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segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
.
(por Celso Lungaretti)

sábado, 19 de agosto de 2023

É BOM ELE JÁ IR BOTANDO ESCOVA DE DENTES E MAÇOS DE CIGARRO NA SUA MALA

Dezembro de 2022: deixando o Palácio da
Alvorada, rumo à Disneylândia...
Sob o aspecto moral, é até chocante que, dentre o rosário de crimes cometidos pelo palhaço sinistro antes, durante e depois da temporada de quatro anos do circo dos horrores no Palácio do Planalto, ele vá começar a ver o sol nascer quadrado como consequência de um dos mais insignificantes: a venda de joias das quais se apropriou ilegalmente.

Inclusive, isto acaba sendo uma meia vitória para ele, que tanto fez para normalizar o extermínio de idosos, pobres e indígenas: os podres Poderes parecem dar-lhe razão, pois, ao invés de o submeterem a um julgamento exemplar como o da quadrilha de Hitler pelo tribunal de Nuremberg, vão puni-lo primeiramente como um camelô de muamba.

Isto diz muito sobre o analfabetismo político (grande Brecht!) e ético de considerável parcela do nosso povo. Os, repito, podres Poderes decidiram que seria mais palatável e imune a badernaços uma sentença por transgressão bem conhecida e muito repudiada pela parva gente brasileira do que uma pelo maior dos crimes que se pode cometer contra os seres humanos: tirar-lhes a vida. 
...e a nova delinquência, que deverá dar 
um fim à sua carreira criminosa... 

É óbvio que, depois do abre-alas, virá o resto do desfile: outras condenações estão a caminho. Afinal, nem mesmo num país que não é sério pode passar batido o abate como gado de centenas de milhares de pessoas indefesas que, noutras circunstâncias, teriam sobrevivido à pandemia de covid. 

Seria passar recibo de que o Brasil é um país sem lei, sem princípios, sem humanidade, sem nada que o diferencie da horda primitiva.

Como único consolo para os brasileiros realmente civilizados, está o fato de que o psicopata da necropolítica é e sempre foi um ladrão de galinhas, enfileirando três décadas de mandatos legislativos nos quais, pela sua própria mediocridade e irrelevância, conseguiu passar despercebido para os que tinham a obrigação de puni-lo, enquanto nada, absolutamente nada, fazia de útil para o país e para o povo brasileiro. 

Se não, vejamos sua folha de serviços:
...antes tarde do que nunca!
— desviou tanta grana quanto pôde para si e para seu clã;
— acumpliciou-se com a modalidade de crime organizado conhecida como milícias do Rio de Janeiro;
— esmurrou em público o então deputado federal Randolfe Rodrigues;
— proveu medalhas e homenagens a assassinos bestiais, e, 
— enfim, foi sempre um defensor e propagador dos comportamentos mais ilegais, espúrios, abjetos e degradantes

Então, faz sentido que vá ser finalmente oficializada esta característica que marcou toda a trajetória do Bozo: a de ladrão de galinhas.

E a pergunta que não quer calar é: como todos nós permitimos que um tão escrachado ladrão de galinhas passasse três décadas parasitando impunemente o Legislativo e acabasse se tornando o pior presidente brasileiro de todos os tempos (inclusive minando as instituições e avacalhando a imagem das Forças Armadas como nem o pior dos inimigos até então o fizera)?

Torquato Neto estava certíssimo: aqui é o fim do mundo. (por Celso Lungaretti 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

É COMO UMA VELHA DAMA INDIGNA QUE SÃO PAULO FAZ 469 ANOS

O desfile do IV Centenário, no Anhangabaú, 
passou sob o Viaduto do Chá durante a tarde.
  
M
inha mais remota lembrança  de São Paulo é a comemoração do seu quarto centenário, em 1954.

Eu estava com três anos e meus pais me levaram na festa que teve lugar no Viaduto do Chá, à noite.

Uma multidão como eu nunca vira e as luzes poderosas, refletidas nos aviõezinhos de papel laminado que jorravam do alto dos edifícios, ficaram gravadas para sempre na minha memória.

E eu soube que vivia numa cidade chamada São Paulo. Que essa cidade fazia 400 anos. E que era muito mais imponente naquele local das festividades do que onde eu residia.

Fui captando melhor esse contraste à medida que crescia. 

Morava na Mooca, bairro operário que gravitava em torno de um cotonifício gigantesco, o Crespi, tomando um quarteirão inteiro.

Além disso, havia muitas outras fabriquetas. E na Mooca moravam, principalmente, os operários dessas indústrias e os que nelas haviam trabalhado. Gente simples e austera.

Ao centro eu ia com minha mãe uma vez por mês, pois, naquele tempo, pagava-se o aluguel no escritório do locador.

Bom para mim, que via cenários diferentes e era premiado com uma guloseima do Café Moka, na Praça da Sé.
Exatos 30 anos depois, lá estava eu de novo no Anhangabaú, participando,
eufórico, do ato público de lançamento da campanha das diretas-já
Sentia-me achatado pelos arranha-céus e estranhava todos aqueles homens de terno passando apressados. Sentia-me num mundo diferente, de grandes lojas, vitrines enfeitadas e movimento incessante.

Aquilo me parecia o progresso, a modernidade, desvalorizando, aos meus olhos de menino, o bairro pobre do meu dia a dia.

O chamado centro histórico de São Paulo, entre as praças da Sé e da República, concentrava comércio, entretenimento e bancos, principalmente.

E a proximidade do Palácio do Governo, nos Campos Elísios, ajudava a manter essa região como a principal da cidade.

Mas, o palácio se foi para o Morumbi, em 1965.
O cotonifício Crespi parado e trabalhadores protestando
na rua: assim se iniciava a histórica greve geral de 1917
Os ricaços, aos poucos, mudaram dos arredores. E, a partir da inauguração do Minhocão, em 1971, os Campos Elísios e seu entorno entraram em decadência acelerada.

O comércio moveleiro de alto padrão também migrou da rua das Palmeiras, que ficava ao lado.

Como na agonia do Império Romano, os bárbaros foram tomando os territórios ao redor do centro histórico, cujo brilho só perdurou por um tempinho mais.

A partir da inauguração do metrô, em 1974, o distrito da Sé se definiu como zona de passagem, atravessada por centenas de milhares de pessoas.

Seu comércio chique debandou e as lojas se adequaram ao perfil de uma clientela mais pobre e menos exigente.

Nas minhas sete décadas de vida, presenciei a fase derradeira do esplendor do centro histórico e acompanhei cada momento de sua degradação.

Mais ainda do que ao Caetano, alguma coisa acontecia no meu coração ao cruzar a Ipiranga com a avenida São João.

É difícil transmitir, aos que nela já nasceram, a diferença entre a vida antes e depois da sociedade de consumo. Algo assim como interagirmos antes com pessoas, mesmo que não as melhores possíveis, e depois com meros robôs (o homo economicus em sua plenitude...).
A Avenida Paulista é o cartão postal da São Paulo desumanizada que faz 469 anos...
Como disse o Tom Zé, São Paulo tinha todo defeito, era uma metrópole em que habitantes vindos de todo canto se agrediam cortesmente, correndo e morrendo a todo vapor, na perseguição frenética da grana.

Mas, ao falar em aglomerada solidão, ele exagerou. Pois, a indiferença, a impessoalidade, a falta de calor humano iriam intensificar-se mesmo é nas décadas seguintes àquela na qual Tom Zé compôs sua São, São Paulo, meu amor, que lhe valeu a vitória, pelo júri popular, no IV Festival de MPB da TV Record (1968).

E a região da Avenida Paulista, atual cartão postal de São Paulo, não substitui o centro histórico de outrora num aspecto fundamental: expressa a sociedade motorizada, em que pedestres ficam espremidos e os automóveis reinam imponentes.

Os bancos e os escritórios de grandes empresas agora estão na Paulista, tramando e implementando a desumanização, como sempre.

Quanto ao comércio e ao entretenimento, foram confinados nos shopping centers.
...mas a cracolândia expressa bem melhor o que Sampa se tornou; uma velha dama indigna!
A sensação que me dá é de ter sido expulso das ruas e das praças, que não pertencem mais ao povo, assim como o céu deixou de ser do condor.

Ao mesmo tempo, em tardia autocrítica, percebo que a existência mais aprazível para seres humanos nunca esteve no Centrão endinheirado, mas sim na Mooca que era humilde da minha infância, mas depois endinheirou-se e descaracterizou-se. O bairro onde comecei a vida já não tem mais vida que valha a pena ser vivida.

Da São Paulo que eu amei deve sobrar um tiquinho nos bairros distantes onde os vizinhos ainda se falam e conhecem, onde as crianças ainda brincam nas ruas e onde as pessoas ainda fazem parte de uma comunidade, não de um condomínio.

Pelo menos é no que eu quero acreditar, pois estou um pouco velho para sair em busca da cidade perdida.

E o pior de tudo é este pressentimento de que nem no mais longínquo bairro da periferia a encontrarei. (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

OS COMPANHEIROS DOS ANOS SOMBRIOS

O dia começa com notícias previsíveis, bem ao estilo da canção Domingou do Gilberto Gil: "O jornal de manhã chega cedo, / mas não traz o que eu quero saber. / As notícias que leio, conheço, / já sabia antes mesmo de ler".  

Ocorreu-me, então, disponibilizar novamente no blog um filme que mostra bem como eram os militantes marxistas emblemáticos do passado.
 
Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um revolucionário profissional, professor por formação, que chega para ajudar os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Afora pelo tema em si, identifiquei-me muito com ele porque, na década de 1960, conheci bem a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fazia tossir instantaneamente. 
Cheguei até a fazer um
bico no Crespi, indo todo final de mês somar, com uma calculadora tão primitiva que nem elétrica era, as horas extras dos trabalhadores, para o fechamento das folhas de pagamento.

Ao assistir a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas antes.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política.

Vendo tantas vezes o filme naquele tempo em que dava os primeiros passos na trajetória revolucionária, o professor Siniglaia ficou sendo para mim, como para muitos jovens militantes de então, o exemplo no qual nos espelhávamos.
E, como diz aquele velho lugar comum (cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade), acabaria mesmo andando incógnito daqui pra lá na perseguição do meu sonho, sendo abrigado pela companheirada de cada lugar, passando sustos e privações, olhando do lado de fora de estabelecimentos chiques as iguarias que não tinha como pagar, até chegar no fim da linha, as prisões (que, nos nossos anos de chumbo, eram bem piores do que aquelas que esperavam o Siniglaia). 

Hoje percebo quanta falta fazem aqueles ativistas da velha guarda, para quem a militância significava a disposição para sujeitarem-se a todos os sacrifícios e não a promessa de empregos muito bem remunerados e outras boquinhas no setor público.

Por mais que se queira pensar o contrário, forças políticas que profissionalizam seus quadros à custa das posições por elas conquistadas no executivo e no legislativo acabam necessitando de vitórias eleitorais para sustentar e aumentar suas esferas de influência. 

Tornam-se dependentes das eleições, tanto quanto os viciados não passam sem suas drogas. E, sem querer, perdem de vista o objetivo maior de substituirmos a institucionalidade burguesa por outra que não implique a perpetuação da exploração do homem pelo homem.

Os dois partidos que por mais tempo se mantiveram como forças dominantes na esquerda brasileira, o PCB e o PT, caíram nessa armadilha. 

Carecemos hoje (e muito!) de uma vanguarda formada por Siniglaias e não por gente que perde o emprego se o seu partido perder a eleição seguinte. 

Pois tal situação implica, mesmo que imperceptivelmente, a perda da independência política. (por Celso Lungaretti)

domingo, 26 de junho de 2022

BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (tudo não passou de vingança do Estado) – 3

O
que considerei realmente significativo na quilométrica reportagem sobre Cesare Battisti que a Folha de S. Paulo publicou na semana finda  e eu dissequei neste e neste posts, foi ele:
1. ter assumido a responsabilidade por duas das quatro vítimas fatais a ele atribuídas (um agente penitenciário detestado pelos militantes presos e um motorista da repressão aos, repito, centenas de grupúsculos de esquerda surgidos na Itália durante os anos de chumbo); 
2haver esclarecido que as mortes do açougueiro e do joalheiro foram atiradas nas suas costas pelos delatores premiados porque o supunham definitivamente a salvo na França e queriam ser libertados o quanto antes; e
3. estar, afinal, dando sua opinião sincera sobre os homens de poder envolvidos com sua via crucis na América do Sul. 

Respeito o trabalho do colega Lucas Ferraz e admiro sua perseverança ao ficar trocando mensagens com Battisti por mais de um ano para realizar sua reportagem.

Ademais, admito a possibilidade de que algumas ressalvas que fiz explicita ou implicitamente lhe tenham sido impostas pelo editor ou pelo diretor de redação, pois todos sabemos que a Folha de S. Paulo não é exatamente um jornal neutro em tais assuntos.

De resto, com o que mais fiquei sabendo, além do muito que já sabia sobre os assuntos tratados na reportagem, devo desculpas aos leitores por, quando eu defendia a libertação de Battisti, haver afirmado que ele não tinha a estrutura psicológica de quem pudesse haver matado algum inimigo.

Baseava-me nos militantes que eu conhecera e o haviam feito, geralmente idealistas e humanistas, mas que não vacilaram quando circunstâncias extremas o exigiram. O Cesare, desde a primeira vez que o tive frente a frente, ao entrevistá-lo dissimuladamente na Papuda apesar de o relator do processo não estar permitindo entrevistas, não me pareceu possuir tal têmpera.

Errei ao comparar meus antigos companheiros de luta armada, que sabiam estar enfrentando uma ditadura assassina e se dispunham a vencer ou morrer, com um europeu que atuou em circunstâncias mais amenas e, como várias vezes demonstrou, não cogitava sacrificar a vida pela causa. A diferença de perfis me deu a impressão de que, diante do perigo, ele refugaria como um Bolsonaro qualquer.

Mas, se há diferenças jurídicas entre pegar em armas para resistir a um terrorismo de Estado imposto a partir de uma usurpação golpista do poder (como foi o caso brasileiro) e uma democracia que agia como ditadura no tocante à repressão policial e à tendenciosidade jurídica por ela praticadas naqueles anos de chumbo (como foi o caso italiano), no campo de batalha a diferença era quase nenhuma.
Sábio foi François Mitterrand que, face aos inegáveis excessos cometidos pelos dois lados na Itália (sendo que quem primeiro neles incidira havia sido a extrema-direita e as matanças por ela produzidas foram as piores, já que nos seus grandes atentados as vítimas eram muito mais numerosas e quase todas civis), ofereceu em 1985 proteção aos perseguidos italianos dispostos a desistir definitivamente de suas lutas e passar a viver ao abrigo das leis francesas e as cumprindo.

Os fascistas não precisaram disto, pois eram tratados com uma repulsiva complacência pelo Estado italiano. Aos que os combatiam, no entanto, era aplicado todo o rigor da lei, além de tudo mais que pudessem fazer na surdina. 

Os náufragos daquela utopia mereciam viver em paz dali em diante, como Battisti teria vivido –depois de exercer algumas profissões honestas na França, constituir família e se projetar como escritor– se Berlusconi não o houvesse erigido em troféu preferencial para fins de autopromoção.  

Como surpreendentemente declarou a Lucas Ferraz o insuspeito Mattia Feltri, articulista do jornal La Stampa e filho de um dos jornalistas mais conservadores da Itália, o verdadeiro motivo da perseguição a Battisti foi "uma vingança do Estado". E explicou: 
"Contra a lei e contra a lógica, o Estado italiano não parece ter por Battisti uma urgência de justiça, mas sim uma urgência de vingança. Nada justifica a segurança máxima para um homem quase septuagenário condenado à prisão perpétua por homicídios cometidos há mais de quatro décadas, mas imagino que invocar um tratamento justo e digno para um homem detestado por todos seja um pouco irrealista"
F
ascinado desde os 16 anos de idade pelas poesias de Brecht, é na última estrofe de
Aos que virão depois de nós que fui buscar o recado que quero deixar aqui como palavra final:
"Nós sabemos: o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca! Infelizmente, nós, que queríamos preparar o caminho para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão"(CL) 
Teclem no título para acessar os textos desta série:
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (desta vez sem copo de pinga na mão) – 1
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (o acerto de contas com homens de poder) – 2
BATTISTI NA FOLHA DE S. PAULO (tudo não passou de vingança do Estado) – 3

quarta-feira, 20 de abril de 2022

MÁRTIR? TIRADENTES FOI, ISTO SIM, UM HERÓI REVOLUCIONÁRIO!

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
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(por Celso Lungaretti)

sábado, 12 de fevereiro de 2022

PAULO FRANCIS: ATÉ SEU AUGE COMO GURU DO "PASQUIM", ELE FOI UM TITÃ.

"Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão"

(Brecht, Aos que virão depois de nós)
Passou praticamente despercebido, na semana passada, o 25º aniversário da morte de um dos jornalistas brasileiros mais influentes da segunda metade do século passado: o analista político e crítico de cultura Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis, que morreu no dia 4 de fevereiro de 1997, de enfarte, aos 66 anos de idade.

Os mais jovens, que não conheceram o Francis d'O Pasquim e da vibrante participação inicial na Folha de S. Paulo (quando esta ainda tinha como diretor de redação o inesquecível Cláudio Abramo, defenestrado pelos militares em 1977), guardam dele a imagem  antipática, às vezes até reacionária, da segunda metade de sua carreira.

Eu não considero Francis um típico esquerdista que endireitou ao se tornar sexagenário, conforme a frase célebre do presidente Lula.

Prefiro vê-lo como quem caiu numa armadilha da História, pois suas convicções arraigadas e um cenário enganador o induziram a um terrível erro de avaliação. E não sobreviveu tempo suficiente para cair na real e, talvez, corrigir seu rumo.

Para um melhor entendimento do que estou falando, vou evocar sua trajetória toda.

Ele estudou em colégios de jesuítas e beneditinos, cursando depois, por uns tempos, a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. Trocou-a por uma pós-graduação em Literatura Dramática na Universidade de Columbia (Nova York), também não concluída.

Chegou a ser ator e diretor teatral, mas acabou no nicho tradicional dos que são melhores para escrever sobre suas paixões artísticas do que para personificá-las: a crítica, a partir de 1959, no Diário Carioca.

Paralelamente, colaborava com a revista Senhor (que mais tarde viria a editar) e escrevia sobre política no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Relatou, mais tarde, um episódio pitoresco do seu noviciado. Entregou uma crítica teatral toda pomposa, repleta de termos pernósticos, ao seu editor. 

Ao recebê-la de volta, havia um grosso traço vermelho circundando a expressão via de regra. E o comentário cáustico: Via de regra é a buceta...

[Para os jovens que desconhecem o linguajar de outrora, esclareço que regras era um eufemismo para menstruação.]

Francis disse que essa foi a primeira e única lição aproveitável de jornalismo que recebeu: escrever com simplicidade e clareza, em vez de pavonear-se com exibições desnecessárias de erudição.

Também comentou que tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação. Daí sua avaliação de que o fundamental para o exercício dessa profissão é uma formação cultural sólida, humanística e universalizante.

Ou seja, jornalismo tem tudo a ver com história, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia, política, economia, literatura. Isto, sim, é que deveria ser priorizado na formação de um jornalista, segundo Francis.

[E assim o lecionavam, p. ex., na Escola de Comunicações e Artes da USP quando a cursei, entre as décadas de 1970 e 1980. Os dois primeiros anos eram voltados para a formação geral e só os dois últimos para a formação específica – a proporção de 3 x 1 seria mais apropriada ainda. Depois, tragicamente, sobreveio a capitulação diante do capitalismo pós-industrial, que execra o pensamento crítico e reduz o ensino à mera capacitação profissional.]
NA TRINCHEIRA DAS PALAVRAS Embora não deixasse de registrar os erros e limitações das esquerdas brasileiras, por ele tidas como muito distantes da grandeza histórica e intelectual do seu ídolo de então (Trotsky, o homem que liderou a tomada de poder pelos bolcheviques em 1917 e criou o Exército Vermelho, assegurando a sobrevivência da revolução na guerra civil de 1918-1921), Francis considerava que a prioridade era combater as forças de direita.
Amigos como Carlos Heitor Cony atribuíram seu enfarte à
astronômica indenização que teria de pagar à Petrobrás
por esta declaração, que o petrolão provaria ser correta!
 

Foi o que fez no conturbado período da renúncia de Jânio Quadros, da tentativa de golpe para impedir a posse do vice-presidente eleito e do ziguezagueante governo de João Goulart.


Não desistiu depois do golpe militar. No
 Correio da Manhã, na Tribuna da Imprensa e na revista Realidade, continuou manifestando seu inconformismo com o país da ordem unida.

O lançamento do semanário O Pasquim, em junho de 1969, lhe deu projeção nacional. A Senhor e a Realidade já o haviam tornado conhecido noutros estados, mas num circulo restrito de intelectuais e pessoas sofisticadas. O Pasquim conquistou o público jovem, atingindo tiragens mirabolantes para um veículo alternativo.

E o Francis era o guru da turma em todos os assuntos referentes à política nacional e internacional, bem como à visão de esquerda da cultura. Com seus conhecimentos vastíssimos, dominava qualquer discussão.

Leitor assíduo de um sem-número de publicações estrangeiras, tinha sempre algo novo a dizer sobre a Guerra do Vietnã, um dos grandes temas da época.

Furando toda a grande imprensa, Francis, n'O Pasquim, foi o primeiro a informar os leitores brasileiros sobre o massacre de My Lai, que fez crescer em muito o repúdio mundial à intervenção estadunidense.

Disponibilizava as informações que a mídia, por ideologia, covardia ou incompetência, sonegava do seu público.
Alfinetada do Instituto Liberal: Francis teria começado
no trotskismo e acabado no capitalismo selvagem.
 

Era também um crítico implacável da postura israelense de impor sua vontade pela força no Oriente Médio, o que lhe acarretava acusações rasteiras de que isto se deveria à sua ascendência alemã.


E, sendo um dos opositores mais contundentes do reacionarismo dos EUA, também não poupava a URSS, que colocava praticamente no mesmo plano, como grande potência que priorizava sempre seus interesses (e não os da revolução). 

Isto só fazia aumentar o seu prestígio aos olhos de uma geração que se decepcionara terrivelmente com o esmagamento da Primavera de Praga.

Cansado de ser preso pela ditadura, mudou em 1971 para Nova York, de onde mandava seus textos para o próprio Pasquim, a Tribuna da Imprensa, a revista Status e a Folha de S. Paulo (à qual chegou pelas mãos do diretor de redação Cláudio Abramo, também de formação trotskista).

Continuava, basicamente, um homem de esquerda, mas travava polêmicas azedas com quem ele considerava esquerdistas de salão, como a feminista Irede Cardoso. [Ela sofreu um dos maiores massacres intelectuais que já acompanhei.]
SOB OS HOLOFOTES GLOBAIS – Paulo Francis, como muitos outros intelectuais de sua geração, foi perdendo o pique à medida que a ditadura ia deixando de exibir suas garras. Seu talento sobreviveu à ditadura, mas definhou na praia da redemocratização.

A partir de seu posto de observação privilegiado, captou bem a tendência desestatizante do final do século passado.
A polêmica mais famosa de Francis: com Caetano Veloso.
E foi quando toda sua história de opositor ferrenho da estatização compulsória e autoritária que caracterizaram o stalinismo fê-lo cometer um desatino: ajudou entusiasticamente a impulsionar a desestatização de Thatcher e Reagan, com seus escritos em O Estado de S. Paulo e suas participações no jornalismo da Rede Globo, bem como no Manhattan Connection.

Se estava certo quanto à falta de pujança da economia soviética e o parasitismo das estatais brasileiras, não percebeu que o mundo engendrado pela globalização viria a ser uma versão mais desumanizada ainda do capitalismo selvagem.

O oásis que vislumbrou era ilusório. Todos aqueles avanços científicos e tecnológicos que estavam ocorrendo simultaneamente (informática, biotecnologia, engenharia genética, novos materiais e processos) pareciam mesmo augurar um futuro melhor para a humanidade... mas desembocaram, isto sim, numa forma mais avançada de dominação, como Marcuse previra. 

Ou seja, a ciência e a tecnologia acabaram ajudando a perpetuar a desigualdade social, as injustiças mais aberrantes e o embotamento do senso crítico.

Só que não era tão fácil adivinhar-se tal evolução naquele instante de enorme otimismo e euforia, assim como poucos em 1970 apostariam que o milagre brasileiro de Delfim e Médici fosse ter fôlego tão curto.

A intuição de Francis o traiu quando mais precisava dela, para evitar a nódoa final numa biografia impecável.
Ironia era com ele mesmo

Acabou como um daqueles medalhões midiáticos que antes ridicularizava, aclamado mais por ter se tornado celebridade do sistema do que pela real qualidade do seu trabalho – como suas incursões pela literatura, em que a racionalidade e a mordacidade excessivas deixam tudo com um jeitão artificial, de tramas concebidas mecanicamente para demonstrar teses, ridicularizando comportamentos e desafetos.


Morreu na hora certa, antes que o admirável mundo novo erguido sobre os escombros do muro de Berlim mostrasse suas feições monstruosas, sepultando, en passant, as análises e avaliações que Francis fazia em seus últimos escritos – os quais acabaram se revelando, mesmo, agônicos...

Ou, pelo contrário, talvez tenha perdido a chance de constatar que o fim do socialismo real não significava o fim da História, com o status quo se tornando tão insuportável que os homens estão sendo obrigados a buscar uma nova utopia.

Quem sabe até, em mais uma reviravolta surpreendente, não teria sido ele um dos arautos dessa nova utopia?

O certo é que, independentemente de, em seus estertores, haver-se extraviado num labirinto do destino, foi um intelectual articulado e consistente como dificilmente se vê nestes tristes trópicos, deixando o legado de uma atuação memorável nas décadas de 1960 e 1970.

Talvez o melhor epitáfio para Paulo Francis seja outra de suas frases célebres: Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros. (por  Celso Lungaretti)
Documentário de longa-metragem sobre Paulo Francis, realizado
por Nelson Hoineff em 2009, incluindo depoimentos dos
seus amigos, admiradores e detratores...
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