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quinta-feira, 10 de julho de 2025

A FRASE DO DIA É SOBRE AS IRONIAS DA HISTÓRIA E TIROS SAINDO PELA CULATRA

O Lula ESTÁ INCONSOLÁVEL: desde OS ANOS 70 DANDO UM duro DANADO  para domesticar a esquerda brasileira 
e o Trump, EM POUCOS dias, DESTRUIU toda A SUa obra!
.
A esperteza, quando é demais, acaba engolindo o esperto...
Não há nada como um dia depois do outro, daí estarmos
iniciando uma nova temporada do filme Os companheiros,
um clássico das lutas sociais, dirigido por Mario Monicelli.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

OS COMPANHEIROS DOS ANOS SOMBRIOS

O dia começa com notícias previsíveis, bem ao estilo da canção Domingou do Gilberto Gil: "O jornal de manhã chega cedo, / mas não traz o que eu quero saber. / As notícias que leio, conheço, / já sabia antes mesmo de ler".  

Ocorreu-me, então, disponibilizar novamente no blog um filme que mostra bem como eram os militantes marxistas emblemáticos do passado.
 
Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um revolucionário profissional, professor por formação, que chega para ajudar os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Afora pelo tema em si, identifiquei-me muito com ele porque, na década de 1960, conheci bem a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fazia tossir instantaneamente. 
Cheguei até a fazer um
bico no Crespi, indo todo final de mês somar, com uma calculadora tão primitiva que nem elétrica era, as horas extras dos trabalhadores, para o fechamento das folhas de pagamento.

Ao assistir a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas antes.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política.

Vendo tantas vezes o filme naquele tempo em que dava os primeiros passos na trajetória revolucionária, o professor Siniglaia ficou sendo para mim, como para muitos jovens militantes de então, o exemplo no qual nos espelhávamos.
E, como diz aquele velho lugar comum (cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade), acabaria mesmo andando incógnito daqui pra lá na perseguição do meu sonho, sendo abrigado pela companheirada de cada lugar, passando sustos e privações, olhando do lado de fora de estabelecimentos chiques as iguarias que não tinha como pagar, até chegar no fim da linha, as prisões (que, nos nossos anos de chumbo, eram bem piores do que aquelas que esperavam o Siniglaia). 

Hoje percebo quanta falta fazem aqueles ativistas da velha guarda, para quem a militância significava a disposição para sujeitarem-se a todos os sacrifícios e não a promessa de empregos muito bem remunerados e outras boquinhas no setor público.

Por mais que se queira pensar o contrário, forças políticas que profissionalizam seus quadros à custa das posições por elas conquistadas no executivo e no legislativo acabam necessitando de vitórias eleitorais para sustentar e aumentar suas esferas de influência. 

Tornam-se dependentes das eleições, tanto quanto os viciados não passam sem suas drogas. E, sem querer, perdem de vista o objetivo maior de substituirmos a institucionalidade burguesa por outra que não implique a perpetuação da exploração do homem pelo homem.

Os dois partidos que por mais tempo se mantiveram como forças dominantes na esquerda brasileira, o PCB e o PT, caíram nessa armadilha. 

Carecemos hoje (e muito!) de uma vanguarda formada por Siniglaias e não por gente que perde o emprego se o seu partido perder a eleição seguinte. 

Pois tal situação implica, mesmo que imperceptivelmente, a perda da independência política. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

JÁ QUE O BOZO FAZ TANTA QUESTÃO DE TROMBETEAR QUE É IMBROCHÁVEL...

 ...o blog lhe presta uma homenagem postando
este filme sobre um fulano igualmente
obcecado com tal questão. 
O belo Antônio é uma amarga comédia italiana de 1960, dirigida
por Mauro Bolognini e interpretada por Marcello Mastroianni
e Claudia Cardinale, que provocou muito falatório à
época por abordar um tema melindroso.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

BATTISTI MORRERÁ NUMA PRISÃO ITALIANA

Battisti curvou-se à vontade dos inquisidores...
A (in)Justiça Italiana acaba de confirmar a medonha pena de prisão perpétua para Cesare Battisti, baseada tão somente na palavra nada confiável de delatores premiados e numa confissão nada confiável do escritor que, colocado ante a alternativa de cumprir pena em masmorras fedorentas com as piores características medievais ou fazê-lo em condições mais amenas e civilizadas, cedeu. 

Com isto, limpou a barra dos que atropelaram as mais sagradas  normas do Direito em sua obsessão de destruírem um símbolo libertário, deixando bem claro que não hesitariam em destruir o homem que o encarnava caso não se vergasse aos seus odiosos propósitos.

O que eu tinha para dizer sobre um dos presos políticos mais famosos da atualidade (o outro é Julian Assange), já disse no artigo Battisti merece respeito,  do qual não mudo uma vírgula sequer. 
...para não acabar num buraco destes!
Quanto à confirmação de que a Itália definitivamente abdicou de seu legado humanista e se tornou um paisinho fascistizado a mais, também nada tenho a acrescentar ao artigo no qual, oito anos atrás, expressei todo meu desencanto com a terra dos meus ancestrais. 

Infelizmente, pode-se trocar de nome mas não de sobrenome, caso contrário eu o faria, pois hoje a Itália só me inspira repulsa. Como diziam os versos inesquecíveis de Paulo César Pinheiro numa canção dos anos 70, tudo o que mais nos uniu, separou. 

Eis, logo abaixo, a íntegra do artigo Reflexões sobre o ato de logo mais, diante do consulado italiano, de 28/01/2011, do qual também não mudo uma única vírgula (se o reescrevesse hoje, seria para torná-lo ainda mais contundente!):
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Como meu sobrenome deixa evidente, sou de ascendência italiana (por parte do avô paterno e do bisavô materno).

Mas, os dois ramos já haviam se dissociado desse passado quando eu começava a entender as coisas.

Uma lembrança remota da minha meninice foi a do meu pai e meu tio comentando a morte de um ancestral famoso: Angelo Longaretti (1). Circulava de mão em mão a notícia publicada no jornal italiano Corrieri della Sera.
Desembarque de imigrantes italianos em Santos (1907)

Atraído pelas promessas dos fazendeiros brasileiros, que mandavam recrutadores à Itália oferecendo viagem gratuita, Angelo veio trabalhar na lavoura cafeeira.

Raul Salles, filho do fazendeiro Diogo Eugênio Salles, assediou a irmã de Angelo. Este tentou transferir-se com a família para outra fazenda, mas Raul fez com que fossem rejeitados. E ainda persuadiu o delegado de Analândia a prender Angelo por embriaguez.

Quando o soltaram, no dia 3 de outubro de 1900, Diogo e Raul tentaram expulsar os Longaretti da fazenda, sem pagar-lhes os 2.000 réis a que faziam jus por seu trabalho. O velho Francisco, pai de Angelo, disse que não sairiam. Diogo agarrou-o, sacudiu-o e atirou-o no chão.

Angelo, vendo o pai desmaiado, supôs que estivesse morto. Foi buscar uma velha e enferrujada garrucha (2) e disparou contra Diogo, ferindo-o mortalmente.

Seguiu-se uma série de descalabros, como as intimidações policiais a habitantes de Analândia para que depusessem contra Angelo.
Outros italianos que vieram trabalhar na lavoura
Este evadira-se, mas acabou sendo detido em 18 de maio de 1901, delatado por um compatriota ávido pela recompensa por sua prisão.

No processo, não foi levada em conta a minoridade do réu (Angelo ainda não completara 21 anos) nem o juiz providenciou tradutor para ele e as testemunhas da defesa que não falavam bem o português. E foram relevadas várias contradições dos acusadores.

O falecido era irmão do presidente Campos Sales, que cogitou até a instauração da pena de morte, com efeito retroativo, para que pudesse ser aplicada nesse caso; mas, foi dissuadido pela Inglaterra.

O governo italiano, supondo tratar-se de mais um anarquista, não deu a mínima. Angelo foi, entretanto, fortemente apoiado pela colônia, que até se cotizou para pagar-lhe um advogado famoso. 

Isto não impediu sua condenação a 21 anos de reclusão. Depois, num segundo julgamento, a pena diminuiu para 10 anos.
Entrevista de Angelo Longaretti a um jornal italiano

Acabou cumprindo sete anos e meio da pena e sendo libertado por decisão do Supremo Tribunal Federal. Voltou à Itália, onde levou vida tranquila até a morte, em 1960.

Mas, esta história familiar não me interessou muito na época. Só fui lhe dar valor muito tempo depois, em função do rumo que minha própria vida tomou.

O que me predispôs mesmo a valorizar meu sangue latino foram os livros do primeiro autor que me fez a cabeça: Monteiro Lobato, com sua veneração pelo legado greco-romano.

Graças a ele, passei a identificar a Itália com o humanismo, o equilíbrio, a sensatez. Não com o fascismo que só a derrota na II Guerra Mundial conseguiu afastar do poder.

E foi ainda a arte que reforçou minha admiração pela Itália: desde os fundamentais escritores Dante Alighieri, Alberto Moravia e Italo Calvino até os maravilhosos filmes de Federico Fellini, Ettore Scola, Mario Monicelli e tantos outros.
Mastroianni e Sofia Loren eram como eu idealizava os italianos...
O AFETO QUE SE ENCERRA — Sem nunca ter podido conhecer a pátria dos meus antepassados, eu supunha que fosse um contraponto ao  american way of life, tão sôfrego e calculista. Idealizava cada italiano como um Marcello Mastroianni e cada italiana como uma Sofia Loren.

E, embora estivesse ciente dos excessos com que foram combatidos os militantes da ultraesquerda na década de 1980, não os imputava ao povo italiano. 

Para mim, a culpa toda era do PCI, que aliara-se ao partido da burguesia facinorosa (a Democracia Cristã) contra os verdadeiros revolucionários, tangendo-os ao desespero e a atitudes insensatas como a execução de Aldo Moro. 

Aí, pensava eu, aproveitando o emocionalismo do momento, os herdeiros de Mussolini e os traidores de Gramsci lançaram aquela extemporânea caça às bruxas.
...mas hoje os vejo com as carrancas de Mussolini, Berlusconi... 

O Caso Battisti desfez rudemente minhas ilusões: percebi que existem italianos comuns, a exemplo do que ocorria durante o fascismo, submetendo-se docilmente a lideranças demagógicas e rancorosas.

Assim como os brasileiros foram levados pela mídia a quase trucidarem os donos da escola-base, houve italianos que aderiram grotescamente à  vendetta  pregada por Berlusconi. Que decepção!

O aspirante a  Duce  me fez lembrar uma frase que andou em voga no final do patético governo do  arenoso   que herdou a primeira Presidência da Nova República, embora fosse um dos brasileiros que menos a merecesse: De hora em hora, Sarney piora.

Berlusconi também tem piorado de hora em hora: recorre a um estoque infinito de casuísmos, abusando do seu poder e contando com a cumplicidade de parlamentares ignóbeis, para driblar processos por crimes financeiros e corrupção, em que fatalmente seria condenado, persegue os imigrantes com furor e arbitrariedades que fazem lembrar o pesadelo hitlerista, protagoniza escândalos e deboches dignos  de um Calígula, etc.
...e Matteo Salvini, outro neofascista obcecado com armas.
Os companheiros que participarem da manifestação de protesto marcada para esta 6ª feira, diante do consulado italiano em São Paulo, deverão ter em mente, entretanto, que a imprensa golpista brasileira transmite uma visão distorcida, exageradíssima, da amplitude da rejeição a Cesare Battisti.

Da mesma forma como uma Veja cria a ilusão de insatisfação generalizada com nosso governo anterior e o atual, também o noticiário a respeito de Battisti dá erroneamente a entender que ele seja, ao menos, um personagem importante para a opinião pública italiana.

Na verdade, não o é.  Faz muito barulho a banda de música neofascista – e também a dos comunistas que outrora abdicaram de seus ideais para participar do governo, e hoje movem céus e terras para silenciar os que lhes cobram tal infâmia. 

Mas, falam por si, e não pelas grandes massas.. Estas têm outros interesses, preocupações e prioridades, bem mais prosaicas. Os direitistas assumidos e empedernidos não constituem, nem de longe, a maioria, melhor definida pelo título de uma obra-prima de Moravia: Os Indiferentes.
"a repetição da História como buffonata"

Ou, mais precisamente: os omissos. Não devemos isentar os demais italianos da culpa por tudo que faz em seu nome o inacreditável Berlusconi.  A sabedoria popular continua valendo: quem cala, consente.

Ainda assim, a nada nos levará antagonizar os trabalhadores e cidadãos comuns de outros países.

Devemos, isto sim, incentivá-los a reencontrarem a humanidade perdida, distanciando-se da herança mussolinesca e reassumindo os nobres valores dos quais seu passado também é pródigo. Como os da Renascença.

Nossa luta, em última análise, é contra o capitalismo -- e suas manifestações extremadas, como o fascismo que Berlusconi tenta pateticamente reviver, numa repetição da História como  buffonata. 

Enfim, não são um país e um povo nossos verdadeiros alvos -- mas sim o sistema que inspira os  pogroms contra imigrantes e a  vendetta  contra Battisti, entre tantas formas de intimidação a que o capital recorre para,  pelo arbítrio e o terror, perpetuar sua dominação.
Por Celso Lungaretti
1. o sobrenome familiar correto é Longaretti, mas Papai foi registrado equivocadamente como Lungaretti, já que o escrivão não entendeu direito o sotaque italiano do meu avô. E eu também acabei ficando Lungaretti. 
2. curiosamente, a arma lhe fora há tempos entregue pelo próprio Raul, como pagamento por um serviço prestado.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

O FILME QUE NINGUÉM DEVE DEIXAR DE VER OU REVER NO DIA DOS TRABALHADORES

Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um professor militante que ajuda os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Na década de 1960, conheci a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fez tossir instantaneamente. Quando assisti a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas atrás.
Outra recordação marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política. 

Aproveito para incluir aqui o texto de apresentação deste filmaço no excelente blogue português My Two Thousand Movies, do meu amigo virtual Francisco Rocha: 
O cenário é uma fábrica têxtil em Turim, no final do século XIX. Cerca de 500 trabalhadores suportam turnos de 14 horas, debaixo de situações extremas, desde o calor, poeira, o perigo de sofrer um acidente de trabalho, e são mal pagos. Um dos trabalhadores fica com a mão mutilada por uma máquina, situação que serve de impulso para que os outros, pelo menos, pensem mudar as condições de trabalho.

Talvez graças à sorte ou ao destino, um professor e socialista chamado Sinigaglia (Marcello Mastroianni) está de passagem pela cidade (em fuga de crimes políticos), e oferece uma ajuda na organização dos trabalhadores. Segue-se uma greve, que se arrasta por várias semanas, testando a vontade dos trabalhadores...

Esta sinopse faz o filme parecer mais um melodrama sobre as más condições das classes trabalhadoras. 

Na realidade, é muito mais do que isso, e o que o faz ser tão brilhante e surpreendente é a forma como é apresentado, tornando-o também numa obra de entretimento.

Além da tragédia, também há um pouco de romance, comédia, farsa, comentário social. O argumento e o trabalho de realização fazem um trabalho magistral, ao desenvolver várias personagens em vários sub-plots numa história bastante multidimensional. 

A maioria dos filmes politicamente orientados são polêmicos, o que por vezes os distancia do grande público. I Compagni é tão envolvente, tão animado, tão cheio de personagens vibrantes, que o aspecto da mensagem da história funciona a um nível quase sublimar..

Mario Monicelli (mais conhecido no território da comédia) e o produtor Franco Cristaldi tiveram de ir até à Iugoslávia para encontrar uma fábrica em pleno funcionamento, com as suas dezenas de teares movidos por um motor a vapor, e ativados por eixos de transmissão. 

O edifício da fábrica parece um acidente prestes a acontecer. Com figurinos e cenários tão rigorosamente preparados e um look típico do século XIX a ser muito bem mantido, desde os quartos baratos alugados pelo trabalhadores, aos restaurantes chiques onde Niobe (Annie Girardot) encontra os seus clientes.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

HOJE É DIA DE REVERMOS O MELHOR FILME SOBRE O MOVIMENTO OPERÁRIO EM TODOS OS TEMPOS

Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um professor militante que ajuda os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Na década de 1960, conheci a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fez tossir instantaneamente. Quando assisti a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas atrás.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política. 

Aproveito para incluir a apresentação deste filmaço que foi publicada no excelente blogue português My Two Thousand Movies, do meu amigo virtual Francisco Rocha:  

O cenário é uma fábrica têxtil em Turim, no final do século XIX. Cerca de 500 trabalhadores suportam turnos de 14 horas, debaixo de situações extremas, desde o calor, poeira, o perigo de sofrer um acidente de trabalho, e são mal pagos. Um dos trabalhadores fica com a mão mutilada por uma máquina, situação que serve de impulso para que os outros, pelo menos, pensem mudar as condições de trabalho.
Talvez graças à sorte ou ao destino, um professor e socialista chamado Sinigaglia (Marcello Mastroianni) está de passagem pela cidade (em fuga de crimes políticos), e oferece uma ajuda na organização dos trabalhadores. Segue-se uma greve, que se arrasta por várias semanas, testando a vontade dos trabalhadores...

Esta sinopse faz o filme parecer mais um melodrama sobre as más condições das classes trabalhadoras. Na realidade, é muito mais do que isso, e o que o faz ser tão brilhante e surpreendente é a forma como é apresentado, tornando-o também numa obra de entretimento.

Além da tragédia, também há um pouco de romance, comédia, farsa, comentário social. O argumento e o trabalho de realização fazem um trabalho magistral, ao desenvolver várias personagens em vários sub-plots numa história bastante multidimensional.  

A maioria dos filmes politicamente orientados são polêmicos, o que por vezes os distancia do grande público. I Compagni é tão envolvente, tão animado, tão cheio de personagens vibrantes, que o aspecto da mensagem da história funciona a um nível quase sublimar.

Mario Monicelli (mais conhecido no território da comédia) e o produtor Franco Cristaldi tiveram de ir até à Iugoslávia para encontrar uma fábrica em pleno funcionamento, com as suas dezenas de teares movidos por um motor a vapor, e ativados por eixos de transmissão. O edifício da fábrica parece um acidente prestes a acontecer. Com figurinos e cenários tão rigorosamente preparados e um look típico do século XIX a ser muito bem mantido, desde os quartos baratos alugados pelo trabalhadores, aos restaurantes chiques onde Niobe (Annie Girardot) encontra os seus clientes.
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domingo, 25 de dezembro de 2016

ASSISTA NO BLOGUE DO NÁUFRAGO AO MELHOR FILME SOBRE O MOVIMENTO OPERÁRIO EM TODOS OS TEMPOS

Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um professor militante que ajuda os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Na década de 1960, conheci a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fez tossir instantaneamente. Quando assisti a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas atrás.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política. 

Aproveito para incluir a apresentação deste filmaço no excelente blogue português My Two Thousand Movies, do meu amigo virtual Francisco Rocha:  

O cenário é uma fábrica têxtil em Turim, no final do século XIX. Cerca de 500 trabalhadores suportam turnos de 14 horas, debaixo de situações extremas, desde o calor, poeira, o perigo de sofrer um acidente de trabalho, e são mal pagos. Um dos trabalhadores fica com a mão mutilada por uma máquina, situação que serve de impulso para que os outros, pelo menos, pensem mudar as condições de trabalho.
Talvez graças à sorte ou ao destino, um professor e socialista chamado Sinigaglia (Marcello Mastroianni) está de passagem pela cidade (em fuga de crimes políticos), e oferece uma ajuda na organização dos trabalhadores. Segue-se uma greve, que se arrasta por várias semanas, testando a vontade dos trabalhadores...

Esta sinopse faz o filme parecer mais um melodrama sobre as más condições das classes trabalhadoras. Na realidade, é muito mais do que isso, e o que o faz ser tão brilhante e surpreendente é a forma como é apresentado, tornando-o também numa obra de entretimento.

Além da tragédia, também há um pouco de romance, comédia, farsa, comentário social. O argumento e o trabalho de realização fazem um trabalho magistral, ao desenvolver várias personagens em vários sub-plots numa história bastante multidimensional.  

A maioria dos filmes politicamente orientados são polêmicos, o que por vezes os distancia do grande público. I Compagni é tão envolvente, tão animado, tão cheio de personagens vibrantes, que o aspecto da mensagem da história funciona a um nível quase sublimar.

Mario Monicelli (mais conhecido no território da comédia) e o produtor Franco Cristaldi tiveram de ir até à Iugoslávia para encontrar uma fábrica em pleno funcionamento, com as suas dezenas de teares movidos por um motor a vapor, e ativados por eixos de transmissão. O edifício da fábrica parece um acidente prestes a acontecer. Com figurinos e cenários tão rigorosamente preparados e um look típico do século XIX a ser muito bem mantido, desde os quartos baratos alugados pelo trabalhadores, aos restaurantes chiques onde Niobe (Annie Girardot) encontra os seus clientes.
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sábado, 25 de abril de 2015

VEJA NO BLOGUE O MELHOR FILME SOBRE O MOVIMENTO OPERÁRIO EM TODOS OS TEMPOS: "OS COMPANHEIROS".

Às vésperas de mais um dia 1º de maio, tenho a satisfação de finalmente conseguir postar aqui, completo e legendado, aquele que considero o melhor filme sobre o movimento operário em todos os tempos: Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um professor militante que vai ajudar os operários de uma indústria têxtil de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema a que eram submetidos no final do século retrasado. 

Na década de 1960, conheci a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fez tossir instantaneamente. Quando assisti a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas atrás.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política. 

Aproveito para incluir a apresentação deste filmaço no excelente blogue português My Two Thousand Movies (*), do meu amigo virtual Francisco Rocha:  

O cenário é uma fábrica têxtil em Turim, no final do século XIX. Cerca de 500 trabalhadores suportam turnos de 14 horas, debaixo de situações extremas, desde o calor, poeira, o perigo de sofrer um acidente de trabalho, e são mal pagos. Um dos trabalhadores fica com a mão mutilada por uma máquina, situação que serve de impulso para que os outros, pelo menos, pensem mudar as condições de trabalho. 

Talvez graças à sorte ou ao destino, um professor e socialista chamado Sinigaglia (Marcello Mastroianni) está de passagem pela cidade (em fuga de crimes políticos), e oferece uma ajuda na organização dos trabalhadores. Segue-se uma greve, que se arrasta por várias semanas, testando a vontade dos trabalhadores...

Esta sinopse faz o filme parecer mais um melodrama sobre as más condições das classes trabalhadoras. Na realidade, é muito mais do que isso, e o que o faz ser tão brilhante e surpreendente é a forma como é apresentado, tornando-o também numa obra de entretimento. Além da tragédia, também há um pouco de romance, comédia, farsa, comentário social. O argumento e o trabalho de realização fazem um trabalho magistral, ao desenvolver várias personagens em vários sub-plots numa história bastante multidimensional. 

A maioria dos filmes politicamente orientados são polêmicos, o que por vezes os distancia do grande público. "I Compagni" é tão envolvente, tão animado, tão cheio de personagens vibrantes, que o aspecto da mensagem da história funciona a um nível quase sublimar.

Mario Monicelli (mais conhecido no território da comédia) e o produtor Franco Cristaldi tiveram de ir até à Iugoslávia para encontrar uma fábrica em pleno funcionamento, com as suas dezenas de teares movidos por um motor a vapor, e ativados por eixos de transmissão. O edifício da fábrica parece um acidente prestes a acontecer. Com figurinos e cenários tão rigorosamente preparados e um look típico do século XIX a ser muito bem mantido, desde os quartos baratos alugados pelo trabalhadores, aos restaurantes chiques onde Niobe (Annie Girardot) encontra os seus clientes.


* o Francisco Rocha, aliás, está apresentando no seu blogue o ciclo Consciência de classe e luta, com filmes como Sacco e Vanzetti, Norma Rae, Actas de Marusia e o próprio Os companheiros. Ele os introduz de forma admirável e fornece links para download.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"ALLONSANFÀN": A DESCONCERTANTE OBRA-PRIMA DOS IRMÃOS TAVIANI

Os irmãos Paolo e Vittorio Taviani, que roteirizam e dirigem seus filmes a quatro mãos, são responsáveis por algumas das obras mais importantes do cinema italiano no final do século passado, como Pai Patrão (1977), A noite de São Lourenço (1982), Kaos (1984) e Bom dia, Babilônia (1987).

Infelizmente, sua produção se tornou rarefeita no século atual, seja por causa da idade (Vittorio tem 84 anos e Paolo está prestes a completar 82), seja porque as películas predominantemente políticas ou politizadas não estão mais em moda.

Talvez o filme mais desconcertante da dupla seja Allonsanfàn (1973), sobre o aristocrata Fulvio (Marcello Mastroianni), que passa algum tempo preso durante a segunda Restauração Francesa, após a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte.

Libertado em 1816, vai convalescer de uma enfermidade junto à rica parentela e, recebido com enorme carinho, redescobre os encantos da família e da propriedade, após a fase atribulada como membro de uma irmandade revolucionária.

Mas os companheiros reaparecem e acabam arrastando-o, a contragosto, para novas e quixotescas aventuras, quando o que ele quer mesmo é desistir de tudo --não tendo, contudo, coragem para abrir o jogo. Acaba virando, objetivamente, um traidor.

Paradoxal foi a escolha de Mastroianni para o papel principal. Com as ações de Fulvio se tornando cada vez mais desprezíveis, a aura simpática e benigna do ator atenua o desagrado dos espectadores, criando uma empatia que não deveria existir.

O título é o nome de um personagem secundário, batizado pelos pais idealistas com uma referência ao  allons enfants de la Patrie --e, por extensão, uma alusão irônica aos integrantes da sociedade secreta, que se imolam tentando reavivar uma chama já extinta.

A trilha musical de Ennio Morricone é magnífica como sempre --com destaque para a inesquecível Rabia e tarantella, tema de uma sequência onírica de arrepiar: a figuração de como os  irmãos  gostariam de ser (efusivamente) recebidos pelos camponeses, em sua tentativa de relançar a luta nas zonas rurais, após serem derrotados nas grandes cidades. 

Veja "Allonsanfàn", completo, legendado em português.

sábado, 10 de julho de 2010

BERLUSCONI RODA A BAIANA, COMO UM DUCE DE BUFFONATA

Já escrevi sobre como os anos Berlusconi deixaram em cacos a imagem que eu tinha da Itália: a de um país amadurecido, pleno de humanidade, compaixão e sabedoria.

Cinéfilo inveterado, queria crer que cada italiano tivesse um pouco de Marcello Mastroianni; e cada italiana, de Sofia Loren.
De repente, fiquei sabendo que a figura realmente emblemática da pátria do meu avô é outra, uma versão piorada de Benito Mussolini (a História se repetindo como farsa grotesca, buffonata de mafuá...).

E cada vez mais escândalos e delinquências foram vindo à tona: ligações perigosas com a Máfia, antecedentes neofascistas, fraudes, subornos, arbitrariedades, deboches.

Um rosário de ilegalidades, irregularidades e impropriedades, mais do que suficientes para derrubar o premiê de qualquer nação que se respeitasse.

A Itália, infelizmente, não se respeita.

Então, nela nada mais me surpreende.

Nem mesmo que esteja em gestação uma lei com o objetivo gritante de manietar a Justiça e censurar a imprensa, apenas para que não seja mostrada ao povo a nudez do rei.

É o que informa a notícia Itália para contra a "lei da mordaça", publicada neste sábado (10) pela Folha de S. Paulo, cujos principais trechos reproduzo em seguida:
"Os principais jornais italianos decidiram não circular ontem nem atualizar seus sites na internet. A maioria dos canais não exibiu telejornais, e foram poucas as notícias nas rádios. Também houve greve de transportes em cidades como Roma e Milão.

"Foi um protesto contra a 'lei da mordaça', como é conhecido o projeto que o premiê Silvio Berlusconi tenta aprovar no Congresso.

"O projeto já passou no Senado e deve ir à votação na Câmara no dia 29. Se virar lei, irá restringir o uso de grampos telefônicos em investigações e punir com multa os meios de comunicação que publicarem as transcrições.

"Aos jornalistas, estão previstas penas de prisão de até dois meses.

"Há também grande descontentamento entre juízes. A associação dos magistrados afirmou em nota que a nova lei irá tornar muito mais difícil o trabalho investigativo de policiais e juízes.

"...os críticos afirmam que ele [Berlusconi] tenta se proteger, evitando investigações sobre sua vida e sobre membros do governo. Em 2009, o vazamento de partes de investigações sobre corrupção atingiram o premiê.

"Foram divulgados pelos meios de comunicação fotos e detalhes de festas que o premiê dava em sua casa, para as quais eram contratadas garotas de programa.

"Há dois meses, Berlusconi foi obrigado a aceitar a renúncia de Claudio Scajola, seu então ministro da Indústria, após a mídia divulgar operações fraudulentas na compra de um apartamento".
O primeiro-ministro reagiu pedindo a ajuda de seus simpatizantes para dar fim à "mordaça imposta à verdade", por parte de uma mídia que "pisoteia sistematicamente no sagrado direito à privacidade dos cidadãos invocando a liberdade de imprensa como se fosse um direito absoluto".

Segundo o herdeiro espiritual do Duce, "na democracia não existem direitos absolutos".

Parece um papa discorrendo sobre sexo: fala sobre o que desconhece e nunca praticou. Não passa de figura tosca de um autoritarismo rançoso e odioso.

Enfim, serve como consolo a constatação de que, com enorme atraso, os italianos finalmente começam a despertar de sua letargia cúmplice.

Talvez nem tudo esteja perdido; aguardemos os próximos e emocionantes capítulos.
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