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quarta-feira, 7 de maio de 2025

A HUMANIDADE VAI EXPIRAR COM ESTRONDO OU COM UM SUSPIRO?

Q
uem acompanha minhas divagações leigas sobre  os riscos de extermínio da espécie humana a partir da escalada do aquecimento global sabe que, há muito tempo, indago-me sobre qual o momento em que as maiores catástrofes se tornarão irreversíveis e nem mesmo a adoção das medidas mais drásticas conseguirão evitar que elas continuem ocorrendo. 

Ou seja, sobre quando atingiremos o ponto de não-retorno.

Os scholars provavelmente desprezam tais elucubrações porque, afinal, sou um sem-PhD, portanto, aos olhos deles, um ninguém. Nem sequer levam em consideração o fato de que meus cenários futuros na política têm um índice de acertos muito acima do que se poderia qualificar de mera coincidência.  

Mas, como não posso nascer de novo e aí sim acumular as certificações acadêmicas que me garantissem um mínimo de respeito para as minhas preocupações com o futuro de meus entes queridos (e, portanto, com o futuro da humanidade), continuarei invadindo a praia que fazem tamanha questão de manterem como propriedade exclusiva deles.

Um exemplo de que não sou nenhum alucinando falando crassas asneiras, como os bolsonaristas fazem o tempo todo, está no último artigo do Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas brasileiros, intitulado 
O aquecimento global acima de 1,5°C é irreversível? 

Alguns trechos bastarão para os leitores perceberem que estou totalmente certo ao alertar que, como há muito as previsões científicas sobre o aumento do aquecimento do planeta são ano a ano ultrapassadas pelos acontecimentos, temos mesmo de nos inquietar sobre quanto tempo nos resta para determos a marcha para o fim.

O apocalypse now pode estar muito mais próximo do que imaginamos. E não o do filme do Coppola, mas sim o real. (Celso Lungaretti)
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..
"...a influência humana no aquecimento global é inequívoca. O aquecimento do planeta não é questionável, é um consenso.
O Acordo de Paris de 2015 estabeleceu metas para não deixar de modo algum o aumento da temperatura global ultrapassar 2°C até 2100 e, para tanto, seria essencial reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em 70% até 2050 e zerar as emissões líquidas até 2100.

A COP21 também estabeleceu o limite de 1,5°C como meta a fim de minimizar maiores riscos e impactos do aquecimento global.

Em 2021, a COP26, em Glasgow, na Escócia, lançou metas muito mais ambiciosas. A ciência indicava que para não ultrapassarmos 1,5°C teríamos de reduzir as emissões em 43% em relação àquelas de 2019 e zerar as emissões líquidas até 2050. Entretanto, parece que algo bem diferente vem acontecendo.

O ano de 2024 foi o primeiro a violar o Acordo de Paris e as metas da COP26 ao superar o limite de 1,5°C, um limiar significativo em termos de impactos sociais, ambientais e econômicos. 

Além dos recordes nas temperaturas nos continentes, tanto a temperatura global da superfície do mar (SST) quanto o conteúdo de calor oceânico (OHC) até 2.000 metros atingiram máximas sem precedentes no registro histórico. Os valores recordes de SST e OHC em 2024 indicam tendências inabaláveis de aquecimento global...

...2 meses consecutivos acima de um limite climático indicam que o aquecimento global nesse patamar vai continuar em longo prazo. Não se pode afirmar que ficaremos acima de 1,5°C permanentemente, mas os pesquisadores mostraram uma tendência clara...

...uma vez ultrapassado determinado patamar de aquecimento, não há retorno a níveis inferiores no intervalo de 20 anos. As simulações mostram que isso também vale para o limite de 1,5°C...

...mesmo que a redução das emissões comece agora, é provável que a Terra continue superando o limite de 1,5°C. Sem uma mitigação climática muito rigorosa, o primeiro ano acima de 1,5°C ocorre dentro do período crítico de 20 anos, com consequências irreversíveis para o sistema terrestre em áreas-chave como biodiversidade, nível do mar e estoques de carbono..." (Carlos Nobre)

terça-feira, 1 de março de 2022

ELE FOI UM IMPRESCINDÍVEL NA RESISTÊNCIA DA IMPRENSA À DITADURA

O 
jornal carioca Correio da Manhã foi o primeiro veículo da grande imprensa a posicionar-se firmemente contra a quartelada de 1964.

Reunia uma plêiade de grandes jornalistas de esquerda, como Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Hermano Alves. Jânio de Freitas, Márcio Moreira Alves, Paulo Francis e Sérgio Augusto. 

Muitas das contundentes crônicas políticas que Cony escreveu logo após o golpe foram lançadas em livro (O ato e o fato) ainda naquele ano.

E, assim como Paulo Francis viria a ser o guru d'O Pasquim, quem cumpria tal papel no Correio da Manhã era Otto Maria Carpeaux (1900-1978).

Daí o interesse com que devorei o tributo a ele prestado por André Rosa na Folha de S. Paulo desta 3ª feira (1º de março), com o título de Carpeaux, 80. 

André Rosa, para quem não se lembra, foi responsável por um grande momentos deste blog, ao liberar para publicarmos aqui a primeira tradução brasileira, de sua autoria, do monumental poema de Ievguêni Ievtuchenko sobre o massacre de Bábi Yar, um dos crimes mais hediondos da era stalinista (vide aqui). 

Como seu texto sobre o Carpeaux excede em muito a extensão habitual dos artigos deste blog e tem um enfoque mais apropriado para cadernos culturais, selecionei os trechos que considerei de maior interesse para o público do
Náufrago.  

Os interessados em lê-lo na íntegra, contudo, o encontrarão disponibilizado aqui. (CL)
Q
uando chegou ao Brasil, em setembro de 1939, após uma longa fuga da fúria nazista, Carpeaux ainda não sabia português. 

O seu único contato com a literatura brasileira até então havia se dado no momento da vinda, no navio, por meio de uma tradução francesa da crônica O Velho Senado, de Machado de Assis, emprestada da biblioteca de bordo. 

A recepção fraternal ao amigo que deixava para trás uma Europa em ruínas foi, sem dúvida, um fator determinante para o florescimento de uma obra vigorosa e criativa –e seguramente evitou um destino trágico como o de seu compatriota Stefan Zweig.

Com o golpe militar de 1964, Carpeaux resolveu deixar a literatura para se dedicar à luta política. Tornou-se um opositor veemente da ditadura. Passou a escrever textos políticos para jornais como o Folha da Semana, ligado ao Partido Comunista Brasileiro, e revistas como a Encontros com a Civilização Brasileira, de Ênio Silveira, à época a mais importante publicação da esquerda.

Os seus prefácios já não figuravam mais entre livros de literatura, mas sim em obras engajadas como Argélia, o Caminho da Independência (Civilização Brasileira, 1966) e O Poder Jovem (Civilização Brasileira, 1966), de Arthur José Poerner. 
O Correio dedicou 10 páginas à 6ª feira sangrenta 
de 68; depois se soube que a ditadura matara 28 pessoas!
No entanto, para não dizer que a literatura ficou totalmente de lado durante os anos de enfrentamento, Carpeaux recorreu a Os Sertões, de Euclides da Cunha, a fim de fazer uma defesa da guerrilha do Caparaó.

Intitulado A Lição de Canudos, sempre atual, o texto de 1966 parte da resistência dos sertanejos para exaltar a insurreição armada. 

O texto, que circulou clandestinamente e sem assinatura, só foi descoberto na década de 1990, entre as coisas de Carpeaux...

Vale notar que, antes do Brasil, o caminho de Carpeaux já havia sido longo. Na Áustria, gozou da confiança de chefes de Estado e dirigiu algumas das mais importantes publicações católicas da Europa. Conheceu pessoalmente Franz Kafka e foi aluno de Benedetto Croce. 

Só conseguiu chegar ao Brasil, acompanhado de sua esposa Hélene Silberherz, por conta de uma intervenção do papa Pio 12 junto a Getúlio Vargas.

Aos poucos, como previu Antônio Houaiss, a fisionomia moral e intelectual de Otto Maria Carpeaux será reconstituída mediante um exame atento de sua obra. É importante que as novas gerações de leitores e estudiosos estejam atentas ao seu legado, que, entre nós, teve início há 80 anos e ainda não se esgotou. 
(André Rosa é jornalista, tradutor e mestrando
em literatura comparada pelo PPGCL‐UFRJ/Capes)

sexta-feira, 6 de março de 2020

NOSSA MISSÃO, COMO REVOLUCIONÁRIOS, É DE CONDUZIRMOS A HUMANIDADE A UM ESTÁGIO SUPERIOR DE CIVILIZAÇÃO

Ao surgirem, tanto o marxismo quanto o anarquismo prometiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A proposta de ambos era a de um melhor aproveitamento do potencial produtivo existente, direcionando-o para a promoção da felicidade coletiva, ao invés de desperdiçá-lo em desigualdade e parasitismo.

A hipótese anarquista nunca foi testada: não houve país em que cidadãos livres organizassem a economia e a sociedade sem a tutela do Estado.

A hipótese marxista não foi testada da forma como seus enunciadores previam: em países cujas forças produtivas estivessem plenamente desenvolvidas.

Nas duas nações que realmente contam, a revolução precisou cumprir uma etapa anterior, qual seja a de acumulação primitiva do capital, já que se tratava de países ainda desprovidos da infra-estrutura básica para uma economia moderna.

Acabaram tendo de exigir esforços extremos dos trabalhadores; e, como eles não se dispunham livremente a isto, a URSS e a China, cedendo ao imperativo da sobrevivência, coagiram-nos a darem na marra essa quota de sacrifício.

Ou seja, tornaram-se tiranias. Uma mais brutal e assassina, a stalinista. A outra mais messiânica e fanática, a maoísta.

Sobreviveram exatamente até cumprirem a função por elas assumida, de trazer países atrasados até o século 20. A partir daí, entretanto, passaram a emperrar as forças produtivas, ao invés de as deslanchar.

O socialismo real da União Soviética e satélites caiu de podre na década de 1980, com as nações voltando ao capitalismo.

O maoísmo tentou ainda resistir aos ventos de mudança com a revolução cultural, em vão. Depois de uma luta travada na cúpula, sobreveio o pior dos mundos possíveis, um amálgama de capitalismo de Estado na economia e ditadura do partido único na política.

De 1989 para cá não surgiu uma proposta revolucionária alternativa, capaz de vingar nos países economicamente mais desenvolvidos – aqueles que, segundo Marx, traçam o caminho que depois é seguido por todos os outros.

Inexiste hoje uma estratégia que contemple a concretização simultânea das três bandeiras principais do marxismo e do anarquismo: a promoção da justiça social, o estabelecimento da liberdade plena e o incremento da civilização.

Unir essas três pontas soltas, na teoria e na prática, é nossa principal tarefa no século 21.

FLERTANDO COM O APOCALIPSE — Até lá, devemos esforçar-nos para, pelo menos, não nos tornarmos agentes da tirania e da barbárie.

O capitalismo globalizado é tão decadente, putrefato e destrutivo quanto a escravidão nos estertores do Império Romano. Já não oferece valor positivo nenhum à sociedade, só os negativos.

É mais um motivo para não nos comportarmos como a imagem invertida de nossos inimigos.

Se a indústria cultural deles se tornou totalmente parcial e tendenciosa, não é justificativa para substituirmos a reflexão pela propaganda em nossos meios de comunicação, endeusando líderes, exagerando acertos e minimizando/escondendo erros.

A imprensa burguesa se desacredita e desmoraliza a olhos vistos. Temos de ocupar esse espaço vazio, mostrando-nos capazes de cumprir melhor as três funções do jornalismo: informar, formar e opinar.

E não deixarmos que a função opinativa impregne tudo e determine o conteúdo das outras duas. Se eles não dispõem mais de credibilidade, só teremos a ganhar zelando religiosamente pela nossa.

E não é qualquer forma de luta que nos serve, como serve para eles.

Os EUA não hesitaram em fazer do povo japonês uma cobaia dos efeitos de petardos atômicos, detonando-os para, principalmente, servirem como efeito-demonstração: queriam intimidar Stalin. Para forçar a rendição japonesa, hoje está mais do que provado, os holocaustos de Hiroshima e Nagasaki não eram necessários.

Se houve uma verdadeira lição desses episódios terríveis, é a de que nunca mais as armas atômicas devem ser utilizadas, contra ninguém, absolutamente ninguém!

Então, por piores que sejam as atrocidades cometidas por Israel, ainda assim não há hipótese em que verdadeiros revolucionários possam defender projetos nucleares, mesmo estando direcionados contra o estado judeu.

Até porque, como será impossível evitar a retaliação, o que está em jogo é a destruição simultânea de dois países e seus povos, afora os efeitos devastadores sobre as nações vizinhas e seus povos.

Quanto ao equilíbrio do terror – a tese de que, se nações inimigas possuírem armas nucleares, nenhuma as ousará disparar –, foi exatamente a que quase levou à destruição da humanidade em 1962.

Pois, por nela acreditarem, os cientistas responsáveis pela bomba estadunidense vazaram o know-how para os soviéticos.

Como consequência, na crise dos mísseis cubanos estivemos a um passo de uma guerra atômica que, provavelmente, teria extinto a espécie humana. Fomos buscar a salvação na bacia das almas.

De 1962 para cá se passou tempo suficiente para esquecermos aquele pesadelo e já admitirmos flertar de novo com o apocalipse?!

Ao invés do equilíbrio do terror, a opção mais sensata é limitarmos o ingresso de nações instáveis no clube atômico.

Mesmo porque, quanto mais países dispuserem de armas nucleares, maiores as chances de que sejam utilizadas.

Pensadores como Norman O. Brown veem o capitalismo, em última análise, como um instrumento cego da destruição da humanidade. Isto se torna bem plausível se considerarmos, p. ex., as alterações climáticas e a devastação de recursos naturais essenciais à nossa sobrevivência.

Para nós, os empenhados na construção de um mundo melhor, o desafio é evitarmos que o enterro do capitalismo seja também o da espécie humana. 
Toque do editor — este artigo é de setembro de 2009, quando uma esquerda que acreditava estar no poder esquecia o que seus grandes pensadores outrora formulara e aderia selvagemente a uma visão geopolítica, apoiando tiranetes feudais dos países árabes e um grosseiro militarismo de esquerda sul-americano, na linha do contra Israel e os EUA vale tudo.

Não só foi (fui) ignorado, como quase tudo contra o qual o artigo alertou se demonstrou correto. Daí estar a reeditá-lo hoje, quando, mais do que nunca, a esquerda precisa projetar a imagem de defensora da civilização contra a pior escalada de barbárie a fustigar a humanidade desde a queda do Império Romano.

Por Celso Lungaretti
Nunca foi tão necessário resgatarmos nossos princípios, passando a corporificar as esperanças de salvação da espécie humana e de construção de uma sociedade que priorize o bem comum, o desenvolvimento pleno das potencialidades humanas e, enfim, a felicidade de todos, sem a qual ninguém é verdadeiramente feliz.  

sábado, 13 de julho de 2019

MISÉRIA, DESALENTO E IGNORÂNCIA SÃO O CALDO DE CULTURA DO CHARLATANISMO RELIGIOSO EM QUE BOLSONARO SURFA

luís francisco carvalho filho
SUPERSTIÇÃO, FANATISMO, MILAGRE
A religiosidade exuberante do Brasil sempre despertou interesse de artistas, intelectuais e políticos. O pagador de promessas (Anselmo Duarte, 1962) e Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964) são dois dos filmes brasileiros de maior prestígio internacional.

A Flip celebra Euclides da Cunha, escritor de Os sertões (1902), obra magnífica sobre o extermínio de Canudos. Além de Antônio Conselheiro, morto em 1897, outros beatos desgarrados reinaram em diferentes sertões, reprimidos com mais ou menos rigor, conforme a dimensão de seus desatinos.

Ao longo do tempo, sebastianismo, charlatanismo e imoralidade, assim como desvios de conduta ou de dinheiro, mobilizam a atenção de autoridades. João de Deus, padres, pastores e pais de santo são hoje detidos por abuso sexual.
Há uma guerra informal pela conquista de fieis e poder. O desfecho depende da capacidade de comunicação espiritual dos pregadores e de manejo dos mecanismos mundanos da isenção tributária, do dízimo e do próprio sincretismo.

A maioria da população brasileira é cristã (87%, segundo o Censo de 2010) e o catolicismo está em franco declínio. Segundo o IBGE, em 1970, 92% da população era católica: em 1991, 83%; em 2000, 73,6%; em 2010, 64,6%. No Rio de Janeiro, o percentual atingiu 45,8%. Evangélicos que, em 1940, representavam 2,6% da população, alcançaram 22,2% em 2010.

Pesquisa do Datafolha indicava 50% de católicos em 2016, anunciando que 3 em cada 10 brasileiros com mais de 16 anos eram evangélicos.

Em 1991, o papa João Paulo 2º, que depois viraria santo, alertava: O Brasil precisa de santos. Pois o Brasil não tinha nenhum e agora tem 36 santos (28 deles anônimos, é verdade, mártires de massacre calvinista holandês no século 17, em Pernambuco), além de irmã Dulce, que será canonizada em outubro.

Política e religião se entrelaçam. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é parte da narrativa do golpe de 1964. 

Igualmente católicas, na década de 1980, as senhoras de Santana combatiam indecência e sexo na TV. A inspiração messiânica da Lava Jato interfere no tabuleiro eleitoral e populista.

O Vaticano pede perdão pelos pecados cometidos e fabrica santos em série. A Igreja Universal esteriliza pastores para gerenciar melhor o negócio. Brasília é capital mística do país.

Jair Messias Bolsonaro reclama dos males da ocupação ideológica do PT, mas tenta impor uma pauta moralmente primitiva e deletéria. De raiz familiar católica, o presidente circula pelos templos como venerável e não como servo.
O apoio evangélico ao escolhido tem preço e retribuição terrena: afrouxamento da vigilância fiscal. No Palácio do Planalto, onde se flerta com a ideia da terra plana, a nova era é comemorada: Deus vult (como Deus quer) é tudo nosso, pensam eles.

Segundo levantamento do Conselho Nacional de Justiça, o juiz brasileiro é homem, branco, casado, católico e pai. Não é só a vaga do Supremo: como informa o jornalista Frederico Vasconcelos, Bolsonaro nomeará, até o final do mandato, pelos menos 90 juízes em 35 tribunais. Terrivelmente.

Miséria, desalento e ignorância fazem florescer superstição, fanatismo, milagres, demônios e censura.

É de Otavio Frias Filho (1957-2018) o pensamento instigante: Só quando a fé diminui a tolerância aumenta. Ceticismo faz bem. (por Luís Francisco Carvalho Filho)

domingo, 19 de agosto de 2018

AVANÇADO NA PRAGMÁTICA DE CLASSE E ATRASADO NA VISÃO DE MUNDO, DACIOLO É UM PERSONAGEM CONTRADITÓRIO

david de souza coelho
DACIOLO CONSELHEIRO:
MESSIANISMO NA ERA
NEOLIBERAL?!
Óbvio, o candidato Benevenuto Daciolo Fonseca dos Santos não passa de um azarão no páreo presidencial. Porém, é inegável ser o cabo o autêntico outsider desta eleição, despertando, enquanto tal, curiosidade e simpatia. 

Uma coisa notável na figura de Daciolo é a junção entre fundamentalismo religioso e crítica social. 

Não podemos esquecer a história do personagem: cabo dos bombeiros do Rio de Janeiro, liderou uma combativa greve da categoria durante o governo Cabral; seu engajamento social chamou a atenção do Psol, que o filiou e transformou em deputado federal. Após expressões alucinadas de fanatismo religioso (queria colocar a frase todo poder provém de Deus na Constituição) foi expulso do partido. 

Entre um e outro discurso delirante, é conhecido por andar sempre com sua bíblia na mão, fazer profecias, denunciar iluminatis e maçons. No entanto, também lutou por melhorias para sua categoria, votou contra as reformas de Temer e não se cansa de atacar a bandidagem instalada no Congresso. 

Parece uma figura contraditória, avançado na pragmática de classe, atrasado na visão de mundo. No entanto, de modo algum Daciolo é um personagem bizarro. Ele é exótico apenas para quem desconhece as entranhas do próprio país, mesmo que tais entranhas estejam logo ali na zona norte do Rio de Janeiro. 

Na verdade, Daciolo representa um tipo social muito comum nas periferias das grandes metrópoles brasileiras. Muito mais comum, inclusive, que o fundamentalista ultraliberal. Este, o qual Bolsonaro tenta encarnar, está até presente na classe média, mas entre os trabalhadores periféricos ele é uma raridade. 
O tipo de Daciolo é o sujeito possuidor de aguda criticidade social – embora intuitiva, de maneira geral –, mas uma visão de mundo profundamente retrograda e alucinada. Claro, nem todos possuem a mesma capacidade de argumentação de Daciolo, mas é por isso que ele é a encarnação do tipo, não seu modelo três por quatro. 

Para mais ou para menos, o cabo representa uma figura bem disseminada em nossas periferias: o trabalhador pentecostal. A bíblia é seu guia existencial, formatando sua visão de mundo. É um ordeiro por excelência, abominando revoluções ou subversões da hierarquia. No entanto, possui um forte senso pragmático quando a questão é econômica. 

Na história brasileira, só consigo pensar numa figura semelhante em sua mistura de fanatismo religioso e aguda crítica social: Antônio Conselheiro. 

É interessante, inclusive, ver a similaridade entre a reação das elites modernistas do fim do século 19 à sua pessoa e a reação atual dos bem pensantes ao fenômeno Daciolo. Em ambos os casos, as figuras são vistas como exóticas, grotescas ou risíveis, mostrando que o Brasil profundo ainda nos permanece ignorado, mesmo tanto tempo depois de Euclides da Cunha. 

O líder de Canudos era o resultado da decomposição social do antigo sistema latifundiário do nordeste. Com a abolição da escravidão e o fim do império, o centro econômico e político do país se transfere para o sul/sudeste, deixando hordas de camponeses vagando sem rumo pelo sertão, muitos morrendo de fome. Só eram lembrados pelo recém instalado poder da república na hora de pagar impostos. No resto do tempo, eram completamente invisíveis. 

Conselheiro tornou-se o líder dos camponeses abandonados. No regime social falido do pós-ciclo açucareiro, amalgamava visões de mundo de um catolicismo ultraconservador com um agudo ataque às novas elites da república, as quais criavam um país no sul esquecendo-se dos miseráveis do norte. 

Não tenho pretensão aqui de insinuar que Daciolo é um novo Antônio Conselheiro, ou outra coisa do tipo. Pretendo apenas mostrar a semelhança entre duas figuras representativas, na história brasileira, de uma junção entre crítica social e profundo fanatismo religioso. 

Na verdade, o comum entre ambos é terem sido produzidos em épocas de decomposição social. Conselheiro, na decomposição do antigo sistema latifundiário do nordeste. Daciolo, na decomposição do neoliberalismo. 

Não é segredo o pentecostalismo ter se multiplicado fortemente no período neoliberal. As periferias brasileiras foram tomadas por ele. 

Impossível esmiuçar a fundo aqui as bases deste fenômeno, mas dá para resumir dizendo que o fundamento do avanço pentecostal é a cisão entre esfera do consumo e esfera da produção, operada pelo neoliberalismo. Em essência, o consumo ilimitado é para poucos, entrando as igrejas para acolher os que ficaram para trás.  
Um tipo igual ao Daciolo é justamente a resposta acabada à decomposição social operada pelo neoliberalismo.  

Ele assume a crítica religiosa, messiânica e puritana ao estilo de vida hedonista instaurado no mundo contemporâneo – do qual pessoas como Daciolo não participam ou participam apenas de modo limitado –, enquanto, ao mesmo tempo, respondem, na prática, aos ataques perpetrados contra ele na esfera econômica pelo neoliberalismo. 

Por isso, não há contradição alguma em Daciolo dizer que “o Senhor é o rei de toda glória” e depois atacar, de forma realista, os interesses da burguesia rentista. A lógica é a mesma, pois, na visão deste grupo social, estar alijado do consumo ilimitado e naufragar na precariedade econômica são duas faces de uma mesma moeda. 

Antônio Conselheiro podia dizer tranquilamente que a república era o cão, a besta, e depois criticar a concentração de terras. Seu público entendia perfeitamente, pois também sentia o abandono e a perseguição do poder da república. Igualmente, Daciolo pode falar sobre Jesus ser a salvação do Brasil e depois criticar as reformas de Temer. Seu público também o entende. 

De resto, muito se elucubra sobre Daciolo roubar votos de Bolsonaro. Embora o público dos dois não seja exatamente o mesmo, é possível que Daciolo impeça o capitão de crescer. 

Bolsonaro, inclusive, deu um enorme tiro no pé ao aderir ao discurso ultraliberal do Instituto Millenium. Acreditou que cairia nas graças do grande capital, mas apenas perdeu a chance de alargar seu eleitorado. 

Houvesse adotado um discurso econômico a la Daciolo – atacando a precarização dos trabalhadores – teria crescido em apoio entre a classe trabalhadora. Para nossa sorte, o ex-capitão é um perfeito mentecapto.
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(por David Emanuel de Souza Coelho)
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