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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

OBRA-PRIMA DO CINEASTA ATOM EGOYAN É UM INVENTÁRIO DE VIDAS DESPEDAÇADAS

Filme incluído na Criterion Collection, uma das mais prestigiosas do cinema atual, Exótica (1994) é a obra-prima do diretor e roteirista egípcio-canadense Atom Egoyan, de ascendência armênia. 

Até então, Egoyan vinha fazendo carreira mediana, entre curtas, episódios de séries televisivas e apenas um filme com alguma notoriedade no circuito de VHS (Next of kim).

O destaque obtido por Exótica em festivais de cinema pelo mundo todo abriu caminho para outros projetos ambiciosos, como O doce amanhãO fio da inocênciaVerdade nuaMemórias secretas e O preço da traição. Nenhum deles, contudo, tão bem sucedido quanto Exótica.

Mostra uma sofisticada boate canadense, na qual as moças fazem stripteases ao som de músicas e das tiradas quase literárias de um apresentador (Elias Koteas) que lança comentários do tipo "por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Depois, por uma tarifa fixa, elas atendem aos clientes nas suas mesas, conversam com eles, despem-se e/ou dançam a pedido dos ditos cujos, mas sem que lhes seja permitido tocá-las.  

Quem se apresenta com vestes de colegial (Mia Kirshner) foi namorada  do homem do microfone, daí algumas de suas falas serem alfinetadas implícitas sobre a antiga relação. 

E um cliente habitual (Bruce Greenwood), agente do fisco, tem uma fixação nela porque, no passado, lhe prestara serviços de babá, antes de sua filha e sua esposa morrerem num acidente de trânsito.

Aos poucos vão vindo à tona os segredos e desditas nos relacionamentos em que se entrelaçam esses três personagens, mais a dona da boate (Arsinée Khanjian) e um proprietário de pet shop (Don McKellar) que contrabandeia ovos de espécies raras para clientes abastados. 

E um ambiente que parecia até banal vai revelando aos poucos os destinos tortuosos que embute, as dores profundas silenciadas, os projetos de felicidade que se desmancharam no ar. 

Sob o impacto que o filme me causou quando o assisti pela primeira vez, veio-me à mente uma frase lapidar do grande Guimarães Rosa que poderia até servir-lhe de epílogo: "Viver é uma questão de rasgar-se e remendar-se". (por Celso Lungaretti) 
Clique aqui para assistir a Exótica no Youtube, com legendas em espanhol.

sábado, 22 de junho de 2024

AINDA SOBRE AS CRIANÇAS, A PUTARIA, O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS DEMAGOGIAS ELEITOREIRAS

Paulo Francis, que foi um guru do pensamento crítico nas fileiras da esquerda até a fase do
Pasquim mas depois se desencantou e descaracterizou de forma melancólica, dizia que o espaço das cartas de leitores na grande imprensa era qualificado pelos jornalistas profissionais de muro das lamentações, pois nenhum deles o levava a sério.

Eu, pelo menos, sempre respeitei os comentaristas, até porque devo já ter transformado em artigos pelo menos uma centena das respostas que dei a eles. 

Meus melhores textos e melhores falas costumam ser os que me vêm à mente no meio de uma argumentação, às vezes até contrariando a linha de pensamento que eu vinha seguindo. E nunca fui preguiçoso a ponto de desperdiçar o rumo que o artigo tomou sozinho só para não mexer um pouco no que já estava escrito.

Então, graças aos pertinentes comentários do SF ao meu artigo  sobre o antepenúltimo sincericídio desastroso do Lula, posso agora acrescentar um complemento àquele post que, espero, vá enriquecer a discussão que levantei. Tomara que os leitores concordem. (por Celso Lungaretti)
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JÁ NÃO DÁ MAIS PARA BOTARMOS CRIANÇAS SOB UMA REDOMA
Essa imagem do menor de idade como anjinho assexuado foi feita em cacos há 119 anos, quando Freud publicou seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Temos é de preservar as etapas de amadurecimento sexual pelas quais passam as crianças, impedindo que adultos maliciosos as acelerem para locupletarem-se, traumatizando os pimpolhos.
  
Já não dá mais para colocarmos crianças sob uma redoma, tentando vedar-lhe o contato com os conteúdos adultos. Não se deve nem se consegue censurar toda uma sociedade na era da internet.

Ainda no tempo das fitas VHS, uma amiga minha, voltando para casa numa tarde mais cedo do que o habitual, surpreendeu seus filhos e outros colegas de escola, todos numa faixa de 12 anos, assistindo a um filme de sadomasoquismo explícito que haviam retirado da videolocadora com a carteirinha paterna.

Quanto aos fundamentalistas religiosos, sua idealização da inocência infantil não passa de uma ilusão compensatória por eles saberem-se apodrecidos até a medula. 

Isso, aliás, me faz lembrar uma frase antológica do filme Exótica (1994), do Aton Egoyan, quando o comentarista de uma boate sofisticada pergunta à plateia, durante o número de uma stripper produzida como estudante: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Levar essa gente a sério, nem que seja por demagogia eleitoreira como no caso do Lula, é absolutamente indesculpável para as pessoas civilizadas.

Retrocesso civilizatório só convém aos bárbaros. A frase do Lula me fez lembrar o Bolsonaro recomendando a cloroquina no auge da covid-19. (CL)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

"EXÓTICA" É UM FILMAÇO QUE NÃO OBTEVE POR AQUI O MERECIDO RECONHECIMENTO

Filme incluído na Criterion Collection, uma das mais prestigiosas do cinema atual, Exótica (1994) é a obra-prima do diretor e roteirista egípcio-canadense Atom Egoyan, de ascendência armênia. 

Até então, Egoyan vinha fazendo carreira mediana, entre curtas, episódios de séries televisivas e apenas um filme com alguma notoriedade no circuito de VHS (Next of kim).

O destaque obtido por Exótica em festivais de cinema pelo mundo abriu caminho para outros projetos ambiciosos, como O doce amanhã, O fio da inocência, Verdade nua, Memórias secretas e O preço da traição. Nenhum deles, contudo, tão bem sucedido quanto Exótica.

Mostra uma sofisticada boate canadense, na qual as moças fazem stripteases ao som de músicas e das tiradas quase literárias de um apresentador (Elias Koteas) que lança comentários do tipo "por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?". 

Depois, por uma tarifa fixa, elas atendem aos clientes nas suas mesas, conversam com eles, despem-se e/ou dançam a pedido dos ditos cujos, mas sem que lhes seja permitido tocá-las.  

Quem se apresenta com vestes de colegial (Mia Kirshner) foi namorada  do homem do microfone, daí algumas de suas falas serem alfinetadas implícitas sobre a antiga relação. 

E um cliente habitual (Bruce Greenwood), agente do fisco, tem uma fixação nela porque, no passado, lhe prestara serviços de babá, antes de sua filha e sua esposa morrerem num acidente de trânsito.

Aos poucos vão vindo à tona os segredos e desditas nos relacionamentos em que se entrelaçam esses três personagens, mais a dona da boate (Arsinée Khanjian) e um proprietário de pet shop (Don McKellar) que contrabandeia ovos de espécies raras para clientes abastados. 

E um ambiente que parecia até banal vai revelando aos poucos os destinos tortuosos que embute, as dores profundas silenciadas, os projetos de felicidade que se desmancharam no ar. 

Sob o impacto que o filme me causou quando o assisti pela primeira vez, veio-me à mente uma frase lapidar do grande Guimarães Rosa que poderia até servir-lhe de epílogo: "Viver é uma questão de rasgar-se e remendar-se". (por Celso Lungaretti
Clique aqui para assistir a Exótica no Youtube, com legendas em espanhol.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO... E DA CANÇÃO JAMAIS ESQUECIDA!

O saudoso cine Patriarca virou oficina mecânica
Muita água passou debaixo da ponte desde aquele domingo em que, como quase sempre fazia, acompanhei meu pai ao seu bico  de fim de semana.

Além do trabalho exaustivo numa fiação, ele sacrificava seu repouso para botar mais dinheiro em casa: recolhia apostas nas corridas de cavalo, em troca de uma comissão de 10%. Repassava-as por telefone a um tio-avô que vivia disto.

Este parente, que lembrava muito o personagem  Amigo da Onça (grande Péricles!), descarregava os jogos pesados em outras bancas, segurando só os que teria como pagar.

Então, na ampla casa do meu avô, os apostadores iam fazer sua fezinha e alguns passavam a tarde lá, assistindo ao futebol, torcendo ruidosamente na hora dos páreos televisionados (Vai! Vai! Vai! VVVVVVAAAAAIIII!!!), jogando dominó de cartas.

Eu tinha uns cinco anos e brincava com um ou outro amigo da turminha da rua que não tivesse coisa melhor para fazer em pleno domingão.

Certa vez, o único que estava por lá me convidou a ir até o cine Patriarca olhar os cartazes, a cinco quarteirões de distância. Fomos.
Para minha surpresa, ele levou um papo de coitadeza e convenceu um bom velhinho a nos pagar um ingresso. Parece que fazia sempre isto, pois o porteiro, sem discutir, permitiu que eu também entrasse, dois pelo preço de um.

O filme era sobre Ali Babá. Adorei a canção tipo chiclete (gruda no ouvido...) que acompanhou os letreiros iniciais, mas... passados uns 10 minutos eu resolvi ir embora, pois não avisara o meu pai e sabia que ele se preocuparia se não me encontrasse por lá. 

O senso de responsabilidade falou mais alto; no entanto, fiquei tão frustrado que a tal musiquinha jamais me saiu da cabeça... 


Sessenta anos depois, deparei-me num blogue de downloads com o filme
 Ali Babá and the forty thieves, de 1944, dirigido por Arthur Lubin. Fiquei curioso: seria este?

Fui atrás do vídeo no Youtube e constatei que não. Mas, na busca apareceu também o menos conhecido The adventures of Hajji Baba, de 1954 (d. Don Weis). Bingo!

Aquele tema que me deslumbrara tinha assinatura ilustre: Dimitri Tiomkin, de quem simplesmente adoro as composições para Sem Lei e Sem Alma. E o cantor era ninguém menos do que o Nat King Cole. Ouçam:
O filme já estava no Youtube, mas falado em inglês e sem legendas. Deixei pra lá.

Agora, contudo, apareceu legendado em vários blogs de cinema e até no Youtube. Por mero saudosismo, finalmente o vi inteiro... e me decepcionei, claro. Uma besteirinha sem nada a ver com as fascinantes fantasias das mil e uma noites.

Pelo menos a canção não me decepcionou, como costuma acontecer com as lembranças que o tempo e a imaginação colorem na nossa mente. A letra é bobinha, mas a gente ouve e fica com a música na cabeça, até se surpreende cantarolando

Caso dos gols guardados com tanto carinho na memória, mas que hoje, revistos nos vídeos que sobraram do saudoso Canal 100, mostram-se até banais, não resistindo à comparação com os de um Messi, p. ex.  

No fundo, talvez gostemos mesmo é de evocar o que éramos... e nunca mais seremos.

Vem-me à mente outro filme, este bem mais recente e muito melhor: Exótica, d. Atom Egoyan, 1994.

A certa altura, ele traduziu cruelmente em palavras a sensação que quase todos temos ao olharmos para trás, já na no último terço ou último quarto da jornada:
"Por que uma colegial nos parece tão atraente? É que ela tem a vida toda pela frente, e nós já desperdiçamos a nossa"
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