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sábado, 15 de novembro de 2025

UM BRASILEIRO CHAMADO REYNALDO LUNGARETTI

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia troça com seu nome: "rei, nada!".

Hoje estaria comemorando mais um aniversário. É doloroso pensar em como o destino o tratou mal.

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser ser tão feliz quanto então.

Aconteceu assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem, veio tentar a sorte no Brasil. Trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando  sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.

Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, na Mooca. À saída, a multidão lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os Companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de  outrora (Tom Mix, Hot Gibson, Ken Maynard, etc.), dizia que "agora não têm a mesma graça").

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

Só se empolgou uma vez na política, com Getúlio Vargas. Chorou  no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.). 

Era contra os patrões e a dominação estrangeira, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar. cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito. 

A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.


Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.

Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparando-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam o seu trabalho e cotizaram-se para emprestar-lhe o capital inicial de seu próprio negócio. 

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde espinafrado como acomodado por minha mãe.

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. De pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar preso na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. 

Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois havia morado no vizinho bairro de Deodoro.

Já lá se vão 22 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.

Morreu aos 83 anos, depois de quatro derrames lhe tirarem, nos últimos tempos, qualquer prazer que pudesse ter em estar vivo. 

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só bem poucos se realizam plenamente(por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 10 de julho de 2025

A FRASE DO DIA É SOBRE AS IRONIAS DA HISTÓRIA E TIROS SAINDO PELA CULATRA

O Lula ESTÁ INCONSOLÁVEL: desde OS ANOS 70 DANDO UM duro DANADO  para domesticar a esquerda brasileira 
e o Trump, EM POUCOS dias, DESTRUIU toda A SUa obra!
.
A esperteza, quando é demais, acaba engolindo o esperto...
Não há nada como um dia depois do outro, daí estarmos
iniciando uma nova temporada do filme Os companheiros,
um clássico das lutas sociais, dirigido por Mario Monicelli.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

QUANDO O ASSUNTO DO DIA É O INCRÍVEL GOLPE BOLSONARONE, NÃO PODERIA SER OUTRO O FILME PARA VER NO BLOG.

As investigações da Polícia Federal estão revelando que o putsch ultradireitista fracassado em 08.01 no Brasil foi singular na história do golpismo mundial.

Motivo: nunca houve outro em que os planejadores e executantes deixassem tantas provas contra si pelo caminho, como se a intenção secreta deles fosse:
 a descoberta da trama;
— a tomada de providências para evitar o seu êxito;
— o desfecho ridículo da tentativa; e
— a prisão e condenação dos principais envolvidos.

Evidentemente, isso tem muito a ver com a personalidade do chefe da organização criminosa que tentava virar a mesa para alterar o que as urnas haviam decidido: talvez o orgulho impeça o réu nº 1 de escolher o melhor caminho para evitar a prisão, mas se a defesa de Jair Bolsonaro alegar insanidade mental, terá ótimas chances de ser bem sucedida.

Tão disparatado e inconsequente como o Bozo, mas inofensivo ao invés de totalmente nocivo, o personagem Brancaleone de Nórcia (Vittorio Gassman) é uma brilhante criação do cineasta e co-roteirista Mario Monicelli, um dos gigantes da comédia italiana no século passado.

Inspirado obviamente no D. Quixote, ele é outro nobre sem fortuna nem noção, inconformado com a decadência da cavalaria medieval. Suas peripécias, contudo, conseguem ser bem mais hilárias que as do personagem imortal de Miguel de Cervantes.
O Incrível Exército Brancaleone (1966) é simplesmente um filmaço, que nada perdeu do seu vigor e do seu encanto após tantas décadas. Assistam e constatem!

Não canso de admirar a versatilidade e excelência de Gassman, o maior ator daquela fase dourada do cinema italiano, mesmo correndo na mesma faixa dos superlativos Marcello Mastroianni e Ugo Tognazzi. 

Não fosse Gassman o filme, apesar de todos os seus predicados, jamais seria a obra-prima que acabou se tornando. Atuação inesquecível.

Destaque também para a bela Catherine Spaak e para um Gian-Maria Volonté a caminho do estrelato. E a trilha sonora de Carlo Rustichelli é outra pérola, notadamente o tema principal, utilizado com a impagável animação do início do filme. (por Celso Lungaretti)    

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

DEPOIS DA BARBÁRIE FASCISTA, A HIPOCRISIA SEM IDEOLOGIA

As charges são todas do Jota Camelo

Por que a selvageria dominical ultradireitista foi rejeitada praticamente por todos os cidadãos que desfrutam de notoriedade e têm uma imagem a manter?

Porque ultrapassou as quatro linhas (um dos clichês favoritos do responsável nº 1 por essa ridícula tentativa golpista) e foi destruindo tudo pelo caminho, desde as cadeiras das arquibancadas até o estacionamento do estádio.

Os registros dessa barbárie explícita foram vistos no Brasil inteiro e chocaram os que se impressionam mais com fogos de artifício do que com disparos reais.

Pois infinitamente mais grave havia sido a tentativa de mandar pelos ares, no aeroporto de Brasília, um caminhão transportador de combustível. Eliminaria pessoas como moscas, ao invés de causar meros estragos e prejuízos materiais, quiçá simbólicos.

Mas, as projeções matemáticas de institutos confiáveis do exterior, segundo as quais cerca de 400 mil mortes na pandemia foram causadas pelo negacionismo e sabotagem à vacinação impostos por Bolsonaro, a poucos cidadãos comuns comoveu. São meros números. 

Incomodou a mim, pois já assisti a partidas de futebol com 100 mil torcedores e tenho uma boa noção do que sejam quatro vezes tal multidão. Afora haver tido, durante a vida adulta inteira, o hábito de caminhar pelas ruas das cidades onde estava, sempre interessado em saber como viviam as pessoas simples do meu país. Exatamente as que mais morreram, assassinadas sob as ordens do genocida.

Mas, os poderosos e os famosos não são iguais a mim. Nem de longe. Quase todos perseguem obsessivamente uma condição que os coloque bem acima do seu próprio povo.

Como poderiam ter verdadeira, já nem direi empatia, mas ao menos compaixão  pelos explorados suarentos, pançudos e mulambentos?

Hoje travam uma acirrada disputa para provarem que são mais democratas do que aqueles que competem pelos mesmos espaços no noticiário. 

Quando o Bozo assumiu e havia muito receio de que fosse deflagrada logo em seguida uma exterminadora Operação Jacarta, lembro-me muito bem de quão poucos ousavam rotulá-lo publicamente com os adjetivos que utilizam de boca cheia agora, quando até o engavetador-geral da República Bozóica resolveu exibir o muque contra os seus protegidos de setembro de 2019 até a semana retrasada...

Então, eu que não acompanho nenhuma onda que não sejam as do mar, tenho a dizer que:
— em nenhum momento houve verdadeira possibilidade de putsch vitorioso no domingo passado;
— foi mero vandalismo e demonstração destrambelhada de força, pois invadir prédios vazios e depredá-los não passa de ideia de jerico, só servindo para entregar preciosos trunfos propagandísticos ao inimigo que se pretendia atingir;
— o resultado óbvio foi tornar a bestialidade da extrema-direita execrada como nunca e dar ao Lula uma nova oportunidade de interpretar o seu papel predileto, o de homem providencial;
— a invasão estadunidense do Capitólio já demonstrara de forma cabal que hordas desmioladas e indisciplinadas, quando seu líder as abandona e delas se distancia por receio de responsabilização legal, descontrolam-se e cumprem mais o papel de bumerangue que o de aríete (ao invés de derrubarem as muralhas do inimigo, infringem pesados danos à causa que elas mesmas  defendem); e
— ainda que a incrível falange Bozoleone, como uma moeda caída em pé, reconquistasse o governo, não o conseguiria sustentar nem por uma semana, pois o principal do poder econômico e da institucionalidade burguesa já havia chegado a uma conclusão definitiva quanto àquele que ambos haviam impingido como fake presidente na fraudadíssima eleição de 2018.

E qual era? A de que urgia desbozificar o Brasil, em primeiro lugar por ele prejudicar negócios importantes com sua ciclotimia e surtos de loucura, comprometendo a estabilidade dos cenários que grandes investidores exigem para fazer grandes investimentos. 

Depois, por privilegiar vira-latas do capitalismo como os predadores ambientais em detrimento da imagem do país no exterior e da obtenção do retorno bem maior simplesmente mantendo as florestas como santuários ecológicos. Y muchas otras cositas más...

Agora finalmente se fará o que já deveria ter sido feito em 2020, quando ficou totalmente evidenciado que, caso o mico fantasiado de mito  não fosse impichado o quanto antes, o saldo em mortes de inocentes seria descomunal. Como acabou sendo.

Mas, a extrema-direita não está morta e, depois de reagrupar-se, reciclar-se e escolher um líder que não fuja na horas decisivas, tende a crescer de novo lá por 2024 ou 2025, se o povo não obtiver aquilo que desesperadamente anseia nesta recessão tão prolongada: a retomada do desenvolvimento econômico.

Nunca esquecerei como, da noite para o dia, o fugaz milagre brasileiro fez os brasileiros trocarem as piadas de baixo calão que faziam a boca pequena sobre os generais ditadores pelas aclamações ao carrasco Médici no estádio do Maracanã.

Será bom se os áulicos contarem isto ao Lula. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

OS COMPANHEIROS DOS ANOS SOMBRIOS

O dia começa com notícias previsíveis, bem ao estilo da canção Domingou do Gilberto Gil: "O jornal de manhã chega cedo, / mas não traz o que eu quero saber. / As notícias que leio, conheço, / já sabia antes mesmo de ler".  

Ocorreu-me, então, disponibilizar novamente no blog um filme que mostra bem como eram os militantes marxistas emblemáticos do passado.
 
Trata-se de Os companheiros (1963), de Mario Monicelli, com Marcello Mastroianni no papel de um revolucionário profissional, professor por formação, que chega para ajudar os operários de uma tecelagem de Turim a realizarem sua primeira greve contra a exploração extrema que sofriam no final do século retrasado. 

Afora pelo tema em si, identifiquei-me muito com ele porque, na década de 1960, conheci bem a fábrica no qual meu pai trabalhou durante a vida inteira (o Cotonifício Crespi, um dos primeiros marcos da industrialização de São Paulo, no bairro paulistano da Mooca) e era praticamente idêntico ao mostrado no filme: enorme, mal iluminado, mal ventilado, com uma poeira sufocante que me fazia tossir instantaneamente. 
Cheguei até a fazer um
bico no Crespi, indo todo final de mês somar, com uma calculadora tão primitiva que nem elétrica era, as horas extras dos trabalhadores, para o fechamento das folhas de pagamento.

Ao assistir a Os companheiros, logo me ocorreu que era enorme o atraso brasileiro, a ponto de nossas indústrias se parecerem tanto com as da Europa de quase sete décadas antes.

Outra lembrança marcante é a de que, quando nossa Frente Estudantil Secundarista começou a pegar no breu em 1968, negociei com o cinema de arte Bijou (na praça Roosevelt, centro de São Paulo) a realização de sessões de Os companheiros nas manhãs de domingo. Exibíamos o filme para os jovens recrutas e promovíamos rápidos debates no final, como parte do programa de conscientização política.

Vendo tantas vezes o filme naquele tempo em que dava os primeiros passos na trajetória revolucionária, o professor Siniglaia ficou sendo para mim, como para muitos jovens militantes de então, o exemplo no qual nos espelhávamos.
E, como diz aquele velho lugar comum (cuidado com o que você deseja, pode se tornar realidade), acabaria mesmo andando incógnito daqui pra lá na perseguição do meu sonho, sendo abrigado pela companheirada de cada lugar, passando sustos e privações, olhando do lado de fora de estabelecimentos chiques as iguarias que não tinha como pagar, até chegar no fim da linha, as prisões (que, nos nossos anos de chumbo, eram bem piores do que aquelas que esperavam o Siniglaia). 

Hoje percebo quanta falta fazem aqueles ativistas da velha guarda, para quem a militância significava a disposição para sujeitarem-se a todos os sacrifícios e não a promessa de empregos muito bem remunerados e outras boquinhas no setor público.

Por mais que se queira pensar o contrário, forças políticas que profissionalizam seus quadros à custa das posições por elas conquistadas no executivo e no legislativo acabam necessitando de vitórias eleitorais para sustentar e aumentar suas esferas de influência. 

Tornam-se dependentes das eleições, tanto quanto os viciados não passam sem suas drogas. E, sem querer, perdem de vista o objetivo maior de substituirmos a institucionalidade burguesa por outra que não implique a perpetuação da exploração do homem pelo homem.

Os dois partidos que por mais tempo se mantiveram como forças dominantes na esquerda brasileira, o PCB e o PT, caíram nessa armadilha. 

Carecemos hoje (e muito!) de uma vanguarda formada por Siniglaias e não por gente que perde o emprego se o seu partido perder a eleição seguinte. 

Pois tal situação implica, mesmo que imperceptivelmente, a perda da independência política. (por Celso Lungaretti)

sábado, 14 de agosto de 2021

AINDA NÃO CAIU PARA O BOZO A FICHA DE QUE OS SENADORES O VEEM COMO DOIDO PERIGOSO: VAI ATRÁS DE OUTRA DERROTA

Pior presidente da República de nossa História e maior assassino de brasileiros em todos os tempos, responsável por centenas de milhares de mortes de cidadãos que sobreviveriam à covid se não fosse seu negacionismo tosco e sua sabotagem premeditada das medidas sanitárias, Jair Bolsonaro insiste em afligir os governados e desmoralizar o país.

Mal saído da tríplice derrota de 3ª feira passada (vide aqui), ele acaba de anunciar que pretende levar outra surra, submetendo ao Senado um pedido de abertura de processo contra os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso (que também preside o TSE).

Motivo real: retaliá-los por estarem cumprindo fielmente os deveres que seus cargos lhes impõem, ao contrário do próprio Bolsonaro, que não passa de um agitador e golpista em tempo integral, deixando as tarefas governamentais ao Deus dará e fazendo do Brasil uma terra arrasada, motivo de repulsa e de chacotas nos países civilizados. 

Pretexto de ocasião: a estapafúrdia presunção de que um deputado descontrolado, que (como estrela do mensalão) já cumpriu pena por corrupção e lavagem de dinheiro, estaria tendo sua liberdade de expressão cerceada por impedirem-no de continuar delinquindo ao, dia após dia, exibir armas, pregar golpe de Estado e clamar pela prisão de ministros do Supremo, além de ofendê-los e ameaçá-los. 

Mentira mais cabeluda: mandando às favas o decoro do cargo, o Bozo acrescentou na manhã deste sábado, 14, mais uma fake news à enormidade que colocou em circulação desde que ostenta a faixa presidencial, pois teve o desplante de afirmar que não deseja uma ruptura institucional, quando Deus e o mundo sabem que ele não faz outra coisa ultimamente a não ser tentar provocá-la, já que seu prestígio está em queda galopante e tudo faz crer que, havendo eleição daqui a 14 meses e ele não tendo ainda sido recolhido ao Pinel, nem ao 2º turno chegará.  
Jefferson no xilindró: baluarte das más causas

É só blefe, como sempre. Seu guru Donald Trump já lhe queimou o filme, ao mostrar didaticamente como os alucinados da extrema-direita agem na iminência de serem expelidos dos seus cargos pela via eleitoral, ou seja, botando fogo no país. Sem a vantagem da surpresa, os planos infalíveis do Bozo desmancham no ar. 

O apoio que ele compra com cargos, vantagens indevidas e  proteção para contraventores (começando, neste quesito, pelos filhos que ele designa por números...)  não é suficiente para pôr o Incrível Exército de Bozoleone em marcha com seus tanques enfumaçados.

E senadores, se não por convicções democráticas, pelo mero senso comum sabem que bater palmas para um maluco desses dançar é perigoso. Seus mandatos não  vão valer quase nada e poderão ser cassados a qualquer momento no caso de uma nova recaída nas trevas. Gatos escaldados têm medo de água fria.

De resto, contra os blefes do palhaço sinistro só há uma resposta que funciona: pagar pra ver. Sua tradição de amarelar nos momentos cruciais vem de longe. (por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e anistiado político, que se orgulha de haver outrora resistido à ditadura endeusada por Bolsonaro & Filhos e de estar agora resistindo às suas farsescas tentativas de bisarem aquela tragédia) 
Pensando bem, o personagem da comédia clássica de Mario 
Monicelli daria de goleada no Bozo quanto à sanidade mental

domingo, 9 de maio de 2021

SERÁ QUE, SE O QUALIFICARMOS DE 'SERIAL KILLER' AO INVÉS DE 'GENOCIDA', O BOZO DEIXARÁ DE ESPUMAR PELA BOCA?

ricardo kotscho
BEM QUE BOLSONARO, O 'SERIAL KILLER',
PODERIA PARAR DE ENCHER O SACO DO PAÍS
Não encham o saco
, recomendou Bolsonaro aos membros da CPI do Senado que criticam o uso da cloroquina. 

Em campanha eleitoral por Rondônia nesta 6ª feira (7), o presidente da República usou várias vezes a expressão do linguajar da caserna contra todos aqueles que se opõem à sua ação ou inação no combate à pandemia.

Tudo para ele agora enche o saco: o uso de máscaras, o distanciamento social com medidas de restrição à circulação, a compra de vacinas, a higiene com as mãos, ou seja, as recomendações da OMS para estancar a propagação do coronavírus. 

Faz sentido: Bolsonaro agiu o tempo inteiro na contramão da ciência para espalhar a doença. 

Boicotou a compra de vacinas, que estão em falta, atacou a China, o nosso maior fornecedor de insumos para a produção de imunizantes, desafiou o STF e os governadores, ameaçou baixar um decreto para implantar o liberou geral.

Pois eu peço que Bolsonaro, se não aguenta mais ser presidente, deixe de encher o saco do país e desocupe logo a moita no Palácio do Planalto, a única forma de impedir a continuação da matança de brasileiros. 

Discute-se se o presidente é ou não um genocida, palavra que também o irrita profundamente, mas é certo que se trata de um serial killer, que provocou o colapso sanitário no país, em parceria com o general Pazuello, o militar fujão que tem medo da CPI. 

Os crimes praticados pela dupla merecerão em algum momento ser julgados pelos tribunais nacionais e internacionais.  

Enquanto isso não acontece, urge interditar o Bolsonaro, impossibilitado de governar o país por suas deficiências cognitivas, falta de noção da realidade, opção preferencial pela morte e por ameaçar as instituições e o Estado de Direito com suas pregações golpistas.

Decidido a dobrar a aposta pelo uso da cloroquina e outras drogas com efeitos colaterais graves, que podem levar à morte dos pacientes, o capitão é um risco ambulante que circula pelo Brasil em busca da reeleição, falando barbaridades e besteiras, certo da impunidade. 

Para ele, o povo é aquele punhado de devotos que grita Mito! quando o vê no cercadinho do Alvorada e as plateias amestradas que reúne por onde passa, sem usar máscara, beijando crianças e provocando aglomerações. 

"Você é livre para escolher, com seu médico, qual a melhor maneira de se tratar e, por favor, não enche o saco de quem optou por uma linha diferente da sua", receitou o capitão da cloroquina, com a cumplicidade do Conselho Federal de Medicina, que lavou as mãos sujas de sangue. Em outras palavras: você é livre para escolher a morte. 
Chegamos a um ponto de não retorno. Com Bolsonaro, não há a menor chance de sairmos do buraco em que ele nos enfiou e continuaremos batendo recordes de mortos e contaminados pelo vírus, sem esperanças de voltarmos um dia a ter uma vida normal. 

Se as instituições estão funcionando, como dizem as polianas, então é hora de mostrarem serviço para afastar do cargo o principal responsável pela grande tragédia brasileira. 

O resto do governo só tem figurantes e figuras patéticas, a começar pelo superministro da Economia, Paulo Guedes, que faz parte do gabinete paralelo de sumidades montado pelo capitão para enfrentar a covid-19, com os filhos e outros terraplanistas, no bunker do Planalto, que resolveram desafiar a China e o resto do mundo. 

Cada dia mais fraco e desesperado, Bolsonaro não passa de um bufão perigoso que se pela diante das investigações da CPI e sai atirando para todos os lados. 

Do outro lado da trincheira brancaleone dos generais de pijama e milicianos pintados de verde-amarelo, um país de 212 milhões de habitantes tenta apenas sobreviver à pandemia, ao capitão e à fome. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

TRUMP É UM GOLPISTA TRAPALHÃO OU UM PSICÓTICO QUE, EM SEUS DELÍRIOS, CRÊ REALMENTE TER VENCIDO A ELEIÇÃO?

hélio schwartsman
O GOLPE DE TRUMP
Em apenas quatro anos, Donald Trump transformou os EUA do que muitos descreviam (exageradamente) como farol da democracia numa república de bananas. As cenas de barbárie a que assistimos na 4ª feira (6) deixarão marcas profundas na política e na autoimagem dos americanos.

A tentativa de golpe incitada pelo ainda presidente Trump também se destaca pela incompetência. O exército de Brancaleone [referência ao filme famoso de Mario Monicelli, uma obra-prima da comédia clássica italiana, que pode ser visto, legendado, na janelinha abaixo] que ele mobilizou para invadir o Capitólio nunca teve condições objetivas de tomar o poder e nem mesmo de impedir a certificação de Joe Biden como próximo mandatário. 

Se Trump planejava apenas galvanizar sua base de apoiadores e posicionar-se para uma eventual volta em 2024, então ele errou escandalosamente na dose do discurso sedicioso. 

Ao cruzar a linha vermelha inscrita na cabeça da maioria dos americanos, o magnata virou contra si um número não desprezível de apoiadores e lideranças do Partido Republicano. 

Já há quem fale em impeachment ou em acionar a 25ª emenda para retirá-lo do poder. Existe a chance de que seja processado ao término do mandato e acabe preso.

Incompetência, porém, não é a única explicação plausível para o destrambelhamento de Trump. Eu não descartaria a hipótese de ele viver um episódio psicótico que o leva a acreditar que realmente venceu a eleição e está sendo roubado. 

Em qualquer caso, não tem condições de governar. Como uma destituição-relâmpago não é algo trivial, talvez tenhamos de nos conformar em torcer para que nada de mais grave aconteça nas próximas duas semanas.

[O assalto ao Capitólio traz, porém, lições que podem ser úteis. Ao revelar que Washington não é tão diferente das capitais de países do 3º Mundo, ele tende a moderar um pouco o excepcionalismo estadunidense. 

Há mensagens válidas até para nós no Brasil: se o sistema não extirpa ab origene [no nascedouro] as tendências golpistas de líderes populistas, o pior pode acontecer. (por Hélio Schwartsman)

terça-feira, 20 de outubro de 2020

OS ANARQUISTAS JÁ FIZERAM HISTÓRIA NO BRASIL/1: A GREVE GERAL DE 1917

E
m 1968 o anarquismo ressurgiu triunfalmente na cena política, com suas bandeiras negras tremulando nas barricadas parisienses. 

Foi quando caiu para as novas gerações de revolucionários a ficha de que a greve geral de 1917 havia sido um episódio de extrema importância nas lutas sociais brasileiras, mas permanecera meio século subdimensionado ou mesmo omitido pela historiografia comunista, que, mesquinhamente, evitava levar água para o moinho da concorrência.

O impacto foi ainda maior para mim por ter tomado conhecimento de que o movimento se iniciara no Cotonifício Rodolfo Crespi, no qual meu pai trabalhara de 1930 até a desativação e desmembramento em 1963, além de permanecer como empregado, até 1976, de firmas menores que lá se estabeleceram. Eu mesmo fiquei conhecendo uma delas, na qual ia fazer um bico mensalmente. 

Quando o grande cotonifício ainda existia, eu cheguei a visitá-lo com meu pai. Para minha surpresa, constatei depois que o congênere italiano mostrado no filme Os Companheiros, ambientado no final do século retrasado, era quase idêntico. Ou seja, a fábrica daqui parecia uma cópia da europeia de seis décadas antes!

Percebendo quão minimizada tinha sido a greve de 1917 pelos historiadores camaradas (o duplo sentido é intencional!), acabei me interessando também pelo outro grande marco da atuação anarquista no Brasil, a Colônia Cecília, e escrevendo sobre ambas. (CL)
A HEROICA GREVE GERAL NA QUAL MORRERAM
 DEZENAS DE OPERÁRIOS, MAS ACABOU VITORIOSA 
Fundado em 1897, o cotonifício Crespi ocupava um enorme quarteirão da zona leste paulistana, tendo se constituído num dos principais marcos da industrialização de São Paulo.

Entrou também para nossa História como o palco onde se iniciou e do qual se irradiou a primeira greve geral brasileira, a de 1917, cuja magnitude foi durante longo tempo minimizada pela historiografia comunista, por puro sectarismo (fora organizada e encabeçada por anarquistas).

Quanta pequenez! Havia sido não só uma iniciativa pioneira, heroica e vitoriosa, como tinha custado a vida de valorosos lutadores do nosso proletariado nascente. Embora só um mártir seja lembrado até hoje, as vítimas fatais podem ter sido cerca de 100 (segundo o jornal Fanfulla, ligado ao consulado italiano) e, certamente, não menos do que 18 (o número em que O Estado de S. Paulo se fixou). Apenas operários; os carrascos saíram incólumes, como sempre...  
O cotonifício Crespi chegaria a ter 50 mil m2 construídos
 
Os aspectos mais sangrentos da greve de 1917 eram voz corrente no movimento operário do início do século passado, mas foram apagados da memória do país. 

Um dos historiadores que os resgataram,  o pesquisador e jornalista José Luís Del Roio, teve seu livro Greve de 1917: os trabalhadores entram em cena lançado pela Alameda Editorial quando transcorria o centenário do episódio. Segundo ele, o Fanfulla noticiou também que existiriam 212 covas abertas no cemitério do Araçá para receber os grevistas (pretendiam matar tantos assim?).

Eis um ótimo texto de apresentação que ele fez do seu trabalho.
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"Um protesto iniciado numa tecelagem, no bairro paulistano da Mooca, há um século, marcou definitivamente a luta dos trabalhadores em nosso país.

As condições de vida eram tremendamente precárias. Não havia leis trabalhistas, não havia garantias para as mulheres e o trabalho infantil era regra, por ser mais barato e mais fácil de controlar.

Numa conjuntura de guerra, crise econômica e carestia, a inquietação localizada se espalhou. O patronato respondeu com os argumentos de sempre: pau, bala e demissões. Mas, daquela vez, a agressão não funcionou. A revolta se espalhou por outras fábricas e pelo comércio. 

Quando os bondes pararam, São Paulo parou junto. Multidões tomaram as ruas, em cenas inéditas até então. Para a oligarquia, plantada em seus casarões da Avenida Paulista e no bairro de Higienópolis, a visão foi aterradora. Dezenas de milhares daqueles considerados feios, sujos e malvados surgiram à luz do dia, entre junho e julho de 1917, para cobrar uma participação mínima por sua contribuição ao desenvolvimento. 
Nem mesmo a brutalidade oficial deteve aquela gente munida de impulsos terríveis: o desejo de matar fome, ter teto e contar com condições para criar os filhos. A pressão das ruas foi tamanha que os ricos tiveram de ceder. A demanda por salários e melhores condições de vida e trabalho acaba espetacularmente vitoriosa
"

Aproveito para citar também o ótimo verbete da Wikipedia (sei que muitos torcem o nariz para a dita cuja, mas a qualidade do texto em questão, eminentemente noticioso, é indiscutível). 

"Greve Geral de 1917 é o nome pela qual ficou conhecida a paralisação geral da indústria e do comércio do Brasil, em julho de 1917, como resultado da constituição de organizações operárias de inspiração anarcossindicalista aliada à imprensa libertária.

Esta mobilização operária foi uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil.
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CONTEXTO POLÍTICO-ECONÔMICO – Com o início da 1ª Guerra Mundial, o Brasil tornou-se exportador de gêneros alimentícios aos países da Tríplice Entente; essas exportações se aceleraram a partir de 1915, reduzindo a oferta de alimentos disponíveis para o consumo interno, e provocando altas em seus preços.

Entre 1914 e 1923, o salário havia subido 71% enquanto o custo de vida havia aumentado 189%; isso representava uma queda de dois terços no poder de compra dos salários. 
"O trabalho infantil era generalizado"

Para salário médio de um operário de cerca de 100 mil réis correspondia um consumo básico que para uma família com dois filhos atingia a 207 mil réis. O trabalho infantil era generalizado.
'…a greve geral de 1917 não pode, de maneira alguma, ser equiparada sob qualquer aspecto que seja examinada, com outros movimentos que posteriormente se verificaram como sendo manifestações do operariado. Isso não, absolutamente não! 
A greve geral de 1917 foi um movimento espontâneo do proletariado sem a interferência, direta ou indireta, de quem quer que seja. Foi uma manifestação explosiva, consequentemente de um longo período da vida tormentosa que então levava a classe trabalhadora. 
A carestia do indispensável à subsistência do povo trabalhador tinha como aliada a insuficiência dos ganhos; a possibilidade normal de legítimas reivindicações de indispensáveis melhorias de situação esbarrava com a sistemática reação policial; as organizações dos trabalhadores eram constantemente assaltadas e impedidas de funcionar; os postos policiais superlotavam-se de operários, cujas residências eram invadidas e devassadas; qualquer tentativa de reunião de trabalhadores provocava a intervenção brutal da Policia. A reação imperava nas mais odiosas modalidades. O ambiente proletário era de incertezas, de sobressaltos, de angústias. A situação tornava-se insustentável.' [Edgard Leuenroth, em artigo na imprensa]
PARALISAÇÃO – Em 1917 houve uma onda de greves iniciada em São Paulo em duas fábricas tenteis do Cotonifício Rodolfo Crespi e, obtendo a adesão dos servidores públicos, rapidamente se espalhou por toda a cidade, e depois por quase todo o país. Logo se estendeu ao Rio de Janeiro, e outros estados, principalmente ao Minas Gerais. 

Foi liderada por elementos de ideologia anarquista, dentre eles vários imigrantes italianos. Os sindicatos por ramos e ofícios, as forças e uniões operárias, as federações porcentuais, e a Confederação Operária Americana (fundada em 1756) sofriam forte influência dos anarquistas.
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A MORTE DE JOSÉ MARTINEZ – Em 9 de julho, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás; resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez. Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado. 

Indignados e já preparados para a greve, os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi, com sede na Mooca, entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois mais de 70 mil trabalhadores já haviam aderido à greve. Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas.
'O enterro dessa vitima da reação foi uma das mais impressionantes demonstrações populares até então verificadas em São Paulo. Partindo o féretro da rua Caetano Pinto, no Brás, estendeu-se o cortejo, como um oceano humano, por toda a avenida Rangel Pestana até a então Ladeira do Carmo em caminho da cidade, sob um silencio impressionante, que assumiu o aspecto de uma advertência.  
Foram percorridas as principais ruas do centro. Debalde a Policia cercava os encontros de ruas. A multidão ia rompendo todos os cordões, prosseguindo sua impetuosa marca até o cemitério. À beira da sepultura revezaram os oradores, em indignadas manifestações de repulsa à reação... 

No regresso do cemitério, uma parte da multidão reuniu-se em comício na Praça da Sé; a outra parte desceu para o Brás, até à rua Caetano Pinto, onde, em frente à casa da família do operário assassinado, foi realizado outro comício'[relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar] 

"A multidão ia rompendo todos os cordões"
EXIGÊNCIAS – A violenta greve geral estava deflagrada em São Paulo. Hermínio Linhares, em seu livro Contribuição à história das lutas operárias no Brasil, diz: 
'O auge deste período foi a greve geral de julho de 1917, que paralisou a cidade de São Paulo durante vários dias. Os trabalhadores em greve exigiam aumento de salário. O comércio fechou, os transportes pararam e o governo impotente não conseguiu dominar o movimento pela força. Os grevistas tomaram conta da cidade por trinta dias. Leite e carne só eram distribuídos a hospitais e, mesmo assim, com autorização da comissão de greve. O governo abandonou a capital'

As ligas e corporações operárias operárias em greve, juntamente com o Comitê de Defesa Proletária, definiram na noite de 11 de julho 11 tópicos contendo suas reivindicações.
Ficha policial de Edgard Leuenroth
  1. que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve;
  2. que seja respeitado do modo mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores;
  3. que nenhum operário seja dispensado por haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista;
  4. que seja abolida de fato a exploração do trabalho de menores de 14 anos nas fábricas, oficinas etc.;
  5. que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalhos noturnos;
  6. que seja abolido o trabalho noturno das mulheres;
  7. aumento de 35% nos salários inferiores a $5000 e de 25% para os mais elevados;
  8. que o pagamento dos salários seja efetuado pontualmente, cada 15 dias, e, o mais tardar, 5 dias após o vencimento;
  9. que seja garantido aos operários trabalho permanente;
  10. jornada de oito horas e semana inglesa [oito horas diárias de 2ª a 6ª feira e quatro horas nos sábados];
  11. aumento de 50% em todo o trabalho extraordinário.
Cavalarianos hostilizando grevistas na rua
NEGOCIAÇÕES – Cerca de 70 mil pessoas aderiram ao movimento. Para defender a greve foi organizado o Comitê de Defesa Proletária, que teve Edgard Leuenroth como um dos principais líderes.
'A situação ia se tornando cada vez mais grave com os choques entre a policia e os trabalhadores. O Comitê de Defesa Proletária, somente vencendo toda a sorte de dificuldades conseguia realizar apressadas reuniões em pontos diversos da cidade, às vezes sob a impressão constrangedora do ruido de tiroteios nas imediações. 
Tornava-se indispensável um encontro dos trabalhadores, para ser tomada uma resolução decisiva. Surgiu, então, a sugestão de um comício geral. Como e onde? E como vencer os cercos da Policia? Mas a situação, que se desenrolava com a mesma gravidade, exigia a sua realização. 
O perigo a que os trabalhadores se iriam expor estava sendo transformado em sangrenta realidade nos ataques da policia em todos os bairros da cidade, deles resultando também vitimas da reação, inúmeros operários, cujo único crime era reclamarem o direito à sobrevivência. 
E o comício foi realizado. O Brás, bairro onde tivera inicio o movimento, foi o ponto da cidade mais indicado, tendo como local o vasto recinto do antigo Hipódromo da Mooca.

Foi indescritível o espetáculo que então a população de São Paulo assistiu, preocupada com a gravidade da situação. De todos os pontos da cidade, como verdadeiros caudais humanos, caminhavam as multidões em busca do local que, durante muito tempo, havia servido de passarela para a ostentação de dispendiosas vaidades, justamente neste recanto da cidade de céu habitualmente toldado pela fumaça das fábricas, naquele instante, vazias dos trabalhadores que ali se reuniam para reclamar o seu indiscutível direito a um mais alto teor de vida. 

Não cabe aqui a descrição de como se desenrolou aquele comício, considerado como uma das maiores manifestações que a história do proletariado brasileiro registra. Basta dizer que a imensa multidão decidiu que o movimento somente cessaria quando as suas reivindicações, sintetizadas no memorial do Comitê de Defesa Proletária, fossem atendidas.' [notícia na imprensa]
E a atitude da polícia, foi o quê? Cortês?
Everardo Dias, em História das Lutas Sociais no Brasil, relata dessa forma os acontecimentos:
'São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos militares, requisitados pela Cia. Antártica e demais indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. 
Há ordem de atirar para quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Moóca, Barra Funda, Lapa, sucederam-se tiroteios com grupos de populares; em certas ruas já começaram fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas. A polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros. 
Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos'[declarações de Fernando Dannemann]
RESOLUÇÃO DA GREVE – Os patrões deram um aumento imediato de salário e prometeram estudar as demais exigências. A grande vitória foi o reconhecimento do movimento operário como instância legítima, obrigando os patrões a negociar com os proletários e a considerá-los em suas decisões.
O desfecho: VITÓRIA!
'Na primeira reunião foi examinado o memorial das reivindicações dos trabalhadores, apresentado pelo Comitê de Defesa Proletária, que a comissão de jornalistas estava encarregada de levar ao governo do Estado. 
A segunda reunião teve o seu inicio retardado, em virtude da prisão de dois dos membros do comitê de Defesa Proletária ao saírem da redação, após a primeira reunião. Os entendimentos seriam rompidos se esses dois elementos não fossem imediatamente postos em liberdade. Essa resolução foi transmitida ao presidente do Estado. A exigência foi atendida, os elementos levados à redação e a reunião pôde ser realizada com breve duração, pois o governo ainda não havia entregue a sua resolução. 
A resolução da concessão das reivindicações dos trabalhadores foi dada por intermédio da Comissão de Jornalistas, com a informação de que já estavam sendo libertados os operários presos durante o movimento. Foram realizados comícios dos trabalhadores em vários bairros para a decisão da retomada do trabalho, que se iniciou no dia imediato.
São Paulo reiniciava suas atividades laboriosas. A cidade retomava o seu aspecto costumeiro, restando, entretanto, a triste lembrança das vitimas que haviam deixado lares enlutados.' [relato de Edgard Leuenroth, em reportagem publicada pelo jornal Dealbar]"

 

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