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sexta-feira, 11 de julho de 2025

CHANTAGEM DESASTROSA COMPROVA QUE A ULTRADIREITA É MESMO AUTOFÁGICA.

O balanço do tarifaço com que Donald Trump tentou coagir a Justiça brasileira a indultar o genocida e golpista Jair Bolsonaro é inequívoco: foi um formidável tiro no pé, concebido às pressas e executado de forma grotesca.. 

Comprometeu até a mais remota possibilidade de ressurreição política do agonizante bolsonarismo e ofereceu numa bandeja a oportunidade de ouro para o Lula sair das cordas e recuperar pelo menos parte do prestígio perdido. 

Tantos comentaristas da internet estão batendo na tecla acima que não vejo necessidade de alongar-me no inventário das cinzas. Os farsantes simplesmente escancararam para os brasileiros que de patriotas não têm nada, pois exortaram seus seguidores a prejudicarem de diversas formas o Brasil e o povo brasileiro, maximizando os danos da última loucura do Donald Trump (a do Mel Brooks pelo menos era engraçada, mas esta agora do aprendiz de barbárie não passa de desgraçada...).

Tive a intuição do que iria acontecer e cantei a bola com um mês de antecedência no post  A ultradireita produz muito estrago quando chega ao poder, mas nele não se eterniza por ser autofágica (clique aqui para abrir). 

Nele recordei alguns episódios nas quais os erros crassos dos ultradireitistas botaram a  perder situações que lhes eram muito favoráveis, como:
--a decisão do Hitler de, na última guerra mundial, abrir a segunda frente na Europa, quando vinha acumulando vitórias e conquistas numa sucessão impressionante. Se consolidasse o que conquistara ao invés de arriscar-se a uma reviravolta no enorme território e no inverno glacial da União Soviética, a História do mundo teria sido outra;
--a decisão temerária do Mussolini de aliar-se a Hitler no conflito mundial que já se desenhava, quando seu fascismo, sem os excessos chocantes do nazismo alemão, não despertava repúdio equiparável;
--a adoção da sabotagem vacinal por parte de Jair Bolsonaro durante a pandemia, verdadeiro absurdo no atual estágio do conhecimento científico, portanto uma pirraça inconsequente que abriu os olhos para os poderosos do capitalismo sobre o trem fantasma ao qual estavam dando sustentação política mas tendia a lhes causar grandes prejuízos econômicos em função da insegurança que promovia.

Eu poderia também haver citado o caso dos integralistas de Plínio Salgado, que tinham perspectivas as mais favoráveis possíveis depois de ajudarem o governo de Vargas a derrotar a Intentona Comunista, mas foram com muita sede ao pote, tentando assenhorar-se sozinhos do poder e sendo derrotados. pelo ditador de São Borja. Ou seja, desperdiçaram a vitória e colheram uma derrota definitiva, pois dali em diante sua influência foi definhando cada vez mais.

Quanto ao próprio Bolsonaro, as condições ideais para o seu projeto de autogolpe estavam dadas em 2019, quando ainda não sofrera o desgaste do poder, mas ele não ousou tentar. 

Depois, encaminhou-se três vezes em tal direção (nos
Dias da Pátria de 2021 e de 2022, depois no 08.01.2023), com as chances de êxito sempre diminuindo.

Quando finalmente foi pra cabeça, o fez no pior cenário possível, depois de derrotado na eleição presidencial, o que deixou sua virada de mesa com aspecto repulsivo (o uso das armas para tentar obter o que as urnas lhe haviam negado). 

E ainda por cima teve paúra de comandar pessoalmente o putsch, preferindo manter-se a salvo do outro lado do oceano, enquanto seu desnorteado gado barbarizava a Praça dos Três Poderes.

Então, nada existe a estranharmos na forma autofágica como o tio Donald lhe haja tentado dar uma mãozinha, sem perceber que estava é entregando-lhe uma âncora que o arrastava para o fundo do mar.

Tantos atos falhos parecem indicar que há um componente de autopunição na ultradireita, como se percebesse que seus projetos insanos se chocam com tudo que há de mais nobre e digno na existência humana, daí não merecerem dar certo mas sim floparem a um passo da vitória. 

Podemos até pensar na crença antiga de que todo homem, mesmo o mais degradado, ainda conservaria resquícios de um senso inato de justiça.

Tal convicção, que era atribuída erradamente a Aristóteles, permeia várias religiões. Quem sabe se os Hitleres, Trumps e Bolsonaros intimamente não suspeitaram de estarem agindo como verdadeiros demônios?  (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

SOBRE ELEIÇÕES, DECEPÇÕES, MICOS E VOLTAS POR CIMA

Ao lutarmos com grande inferioridade de força... 
O
companheiro Dalton Rosado não é de lançar indiretas e, conhecendo-o como eu o conheço, sei que  realmente o constrange a lembrança de haver disputado uma eleição para prefeito de Fortaleza em 1988.

Então, a decisão de comentar agora a minha participação na eleição para vereador paulistano em 2012 não se deveu, de forma nenhuma, a porventura ter-me sentido atingido pela afirmação do Dalton, de que considera aquele episódio uma mancha no seu currículo. Longe disto. Percebi claramente que ele estava aludindo apenas a si próprio.  

Contudo, ao levantar o assunto, o Dalton deu-me o que nós, jornalistas, chamamos de gancho para passar a limpo o episódio que me diz respeito.

O fato é que eu me deixei empolgar pela receptividade e pelos resultados do meu trabalho como principal defensor nas redes sociais do companheiro Cesare Battisti. Era um jornalista experiente vocalizando as versões do comitê de solidariedade e, como tal, conseguia responder rapidamente aos ataques da imprensa burguesa e travar batalhas contra vários jornalões e revistonas ao mesmo tempo.

Entre o final de 2008 (quando o caso esquentou com a decisão do Conare de não conceder-lhe o status de refugiado político) e o primeiro semestre de 2011  (em cujo dia 9 de junho o libertaram), foram cerca de 250 textos diferentes que eu produzi em favor do Cesare, rebatendo as falácias dos partidários de sua extradição, exigida com toda a arrogância do mundo pela Itália.
...não podemos abrir mão de
todas oportunidades táticas...
 

Afora a profusão de páginas virtuais que reproduziam parcial ou totalmente meus artigos, entusiasmou-me a atitude de jornalistas da grande imprensa que me confiavam informações de bastidores valiosíssimas para o direcionamento da atuação do comitê de solidariedade. Naquelas condições de extrema inferioridade de forças, só poderíamos vencer se os inimigos errassem muito e nós acertássemos o tempo todo. E foi o que aconteceu.

Quando o Psol, logo depois, me convidou para ingressar nas suas fileiras e concorrer à vereança em São Paulo, vislumbrei uma possibilidade de repetir quase o mesmo tipo de atuação: se eleito, incumbiria os dez funcionários (que cada vereador tem o direito de contratar às expensas da Câmara) de uma única missão: investigar escândalos dos governos municipal e estadual. 

Os jornalistas apoiadores talvez continuassem me passando dicas importantes. E outros colegas da imprensa poderiam noticiar e aprofundar as denúncias que eu fosse apresentando na tribuna da Câmara. Ou seja, o mandato seria para mim uma nova frente de batalha e eu passaria longe dos esforços dos vereadores por profissão, no sentido de agradarem eleitores e eternizarem-se no cargo.

O que deu errado? A minha ingenuidade em supor que a esquerda da década passada ainda fosse a mesma que antes elegia não os candidatos que mais atraíssem votos, mas sim os que pudessem fazer mais pelo partido no combate incessante à direita e ao capitalismo. Esta era a tradição do velho PCB, por exemplo.

Antes da desmoralização por não oferecer resistência digna deste nome ao golpe de 1964, a postura adotada no partidão era a de os militantes, aliados e simpatizantes votarem em quem o partido determinava, pois sua prioridade era ter como representantes no executivo ou legislativo quadros à altura do papel que lhes caberia desempenhar, tanto em termos de formação política quanto de combatividade. 
...desde que tenhamos clareza quanto a quem realmente
somos e quais são nossos inimigos inconciliáveis...
  

Mas, não havia tal despojamento e espírito de sacrifício no Psol, tanto que uma tendência de âmbito federal e sua adversária municipal travavam uma verdadeira briga de foice no escuro para que fosse um dos seus quadros o único vereador que o partido conseguiria eleger. Quanto apego aos nacos de poder!

Eu, que sempre detestei as disputas por  poder entre companheiros do mesmo partido e que só me sentia verdadeiramente revolucionário quando enfrentava o inimigo de classe,  fiquei como peixe fora d'água, amaldiçoando-me por não ter previsto que promessas seriam descumpridas e decisões inaceitáveis tomadas em função do emocionalismo despertado pela rinha entre tendências. 

Contara ser apoiado e acabei é sendo boicotado, assim como outros companheiros que tinham chances de obter votações expressivas, pois convinha à minha tendência concentrar o máximo de votos naquele candidato no qual resolvera apostar suas fichas, a fim de que superasse o favorecido pela direção nacional.

Mas, não me senti envergonhado de receber apenas 355 votos, nem por, já sexagenário, haver tido um acesso de voluntarismo. Afinal, todas as lutas que travei na vida foram desiguais, os inimigos de classe sempre dispuseram de mais gente e mais recursos, e mesmo assim algumas terminaram em vitórias simplesmente porque eu e companheiros abnegados não desistimos e fomos procurar brechas nas imponentes muralhas contra nós erguidas.  

Esta é a realidade de quem combate o capitalismo nestes tristes tempos presentes. Para compensar a falta de tantos outros trunfos, precisamos improvisar o tempo todo e aproveitar da melhor maneira possível os espaços que a democracia burguesa é obrigada a nos conceder para manter sua imagem de neutralidade
...pois com os serviçais históricos da
burguesia não há acordo possível! 
Temos como desafio trilhar os atalhos que vislumbramos, mas sem nos perdermos na floresta, para que assim possamos retomar adiante o caminho que conduz às nossas principais metas. No caso da participação no executivo ou no legislativo, utilizá-las para acumulação de forças e maior difusão de nossos valores é aceitável, desde que em nenhum momento as consideremos um fim em si. 

Para um verdadeiro revolucionário, não passam de opções táticas como tantas outras. O objetivo estratégico é a tomada de poder para damos fim à exploração do homem pelo homem e à priorização do lucro em detrimento das necessidades e das melhores aspirações humanas. 

Ser presidente da república, no desenho institucional da democracia burguesa, significa ser tão somente o serviçal número um do poder econômico. Pode ter alguma utilidade, mas nem de longe é nosso ponto de chegada.  

A virtude está no meio, dizia Aristóteles. Eu acrescento que a obsessão pela conquista de uma posição de poder na verdade subalterna, que em si não garante a transição para uma sociedade regida pelo bem comum e pela liberdade plena, está é na beirada do grande sonho acalentado pela humanidade através dos tempos.  

Por último. Num país como o nosso, tão acostumado a refugar na hora de lutar e a chegar entre os últimos da fila aos grandes momentos de afirmação nacional (independência, abolição da escravatura, proclamação da república, fim das ditaduras fascistas do século passado, etc.), talvez seja de maior proveito, ao invés do aristotélico, um lema bem mais em falta. 

O do comandante Lamarca: ousar lutar, ousar vencer. A forma de luta mudou, mas o espírito combativo continua sendo necessário... e muito! (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

AUTOCENSURA DE CHICO É A SIMULAÇÃO DE FORÇA DOS IMPOTENTES

Chico Buarque autocensurou a execução de uma de suas canções: Com açúcar, com afeto (1967).

Trata-se de uma música por ele composta a pedido de Nara Leão (1942-1989), que a interpretaria com muito charme e suavidade. 

Fala sobre o sofrimento de uma esposa amargurada com a infidelidade e os abusos psicológicos do marido. 

É uma canção genial, gravada também pelo autor; a primeira pessoa é muito bem interpretada por Chico Buarque em sua execução. 

Mas não é que algumas feministas encrencaram com a letra da música e pediram para o compositor nunca mais cantá-la?! 

Qual seria o motivo para esta visão negativa sobre a canção? Sinceramente, não entendi bem, pois a música é extremamente delicada, não tendo nenhuma palavra mais dura, ao contrário da famosa Geni e o Zepelim

Só posso considerar, então, que estas feministas caíram na lamentável confusão entre arte e realidade.

Tal confusão não é nova, já sendo encontrada em Platão: ele queria expulsar os poetas de sua cidade imaginária pois representariam os deuses de modo imoral! 

Sabiamente, Aristóteles corrigiu o mestre, trazendo à tona o fato de que a arte  não se confunde com o mundo material e que, ao contrário de serem condenáveis, as representações poéticas dos deuses eram formas de humanização, pois executavam o mecanismo da catarse das emoções humanas. 

A catarse – literalmente, vômito, colocar para fora – propiciava o expurgo das emoções de violência e sofrimento dos espectadores e ouvintes das obras poéticas, fazendo com que estes refletissem sobre a própria vivência e eliminassem sentimentos negativos. 

Milênios depois, Lukács falou a respeito da natureza reflexiva da arte: ao vermos uma representação artística e nos identificarmos nela, refletimos sobre nossa própria situação social e humana. Nos tornamos mais conhecedores de nós mesmos. 

Assim, se uma mulher, p. ex., ouvisse a música Com açúcar, com afeto, estando em situação semelhante, mas de modo ainda não totalmente consciente, ela poderia refletir sobre sua condição. Quiçá dar um passo rumo ao rompimento do casamento opressivo. 

Obviamente, isso passa pelo sofrimento de
vivenciar psicologicamente o fato expresso na música. Mas, esse fato é primordial para se alcançada a catarse

Portanto, ao censurar a obra, não se está ajudando em nada. Pode-se mesmo estar privando milhares de mulheres de refletirem sobre a condição em que se encontram. 

Parece aqui haver uma inversão idealista entre a realidade e a ideia. Marx já identificara essa inversão ao analisar o pós-hegelianismo de Bruno Bauer e demais (este filósofo alemão, seu contemporâneo, acreditava que bastava a crítica das ideias para mudar o mundo e criticava as massas populares por quererem fazer revoluções quando ainda não se tinham apropriado da crítica em sua profundidade). 

Considerar a censura de uma música como sendo o caminho para acabar com o sofrimento concreto e real de milhares de mulheres presas a maridos infiéis e abusadores é como acreditar que basta banir cenas de violência das novelas e filmes para se acabar o crime no mundo real. 

Este ponto, no entanto, é uma falha teórica largamente encontrada no chamado identitarismo: seus adeptos acreditam que a reforma da estrutura simbólica – a linguagem, a arte, a ciência, etc. –funcionaria como uma transformação efetiva do mundo real. Não funciona. Pode-se viver na mais absoluta opressão econômica e política com a mais inclusiva das linguagens. 

Não se trata, portanto, de deixar de executar-se uma música para não abordar o sofrimento das mulheres, mas de, concreta e materialmente, emancipar a mulher do seu matrimônio opressivo. Uma mulher concreta, que sofre e chora de verdade, e não apenas na interpretação de um(a) artista de talento. (por David Emanuel Coelho) 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O BRASIL NÃO PODE SER BOLSONARO!!!

mário sérgio conti
SEM-VERGONHICE AGRESSIVA DO PRESIDENTE PROPICIA A UNIÃO CONTRA ELE
Lá veio ele. De terno xexelento e gravata brega. Erguendo os polegares a troco de nada. Articulando aos trancos e barrancos sujeito, verbo e predicado. 

Arreganhando os dentes numa risada maníaca. Ostentando a papada e o pescoção obscenos para os celulares da claque.

Outra manhã no portão do Alvorada. O cenário foi calculado para ser morfético: o chiqueirinho insolente para jornalistas, a canhestra coreografia de jagunços simiescos, o alvoroço dos bajuladores. O Mito sai do palácio com o script pronto.

Tanto que na 3ª feira, sem que nada lhe fosse perguntado, e recorrendo a um aspone [gíria: assessor de porra nenhuma], ladrou suas cachorradas contra a repórter Patrícia Campos Mello. Aí fez uma cara de espertalhão que ganhou o dia, afixou a metálica risada-cicatriz na fuça e se mandou. Só a sua corja achou graça.

Mesmo que as patadas do presidente e seus asseclas sejam reiteradas diariamente, houve dessa vez um incômodo inusitado. A infâmia não foi tida por corriqueira. Como definir o embaraço que se espalhou por parte da opinião pública?

Houve por certo enjoo, cansaço, gente que de novo perguntasse: de que bueiro saiu esse cara? 

Mas sentiu-se outra coisa, um dissabor fugidio que pegou fundo, constrangimento, humilhação, repulsa. Salvo engano houve vergonha.

A vergonha é um sentimento tão evidente que fica difícil defini-lo. Talvez seja um meio termo entre pudor e culpa, mas se alimenta de ambos. 

Ocorre no íntimo da pessoa, mas vem de fora, diz respeito a como os outros a enxergam. Dá-se a ver no rubor e no gesto de cobrir o rosto com as mãos.

No Gênesis, Adão e Eva comem o fruto proibido e, ao acordarem, sentem vergonha pela primeira vez. A consciência do que fizeram os perturba. Têm vergonha da nudez e se cobrem com folhas. Envergonhados, são expulsos do Paraíso.

A vergonha inexiste na infância. Crianças não se importam com a nudez, em urinar e defecar em público, em ter prazer com dejetos. A partir da puberdade, diz Freud, a vergonha é um dos mecanismos —como a timidez, o asco e o pudor— com os quais a cultura recalca a pulsão sexual dos indivíduos.

A vergonha dos brasileiros foi outra: a de ter um presidente sem noção. Que fala no Alvorada como num vestiário de caserna. Que se dirige a nós como se aos da sua laia. Que agride quem não é ignóbil como ele. Como reagir à torpeza cotidiana?
Carlo Ginzburg é um eminente historiador italiano. O Queijo e os Vermes, seu livro mais conhecido, inaugurou um gênero, o da micro-história. Tem 80 anos e a aura de um sábio.

Pois ele tem um ensaio contraintuitivo no qual argumenta que a vergonha tem uma dimensão social e positiva. O Vínculo da Vergonha abre assim:
"O país ao qual se pertence não é, como diz a retórica habitual, aquele que se ama, mas o do qual se tem vergonha". 
Não que a vergonha seja uma escolha: 
"Ela desaba sobre nós, nos invade —nossos corpos, nossos sentimentos, nossos pensamentos— como uma doença repentina".
Ginzburg busca suas raízes gregas. Para Aristóteles, ela é uma paixão, e não uma virtude. Em Homero, é um grito de guerra que atemoriza o inimigo: Aidos!, cujo sentido ecoa na expressão Tenha vergonha na cara!.

O decisivo, diz ele, é a dimensão coletiva da vergonha. A desonra que ela provoca serve de mola para vencê-la. 

Ela é uma reação ao perigo, um vínculo que congrega.

Daí que, na Ilíada, Nestor exorte seus soldados a ter vergonha, a pensar nos filhos e esposas, nas posses e pais, vivos ou mortos: tenham coragem e não fujam da luta. A vergonha é uma tomada de consciência, um passo para a união. O Brasil não pode ser Bolsonaro.

Foi o que ocorreu com o leitor Danilo Tucciarelli na carta que a Folha de S. Paulo publicou. Ele pediu desculpas a Patrícia Campos Mello por ter votado em Bolsonaro, mas descobriu que o presidente é um sujeito sujo e covarde.

Conclui sua carta assim: 
"Tenho mãe, esposa, irmãs e, em breve, terei uma filha. E a última coisa que desejaria que acontecesse a elas é o que vem acontecendo com a jornalista"
A vergonha homérica está aí. (por Mário Sérgio Conti)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

O TRISTE FIM DE BOLSONARO: TORNOU-SE ESCRAVO MENTAL DUM GURU AMALUCADO!

josias de souza
GÊNIO DA LÂMPADA
 DE BOLSONARO SE
 CHAMA OLAVO
Suponha que você se chama Jair Bolsonaro e preside um país chamado, digamos, Brasil. Você tomou posse há quatro meses. 

Embora você admita que não entende bulhufas de economia, já assimilou a avaliação de que a crise fiscal é feia. Porém, você ainda dispõe de três anos e oito meses para mudar o rumo das coisas. 

Suponha que você está caminhando pelos jardins do Palácio da Alvorada e tropeça numa lâmpada mágica. De dentro da lâmpada sai um gênio. Ele diz que quer ajudar você a salvar o país. O gênio pergunta quais são suas quatro prioridades. Ele não costuma atender a mais de três pedidos por pessoa. Mas foi com a sua cara. E decidiu conceder-lhe um bônus. 

Você responde rapidamente: "Uma escola sem partido, sem filosofia e sem sociologia; uma publicidade estatal sem tatuagens, sem cabelos compridos e sem transexuais; um turismo sem o paraíso gayzista, aberto apenas a estrangeiros que prefiram fazer sexo com mulheres; e, por último, um vice-presidente sem língua".

O gênio se irrita. Faz cara de nojo. E volta para o interior da lâmpada resmungando: "Você não precisa de mim. Creio que a alegada genialidade do Paulo Guedes tampouco lhe será útil. Tente repatriar o Olavo de Carvalho".

A esse ponto chegou Jair Bolsonaro. Tornou-se escravo mental de um guru amalucado. Prometia nomear um ministério de craques e entregar aos brasileiros o básico: educação, saúde e segurança. Para atingir seus objetivos, tocaria um governo sem viés ideológico e priorizaria na largada as reformas econômicas. 

Súbito, descobre-se que cultivava uma prioridade secreta: converter o futuro do Brasil numa Antiguidade sem Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas com muito viés ideológico e doses cavalares (com duplo sentido, por favor) de Olavo de Carvalho. Não há gênio que resolva. (por Josias de Souza)
"Eu sou astrólogo! Eu sou astrólogo! E conheço a História do princípio ao fim"

terça-feira, 8 de maio de 2018

SOBRE A MORAL REVOLUCIONÁRIA E O IMPERATIVO DE SERMOS VISTOS COMO ALTERNATIVA À PODRIDÃO BURGUESA – 2

(continuação deste post)
"O MEIO NÃO PODE SER JUSTIFICADO SENÃO PELO FIM. 
MAS TAMBÉM O FIM PRECISA DE JUSTIFICAÇÃO"
Por Leon Trotsky
A ordem dos jesuítas, fundada na primeira metade do século 16 para combater o protestantismo, nunca ensinou que qualquer meio, mesmo o mais delituoso, de acordo com a moral católica, seja admissível, contanto que leve ao fim, isto é, ao triunfo do catolicismo. 

Esta doutrina contraditória e psicologicamente inconcebível foi malignamente atribuída aos jesuítas pelos seus adversários protestantes – e, às vezes, católicos –, os quais, por sua vez, pouco se preocupavam com escrúpulos na escolha dos meios para atingir seus próprios fins. 

Os teólogos jesuítas – preocupados, como os de outras escolas, com o problema do livre arbítrio – ensinavam na realidade que o meio, considerado em si mesmo, pode ser insignificante, mas que a sua justificação ou condenação moral depende do que se procura alcançar. 

Assim, um tiro de arma de fogo é, em si, um fato sem importância; já disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável; e disparado para matar ou praticar violência é um crime....
Aristóteles, Kant e John Stuart Mill

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem. 

Isto significa então que, para atingir este fim, tudo é permitido? – perguntará sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. 

É permitido, responderemos, tudo aquilo que leve realmente à libertação dos homens. Já que este fim não pode ser atingido senão por via revolucionária, a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um caráter revolucionário. 

Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante. Ela deduz as normas de conduta das leis do desenvolvimento social, isto é, antes de tudo, da luta de classes, que é a lei das leis.

O moralista ainda insiste: Isto significa então que, na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc.?

Respondemos: são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível a toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

Quando dizemos que o fim justifica os meios, disto deriva para nós que o grande fim revolucionário repudia os procedimentos e os meios indignos que lançam uma parte da classe operária contra outra; ou que tentam fazer a felicidade das massas sem a sua organização, substituindo-as pela adoração dos chefes

Acima de qualquer outra coisa, a moral revolucionária condena irredutivelmente o servilismo para com a burguesia e o desprezo para com os trabalhadores, que é uma das características mais arraigadas na mentalidade dos pedantes e dos moralistas pequeno-burgueses.

Estes critérios, é obvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a tais problemas.

O materialismo dialético não separa os fins dos meios. O fim é deduzido de maneira natural do dever histórico. Os meios estão organicamente subordinados ao fim. O fim imediato transforma-se no meio do fim ulterior. 

Ferdinand Lassalle, em seu drama Franz von Sickingen, faz um de seus personagens dizer:

Lassale
"Não indiques apenas o fim,
mas mostra também o caminho
porque o fim e o caminho
tão unidos estão
que um muda com o outro
e com ele se move
– e cada novo caminho
revela um novo fim"

Obs.: trechos selecionados do panfleto A moral deles e a nossa, escrito por Trotsky em 1938 e que foi lançado no brasil também com o título alternativo de Moral e revolução.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

OS PATRULHEIROS CRICRIS ATACAM DE NOVO! POR IGNORÂNCIA CRASSA OU INTOLERÂNCIA FASCISTOIDE?

Por Hélio Schwartsman
MARCHANDO PARA O PRECIPÍCIO
.
O carnaval se aproxima, para infelicidade dos pobres mortais que moramos na Vila Madalena. A pergunta que se coloca no momento é se vale banir as marchinhas com letras politicamente incorretas, como O teu cabelo não nega, Maria Sapatão e Cabeleira do Zezé, entre tantas outras.

A palavra banir aqui é complicada, pois engloba dois processos muitos distintos, um deles totalmente legítimo e o outro intolerável no contexto de uma sociedade aberta.

Com efeito, se por banimento entende-se apenas o resultado da evolução natural dos gostos das pessoas, não há muito o que discutir. As sensibilidades mudam mesmo e isso tem reflexos no mercado, tanto o de ideias como o fonográfico. Em tempos de promoção dos direitos de minorias, é esperado que letras que causem desconforto sejam paulatinamente menos consumidas.

Vale observar que nem a Bíblia escapa a esse processo. As inúmeras passagens que mostram um Jeová violento até as raias do sadismo são cada vez menos citadas em textos de religiosos e, suspeito, também nos púlpitos das igrejas mainstream. Ganham visibilidade os trechos mais benignos, que sugerem um Deus menos intolerante e mais amoroso.
A proscrição das marchinhas será absolutamente indefensável, contudo, se ela de algum modo se apoiar no poder do Estado, que, em regimes democráticos, não pode proibir nem limitar nenhum tipo de manifestação artística.

Já a ideia de alguns grupos de militar ativamente para que as tais marchinhas deixem de ser tocadas me parece uma combinação de desconhecimento histórico (ignora-se o contexto em que a obra foi produzida) com desatino mesmo (ninguém fica mais racista por ouvir O teu cabelo...). 

A extensão dessa lógica tortuosa à filosofia e à literatura nos privaria, entre outros, de Aristóteles (escravagista), Eurípedes (misógino) e Shakespeare (antissemita).
.
Pitaco do editor
Concordo com tudo que o Hélio escreveu e assino embaixo. 

Acrescento que, além do desconhecimento histórico e do desatino mesmo, há também no patrulhamento cricri uma componente de desonestidade intelectual pura e simples, como se evidenciou, p. ex., na tentativa de imputarem racismo a Monteiro Lobato apenas e tão-somente porque uma de suas personagens, a boneca Emília, dizia frases desaforadas à Tia Nastácia. 

A reação dos que conhecem e amam a literatura foi fulminante, impondo aos aspirantes a censores a derrota mais acachapante que até hoje sofreram em suas inquisitoriais tentativas de policiarem as artes e o pensamento. (Celso Lungaretti)
.
Os caçadores de bruxas querem tacar fogo nesta marchinha de... 1929!!!
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