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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

NO LULA.3, NOSSA ECONOMIA ESTARÁ SUJEITA A CHUVAS E TROVOADAS

dalton rosado
O PODER POLÍTICO
O
que caracteriza o poder nas sociedades humanas são seus modo de produção e de distribuição de tal produção. Nas sociedades cuja relação social se caracteriza pela mediação sob a forma-valor, o capital é o verdadeiro poder; o poder político apenas serve ao capital.

A democracia burguesa nada mais é do que a forma política de garantir sustentação ao capital, mesmo que o governante político queira dar ao Estado uma feição humanista; a ditadura burguesa, totalitária na sua essência mais recôndita, serve ao capital obedecendo às ordens da sua lógica mais insensível (e, por isto, bem mais cruel e desumana).

A esquerda anticapitalista, investida no poder burguês, representa uma contradição no objeto, de vez que deverá cumprir os preceitos de uma ordem jurídica constitucional elaborada para determinar os mecanismos capitalistas de mediação social e, mais do que isto, agir de modo a resolver os problemas econômicos do capital.

Ou seja, a esquerda se obriga a ajudar a conservar o que diz e deveria combater .

Os bem-intencionados governantes políticos de esquerda dirão que é melhor para o povo ter um governo social-democrata burguês do que uma ditadura.

Eu diria que isto é uma verdade apenas em sentido estrito, mas não o é num sentido amplo. 

Os sociais-democratas burgueses, como Lula, agem para tentar humanizar o capitalismo sob a perspectiva do seu desenvolvimento, parecendo até uma versão esquerdista do crescimento do bolo para depois dividi-lo(desculpa esfarrapada com que o Delfim Netto tentava justificar o arrocho salarial sob a ditadura militar).

Não deveriam, portanto, usar as insígnias anticapitalistas, pois isto corresponde a uma heresia.

A verdade é que Lula, desde o começo, mostrou-se um social-democrata e foi guinando cada vez mais à direita, seja:
— quando expulsou os marxistas do PT (sempre falou mal dos comunistas) ou lhes exigiu rendição explícita ao lulismo;
— quando defendeu o
sindicalismo de resultados, não questionando a propriedade dos meios de produção, focado que estava apenas na pretensa melhora salarial do trabalhadores;
— quando criou um partido de trabalhadores a partir da institucionalidade democrático-burguesa e de uma relação capital/trabalho consensual na qual, no melhor estilo capitalista, estabelece-se uma relação de disputa de interesses classistas num mesmo campo, de vez que são, ao mesmo tempo, antagônicos e convergentes na busca pelo valor (dinheiro e mercadorias), tendo, portanto, o mesmo objeto;
— quando acredita na solidez dos cânones burguesas de divisão e respeito aos poderes institucionais republicanos (doutrinariamente burgueses desde o iluminismo e revolução francesa), o que o tornou confiável perante tais poderes, quais sejam o mercado, governantes dos países que detêm a hegemonia burguesa mundial, forças militares mais evoluídas no conhecimento da geopolítica mundial e da importância do Brasil nesse contexto, etc.;
— quando defende o interesse empresarial multinacional, afirmando que "se fosse presidente, a Ford não teria deixado o Brasil" e aceitando o lucro do capital financeiro dos bancos como forma de melhorar a receita tributária do imposto sobre a renda nos moldes capitalistas;
 quando concilia com os partidos políticos de direita e de centro para garantir a governabilidade burguesa e todo o poder político que assim aufere e proporciona aos que lhe são fieis (afinal o Estado burguês é rico em sinecuras e salários advindos de suas tetas, extraídas dos impostos cobrados ao povo já exaurido pela extração de mais-valia), etc.

Sim, Lula e qualquer pessoa são livres para pensar e criar convicções sobre o que pensam ser melhor para o povo, seja ele de sua própria nação (os patriotários costumam ver apenas como merecedores de direitos os seus nacionais, numa expressão de xenofobia clara) ou do mundo.

Mas há um direito natural e um senso de justiça moral e ética que se sobrepõe ao pensamento individual e doutrinário; o capitalismo afronta o direito natural.

O capitalismo se constitui como uma lógica desumana, segregacionista, escravista, socialmente destrutiva e que agora, tendo atingido o seu limite interno de expansão ditado por suas contradições internas e predação ecológica causadora do aquecimento global, inviabiliza-se.

É por isso que a social-democracia, em sentido amplo, termina por assemelhar-se politicamente aos insensíveis governantes de direita no resultado final, quando se vê obrigada a garantir a funcionalidade estatal deficitária e negar os benefícios sociais e salariais da maioria do povo. O estado, sob qualquer forma política, é opressor.

O capital é autodestrutivo e, no seu suspiro de moribundo, tenta arrastar para o abismo tanto a nós como a todos, sejam mal ou bem-intencionados.

Hoje entendo o porquê de Lula ter expulsado do seu partido a mim (fundador do PT no Ceará e um dos coordenadores da primeira vitória do PT numa capital, que originou a experiência da Administração Popular) e ao grupo que eu pertencia e pertenço (o Crítica Radical).

Contudo, mais do que isto me deixar ressentido, considero que tal episódio representa uma honrosa e natural consequência de divergências profundas de concepções revolucionárias.

São muitos os valorosos companheiros que, por estratégia política circunstanciais e nos estertores da ditadura militar no Brasil, ajudaram a fundar o PT e dele se distanciaram ou foram expulsos por absoluta incompatibilidade de pensamentos e posicionamentos sociais.

Governar sob o capital significa sofrer desgaste inevitável, principalmente num país da periferia do capitalismo como o nosso. Daí os percalços de governantes de diferentes orientações ideológicas:
— os militares saíram pela porta dos fundos em 1985; 
Boçalnaro, o ignaro, direitista selvagem, saiu vergonhosamente pelo aeroporto rumo à meca do capitalismo mundial, com medo de ser criminalizado e preso como genocida; 
— Dilma Rousseff acabou impichada porque explodiu a insatisfação popular no seu segundo mandato, com inflação alta, PIB baixo e desemprego estrutural crescente, etc.

Para ficar apenas num exemplo das nossas dificuldades de país de economia fraca (ainda que sejamos importantes estrategicamente e do ponto de vista da riqueza material, com exportação de alimentos e minérios de baixo valor agregado), pagamos taxa de juros de 10% ao ano em USD, o que representou mais de R$ 800 bilhões no exercício de 2021.

Ou seja, a cada brasileiro (velhos, crianças, pessoas inválidas, desempregados, etc.) coube um ônus de R$ 4 mil no ano retrasado, enquanto há países ditos ricos que pagam por suas dívidas taxas decrescentes de juros.

A discrepância salarial no Brasil é abismal. Um Juiz de 1ª instância ganha num mês o que um operário ganha num ano e meio. Tal fenômeno decorre de existir no Brasil desemprego estrutural; uma cultura advinda da exploração colonialista e escravista; e da baixa competitividade dos nossos manufaturados na guerra concorrencial de mercado.

Resumindo: somos pobres em riqueza abstrata e é o povo quem paga por isto.

Lula, por mais bem-intencionado que seja, depende de uma imunização governamental somente possível de ser obtida com alta popularidade, e vai enfrentar as dificuldades próprias de uma depressão econômica nacional e mundial severa. 

Os que o aplaudem hoje serão os mesmos que o apedrejarão amanhã, caso não entregue as melhoras prometidas.

Não torço pelo pior, mas a racionalidade da análise conjuntural me informa que por aí, além dos aviões de carreira, vêm chuvas e trovoadas .

Feliz ano novo, se possível. (por Dalton Rosado)
Composição do Dalton em memória da Gal. Canta o Gomes Brasil.

sábado, 27 de agosto de 2022

O DALTON DEU AUTÓGRAFOS COM SEU MELHOR PALETÓ + CALÇA JEANS - GRAVATA

O Dalton Rosado estava meio vestido a caráter e meio casual no lançamento de Governantes, Poder & Dinheiro (Editora Máquina de Ler, 2022, 132 p.), na noite desta sexta-feira (26), num shopping da capital cearense. 

O livro resultou de um debate virtual entre 13 cientistas políticos, economistas e jornalistas sobre a corrupção na vida pública brasileira, organizado por Josênio Parente e Osvaldo Araújo. O Dalton entrou na segunda categoria, até porque ainda é muito lembrada sua gestão como secretário de Finanças de Fortaleza no governo popular da prefeita Maria Luíza Fontenele (1986-1989).   

Eke gostou de haver contribuído para o êxito da iniciativa: "O debate de ideias sem censura ideológica castradora e isento de balizamentos limitativos é o que se observa neste livro. O momento é oportuno para se colocar uma cunha no pensar maniqueísta".

quarta-feira, 13 de julho de 2022

QUANDO É QUE PEGAREMOS O TOURO CAPITALISTA PELOS CHIFRES? – 2

 (continuação deste post)
Q
uem visitou a Argentina há 30 anos se surpreende com a decadência atual, após três décadas de inflação alta; e se o visitante o fez 60 anos atrás, decerto ficará profundamente entristecido. 

O Brasil de Boçalnaro, o ignaro, com seu apego desesperado ao poder, segue na mesma direção, tanto que o genocida não tem nenhum pejo em promover a distribuição eleitoreira de esmolas que serão bastante prejudiciais num futuro bem próximo (no capitalismo não há almoço grátis).  

O maior problema do capitalismo hoje é o desemprego estrutural. Máquinas não produzem valor, ao contrário de que muitos pensam (até mesmo os capitalistas, que ganham dinheiro com a inserção das ditas cujas na produção de mercadorias). 

Só o trabalho abstrato e sua extração de mais-valia nos setores primário e secundário da economia produz valor, e sem valor o capitalismo colapsa.  Daí os números do desemprego estrutural mundial serem hoje tão alarmantes. 

Para termos uma ideia da tragédia humana em curso (no capitalismo só come quem trabalha), basta olharmos as taxas de desemprego de regiões populosas do planeta, como a China, a Índia e a África, que juntas somam aproximadamente 3,5 bilhões de habitantes (cerca de 40% da população mundial):
— China e Índia, 6,1%; cada;
— África, 9,8%.  

Isto representa cerca de 1,3 bilhão de desempregados, que forçam os que ainda não estão na rua da amargura a aceitarem salários de fome em nome de uma sobrevivência miserável.

Não esqueçamos que, além do desemprego estrutural, o regime de concorrência de mercado força a redução de salários e direitos trabalhistas em nome de uma retomada do desenvolvimento econômico pretendido pela direita e pela esquerda institucional e que a cada dia fica mais quimérico. 

Mas não é apenas na periferia que tal fenômeno está cruelmente ocorrendo, mas também, agora, nos países economicamente hegemônicos.

Os Estados Unidos estão enfrentando a maior taxa de desemprego nos últimos anos, algo em torno de 6% de sua população economicamente ativa; a União Europeia, 6,2%; e o Brasil, país mais populoso da América latina, 10%. (!). 

São bilhões de pessoas desesperadas. Portanto,, diferentemente do que disse Paulo Guedes na campanha presidencial de 2018, o capitalismo não resgatou da miséria ancestral a população mundial (que antes do capitalismo, sob o feudalismo ou outras formas comunitárias, vivia na miséria mais por ignorância científica), mas está a lhe impor uma realidade social igualmente miserável, até que a guerra elimine os humanos supérfluos para o capital. 

Corremos riscos inimagináveis de extinção graças a conjunção de fatores como letalidade armamentista nuclear e miséria social capitalista irrenunciável pelos gestores político-econômicos do capital.  

O mundo está há um passo de uma recessão mundial, circunstância que tornará o que já era ruim em insuportável. 
Não é a recessão que causa o desemprego estrutural, mas é o desemprego estrutural que causa a recessão, num processo de retroalimentação socialmente pernicioso. 

Aliás, foi Karl Marx quem disse que a substituição gradativa de trabalho vivo (trabalho abstrato, porque salariado em valor abstrato, como capital variável) pelo trabalho das máquinas (trabalho morto, sem salário, como capital fixo), faria voar pelos ares toda a lógica capitalista. 

Ele assim o fez e disse graças à análise da essência da forma-valor. Então, ao invés de incensá-la como o faziam (e fazem) os economistas burgueses, ele criticou-a logicamente, tendo por isso sido contestado pelos donos do capital e seus adeptos nestes últimos 150 anos, além de ser considerado morto e sepultado. Agora, contudo, ressurge das cinzas, tal qual uma Fênix revolucionária.  

O capitalismo é irracional caso se queira atribuir a ele algum sentido de equidade, e isto não apenas por força de um deliberado interesse de classe escravista: trata-se do único sistema de relações socais no qual produzir mais por meio de equipamentos tecnológicos (as máquinas) significa sua derrocada.

Esta é uma evidência gritante de sua irracionalidade. (por Dalton Rosado – continua neste post)
Gomes Brasil interpreta outra composição do Dalton

sábado, 18 de junho de 2022

SEMPRE HAVERÁ HERÓIS E MÁRTIRES RESISTINDO AO STATUS QUO DEGRADANTE

dalton rosado
DESCULPEM-NOS, AUTÓCTONES AMERICANOS!
Sempre fico me perguntando: qual terá sido, no ano de 1500, o sentimento de surpresa dos indígenas na praia ao verem chegar pelo mar aquelas naus gigantes? 

Seria como se víssemos hoje aterrissar um disco voador?

Sim, é bem possível que tivessem curiosidade e medo perante aqueles milhares de homens cobertos com vestimentas desconhecidas, barbudos (muitos deles com escorbuto), falando um idioma desconhecido e trazendo consigo estranhos objetos que cuspiam fogo. Eles representavam para os autóctones tipos diferentes, ainda que de uma mesma espécie humana. 

Surpresos, ingênuos, desconfiadamente receptivos, não tinham para com os estranhos visitantes e suas embarcações nenhuma animosidade, apenas curiosidade. 

Por seu turno os visitantes, sempre sentindo-se superiores, olhavam e tratavam aqueles hominídeos como seres quase humanos, afinal tinham saberes desconhecidos dos daqueles por eles tidos como cientificamente avançados.

Qual o sentimento dos visitantes?  Seria muito diferente: 
— dos que hoje saqueiam a Amazônia via garimpo predatório e ilegal de minérios? 
 dos que cultivam plantas alucinógenas e as processam para a comercialização dos seus derivados pelo narcotráfico?
 dos que promovem a pesca predatória e ilegal? 
 dos que são responsáveis pela devastação madeireira que causa desmatamento, provoca incêndios e emite gás carbônico poluente na atmosfera?

Guardadas as proporções, já que se tratava de um capitalismo então iniciante, o sentimento de saque é o mesmo. A diferença está nas armas dos atuais visitantes da Amazônia, pois elas são bem mais letais.  

Somos a resultante de uma civilização incivilizada. O nosso exemplo de civilização para os autóctones não apenas se mostrou covardemente escravista e assassino, como também estruturalmente perverso. 

Assassinatos, escravização, opressão econômica e política, misoginia, racismo, homofobia, dentre outras mazelas, são traços marcantes de uma civilização moralmente decomposta, dita moderna, que tenta impor aos autóctones remanescentes os seus valores decrépitos. 

Como seria o convívio com tais autóctones:
— se, ao invés de saques e comportamentos segregacionistas que se evidenciaram logo nos primeiros contatos, demonstrássemos espírito solidário, trocando e partilhando informações, ao invés de trocarmos espelhos por ouro? 
 se não os obrigássemos a se ajoelharem diante de um Deus por eles desconhecido?
— se não lhes impuséssemos o sentido econômico-jurídico de propriedade?
— se os tratássemos como seres humanos iguais a nós? 

Os autóctones, mesmo sem muitos dos conhecimentos que mais valorizamos,  têm para com os seus uma relação social verdadeiramente humana, solidária e comum (ou seja, são comunistas no sentido superior do termo). Eles, desde ontem e ainda hoje:
— não escravizam; 
 não batem nas suas mulheres; 
 protegem suas crianças e idosos;
 não acumulam, de modo excludente, riquezas abstratas e materiais; e
 partilham tudo que produzem e consomem, menos quando são contaminados e corrompidos pela ganância dos ditos civilizados, que os iludem com álcool e quinquilharias.   

Mas há seres humanos que, mesmo sendo nascidos e criados na civilização ocidental, insurgem-se contra as suas mazelas, como é o caso de Bruno Pereira e Dom Phillips. 

Estes são reconhecidos facilmente pelos autóctones como uns dos seus; interagem com estes últimos; estabelecem relações humanas de trocas de informações indispensáveis à vida naquela região tão bela quanto inóspita. Enfim, ensinam a boa lição, aprendendo-a e aprendendo-a do mesmo modo.  

Imaginemos se, ao invés de homens armados e financiados por um reino cujo interesse amplamente dominante era o de levar vantagem econômica sobre aqueles ingênuos filhos da terra, por aqui chegassem milhares de Pereiras e Phillips, com idêntico espírito respeitoso e solidário.  É evidente que se construiria uma sociedade profundamente diferente da que temos 

Como seria se nos Estados Unidos e no Canadá houvesse prosperado uma civilização fundada nos princípios de civilidade, ao invés de nos da ganância e da guerra fratricida, com caubóis e cavalaria terem exterminando os chamados peles vermelhas como moscas?  

Vemos uma caricatura sinistra de presidente da República, do alto de sua ignorância crassa, afirmar que o indigenista e o jornalista foram assassinados por se aventurarem imprudentemente numa região conflagrada. No entanto, sabermos:
— que os organismos ambientais de fiscalização e combate aos crimes ambientais e econômicos ali existentes foram premeditadamente desarticulados ou precarizados: 
 que há um reconhecimento oficial de impotência governamental diante das ações do crime organizado;
 que há uma visão oficial equivocada de integração humana da Amazônia, como desculpa esfarrapada de um fantasioso (ao mesmo tempo real) combate à entregação da Amazônia a estrangeiros cobiçosos; 
 que a culpa do assassinato de Bruno e Dom recai em parte sobre quem ousa defender a Amazônia dos criminosos, pois entraram onde correriam risco de vida!!!!

A conclusão final é de que começamos mal e ainda estamos no estágio inferior deste processo, ora agravado por uma crise de saturação do modelo instituído. A conquista das Américas pelo mundo civilizado europeu, que efetuava sua transição do feudalismo para o capitalismo quando de tais conquistas, trouxe consigo todas as mazelas que se constituíam como seu ethos fundamental.     

O processo histórico dialético está, contudo, a demonstrar que, enquanto os humanos estiverem sobre a face da Terra, não haverá mal que dure para sempre e, como uma flor que nasce da lama, haverá os que se insurgirão contra o degradante status quo estabelecido, sacrificando a própria vida para estimular a resistência, a superação e a transcendência desse modelo desumano.  

Bruno Pereira e Dom Phillips, como tantos outros que vêm sendo assassinados na Amazónia, representam o que há de melhor na humanidade e a certeza de que ainda poderemos caminhar no sentido da verdadeira civilidade. 

Portanto, perdoem-nos todos os autóctones americanos!  (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 15 de junho de 2022

É PAPEL DA ESQUERDA GERIR O CAPITALISMO AGÔNICO E SEU ESTADO FALIDO? – 1

dalton rosado
O CAPITAL PERDEU A VIABILIDADE. IDEM, A SUA  GOVERNABILIDADE.
Q
uando um modelo de relação social se torna inviável ou é superado pela ação consciente dos seres humanos, pode ainda se manter indefinidamente, mas com altos custos sociais, num processo de destrutibilidade social e ecológica e autodestruição da própria forma. Ambas as opções se dão pela força. 

Hoje vivemos, mundo afora, a realidade de colapso do capital em processo acelerado, sendo esta a explicação mais evidente para a existência de guerras localizadas nas quais as grandes potências militares e econômicas (mesmo que, agônicas, estejam sendo sustentadas por aparelhos) testam a eficácia dos seus ridículos poderios. 

Boçalnaro, o ignaro, ainda que esteja no poder político, deseja o autogolpe para governar sem os freios do republicanismo burguês e, assim, permanecer indefinidamente destruindo seu país, tal qual outros déspotas alhures (seu congênere russo que o diga).  

Mas ele tem algumas pedras no caminho, como diria Drummond: a insatisfação social gerada pela inflação, o desemprego, a queda da renda e a ineficácia do atendimento pelo Estado das demandas sociais básicas. E são elas que mais diretamente influenciam os humores da população.
  
Não nos iludamos: entre perder os anéis para conservar os dedos ou perder a própria mão, que é o que está na ordem do dia, ele e sua turma partirão para a manutenção da relação social capitalista pela força e a nós nos cabe a resistência, desde antes, agora e no futuro.

O poder econômico somente aceita as regras da democracia burguesa enquanto ela serve aos seus interesses de manutenção dos lucros e privilégios. Caso seja necessário o uso da força para tal intento, ele não hesitará em se aliar à truculência.     

Lula se equivoca ao acreditar numa convivência harmônica entre o capital decadente e as relações de trabalho capitalistas em fim de feira. 

Não se apercebe de que a marolinha está se transformando num tsunami e seu provável governo enfrentará as dificuldades próprias de um mundo em depressão e sem a coragem de promover qualquer ruptura. É exatamente isto que o faz ser aceito pela elite política e econômica, a qual não hesitará em depô-lo mais tarde, caso isto se faça necessário.

Lula governará, se tal ocorrer, num Brasil particularmente depauperado graças à insanidade e incompetência de um sargentão primário (que me perdoem os sargentos) e um programa econômico de governo que, de forma contraditória oscila entre o liberalismo clássico e um nacionalismo obsoleto, aliado a uma prática de milicianos da pior escola do Rio de Janeiro.    

Ele, tal como Boçalnaro, é nacionalista e estatizante (a exemplo dos militares de 1964/85, que criaram inúmeras empresas estatais e só privatizaram a Panair do Brasil, de saudosa memória); ambos acreditam na eternidade do capitalismo.

São identidades de quem gosta de modo acrítico do poder político burguês, com diferenciações cosméticas de governança: 
— um com senso humanista e populista démodée, o outro de olho nas formas truculentas de acesso a este mesmo poder caso perca sua popularidade construída sobre mentiras e desespero social;
— um com o projeto internacionalmente falido da socialdemocracia,  o outro apostando no militarismo truculento e irracional do qual se origina. 

A contraditória fórmula do governo atual já mostrou a que veio o genocida. Nacionalista, contraria o liberalismo clássico de Milton Friedman, do qual Paulo Guedes é discípulo e que anunciava mais Brasil e menos Brasília, lembram-se? 

Esta é a razão pela qual não houve privatização no governo que aí está, e que anuncia uma pra inglês ver, a da Petrobrás, no apagar das luzes. Mas Paulo Guedes, obediente à elite econômica nacional e num oportunismo barato de apego ao cargo, tudo aceita. 

Assim, de contradição em contradição, o quadro piora cada vez mais:
— 
grassa a fome no país que ajuda a alimentar o mundo como segundo maior produtor mundial de grãos. 
 vemos voltar a inflação de dois dígitos que consome a parca renda dos que ainda estão empregados; e
— é gravíssimo (para a lógica do capital e para a vida social sob sua égide) o renitente índice elevado de desemprego, confirmando a tese de que se trata de uma questão estrutural no capitalismo cibernético e robotizado.    

De quebra, assistimos à volta da covid como uma interminável praga dos tempos ditos modernos(por Dalton Rosado continua neste post)
Lembrando os protestos de nove anos atrás, com letra de Celso
Lungaretti, música do Dalton Rosado e interpretação do Gomes Brasil.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

A CONJUGAÇÃO DAS CRISES DE DEMANDA E DE OFERTA PODE MATAR O CAPITALISMO

dalton rosado
A ESTAGFLAÇÃO AQUI E ALHURES
"Essa discussão de trazer a inflação para mais perto da meta e, eventualmente, a meta um pouco mais para baixo, parece firula teórica, mas não é. É um ingrediente para baixar as taxas de juros reais" (Joaquim Levy, o neoliberal de estimação da ex-presidente Dilma Rousseff)
.
Vivemos, no Brasil, uma crise de demanda de mercadorias e serviços, e não uma crise de oferta destas destes, pois: 
— há, ainda, muita mercadoria nas prateleiras dos supermercados; 
 há mãos ociosas de gente apta ao trabalho, mas que não encontra emprego por causa do desemprego estrutural; 
 há cada vez mais lojas fechadas (até porque delivery, entregas a domicílio de pedidos por aplicativos, está na ordem do dia); 
 há residências fechadas e aumentou o número de moradores de rua;
 há terras abundantes neste país de baixa densidade demográfica, mas há quem more em palafitas e abundam as favelas na meca do capitalismo brasileiro (o frio hoje está matando sem-teto em pleno Sul Maravilha!);
 é estável a produção de energia, uma vez que as chuvas intensas fizeram aumentar a produção de energia hidráulica, mas a demanda caiu e a conta de luz encareceu; 
 os postos de gasolina têm os seus tanques cheios e esperam novas altas do preço para manterem seus lucros intactos apesar de as vendas estarem caindo;
 com a pandemia aumentaram as doenças psíquicas e sequelas físicas, mas falta dinheiro para muitos e muitos brasileiros comprarem os medicamentos disponíveis nas drogarias e farmácias;
 o capital está desempregado por falta de sua capacidade de reprodução na tradicional fórmula D-M-D+, ao mesmo tempo em que os juros estão altos, o que evidencia o emperramento da máquina capitalista e sua anemia orgânica (mais um exemplo flagrante da contradição irresolúvel entre forma e conteúdo, geradora de efeitos especulativos concentradores de renda), etc. 

Mas o ministro Paulo Guedes garante que já saímos do inferno, enquanto outros países somente estariam entrando agora no ecossistema do capeta. Acredite quem quiser...   

A estagflação é o pior dos mundos no capitalismo, pois representa a contradição entre produção de mercadorias e consumo destas, decorrente de incapacidade de aquisição por falta de renda, ao mesmo tempo em que sobem os preços (não os valores) apesar da abundância de ofertas invalidando a tese capitalista da lei da oferta e da procura como regulação do mercado. 

Os efeitos colaterais na estagflação são enormes. Quando tal fenômeno é estrutural (ou seja, quando ocorre generalizadamente numa economia globalizada, como agora acontece), os mecanismos de salvação são escassos e os meios artificiais, como a emissão de mais moeda sem lastro, causam ainda mais inflação. 

Já não há possibilidade e confiabilidade de investimentos a juros altos por parte dos países ditos ricos (como ocorriam no passado, quando do ilusório milagre brasileiro de fôlego curto). Nossa economia está claudicante e a inflação acumulada no IPCA alcançou a marca de 12,13% nos 12 últimos meses.

Vemos hoje que os Estados Unidos, país detentor e emissor da moeda padrão internacional, o dólar, amarga uma pesada inflação acumulada nos 12 últimos meses de 8%, algo que não sucedia desde 1981.

Na União Europeia ocorre o mesmo fenômeno, com inflação acumulada de 7,4% nos últimos 12 meses, o que denuncia que na casa do padeiro está faltando meios de equalização de preços e de consumo, o que delimita a produção do pão. 
Não se produz o que não se vende, daí a perigosa (para o capitalismo e sua ordem ditatorial) conjugação da crise de demanda com uma crise de oferta; caso seja prolongada, tal crise representará o fim da linha para o sistema de exploração do homem pelo homem. Isto, vale dizer, parece já estar acontecendo!) 

Os efeitos colaterais da estagflação se espraiam pelo corpo capitalista inteiro, começando pela redução real (descontada a inflação) da arrecadação de impostos, o que resulta numa priorização do direcionamento das receitas fiscais para aquilo que é a função principal do Estado: manter o capitalismo vivo. Só que, aí, as demandas sociais vão para as calendas gregas e o povo sofre ainda mais. 

Decorrente da paralisia da economia, ou da sua redução drástica, vem a necessidade de um endividamento público com a venda de títulos. Com isto, aumenta a dívida e os juros desta, prenunciando um calote nos rentistas mundo afora e a quebra do sistema financeiro (que se configurará como uma hecatombe monetária sem precedentes). 

Por seu turno, tão grave quanto o aumento da dívida e dos juros desta, é a necessária emissão de moeda sem lastro (como último recurso de um doente terminal que se sustenta por aparelhos), o que provoca ainda mais inflação, numa espiral de problemas econômico-financeiros próprios ao atingimento do limite interno de um modelo de relação social que encontrou o seu ocaso histórico, obrigando-nos a buscar soluções alternativas fora da sua lógica subtrativa e segregacionista. 

Mas, é à população que a estagflação mostra a sua mais cruel carantonha.

Sem alternativa de sobrevivência dentro dos parâmetros que lhe são oferecidos (acordar, trabalhar, ganhar dinheiro, pagar impostos, enriquecer os detentores e administradores do capital promovendo sua acumulação autotélica) por conta de lhe faltarem condições para seguir o script que lhe foi desenhado, o ser humano pode tender perigosamente para a barbárie.

Cabe a nós desatarmos este nó górdio, como fez Alexandre Magno ao cortá-lo com sua espada. 

Afinal, quando não se tem alternativa de solução da equação de um problema por falta de pressuposto lógico para a sua solução, a alternativa é denunciar a incorreção do enunciado e a impossibilidade de solução dentro dos parâmetros oferecidos. 

Há que se raciocinar fora da caixa e colocar o ovo de pé, mesmo quebrando a sua base, como fez Cristóvão Colombo. (por Dalton Rosado)
Dalton detona a lógica assassina do capitalismo em prosa e versos

quinta-feira, 26 de maio de 2022

TIRAR O BODE DA SALA RESOLVE?

C
omo ficaria a conhecida fábula do bode na sala, se a adaptássemos a estes tempos esquisitos que estamos vivendo? Abaixo está uma versão possível.

Um camponês ingênuo de aldeia, amargurado com sua miséria, aconselha-se com um sábio, rogando uma solução para a vida insuportável que leva. 

Recebe o conselho de colocar um bode fedorento no meio de sua pequena casa, e voltar quatro anos depois. 

Obediente (mesmo relutante), o camponês arruma um bode velho e faz tudo como foi determinado. Anos depois, a situação familiar já era de completa neurastenia nervosa e todos estavam a ponto de se matarem.

Aí, finalmente esgotou-se o prazo daquele suplício e o camponês voltou a se reunir com o sábio. E, inquirido sobre como iam as coisas, o humilde camponês desabafou: vivia um inferno, pois tudo havia piorado e todos estavam à beira de um esgotamento nervoso, tendo as agressões e o ódio aumentado com o uso indiscriminado de mensagens pelo celular. Cada um culpava o outro pela miséria em que todos viviam.

Acrescentou que:
— estavam passando fome por causa da inflação; 
— a mulher já não encontrava nenhuma roupa para lavar, pois seus antigos fregueses tinham comprado máquinas de lavar; 
 o filho menor voltava todo dia pra casa com as mãos vazias, após não ter conseguido vender as cocadas feitas pela sua mãe naquele fogão velho à lenha que sufocava a todos com a fumaça (o gás estava a preços proibitivos!); 
 a filha menor, de 15 anos, havia deixado de estudar, pois o ônibus que transportava os alunos enguiçara e não havia mais transporte para a aldeia mais próxima que possuía escola; 
 ele mesmo, agricultor calejado, já não podia plantar nas terras alheias porque estavam mecanizada;
 o Auxílio Brasil não dava para resolver os seus problemas de aluguel; compra de alimentos cada vez mais caros e remédios, idem (as doenças haviam aumentado por conta de pouca alimentação e das fezes do bode); gastos com transporte; consumo de água (estavam tendo de beber água do ribeirão, sem tratamento) e de energia elétrica (a eletricidade havia sido cortada por falta de pagamento), etc. 

Mas afirmou que o mal maior era o bode na sala, que empesteava tudo com seu odor e ainda obrigava o camponês sem forças a arranjar capim para alimentá-lo. 

Foi então que o empertigado sábio, acariciando a longa barba que lhe emprestava um ar de erudição e sapiência, aconselhou que retirasse o bode da sala e voltasse no fim do ano. 

Mais uma vez obediente e esperançoso, o camponês retornou a sua casa e soltou o bode que já estava impaciente e berrando incessantemente, após quase quatro anos em cativeiro doméstico.

Quando se viram de novo em dezembro, o camponês disse ao sábio que sua vida estava bem melhor, só que:
— 
o seu filho virara miliciano, andava armado e saía em motociatas com os amigos, mas estava descolando um grana preta
— a sua mulher se encarregava de levar uns fios de cobre estranhos (desses dos postes) que alguém lhe pedira para vender, com comissão, para a reciclagem, pagando-lhe muito bem, mesmo sem ela saber de onde eles vinham;
 a sua filha, ainda menor, se prostituíra e agora já nem vinha mais dormir em casa, o que aliviava o espaço diminuto daquele casebre em que mal cabia a família;
— ele, agricultor sem instrução, entrara para a fila do mutirão do emprego, tentando obter uma vaga de vigia na cidade grande mais próxima, um nicho de emprego que crescera contra os frequentes roubos de lojas que vinham ocorrendo na aldeia. 

De certa forma estava aliviado, pois, mesmo sem ter tomado cloroquina, não tinha morrido de covid, ficando fora da lista de óbitos de muitas pessoas que conhecia (até gente graúda!).

Com todo mundo se virando nos trinta depois da saída do bode, a vida havia melhorado um pouco, exceto numa coisa: a polícia e uns tipos mal encarados estavam rondando a sua casa e ameaçando toda a sua família de morte. 

Então, angustiado e sem saída dentro do que julgava ser comportamento honesto, perguntou ao sábio, o que era melhor: morrer de covid, de bala ou de fome? 

O sábio, esperto e sabendo que a retirada do bode nada resolveria, respondeu-lhe: espere pelas próximas eleições. (por Dalton Rosado)
O Dalton Rosado compôs, o Gomes Brasil interpreta.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

HÁ MOTIVO PARA TANTA SINISTROSE ENVOLVENDO O DAY AFTER?

S
e a frase não é de George Orwell, é de um autor consciencioso anônimo com o qual concordamos.  

Existem quatro prognósticos para o futuro imediato do Brasil:
— a provável vitória do Lula na eleição presidencial de outubro de 2022;
— a improvável vitória de Boçalnaro, o ignaro, no mesmo pleito;
— golpe militar após o resultado (mais improvável ainda);
— golpe militar antes da eleição (dependendo da mobilização popular pró e/ou contra o autogolpe). 

Qualquer destes cenários que se venha a concretizar, nós teremos dias difíceis. Mas, pode ser que dele surja não o advento de um messias fanfarrão, apologista das torturas e político medíocre que se escondeu dos debates eleitorais por trás de uma facada Mandrake, mas o de um novo pensar revolucionário emancipacionista, de um movimento ungido pelo povo cansado de uma alternância democrática no poder burguês que nada resolve. 

É claro que Boçalnaro quer o autogolpe e disto já deu provas mais do que suficientes. 

Movido pela crença de que a força bruta pode conter a insatisfação popular (ou mesmo que o pensamento conservador capitalista tradicional pode resgatar o desenvolvimento econômico e fazê-lo novamente popular), o genocida conclama o segmento minoritário oportunista e menos sensato civil e militar para tal intento.

Acontece que a conjuntura internacional lhe é desfavorável, pois o 
capitalismo vive um estágio de depressão econômica causada fundamentalmente pela contradição comprovada (desemprego estrutural), visível e sentida entre forma (redução da produção da massa global de valor a partir do trabalho abstrato) e conteúdo (eliminação substancial de tal fonte de produção de valor pela guerra de mercado). 

Tais fatores estruturais desembocam:
— na inflação causada pela emissão de moedas sem lastro mundo afora e, principalmente, pelos países de moedas fortes; 
— na queda da produção de mercadorias em face do bloqueio internacional do fluxo de componentes e matérias primas essenciais;
— na dívida pública estatal crescente; e
— nos juros altos.   

Como numa tempestade perfeita, tudo tem-se agravado com a reedição da pandemia em alguns países (China, Coreia do Norte e países da África e Ásia, etc.),

Os sintomas da gravidade de tal situação são claros e a ele se acrescenta, no caso brasileiro, uma forte antipatia dos governos democráticos burgueses às posturas autocráticas, anticivilizatórias e antiecológicas do Boçalnaro, que tornaram seu governo um pária internacional. 

Disso tudo decorre a quase impossibilidade de vitória eleitoral do réprobo em questão. Entretanto, caso conseguisse a reeleição, consideraria que sua barbárie estaria legitimada pelo povo, e aí o Brasil viraria um inferno.  

A conjuntura internacional desfavorável desencoraja muitas das viúvas da ditadura militar de tentarem sua reedição, ainda que outros, menos clarividentes, suponham contar com a insensatez social brasileira para tal aventura.   
Desconhecem que o Brasil, mesmo sendo conservador na sua maioria, já é suficientemente desenvolvido institucional e economicamente, além de estar inserido numa conjuntura mundial que não admite mudanças bruscas como aquelas desejadas (fechamento do STF, do Congresso Nacional e desligamento das conexões econômicas internacionais).

A vitória de Lula é provável. A balança da bipolaridade com seu adversário mais próximo pende ao seu favor. 

Mas se é, simultaneamente, um antídoto diante da ruptura institucional democrática à direita, será, também, desgastante e inócua quanto à ruptura com o quadro de sofrimento por que passa grande parte da população brasileira, e deve frustrar aqueles que veem em Lula a salvação da lavoura

O presidenciável petista já deixa antever o que será um eventual governo seu. Ao acenar cada vez mais ao capital nacional e internacional, bem como ao centro político (vide a imposição ao PT de um vice como Geraldo Alkmin, adversário emblemático de outros carnavais), ele já diz tudo. 

Lula sempre acreditou no capitalismo e no trabalhismo social-democrata como forma de relação social viável, dependendo de sua condução. Desconhece a essência da economia capitalista e sua autodestrutibilidade e, pior, luta pela preservação das categorias capitalistas como se fossem ontológicas. 

É um político aferrado ao parâmetro que construiu para si mesmo e por meio do qual saiu vitorioso, parecendo cada vez mais apegado ao poder burguês e às migalhas institucionais que ele oferece.

Cada vez mais descrê na força da mobilização dos movimentos socais libertários (com todas as divergências e equívocos propositivos existentes), sejam eles do operariado sindical combativo ou autônomo; das mulheres; dos sem-terra rurais e dos sem-teto urbanos; da diversidade lgbtqI+; dos antinacionalistas; 
dos antifascistas; dos antirracistas; dos anti-fundamentalistas religiosos; dos solidários aos perseguidos mundo afora, etc.

Chega ao ponto de defender autocratas como se fossem aceitáveis as abominações humanitárias e ideológicas por eles praticadas.

Se ganhar as eleições e tomar posse, Lula começará o seu governo 20 anos após a primeira vez (2003/2023), mas sob um cenário internacional bem diferenciado para pior do ponto-de-vista do capital. A marolinha se tornou uma onda gigantesca e incontrolável. 

A esquerda tem tolerado a injustiça (e até mesmo a vem praticando) em nome de uma pretensa justiça futura, além de incidir em concessões que terminam por fazê-la absorver o mal capitalista e com ele conviver numa alternância de poder político que a descredencia. 

Lula, enfim, cada vez mais se distancia da estrela e do vermelho que simbolizaram o PT de tantos bons companheiros expurgados, e para aderir a um rosa-choque entrelaçado com um verde-amarelo nacionalista. Lula nega tudo que prometeu ser nos primórdios de sua vida política, revelando a sua verdadeira essência. 
Não se trata de amadurecimento, mas de um retroceder que é ou uma quinada à direita partir da mudança do pensar, ou a explicitação de um embuste histórico. 

Não sei mesmo qual a melhor hipótese entre estas duas, mas o futuro nos explicitará e, espero, não represente uma frustração que leve o povo brasileiro a novamente acreditar numa cantilena autoritária mentirosa.   

O pior, entretanto, é que, com os mecanismos de combate à depressão capitalista que Lula pretende usar, os problemas vão continuar e até se agravarão, podendo dar nova vida à direita, como consequência do desencanto com quem representa a esquerda no imaginário popular.

Espero que, mesmo indo de desencanto em desencanto. acabemos construindo uma convicção alternativa de relação social (tanto institucional como de produção social) que nos emancipe definitivamente dos grilhões capitalistas. (por Dalton Rosado)
Tributo do Dalton Rosado a uma geração que procurava outro
destino. Já o PT alckmizado está mesmo é sem rumo no espaço...
  
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