas pelo tricampeonato mundial de futebol. 

Os personagens desumanizados de Pilatos lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade.
"Nova direita que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira"
Há indivíduos que conspiram dia e noite para arrastar o Brasil a uma nova ditadura.

Há indivíduos capazes de escrever entusiasticamente em defesa de filmes que fazem apologia da truculência e da tortura.

Há indivíduos que se regozijam quando cidadãos exemplares são flagrados em situações equívocas, como se a grandeza do rabino Henry Sobel pudesse ser empanada pela cleptomania (3e a do padre Júlio Lancelotti, por distúrbios da sexualidade (4).

Demonstram ódio homicida pelos rivais ideológicos, a ponto de se aproveitarem de suas debilidades humanas – quem não as tem? – para instigarem seu linchamento moral. Como Átila e Gengis Khan, só vêem os adversários como obstáculos a serem suprimidos.

Seus textos são um deserto de ideais. Não contêm nenhum sonho, nenhuma esperança, nada que sinalize um mundo melhor. Apenas a defesa encarniçada do status quo capitalista e o combate encarniçado aos que, bem ou mal, propõem alternativas.

São contra governos, partidos e pessoas. Abominam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E não têm, sequer, a honestidade de seus congêneres da Espanha, adeptos de Franco, que assumiam abertamente os valores obscurantistas que professavam, ao urrarem Abaixo a inteligência, viva a morte! (5).
Por Celso Lungaretti
.
1. Este artigo é de outubro de 2007, ainda em vida do Cony, que morreria no início de 2018. Foi postado no meu blog anterior, Celso Lungaretti — O Rebate. O atual, Náufrago da Utopia, nasceu em agosto de 2008. 
.
2. Alusão ao fato de que Cony recebera tratamento vip da Comissão de Anistia, sendo passado na frente de pleiteantes que se inscreveram antes e recebendo uma pensão bem acima da que lhe deveria caber pelos próprios critérios daquele colegiado.
.
3. O rabino que oficiou a missa de Vladimir Herzog roubara cinco gravatas numa loja de Palm Beach e as viúvas da ditadura faziam um alarido infernal em função dessa besteirinha, pretexto para desqualificarem um grande personagem da resistência à desumanidade.
.
4. O padre, outro defensor célebre dos direitos humanos, denunciara um ex-interno da Febem que o extorquira durante três anos ameaçando acusá-lo de assédio sexual e este também foi um prato cheio para as baixarias da extrema-direita.
.
5. Por último: por que republicar, 12 anos depois, este texto? Principalmente para deixar registrado que a tal da nova direita nunca teve nada de nova: vinha sendo forjada no espaço virtual desde a década passada pelos remanescentes da ditadura militar e pelos pupilos que eles vinham formando. 

Cansei de enfrentá-los no Orkut e na blogosfera, com destaque para a polêmica de 11 anos atrás (vide aqui) em que botei pra correr o guru farsante que faz a cabeça do clã Bolsonaro. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

CONY NÃO FOI INSULTADO PELA VIDA, MAS PELAS ESCOLHAS QUE FEZ AO LONGO DELA.

Toque do editor
Um bom amigo me avisou que o artigo de Mário Sérgio Conti sobre Carlos Heitor Cony, publicado na Folha de S. Paulo de hoje (13/01), tem muitos pontos de contato com o meu de sábado passado (vide aqui). Fui checar e ele estava certo.

Como dificilmente terei motivo para postar algo sobre o Cony doravante, resolvi trazer para o blog o texto do Conti; apesar dos pesares, o finado travou o bom combate durante tempos difíceis, fazendo por merecer o espaço que, bem ou mal, estou lhe concedendo. Pena que não tenha mantido tal atitude pelo resto da vida.

Foi, também, uma grata surpresa para mim encontrar outro articulista capaz de falar de mortos célebres sem papas na língua. Geralmente sou apenas eu que desafino o coro dos contentes...

Por fim, comparar o escritor ao personagem principal do seu livro de 1967 foi uma boa sacada do Conti, tem realmente muito a ver. Mas preferi não ir por este caminho, pois me incomodou a forma caricata e até repulsiva com que Cony retratou seus guerrilheiros. 

Pareceu-me que ele estava muito à vontade na própria praia, dissecando a vidinha estagnada do seu alter ego, mas desconhecia completamente o universo da luta armada. 

UM HERÓI CÍNICO E HIPÓCRITA
Por Mário Sérgio Conti
O herói de Pessach: a travessia, o romance de Carlos Heitor Cony de 1967, é um narrador astuto. Reptiliano, Paulo Simões avisa logo de cara: "Os outros têm razão: sou um hipócrita ou um cínico, talvez as duas coisas juntas".

Na frase seguinte, porém, insinua que os outros se enganam: "Só a mim mesmo essa cara não tapeia. Também, olho-me pouco no espelho, o necessário para a barba: não gosto de estranhos". Superior à sociedade, Simões desdenha de sua aparência cínica e hipócrita.

O próprio narrador pode estar errado, contudo: só se olha no espelho para fazer a barba, e vê um estranho. Em ordem unida, suas frases rufam como tambores de parada. O ratimbum do ego onisciente soa unívoco e evidente, mas, visto de perto, é dúbio, furtivo, furta-cor.

Pessach, a Páscoa judaica, celebra a libertação do povo eleito do cativeiro e a travessia do Mar Morto. Como título, é uma metáfora forçada: Simões não é judeu e o povo inexiste. Sua travessia é pessoal. Ele supera a hipocrisia e o cinismo e se acha ao empunhar um fuzil contra a ditadura.

Foi uma travessia típica. Em 1967 saíram também Terra em Transe, de Glauber Rocha, que termina com Paulo Martins de submetralhadora em riste, e Quarup, de Antonio Callado, no qual padre Fernando adere à guerrilha. O filme é genial; o romance, um cálido documento de época.

Pessach se esbalda em sensacionalismo sádico. Um guerrilheiro, cujo pênis fora carbonizado na tortura com um maçarico, açoita um subordinado negro (abrutalhado e bêbado, portanto) e faz com que estupre uma virgem. Os personagens falam mais de bidês que de luta de classes.

O romance serve de alegoria para a intelectualidade –premida que estava entre a traição do PCB, a cartada suicida da luta armada, a inócua assinatura de manifestos, o desbunde ou a melancolia estéril. Simões nem cogita em aderir à nova ordem.

Pessach serve, ainda, para pensar os laços entre Cony e Simões. No lançamento do livro, sua primeira frase era: "Hoje faço quarenta anos". Não houve mudança na reedição, de 1975.

Em 1997, na terceira edição, ela foi alterada para: "Hoje, 14 de março de 1966, faço quarenta anos". Cony nasceu em 14 de março. Em 1966, fez quarenta anos. Ou seja, Simões é seu alter ego.

É equivocado identificar o autor, pessoa real, com o narrador do romance, personagem fictício. Em Pessach, tal identificação foi buscada ao longo dos anos. A mudança foi política. Nas primeiras edições, a ditadura dominava. Em 1997, Fernando Henrique cumpria o seu primeiro mandado presidencial.

A identificação Simões-Cony não faz com que Pessach deixe de ser ficção. Mas dá um sentido subjetivo à seguinte afirmação do narrador-autor: "Não quero morrer de velhice ou de moléstia... Antes que a vida me insulte, insultarei a vida: me engajo numa luta... Talvez consiga ser herói".
Dose de elefante: entrevistar isso aí.

Cony era um herói de verdade. Cronista alheio à política, a partir de abril de 1964 passou a vergastar com altivez a violência militar. Foi mais lúcido e corajoso que Simões. Fez isso sozinho e pagou caro: demissão, afastamento do Brasil, uma dúzia de processos.

Cerca de dois anos depois de Pessach, desistiu de ser herói. Virou o alter ego de Adolpho Bloch, que o contratou para exaltar o regime. E, meses após relançar o romance, não teve pejo em entrevistar na Manchete Sérgio Fleury, ponta de lança dos torturadores. Era chamado de Conyvente.

Com Lula no Planalto, o herói fantasmagórico abocanhou uma bolsa-ditadura. Cony pediu indenização e quis uma pensão mensal. Em valores de hoje, a indenização foi de R$ 2,8 milhões; a pensão, de R$ 37,6 mil.

O herói morreu de velhice e moléstia. Não foi insultado pela vida, mas pelas escolhas que fez ao longo dela. Seus artigos de 1964 são um cálido documento de época. Pessach, uma ruína sobre hipocrisia e cinismo.

sábado, 6 de janeiro de 2018

CARLOS HEITOR CONY (1926-2018): GRANDE ESCRITOR! MAS NÃO TINHA A TÊMPERA DOS IMPRESCINDÍVEIS E ABDICOU DOS IDEAIS.

Toque do editor
Carlos Heitor Cony morreu no final da noite desta 6ª feira (5), aos 91 nos, em decorrência da falência de múltiplos órgãos.

Se eu seguisse a norma geralmente adotada nos círculos dos intelectuais e das celebridades, resumida numa conhecida máxima latina de Quilão (De mortuis nil nisi bene, algo como Não se deve falar dos mortos senão benevolamente), esqueceria que cheguei a admirar muito a obra de Cony mas depois me decepcionei na mesma medida com certas posturas por ele adotadas a partir da década de 1970.

Pensei, pensei e não consegui me inspirar para escrever algo mais benevolente, confesso. Ele, para mim, já não passava ultimamente de mais um afeto que se encerrou; e, como tal, uma página virada.
Este Cony aqui...
Então, decidi apenas reproduzir o artigo no qual fiz em 2009 um balanço nada benevolente, mas sincero, da trajetória do Cony: O ato: Cony sepultou os ideais. O fato: agora apóia até censura! 

Na verdade, tal texto já equivaleu a uma espécie de necrológio precoce. Nada de muito importante sucedeu, desde ele, que me fizesse reconsiderar os juízos que emiti então. [E até a fonte de seus escritos mais ambiciosos secou, pois, daí em diante, Cony se limitou a escrever as crônicas publicadas na imprensa, algumas inspiradas, a maioria repetitiva.]

Infelizmente, a chama que o inflamou um dia foi consumida pelos desencantos que se sucedem na vida dos brasileiros mais sensíveis e idealistas. Foi guerreiro um dia, mas morreu como um idoso melancólico, disfarçando o amargor com o brilho intelectual.

Foi, claro, um dos melhores escritores brasileiros de todos os tempos. E, como ser humano, merece respeito principalmente pelos anos que viveu perigosamente, assumindo os riscos de navegar contra a corrente. 

Constatou, no entendo, que não possuía a têmpera dos imprescindíveis a que aludiu Brecht. Então, conformou-se em ser apenas outro privilegiado desfrutando seus privilégios, a ponto de envergar sem pudor o fardão da torre de marfim, com a atenuante de haver conquistado sua posição graças a real talento e não por herança ou velhacarias.
...decerto se envergonharia deste aqui...

O ATO: CONY SEPULTOU OS IDEAIS. O FATO: AGORA APÓIA ATÉ CENSURA!
Pete Townshend, o guitarrista e compositor das músicas do The Who, produziu em 1965 uma canção-manifesto, My Generation, que trazia um verso fortíssimo: "Prefiro morrer antes de envelhecer".

Só que ele não morreu, envelheceu. E se tornou o oposto dos jovens rebeldes de outrora, capaz de proferir verdadeiras catilinárias contra os downloads gratuitos do MP3 e até de rasgar seda para o então presidente George W. Bush: "Bush se esforça para dar uma vida digna ao povo dos Estados Unidos, e não tenho o direito de dizer como ele deve dirigir o país".

Daí o sarcástico cala-boca que levou de Kurt Cobain, do Nirvana: "Prefiro morrer antes de virar Pete Townshend".
...e respectiva turma.
Como tenho duas filha que amo demais e quero ver crescerem, não irei ao ponto de afirmar que prefiro morrer antes de virar Carlos Heitor Cony. Não se brinca com essas coisas.

Mas, a minha decepção com Cony deve equivaler à de Cobain com Townshend.

Antes mesmo de aderir ao marxismo, eu já o admirava. Tive uma fase existencialista, lá pelos 14 anos, e o Cony era o escritor que, no Brasil, seguia os passos de meus ídolos Jean-Paul Sartre e Albert Camus.

Li muita coisa da sua fase despolitizada e gostei, principalmente, de Antes, o Verão e Informação ao Crucificado.

E ele mudou de postura a partir do golpe de 1964.

Até então sua matéria-prima era a impossibilidade de realização plena dos indivíduos de classe média na sociedade burguesa, focada no plano pessoal.

A partir daí ele tomou lugar na trincheira dos que lutavam diretamente contra a burguesia e seus cães de guarda, os militares.

Mas, não foi uma opção tão ideológica assim, pelo menos de acordo com o que ele mesmo afirmou.
Antonio Callado: outra decepção!

Disse que, como benjamim de uma extraordinária redação do Correio da Manhã (RJ), na qual pontificavam grandes jornalistas de esquerda como Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Antonio Callado, Jânio de Freitas, Sérgio Augusto, Márcio Moreira Alves e Hermano Alves, sentia-se desobrigado de abordar temas políticos, pois havia quem o fizesse melhor do que ele.

Com a quartelada, entretanto, essas figurinhas carimbadas não puderam dar sequência ao seu trabalho costumeiro, pois se tornaram alvos prioritários de prisões, intimidações e todo tipo de cerceamento.

Cony teria entrado nesse vácuo, substituindo-as na missão de denunciar a nudez do rei. Como tinha prestígio literário (seu livro de estréia, O Ventre, foi sucesso de crítica e de vendas) e reputação de apolítico, os milicos acabaram engolindo seus arroubos de indignação. Devem ter pensado que a fase seria passageira.
OPÇÃO PELA LUTA ARMADA

Mas Cony perseverou. Depois desses artigos combativos que escreveu no pós-golpe e reuniu no livro O Ato e o Fato, faria a opção pela luta armada.
Cony-vente com Adolpho Bloch na Manchete

Cheguei a vê-lo discursar numa manifestação estudantil aqui em São Paulo, em meados de 1968, quando afirmou que a vitória contra o arbítrio não seria conquistada nas cidades. Apontava-nos, implicitamente, o caminho da guerrilha rural.

Esta guinada foi expressa em seu livro de 1967, Pessach, a Travessia. O personagem principal é uma óbvia projeção dele mesmo: um escritor de meia idade, em crise existencial, que envolve-se casualmente com um grupo guerrilheiro.

O que ele quer mesmo é sair dessa fria. Mas, no final, mortos os combatentes, ele tem a chance de transpor a fronteira e pôr-se a salvo. Prefere empunhar a arma de um deles e permanecer no Brasil para dar sequência à sua luta.

A travessia pessoal do Cony, infelizmente, não foi tão altaneira. Algumas prisões (sem maus tratos, claro, pois era vip) e o desemprego quebraram sua espinha.

Ainda fez um último grande romance, o melhor de sua carreira: Pilatos (escrito em 1972 e publicado dois anos depois). Mostra, com jeitão de pesadelo, um Brasil desumanizado, em que as pessoas são movidas apenas por apetites e ambições, sem nenhum sentimento nobre.

Era, claro, o Brasil do milagre econômico.

Pilatos sinalizou o fim do bom combate de Cony
CURVANDO-SE À EVIDÊNCIA DOS FATOS

E Cony deixou evidenciados seus sentimentos ao derivar o título destes versos do Samba Erudito, de Paulo Vanzolini: "Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos".

Ou seja, se é nessa pocilga que vocês optaram por viver, voltando as costas a quem combatia por um Brasil melhor, então chafurdem à vontade. Não tenho nada a ver com isso.

O desencanto com o País e as mágoas por não encontrar companheiros de esquerda que o socorressem quando ficou na rua da amargura tiveram, como resultado, uma nova travessia, desta vez negativa, de Cony. Tornou-se, ele próprio, um homem sem ideais.

Pediu emprego a Adolfo Bloch que, talvez em nome da ascendência judaica comum, o acolheu muito bem em sua editora.
De vez em quando, uma frase contundente. Fogo fátuo?
Mas, o diabo sempre exige algo de quem lhe vende a alma: além de cuidar de uma revista, Cony era obrigado a redigir, como ghost writer, os editoriais arquirreacionários de Bloch, fazendo apologia da ditadura. Seus colegas de redação, pelas costas, referiam-se a ele como Cony-vente.

No ano 2000 ingressou na Academia Brasileira de Letras, que decerto lhe provocaria náuseas em 1958, quando iniciou a carreira.

Em 2004, embora seja profissional muito bem pago como jornalista e escritor, fez questão de obter reparação de ex-preso político.

Pior: foi duplamente favorecido, passando à frente de quem estava mofando há anos na fila e recebendo uma pensão mensal (e respectiva indenização retroativa) extremamente exagerada, segundo os próprios critérios do programa. Tratamento vip, de novo!

Ele foi grande um dia, mas teve final melancólico
"CERTOS SETORES
DA IMPRENSA"

E chegamos aos dias de hoje, quando não só defende fervorosamente seu colega de Academia, José Sarney, do clamor público pela justa punição dos delitos em que foi flagrado, como chega a apoiar a censura de jornais!

Isto mesmo, está na sua coluna desta 5ª feira [20/08/2009] na Folha de S. Paulo:
"Acho exagerado o fervor de certos setores da imprensa em reclamar de processos ou de sentenças da Justiça, considerando violação de uma liberdade a qual todos têm direito, desde que não fira direito de terceiros.

Afinal, a imprensa não é uma vestal inatacável, acima de qualquer valor da sociedade. Ela está sujeita ao Estado de Direito, que dá liberdade a qualquer cidadão, jornalista ou não. O fato de um juiz aceitar um processo não é uma violação".
Ou seja, um juiz ligado a José Sarney proíbe um jornal de noticiar um inquérito envolvendo falcatruas da família Sarney e a única coisa que Cony encontrou para criticar foi... a solidariedade que O Estado de S. Paulo está recebendo de "certos setores da imprensa"!

Pensando bem, eu não preciso mesmo dizer que preferiria morrer antes de virar Carlos Heitor Cony. Por um motivo simples: nem que viva 100 anos decairei tanto.
Related Posts with Thumbnails