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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

IMAGINE UM DONALD TRUMP DECIDINDO QUEM SOBREVIVE E QUEM MORRE

dalton rosado
A DESESPERANÇA
"...em meio a essa imensa confusão, apenas uma coisa
é clara: estamos esperando a vinda de
Godot" (Samuel Beckett) 
Reina um niilismo passivo diante do fracasso dos ordenamentos políticos.

É uma constatação que se impõe, ainda mais se levarmos em conta o descompasso com o enorme ganho do saber adquirido pela humanidade ao longo do lento processo de apreensão do dito cujo e que, aos poucos,  ganhou celeridade nos últimos 50 anos. Isto se deu, com velocidade extrema, a partir do advento da microeletrônica/cibernética e seu uso em todos os aspectos da vida social.

Certamente que a política, enquanto esfera de apoio jurídico-constitucional de uma ordem econômica escravista estabelecida como forma de relação social funcional a partir de uma lógica contraditória e, portanto, ilógica, tornou-se disfuncional em face dos parâmetros modernos de produção social que lhe são antagônicos.

O trabalho abstrato, fundamento da escravização indireta pelo salário e correspondente extração de mais-valia (que é a base primária de uma economia fundada na forma-valor e que se reproduz cumulativamente, segregando os próprios trabalhadores a partir desse fundamento), tornou-se disfuncional, substituído que está sendo em maior parte pela máquina. 

Como consequência, o edifício da ordem jurídico-constitucional desaba juntamente com a razão de ser de sua existência: o apoio jurídico-constitucional ao capitalismo.    

A política tornou-se disfuncional por invalidez; tornou-se inativa como serva obediente sem soberania de vontade que sempre decidiu em favor do capital porque, com o advento da máquina (trabalho morto), em substituição majoritária do trabalho abstrato (trabalho vivo, assalariado), é o próprio capitalismo que sofre de anemia profunda por esvair-se o sangue que lhe mantem vivo. 

Ou seja, vive o momento da impossibilidade de reprodução aumentada do valor nos níveis necessários por seus próprios fundamentos; assim, a política ficou órfã impotente com a doença terminal do seu amo, o capital.

Este é o ponto fulcral da desesperança, ou niilismo passivo: a espera de um Godot que está morto, qual seja a política.

Como estamos todos acostumados a buscar respostas na institucionalidade política (incapaz de nos oferecer tais respostas), reina a desesperança, que se traduz num niilismo passivo.

Vivemos sob uma forma de relação social destrutiva daquilo que se pode considerar como saudável, seja do ponto de vista da materialização do provimento equânime das necessidades de consumo e demandas sociais básicas, seja do ponto de vista da afirmação das virtudes humanas como tais, ou seja ainda pela questão ecológica.

Além disso, o estágio atual das contradições capitalistas aponta para a destrutibilidade da sua própria forma, traduzida na criação de entraves que impedem a consecução do seu objetivo teleológico: a autorreprodução vazia de sentido humano do capital expresso no dinheiro e das mercadorias sensíveis cujo valor de troca se expressa no tempo-valor.

Ora, com a mecanização preponderante na produção de mercadorias, extingue-se substancialmente o critério de mensuração de trocas destas na guerra concorrencial de mercado de modo a que apenas aqueles grandes conglomerados capitalistas detentores de capacidade de investimento em capital constante em grandes volumes poderão produzir.

É evidente, portanto, que para a sobrevivência desse sistema de verticalização do poder sob critérios de produção controlados pela máquina e seus proprietários, já não será o valor abstrato o critério de mensuração da riqueza, mas a força absolutista político-militar a fornecer um voucher sobrevivência como recentemente propôs Elon Musk. 

Imagine um Donald Trump decidindo quem come e como se obter o alimento? Quem manda e quem obedece?  Quem vive (ou sobrevive) e quem morre?  

É preciso compreender que a máquina e o saber que a criou representam a transição de um modo de produção baseado na força muscular humana para um modo de produção mais confortável e produtivo alterando substancialmente o caráter da sociedade para pior ou para melhor, dependendo do nível de consciência e unidade que os segmentos majoritários da população possam ter sobre seus próprios destinos.

O claro crescimento da direita nos processos eletivos mundo afora, com o surgimento de partidos flagrantemente defensores dos famigerados postulados nazistas deriva da falta de uma proposição de relação social que negue o capitalismo na sua raiz constitutiva: o valor e a dissociação de gênero.

Não há democracia (se se quiser emprestar ao termo uma conotação de livre exercício da soberania da vontade) sob o capital, e não é votando que se rompe com a mesmice, posto que as eleições burguesas mais não são do que um canal de positivação de uma estrutura política de positivação do capital e que somente leva ao descrédito das massas eleitoras diante do fracasso da tentativa bem-intencionada de humanização do capital pelos partidos ditos progressistas.

Então, por que se insistir numa forma jurídico-constitucional-eletiva que comprovadamente é incapaz de prover as demandas sociais de modo equilibrado e aperfeiçoado, e que se deteriora a olhos vistos?

Neste ano de 2026 temos eleições e vai se repetir a polarização entre a direita (que possivelmente virá com uma tentativa de revestir o lobo na pele de um cordeiro) e a social-democracia trabalhista lulista (cujo conteúdo reformista e conciliador propõe a retomada de crescimento econômico, ou seja, mais capitalismo, como forma de crescimento do bolo que possibilite a distribuição de algumas fatias, como queria Delfim Netto nos anos 60).

Mas há alternativa a isso, e passa pela compreensão de que um novo modo de produção requer um novo caráter de sociedade. Podemos conjecturá-la? (por Dalton Rosado)
"Só sinto frio na alma, estou vazio de sentimento.
Não sinto água no corpo, nem amor, nem ferimento"

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

DELFIM NETTO E SILVIO SANTOS AJUDARAM A MOLDAR O BRASIL EXCLUDENTE E BESTIALIZADO DE HOJE

 

Nesta última semana, o tobogã do inferno esteve agitado com as partidas primeiro de Delfim Netto e depois de Silvio Santos, menos conhecido por Senor Abravanel. Sobre o primeiro já escrevi um obituário à altura neste post e sobre o segundo se encarregou o Celso aqui. Gostaria apenas de fazer uma breve reflexão sobre o que significaram ambos para o projeto de país vencedor em 1964 e consolidado em 1985, com a imperfeita redemocratização da Nova República. 

A ditadura militar foi um processo histórico de consolidação do capitalismo brasileiro pautado na subordinação à burguesia dos países centrais - notadamente EUA e Europa - que garantiu a transformação do país em um exportador de capitais mediante a instalação de multinacionais e a formação de robusta dívida externa. O regime foi instalado em oposição à via nacionalista, encampada por uma parte minoritária da elite nacional, que se congregava no finado PTB, e do PCB. Cumpriu duplo papel, pois ao mesmo tempo em que consolidava o capitalismo de via colonial, também aniquilava possíveis forças revolucionárias. Nesse projeto, como é de praxe, se articularam a economia, a política e a cultura e aqui entram em cena, se interrelacionando, Delfim e Silvio. 

Derrotada a alternativa nacionalista, não apenas o projeto econômico foi soterrado, mas também o político e o cultural. Em lugar da participação popular entraram os partidos fantasmas, meras correias de transmissão dos interesses capitalistas espelhados em oposição e situação, algo primeiro encarnado nos bisonhos MDB e Arena e depois da redemocratização desdobrados em uma série de partidos que no fim não expressam nada a não ser o próprio poder burguês. Na cultura, saiu a valorização da identidade brasileira e entrou a pura importação do lixo da indústria cultura estadunidense com sua bestialização.

Os pícaros do Milagre Econômico de Delfim não eram para todos os brasileiros, lembremos. Embora a classe trabalhadora tenha tido algumas modestas melhorias, expressas na mudança de milhões de pessoas da zona rural - estagnada desde tempos imemoriais - para a urbana - que crescia acelerada -, o acesso à boa vida material estava franqueada mesmo apenas para a exígua classe média e as classes capitalistas. Como então a classe trabalhadora teria acesso aos bens de consumo brilhantes? Foi aí que entrou o Baú da Felicidade, responsável pela imensa riqueza de Silvio Santos, pois através dele era vendida a ideia ao trabalhador que seu acesso aos bens viriam se ele pagasse religiosamente um carnê para ter acesso a um sorteio. Caso não ganhasse, poderia sempre contar com o prêmio de consolação de algum apetrecho de qualidade inferior nas lojas do Baú. O auge desse esquema, digo, negócio, viria quando o Milagre goró e a hiperinflação tornou impossível aos pobres mortais bancarem as parcelas do carnê por inteiro. Silvio catapultou sua fortuna abocanhando a diferença corrigida de cada parcela. 

O segredo do Baú da Felicidade estava em um país de baixa produtividade, com superexploração da força de trabalho e com capitais escassos. A poupança existente no país era totalmente drenada para financiar as indústrias e as faraónicas obras públicas, tornando inviável financiar a compra de bens de consumo por parte da população em geral. No período neoliberal, com a dívida externa transformada em interna graças à, mas não apenas, política de juros sempre nas alturas, foi possível expandir o crédito e matar o Baú da Felicidade na raiz. Silvio ganhou no desenvolvimentismo capenga da ditadura e perdeu no financismo da redemocratização. 

Mas a chave para entender o clamor popular por um indivíduo tão repulsivo passa pelo lado político e cultural da ditadura. O milagre de Delfim com a industrialização subordinada ao imperialismo passava pela superexploração da força de trabalho só possível em um regime ditatorial, onde as massas trabalhadoras simplesmente não possuíam nenhuma voz, seja ela qual fosse, e nisso a repressão cultural também era elemento importante, fazendo-se necessário desestimular ou reprimir toda forma de atividade popular. Mas a cultura é intrínseca ao ser humano e a ditadura precisaria dar um substituto às massas. 

Casou aí de usar a mercadoria que, junto ao carro, mais impulsionava a economia: a televisão. Os televisores fizeram as vezes que tivera o Rádio na ditadura varguista, mas, ao contrário daquela, que colocava em primeiro plano a cultura nacional genuína, agora era servido às massas um pastiche de cultura emoldurada no pior produzido pelas televisões estadunidenses. Entram aí os shows de auditórios em que Silvio Santos, ao lado de Chacrinha, fariam reinado. Silvio Santos foi mais vitorioso que qualquer outro pois soube articular esse lixo televisivo com sua venda do Baú e com a ideologia do conformismo, bem ao gosto da elite brasileira, vendida às massas através das humilhações das coitadezas que iam a seu programa tentar a sorte para conseguir migalhas, seja em suas provas desumanas, seja através do infame aviãozinho. Ali o pobre era ensinado a ficar em seu lugar, esperando a boa ventura do burguês filantropo e que, se não conseguisse, era por pura e simples culpa dele próprio, pois não teria se esforçado o suficiente nas provas ou dado cotoveladas suficientes em seus colegas para apanhar uma nota de dinheiro. 

Vinda a redemocratização, Silvio e Delfim saíram vencedores. Os dois triunfaram não apenas porque continuaram homens relevantes, adorados e ciceroneados pelo poder e pelo povo, mas também porque o modelo de sociedade, excludente e bestial, que trabalhavam para implantar, venceu. O Brasil da idiotice, da miséria e da superexploração está aí, nas telas e nas ruas. (por David Coelho)  



segunda-feira, 12 de agosto de 2024

DELFIM NETTO AGORA É RESPONSABILIDADE DO CAPETA

Com o ditador Médici, passeando.
Morreu na madrugada desta segunda-feira, 12/08, o signatário do AI-5 e um dos mais fiéis serviçais da burguesia brasileira ao longo do século XX, Antônio Delfim Netto

Delfim ocupou o cargo de ministro da fazenda entre os anos de 1967 e 1974, justamente os períodos de maior repressão do regime. Nessa época, ajudava a levantar fundos junto aos empresários brasileiros e estrangeiros para financiar a Operação Bandeirantes (OBAN) responsável por milhares de casos de tortura, assassinatos, estupros e desaparecimentos contra combatentes da resistência armada, militantes da esquerda, simpatizantes, sindicalistas e quaisquer outros que o regime militar viesse a perceber como ameaça. 

É dessa época uma das mais famosas frases da história nacional e emblemática, ao mesmo tempo, do fiasco econômico brasileiro e de sua desigualdade intrínseca e que teve Delfim por autor. Diante do quadro de crescimento acelerado da economia brasileira na época, momento conhecido por "milagre brasileiro", crescimento, contudo, contrastante com a abissal condição de miséria da maioria esmagadora do povo, o então Czar da economia soltou a famosa pérola: "é preciso esperar o bolo crescer para dividi-lo"

Com a nata da ditadura em São Paulo.
O bolo cresceu, explodiu e nunca foi dividido, pois seu crescimento só era possível às custas da superexploração do trabalhador brasileiro e do superendividamento estatal. Na realidade, o dito milagre foi apenas uma tática política da ditadura para esvaziar a insatisfação popular diante das medidas liberalizantes da primeira fase do regime (1964-67), responsáveis por aumentar o custo de vida, quebrar inúmeras empresas e desnacionalizar parte da economia. Tais medidas levaram ao descontentamento entre trabalhadores e setores significativos da classe média, outrora indutora do golpe de 64, e puseram a ditadura em xeque através de greves e da famosa Marcha dos 100 mil

É esse o contexto do aparecimento das guerrilhas, impulsionadas pelo clima de crise. Para sobreviver, o regime ditatorial, com Delfim Netto à frente, abandona a liberalização estrita dos primeiros anos e embarca no processo expansionista, contraindo empréstimos no exterior, impulsionando titânicas obras públicas, expandindo a indústria e mesmo ensaiando a criação de estatais. A tática dá certo e um clima de euforia se instala no país com a economia aquecida, levando as guerrilhas e as oposições ao isolamento. 

Sem nenhuma coincidência, o milagre malogra por volta de 1974, após o choque do petróleo, mas também no mesmo período em que o restante das guerrilhas é derrotado. A economia do país entra em parafuso, a dívida externa explode e emerge a hiperinflação, resultando em nova crise da ditadura, dessa vez irreversível. Inicia-se, então, longo período de transição política em que o regime vai se transmutar em democracia, mantendo, contudo, intocadas as estruturas econômicas, institucionais e políticas implementadas. 

Era o conselheiro econômico de Lula.

Em tudo isso, Delfim Netto teve papel central. Ele foi o articulador orgânico da relação intrínseca entre a repressão política e a política econômica que a sustentou. Não à toa, era ministro da fazenda, mas também um dos idealizadores do AI-5 e das operações repressivas. 

Após a ditadura, foi marginalizado diante do desastre de seu legado, só saindo dessa situação graças a Lula e ao PT que viam nele um guru e consultor econômico. Chegou mesmo a ser um articulista da revista Carta Capital, supostamente uma revista inimiga do regime militar e da direita dali advinda. 

Confirmou o dito que os perversos vivem mais, pois sobreviveu por 91 anos. Mas, enfim, finalmente está agora nas terras do inferno e passou a ser responsabilidade do capeta. (por David Coelho)

sábado, 1 de abril de 2023

O GOLPE DE 1 DE ABRIL DE 1964 FOI UMA SUCESSÃO DE FARSAS

 


O Golpe Militar de 1964 foi uma sucessão de farsas. Já começou farsescamente falsificando a data de sua eclosão, pois os golpistas, não querendo ser vítimas de troças associando seu movimento ao dia 1 de abril - dia da mentira - resolveram inventar nova data, 31 de março

Não pararam aí, contudo, as farsas, pois o golpe também se autointitulou Revolução, quando, na realidade, foi mera usurpação reacionária do poder, não tendo revolucionado nada além das contas bancárias de quem dele participou. Sim, porque, conforme já provado, o golpe foi feito à base de muitos dólares, os quais eram enviados em centenas de malas pelo Tio Sam para convencer os patrióticos oficiais brasileiros. 

Outra farsa foi terem usurpado o poder em nome da Democracia, apenas para impor ao país a mais brutal ditadura de sua história, com torturas, assassinatos, estupros, desaparecimentos, além de eleições suprimidas ou simplesmente negadas. Nunca antes - nem no período colonial, no Império ou mesmo no Estado Novo - a repressão foi tão bestial e a sociedade civil foi tão tolhida de participar dos rumos do país. 

Uma quarta farsa foi seu falso milagre econômico, adubado à base do endividamento titânico do Estado brasileiro e cujo único objetivo era aliciar a classe média e as classes trabalhadoras, isolando os revolucionários mais radicais no momento mais agudo da luta armada. O milagre do falso profeta Delfim Netto miou tão logo o choque do petróleo fez os dólares sumirem do país. O falso milagreiro, contudo, é até hoje respeitado na Economia, provando de novo o quanto essa disciplina é ela mesma também uma farsa. 

Por fim, a maior farsa viria à luz do dia muitos anos depois do bestial regime ter passado de acontecimento histórico para tema de história. Foi o aparecimento de seu filhote mais bastardo, Jair Bolsonaro e sua gangue, os quais viriam apenas para continuar a matança de brasileiros e assegurar cômodas boquinhas para o oficialato. 

Por ter sido farsa do princípio até depois do fim, o Golpe de 1964 merece todo o opróbio existente e ainda a ser criado, incluindo nisto seus apoiadores, executores e defensores, do passado, do presente e do futuro. Mais que uma quartelada, mais que uma tomada ilegítima do poder, o golpe hoje completado 59 anos foi o responsável por liquidar as possibilidades do Brasil vir a ser um país minimante justo, dentro dos limites capitalistas, deixando o legado de um país onde se morre e se mata por dois reais, às vezes até por menos. (por David Emanuel Coelho



terça-feira, 20 de setembro de 2022

SOBRE ELEIÇÕES, DECEPÇÕES, MICOS E VOLTAS POR CIMA

Ao lutarmos com grande inferioridade de força... 
O
companheiro Dalton Rosado não é de lançar indiretas e, conhecendo-o como eu o conheço, sei que  realmente o constrange a lembrança de haver disputado uma eleição para prefeito de Fortaleza em 1988.

Então, a decisão de comentar agora a minha participação na eleição para vereador paulistano em 2012 não se deveu, de forma nenhuma, a porventura ter-me sentido atingido pela afirmação do Dalton, de que considera aquele episódio uma mancha no seu currículo. Longe disto. Percebi claramente que ele estava aludindo apenas a si próprio.  

Contudo, ao levantar o assunto, o Dalton deu-me o que nós, jornalistas, chamamos de gancho para passar a limpo o episódio que me diz respeito.

O fato é que eu me deixei empolgar pela receptividade e pelos resultados do meu trabalho como principal defensor nas redes sociais do companheiro Cesare Battisti. Era um jornalista experiente vocalizando as versões do comitê de solidariedade e, como tal, conseguia responder rapidamente aos ataques da imprensa burguesa e travar batalhas contra vários jornalões e revistonas ao mesmo tempo.

Entre o final de 2008 (quando o caso esquentou com a decisão do Conare de não conceder-lhe o status de refugiado político) e o primeiro semestre de 2011  (em cujo dia 9 de junho o libertaram), foram cerca de 250 textos diferentes que eu produzi em favor do Cesare, rebatendo as falácias dos partidários de sua extradição, exigida com toda a arrogância do mundo pela Itália.
...não podemos abrir mão de
todas oportunidades táticas...
 

Afora a profusão de páginas virtuais que reproduziam parcial ou totalmente meus artigos, entusiasmou-me a atitude de jornalistas da grande imprensa que me confiavam informações de bastidores valiosíssimas para o direcionamento da atuação do comitê de solidariedade. Naquelas condições de extrema inferioridade de forças, só poderíamos vencer se os inimigos errassem muito e nós acertássemos o tempo todo. E foi o que aconteceu.

Quando o Psol, logo depois, me convidou para ingressar nas suas fileiras e concorrer à vereança em São Paulo, vislumbrei uma possibilidade de repetir quase o mesmo tipo de atuação: se eleito, incumbiria os dez funcionários (que cada vereador tem o direito de contratar às expensas da Câmara) de uma única missão: investigar escândalos dos governos municipal e estadual. 

Os jornalistas apoiadores talvez continuassem me passando dicas importantes. E outros colegas da imprensa poderiam noticiar e aprofundar as denúncias que eu fosse apresentando na tribuna da Câmara. Ou seja, o mandato seria para mim uma nova frente de batalha e eu passaria longe dos esforços dos vereadores por profissão, no sentido de agradarem eleitores e eternizarem-se no cargo.

O que deu errado? A minha ingenuidade em supor que a esquerda da década passada ainda fosse a mesma que antes elegia não os candidatos que mais atraíssem votos, mas sim os que pudessem fazer mais pelo partido no combate incessante à direita e ao capitalismo. Esta era a tradição do velho PCB, por exemplo.

Antes da desmoralização por não oferecer resistência digna deste nome ao golpe de 1964, a postura adotada no partidão era a de os militantes, aliados e simpatizantes votarem em quem o partido determinava, pois sua prioridade era ter como representantes no executivo ou legislativo quadros à altura do papel que lhes caberia desempenhar, tanto em termos de formação política quanto de combatividade. 
...desde que tenhamos clareza quanto a quem realmente
somos e quais são nossos inimigos inconciliáveis...
  

Mas, não havia tal despojamento e espírito de sacrifício no Psol, tanto que uma tendência de âmbito federal e sua adversária municipal travavam uma verdadeira briga de foice no escuro para que fosse um dos seus quadros o único vereador que o partido conseguiria eleger. Quanto apego aos nacos de poder!

Eu, que sempre detestei as disputas por  poder entre companheiros do mesmo partido e que só me sentia verdadeiramente revolucionário quando enfrentava o inimigo de classe,  fiquei como peixe fora d'água, amaldiçoando-me por não ter previsto que promessas seriam descumpridas e decisões inaceitáveis tomadas em função do emocionalismo despertado pela rinha entre tendências. 

Contara ser apoiado e acabei é sendo boicotado, assim como outros companheiros que tinham chances de obter votações expressivas, pois convinha à minha tendência concentrar o máximo de votos naquele candidato no qual resolvera apostar suas fichas, a fim de que superasse o favorecido pela direção nacional.

Mas, não me senti envergonhado de receber apenas 355 votos, nem por, já sexagenário, haver tido um acesso de voluntarismo. Afinal, todas as lutas que travei na vida foram desiguais, os inimigos de classe sempre dispuseram de mais gente e mais recursos, e mesmo assim algumas terminaram em vitórias simplesmente porque eu e companheiros abnegados não desistimos e fomos procurar brechas nas imponentes muralhas contra nós erguidas.  

Esta é a realidade de quem combate o capitalismo nestes tristes tempos presentes. Para compensar a falta de tantos outros trunfos, precisamos improvisar o tempo todo e aproveitar da melhor maneira possível os espaços que a democracia burguesa é obrigada a nos conceder para manter sua imagem de neutralidade
...pois com os serviçais históricos da
burguesia não há acordo possível! 
Temos como desafio trilhar os atalhos que vislumbramos, mas sem nos perdermos na floresta, para que assim possamos retomar adiante o caminho que conduz às nossas principais metas. No caso da participação no executivo ou no legislativo, utilizá-las para acumulação de forças e maior difusão de nossos valores é aceitável, desde que em nenhum momento as consideremos um fim em si. 

Para um verdadeiro revolucionário, não passam de opções táticas como tantas outras. O objetivo estratégico é a tomada de poder para damos fim à exploração do homem pelo homem e à priorização do lucro em detrimento das necessidades e das melhores aspirações humanas. 

Ser presidente da república, no desenho institucional da democracia burguesa, significa ser tão somente o serviçal número um do poder econômico. Pode ter alguma utilidade, mas nem de longe é nosso ponto de chegada.  

A virtude está no meio, dizia Aristóteles. Eu acrescento que a obsessão pela conquista de uma posição de poder na verdade subalterna, que em si não garante a transição para uma sociedade regida pelo bem comum e pela liberdade plena, está é na beirada do grande sonho acalentado pela humanidade através dos tempos.  

Por último. Num país como o nosso, tão acostumado a refugar na hora de lutar e a chegar entre os últimos da fila aos grandes momentos de afirmação nacional (independência, abolição da escravatura, proclamação da república, fim das ditaduras fascistas do século passado, etc.), talvez seja de maior proveito, ao invés do aristotélico, um lema bem mais em falta. 

O do comandante Lamarca: ousar lutar, ousar vencer. A forma de luta mudou, mas o espírito combativo continua sendo necessário... e muito! (por Celso Lungaretti) 

sábado, 11 de dezembro de 2021

TEMOS ALGO A COMEMORAR NESTA 2ª FEIRA? SIM, A CERTEZA DE QUE O AI-5 CONTINUARÁ ONDE ESTAVA: NA LIXEIRA DA HISTÓRIA!

Personagens que desembestaram o terrorismo de Estado
O dia 13 de dezembro de 1968 foi um dos mais funestos e vergonhosos da nossa história, pois nele se promulgou o Ato Institucional nº 5.   

Dezessete sinistros personagens deram sinal verde para torturas, assassinatos, estupros, ocultação de cadáveres e todo o festival de horrores dos anos subsequentes, principalmente até meados dos '80.

Eram eles o ditador Costa e Silva e 16 de seus ministros: Albuquerque Lima (Interior); Augusto Rademaker (Marinha); Carlos Simas (Comunicações); Costa Cavalcanti (Minas e Energia); Delfim Netto (Fazenda); Gama e Silva (Justiça); Hélio Beltrão (Planejamento); Ivo Arzua (Agricultura); Jarbas Passarinho (Trabalho); Leonel Miranda (Saúde); Lyra Tavares (Exército); Macedo Soares (Indústria e Comércio); Magalhães Pinto (Relações Exteriores); Mário Andreazza (Transportes); Souza e Mello (Aeronáutica); e Tarso Dutra (Educação).  

Só um permanece vivo até hoje, Delfim Netto, que está com 93 anos e não se arrepende da autoria de uma assinatura da qual tanto sangue jorrou: segue afirmando que, se as circunstâncias fossem as mesmas, voltaria a proceder da mesmíssima maneira.

O 16º a falecer foi (em junho de 2016) o igualmente empedernido Jarbas Passarinho, de origem militar, que  ao proferir seu voto, disse a frase mais emblemática daquela infame reunião ministerial:
Jarbas Passarinho assumiu-se inescrupuloso 

"Às favas, sr. presidente, neste momento,
todos os escrúpulos 
de consciência"
.
Ele continuou, pelas décadas adentro, enturmado com as aves de mau agouro, sempre defendendo o regime de exceção ao qual serviu nas equipes ministeriais de Costa e Silva, Médici e Figueiredo.

Um mês depois chegou a vez de Rondon Pacheco, cuja assinatura não consta do documento, embora chefiasse o Gabinete Civil. Talvez a lacuna se deva a haver sido um personagem reticente naquele momento, tendo inclusive tentado fixar prazo para a vigência do AI-5: um ano apenas. 

Também se atribui a ele e ao ministro da Justiça Gama e Silva o mérito de, numa reunião prévia, terem excluído do documento alguns pontos mais duros, como o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. 

Outra voz dissonante foi a do vice-presidente Pedro Aleixo, que inclusive empenhou-se adiante em restabelecer a legalidade. Chegou a convencer Costa e Silva, mas este morreu antes de concretizar o intento (coincidência?).

O  golpe dentro do golpe, que levou ao paroxismo o fechamento ditatorial do País, foi o lance decisivo da disputa interna entre a linha dura militar (que queria radicalizar o arbítrio) e os conspiradores originais (oficiais veteranos da participação brasileira na 2ª Guerra Mundial). 
Arbítrio ditatorial foi levado ao paroxismo

Os últimos, encabeçados por Castello Branco, pretendiam manter a usurpação do poder por pouco tempo. Falavam numa intervenção cirúrgica, durante a qual imporiam medidas que modernizassem o Estado e enfraquecessem a esquerda (prisões, perseguições, cassações, extinção de entidades legais, etc.). 

Aprenderam, contudo, que implantar uma ditadura é bem mais fácil do que dar-lhe fim.

As duas posições competiram acirradamente pela hegemonia na caserna ao longo de 1968, mas o crescimento dos movimentos contestatórios fez a balança pender para  o lado dos ferrabrases. 

Estes iam ao encontro da cultura de intolerância que grassava nos quartéis, pois se propunham a dotar o regime de meios para reagir com maior contundência às manifestações de rua e ao desafio das organizações armadas, passando por cima dos direitos humanos.

Pesaram também os interesses mesquinhos dos oficiais das três Armas, seduzidos pelas perspectivas que o prolongamento do regime de exceção e a ampliação dos poderes ditatoriais abriam para seu enriquecimento pessoal:
— os da ativa, como gestores de um setor estatal que estava sendo cada vez mais inflado, ou como beneficiários de suas boquinhas; e
— os da reserva como facilitadores dos favores oficiais (quase todos os grandes grupos privados contrataram militares reformados para integrarem seus conselhos de administração, como forma de terem seus interesses contemplados nos altos escalões governamentais).
"...gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente..." É mesmo?

Há historiadores hoje sustentando (vide aqui) que o AI-5 teria objetivado, principalmente, intimidar e enquadrar setores da sociedade civil que haviam apoiado o golpe de 1964, mas que, quatro anos depois, estavam ficando descontentes com a ditadura (casos da Igreja Católica, da imprensa, do Poder Judiciário e de líderes políticos). Fica o registro.

O pretexto para a nova virada de mesa foi um discurso exaltado do deputado Márcio Moreira Alves numa sessão esvaziada (o chamado pequeno expediente) da Câmara Federal, no início de setembro de 1968.

Tratava-se de uma lengalenga sem verdadeira importância (incluía até uma sugestão às moças, de que não namorassem alunos das academias militares – vide aqui), proferida apenas para constar dos anais e poder ser exibida depois aos eleitores, quando ele lhes fosse pedir votos num pleito vindouro.
Moreira Alves deu o pretexto que a linha dura buscava

Mas, um jornalista favorável ao arbítrio vislumbrou a oportunidade de uma provocação e trombeteou-a; em seguida, os partidários do enrijecimento a divulgaram amplamente, mimeografada, entre os fardados, insuflando a indignação.

As Forças Armadas se declararam atingidas e o governo pediu ao Congresso Nacional a abertura de um processo visando à cassação de Moreira Alves. 

Os parlamentares, depois de em tantas ocasiões, tão vergonhosamente, se prostrarem aos ultimatos da caserna, daquela vez rechaçaram o pedido, temendo que outras cabeças fossem exigidas na sequência e a caça às bruxas acabasse extinguindo o mandato de muitos deles. 

Pateticamente, encerraram a sessão cantando o Hino Nacional, sem perceberem que tinham é escancarado as portas do inferno.

A resposta da ditadura foi imediata e a mais tirânica possível: colocou os Legislativos federal e estaduais em recesso e impôs à Nação, na marra, novas e terríveis regras do jogo.

O presidente da República (escolhido por um Congresso Nacional expurgado e intimidado) passou a dispor de totais poderes para:
— cassar mandato eletivos;
— suspender direitos políticos;
— demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos;
Este desafio foi outro pivô do AI-5
— suspender o habeas corpus em crimes contra a segurança nacional;
— legislar por decreto; e
— julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas totalitárias.

Principal ferramenta do terrorismo de Estado, o AI-5 só seria atirado na lixeira dez anos depois.

Nesse meio tempo, centenas de resistentes foram executados, dezenas de milhares torturados, mais de uma centena de parlamentares cassados, um sem-número de funcionários públicos atirados no olho da rua, a arte amordaçada (mais de 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros e umas 500 canções sofreram os rigores da censura), etc.

Quando os gorilas saíram do armário, o Brasil entrou num dos períodos mais bestiais e vergonhosos de sua História.

Hoje, embora a efeméride seja das mais negativas, há algo a ser comemorado: o fracasso acachapante da horda de mentecaptos ultradireitistas que, com o destrambelhado incentivo de um presidente cujos sintomas de insanidade mental são indisfarçáveis, tentou nos últimos três anos retirar tal abominação nauseabunda da lixeira da História. 

Mas, a micareta golpista que eles programaram para o último dia 7 de setembro flopou de forma tão ridícula que só haverá condições de repetirem tal palhaçada daqui a outra metade de século, caso a agonia do capitalismo não chegue ao fim até lá e suas vítimas, desesperadas, tenham nova crise de amnésia.

Desta vez não passaram. E, para os que virão depois de nós, fica a tarefa de garantir que nunca mais passem!
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UM DEPOIMENTO PESSOAL – Para jovens estudantes que, como eu, ingressaram na luta a partir do novo ascenso do movimento de massas,  aquele agourento 13 de dezembro de 1968 marcou o fim da aventura e o início da tragédia.

Passáramos o melhor ano de nossas vidas descobrindo a luta e descobrindo-nos na luta. Aí veio aquele pacote de medidas draconianas ao extremo, cujas implicações captamos de imediato: haviam declarado guerra contra nós e os riscos dali em diante seriam imensos. 

Mesmo assim, diante da alternativa desistir x perseverar, fizemos a opção digna... que se revelaria das mais sofridas.

Então, o AI-5 foi o divisor de águas entre o 1968 exuberante e o 1969 soturno.
A passeata dos 100 mil foi o ápice dos protestos de 68

Entre o enfrentamento a céu aberto e o martírio nos porões.

Entre a luta travada ao lado das massas despertadas e a luta que travamos sozinhos em nome das massas amedrontadas.

Meu avô morreu quando meu pai tinha 11 anos. Como era o primogênito, minha avó fez com que começasse imediatamente a trabalhar  numa fábrica escura, barulhenta e empoeirada, burlando a legislação que exigia idade mínima de 14 anos.

Passou o resto da vida lamentando a responsabilidade que desabou cedo demais sobre seus ombros. Num dia, estava despreocupadamente jogando bola no campinho ao lado de sua casa. No outro, esfalfando-se oito horas seguidas para colocar o pão na mesa familiar.

O AI-5 teve o mesmo efeito sobre mim. Até então, a militância era puro deleite. De um momento para outro, tornou-se um pesadelo que me deixou em frangalhos, além de tragar alguns dos meus melhores amigos e tantos companheiros estimados.

Parafraseando uma bela canção de Neil Young, foi a saída do azul e entrada nas trevas. (por Celso Lungaretti)
 

sábado, 14 de agosto de 2021

ROBERTO JEFFERSON CORPORIFICA A DECREPITUDE DE UM SISTEMA POLÍTICO

Bob Jeff, o gatilho mais
rápido do velho (Centro) Oeste
A prisão de Roberto Jefferson, por ataques e ameaças ao STF, é mais um elemento da paisagem da crise brasileira. 

Mas não pretendo falar da prisão, acontecimento menor, e sim do quanto o dono do PTB representa a deterioração da política brasileira, fato literalmente encarnado nele. 

Jefferson ascendeu à política ao final da ditadura graças à participação no programa popularesco O Povo na TV. Virou deputado pelo MDB e, por uma metamorfose, acabou no PTB. 

Tratava-se de uma legenda representativa do antigo trabalhismo pré-ditadura militar, na qual habitaram Getúlio, Jango e Brizola (este último, inclusive, perdeu para Ivete Vargas o direito de usar a sigla e viu-se obrigado a fundar o PDT).

Atualmente um dos maiores fanáticos da horda bolsonarista, Jefferson decolou no PTB defendendo os direitos humanos, a democracia e os trabalhadores. Enquadrava-se bem no figurino da época, diante do desgaste dos militares e da miséria geral induzida pela política econômica do ministro, Delfim Netto. Não foi preciso muito tempo para ele se tornar o cacique  do PTB.

Virou um fisiológico de primeira e estreou sua verve comandando a tropa de choque de Fernando Collor, o suposto caçador de marajás.  
Eram grandes amigos...
Quando saíram de moda os ideais social-democratas característicos do fim da ditadura e da Nova República, o camaleônico Jefferson adaptou-se ao soprar dos ventos, tendo chegado aos anos Lula com outra cabeça.

Aí, indignado com uma devassa contra seus e$quema$ nos Correios, Jefferson chutou o pau da barraca: subitamente virou combatente da corrupção desde criancinha e, com suas denúncias, fez eclodir o escândalo do mensalão.  

Era um astro da mídia brasileira, mesmo ele também fazendo parte do esquema... 

Condenado e preso, voltou no governo Temer, após haver dado seu tímido apoio ao impeachment da Dilma, e tentou abocanhar o Ministério do Trabalho, colocando lá sua filha. Ela, contudo, foi barrada pelo STF e aí começou seu ódio à corte. 

Igual a muitos, ingressou na trupe do Bozo e virou o mais fanático falador de olavices. Adepto à risca da estética bolsonarista, já apareceu com dois rifles cruzados, o olhar cadáverico e o discurso firme, ameaçando a China, o Supremo, os comunistas, os judeus, até o papa (!) e negando a existência da gravidade (!!). 
...mas, antes de tudo, vem a família.

Na falta de amigos, Bolsonaro tinha até mesmo assistido a uma live dele, na qual o ex-mensaleiro defendia o desenferrujar das armas (!!!). 

Basta pegar uma foto de Jefferson para não haver dúvidas: o homem está em processo acelerado de degeneração mental. O olhar louco e o aspecto doentio são provas cabais. 

Tendo passado por diversas cirurgias devido a um câncer, é absolutamente lícito supormos que ele esteja sofrendo algum processo de demência cada vez mais acentuada. E, por isso até, ele possa falar tantas coisas desconexas sem nenhum pudor do ridículo. 

O caso, portanto, me parece mais médico do que policial

No entanto, a deterioração física do homem Roberto Jefferson é uma perfeita analogia da deterioração de nosso próprio sistema político. Saído das ruínas da ditadura, apenas em aparência comprometido com os ideias da social-democracia e da civilização, logo revelou ser apenas uma criatura do mais baixo fisiologismo, pronta a destruir qualquer direito social ou trabalhista em troca de verba e cargo.
"olhar louco e aspecto doentio"
No fim, enlouqueceu e foi parar no colo de um alucinado cujas ideias provêm de um falso filósofo, astrólogo que vive eternamente no mundo dos chapados. 

Seria cômico se não fosse trágico. Afinal, como pôde alguém tão insignificante e medíocre quase ter derrubado um presidente no passado e agora estar no centro de um imbróglio que poderá gerar um conflito de Poderes de desfecho imprevisível?!  

Jefferson é um símbolo emblemático da decrepitude nacional.  

(por David Emanuel Coelho)

terça-feira, 27 de julho de 2021

PIB E MISÉRIA: SOBRE A ESSÊNCIA DO CAPITALISMO

Poucos dias atrás, rodaram a internet imagens de uma fila para doação de ossos. O impacto maior não estava no fato de existir doação de ossos ou gente precisando disso para ter o mínimo de proteínas, mas a localização desta fila: Cuiabá, capital do Mato Grosso, estado com a maior produção pecuária do Brasil e uma das maiores do mundo. 

Em Mato Grosso, o número de cabeças de gado é dez vezes o de seres humanos (30 milhões de bois contra 3 milhões de pessoas). Unido à produção de soja e milho, a região é irrigada com dinheiro vutuoso, o qual ajuda a erguer prédios, aras, comprar pickups e patrocinar shows e mais shows sertanejos no vetor norte do estado. 

No entanto, há filas de pessoas para receber doações de ossos... 

Este é um exemplo eloquente da contradição intrínseca do capitalismo, entre a geração titânica de riqueza de um lado e a miséria escrachante do outro. 

Já no século 19, Marx apontava que, quanto maior a produção de riquezas pelo capitalismo, maior é a miséria do trabalhador.

Tal lição foi esquecida pela esquerda, não apenas brasileira. Em seu lugar, entrou a crença mítica de que o crescimento econômico e a geração de empregos são a rota para a prosperidade social. Não são. 

O capitalismo é essencialmente um sistema de espoliação e transferência de riqueza. 

Ele funciona como se fosse uma convecção amputada, indo apenas de baixo para cima: transfere riqueza da base para o o topo, de modo que o topo fica cada vez mais inchado e a base cada vez mais raquítica. 

Tal sistema de transferência funciona em nível mundial, com as burguesias periféricas transferindo riqueza para as centrais. Por isso, a periferia é mais pobre que o centro, o que não significa serem as burguesias periféricas mais pobres. Muitas vezes, elas são tão ricas quanto suas congêneres centrais, apenas menores em termos numéricos e mais frágeis politica e economicamente. 
A fé no crescimento econômico enquanto motor de prosperidade social levou ao surgimento, no Brasil, do desenvolvimentismo, ideologia de uma fração da burguesia nacional em que se defendia a industrialização do país como meio para dar-se fim à miséria e ao suposto atraso do país. 

A burguesia dominante fez o desenvolvimentismo ao seu modo, fazendo explodir o PIB durante o milagre da ditadura, ancorado na super-exploração dos trabalhadores. 

Mas ficou no senso comum a ideia do crescimento econômico enquanto fim para a superação da pobreza e das mazelas nacionais. A ponto de FHC e Lula celebrarem o projeto econômico da ditadura e transformarem um desacreditado Delfim Netto em um gênio da economia. 

E agora que a crise brasileira se acentua, com miseráveis tomando conta das ruas do país e a fome a instalar-se no dia a dia, a mídia glorifica o crescimento do PIB, esquecendo-se que ninguém se alimenta, se veste ou mora num PIB. (por David Emanuel Coelho)

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