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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!)Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

terça-feira, 27 de maio de 2025

EM QUE MOMENTO O BRASIL TINHA SE F...O? E COMO O QUADRO ESTÁ MUDANDO?

A primeira pergunta, obviamente, coloca o Brasil diante da mesma indagação que Mario Vargas Llosa, no seu clássico Conversa na Catedral, fez sobre o país dele:  ¿En que momento se había jodido el Perú?.

O Brasil é pródigo em momentos patéticos, quando desperdiçou chances claríssimas de construir um futuro bem melhor para seu povo. Caso de 1792, quando delatores fizeram fila (Joaquim Silvério dos Reis estava longe de ser o único...) para delatar ao Visconde de Barbacena a Inconfidência Mineira. 

Com isto, continuou por mais três longas décadas sendo colônia do minúsculo Portugal, que muito dele tirava, quase nada dava e teria sido facilmente derrotado nos campos de batalha se seus filhos não fugissem à luta.

E no século passado teve a chance de uma verdadeira redemocratização em 1984, mas, rejeitando a emenda Dante de Oliveira, saiu da ditadura militar pela porta dos fundos, entregando a faixa presidencial para um notório serviçal do regime que findava.   

Outros exemplos eu poderia citar, mas encompridariam demasiadamente este artigo, portanto falemos apenas da última vez em que o Brasil sifu. Foi durante o medíocre primeiro mandato de Dilma Rousseff, que quis porque quis fazer a economia brasileira crescer graças a investimentos estatais, como se ainda estivéssemos no tempo do Petróleo é nosso .

Tornou-se inevitável uma aguda recessão e, quando caiu para a Dilma a ficha de que seria este o seu legado para o governo seguinte, não teve sequer a humildade de reconhecer que não conseguiria desfazer a lambança. 
Fez questão cerrada de reeleger-se, pensando em salvar sua biografia. 

Recorreu a um economista insignificante que servia ao inimigo de classe (Joaquim Levy) para consertar a lambança e, quando este previsivelmente fracassou, praticamente desistiu de defender seu mandato no front econômico, preferindo travar a batalha nos campos mais favoráveis ao  inimigo (o político e o jurídico), nos quais sua derrota era certa.     

Insistindo em permanecer presidente até o mais amargo fim, ao invés de renunciar para que a esquerda pudesse iniciar um contra-ataque, a mãe do fracassado Plano de Aceleração do Crescimento foi também mãe da vitoriosa escalada da extrema-direita, pois, nas manifestações de rua em prol do impeachment, os fascistas não paravam de acumular forças e nós, de perdê-las.

Como resultado estabeleceu-se a detestável polarização entre dois populistas nutridos pela cultura do século 20, ancorando o Brasil no passado ao invés de atualizá-lo para aproveitar as oportunidades do século 21.

Lula só enganou bem durante seu primeiro mandato, quando tirou a sorte grande com o boom das nossas commodities, que gerou apreciável crescimento econômico. Mas, foi só. Desde então alternaram-se governos liberais do PT e o ultradireitista do Bolsonaro, sempre muito aquém das necessidades brasileiras.
Nosso país, portanto, se ferrou pela última vez em 2012, quando Dilma lançou as bases do bolsonarismo e da polarização. E vai finalmente se livrar dos velhos caciques das duas seitas graças aos sucessivos fiascos de ambos, um prestes a ver o sol nascer quadrado e o outro só carecendo de manto e coroa para se tornar uma perfeita rainha da Inglaterra.

Ademais, as sucessivas hospitalizações de Lula e Bolsonaro já convenceram respectivos esquemas políticos de que nenhum deles terá sequer vigor físico para aguentar mais um mandato. Então, as escaramuças internas nos esquemas políticos dos dois astros cadentes já visam à definição de quem os substituirá no pleito presidencial de 2026. 

Tal disputa já começou quente e se prenuncia como uma verdadeira briga de foice no escuro... (por Celso Lungaretti)   

sábado, 17 de maio de 2025

DURANTE A DITADURA, POR AMÁ-LO NÓS ÉRAMOS ESCORRAÇADOS. DESISTIREMOS AGORA DO BRASIL DE MODO PRÓPRIO?

"Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou
estrangeiro, estrangeiro no meu lar" (Boal e Garnieri)
É cada vez maior o número de parentes, conhecidos e amigos  cujos filhos estão participando de intercâmbio com outros países ou já se fixaram definitivamente no exterior. E tal possibilidade começa a ser um pesadelo para mim também. Reflitamos sobre o assunto.

Em termos teóricos, só há uma posição verdadeiramente defensável, a de que temos todos um compromisso moral com nosso povo sofrido, de permanecermos aqui e tentarmos fazer deste um país do qual nos orgulhemos, ao invés de nos causar profundo desencanto e enormes preocupações.

Mas, não serei eu a me colocar num falso pedestal, como se tivesse sempre pensado assim. Ao sair das prisões militares na década de 1970, também flertei com a ideia de dar o fora, pois não suportava o fato de que até 1969 percebia-se uma surda insatisfação do povo (em especial a classe média) com a ditadura militar, mas tal sentimento alterou-se diametralmente com o (mal) dito milagre brasileiro.

As pessoas comuns geralmente tinham medo de recriminar publicamente o regime dos generais, mas nas suas conversas havia sempre críticas mais ou menos veladas à vida que estavam levando sob o arbítrio ditatorial. 

Clandestino e caçado em todo país, com meu retrato nos cartazes de procurados, era gratificante para mim sentir que estava indo ao encontro  dos sentimentos da minha gente. 

Apesar de as perspectivas pessoais serem muito ruins (as chances maiores eram a de ser morto ou sofrer as piores torturas nos porões do regime), em nenhum momento cogitei aceitar a fuga para o exterior, que os coitados dos meus pais faziam até o impossível para viabilizar. 

Recebia por meio de pombos correios insuspeitos suas mensagens desesperadas e respondia  rechaçando as propostas e os consolando na medida do possível.
Então, quando a chance de comprar fuscas a prestação, lucrar uma merreca na bolsa de valores  e ter acesso a alguns itens de consumo rasteiro bastou para mudar os humores de contingentes significativos de brasileiros. vendo brotarem como cogumelos os cartazes de Ame-o ou deixe-o, lamentava profundamente a morte de companheiros queridos para quê... para ISSO?

Quanto mais o balanço das forças, em termos militares, se desequilibrava em nosso desfavor, mais convicto eu ficava de que melhor seria morrer lutando do que recuar juntamente com os pusilânimes. 

Ainda assim sobrevivi e, libertado em frangalhos, fui superar os traumas numa comunidade alternativa para a qual me convidaram antigos companheiros secundaristaa. Durante um ano recuperei as forças e  o bom ambiente entre quatro paredes me permitia ignorar que, fora delas, o Brasil que eu amara ia deixando de existir.

Quando a comunidade se dissolveu e tive de encarar aquela realidade detestável, morando com a companheira numa quitinete e amaldiçoando meu trabalho numa agência de comunicação empresarial, novamente cogitei o exterior como alternativa. Mas, já não tinha contatos que me permitissem viajar com segurança enquanto meus processos ainda  tramitassem nas auditorias militares. 
Ademais, caiu-me a ficha de que nem sequer conseguiria tirar passaporte italiano, embora meu avô paterno fosse de tal nacionalidade. Não tinha como comprovar isto com documentação  de lá nem como pagar a tradução de toda a papelada daqui para aquele idioma.

Resignei-me a esperar, mas aí foi tarde demais: os militares já não conseguiam fazer a economia brasileira crescer no ritmo necessário e dava para perceber que, mais dia, menos dia, devolveriam o abacaxi para os civis. 

A esperança em dias melhores ressurgiu. E logo eu estava comparecendo a cada uma das manifestações pelas diretas-já em São Paulo, até receber novo balde de água fria quando a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada por uma Câmara Federal tão desfigurada como a atual.

Ou seja, eu também teria debandado se pudesse, principalmente na segunda metade da década de 1970. Mas, não sem dor no coração nem seduzido pela possibilidade de enriquecer; apenas por detestar o que o Brasil se tornara e não estar vendo perspectivas de melhoras. Quando estas surgiram, ainda que meio ilusórias, desisti definitivamente da evasão. 

O inesquecível futebolista Sócrates, face à perspectiva de ganhar rios de dinheiro na Fiorentina, prometeu, em plena manifestação das diretas-já no Vale do Anhangabaú, recusar a proposta italiana e permanecer no Brasil para reconstruir o país caso a eleição direta para presidente fosse restabelecida. Para mim também a perspectiva de livrar nosso povo da ganância capitalista era muito mais atraente que a de ser um estranho numa terra estranha.

Mas, talvez pelo fato de o Brasil, em termos gerais, estar agora pior ainda do que no século passado, serei sempre o primeiro a recomendar a nossos jovens que pensem um pouco no que estão deixando para trás: uma terra tão devastada que até a picaretagem religiosa e a loucura furiosa da ultradireita passaram a sensibilizar muitos cidadãos cujos cérebros foram bem lavados. 

E o que é pior: a esquerda que ora prevalece é a mais inadequada possível, empenhada apenas em maquilar o capitalismo, tornando-o palatável para os explorados, humilhados e ofendidos, ao invés de recolocar em pauta a substituição dessa competição canibalesca de todos contra todos pela priorização do bem comum e da união das gentes para a instauração de um regime de liberdade e justiça social plenas.

Em 1968, uma canção da peça Arena conta Tiradentes constatava: Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.

Fico me indagando se um dia os brasileiros teremos de conversar com nossos filhos e netos nos idiomas das nações prósperas que os acolhem.

Só seremos realmente felizes quando voltarmos a ser donos do nosso nariz e do nosso país, ao invés de nos conformarmos em virar estrangeiros em lares alheios. (por Celso Lungaretti)  

segunda-feira, 22 de abril de 2024

TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ ABRIU CAMINHO PARA A REDEMOCRATIZAÇÃO CONSENTIDA

Por este placar os paulistanos viram, voto a voto,
a emenda Dante de Oliveira ir sendo rejeitada...
Foi de arrepiar a campanha das 
diretas-já, desenvolvida pela cidadania para convencer o Congresso Nacional a aprovar a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia imediatamente as eleições diretas para presidente da República.

Houve uma série de grandes comícios nas nossas principais capitais, alguns deles reunindo até 1 milhão de brasileiros (o derradeiro, em 16/04/1984, cravou a incrível marca de 1,5 milhão!) que não suportavam mais a bestialidade & boçalidade impostas pelos golpistas de 1964.

As minhas melhores lembranças são:

— o mar de camisas amarelas sinalizando a volta da esperança;

— o incrível tour-de-force de Leonel Brizola que, em função da mesquinha disputa de espaço político no campo da esquerda, começou sob vaias seu discurso numa manifestação das diretas-já na Praça Clóvis (SP) e, com sua fala empolgante, conseguiu colocar o público a seu favor, terminando sob aplausos generalizados; e

— a promessa do craque Sócrates em comício-monstro no Anhangabaú (SP), de que, caso fosse restituído ao povo brasileiro o direito de escolher seu presidente, ele ficaria aqui para contribuir na redemocratização, recusando a proposta astronômica da Fiorentina.

Infelizmente, o Congresso rejeitou naquele funesto 25 de abril a emenda Dante de Oliveira e a eleição acabou sendo, mais uma vez, indireta. 

Aí, parte dos parlamentares que haviam frustrado a vontade popular abandonou o partido da ditadura (o PDS, sucessor da Arena) e formou uma nova agremiação (o PFL, depois DEM) que, unida ao PMDB, assegurou a vitória do peemedebista Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os vira-casacas de última hora receberam as recompensas de sempre.
...por haver obtido só 62,6% de  votos favoráveis e não os
66,67%  que seriam necessários. Os ausentes decidiram.

Um dos piores deles era José Sarney,  que presidia o PDS mas estimulou a dissidência que viraria PFL... tendo, contudo, ele próprio se filiado ao PMDB, provavelmente para tornar mais digerível sua indicação para vice na chapa de Tancredo (a qual, evidentemente, já haveria sido articulada nos bastidores).

A presidência acabou lhe caindo no colo: como Tancredo, vitimado por uma infecção generalizada, nem sequer pôde assumir (Deus castiga!, diziam os antigos), o primeiro presidente pós-ditadura acabou sendo alguém que, meses antes, era um dos mais servis serviçais dos militares.

Eis as perguntas que não querem calar:
1. quando, exatamente, esses congressistas de origem  arenosa  decidiram desembarcar da canoa furada da ditadura?
2foi só depois de eles terem assegurado, com seus votos, a rejeição da emenda Dante de Oliveira?
3ou já era este seu objetivo desde o início, tendo voltado as costas ao povo para depois obterem bom preço nas barganhas com o PMDB?

Nunca tive a menor dúvida de que o jogo foi de cartas marcadas: o carteador trapaceou!
Foto divulgada para tranquilizar os brasileiros quanto  ao
estado de saúde do Tancredo; causou péssima impressão
.

O certo é que, pelo voto popular, daria Brizola ou Lula; pela via indireta, no infame tapetão, deu Tancredo.

A grande imprensa, sob a batuta da Rede Globo, tudo fez para vender o conceito de que tal saída da ditadura pela porta dos fundos era o coroamento das diretas-já

Fomos poucos os que, não só percebemos o embuste, como nos mantivemos coerentes com nossos valores, e, em meio à euforia orquestrada, denunciamos que tinha sido, isto sim, o resultado de uma traição à causa que havia mobilizado intensamente os melhores brasileiros

O oba-oba saudando a Nova República foi poeira colorida atirada nos olhos dos videotas, que acabaram engolindo gato por lebre: uma redemocratização pela metade, com expressiva participação de remanescentes ou cúmplices da ditadura, ao invés da verdadeira ruptura com o totalitarismo que a aprovação da emenda Dante de Oliveira teria propiciado.

Vai daí que não se investigaram as atrocidades cometidas pelo regime militar, nem se julgaram os criminosos (já que haviam anistiado preventivamente a si próprios!).
A eles se juntaria em 2016 a Dilma, segunda impichada

E, por havermos deixado passar o momento ideal para a apuração e punição dos responsáveis por tais episódios infames, a impunidade das bestas-feras e dos seus mandantes se tornou inevitável e irreversível. 

Impotente para mudar o rumo daquela farsa coonestada por uma esquerda já então ávida pelos nacos de poder que poderia conquistar sob a democracia burguesa, só pude desabafar:
"Não, não serei eu a tecer loas à transição manipulada que deu fim à ditadura militar sem mudança real na composição do poder (só nos métodos...) e sem que deixassem o povo decidir quem ele queria colocar no lugar do último general ditador. 
Nem endeusarei jamais! o político conservador com carisma zero que preferiu ver os brasileiros derrotados mais uma vez, desde que isto lhe permitisse apropriar-se da faixa presidencial sem passar pelo crivo das urnas".  
Enquanto isto, os bons companheiros engoliam não só o matreiro Tancredo Neves como (até mesmo!) o camaleônico José Sarney.  

Então, acabou sendo Sarney o presidente da redemocratização e, claro, esta ficou pela metade, exatamente por ser uma redemocratização consentida, sem coragem política para ultrapassar os limites traçados pelos que, presumivelmente, estariam deixando o poder. (por Celso Lungaretti
Brizola, por sua atuação destacada para frustrar o golpe já em 
1961, era quem os militares menos aceitariam como presidente.

domingo, 31 de março de 2024

60 ANOS DO GOLPE, A ESQUERDA PERDEU SEM LUTAR. REPETIREMOS A HISTÓRIA?

 

Dispenso-me de entrar nos detalhes sobre a inação generalizada. Nenhuma das lideranças operárias e nacionalistas mostrou audácia e iniciativa de luta. Todos ficaram à espera do comando do Presidente da República. Fracassaram não só os comunistas, mas também Brizola, Arraes, Julião e os generais nacionalistas. Jango não quis a luta, receoso de que a direção política lhe escapasse e se transferisse às correntes de esquerda. Colocou a ordem burguesa acima de sua condição política pessoal. Assim se deu a quarta e última queda da liderança populista. 

No dia 31 de março, a situação não era ainda favorável aos golpistas do ponto de vista estritamente militar. Teria sido possível paralisar o golpe se, ao menos, alguma ação viável de contra-ofensiva imediata fosse empreendida. Sabe-se que Lacerda só contava cm defesa muito precária no Palácio Guanabara. A tomada do Palácio pelos fuzileiros navais seria operação relativamente rápida e de enorme repercussão moral. O mesmo efeito de paralisia teria a dispersão dos recrutas, que desciam de Minas, por uma esquadrilha de aviões de bombardeio. A força-tarefa naval dos Estados Unidos, mobilizada no Caribe pela operação chamada Brother Sam, não alcançaria Santos antes do dia 11 de abril. Não trazia contingentes de desembarque e seu objetivo era o do efeito de demonstração e o de apoio aos insurretos com armas, munições e combustível, na previsão de guerra civil prolongada. Já envolvidos na escalada da guerra do Vietnã, não seria fácil aos Estados Unidos manter uma segunda frente no Brasil. Havia tempo para preparar condigna recepção de repúdio à força-tarefa norte-americana, tanto do ponto de vista militar como da mobilização das massas populares. 

Ao colocar suas fichas em Jango, a esquerda
apostou no cavalo errado e o fim foi trágico

Tornou-se corrente na literatura acadêmica a assertiva de que, no pré-64, inexistiu verdadeira ameaça à classe dominante brasileira e ao imperialismo. Os golpistas teriam usado a ameaça apenas aparente como pretexto a fim de implantar um governo forte e modernizador. 

A meu ver, trata-se de conclusão positivista superficial derivada de visão estática das coisas. Segundo penso, o período de 1960-1964 marca o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século [20], até agora. O auge da luta de classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional da ordem burguesa do direito de propriedade e da força coercitiva do Estado. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse. 

A hegemonia da liderança nacionalista burguesa, a falta de unidade entre as várias correntes, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os erros desastrosos acumulados, as ilusões reboquistas e as incontinências retóricas - tudo isso em conjunto explica o fracasso da esquerda. Houve a possibilidade de vencer, mas foi perdida

Gorender
Mais grave é que foi perdida de maneira desmoralizante. Com a definição incontestável no dia 1º de abril, já no dia 3 a operação Brother Sam era desativada no Caribe. Os generais triunfantes proclamaram que o Ocidente ganhou no Brasil formidável vitória a baixíssimo custo. (Jacob Gorender, historiador e antigo membro do PCB)

A passagem acima consta do livro "Combate nas Trevas", escrita por Jacob Gorender e publicado em 1987, logo após o fim da ditadura, portanto. Trouxe a citação para lembrar de duas coisas que pouco se abordam quando se fala no golpe militar de 1964: as contradições de João Goulart e o equívoco da esquerda. 

Na realidade, as duas coisas estão juntas, pois o equívoco da esquerda, particularmente do PCB, a levou a colocar suas fichas em João Goulart, praticamente o transformando na liderança principal dos movimentos populares que pipocavam país afora à época. Jango, contudo, não tinha nenhum plano de levar adiante uma revolução, antes buscava consolidar seu poder pessoal, tendo passado praticamente todo o triênio 1961-64 tentando o apoio de forças conservadoras e balançando ora à esquerda, ora à direita, se decidindo por um aceno maior à esquerda apenas quando as portas à direita foram decisivamente fechadas. 

A crença da esquerda na institucionalidade, personalizada no presidente, fez com que ela fosse pega de surpresa quando os golpistas se colocaram em marcha. Mesmo com um poderio reduzido, o golpe pode avançar triunfante pois não houve resistência digna desse nome e o presidente preferiu a capitulação, soltando sua patética frase de que "não desejava uma guerra civil no Brasil"

Os golpistas poderiam ter sido derrotados,
mas faltou organização para resistir

Na verdade, os acontecimentos do pré-64 e do golpe revelam não apenas o comportamento da esquerda brasileira no período, mas também uma constante em sua história: a acomodação com forças conservadoras visando soluções institucionais para as crises. Sempre quando as classes trabalhadoras avançam no possível caminho da ruptura, a esquerda entra em cena para restabelecer o velho pacto de conciliação.

Os resultados são as soluções conservadoras para as crises brasileiras, como exemplificado no processo do fim da ditadura, com as massivas greves, e os levantes de Junho de 2013. Na primeira, as mobilizações dos trabalhadores terminaram na farsesca Diretas Já, na eleição indireta e finalmente na Constituinte, dando a luz a uma democracia capenga e limitada. Junho de 2013, por sua vez, foi equacionada no Impeachment e na eleição de Lula 3 em aliança com as forças do atraso. 

O futuro vai repetir o passado?
A única exceção ao comportamento da esquerda parecem ter sido as guerrilhas que não aceitaram qualquer tipo de atitude conciliatória e colocaram o caminho revolucionário de forma inequívoca. Tragicamente, ficaram isoladas do conjunto da população no contexto do milagre econômico, induzido pela ditadura justamente para enfraquecer as oposições ao regime. 

Hoje assistimos de novo a esquerda acreditar nos dispositivos institucionais, na fé legalista das Forças Armadas e no presidente da república, enquanto Lula vai ampliando seu pacto conservador, fortalecendo as forças direitistas e esvaziando a esquerda. Tomara que dessa vez os erros não tenham o mesmo final trágico. (por David Emanuel Coelho) 




sexta-feira, 16 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 6: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

 

O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

Um fato claro nas manifestações de Junho de 2013 foi o rechaço absoluto à política institucional. Não apenas a recusa da presença de bandeiras partidárias, mas também o ódio aos políticos e a qualquer tipo de presença de organizações associadas ao sistema político nacional marcaram a irrupção do movimento em todo o país. 

Esse elemento, inclusive, é diferenciador das experiências passadas de manifestações populares no Brasil, quando era comum a presença maciça de organizações partidárias e de palanques. As Diretas Já são o exemplo paradigmático do modo de manifestação na história brasileira, com o formato de comícios em que políticos se revezavam em discursos enquanto o povo apenas ouvia sem agir diretamente. 

As Diretas também podem ser encaradas como um marco importante no processo de consolidação da República Nova e seu pacto conservador, pois incluiu forças políticas díspares indo desde o liberal Tancredo Neves, da oposição consentida à ditadura, até o operário Luís Inácio, passando por Leonel Brizola, todos unidos em torno da legitimação do processo transitório urdido pelos militares.

Assim, é bem simbólico que a ruptura com o Pacto Cidadão tenha ocorrido com o rechaço absoluto aos políticos e a seus comícios alienantes. 

Na realidade, a institucionalidade política está em degradação ao redor do mundo inteiro graças ao fenômeno da oligopolização econômica. No período clássico do liberalismo capitalista, a existência de pequenos e médios burgueses fazia acirrar a competição no mercado e criava vários grupos de interesse em confronto na arena política. A disputa entre esses grupos tornava as instituições estatais permeáveis à pressão popular, pois cada agrupamento buscava se chancelar junto a um segmento do povo. Igualmente, é nesse período que a socialdemocracia ascende na Europa representando a classe trabalhadora na equação das disputas políticas. 

Contudo, a situação muda com a reorganização neoliberal do capitalismo. Os pequenos e médios burgueses desaparecem, engolidos por mega corporações multinacionais. Os sobreviventes passam a ser meros prestadores de serviços das empresas maiores, sem autonomia. Os antigos burgueses se tornam trabalhadores precarizados ou vão viver de bicos cinicamente rotulados como empreendedorismo pelo grande capital. A homogeneização da economia acaba com a competição no mercado, pois, embora existam diferentes produtos e marcas, todas elas pertencem aos mesmíssimos grupos.  

O resultado político é o fim das grandes disputas políticas na sociedade. As poucas corporações compram praticamente todos os políticos, da esquerda à direita, e passam a controlar a agenda institucional tornando o Estado impermeável às reivindicações populares. Ou seja, a política passa a existir em função exclusiva dos interesses dos oligopólios. Os poderes executivo, judiciário e, sobretudo, o legislativo são totalmente dominados pelo poder do grande capital, tornando qualquer demanda popular praticamente impossível de ser apreciada. 

Pelo contrário, o que ocorre é uma enxurrada de medidas destrutivas ao interesse popular, com reformas trabalhistas, ataques ao meio ambiente, flexibilizações de benefícios sociais, privatizações, além de toda sorte de maracutaias associadas ao processo, instalando um clima de corrupção endêmica e baixíssimo grau de participação popular. 

As eleições se tornam meras chanceladoras de um único modelo político e o debate fica em segundo plano, imperando tão somente o uso ostensivo do marketing e da manipulação para vender o candidato. No fim, em cada eleição há uma disputa vazia em que nada de essencial se muda. Os partidos se revezam no poder com a aparência de serem forças opostas e inimigos mortais, mas, no fim e ao cabo, expressam e representam o mesmo grande capital, governando de modo praticamente idêntico. 

No Brasil, após o impeachment de Collor, se cristalizou uma oposição artificial entre PSDB e PT que cumpria rigorosamente o descrito acima, aparentar uma disputa e um revezamento político quando nenhuma diferença essencial existia entre eles. Na realidade, uma mesma linha mestra conduz os governos FHC, Lula e Dilma, uma linha continuada, com variações, por Temer e Bolsonaro e agora prosseguida com Lula 3.

Diante desse cenário, a população brasileira passou a sentir terrível frustração com a política institucional. Eleição após eleição, promessas eram feitas, grandes esperanças mobilizadas, mas nenhuma mudança concreta ocorria. O caldo da insatisfação foi crescendo paulatinamente até tomar proporções titânicas em Junho de 2013.

Os levantes significaram a derrocada completa do sistema político brasileiro que caducou de forma irreversível. O descolamento entre o povo e seus supostos representantes chegou a um nível tão profundo que a população não mais se reconhecia neles e esses tão pouco conseguiam entender os reclames populares. Décadas de engorda em palácios com reuniões fechadas, convescotes e acordões de bastidores deixaram os políticos tradicionais completamente alienados da realidade brasileira, sendo esse caso mais dramático no caso dos políticos de esquerda, rechaçados com ainda mais veemência pelos manifestantes na qualidade de traidores

O rechaço ao sistema político tradicional abriu possiblidades ricas no Brasil, como as experiências horizontais das Assembleias Populares e dos Movimentos Autonomistas. Infelizmente, tais ações tiveram vida curta, sendo esvaziados após o enfraquecimento do ímpeto das manifestações e as perseguições perpetradas pelo governo Dilma em articulação com os governos estaduais aos militantes mais ativos. No saldo, quem iria se beneficiar do sentimento anti-institucional seria as forças de direita, com a operação lava jato e a ascensão do bolsonarismo. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 2: A FALÊNCIA DA REPÚBLICA NOVA


 OS ANTECENDENTES DE JUNHO DE 2013: a falência da República Nova

O regime militar foi estabelecido em 1964 para garantir uma modernização conservadora no Brasil em que a industrialização e urbanização foi feita de modo subordinada ao capitalismo central da Europa e dos EUA. Como consequência, o país não modificou sua estrutura social, mantendo a propriedade fundiária inalterada e a super exploração da mão de obra, resultando em um país com um dos parques industriais mais avançados do planeta, mas com mazelas piores que os presentes em países miseráveis da África.

O Milagre Econômico foi concebido às expensas do endividamento externo do país e objetivava isolar a oposição revolucionária aglutinada nas guerrilhas. Com o boom econômico, grande parte da classe média e mesmo da classe trabalhadora passou a dar apoio à ditadura, deixando os bravos militantes à mercê da truculência da repressão. Contudo, o Milagre duraria pouco e já por volta de 1974 fazia água diante do Choque do Petróleo, fazendo crescer a insatisfação popular. Apesar de uma tentativa de ressureição por parte do ditador Geisel, o único jeito foi implementar um processo de abertura política a fim de garantir a permanência da estrutura econômica e social instaurada após o Golpe. 

No centro do projeto de transição estava a criação de uma democracia de baixa intensidade, com eleições regulares, alternância de poder e certos direitos elementares, mas que nada de essencial mudasse. Para tal feito, a distensão foi acontecendo a conta-gotas, com os agrupamentos mais radicais sendo introduzidos paulatinamente no jogo institucional. 

No entanto, a situação social e econômica se deteriorava rapidamente e a hiperinflação corroía a renda dos trabalhadores levando às gigantescas mobilizações operárias do fim da década de 1970 e que se estenderam por grande parte da de 1980. Diante de uma possível mobilização revolucionária, a saída do regime foi acelerar os processos de distensão e permitir a organização política dos trabalhadores a fim de integra-los no processo de autorreforma da ditadura. Nisso, a oposição liberal jogou grande papel, colocando ênfase mais no retorno pleno da democracia e menos em questionamentos à estrutura socioeconômica. Vendia-se a ideia de que as transformações sociais viriam futuramente com eleições livres. 

O nível do engano desta estratégia ficou demonstrada com o fracasso do movimento das Diretas-Já e a articulação entre a oposição liberal com as facções civis apoiadoras da ditadura. A morte de Tancredo Neves levou ao poder José Sarney, eminência parda do regime em retirada e que tratou de prosseguir a dissenção segundo os planos dos ditadores, convocando uma constituinte limitada, não investigando os crimes dos militares e, sobretudo, não mexendo na estrutura econômica cristalizada durante o regime. 

Formou-se, então, um pacto entre as forças de esquerda do país e os grupos conservadores e reacionários advindos da Ditadura. Por esse pacto, transformações pontuais eram permitidas ao país desde que não se tocasse na estrutura fundamental da propriedade privada, sobretudo no papel subordinado do Brasil no capitalismo internacional. Tal pacto foi batizado de Nova República, em que a questão social estaria no centro dos problemas políticos sem, contudo, tematizar a economia. 

Incapaz de modificar a estrutura socioeconômica, a esquerda passou a se concentrar na conquista de direitos sociais que deveriam ser codificadas na nova carta constitucional e em legislações infraconstitucionais. Acreditava-se que a ação estatal seria capaz de corrigir as graves desigualdades do país e estabelecer um desenvolvimento social para o país sem romper com o pacto. Começava assim o chamado cidadanismo, em que o indivíduo teria sua vida melhorada graças aos direitos sociais garantidos pelo poder público, ou seja, pelos serviços públicos ofertados pelo Estado. 

Porém, a promessa nunca se tornou realidade justamente devido ao subfinanciamento dos serviços públicos e as limitações da vida cotidiana dos trabalhadores, esmagados pela miséria, pelo desemprego e pela falta de perspectivas. O pacto, porém, continuou sua existência, agora explicitado pelo chamado Presidencialismo de Coalização, iniciado logo após o impeachment de Fernando Collor. 

Collor, inclusive, pode ser considerado a última etapa do processo de transição iniciado pela ditadura, pois também oriundo da oligarquia florescida durante o regime militar. Após sua saída da presidência, a oligarquia mais reacionária do país continuaria a ter papel importante, mas com ação maior no legislativo e nos Estados, assumindo papel denominado impropriamente de fisiologista, primeiro com FHC, depois com Lula e Dilma. 

A falta de mudanças após o fim do regime militar foi se juntar com as contradições oriundas da reorganização produtiva do país após o declínio da Indústria nacional gerando tensões sociais geometricamente crescentes. A frustração com a falta de mudanças e o sentimento de estagnação se agravaram com a ausência de mudanças no governo lulopetista que havia sido eleito com altas promessas de novos tempos para o país. Embora, tal como na época do Milagre, o boom das commodities tenha favorecido e mascarado as contradições, a ponto de garantir a eleição de Dilma e um fim de governo com altíssimos níveis de aprovação para Lula, a verdade é que as tensões se acumulavam de forma grave e bastaria um rastilho para explodirem. 

A crise de 2009, tal como o Choque do Petróleo, teve impacto profundo no Brasil, fazendo de imediato caírem as  entradas de divisas. Um  país desindustrializado, altamente dependente da importação de mercadorias, sentiu profundamente a nova situação com o encarecimento acelerado do custo de vida e a desaceleração da economia. Em uma sociedade com renda historicamente reduzida, a piora da inflação já significou terrível aperto financeiro e reversão de expectativas, trazendo à luz do dia as contradições acumuladas. 

As massas identificaram rapidamente a contradição entre os péssimos serviços públicos disponibilizados pelo Estado - garantidos como direitos pelo cidadanismo - e os exorbitantes gastos com as mega obras para a Copa e para as Olímpiadas. Implicitamente, aquele pacto oriundo do fim da ditadura era rechaçado nas ruas do Brasil pois se passava a exigir a efetivação da promessa de serviços de qualidade e da melhora das condições de vida cotidianas. Questionar a condição calamitosa da saúde e da educação, questionar o caos do transporte público, questionar a ruína da vida urbana e a falta de perspectiva e de qualidade de vida era colocar o dedo diretamente na ferida do Pacto urdido na República Nova. 

Por isso, tal pacto morreu em Junho de 2013, tendo essa ruptura ficado mais clara nos anos seguintes, sobretudo com o Impeachment de Dilma e a eleição de Bolsonaro. Os partidos políticos surgidos após a ditadura foram massivamente rechaçados pela população, não raras vezes de forma violenta, inclusive, e sobretudo, os partidos de esquerda, vistos como traidores do ideal de mudança social.

O ideal do cidadanismo, de trazer melhoramentos sociais sem romper com a ordem socioeconômica herdada da Ditadura bateu ali claramente no teto, entrando fragorosamente em parafuso. Nas semanas daquele Junho intenso, novas formas políticas foram possíveis, ficando tudo em suspenso. (por David Emanuel Coelho

LEIA O PRIMEIRO ARTIGO DA SÉRIE:

 DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUESTÃO URBANA 

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

É COMO UMA VELHA DAMA INDIGNA QUE SÃO PAULO FAZ 469 ANOS

O desfile do IV Centenário, no Anhangabaú, 
passou sob o Viaduto do Chá durante a tarde.
  
M
inha mais remota lembrança  de São Paulo é a comemoração do seu quarto centenário, em 1954.

Eu estava com três anos e meus pais me levaram na festa que teve lugar no Viaduto do Chá, à noite.

Uma multidão como eu nunca vira e as luzes poderosas, refletidas nos aviõezinhos de papel laminado que jorravam do alto dos edifícios, ficaram gravadas para sempre na minha memória.

E eu soube que vivia numa cidade chamada São Paulo. Que essa cidade fazia 400 anos. E que era muito mais imponente naquele local das festividades do que onde eu residia.

Fui captando melhor esse contraste à medida que crescia. 

Morava na Mooca, bairro operário que gravitava em torno de um cotonifício gigantesco, o Crespi, tomando um quarteirão inteiro.

Além disso, havia muitas outras fabriquetas. E na Mooca moravam, principalmente, os operários dessas indústrias e os que nelas haviam trabalhado. Gente simples e austera.

Ao centro eu ia com minha mãe uma vez por mês, pois, naquele tempo, pagava-se o aluguel no escritório do locador.

Bom para mim, que via cenários diferentes e era premiado com uma guloseima do Café Moka, na Praça da Sé.
Exatos 30 anos depois, lá estava eu de novo no Anhangabaú, participando,
eufórico, do ato público de lançamento da campanha das diretas-já
Sentia-me achatado pelos arranha-céus e estranhava todos aqueles homens de terno passando apressados. Sentia-me num mundo diferente, de grandes lojas, vitrines enfeitadas e movimento incessante.

Aquilo me parecia o progresso, a modernidade, desvalorizando, aos meus olhos de menino, o bairro pobre do meu dia a dia.

O chamado centro histórico de São Paulo, entre as praças da Sé e da República, concentrava comércio, entretenimento e bancos, principalmente.

E a proximidade do Palácio do Governo, nos Campos Elísios, ajudava a manter essa região como a principal da cidade.

Mas, o palácio se foi para o Morumbi, em 1965.
O cotonifício Crespi parado e trabalhadores protestando
na rua: assim se iniciava a histórica greve geral de 1917
Os ricaços, aos poucos, mudaram dos arredores. E, a partir da inauguração do Minhocão, em 1971, os Campos Elísios e seu entorno entraram em decadência acelerada.

O comércio moveleiro de alto padrão também migrou da rua das Palmeiras, que ficava ao lado.

Como na agonia do Império Romano, os bárbaros foram tomando os territórios ao redor do centro histórico, cujo brilho só perdurou por um tempinho mais.

A partir da inauguração do metrô, em 1974, o distrito da Sé se definiu como zona de passagem, atravessada por centenas de milhares de pessoas.

Seu comércio chique debandou e as lojas se adequaram ao perfil de uma clientela mais pobre e menos exigente.

Nas minhas sete décadas de vida, presenciei a fase derradeira do esplendor do centro histórico e acompanhei cada momento de sua degradação.

Mais ainda do que ao Caetano, alguma coisa acontecia no meu coração ao cruzar a Ipiranga com a avenida São João.

É difícil transmitir, aos que nela já nasceram, a diferença entre a vida antes e depois da sociedade de consumo. Algo assim como interagirmos antes com pessoas, mesmo que não as melhores possíveis, e depois com meros robôs (o homo economicus em sua plenitude...).
A Avenida Paulista é o cartão postal da São Paulo desumanizada que faz 469 anos...
Como disse o Tom Zé, São Paulo tinha todo defeito, era uma metrópole em que habitantes vindos de todo canto se agrediam cortesmente, correndo e morrendo a todo vapor, na perseguição frenética da grana.

Mas, ao falar em aglomerada solidão, ele exagerou. Pois, a indiferença, a impessoalidade, a falta de calor humano iriam intensificar-se mesmo é nas décadas seguintes àquela na qual Tom Zé compôs sua São, São Paulo, meu amor, que lhe valeu a vitória, pelo júri popular, no IV Festival de MPB da TV Record (1968).

E a região da Avenida Paulista, atual cartão postal de São Paulo, não substitui o centro histórico de outrora num aspecto fundamental: expressa a sociedade motorizada, em que pedestres ficam espremidos e os automóveis reinam imponentes.

Os bancos e os escritórios de grandes empresas agora estão na Paulista, tramando e implementando a desumanização, como sempre.

Quanto ao comércio e ao entretenimento, foram confinados nos shopping centers.
...mas a cracolândia expressa bem melhor o que Sampa se tornou; uma velha dama indigna!
A sensação que me dá é de ter sido expulso das ruas e das praças, que não pertencem mais ao povo, assim como o céu deixou de ser do condor.

Ao mesmo tempo, em tardia autocrítica, percebo que a existência mais aprazível para seres humanos nunca esteve no Centrão endinheirado, mas sim na Mooca que era humilde da minha infância, mas depois endinheirou-se e descaracterizou-se. O bairro onde comecei a vida já não tem mais vida que valha a pena ser vivida.

Da São Paulo que eu amei deve sobrar um tiquinho nos bairros distantes onde os vizinhos ainda se falam e conhecem, onde as crianças ainda brincam nas ruas e onde as pessoas ainda fazem parte de uma comunidade, não de um condomínio.

Pelo menos é no que eu quero acreditar, pois estou um pouco velho para sair em busca da cidade perdida.

E o pior de tudo é este pressentimento de que nem no mais longínquo bairro da periferia a encontrarei. (por Celso Lungaretti)  
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