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quarta-feira, 17 de julho de 2024

GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL: GOVERNO E DIREÇÕES PELEGAS AGIRAM PELA DERROTA

A greve da Educação Federal, encerrada em junho, foi o enfrentamento mais importante que a classe trabalhadora teve com o atual governo Lula. O final da greve foi marcado por algumas vitórias políticas importantes e um acordo econômico ruim. 

A greve, assim como a mobilização de outras categorias de servidores federais, não conseguiu derrotar o governo e o seu reajuste zero em 2024. Não conseguiu uma reestruturação efetiva das carreiras da Educação Federal, não garantiu a reposição das perdas salariais e arrancou uma reposição muito tímida das verbas das universidades e institutos federais. 

A proposta fechada com o governo basicamente impede a perda inflacionária durante os próximos quatro anos. Mas, esse acordo ficará sob o risco de não ser cumprido pelo governo, diante da pressão do setor financeiro para garantir o Arcabouço Fiscal. 

Embora muito aquém do que se pedia, o acordo é maior do que o governo gostaria de ter concedido, algo que só foi possível pela enorme força demonstrada pela greve, uma das maiores dos últimos tempos. Além disso, a greve impulsionou a organização e a confiança da categoria em suas próprias forças e revelou o papel traidor das direções sindicais governistas, que saíram desgastadas e desmoralizadas. 

Grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação Federal tinham grandes expectativas de que, com Lula, haveria mudanças na situação de precariedade no ensino superior federal. Mas, o presidente ignorou suas promessas de campanha e, no seu primeiro ano de governo, aprovou o Arcabouço Fiscal para garantir o teto de gastos exigido pelos banqueiros e grandes empresários. 

Com isso, em 2024, no primeiro orçamento elaborado pelo novo governo, os servidores foram presenteados com reajuste zero e, para as universidades e institutos federais, com um corte de mais de R$ 300 milhões nas verbas de custeio. 

A expectativa em Lula começou a virar decepção e revolta. Foi esse sentimento de traição que alimentou a mobilização dos técnicos-administrativos das universidades e institutos federais e que depois contagiou os docentes e levou o movimento à greve nacional. 

Nesse momento, esse mesmo sentimento impulsiona a greve da área ambiental, que foi judicializada por Lula, visando que a greve seja decretada ilegal, e a greve dos servidores do INSS, marcada para o dia 16.

Durante a greve, a indignação com Lula aumentou muito. Em primeiro lugar, pela postura intransigente do governo, que lutou todo o tempo para não fazer qualquer tipo de concessão ao movimento e, até o fim, manteve sua decisão de conceder zero de reajuste em 2024.

Em segundo lugar, o movimento foi marcado pela prática antissindical adotada na negociação, com ultimatos, manobras, tabelas erradas e a construção da farsa do acordo com a PROIFES-Federação, uma entidade fantasma, controlada pelo PT e pela CUT, que assinou um acordo contra a decisão das suas assembleias de base. 

Em terceiro lugar, a postura do governo foi caracterizada por suas declarações públicas, atacando a greve e dizendo que os servidores deveriam agradecer ao governo, ao invés de criticá-lo.  

“Tem dinheiro para banqueiro, mas não tem para Educação!”

A indignação com o governo cresceu também em função do cinismo de Lula, afirmando que estava fazendo tudo ao seu alcance pela Educação. Uma grande mentira, que ficou evidente para os grevistas. 

O governo se nega a conceder um reajuste salarial em 2024 e a recomposição das verbas dos institutos e universidades federais, que teriam um custo anual de menos de R$ 10 bilhões. Contudo, continua cedendo uma enorme fatia das verbas públicas ao agronegócio, às grandes indústrias e ao setor financeiro. 

Com aquilo que a União gasta em apenas dois dias com a dívida pública - R$ 10,5 bilhões -, seria possível garantir mais de 7% para recomposição salarial, em 2024, e os R$ 4 bilhões que pedem os reitores para as verbas de custeio das universidades e institutos federais. 

Com 2% dos R$ 519 bilhões concedidos em isenções fiscais aos grandes empresários, somente em 2023, seria possível quase triplicar a proposta de reajuste salarial fechada com o governo, que custará R$ R$ 6,2 bilhões, em dois anos. 

É preciso também lembrar do papel das direções pelegas dos sindicatos, nas quais Lula se apoiou para tentar derrotar o movimento.

Para impor sua proposta salarial, Lula se apoiou nas direções governistas das entidades sindicais - PT, PSOL, PCdoB, PCB e UP -, que buscaram impedir e, depois, controlar a greve, para não afetar a popularidade do governo. 

A primeira traição foi abandonar a campanha salarial unificada e semear ilusões nas mesas específicas, que têm se mostrado desastrosas. Com essa postura, as entidades de servidores federais dividiram o movimento e isolaram a greve da Educação Federal. Entidades importantes, como a Confederação dos Trabalhadores Serviço Público Federal (Condsef), sequer entraram na greve. 

A segunda traição foi tentar impedir a greve na Educação Federal, mas, nesse caso, foram atropelados pela base. Durante a greve, passaram semanas preparando o desmonte da paralisação e não se cansaram em repetir argumentos para defender o governo: “A greve não pode se prolongar, para não fortalecer o fascismo”, “Lula, assuma as negociações”, etc. 

Foram inúmeras manobras, práticas burocráticas e antidemocráticas nos comandos de greve nacional e locais, para tentar impedir que a vontade das bases prevalecesse na condução da greve. Mesmo assim, o movimento conseguiu impor ações radicalizadas e mobilizações nacionais. 

A greve deixou algumas lições importantes. Está claro que Lula não vai resolver os problemas da Educação pública. Seu compromisso é governar com e para os grandes empresários, lhes garantindo todo tipo de privilégio fiscal e grandes fatias do orçamento. Contudo, não é possível governar para a burguesia e para os trabalhadores ao mesmo tempo.

Para garantir os investimentos nas universidades e institutos federais, a valorização salarial e o fim do processo de privatização, é preciso derrotar o Arcabouço Fiscal de Lula. E isso só será possível construindo um poderoso processo de mobilização, que envolva não apenas o setor da Educação, mas todos os setores da nossa classe.

Para isso, é necessário construir uma nova direção para as entidades sindicais. Uma direção sindical que se paute pela independência de classe e assegure a democracia operária como método de condução do movimento. Que organize e impulsione a luta da classe trabalhadora por suas demandas e, consequentemente, para enfrentar e derrotar o governo.

Isso não implica descuidar da luta contra a ultradireita, que segue como uma ameaça concreta contra a classe trabalhadora. Mas, é falacioso o argumento de que combater Lula ajuda a ultradireita, pois Lula não a está combatendo. 

Pelo contrário, quando aplica as diretrizes do Arcabouço Fiscal, atua para derrotar e desmoralizar as lutas dos trabalhadores; quando passa a mão na cabeça dos chefes da tentativa de golpe do ano passado, está justamente pavimentando o caminho para a volta desse setor ao poder.

Nosso desafio é a construção de uma forte oposição pela esquerda ao governo Lula, sem descuidar do combate à ultradireita. Uma oposição que se apoie na organização e na mobilização da nossa classe, em defesa das demandas do povo trabalhador e dos interesses do país, e que tenha como perspectiva colocar os trabalhadores e trabalhadoras para governar o Brasil, através das suas organizações e de conselhos populares.

Só assim abriremos caminho para a superação do capitalismo, um sistema em que a riqueza está a serviço do lucro e do enriquecimento de poucos. Assim, poderemos dar curso à construção do socialismo, garantindo não apenas uma educação pública, de qualidade e a serviço do desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do país, como também uma vida digna e humana para todos e a todas. (Eduardo Zanata, do jornal Opinião Socialista)

quarta-feira, 14 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 5: A TÁTICA BLACK BLOC

 

 A TÁTICA BLACK BLOC

Um grupo que chamou a atenção nas manifestações de Junho de 2013 foi o Black Bloc. Sua forma distintiva de se vestir - sempre de preto e encapuzados -, além da disposição de enfrentar a repressão policial logo os transformaram em um dos principais grupos das manifestações.

Não tardou para o lulopetismo e a mídia identificarem no grupo os principais vilões das manifestações. A última começou a estabelecer uma separação entre manifestantes do bem, ordeiros e pacíficos, e manifestantes do mal, vândalos e baderneiros. O black bloc era justamente o manifestante malvado, pronto a praticar depredações e semear o caos. Ambos enxergaram no movimento a explicitação ideológica daquelas aspirações radicais que os manifestantes possuíam apenas latentemente. Ou seja, os black blocs externalizavam, de certa forma, o ímpeto anticapitalista das manifestações e por isso foram eleitos os inimigos número tanto pela exquerda reacionária, quanto pela mídia burguesa. 

Para o lulopetismo, ele representava a rebeldia das manifestações que rapidamente haviam se focado na oposição ao governo Dilma e na repulsa ao PT. Desligados do aparelho burocrático, sem pretensões eleitoreiras ou pautas que pudessem ensejar uma cooptação, os black blocs foram encarados como pura negatividade, diferente de tudo o que viera anteriormente nas lutas sociais, sempre marcadas pelo assistencialismo e o ímpeto reivindicativo dos movimentos.  

Por fim, os black blocs também sofreram ríspida oposição da esquerda não alinhada ao PT, particularmente do PSTU. Nesse caso, o principal motivo foi uma disputa pela vanguarda das manifestações, pois o partido trotskista acabou também sendo rechaçado em suas idas às ruas, por estar identificado aos partidos no geral e mesmo ao lulopetismo, mesmo não sendo parte do campo lulista. Já os black blocs não eram rechaçados, ao contrário, eram bem-vindos pelos manifestantes e sua resistência aguerrida à repressão acabava servindo de inspiração para outros. 

Mas, o que eram os black blocs? Para começar não são exatamente um agrupamento, mas uma tática. Não existe uma liderança black bloc, um coletivo black bloc ou mesmo manifestos black bloc. Qualquer um pode ser um black bloc, bastando para isso estar disposto a seguir os princípios gerais da tática.

Os black blocs surgiram na Alemanha nos anos de 1980 como meio para autodefesa dos manifestantes contra a polícia e forças neonazistas. Em 1999 ganharam projeção midiática graças à sua presença nas manifestações em Seattle, nos EUA,  contra a OMC - Organização Mundial do Comércio. A partir dali o ideário do movimento se alastrou ao redor do mundo, já existindo no Brasil antes de 2013, mas com pouca atenção. 

De inspiração anarquista, os black blocs não possuem uma linha de comando hierarquizada, ficando a organização restrita à espontaneidade de cada manifestação ou momento. Em geral, o grupo age em um processo de autodefesa e mesmo os vandalismos praticados são feitos como estratégia para retardar ou dificultar a ação policial. Assim, por exemplo, lixeiras são queimadas e barricadas montadas para impedir o avanço da tropa de choque. 

Mas existe também um momento ofensivo na tática black bloc quando ocorre o vandalismo performático que se trata da destruição de objetos símbolos do capital e de instituições do Estado. Assim, delegacias podem ser atacadas, guaritas e carros de polícia destruídos, agências bancárias podem ser invadidas e vandalizadas, etc. Nesse caso, o objetivo é aniquilar simbolicamente representações do capitalismo e de seu Estado, tornando sem valor aquilo que é valorado pelo capital e provocando na consciência popular a desacralização da sociedade capitalista. 

Essa ação, inclusive, sempre foi a que mais gerou polêmica, sobretudo com o PSTU. O centro da crítica se resumia justamente ao caráter performático, não efetivo, das ações contra os símbolos do capital, pois a destruição dos objetos e lugares não implicava na destruição efetiva da propriedade privada. Também se argumentava o quanto o vandalismo seria contraproducente para o movimento no geral, pois serviria de munição para as forças repressivas e para o ataque da mídia. 

No entanto, é importante ressaltar que a maior parte dos atos de vandalismo ocorridos em 2013 não vieram dos adeptos da tática black bloc, a qual, inclusive, nem era tão generalizada. Na realidade, o vandalismo era praticado em grande medida por indivíduos comuns, participantes dos atos e que muitas vezes invadiam e depredavam concessionárias de carros, agências bancárias, lojas e mercados no geral. Na maioria das vezes, as pessoas sequer cobriam seus rostos. Vale também considerar que o pequeno comércio era raramente atacado, não sendo incomum encontrar pequenos comércios, bancas de jornal e bares intactos em meio a um rastro de destruição. 

De fato, o impacto dos black blocs dentro das manifestações foi muito menor do que se acredita, pois em manifestações de milhões, eles costumavam ser algumas centenas e sua participação foi mais concentrada às grandes metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em resumo, ficaram muito mais no imaginário, devido à disposição da ação direta e também à amplificação de sua imagem por parte do lulopetismo e da mídia. 

Seja como for, a tática ficou associada como um dos acontecimentos mais marcantes das Jornadas de Junho de 2013. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

AO CONFUNDIR MOINHOS DE VENTO COM GIGANTES, A ESQUERDA CORRE O MESMO RISCO DE DOM QUIXOTE DE COMBATER O QUE NÃO É REAL

 

transição socialista 

O CAPITÓLIO BRASILEIRO E A FESTA DA DEMOCRACIA

Toda ciência seria supérflua se houvesse coincidência imediata entre a aparência e a essência das coisas”, nos ensina Marx no Capital. Mas tal fundamento parece passar mais uma vez despercebido pela dita esquerda revolucionária brasileira, que continua a tomar a aparência imediata dos fatos por sua essência. transição socialista 

“A democracia brasileira corre perigo!” gritam Fiesp e Febraban diante da patética invasão bolsonarista aos prédios dos três poderes no último dia 8. E eis que, ao soar do alarme, conforma-se como mágica uma vasta frente única capaz de unir interesses até então aparentemente opostos: petistas juntam-se aos ex-bolsonaristas, os comunistas aos representantes do grande capital internacional, e por aí vai.

Antes de aderir a tal frente, deveríamos nos perguntar: o regime democrático brasileiro esteve de fato em perigo no último dia 8? Será que uns milhares de desempregados, aposentados, indivíduos provenientes do baixo clero da política, do funcionalismo público ou de setores pequeno-burgueses, todos desarmados e financiados por uma fração menor da burguesia agrária mais isolada e atrasada, contando apenas com a colaboração passiva de setores do executivo e das forças armadas, teria conseguido tomar de assalto o poder de uma nação de 210 milhões de habitantes? Trata-se de um espetáculo que não deve ser superdimensionado pela vanguarda, sob pena de direcionar sua pouca força política a uma caça aos fantasmas.

A ala majoritária da burguesia já fez sua experiência com o bolsonarismo e hoje, mais do que nunca, vê em Lula a melhor alternativa para a gestão do Estado. Essa preferência se expressa não só na rapidez com que as entidades patronais condenaram os atentados, mas também no acordo entre analistas burgueses de que o governo saiu fortalecido da aparente crise institucional. Assim, não se deve desconsiderar que o governo federal, que sabia do risco de invasão às sedes dos três poderes, conscientemente decidiu não agir de forma altiva e enérgica no 8 de janeiro.

Se a omissão de Ibaneis Rocha e seu secretário é criminalizada, o que dizer da inação do Ministério da Justiça diante das informações de que o DF falharia no cumprimento da segurança da Esplanada? O que dizer da ausência da Força de Segurança Nacional? O que dizer da paralisia dos batalhões do exército localizados abaixo do Palácio do Planalto? O que dizer do esvaziamento de policiais do GSI? Seria tudo obra dos bolsonaristas? Alguém realmente acredita que os petistas/alckmistas, grupo talvez com mais experiência política no Brasil, não puderam tomar nenhuma medida nos dias que antecederam imediatamente a invasão? É muito duvidoso, sobretudo ao se considerar que os petistas têm também tradicional influência e mesmo frações em diferentes forças policiais nacionais. Por que Lula agora barra a criação de uma CPI para investigar o 8 de janeiro?

Se é certo que, de um lado, existiam elementos bolsonaristas na Abin e no GSI, também é verdade que o governo federal, chefe afinal destas instituições, tinha condições de agir em função das informações disponíveis, mas preferiu assumir o risco calculado de não tomar nenhuma medida especial contra a possível invasão, apenas levando Lula para Araraquara por precaução. Revelou-se um cálculo político preciso.

Lula ganhou ainda mais holofotes a partir de 8 de janeiro e tem agora a faca e o queijo na mão para arrumar a casa, seja no executivo, demitindo militares da reserva que exerciam cargos comissionados, seja nas forças armadas, com as diversas trocas no comando ocorridas nas últimas semanas, seja na relação com o legislativo, que ruma para uma pacificação inédita nos últimos anos. 

A ferida aberta na governabilidade burguesa em Junho de 2013, da qual o bolsonarismo é subproduto - decorrente de uma situação da falência das organizações revolucionárias em dirigir a legítima indignação social contra o PT -, vinha cicatrizando lentamente nos últimos anos, mas os incidentes de 8 de janeiro aceleraram esse processo. Agitando o espantalho do bolsonarismo, Lula pode mais uma vez provar para a burguesia sua aptidão como governante e se blindar com o apoio prático da dita vanguarda socialista, abrindo um período de relativa estabilidade política.

Nas palavras de Lenin: “A república democrática é o melhor invólucro político possível para o capitalismo”. A burguesia só abre mão desse seu regime preferido quando as condições sociais assim o exigem, ou seja, quando ela se vê na situação em que ou aprofunda sua repressão contra a classe trabalhadora ou corre o risco de ser derrubada por ela. O bonapartismo e o fascismo são respostas da burguesia a um período particular de acirramento da luta de classes, e não podem ser entendidos como um risco permanente, sob pena de mantermos a esquerda revolucionária num perpétuo frenesi antifascista, que apenas desvia forças do combate necessário ao inimigo real, isto é, a burguesia nacional e seu Estado democrático. Não há analogia dos acontecimentos de Brasília com o golpe de Louis Bonaparte, com a Marcha sobre Roma ou com o Incêndio do Reichstag que fique de pé na situação atual brasileira, em que não há ascenso revolucionário ou partido revolucionário.

Ao tomar para si o papel de testa de ferro da democracia contra o fascismo inexistente, a esquerda incorre em múltiplos erros. Em primeiro lugar, ela condena a sedição por si só, deseducando a classe trabalhadora, levando-a à defesa de valores democráticos universais - abstratos, sem recorte de classe. Corre-se assim também o risco de ser aberto  um precedente contra a própria esquerda. Os que foram para rua contra a aprovação da Lei Antiterrorismo, e em defesa da ação direta dos Black Blocs, agora exigem que a lei seja aplicada em todo seu rigor contra os terroristas de Brasília! Até mesmo organizações como o PSTU correram para taxar a turba bolsonarista de terrorista!

O segundo erro da esquerda é achar que ela pode de alguma forma ofuscar o Estado e dirigir ela própria a cruzada contra o bolsonarismo. Mas ela não apenas se mostra incapaz de convencer a população trabalhadora a combater os moinhos de vento  - como demonstraram os atos do dia seguinte ao capitólio brasileiro, relativamente pequenos -, como tende a ser ela mesma ofuscada pelo brilho de seus colegas mais poderosos.

Finalmente, uma frente única policlassista estaria correta se houvesse risco real às liberdades democráticas: “contra o fascismo, união até com o diabo e sua avó”, dizia Trotsky. Na ausência do fascismo, no entanto, o suposto combate se revela como mero diversionismo, que contribui apenas para confundir a vanguarda e restabelecer a governabilidade burguesa sob o comando de Lula e Alckmin.

Nesse sentido, o cancelamento da greve de entregadores prevista para o dia 25 de janeiro é bastante didático, exemplo da atual lua de mel de Lula com a consciência democrática dos trabalhadores, em benefício dos proprietários. Pouco depois dos ataques dia 8, os Entregadores Antifascistas vieram a público deixar claro que sua eventual greve não se confundiria com um ataque à democracia. Semanas depois, numa reunião com o Ministério do Trabalho, representantes da categoria decidiram suspender a greve entendendo que a prioridade, nas palavras de Galo, “é o diálogo com o governo”. Saíram de mãos vazias da mesa de negociação: a mera promessa de diálogo já foi o suficiente para que se abortasse a luta! O lulismo, potencializado pelos eventos do dia 8, mostrou mais uma vez como se derrota uma potencial greve sem uma única viatura de polícia.

O clima geral é, portanto, de restabelecimento da ordem. Ao contrário de 2018, quando a prisão de Lula significou o aprofundamento da crise de dominação burguesa, a prisão dos bolsonaristas expressa apenas a natureza pragmática do Estado-capital no seu instinto de autopreservação. Este instinto é uma constante que se volta contra o conjunto da classe trabalhadora sempre que necessário.

Outros testes importantes para a vanguarda virão ainda este ano. A inflação deve voltar a subir em função da reoneração dos combustíveis prevista para os próximos meses. Além disso, Lula tem o desafio monumental de retomar o crescimento da produtividade num contexto em que a recessão global projeta um crescimento econômico quase nulo para o Brasil. O crescimento da produtividade nada mais é do que o aumento do grau de exploração sobre a classe trabalhadora, do qual o capital precisa para continuar seu ciclo perpétuo de autovalorização.

Vê-se que enquanto a esquerda caça fantasmas, o Estado democrático burguês continua desempenhando normalmente seu clássico papel de balcão de negócios da burguesia. Em meio à onda diversionista atual, é importante não perder o foco na luta de classes. (Transição Socialista



quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

ANTES SÓ CONSERVADOR, O LULOPETISMO AGORA É CONTRARREVOLUCIONÁRIO

david emanuel coelho
A IMPOTÊNCIA DA ESQUERDA BRASILEIRA
José Chasin, importante filósofo marxista brasileiro, dizia, pouco após a queda da URSS, que a esquerda estava "morta em sua teoria e em sua prática"

Décadas se passaram desde então, sem que houvesse completa aceitação de tal  veredito. 

Há muito engano sobre vitórias eleitorais e crescimentos de bancada, que, ao fim, não representam absolutamente nada. No entanto, os rumos das ações da autoproclamada esquerda, suas concepções e sua inserção social, constantemente comprovam  a justeza da afirmação do célebre intelectual. 

No entanto, existe outro elemento importante a ser considerado na condição da esquerda brasileira, talvez associado à sua própria morte: a impotência

A esquerda não possui força própria para absolutamente nada, tanto que precisou se subordinar ao personalismo saudosista de Lula para poder sobrepujar Jair Bolsonaro. Pois o que derrotou o genocida eleitoralmente não foi nenhuma mobilização popular ou ações organizadas de conscientização, mas sim as reminiscências da belle époque do começo do século, contraposta, à vida dura e sofrida de sua segunda década. Não foi a política, foi a saudade.
Por isso, inclusive, a campanha eleitoral de 2022 foi a mais despolitizada da história, não tendo qualquer tipo de discussão relevante ou mobilização digna de nota. Foi a campanha dos baixos instintos, do irracionalismo, da ignorância e do vazio. Votou-se não para optar por alguém, mas para impedir que o poder acabasse nas mãos do adversário. 

Uma campanha negativa, portanto, na qual inexistiram proposições, até porque o essencial não estava em debate. Ganhasse quem fosse, a política econômica e o modelo de sociedade permaneceriam essencialmente os mesmos: o capitalismo periférico, subordinado, de matriz neoextrativista, permaneceria intocado, apenas mudando o chantilly que cobre a grande merda, se progressista ou fascistoide.  

E onde estava na esquerda nisto tudo? Basicamente, ela se dividiu em dois grupos, os que se curvaram desde o 1º turno e os que vieram a se curvar apenas no 2º, fingindo-se de autônomos na fase inicial. 

No primeiro grupo, o exemplo mais notório é do Psol. Como a história de rendição do psolismo já foi por mim narrada neste outro artigo, não preciso retomar o assunto aqui. O partido, no entanto, teve o mérito de não esconder o jogo, embarcando desde a largada no bonde lulista. 

O segundo grupo foi mais dissimulado. Fingiu independência no início, até mesmo criticando o lulismo, para no final render-se incondicionalmente. 
"O Psol teve o mérito de não esconder o jogo,
embarcando no bonde petista desde o início"
Neste estão inclusos PSTU, PCB e UP, além de uma miríade de outros grupelhos. Abandonando a autoproclamação, onde falam para si mesmos e parecem acreditar que estão na vanguarda de alguma coisa, foram para os braços do liberalismo vencedor.

Passada a eleição, pateticamente, grande parte desta esquerda passou a fazer as vezes de consciência crítica do PT, lançando alertas para os possíveis erros do lulopetismo, como se de fato Lula e sua gangue estivessem equivocando-se e não simplesmente seguindo o seu próprio projeto de poder, que jamais foi outro que não o de administrar o capitalismo e enriquecer-se sob ele. 

Parecem ainda acreditar que o PT e o futuro presidente insiram-se na esquerda e tenham algum compromisso com qualquer forma de transformação, quando, na realidade, o lulopetismo não é hoje sequer uma força conservadora, mas sim abertamente contrarrevolucionária. Marcha desde 2013 na contramão das massas insurrectas. 

A esquerda, inclusive, rejeita a ação destas massas pelo óbvio motivo de ser por elas rechaçada. Presa em concepções esquemáticas, fazendo uma interpretação oscilante entre o puro stalinismo e o impressionismo barato, se perde no curso da história, tendo de prostrar-se à hegemonia lulista para ter o mínimo de efetividade. 

A inoperância da esquerda abre livre curso de ação à extrema-direita que é a grande mobilizadoraatual  das ações das massas. Momentaneamente derrotada nas urnas, permanece com força social e com agitações nas ruas, fazendo uma crítica radical às atuais condições sociais e propondo uma transformação completa do país. 

A extrema-direita age apesar de Bolsonaro, pois sua relação com o futuro ex-presidente é de criador para criatura e não o contrário. O capitão foi elevado pelas massas reacionárias, mas ele jamais conseguiu as domar completamente, tendo inclusive havido uma pluralidade de lideranças entre elas – Aécio, Moro, Cunha, para citar alguns. Ao contrário da esquerda que foi liquidada por Lula e passou a ser completamente dependente deste. 

Este é inclusive um trunfo para as forças reacionárias, pois independem de um nome, agindo muito mais por ideias do que por personalidades. Força deles e fraqueza da esquerda, atrelada por demais ao destino de um indivíduo historicamente superado e sem qualquer tipo de compromisso com nada a não ser ele mesmo. 

A impotência da esquerda é, portanto, a força da extrema-direita e prenuncia um futuro terrível, do qual muitos sequer conseguem ter clareza, neste momento de deslumbramento com a vitória eleitoral. (por David Emanuel Coelho)

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

CONTRA A BARBÁRIE, TEREI DE CEDER À CHANTAGEM IMPLÍCITA E VOTAR NO LULA

Coerente com a convicção de que as eleições de cartas marcadas da democracia burguesa só servem a nós, revolucionários, como oportunidade tática para acumularmos forças e expormos a públicos mais amplos nossos valores e nossa visão de mundo, sempre recomendei
 no 1º turno, o voto em candidatos da esquerda combativa, ainda que nanicos; e, 
— no 2º turno, se nenhum dos contendores personificar a ruptura no sentido do estabelecimento de uma sociedade igualitária e livre, o voto nulo.

Mas desta vez um valor mais alto se alevanta: o papel que há meio século me atribui, como sobrevivente de uma luta na qual tantos companheiros de valor inestimável entregaram a vida, de defender a memória e o legado dos resistentes dos anos de chumbo.

O filhote desfibrado do Brilhante Ustra, que se tornou responsável por centenas de milhares de óbitos evitáveis ao sabotar o combate científico à pandemia de covid, tem de ser exemplarmente batido e banido. É, indiscutivelmente, minha prioridade máxima desta vez.

Então, a contragosto, votarei e recomendo o voto no Lula neste domingo (2), até para evitar mais quatro semanas de mortes inúteis em conflitos de fanáticos, embora vá passar o resto da vida amaldiçoando o padrasto dos pobres por ter-me obrigado a ceder à sua chantagem.

É que, tudo fazendo para esvaziar o #ForaBolsonaro e a bandeira de impeachment do genocida, ele deu contribuição fundamental para a eleição desembocar numa escolha entre a barbárie da extrema-direita e a frouxidão do reformismo. No caso de alguém com o meu passado, passou a não haver escolha, mas sim uma obrigação moral.    

Para todos os outros postos em disputa, votarei nos candidatos do PSTU, por ser um partido totalmente engajado na proposta de união das forças e expoentes da esquerda anticapitalista no Polo Socialista Revolucionário

Trata-se da nossa única possibilidade visível de construirmos uma alternativa à forma civilizada de dominação burguesa que entrará em cartaz no primeiro dia de 2023, substituindo a insanidade belicosa e tosca dos últimos anos. (por Celso Lungaretti) 
Excelente filme noir dirigido por Robert Aldrich em 1955, com
Jack Palance, Rod Steiger e Ida Lupino esbanjando talento.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

A EMPOLGAÇÃO CONTAGIA, MAS SERÁ CAMPANHA DO TOSTÃO CONTRA MILHÃO

E
stive neste domingo na convenção nacional do PSTU, que oficializou a escolha dos candidatos para as eleições 2022.

É sempre gratificante para um veterano de tantas jornadas ver a empolgação da moçada, naquela fase em que a militância revolucionária ainda é puro deleite. Fez-me lembrar 1967 e 1968, quando eu era igualmente otimista e ingênuo; a partir de 1969, contudo, o mar de rosas se tornou um oceano tempestuoso.

Para aquilatarmos a extrema disparidade de forças entre o poder de fogo dos grandes e dos pequenos partidos, que a cláusula de barreira só faz aumentar, os limites de gastos de campanha (que também foram homologados na convenção) são de R$ 2 milhões para o pleito presidencial; R$ 1 milhão cada para os do Senado e Câmara Federal; e R$ 800 mil para o dos legislativos estaduais. 

Democracia? A ditadura militar, ao impor o bipartidarismo na marra, era menos cínica.

Vera Lúcia, a operária sapateira que concorre à presidência da República, tem presença simpática e carismática, irradiando convicção e honestidade por todos os poros. 

Mas, faria bem se assistisse ou ouvisse gravações de um Leonel Brizola, p. ex., para perceber que num discurso devemos alternar volumes, subindo para ressaltar os trechos mais importantes, o que funciona como um convite para os aplausos. 

Mantendo sua fala lá em cima o tempo todo e não dando brechas, o público tinha até dificuldade para encontrar o momento certo para encaixar seus aplausos. 

Só que é o orador que deve propiciar tal momento, inclusive com deixas tipo É isto que queremos para o Brasil? Não, mil vezes não!, seguidas de uma pausa para respirar... 

E convém não deixar-se ao acaso quais trechos devem ser cobertos de aplausos, escolhendo-os previamente: são aqueles que o(a) candidato(a) quer ver destacados na cobertura de jornais, rádios e tevês.

Enfim, a sinceridade  (que ela tem de sobra e da qual os políticos profissionais quase todos são carentes) constitui um bom começo, mas há alguns detalhes do ofício que lhe seria útil incorporar.

Soaram como música para meus ouvidos os discursos corajosamente socialistas, sem medo de afugentar eleitores. 

É óbvio que o PSTU enxerga a eleição presidencial e as demais de outubro como as forças realmente de esquerda devem considerar todas as eleições: não passam de oportunidade tática para acumulação de forças rumo ao objetivo estratégico de transformação em profundidade da sociedade. 

Foi a obsessão por migalhas de poder dentro da democracia burguesa que conduziu à domesticação o PCB, PTB, PMDB, PSDB, PT, Psol e tantos outros. 

Como os princípios fundamentais foram por eles esquecidos e hoje são amplamente ignorados, teremos de voltar ao bê-a-bá antes de partirmos para os posicionamentos mais sofisticados (como a opção por metas atingíveis num mandato presidencial com as limitações atuais, pois o povo perderá a confiança em nós se, como todos os partidos da direita, do centro e da esquerda desvirtuada, prometermos o que é impossível entregar dentro do capitalismo).

Então, deixando de lado algumas questões que por enquanto não são fundamentais, eu apenas recomendaria um posicionamento claro e incisivo em favor da substituição dos combustíveis fósseis pela energia limpa, ou seja, exatamente o contrário do que o Lula prega, ao prometer sanear e expandir (!!!) a Petrobrás, o que soa para cidadãos comuns como uma ameaça de mais e maiores petrolões.

Aí já se trata de um divisor de águas entre a esquerda que caducou no século passado, impregnada da ideologia burguesa a ponto de aceitar contribuir para a destruição da espécie humana se isto trouxer ganhos econômicos imediatos, e a esquerda do século 21, comprometida com a preservação da vida acima de tudo. 

Grana para aquecer a economia se obteria muito mais, p. ex., com uma adequada taxação dos bancos e das grandes fortunas, pois a atual é um acinte num país onde a fome e a miséria há muito extrapolaram quaisquer limites minimamente aceitáveis. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

A LUTA CONTINUA (AGORA NO PSTU)

N
ão foi apenas a minha  certeza de que os trabalhadores jamais irão para o paraíso (nem sequer terão uma existência compatível com sua dignidade de seres humanos) enquanto estiverem submetidos à exploração do homem pelo homem, convicção norteadora de toda a minha trajetória política neste mais de meio século de tentativas, acertos e erros nas lutas tão desiguais quanto sofridas que optei por travar, o motivo da decisão de desfiliar-me do Partido Sol e Liberdade, concretizada no mês passado.

Houve quem imaginasse que, aos 71 anos, eu estaria sentindo o peso da idade e me conformando com a ideia de deixar o campo de batalha. Nada é mais equivocado! 

Em 2012, depois de uma decepcionante candidatura a vereador de São Paulo, concluí que era inútil a minha insistência em plantar sementes da revolução em partidos obcecados com a conquista de poder dentro da sociedade capitalista, então passei a apenas transmitir minhas análises e as lições de minha militância por meio dos posts no blog Náufrago da Utopia e dos artigos que espalhava nas redes sociais. 

Não chegava a ser propriamente um repouso do guerreiro, mas, digamos, uma semi-aposentadoria. Morri de vontade de participar dos protestos de junho de 2013 mas, confesso, temi passar vergonha caso a dificuldade de movimentação que estava tendo me tornasse uma preocupação para os companheiros, atrapalhando-os quando tinham mais é de ocupar-se do confronto com a repressão democrática dos governadores e Judiciário de vários estados, inclusive de São Paulo.

Mas, aquele momento foi um divisor de água entre um Partido dos Trabalhadores que, apesar da carta de capitulação do Lula ao grande capital em 2002, ainda não se assumira totalmente como mais um agrupamento comprometido com a manutenção da ordem sob o capitalismo, mera força auxiliar da dominação burguesa. 
A partir daquelas jornadas, até uma fascistoide Lei Antiterrorismo o PT passou a endossar e, pelas mãos da gerentona trapalhona, sancionar.

Nos anos seguintes, amarguei a minha impotência em mudar o rumo dos acontecimentos apenas com meus textos, embora tenha previsto com grande antecedência cada etapa do percurso do PT rumo ao abismo, arrastando a esquerda brasileira consigo e criando as condições ideais para a volta da direita ao poder. Senti-me como a Cassandra troiana, cujas advertências não eram levadas a sério embora fossem antevisões perfeitas dos desastres anunciados.

Então, neste ano de 2022 em que se decide o futuro do Brasil em curto e médio prazos, resolvi sair da minha zona de conforto e somar forças com os militantes da legenda mais afim de minha visão política que identifiquei no espectro da esquerda brasileira: o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

Encontrei no programa do PSTU posições que defendo há décadas, como:
— a impossibilidade de superarmos o capitalismo "através de acordos com a burguesia ou através das instituições deste sistema, deste Estado, desta democracia dos ricos e muito menos de uma ditadura militar";
— a inevitabilidade do desvirtuamento dos propósitos marxistas quando se tenta construir o socialismo em países isolados, motivo pelo qual tais regimes acabam sempre encaminhando-se para uma volta ao capitalismo ou para o autoritarismo  das nomenklaturas, às vezes até para o pior dos mundos possíveis (a retomada capitalista sob ditadura do partido único, como na China);
— o imperativo, portanto, do internacionalismo revolucionário ("Para nós o socialismo será mundial ou não será. Por isso, o PSTU é parte de uma organização revolucionária mundial, a Liga Internacional dos Trabalhadores"); e
— o fato de que a barreira da necessidade já foi transposta e as forças produtivas estão suficientemente desenvolvidas, em escala mundial, para que se possa proporcionar tudo de que cada habitante de cada nação carece para uma existência gratificante e plena, o que só não ocorre porque a prioridade máxima sob o capitalismo é o lucro e não o bem comum ("...nunca se produziu tanta riqueza, conhecimento cientifico, inovação tecnológica como vemos nos dias atuais. No entanto, no capitalismo, nada disso está a serviço de melhorar a vida da população. Tudo está a serviço do lucro cada vez maior, de um pequeno grupo cada vez menor de banqueiros e grandes empresários que controlam a economia em todo o planeta").

Há algumas diversidades de ênfase, mas elas são até complementares. Como, p. ex., a visão que eu e o companheiro Dalton Rosado temos de que as contradições econômicas sob o capitalismo estão chegando ao ponto de ruptura, o que tende a provocar instabilidade e turbulências de país a país, propiciando oportunidades para os que forem capazes de apontar rumos ao povo em meio ao caos (a abertura de janelas revolucionárias).

Mas, como venho enfatizando desde 2013, é preciso existirem militantes capazes de interpretarem corretamente tais acontecimentos e discernirem quais os passos adiante que devem ser propostos aos manifestantes.  

Vejo o PSTU como o partido mais consciente da necessidade de formarmos quadros à altura dos grandes momentos, evitando que eles se esgotem sob a liderança bem intencionada mas inexperiente de qualquer Sininho (a Elisa Quadros, contudo, foi abandonada à sanha policial e jurídica do inimigo, o que deve ser lembrado como um  motivo de enorme vergonha para todos nós!).

Daí o papel destacado do PSTU nos esforços para a construção, de baixo para cima, do
Polo Socialista Revolucionário, um ponto de convergência dos militantes de várias origens que se desiludiram com o reformismo ora predominante na esquerda brasileira e veem a necessidade de voltarmos a encarar as eleições de cartas marcadas da democracia burguesa como uma ferramenta tática para a divulgação de nossas bandeiras e acumulação de forças, mas não –jamais!– como objetivo estratégico.  

Tal união em torno de nossos objetivos maiores é algo com que sonho desde o ano terrível de 1969, quando o terrorismo de estado impunha severas perdas aos grupos que travávamos a luta armada e, a cada dia, tínhamos conhecimento de novas quedas ou assassinatos de companheiros queridos. 

Para reagir às investidas de um inimigo extremamente superior a nós em efetivos e recursos, começamos a juntar quadros de várias organizações para viabilizarmos aquelas ações mais ousadas que nenhuma delas conseguia mais executar isoladamente. E eu ficava matutando de como teria sido bom se houvéssemos colaborado com tal desprendimento, sem mesquinhez, antes de chegarmos às portas da derrota. 

Fico comovido ao ver que, desta vez, espírito semelhante está surgindo numa situação bem menos trágica. Algo aprendemos, afinal, e isto me enche de esperanças! 

A luta continua (Celso Lungaretti 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O "MANIFESTO PARA RECONSTRUIR O BRASIL" E A FALTA QUE FAZ UMA OPÇÃO VERDADEIRAMENTE DE ESQUERDA

Por David Emanuel Coelho
A decadência do lulopetismo é um fato amplamente observado e analisado. Porém, pouco se tem falado sobre tal decadência não estar apenas circunscrita ao Partido dos Trabalhadores. Na verdade, toda a esquerda pós-ditadura, moldada em padrões similares ao lulopetismo, está em decadência. 

Não poderia ser diferente, se atentarmos para o fato de praticamente toda esta esquerda ter se originado no PT. Exceção feita aos agrupamentos surgidos a partir da desagregação do antigo PCB e alguns herdeiros do velho trabalhismo. 

As crias do PCB e do trabalhismo já passaram desta pra melhor há tempos. Hoje não possuem a menor pretensão de lutar por nada que não sejam cargos, à medida que trazem na bagagem punhado a mais de votos para a formação das bancadas. 

Porém, os filhotes do petismo ainda buscavam expressar ideais ideológicos, posicionando-se enquanto oposição à esquerda do governo petista. 

Esta oposição, no entanto, comportava-se como uma espécie de duplo do lulpetismo. Embora denunciasse o desengano do PT e clamasse por outro caminho, o fazia a partir de uma perspectiva lulopetista. Isto é, a oposição destes partidos era uma oposição lulopetista ao lulopetismo. Uma oposição de esquerda, bem entendido, mas a qual, em momento algum, rompia com a lógica fundamental do lulopetismo. 

Qual era o principal elemento de crítica destes agrupamentos ao petismo? Era de que o petismo teria perdido sua pureza ideológica, vendendo-se à burguesia e à direita política. A lógica, portanto, seria de se contraporem a um desvio histórico do Partido dos Trabalhadores. O projeto petista originário, contudo, seria factível de realização.

No momento, porém, de esgotamento histórico do PT, tais agrupamentos estariam se movendo para, ao mesmo tempo que enterram o partido, salvar o projeto lulopetista, o qual agora trocaria de mãos. 

Isto explicaria porque tais agrupamentos passaram a defender tão ostensivamente Lula e o governo derrocado de Dilma. Na verdade, mais do que defender Lula e Dilma enquanto figuras de carne e osso, a meta seria defendê-los enquanto figuras politicamente simbólicas. 

Certamente, o partido vetor deste movimento é o PSOL. Último a se descolar do PT, o PSOL possui em seu interior uma direção fortemente lulopetista, propensa a tentar repetir o projeto petista em um novo patamar. 

O primeiro sinal disto foi a saída do PSTU do agrupamento autodenominado Mais, o qual rapidamente buscou abrigo no Psol, indo ali reforçar os interesses da direção psolista e ajudar no isolamento dos agrupamentos radicais do MES. 

O segundo sinal é a recente imposição (sem debate interno) do nome de Guilherme Boulos como candidato à presidência pelo partido. Com Boulos será possível acessar a máquina de militância do MTST e, assim, ter um agrupamento popular de massas análogo ao MST. Para a direção do PSOL, isto significa retirar o partido da condição de um agrupamento de classe média, tornando-o um partido com inserção em parte da classe trabalhadora, de forma a alavancar a capacidade eleitoral psolista. 
Em 2012, na eleição municipal de Belém, o Psol já começava a tentar ocupar o espaço eleitoral do PT
Em paralelo, o PSOL incorpora o discurso lulopetista sobre o golpe e contra a Operação Lava-Jato, o que lhe permite herdar a militância e o eleitorado mais fiel ao petismo. 

Qual seria o projeto? Basicamente, o mesmo que o do PT, talvez com uma coloração ideologicamente mais verborrágica. O tal Manifesto para reconstruir o Brasil é praticamente um raio X das ideias da direção psolista, defensora entusiasmada do desenvolvimentismo ali expresso. 

Gilberto Maringoni, um dos principais expoentes ideológicos da direção psolista, já deixou claro tempos atrás que sua única diferença frente ao PT seria a política econômica, considerada por ele neoliberal e não nacionalista

Porém, o complicador deste projeto é o fato da história dificilmente se repetir. Quando ela se repete, já ensinava Marx, é sempre como farsa.
Boulos quer herdar a militância e o eleitorado do petismo
Neste momento, é pouco provável que projetos como este vinguem, justamente pelo fato de estarmos em um momento de radicalização da luta de classes, no qual a burguesia claramente desdenha de um governo de coalização com a classe trabalhadora. 

E a própria classe trabalhadora também não busca mais uma política de acomodação, mostrando isto seja em seu rechaço completo ao regime político, seja embarcando em posições nitidamente de extrema-direita. 

A tentativa de reeditar a experiência esgotada do lulopetismo apenas mostra a própria decadência destes agrupamentos, os quais não possuem qualquer alternativa viável para constituir-se enquanto opção verdadeiramente de esquerda. 

Analisam o mundo social a partir dos pressupostos lulopetistas e não conseguem entender a dinâmica atual e formular respostas à altura do momento histórico. 

Impossibilitados de mudar, pois presos ao velho, apenas conseguem propor uma retomada do que já se foi. É a expressão cabal de sua falência política.
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