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quinta-feira, 25 de abril de 2024

HÁ 50 ANOS, A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS COLOCAVA FIM À MAIS LONGA DITADURA FASCISTA DA EUROPA


Às 0h25, pelo horário de Lisboa, do dia 25 de abril de 1974 tocava na então Rádio Renascença, católica e defensora da ditadura, a música Grândola, Vila Morena, composta por José Afonso. A música, banida no país pela censura, era a senha para a mobilização das tropas que iriam ocupar a capital portuguesa e derrubar o regime salazarista, existente desde 1926,o mais longo regime fascista em vigor então na Europa. 

Surgido no contexto das contrarrevoluções fascistas das décadas de 1920-30, o chamado Estado Novo foi fundado por António de Oliveira Salazar, um simpatizante de Mussolini e de Hitler, e tinha por base um pensamento ultramontano, de conservadorismo católico, tendência antimodernizante, corporativista e anticomunista. Durante suas quase cinco décadas de existência, transformou Portugal no país mais pobre e atrasado da Europa ocidental, graças, sobretudo, à resistência ao avanço pleno das forças capitalistas. O pilar do regime era a manutenção do extenso império transmarítimo, herança do período das navegações, que incluíam possessões na África, Ásia e Oceania. Em suma, cumpria um papel de retaguarda contrarrevolucionária na porta da Europa, pois economicamente nunca havia cumprido qualquer papel relevante no capitalismo contemporâneo.

"E Depois do Adeus" foi a primeira música tocada pelo movimento revolucionário, às 22h55 do dia 24. Era a senha para as tropas se prepararem para a saída às ruas. 

As colônias, inclusive, foram uma das causas fundamentais para o colapso da ditadura, pois havia quase dez anos Portugal levava adiante custosa e sanguinária guerra na África contra a independência de suas possessões, particularmente de Angola e Moçambique. Até 1974, a guerra já matara e mutilara dezenas de milhares, criando o descontentamento popular com os contínuos alistamentos e o gasto exorbitante para um conflito claramente já perdido. Era, guardadas as devidas proporções, o Vietnã português e, igual ocorria nos EUA à época, alimentava domesticamente uma situação revolucionária. 

E essa revolução acabou por vir. O golpe militar desfechado majoritariamente por capitães ocupou o Paço, sede do governo, tomou rádios, TVs, o aeroporto, quartéis e outros prédios públicos chave durante o começo da manhã. Não houve qualquer reação do regime e ao fim do dia, Marcelo Caetano, que havia assumido o poder após a morte de Salazar, se dirigia dentro de um blindado - para evitar o linchamento por parte dos populares - para o aeroporto, de onde seguiria para seu exílio no Brasil. 

Povo e soldados confraternizam
nas ruas de Lisboa

Entraram para a história as cenas dos agentes da PIDE - uma espécie de DOI-CODI português - sendo revistados apenas de cuecas pelos militares e depois sendo colocados para dentro das celas das delegacias, as mesmas que pouco antes eram ocupadas por presos políticos. 

O Movimento das Forças Armadas -MFA- triunfava pelo país e o povo afluía às ruas para celebrar junto aos soldados, com cravos vermelhos, cânticos de protestos e manifestações massivas. Mas ali era apenas o começo, pois a derrubada do regime foi o ponto inicial de uma profunda revolução socialista que iria se estender até 1975, mais precisamente até o golpe contrarrevolucionário de 25 de novembro daquele ano, o qual colocou fim ao chamado Processo Revolucionário em Curso e marcou a vitória do capitalismo e o encaminhamento do país tal como é hoje. 

No entanto, as conquistas da revolução dos cravos são inegáveis. Portugal tinha níveis de pobreza semelhantes aos dos países da América Latina, com índices imensos de analfabetismo, mortalidade infantil e desnutrição. Hoje é um dos melhores países para se viver na Europa, com um robusto sistema de bem-estar social, apesar dos ataques feitos nas últimas décadas. Isso não teria sido possível sem a mobilização dos trabalhadores em conjunto com soldados durante aquele frenético ano de 1974-75.

Em um momento em que a extrema direita cresce por lá, como no resto do mundo, através do fascistóide Chega, de André Ventura, atacando e negando o movimento revolucionário de 25 de abril, é preciso rememorar a contundente ação popular e sempre sonhar com novas revoluções do cravo. (por David Coelho) 

"Grândola, Vila Morena", o verdadeiro hino de Portugal. 


domingo, 31 de março de 2024

60 ANOS DO GOLPE, A ESQUERDA PERDEU SEM LUTAR. REPETIREMOS A HISTÓRIA?

 

Dispenso-me de entrar nos detalhes sobre a inação generalizada. Nenhuma das lideranças operárias e nacionalistas mostrou audácia e iniciativa de luta. Todos ficaram à espera do comando do Presidente da República. Fracassaram não só os comunistas, mas também Brizola, Arraes, Julião e os generais nacionalistas. Jango não quis a luta, receoso de que a direção política lhe escapasse e se transferisse às correntes de esquerda. Colocou a ordem burguesa acima de sua condição política pessoal. Assim se deu a quarta e última queda da liderança populista. 

No dia 31 de março, a situação não era ainda favorável aos golpistas do ponto de vista estritamente militar. Teria sido possível paralisar o golpe se, ao menos, alguma ação viável de contra-ofensiva imediata fosse empreendida. Sabe-se que Lacerda só contava cm defesa muito precária no Palácio Guanabara. A tomada do Palácio pelos fuzileiros navais seria operação relativamente rápida e de enorme repercussão moral. O mesmo efeito de paralisia teria a dispersão dos recrutas, que desciam de Minas, por uma esquadrilha de aviões de bombardeio. A força-tarefa naval dos Estados Unidos, mobilizada no Caribe pela operação chamada Brother Sam, não alcançaria Santos antes do dia 11 de abril. Não trazia contingentes de desembarque e seu objetivo era o do efeito de demonstração e o de apoio aos insurretos com armas, munições e combustível, na previsão de guerra civil prolongada. Já envolvidos na escalada da guerra do Vietnã, não seria fácil aos Estados Unidos manter uma segunda frente no Brasil. Havia tempo para preparar condigna recepção de repúdio à força-tarefa norte-americana, tanto do ponto de vista militar como da mobilização das massas populares. 

Ao colocar suas fichas em Jango, a esquerda
apostou no cavalo errado e o fim foi trágico

Tornou-se corrente na literatura acadêmica a assertiva de que, no pré-64, inexistiu verdadeira ameaça à classe dominante brasileira e ao imperialismo. Os golpistas teriam usado a ameaça apenas aparente como pretexto a fim de implantar um governo forte e modernizador. 

A meu ver, trata-se de conclusão positivista superficial derivada de visão estática das coisas. Segundo penso, o período de 1960-1964 marca o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século [20], até agora. O auge da luta de classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional da ordem burguesa do direito de propriedade e da força coercitiva do Estado. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse. 

A hegemonia da liderança nacionalista burguesa, a falta de unidade entre as várias correntes, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os erros desastrosos acumulados, as ilusões reboquistas e as incontinências retóricas - tudo isso em conjunto explica o fracasso da esquerda. Houve a possibilidade de vencer, mas foi perdida

Gorender
Mais grave é que foi perdida de maneira desmoralizante. Com a definição incontestável no dia 1º de abril, já no dia 3 a operação Brother Sam era desativada no Caribe. Os generais triunfantes proclamaram que o Ocidente ganhou no Brasil formidável vitória a baixíssimo custo. (Jacob Gorender, historiador e antigo membro do PCB)

A passagem acima consta do livro "Combate nas Trevas", escrita por Jacob Gorender e publicado em 1987, logo após o fim da ditadura, portanto. Trouxe a citação para lembrar de duas coisas que pouco se abordam quando se fala no golpe militar de 1964: as contradições de João Goulart e o equívoco da esquerda. 

Na realidade, as duas coisas estão juntas, pois o equívoco da esquerda, particularmente do PCB, a levou a colocar suas fichas em João Goulart, praticamente o transformando na liderança principal dos movimentos populares que pipocavam país afora à época. Jango, contudo, não tinha nenhum plano de levar adiante uma revolução, antes buscava consolidar seu poder pessoal, tendo passado praticamente todo o triênio 1961-64 tentando o apoio de forças conservadoras e balançando ora à esquerda, ora à direita, se decidindo por um aceno maior à esquerda apenas quando as portas à direita foram decisivamente fechadas. 

A crença da esquerda na institucionalidade, personalizada no presidente, fez com que ela fosse pega de surpresa quando os golpistas se colocaram em marcha. Mesmo com um poderio reduzido, o golpe pode avançar triunfante pois não houve resistência digna desse nome e o presidente preferiu a capitulação, soltando sua patética frase de que "não desejava uma guerra civil no Brasil"

Os golpistas poderiam ter sido derrotados,
mas faltou organização para resistir

Na verdade, os acontecimentos do pré-64 e do golpe revelam não apenas o comportamento da esquerda brasileira no período, mas também uma constante em sua história: a acomodação com forças conservadoras visando soluções institucionais para as crises. Sempre quando as classes trabalhadoras avançam no possível caminho da ruptura, a esquerda entra em cena para restabelecer o velho pacto de conciliação.

Os resultados são as soluções conservadoras para as crises brasileiras, como exemplificado no processo do fim da ditadura, com as massivas greves, e os levantes de Junho de 2013. Na primeira, as mobilizações dos trabalhadores terminaram na farsesca Diretas Já, na eleição indireta e finalmente na Constituinte, dando a luz a uma democracia capenga e limitada. Junho de 2013, por sua vez, foi equacionada no Impeachment e na eleição de Lula 3 em aliança com as forças do atraso. 

O futuro vai repetir o passado?
A única exceção ao comportamento da esquerda parecem ter sido as guerrilhas que não aceitaram qualquer tipo de atitude conciliatória e colocaram o caminho revolucionário de forma inequívoca. Tragicamente, ficaram isoladas do conjunto da população no contexto do milagre econômico, induzido pela ditadura justamente para enfraquecer as oposições ao regime. 

Hoje assistimos de novo a esquerda acreditar nos dispositivos institucionais, na fé legalista das Forças Armadas e no presidente da república, enquanto Lula vai ampliando seu pacto conservador, fortalecendo as forças direitistas e esvaziando a esquerda. Tomara que dessa vez os erros não tenham o mesmo final trágico. (por David Emanuel Coelho) 




terça-feira, 4 de julho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 10: LUTA DE CLASSES NO BRASIL

LUTA DE CLASSES NO BRASIL

 De acordo com o DIESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - em 2013 foram registados cerca de 2050 greves no Brasil, um aumento de 133% com relação a 2012, quando foram registradas 877. Foram 11.1342 horas paradas no país, contra 86.291 um ano antes. 

Esses números mostram o quanto as Jornadas de Junho de 2013 foram um movimento orgânico da classe trabalhadora brasileira que foi às ruas em peso, mas também se mobilizou em seus locais de trabalho. Mais que isso, quando se observa analiticamente as greves do período, é possível ver que a maioria foi feita apesar, e mesmo contra, as lideranças sindicais, reproduzindo o traço de questionamento à política institucional e seus aparatos vistos nas ações de rua. 

Ou seja, na realidade Junho de 2013 se mostrou como uma potente sublevação dos trabalhadores, situação potencialmente revolucionária e momento chave da luta de classes no Brasil. Não à toa, a resposta contrária por parte dos capitalistas, através da mídia, dos governos locais e, sobretudo, do governo lulopetista, foi dura e engenhosa, combinando repressão com cooptação do sentimento popular contra o status quo socioeconômico. 

As justas palavras de Florestan Fernandes, de que o Brasil vive uma contrarrevolução permanente, se faz marcar aqui também, mas com uma mudança qualitativa, pois pela primeira vez na história a burguesia brasileira não simplesmente impôs medidas de repressão ou conduziu a insatisfação para os marcos seguros da institucionalidade. Dessa vez, ela engendrou algo que as burguesias europeias já tinham feito há cem anos: ela mesma se tornou rebelde e líder da revolta popular. 

O nome tradicional desse movimento da burguesia é fascismo. O processo consiste em canalizar a insatisfação popular desviando-a do questionamento à propriedade privada para algum outro alvo - geralmente minorias sociais - e dar respostas moralistas para os problemas socioeconômicos. Mas tudo isso é feito encenando rebeldia contra as instituições apodrecidas e, às vezes, até mesmo contra o capitalismo, de forma genérica. Para dar certo, as lideranças dos movimentos sempre precisam ser outsiders.

O fascismo, contudo, é sempre imperialista e, por isso, um país periférico e subordinado igual o Brasil não pode ter um movimento fascista pleno, mas apenas cópias. Por aqui, nunca aparecerá um Hitler ou um Mussolini, no máximo alguém palidamente parecido com Salazar ou Franco, aliás, foi isso mesmo que aqui se vivenciou com Vargas e os ditadores fardados, desfoques do nazifascismo original. 

Ainda está em aberto o debate sobre a natureza do movimento atual da extrema-direita. Não há dúvidas, porém, das semelhanças com o fascismo do século passado, mas ainda em um grau menor de organicidade e estrutura que aquele. Não existem, por exemplo, milícias paramilitares ou estruturas sindicais, sendo, contudo, provável seu aparecimento futuro, sobretudo com o acirramento da guerra da Ucrânia, onde hoje milhares de neonazistas são abastecidos com armas pela OTAN, algo também existente na Rússia do grupo de inspiração fascista Wagner - batizado com o nome do compositor favorito de Hitler e sempre lembrado pelo tom antissemita de muitas de suas músicas. 

Seja qual for o termo mais adequado, a burguesia brasileira se lançou em nova estratégia contrarrevolucionária em 2013 urdindo o movimento que, na falta de melhor designação, pode ser chamado de bolsonarismo. O centro desse processo ocorreu a partir do alto comando militar que fez leitura atenta e engenhosa da conjuntura. 

Em 2014, quando as ruas ainda queimavam ao redor do país, os generais começaram a abrir as portas dos quartéis para um deputado federal ainda pouco relevante, mas já em meteórica ascensão de popularidade, Jair Bolsonaro. Suas participações em programas de TV e suas polêmicas sobretudo contra a comunidade LGBT, além do discurso moralista, o iam tornando a face mais destacada do movimento direitista. Por fim, seu alijamento do centro do poder o tornava uma figura aparentemente contrária ao sistema, aos poderosos, indo ao encontro dos anseios populares de luta contra o status quo

No mesmo ano, outro movimento importante foi efetuado pela classe dominante brasileira através do surgimento da Operação Lava Jato com o intuito de ser a saneadora da República. A operação condizia perfeitamente com o discurso anticorrupção encampado pela mídia e entregue como pauta aos manifestantes e vinha como uma forma de satisfazer a fúria popular com a política tradicional. 

Na operação, os membros mais débeis da burguesia foram sacrificados. Políticos tradicionais ou mais odiados, à esquerda e à direita, foram limados. Tudo ocorreu como se acontecesse uma espécie de oferenda para aplacar a fúria do povo, ao mesmo tempo em que novos líderes eram forjados a partir da tônica do moralismo. Foi a era dos Tenentistas Togados, em que um Juiz de primeira instância de uma capital secundária do sul, de dentro de seu escritório, concentrava em si todos os poderes da nação em sua caneta. 

Enquanto o bolsonarismo foi predominantemente arquitetado a partir dos militares, a lava jato nasceu das entranhas da mídia burguesa. Os dois movimentos andaram de forma paralela e se retroalimentaram no período, com Bolsonaro frequentando ambientes midiáticos e os togados sendo recebidos pela milicada país afora. A culminância viria a ser o Impeachment de Dilma, período em que a aliança entre os dois se aprofundou e praticamente se tornou uma coisa só. Assim continuaria até o começo do governo Bolsonaro, quando a ambição togada incomodou o ex-presidente fujão e a aliança foi dissolvida.  

De qualquer forma, os dois movimentos de extrema-direita cumpriram importante função para a burguesia brasileira no período posterior a Junho de 2013, pois, cada qual a seu modo, conseguiram canalizar a insatisfação popular para uma forma reacionária de rebelião, puramente performática e cirúrgica, dando à burguesia um respiro em um contexto de forte assédio popular. Ao mesmo tempo, a institucionalidade política pode se reorganizar durante o período, voltando em 2022 com um pacto renovado, posando de salvacionista diante das atrocidades da extrema-direita, quando, na realidade, é apenas o velho mofo retrógrado. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE VERDE E AMARELO

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA


sexta-feira, 19 de abril de 2019

COMO FAZER OS TOLOS CREREM QUE VOCÊ ESTÁ CONTRA TUDO QUE ESTÁ AÍ ENQUANTO GOVERNA PARA QUEM SEMPRE MANDOU AÍ

O zero-zero-nada em ação: seria cômico se não fosse trágico!
vladimir safatle
REVOLUÇÃO
EM MARCHA
Dificilmente entenderemos algo do que corre atualmente no Brasil se não levarmos a sério o que os membros do governo e seus ideólogos chamam de revolução

De fato, o sr. Bolsonaro se vê liderando uma espécie de revolução conservadora na qual seu núcleo mais fiel de eleitores realmente acredita.

Bolsonaro sabe que ele acabará por governar para esse núcleo. Não há chance alguma de reeditar um governo com ampla maioria de aprovação. Mas, como nos lembram os manuais de guerra, melhor um grupo menor e bastante mobilizado do que um grupo grande sem unidade de ação.

Aqueles que o apoiam acreditam estar numa luta contra os poderes que sempre comandaram o país (casta política, imprensa, elite intelectual). 

Creem ter colocado no cerne do poder um dos nossos. Alguém que tem nossos mesmos traços e dificuldades. Alguém que não teme mostrar sua inaptidão ao cargo, criando assim certa identificação empática com os que nunca imaginaram ser presidente. 

Eles acham que, nessa revolução, não se deve respeitar as instituições que foram responsáveis, em larga medida, por tudo o que está aí.
E, como tolos que são, creem na possibilidade...

Nesse horizonte, duas estratégias são centrais. A primeira é fazer o governo lutar contra o governo. Pode parecer uma contradição, mas muitas vezes a única coisa verdadeira são as contradições.

Dias atrás, o sr. Bolsonaro fez uma live com indígenas prometendo lutar contra “alguns picaretas dentro do próprio governo dizendo que protegem vocês”. 

Ou seja, a mensagem é clara. O presidente não é o governo. Pois, lembremos, ele está dentro do governo como um dos nossos, a lutar contra os que sempre se serviram do Estado para nos massacrar. Essa figura do um dos nossos que está em luta dentro do Estado dá, ao mesmo tempo, a impressão de movimento contínuo e a justificativa da inércia. 

Há sempre alguém que vá travar nossos desejos, haverá sempre um expurgo a realizar. As crises no governo são profundamente necessárias. Elas são ocasião de mobilização permanente.

Por outro lado, cresce em importância a estratégia da polarização ideológica. Pois se trata de lutar contra os que se serviram do discurso da justiça para garantir seus próprios privilégios ou para conquistar pretensos novos privilégios. Num país onde todos podem olhar para o lado e se sentirem desprivilegiados, esse discurso tem certa força.

Contra eles, o pior a fazer é assumir a defesa da ordem, da institucionalidade, das negociações tradicionais.
...de uma mudança radical sem tocar nos privilégios da burguesia
Isso seria tudo o que o governo quer, a saber, colocar-se como o artífice de uma revolução em marcha e empurrar seus oponentes como os defensores da ordem estabelecida.

Na verdade, há de se lembrar que essa revolução conservadora esconde sua real dinâmica. Pois ela é, no fundo, uma contrarrevolução preventiva. 

Há de se saber dizer a esses que se deixam seduzir pela dinâmica pretensamente revolucionária em curso: Vocês não foram muito longe.

Em vez de colocar um dos nossos no poder, uma verdadeira revolução traz o poder diretamente para as mãos dos que nunca tiveram poder. Ela destitui os lugares de poder e reconfigura sua geografia. Uma falsa revolução preserva tais lugares, fingindo colocar alguém que seria a encarnação imediata do povo.

No lugar de olhar para os lados quando se procura combater privilégios, uma verdadeira revolução olha para cima.

Ou seja, ela luta exatamente contra aqueles que este governo mais gosta de defender:

— os banqueiros com seus lucros inacreditáveis para uma economia paralisada;
Ou seja, a tal revolução dos tolos é só uma...
— os empresários que ganham carta branca para espoliar trabalhadores: e
— os rentistas que tem seus rendimentos intocados, mesmo em meio a crises econômicas. 

O tabuleiro político do Brasil é outro. E ai daqueles que quiserem continuar a jogar o mesmo jogo de sempre. 
(por Vladimir Safatle)
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