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sábado, 22 de junho de 2024

AINDA SOBRE AS CRIANÇAS, A PUTARIA, O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E AS DEMAGOGIAS ELEITOREIRAS

Paulo Francis, que foi um guru do pensamento crítico nas fileiras da esquerda até a fase do
Pasquim mas depois se desencantou e descaracterizou de forma melancólica, dizia que o espaço das cartas de leitores na grande imprensa era qualificado pelos jornalistas profissionais de muro das lamentações, pois nenhum deles o levava a sério.

Eu, pelo menos, sempre respeitei os comentaristas, até porque devo já ter transformado em artigos pelo menos uma centena das respostas que dei a eles. 

Meus melhores textos e melhores falas costumam ser os que me vêm à mente no meio de uma argumentação, às vezes até contrariando a linha de pensamento que eu vinha seguindo. E nunca fui preguiçoso a ponto de desperdiçar o rumo que o artigo tomou sozinho só para não mexer um pouco no que já estava escrito.

Então, graças aos pertinentes comentários do SF ao meu artigo  sobre o antepenúltimo sincericídio desastroso do Lula, posso agora acrescentar um complemento àquele post que, espero, vá enriquecer a discussão que levantei. Tomara que os leitores concordem. (por Celso Lungaretti)
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JÁ NÃO DÁ MAIS PARA BOTARMOS CRIANÇAS SOB UMA REDOMA
Essa imagem do menor de idade como anjinho assexuado foi feita em cacos há 119 anos, quando Freud publicou seu Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Temos é de preservar as etapas de amadurecimento sexual pelas quais passam as crianças, impedindo que adultos maliciosos as acelerem para locupletarem-se, traumatizando os pimpolhos.
  
Já não dá mais para colocarmos crianças sob uma redoma, tentando vedar-lhe o contato com os conteúdos adultos. Não se deve nem se consegue censurar toda uma sociedade na era da internet.

Ainda no tempo das fitas VHS, uma amiga minha, voltando para casa numa tarde mais cedo do que o habitual, surpreendeu seus filhos e outros colegas de escola, todos numa faixa de 12 anos, assistindo a um filme de sadomasoquismo explícito que haviam retirado da videolocadora com a carteirinha paterna.

Quanto aos fundamentalistas religiosos, sua idealização da inocência infantil não passa de uma ilusão compensatória por eles saberem-se apodrecidos até a medula. 

Isso, aliás, me faz lembrar uma frase antológica do filme Exótica (1994), do Aton Egoyan, quando o comentarista de uma boate sofisticada pergunta à plateia, durante o número de uma stripper produzida como estudante: "Por que uma colegial nos parece tão fascinante, será porque ela tem a vida inteira pela frente enquanto nós já desperdiçamos as nossas?"

Levar essa gente a sério, nem que seja por demagogia eleitoreira como no caso do Lula, é absolutamente indesculpável para as pessoas civilizadas.

Retrocesso civilizatório só convém aos bárbaros. A frase do Lula me fez lembrar o Bolsonaro recomendando a cloroquina no auge da covid-19. (CL)

sábado, 27 de abril de 2024

O BRASIL SE TORNOU UM EVANGELISTÃO?

H
á muita gente preocupada com a insistência das redes sociais de extrema-direita e evangélicas em continuarem reprisando velhas mentiras ou criando novas versões, sem perda de seguidores. 

Tal fidelidade, capaz de gerar meio-milhão de visitas e centenas de milhares de curtidas em algumas horas, foi reforçada com as recentes críticas do proprietário do X, Elon Musk ao ministro Alexandre de Moraes do STF e deu ensejo a mais uma micareta dominical bolsonarista em Copacabana, reunindo o Bozo, o pastor Silas Malafaia e outros espécimes da mesma laia. 

Embora na bufonada de fevereiro na avenida Paulista (SP) o clima tenha sido comedido, com o astro da trupe propondo anistia para todos, a recente intervenção estrangeira de Elon Musk relançou o clima de polarização e deverá trazer de volta os discursos de ódio contra o presidente Lula e o STF.  

Alguns canais de esquerda se perguntam por que o governo de Lula não é mais ativo nas redes sociais para mostrar as realizações positivas de seu governo, a fim de estancar esse constante desgaste provocado por fake news e discursos de ódio.

Ou é simplesmente impossível chegar até os adeptos ultradireitistas (ainda que em grande parte sejam negros, pardos, pobres e mulheres), insensíveis aos alertas de que seu líder é racista, indiferente às medidas contra a pobreza e mesmo contrário à liberdade para as mulheres?
Musk: rato que ruge em nome da liberdade de empulhação

Só alguns começam agora a perceber a existência de uma impermeabilidade impedindo os bolsonaristas de captarem as verdades relativas aos direitos sociais. 

Tal impermeabilidade é criada pela maneira como funcionam as seitas neopentecostais, as quais, como comunidades, apoiam e incentivam atividades capazes de criar proximidade entre as pessoas e são como células ativas, com reuniões todas semanas. 

As pregações, as escolas bíblicas para crianças e jovens são constantes, semanais ou bissemanais, não deixando espaços para outros tipos de preocupações depois do trabalho. Nisto lembram as antigas células do partido comunista com atividades para estudantes, donas de casa e operários. Hoje, não se faz mais isso, porém os evangélicos, além de religião, se tornaram partido político fundamentalista.

O líder petista José Dirceu, em recente entrevista, sustentou que Lula e o PT deveriam ir ao encontro dos evangélicos. Não deixou nada preciso, mas lembrou que a igreja católica entrou em decadência ao reprimir a teologia da libertação, que ia ao encontro do povo, deixando então o caminho aberto para os neopentecostais.

Muitos bolsonaristas esqueceram de que foi Lula quem favoreceu a criação da marcha para Cristo e facilitou os alvarás para as igrejas evangélicas funcionarem em garagens, enquanto a então presidente Dilma compareceu à inauguração do Templo de Salomão do Edir Macedo. 
Dilma botando azeitona na empada do Edir Macedo

A ideia de o Lula ir ao encontro dos evangélicos não é assim tão simples, pois não houve retorno favorável aos esforços petistas do passado. 

Muito ao contrário: empenhados em impedirem a eleição do Lula em 2022, os líderes evangélicos usavam as redes sociais para amedrontar seus fiéis com os espantalhos do advento do comunismo e do fechamento de igrejas caso o candidato petista fosse eleito. Ainda hoje a bancada evangélica amiúde boicota o governo do Lula.

Ressalve-se que, embora a maioria evangélica continue sendo bolsonarista, existe também uma minoria de esquerda, como o deputado federal Henrique Vieira e a ministra verde Marina Silva. Entretanto, os pastores e seguidores evangélicos são majoritariamente fundamentalistas, incluindo muitos golpistas; suas afinidades com a extrema-direita saltam aos olhos. 

Na verdade, quase se poderia falar num desvio evangélico ou numa refundação da teologia evangélica, por influência da igreja Assembleia de Deus e de teólogos fundamentalistas dos EUA cujos seguidores lá apoiam Donald Trump para a presidência. 

Trata-se da Teologia do Domínio, que, num rápido resumo, consiste numa recalibragem da mensagem cristã evangélica misturando-se com preceitos básicos do  Velho Testamento. O cristianismo deixa de ser só mensagem de paz e amor, como se pregava, para juntar conceitos guerreiros do Deus de Abrãao.
As arengas dos pastores do ódio
são corpos estranhos no século 21
 
Quem seguiu pela televisão a última micareta bolsonarista  na avenida Paulista talvez tenha percebido: não se falava nunca em Jesus Cristo, mas sempre em Deus, subentendido o Deus de Israel, donde uma identificação dos evangélicos com os israelenses (embora não sejam cristãos), a ponto de ostentarem e respeitarem a bandeira de Israel.

Nessa linha, os novos evangélicos são combatentes do Bem contra o Mal, ou seja, defendem valores vigentes no século passado, combatendo o aborto, o homossexualismo, o feminismo, etc. 

Nos EUA, onde a colonização foi guerreira e a posse e o uso de armas é comum na população, há o risco de guerra civil, caso Trump seja derrotado ou não possa disputar a eleição presidencial. 

Ao que parece (pelo menos os fatos o demonstram), a teologia belicosa do domínio, já transformada em partido político de extrema-direita e orientada no sentido de garantir a eleição de Bolsonaro, não funcionou com os evangélicos brasileiros, cujo pacifismo inato fez ruírem os planos dos líderes golpistas na intentona fracassada de 08/01/2023.

Resta uma dúvida: por que Deus escolheu como líderes Trump, nos EUA, e Bolsonaro, no Brasil? Para isto é dada a seguinte explicação: Deus unge ou escolhe pessoas que nem sempre são perfeitas. E logo é citado o caso do rei Davi, herói contra Golias, escolhido por Deus, mesmo tendo antes pecado no caso de Urias e Betsabá, crime e adultério. Os pastores então impingem aos crédulos que Deus escolheu Trump mesmo com todos os seus erros, e Bolsonaro apesar de todas as suas falhas e pecados.

Há alguma lógica ou racionalidade nisso? Não, nenhuma. Entretanto, os evangélicos poderão ultrapassar os 50% da população em 2050 e criar novas leis favorecendo seu credo conservador e fundamentalista. Não será uma exceção: o Irã é uma teocracia islâmica, o governo do Hamas em Gaza é outra e Israel cada vez mais involui para uma teocracia. (por Rui Martins)
I
mportante
 – escrever para o Observatório da Imprensa não é um emprego, não se ganha nada, mas era para mim uma oportunidade de utilizar o conhecimento de uma vida no jornalismo para analisar o que se lê ou vê no mundo da imprensa, até porque o OI é geralmente lido por estudantes de jornalismo. 

Por isso, para mim é uma tristeza ver que o OI muda de direção, exerce censura e desrespeita um profissional. É em nome desse respeito à profissão e à liberdade de expressão que peço aos leitores para divulgarem esta informação. Grande abraço. (RM)

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

ZANIN E O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO NO STF

 


Qual a diferença entre um fanático islamita do Iraque e um fanático cristão evangélico brasileiro? Vamos recorrer à literatura. No caso, ao prestigioso prêmio Goncourt do primeiro romance de 2021, concedido à escritora argelina Emilienne Malfatto por seu livro Que por você se lamente o rio Tigre.

É a história do último dia de uma jovem iraquiana que será morta por seu irmão pelo crime de ter ficado grávida sem ter antes se casado religiosamente, como manda a lei do Profeta. Para manter a honra da família, seu irmão, assim que chegar do trabalho, quebrará sua cabeça com uma grande pedra e ninguém mais poderá pronunciar seu nome. Esse crime não será punido porque, na verdade, sua irmã pecadora nunca existiu…

A outra história de pedra, ou melhor pedras, é contemporânea. São 40 mil metros quadrados de pedras, importadas de uma pedreira de Hebron, na Cisjordânia, terra do patriarca Abraão, pelo fanatismo de Edir Macedo, para construir o Templo de Salomão da Igreja Universal. Pedras consideradas sagradas, na qual tocam com fervor as mãos dos fiéis pentecostais, à espera de bençãos e milagres, em gestos idólatras de pedralatria?

Vamos deixar de lado o fanatismo feminicida iraquiano. Felizmente, as fogueiras cristãs onde se assavam hereges já se apagaram faz tempo, embora a exigência da submissão feminina ao homem, considerado ser superior pelo livro sagrado, continue de maneira mais soft. O que nos interessa agora são as pedras. As pedras vindas em navio cargueiro em 2011.

Quantos milhões de reais teriam custado esses 40 mil metros quadrados de pedras sagradas, que não podem ser mastigadas pelos 30 milhões de famintos brasileiros? Quantos pãezinhos poderiam ter sido comprados para serem distribuídos numa Santa Ceia nacional? De nada adiantou Jesus ter alertado: “qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra?”; Edir Macedo trouxe pedras de Hebron, na Cisjordânia, em lugar de pão, e essa importação de pedras sagradas não preciosas implicava no pagamento de um imposto de importação igual a 85 mil reais. Edir Macedo se revoltou com essa imposição tributária.

É verdade, embora o Brasil seja um país laico, não siga a lei mosaica e garanta a liberdade de as pessoas terem outras crenças além da evangélica, existem as exceções, e no Brasil as exceções parecem ser a regra! Uma dessas exceções é a de que os pastores e as igrejas evangélicas não paguem impostos, nem o de renda. Ao que a Receita Federal retorquiu com outra exceção: a imunidade tributária concedida aos evangélicos e às outras religiões só vale dentro do território brasileiro, não inclui o comércio exterior.

De nada adiantou Edir ter convidado Dilma Rousseff à inauguração do Templo de Salomão com pedras de Hebron. Como também de nada adiantou Dilma ter quebrado o princípio da laicidade ao participar dessa inauguração, esperando ali conquistar a confiança dos pentecostais evangélicos. Se as pedras falassem, muito teriam o que contar.

Diante da resistência da Receita Federal, apoiada numa decisão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, existe a informação do pagamento do imposto pela Igreja Universal, no ano passado, no governo Bolsonaro. Porém, Edir Macedo fez um apelo à suprema instância que, provavelmente por milagre divino, caiu por sorteio para decisão monocrática com o ministro terrivelmente evangélico, André Mendonça, que chutou mais para baixo o princípio da laicidade do Estado brasileiro. Agora, a imunidade a impostos, ICMs inclusive, é mista, incluindo “o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as finalidades essenciais das entidades imunes”.

Ou seja, essa decisão de que importar pedra sagrada não precisa pagar imposto, pode abrir caminho para outras importações religiosas talvez mais valiosas do que pedras, desde que sirvam à missão da igreja. A porta foi aberta. Se Lula decidir dar mais alguns favores aos evangélicos, poderemos falar numa evangelização do STF, mesmo porque, embora não sendo evangélico, o mais recente ministro Cristiano Zanin vem se revelando conservador como os evangélicos, reforçando posições retrógradas e poderá travar aberturas esperadas pela esquerda.

Isso é bastante sintomático, ou seja, em poucos dias como ministro, a imprensa de esquerda e mesmo centro esquerda está assustada, pois Zanin terá pela frente uns 25 anos como ministro. Zanin preocupa os líderes de movimentos sociais petistas, que se sentem traídos, depois dos votos do novo ministro contra a equiparação da homotransfobia ao crime de injúria racial, contra a esperada descriminalização do porte de maconha para consumo pessoal e contra o princípio da insignificância para furtos de pequeno valor. Jurista experimentado na advocacia, Zanin parece mais fiel ao teor e letra da lei que à aplicação social da lei, lembrando nisso o rigorismo do inspetor Javert de Os Miseráveis.

A esperança agora é a indicação de uma mulher negra, porém desde que não seja evangélica porque isso poderia significar mais um reforço dos conservadores e criaria problemas em questões relacionadas com LGBT, aborto e igualdade racial. (por Rui Martins) 


segunda-feira, 24 de outubro de 2022

FORA, VENDILHÕES DO TEMPLO!

dalton rosado
FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO E MISÉRIA POLÍTICA
Historicamente a política, entendida como formatação de poder e de canal de acesso ao dito cujo, teve forte influência religiosa. Não é rara a associação do poder de mando político a uma unção divina sob a qual tal poder é exercido.

A nossa chamada carta magna começa assim:
"Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático... promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil".
O Estado é laico, mas os seus constituintes invocam a proteção de Deus. A fé monoteísta ainda hoje permeia a ação política dos homens, sendo este o traço da presença religiosa na nossa sociabilidade laica.

Quando surgia o capitalismo e se queria separar o Estado monárquico feudal ocidental da influência simbiótica deste com a Igreja Católica Apostólica Romana, filósofos iluministas como Thomas Hobbes e John Locke já criticavam o protagonismo público de grupos ou movimentos religiosos radicais, fechados à crítica e infensos ao reconhecimento da pluralidade de convicções.

As frases iluministas do século 18 estão mais atuais do que nunca, presentes no pensamento democrático burguês em contraponto ao conservadorismo religioso pentecostal reacionário de proposição de uma prosperidade coletiva impossível de ocorrer sob a égide das relações capitalistas, pretensamente tuteladas pela proteção divina.

Para os fundamentalistas religiosos tudo que se consegue vem de Deus; as mazelas sociais são artes do demônio que se apoderaria das mentes pouco crédulas!

Brasil acima de tudo; Deus acima de todos, o lema do Boçalnaro, o ignaro, primeiramente reafirma o teor nacionalista xenófobo que é a essência do seu militarismo retrógrado (e que se contrapõe ao liberalismo clássico do Paulo Guedes, contradição com a qual ambos convivem por força do mútuo apego ao poder); e, em segundo lugar, quer passar a impressão de que conta com a benção divina como um messias salvador.

Quanto mais a miséria social se aprofunda no seio das sociedades, mais se aproveitam e se apressam os mercadores da fé em fazer uma leitura bíblica fundamentalista que é repassada aos fiéis sob estes eixos básicos:
— o convencimento dos fiéis de que todos podem prosperar, desde que aceitem a fé ditada naquela igreja específica (agora são milhares as denominações religiosas protestantes);
— o conservadorismo nos costumes, como condicionante para se ganhar o reino dos Céus;
— o pagamento do dízimo, parte bem terrena da pretendida salvação na vida espiritual.

País de maior contingente populacional católico do mundo, o Brasil sempre foi elitista e conservador, detendo o desastroso título de um dos mais concentradores de renda do mundo ocidental (rivaliza com os emirados árabes nesta matéria).

Viu, de uns anos para cá, o crescimento do pentecostalismo conservador reacionário anticatolicista crescer significativamente, fazendo a riqueza dos dirigentes religiosos e seus tentáculos nacionais (e alguns já internacionais).

O empobrecimento dos brasileiros na última década é inversamente proporcional ao crescimento da riqueza de muitos pastores e ao aumento do número de fiéis e das denominações religiosas que abrem suas portas (enquanto as lojas e estabelecimentos comerciais capitalistas as fecham).

A miséria social é campo fértil para a proposição e aceitação, por parte de incautas vítimas sociais, tanto da promessa (vã) de prosperidade, quanto da orientação política patrocinada pela maioria dos pastores evangélicos que se associam politicamente aos seus delegados políticos (quando não são eles próprios os protagonistas da cena política) para a dominação política do Estado laico. Neste cenário a política é tão presente quanto a doutrinação religiosa fundamentalista.

Não é por menos que temos no Congresso Nacional uma bancada evangélica que, na prática, se constitui num partido político religioso unificado sob várias siglas político-partidárias. 

O mesmo ocorre noutras instituições do poder do Estado, de modo que se nomeiam ministros para o Supremo Tribunal Federal em razão de serem terrivelmente evangélicos e não por seus méritos como magistrados. Como esperar deles a obrigatória isenção no ato de julgar?

Vivemos no Brasil (e no mundo) um retrocesso social, político e cultural que prospera paralelamente ao aprofundamento de miséria social, até porque existe correlação entre uma coisa e outra.

As pesquisas de opinião pública estão a demonstrar a preferência eleitoral dos fiéis evangélicos pelo presidenciável batizado no rio Jordão pelo pastor Everaldo (aquele que foi preso por corrupção) e que nomeou outro pastor como ministro da Educação (aquele defensor da teologia da discriminação que viajava armado, mas foi preso por desviar para seus cumpliciados evangélicos as parcas verbas de sua pasta.

Para a elite brasileira e para as lideranças religiosas pentecostais, não importa(m):
— Boçalnaro ter dito que pintou um clima entre ele e jovens adolescentes venezuelanas refugiadas (suas frases sexistas vem desde quando era deputado federal e chegou a afirmar a uma colega que não a estupraria por ser feia);
— o genocida haver virado as costas à compra de vacinas (e até hoje trombetear que não é vacinado) num momento em que o mundo todo disputava a compra das ditas cujas; 
— a CPI da Covid ter concluído que existiu tentativa de corrupção por parte do Ministério da Saúde na compra de vacinas, na base do por fora de 1 dólar a cada dose;
— o governo ultradireitista 
ter reduzido as verbas para a educação, após haver nomeado três ministros que teve de afastar, sob vara, por incompetência e/ou corrupção;
— que o primeiro mandatário da nação tenha um imenso histórico de incontinência verbal, tudo levando a crer, p. ex., que as frases machistas e misóginas, tão repetidamente por ele disparadas contra as mulheres, refletem sua verdade interior;
— o nepotismo do dito cujo (como a nomeação absurda para embaixador do Brasil nos Estados Unidos de um filho despreparado para o cargo (ato felizmente contido pela opinião pública clamorosa) e a corrupção evidenciada na compra em dinheiro vivo de imóveis no valor de R$ 51 milhões;
— o desmantelamento de todos os órgãos ambientais, culturais, de combate ao racismo e de combate à dissociação de gênero;
— as constantes ameaças de autogolpe e de fechamento das instituições de poder democrático burguês para substituí-las por mecanismos totalitários e intolerantes, próprios ao arbítrios de quem se considera ungido por Deus para governar por tempo indefinido;
— as reiteradas mentiras, logo desmascaradas, do portador da faixa presidencial, como aquelas de se dizer um outsider da política, mas colocar os filhos e ex-mulheres na vida política e, por fim, retirar a máscara e se subjugar aos parlamentares do centrão (que pratica impunemente a mais descarada forma de corrupção oficial já experimentada no Brasil e quiçá no mundo, qual seja o chamado orçamento secreto).

"Nada importa! O que importa é que o candidato sirva aos nossos propósitos retrógrados e interesses mesquinhos."Assim, pensam e agem os reacionários sociais e religiosos fundamentalistas.

Vivemos a tentativa de imposição de um retrocesso às trevas da Idade Média, por parte dos fanáticos religiosos fundamentalistas, dos neófitos religiosos e dos dirigentes
pastorais manipuladores e adeptos da teologia do oportunismo político-econômico diante da miséria alheia,.

Vale, contudo, lembrarmos Belchior ("Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem!"), pois, como contraponto, temos a esperança de que, tal como Fênix ressurgindo das cinzas, possamos dar o salto qualitativo necessário para a concepção do novo, livre das amarras de um passado e presente escravistas.

Fora, vendilhões do templo! Pois foi esta a lição que nos legou Jesus Cristo, indignado e firme.

Viva a emancipação humana! (por Dalton Rosado)
A saudosa Elis Regina interpreta um dos maiores sucessos de Belchior

sábado, 17 de setembro de 2022

UM MESMO CRISTO, MAS DOIS EVANGELHOS

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ma estimada amiga de João Pessoa (PB) me presenteou com um livro do conhecido frei Betto, que tem como título Jesus militante. 

Foi um presente bem oportuno neste momento político do Brasil, onde uma facção de intitulados seguidores de Cristo tomou parte da cena e tem peso suficiente para decidir a eleição presidencial, influir na composição da próxima Câmara Federal, na substituição de um terço do Senado, sem omitir sua influência nas votações estaduais e municipais.

O livro do frei Betto é todo ele baseado no Evangelho de São Marcos, contemporâneo –assim como Mateus, Lucas e João– de Jesus na época do domínio e controle da Palestina pelos romanos. Ele contou seu convívio com Cristo e transmitiu, nos seus escritos, as mensagens deixadas pelo verdadeiro messias.

É sempre impressionante, quando se trata da figura de Jesus, imaginar-se como uma figura desvinculada do clero dominante da época (dominado e comprometido com os ocupantes romanos), sem poder econômico ou político, ainda subsiste dois milênios depois, exercendo influência tão marcante na sociedade.

Por isto mesmo, muitos historiadores, principalmente nestes últimos dois séculos, deixando de lado sua significação religiosa –construída por seus seguidores (dos quais surgiu a Igreja, dividida pela Reforma e subdividida pelos movimentos decorrentes)– quiseram ir além dos relatos santificados.

Sem entrar nesta busca, da qual surgiram numerosas escolas, livros e interpretações, me lembro de uma delas, talvez mais conhecida embora menos comentada que A vida de Jesus, do francês Ernest Renan, do Collège de France: trata-se da pesquisa feita pelo humanista franco-alemão Albert Schweitzer, mais conhecido como missionário na África, publicada com o título de A busca do Cristo histórico.
Quem foi Jesus? Existiu mesmo? Teve uma certa importância com seus milagres, suas parábolas, suas declarações, criou algum problema para o Império Romano, foi mesmo punido com a pena de morte? 

Morreu numa cruz ou suas mãos foram pregadas acima da cabeça num madeiro ou estaca? Que tipo de pregação ele fazia?

As perguntas, os debates são muitos e não diminuíram à medida que a religião de Jesus, transformada em cristianismo dado o caráter messiânico assumido, chegou às Américas. 

Do lado hispânico-português, exceto a aceitação de uma parte da cultura, lendas, crendices vindas dos índios e dos escravos africanos, o cristianismo católico pouco mudou até meados do século 20.

Entretanto, os ingleses levaram para a América do Norte um protestantismo puritano e anglicano em transformação e ruptura, que se transformou diante das mudanças sociais estadunidenses, crescimento econômico, guerra da secessão (que não solucionou a questão racial imanente). Do dito cujo surgiram as vertentes neopentecostais, que as distinguem das luteranas e calvinistas europeias por serem uma espécie de refundação do cristianismo original pregado por Jesus. 

Tal cristianismo é substituído por uma mistura com o judaísmo dos profetas e a substituição da linguagem pacífica do cristianismo nascente pela recuperação da linguagem guerreira dos reis, dos nacionalistas monoteístas e do próprio deus Jeová contra os vizinhos idólatras. 

No fundo, é o cristianismo do western, da sobrevivência dos imigrantes brancos contra a população autóctone indígena.

É esse cristianismo neopentecostal branco evangélico que se transformou no principal suporte do capitalismo estadunidense e que hoje apoia Donald Trump e novamente ameaça os Estados Unidos de secessão.

E aqui chegamos aos dois Evangelhos vindos do mesmo Jesus, do mesmo Cristo.

O evangelismo neopentecostal brasileiro, cuja doutrina conservadora, machista, agressiva e guerreira já foi adotada por uma questão de sobrevivência pelas denominações protestantes tradicionais, é o filho dileto do neopentecostalismo dos EUA. 

Ele não se preocupa com a situação de pobreza de seus seguidores, citando duas frases do próprio Jesus: Os pobres, sempre os tereis convosco e O meu reino não é deste mundo. Sua pregação básica é o reino dos céus, para depois da morte.

O capitalismo, com suas desigualdades sociais, não é nenhum problema para os novos guerreiros cristãos –Silas Malafaia, Edir Macedo, Cláudio Duarte, Marco Feliciano, etc.– que oferecem aos seus seguidores o Evangelho da Prosperidade, sem uma discussão social sobre de onde poderia advir essa enganadora e quimérica abastança econômica.

O Jesus Militante do frei Betto é pelo evangelho da Teologia da Libertação, também defendido por Leonardo Boff, segundo o qual a preferência teológica do cristianismo é pelos pobres e pelo fim da desigualdade social. 

Sem gabinete do ódio e sem a linguagem guerreira do bem contra o mal, que poderá justificar todos os excessos e crimes depois das eleições. (por Rui Martins)

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O EVANGELHO DO JUDAS SUBSTITUIU OS DE MATEUS, MARCOS, LUCAS E JOÃO? – 1

rui martins
A DESGRAÇA QUE ASSOLA NOSSO BRASIL
Merece respeito toda religião que prega o bem, a paz entre os homens. Toda religião que considera iguais todas as pessoas, não importando a sua cor, seu gênero e suas opiniões. Toda religião que não usa o nome de suas divindades, os livros sagrados, para induzir pessoas a apoiarem um sistema político ou a darem seu voto a partidos ou homens políticos.

Ao mesmo tempo, num país democrático, os religiosos devem respeitar quem não acredita em deuses, santos, corão, bíblia, milagres, céu e inferno. 

Evidentemente um e outro, o crente e o não crente, podem discordar, achar errado. Mas não podem perseguir, agredir ou marginalizar quem crê ou quem não crê. O direito de crer é assegurado pela constituição, o direito de não crer também é assegurado pela constituição.

O fanatismo, a ignorância podem levar a atos condenáveis e criminosos, como foi o atentado contra o escritor Salman Rushdie, cometido por um beato islamita talibã; ou como foram as perseguições a cristãos feitas por governos ateus; ou como foram as perseguições contra não crentes durante a Santa Inquisição. Deu pra entender?

Porém, a partir do momento em que se misturam água benta, versículos bíblicos, sermões ou missas com pregações políticas (ou se utilizam práticas e símbolos sagrados para simplesmente ganhar dinheiro), espalhando mentiras, maldições, a religião perde todo nosso respeito, porque deixa de ser religião para ser um partido político disfarçado, que usa batina, púlpito, bíblia, orações ou salmos e hinos para enganar os mais humildes, os menos instruídos, os que precisam de apoio psicológico.

A desgraça pela qual vem passando nosso país 
–cujo prestígio mundial acabou, cuja imagem de país amigo e gente boa desapareceu, engolidos por um gabinete do ódio, pela vulgarização do uso de armas, pelo justificação da tortura, pelo assassinato de nossas florestas, pelo genocídio com ou sem cloroquina– vem da eleição, há quatro anos, de um presidente sem qualquer formação, seja cultural, econômica, política, humana... ou mesmo religiosa!

Mas, paradoxo, tal presidente foi eleito com  mais de 30% de votos vindos de pessoas que professam uma religião considerada como seguidora direta das mensagens de amor, de respeito, de paz, de honestidade, de verdade, e que se supõem inspiradas diretamente pelos evangelhos deixados pelos seguidores de Cristo.

Como pôde o Mal subverter, enganar, mentir e transformar a mensagem de paz do evangelho. dela fazendo uma linguagem de ódio, a ponto de pregar e justificar o rompimento da legalidade constitucional, a quebra das regras democráticas, e mesmo incitar cidadãos bons, honestos e pacatos a participarem de arruaças, atos violentos de agitações que poderão provocar mortes no 7 de setembro, como incita direta ou indiretamente o presidente Jair Bolsonaro, para se livrar com antecedência de uma derrota no 2 de outubro?

A resposta é simples, espertalhões bons de conversa mole (superficial e sem profundidade), gente que antigamente faria sucesso nos circos que existiam em todos os bairros e nas cidades pequenas, esses caras bons de conversa mole deturparam a mensagem bíblica e passaram a pregar o mal nas igrejas, numa espécie de anti-evangelho, um evangelho de extrema-direita, inspirado no Velho Testamento. 

Eles substituíram os escritos de Mateus, Marcos, Lucas e João por um apócrifo Evangelho de Judas Iscariotes. 
O Messias e três dos pastores do seu rebanho: Malafaia, Edir e Feliciano.
Quem são os pastores golpistas que espalharam pelas igrejas do Brasil a mensagem falsamente evangélica, a deslavada mentira de que, se Bolsonaro perder, os petistas vão destruir as igrejas e instaurar o comunismo no país? E o apelo, mesmo sendo indireto, de que os evangélicos devem lutar para impedir isso? Inclusive com armas?

No ano passado, às vésperas do Dia da Pátria, num sermão transmitido também online, o pastor Cláudio Duarte –uma espécie de showman de circo, misturando humorismo, piadas toscas e de mau gosto com evangelismo– excitava seus seguidores com a mensagem de que o Brasil estava à beira da guerra civil.

Ainda neste mês, convidado pela bancada evangélica, com a presença do Bolsonaro, levou sua mensagem fundamentalista tipo Deus, Pátria e Família (lema dos fascistas italianos) e, entre tolas piadinhas cristãs, bem adaptadas ao primarismo do público de deputados e senadores ao qual se dirigia, aproveitou para atacar o STF e o ministro Alexandre Moraes, tudo em nome de Deus, fazendo de conta ter esquecido que o Brasil é um país laico. 

Só a criação de uma bancada evangélica já é excrescência num país democrático e não teocrático.

Quem são os principais líderes desse evangelho golpista? Vi esses nomes num site de jornalistas, com a seguinte identificação:
representantes do Reino de Deus no governo Bolsonaro. Seriam, portanto, pastores embaixadores, mas sem terem mostrado credenciais divinas. 

Além do pastor humorista Cláudio Duarte,  estavam listados Marco Feliciano, um dos divulgadores do fake-news da destruição de igrejas no caso de vitória da oposição; Silas Malafaia; Edir Macedo; Magno Malta; Guilherme de Pádua; pastora Flordelis; pastor Everardo; Gilmar Santos; Airton Moira, etc.

Todos eles enganadores do povo humilde, pobre e sem instrução.
IRONIA DA HISTÓRIA – Foi o Partido dos Trabalhadores, mal orientado e esperando converter os evangélicos para o petismo, quem deu força a esses cristãos de fancaria. 

Nem 10% na época, hoje são mais de 30%, tendo inclusive o PT ajudado na implantação dos evangélicos nos países africanos de língua portuguesa, onde hoje os ditos cujos estão derrubando os católicos herdeiros da colonização.

Ninguém deve esquecer a presença e o apoio de Dilma Rousseff na inauguração do Templo de Salomão de Edir Macedo. Os petistas bancaram os trouxas e foram redondamente traídos, em nome de Deus, por Edir Macedo, Malafaia e seu bando de falsos cristãos. 

Ingenuidade petista, esperteza frustrada, mas também falta de informação sobre os evangélicos. 

Bastaria saber como agem nos Estados Unidos, onde são trumpistas e de extrema-direita, esses evangélicos de importação. O PT entrou numa verdadeira canoa furada!

Espera-se que, com a anunciada derrota de Bolsonaro, ocorra também a queda da credibilidade dos evangélicos responsáveis pela eleição e sustentação do nosso pior presidente. Mas, se tal não ocorrer e os evangélicos continuarem a crescer, pode mesmo haver uma tentativa de teocratização do Brasil (recentemente, uma nova lei ampliou ainda mais a isenção de impostos para pastores, pretensos pastores e igrejas evangélicas).

Um exemplo é o programa do candidato evangélico Roberto Jefferson, do PTB, no qual uma das principais propostas é a da criminalização do que chama de cristofobia, criminalização dos culpados por terem aversão ao cristianismo, com processo e prisão para quem criticar ou falar mal dos evangélicos. 

Trata-se de uma versão fundamentalista evangélica ligeiramente amenizada pois, nos países teocráticos talibãs, os hereges são executados em nome de Alá. (por Rui Martins – continua neste post)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

LULA TAMBÉM IRÁ NO TEMPLO DE SALOMÃO PARA RECEBER BENÇÃO DO EDIR?!

rui martins
A ARAPUCA EVANGÉLICA PARA O PT
É normal que o PT se preocupe com o voto dos evangélicos. Foram os pregadores evangélicos os principais articuladores da vitória de Bolsonaro contra Haddad em 2018, quando conseguiram reunir cerca de um terço do total dos votos dos eleitores em todo Brasil. 

Esses eleitores foram induzidos e guiados pelas pregações político-religiosas de pastores de pequenas e grandes comunidades ditas evangélicas, a maioria deles sem formação muito menos teológica que, na época, descrevi como vendedores ambulantes de barbatanas para colarinhos da praça da Sé, em São Paulo, buscando alguma coisa mais rendosa e simples, embora também inútil, para venderem. 

A receita do novo produto foi extraída de um livro tão sagrado quanto pouco lido e praticamente desconhecido pelo povo, com cujas frases dispersas aqui e ali, algumas mesmo contraditórias, se pode construir um manual de crenças e esperanças numa vida eterna depois da morte.

E enquanto ela não chega, ir-se vivendo alheio àquilo que se passa ao redor, ignorando-se e suportando-se as misérias, explorações, sofrimentos e injustiças terrenas, porque no céu nada disso haverá...

A ingenuidade de tantos, a falta de instrução de muitos e a simplicidade de outros garantiu o sucesso da nova receita conjugada com cânticos de fervor, discursos inflamados capazes de criar e realçar a fé e despertar a esperança em tantos fracos e oprimidos. 

As pregações exaltavam o amor, a salvação, a alegria, a paz, como se fossem coisas concretas tão tangíveis quanto as moedas suadas e sofridas depositadas nas bandejas das igrejas como ofertas para o Deus tão misericordioso.

Para alertar os mais desconfiados, propensos à dúvida e insensíveis aos apelos do pregador, existem as sorrateiras, mas claras ameaças do castigo e de mais sofrimentos ainda depois da morte, no fogo do inferno. 

Porque se Jesus representa o amor, seu pai, o rigoroso Deus do Velho Testamento bíblico é a personificação da Justiça, exceto para aqueles que elege como seus preferidos, como costuma também acontecer nas famílias humanas.

Essa nova teologia popularizada no Brasil pelos evangélicos, segundo receituário original estadunidense, já foi aceita pela maioria do pastorado das igrejas protestantes vindas da Reforma, rompendo assim com a cultura do protestantismo europeu vindo de Lutero e Calvino, mesmo que no conceito individualista calvinista estejam as raízes da privacidade e do capitalismo.

Sem esquecer-se de uma evolução de certa forma contraditória com sua origem, a da separação entre Igreja e Estado, criadora do conceito da laicidade, hoje começando a ser deixada de lado pelos legisladores brasileiros com o recente advento político-religioso do evangelismo. 

Essa nova influência, ou poder religioso, está interessada em exercer sua influência na organização comportamental, legal e social do país e não apenas na isenção de impostos de igrejas, associações, entidades, escolas, universidades, hospitais e órgãos assistenciais religiosos ou, mais precisamente, evangélicos. 

Estamos, portanto, no despontar de um movimento inverso ao ocorrido com a República, cujo decorrer foi responsável pela decretação do Estado laico e pela gradativa separação do Estado brasileiro das entidades ligadas à Igreja Católica.

O atual movimento de evangelização do Brasil a partir de suas bases populares não tem um objetivo meramente religioso: trata-se de um projeto político mais amplo que utiliza o conceito individual da salvação da alma como base contra teorias de socialização políticas, projeto justificador da posse individualizada de bens e do capitalismo com suas evoluções atuais.

Desenha-se a derrota eleitoral do atual governo, que chegou a ser equiparado por pregadores evangélicos fanáticos (os mesmos que no 7 de setembro apoiavam um golpe bolsonarista) ao governo de um escolhido de Deus, nada diferente dos governos teocráticos medievais. 

Entretanto, não fosse a atual crise econômica desestabilizadora do governo Bolsonaro, o Brasil viveria um grande retrocesso cultural, social e político com sua gradativa transformação num Estado religioso evangélico. E veríamos o absurdo paradoxo de uma Igreja Católica abandonada justamente quando seus teólogos e parte de seus pregadores aderiram ao preceito da Teologia da Libertação.

Contra a luta pela ampliação das conquistas sociais, o conjunto conservador e pró-capitalista das comunidades evangélicas propõe aos seus seguidores uma visionária Teologia da Prosperidade, baseada numa interpretação do Velho Testamento de que miséria e sofrimento são causados pelo pecado, enquanto a riqueza provém das bênçãos de Deus. 

Nesta linha, os grandes capitalistas, como os antigos senhores feudais, são abençoados por Deus, assim como os grandes bancos. Em contrapartida, o evangélico que vê no seu prato uma colher a mais de feijão já se julga abençoado por seguir a nova fé.

O encarregado de levar a mensagem petista aos evangélicos é o pastor Paulo Marcelo Schallenberger, amigo do pastor Marco Feliciano. 

O PT deve ter suas razões eleitorais estratégicas para aceitar auxílio de pastor evangélico conservador para diminuir a força dos evangélicos comandados por figuras agressivas como os pastores Silas Malafaia, Cláudio Duarte e o próprio Feliciano, três que incitaram a micareta golpista do último 7 de setembro. 

Gente que participou das fake news e dos discursos de ódio responsáveis em 2018 pela vitória de Bolsonaro, apesar de suas falas em favor da tortura, dos torturadores, das armas, do assassinato de 30 mil pessoas opositores e da devastação da Amazônia.

Entretanto, a antiga aliança com Edir Macedo e outros, durante os governos de Lula e  Dilma,  mostrou-se mais benéfica aos interesses desses pastores do que ao PT e ao Brasil. Mal comparando, alianças duvidosas desse tipo são como o cavalo de Tróia, do qual saem inimigos quando menos se espera. E foi o que ocorreu em 2018.

O Brasil espera, com a saída de Bolsonaro, a aplicação da regra republicana da laicidade, com uma separação clara e nítida entre o Estado e a religião, o fim das isenções tributárias para as igrejas (sejam quais forem), seus sacerdotes, suas entidades, seus comércios e seus estabelecimentos de ensino. E a anulação das leis que, no período Bolsonaro, tenham representado um retrocesso político e social.
Schallenberger, o arauto do Lula
Nada contra a presença de leigos evangélicos nas câmaras municipais, estaduais e federais e mesmo no Senado. Porém, que os pastores exerçam seu ministério nas próprias igrejas, defendendo pregando seus credos e valores, nem sempre coincidentes com os credos e valores republicanos e dos direitos humanos universais. 

Em síntese, que a lealdade do pastor Schallenberger fique clara e verificável desde o início, além de ele garantir que não concorrerá a qualquer cargo político. Caso contrário, esse anunciado apoio a Lula não passará de um trampolim para a conquista de algum mandato. (por Rui Martins)
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