Dois meses após ter sido surpreendido com o diagnóstico de que estava com uma grave arritmia cardíaca, meu quadro clínico mudou muito. As ameaças foram sendo removidas pelos médicos e acabo de ter alta no Hospital do Coração.
Falta uma última cirurgia, que eles consideraram arriscada demais para este momento, mas têm esperança de realizar lá por meados de 2026. Até então, tratamento ambulatorial e cautela.
O repouso do guerreiro, que eu antes recusava, foi-me imposto. Fazer o quê?
Hoje (6) completo 75 anos sem saber se, conforme a música do King Crimson que é uma das minhas favoritas, confusão será meu epitáfio. Não consegui construir o país que tanto queria legar para meus entes queridos e para o povo sofrido, no qual se priorizasse o bem de todos, não o lucro de minorias.
Mas, acredito ter provado que vale a pena lutarmos, mesmo quando o inimigo é tão poderoso como uma bestial ditadura militar ou tão desmobilizador quanto uma força majoritária da esquerda que perdeu o rumo e o foco.
Fui buscar, na bacia das almas, vitórias expressivas contra ambos.
Na falta de um legado propriamente dito, deixarei pelo menos um exemplo: o de que as grandes batalhas da vida não devem ser recusadas, mas lutadas até o fim.
Numa poesia de décadas atrás eu escrevi: "O homem que luta sozinho comanda um exército invisível". Mantenho a afirmação. (Celso Lungaretti)
Tragédia maior do que as mortes, os refugiados, os dramas e os danos causados pelas enchentes no Rio Grande do Sul é a certeza de que, assim como praticamente nada se fez para atenuar o previsível impacto de tudo isso, nada se fará depois que o dilúvio gaúcho cessar e outro horror qualquer, em qualquer outro lugar do planeta, se tornar o assunto do momento.
Que o aquecimento global e as alterações climáticas produzirão cada vez mais e piores catástrofes passou a ser, já no século passado, um óbvio ululante. E não dá para continuarmos nos iludindo quanto ao fato de que o fim da espécie humana nos espera adiante, bem mais cedo do que supúnhamos. A única dúvida é quando, como e se há escapatória possível.
Bem vistas as coisas, a única esperança que resta é a de que uma ocorrência mais apocalíptica ainda enfim convença todos nós a enfrentarmos unidos nosso pior desafio desde que saímos das cavernas.
Isto esteve próximo de acontecer em 2011, quando um megaterremoto seguido de um tsunami quase causou ao Japão uma devastação ainda maior que a das bombas atômicas em 1945.
A pergunta que não quer calar é se tal ocorrência apocalíptica sucederá antes ou depois de as consequências cumulativas do aquecimento global se tornarem impossíveis de reversão.
Pois o pior pesadelo será sermos dizimados pelas catástrofes pipocando no mundo inteiro sem sequer vislumbrarmos uma chance de sobrevivência, como os condenados à morte que só esperam a data da execução.
Vou encerrar com uma autocrítica. Eterno otimista, cheguei a acreditar que a quase impossível (dada a desigualdade de forças) vitória conquistada pelo nosso lado em 2011 no Caso Battisti, contra os poderes avassaladores da imprensa burguesa e as pressões escandalosas de um país do 1º mundo, prenunciavam um cenário no qual a internet nos permitiria confrontarmos com êxito a lavagem cerebral da indústria cultural.
Hoje vejo que aquela foi apenas uma moeda que caiu em pé, com a web em seguida se revelando um ovo da serpente: amplificadora não do pensamento crítico, mas sim da ignorância, do egoísmo e dos preconceitos da maioria da população nesta sociedade reduzida a terra arrasada pela ganância capitalista.
A igualação não se deu por cima, como sonhei e tantos outros idealistas sonharam, mas bem por baixo, descendo até ao nível do esgoto bolsonarista.
E, como o simplismo panfletário das fake news é bem mais compreensível para os simplórios do que uma visão crítica dos fenômenos sociais, nunca tantos fizeram seus zurros ecoarem tanto e causando tantas distorções na vida social quanto nestes melancólicos tempos presentes. (numa linha próxima à minha, recomendo a leitura deste ótimo artigo do economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca).
Paulo Francis, que morreu em 1994, cunhou a expressão inferno bocó (ou pamonha) para denominar o estado de embrutecimento a que foi reduzida a vida cultural na sociedade de consumo, à medida que a prioridade suprema passou a ser a de bajular o consumidor e espelhar suas limitações.
Não tinha ideia de quão imenso ainda viria a ser o retrocesso civilizatório. (por Celso Lungaretti)
É difícil ser profeta nesses tempos conturbados, mas, pelo que conheço de Brasil, o bolsonarismo-raiz, o que se nutre nas cloacas do gabinete do ódio do clã familiar Bolsonaro, não terá futuro nesse país.
Logo ficará reduzido a uma excentricidade política que ainda poderá fazer barulho, mas que não será um movimento de peso. Acabará sendo marginal quando aparecer uma proposta democrática alternativa capaz de tirar o país do pesadelo autoritário e grotesco no qual está chafurdando.
Em que me baseio? No fato de que o chamado bolsonarismo nasce do radicalismo da política vista como guerra, como confronto permanente, como morte mais do que vida.
É bom lembrar que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, descobriu, inspirado na filosofia grega, que o mundo se move entre duas grandes pulsões:
— a de eros, que seria o amor pela vida, à procriação, à sexualidade, ao prazer e ao amor;
— e de tanatos, que lembra o deus da morte. É o impulso da destruição, da violência e do sadismo.
Segundo Freud, o mundo continua de pé porque o impulso da vida é superior ao da morte. Do contrário, já não existiria. Nós teríamos nos autodestruído.
Acontece o mesmo na política. Há momentos em que o impulso de morte e destruição, o totalitarismo, parece triunfar, mas por fim vencem os valores da vida e da liberdade como aconteceu na Europa após a tragédia da 2ª Guerra Mundial. Há países que sempre foram mais inclinados a viver sob o tanatos destrutivo e outros preferem crescer sob a força da vida e da liberdade que são as chaves da felicidade.
E o Brasil? Esse é um país que, apesar de um passado de bárbara escravidão que deixou marcas na pobreza e no abandono milhões de pessoas largadas à sua própria sorte, não pertence aos propensos a fomentar fantasmas de morte. Se o Brasil tem pecados em certos momentos de sua história, é mais por passividade e servilismo ao poder do que pela guerra. É um país com vocação, em suas diferentes e ricas culturas, ao desfrute da vida. Um país que não é geneticamente guerreiro.
De modo que o bolsonarismo, tal como se apresenta hoje sob a bandeira da violência e da morte, da política vista como um ringue de bairro, não pode criar raízes profundas nesse país.
Eu me atreveria a dizer que o bolsonarismo extremo, o da gritaria, que às vezes pode assustar, não é mais do que uma dessas seitas fanáticas que nascem e morrem sem deixar rastro. Essa política se nutre somente de negatividade. Cria inimigos imaginários e por fim se mostra de uma infantilidade espantosa.
Essas seitas são destrutivas, procuram brigas e se alimentam de símbolos de morte. Basta ver o caixão que levam nas manifestações como símbolo de sua morte anunciada.
Querem sempre guerra e luta porque a paz os assusta. E quando não existem inimigos os criam. Destroem tudo o que evoca o gosto pela vida, a alegria e a liberdade. Por isso não suportaram e assassinaram a jovem negra e favelada, a ativista Marielle Franco.
Essas seitas religiosas e políticas precisam de um mito para suprir sua nulidade como manada. Sofrem de complexo de castração. Professam uma sexualidade doentia adornada com símbolos que beiram a pornografia.
Cultivam os símbolos da morte e da destruição porque viver lhes dá medo. Sua vocação é a satânica de dividir. Agem nos meandros da obscuridade que é o reino da mentira.
Quando não encontram inimigos os inventam. Precisam manter vivo o diapasão do ódio. Por isso nadam com maestria nas águas escuras das fake news.
Negam a compaixão. A bile e o amargor são os primeiros ingredientes de suas cozinhas.
Essas seitas da morte acabam por fim como canibais devorando uns aos outros. A maior curiosidade mórbida, os melhores orgasmos políticos do bolsonarismo-raiz, vêm da paixão pelas armas e por todo o ritual gestual e simbólico da guerra.
O deus da seita é o dos trovões e dos medos, o vingador, o deus que se compraz com a destruição dos inimigos. Eles que se dizem seguidores da Bíblia nunca entenderão a emoção de Jesus de Nazaré ressuscitando seu amigo Lázaro e ao ver um leproso curado.
Ao final, toda essa agressividade e fome de guerra e conflitos do bolsonarismo-raiz revelam sua incapacidade à felicidade. Eles se afogam em seus próprios instintos de destruição.
Os diferentes sexualmente lhes dão pânico porque ameaçam sua falsa virilidade. A ternura lhes dá medo porque condena sua índole machista.
Eles se sentem melhor às portas de um cemitério do que diante do berço de um recém-nascido. Seus impulsos de morte sempre superam os de vida.
Esses seguidores de morte e luta se assustam diante dos mansos porque definitivamente os desarmados lhes dão medo. Mostram coragem somente diante dos frágeis porque os verdadeiros fortes, que são os que não temem a morte, desnudam sua falsa hombridade.
Não, uma seita com essa força destrutiva e niilista nunca será a vocação de um Brasil que, apesar de todos os seus defeitos, não renuncia à alegria de viver em paz. Só poderão impô-la com a força dos tanques de guerra.
Os dois populares ministros (o da Saúde, Mandetta; e o da Justiça, Moro), ambos recentemente expulsos do Governo, representam juntos, de acordo com as últimas pesquisas, 75% do consenso popular. O que evidencia que o gabinete do ódio está se esgotando. Quem lhes resta? O Brasil não está mais com eles.
Muito otimista? Talvez, mas o pessimismo já deixou nossas gargantas secas demais.
.
(por Juan Arias, octogenário jornalista espanhol que desde 1999 é correspondente do El País no Brasil,