A democracia burguesa nada mais é do que a forma política de garantir sustentação ao capital, mesmo que o governante político queira dar ao Estado uma feição humanista; a ditadura burguesa, totalitária na sua essência mais recôndita, serve ao capital obedecendo às ordens da sua lógica mais insensível (e, por isto, bem mais cruel e desumana).
A esquerda anticapitalista, investida no poder burguês, representa uma contradição no objeto, de vez que deverá cumprir os preceitos de uma ordem jurídica constitucional elaborada para determinar os mecanismos capitalistas de mediação social e, mais do que isto, agir de modo a resolver os problemas econômicos do capital.
Ou seja, a esquerda se obriga a ajudar a conservar o que diz e deveria combater .
Os bem-intencionados governantes políticos de esquerda dirão que é melhor para o povo ter um governo social-democrata burguês do que uma ditadura.
Não deveriam, portanto, usar as insígnias anticapitalistas, pois isto corresponde a uma heresia.
— quando defendeu o sindicalismo de resultados, não questionando a propriedade dos meios de produção, focado que estava apenas na pretensa melhora salarial do trabalhadores;
— quando criou um partido de trabalhadores a partir da institucionalidade democrático-burguesa e de uma relação capital/trabalho consensual na qual, no melhor estilo capitalista, estabelece-se uma relação de disputa de interesses classistas num mesmo campo, de vez que são, ao mesmo tempo, antagônicos e convergentes na busca pelo valor (dinheiro e mercadorias), tendo, portanto, o mesmo objeto;
— quando acredita na solidez dos cânones burguesas de divisão e respeito aos poderes institucionais republicanos (doutrinariamente burgueses desde o iluminismo e revolução francesa), o que o tornou confiável perante tais poderes, quais sejam o mercado, governantes dos países que detêm a hegemonia burguesa mundial, forças militares mais evoluídas no conhecimento da geopolítica mundial e da importância do Brasil nesse contexto, etc.;
— quando concilia com os partidos políticos de direita e de centro para garantir a governabilidade burguesa e todo o poder político que assim aufere e proporciona aos que lhe são fieis (afinal o Estado burguês é rico em sinecuras e salários advindos de suas tetas, extraídas dos impostos cobrados ao povo já exaurido pela extração de mais-valia), etc.
Sim, Lula e qualquer pessoa são livres para pensar e criar convicções sobre o que pensam ser melhor para o povo, seja ele de sua própria nação (os patriotários costumam ver apenas como merecedores de direitos os seus nacionais, numa expressão de xenofobia clara) ou do mundo.
Mas há um direito natural e um senso de justiça moral e ética que se sobrepõe ao pensamento individual e doutrinário; o capitalismo afronta o direito natural.
O capitalismo se constitui como uma lógica desumana, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e que agora, tendo atingido o seu limite interno de expansão ditado por suas contradições internas e predação ecológica causadora do aquecimento global, inviabiliza-se.
É por isso que a social-democracia, em sentido amplo, termina por assemelhar-se politicamente aos insensíveis governantes de direita no resultado final, quando se vê obrigada a garantir a funcionalidade estatal deficitária e negar os benefícios sociais e salariais da maioria do povo. O estado, sob qualquer forma política, é opressor.
O capital é autodestrutivo e, no seu suspiro de moribundo, tenta arrastar para o abismo tanto a nós como a todos, sejam mal ou bem-intencionados.
Hoje entendo o porquê de Lula ter expulsado do seu partido a mim (fundador do PT no Ceará e um dos coordenadores da primeira vitória do PT numa capital, que originou a experiência da Administração Popular) e ao grupo que eu pertencia e pertenço (o Crítica Radical).
São muitos os valorosos companheiros que, por estratégia política circunstanciais e nos estertores da ditadura militar no Brasil, ajudaram a fundar o PT e dele se distanciaram ou foram expulsos por absoluta incompatibilidade de pensamentos e posicionamentos sociais.
Para ficar apenas num exemplo das nossas dificuldades de país de economia fraca (ainda que sejamos importantes estrategicamente e do ponto de vista da riqueza material, com exportação de alimentos e minérios de baixo valor agregado), pagamos taxa de juros de 10% ao ano em USD, o que representou mais de R$ 800 bilhões no exercício de 2021.
Ou seja, a cada brasileiro (velhos, crianças, pessoas inválidas, desempregados, etc.) coube um ônus de R$ 4 mil no ano retrasado, enquanto há países ditos ricos que pagam por suas dívidas taxas decrescentes de juros.
A discrepância salarial no Brasil é abismal. Um Juiz de 1ª instância ganha num mês o que um operário ganha num ano e meio. Tal fenômeno decorre de existir no Brasil desemprego estrutural; uma cultura advinda da exploração colonialista e escravista; e da baixa competitividade dos nossos manufaturados na guerra concorrencial de mercado.
Lula, por mais bem-intencionado que seja, depende de uma imunização governamental somente possível de ser obtida com alta popularidade, e vai enfrentar as dificuldades próprias de uma depressão econômica nacional e mundial severa.
Não torço pelo pior, mas a racionalidade da análise conjuntural me informa que por aí, além dos aviões de carreira, vêm chuvas e trovoadas .
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