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segunda-feira, 16 de março de 2026

A POLARIZAÇÃO ESTÁ INDO PARA O RALO E A DIREITA PODERÁ DOMINAR EXECUTIVO E LEGISLATIVO. VIRARIA ROLO COMPRESSOR.

O
Estadão discorre, em editorial, sobre a sensação de que o ciclo do presidente Lula no poder começa a se esgotar.

Justificativa: Uma série de pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias abalou a autoestima sempre elevada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus sabujos no Palácio do Planalto e no PT (...). Os tropeços lulopetistas estancaram a aprovação de Lula e de seu governo. Em paralelo, Lula e o PT assistem à perigosa consolidação do senador Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
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Embora seja um óbvio wishful thinking (o Estadão sempre quer derrubar o Lula), cabe aqui aquele lugar comum de que os antigos relógios com ponteiros marcavam a hora corretamente em dois momentos do dia.
Faltou tradição e propriedade
para repetir fielmente o slogan da TFP
  

A série interminável de problemas de saúde do octogenário Lula e do septuagenário Jair Bolsonaro pode levar o eleitorado à conclusão de que ambos não têm mais fôlego para outro mandato. 

A polarização entre os dois está indo para o ralo e é grande a possibilidade de vitória de um político sem tanta rejeição.

Ademais, a falta de programa de governo e até de rumo da atual gestão do Lula deixa mesmo uma péssima impressão

Talvez seja este o motivo de a grande imprensa estar forçando tanto a barra para supervalorizar o pleito. Com a longa exposição do Lula, o eleitorado pode cansar-se dele até outubro e o PT não teria substituto à altura. 

Já se o Flávio saturar os votantes, a direita poderá trocá-lo, sem grande dificuldade, pelo Tarcísio ou a Michelle. 

Mais: sumindo o espantalho ultradireitista (Flávio evita repetir as loucuras genocidas do pai), a necessidade de renovação tende a tornar-se o sentimento dominante daqui a seis meses.

Então, eu recomendo aos dirigentes petistas uma profunda reflexão sobre tudo isso. Afinal, a direita unida e os endinheirados da Faria Lima apoiando Flávio Bolsonaro o fazem, neste instante, o favorito da corrida presidencial. 
 
Insistir com Lula poderá causar uma derrota acachapante e tudo de que não precisamos é de uma direita dominante tanto no Executivo quanto no Legislativo. Viraria rolo compressor.

Está na hora de se avaliarem outras opções. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 5 de março de 2025

O PSOL NASCEU PARA SER ALTERNATIVA AO PT E A ELE VOLTOU COM O RABO ENTRE AS PERNAS. AGORA, QUER OBEDIÊNCIA CEGA

A
Folha de S. Paulo informa que o Psol está rachado quanto a se deve ou não apoiar de forma incondicional o governo Lula. 

Oito deputados defendem a submissão apriorística em toda e qualquer circunstância, enquanto cinco não esqueceram que seu partido nasceu em 2004 exatamente como uma alternativa à direitização e autoritarismo dentro do PT. 

Se era para balirem  sempre amém ao Lula --cuja taxa de erros e lambanças, vale dizer, tem aumentado assustadoramente desde então--, por que os primeiros psolistas se deram ao trabalho de criar uma nova identidade partidária? 

E o pior é que, além de não entregar o sol prometido, o Psol voltou incompreensivelmente ao ponto de partida.
Criança, não verás mais imagem nenhuma como esta: dirigentes 
do Psol alegremente papeando à frente de um pôster do Chê.

Até porque o PT é uma legenda que envelheceu muito mal e nada de novo e relevante tem sido capaz de apresentar desde o impeachment da Dilma Rousseff, que o deixou perdido no espaço. 
 

É óbvio que os cinco coerentes, dentre os quais se destaca a brava guerreira Luíza Erundina, mantêm-se fieis às melhores tradições da esquerda, que não existe para obedecer caninamente a ninguém. 

Sem pensamento crítico nem direito de colocar em discussão quaisquer posicionamentos dos quais se discorde, ainda que estando em minoria, o que restam? Apenas partidos castrados, domesticados, que da esquerda autêntica não têm mais nada.


Monolitismo é característica do inimigo. Para os que travamos o bom combate, não passa de veneno. Mortal. (por Celso Lungaretti)

domingo, 27 de outubro de 2024

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO, BOULOS!

Típica foto da fase papagaio de pirata do Boulos
G
uilherme Boulos é um raro espécime da política convencional que escreve muito bem, tanto em termos de estilo quanto de consistência do conteúdo. Daí eu ter lido quase todos os textos por ele publicados no período 2014/2017, como colunista semanal da Folha de S. Paulo
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Também, pudera! É bacharel em filosofia e mestre em psiquiatria, ambos pela USP, o que certamente o ajuda a pensar a sociedade. 

Mas, como tenho visto em muitos scholars, as boas análises teóricas não lhe serviram muito para agir sobre a sociedade.

Assim, as esperanças que cheguei a depositar nele logo se tornaram decepções. Ao invés de insistir na mobilização dos excluídos fora do jogo viciado e vicioso da democracia burguesa, foi deixando em segundo plano as ocupações dos sem-teto e apostando cada vez mais suas fichas em candidaturas para o Executivo que, mesmo se houvessem triunfado, não o teriam levado a lugar nenhum.

Assim, não se elegeu presidente da República em 2018, nem prefeito de São Paulo em 2020 e (não terei melindres, pois a derrota é inevitável e detesto manter aparências) agora em 2024. 

E se vencesse, de que adiantaria? Governar o país submetido à camisa de força imposta pelo poder econômico ou governar a cidade sob a mesmíssima limitação, na prática, significa apenas gerenciar as propriedades da classe dominante por deferência da mesma que, se lhe der na telha, aplicará um pé na bunda do serviçal saído das urnas para botar qualquer outro em seu lugar.
A fase de eleger postes já havia terminado 

Foi o que fez com Goulart e Dilma, despojando-os de suas faixas presidenciais para entregá-las àqueles que tinham os votos da caserna ou àquele que era vice também em matéria de escrúpulos. 

E o pior de tudo é que, seduzido por uma miragem de poder, Boulos desempenhou o melancólico papel de bajular o reformista/populista Lula de forma desmedida (houve tempo em que aparecia como papagaio de pirata em boa parte das fotos do dito cujo), sonhando com ser por ele apadrinhado. Nem sequer percebeu que a fase de Lula eleger ou reeleger postes terminara em 2014. 

E não foi só o próprio prestígio que Boulos comprometeu. Graças a ele, o Psol cumpriu a ridícula trajetória de ter nascido como alternativa ao domesticado PT e acabar tornando à casa paterna como bom filho

Só mudou o status. Antes seus dirigentes pertenciam à agremiação que era vermelha e foi virando lilás, agora são apenas um puxadinho da mesma.

Mas, Boulos, nem tudo está perdido: tamanha é a dificuldade que a esquerda brasileira está tendo para forjar os líderes dos quais desesperadamente carece que, se você botar a mão na consciência e repensar suas opções, poderá ainda desempenhar um papel histórico digno. 

Seu verdadeiro trunfo agora é a idade. Aos 42 anos, sobra-lhe tempo para reassumir a missão de transformar em profundidade nossa sociedade, ao invés de continuar apenas ajudando a maquilar a dominação burguesa, para que pareça menos execrável e possa continuar desgraçando indefinidamente nosso sofrido povo. 

A escolha é sua. (por Celso Lungaretti

terça-feira, 15 de outubro de 2024

ACUSAÇÃO VENEZUELANA É JOGO SUJO: O LULA NÃO VIROU AGENTE DA CIA, APENAS SE AFASTA CADA VEZ MAIS DA ESQUERDA

"
Essa esquerda da América Latina, cooptada pela CIA, tem dois porta-vozes. Quem é o porta-voz que os EUA colocam para dizer as coisas mais bárbaras contra o nosso país através da esquerda? O senhor Boric, seguido por Lula."

A acusação aos presidentes do Chile e do Brasil foi feita pelo procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, em entrevista ao Globovisión. E o besteirol não parou por aí:
"Lula foi cooptado na prisão. Essa é a minha teoria. Ele não é mais o mesmo que fundou o PT, que fundou o movimento dos trabalhadores no Brasil.
Lula que foi preso por corrupção, que depois apareceu reabilitado como se não tivesse feito nada, ganhou a presidência, mas ganhou, senhor Lula, que tanto se mete em assuntos eleitorais na Venezuela, porque um Tribunal Eleitoral determinou sua vitória. 

Lula não é mais o mesmo que deixou a prisão, por tudo que acusa agora. Não é o mesmo em nada, nem pelo seu físico, nem pelo que expressa".
Eu, que nunca vi o Lula como um homem de esquerda, mas apenas como um reformista tentando minorar os danos do capitalismo sem dar um fim à exploração do homem pelo homem, vou defendê-lo desta vez.

Ele guinou mais ainda à direita no Lula.3, contudo é de uma coerência extrema com relação à esquerda: desde a época do sindicalismo no ABC a combate com unhas e dentes.

Maduro orientando outro podre, o procurador Saab.
F
oi, assim, o grande responsável pela vergonhosa caça às bruxas desencadeada pelo PT já nos anos 80, fase na qual o segmento dominante expeliu o máximo de tendências de esquerda que pôde. 

As que sobreviveram à primeira década foram espirrando nas seguintes.

Das dezenas que existiam, cito algumas: Ação Popular, Ala Vermelha do PCdoB, Força Socialista,   Convergência Socialista,  Organização Socialista Internacionalista, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, Movimento pela Emancipação do Proletariado e Partido Revolucionário Comunista. 

Enquanto isto, as portas do partido eram escancaradas para os meros carreiristas, que só o inflaram e tornaram flácido, mas tinham a vantagem de contribuir alegremente para a desideologização do PT.

Já lembrei tudo isso noutros artigos, como este. Mas, é importante as novas gerações serem informadas de que nunca existiu um Lula de esquerda, mas tão somente um camaleão que utilizava retórica rebelde para atingir objetivos que não o eram nem um pouco.

Os arroubos demagógicos do Lula na política externa sempre serviram como uma espécie de álibi para o conservadorismo adotado nos assuntos internos. Mas o prazo de validade desses engana-trouxas de figurino populista expirou e o terceiro mandato presidencial do Lula está sendo a gota que faz o copo transbordar. 

A direita, que está ganhando por goleada o pleito atual e é desde já a franca favorita para a eleição presidencial de 2026, agradece. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

LEÕES DESDENTADOS, O PTB, PDT, PMDB E PSDB DIZEM AO PT: EU SOU VOCÊ AMANHÃ!

O PTB de antes do golpe de 1964, o PDT, o PMDB e o PSDB, partidos que um dia foram trabalhistas e/ou de esquerda mas hoje não passam de leões desdentados,  estão dizendo ao PT: Eu sou você amanhã!

Estas eleições municipais mostraram a triste verdade: ao domesticar o PT, esvaziando ou expulsando as tendências anticapitalistas que disputavam espaço em suas fileiras com os reformistas e os fisiológicos, Lula o foi tornando um partido inofensivo, que só serve para caçar votos nas eleições de cartas marcadas da democracia burguesa. 

A descaracterização do PT acelerou-se após as jornadas rebeldes de junho de 2013 e o #NãoVaiTerCopa, quando voltou as costas à juventude que poderia revitalizá-lo, abandonando-a à sanha de governadores e juízes reacionários.

Aí, exatamente quando a direita partia para a conquista das ruas, o PT as abandonava, apostando todas as suas fichas no carisma envelhecido do Lula. Como se adiantasse eleger presidente da República apenas para ele sucumbir às pressões de um Congresso Nacional majoritariamente adverso, tendo de, a cada votação legislativa importante, ceder os anéis para conservar os dedos, até nem mesmo os dedos restarem!

Resultado: fazendo um governo pífio e pusilânime, Lula vê os seus índices de aprovação despencarem e acaba de levar uma sova no pleito municipal, com o falado poder da caneta presidencial reduzido a quase nada (ficou em nono lugar entre os partidos que mais prefeitos elegeram!) .

Prestes a chegar à metade do seu terceiro mandato, Lula já não passa de uma rainha da Inglaterra que implicitamente desistiu de ficar em casa tentando melhorar sua desgastada imagem interna. Prefere ir desperdiçar tempo alhures, envolvendo-se com conflitos externos que requerem mediadores mais qualificados e respeitados. 

Se estiver almejando o Prêmio Nobel da Paz, viaja na maionese: os dirigentes das nações influentes mal contêm o riso diante de suas iniciativas pretensiosas, tipo rato que ruge

Alguém deveria explicar-lhe que está muito longe de ser aceito como uma liderança mundial. É, quanto muito, um líder regional, capaz de dar demonstrações de fraqueza tão vexatórias como a de não conseguir fazer-se respeitar nem sequer pela Venezuela!  (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 17 de julho de 2024

GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL: GOVERNO E DIREÇÕES PELEGAS AGIRAM PELA DERROTA

A greve da Educação Federal, encerrada em junho, foi o enfrentamento mais importante que a classe trabalhadora teve com o atual governo Lula. O final da greve foi marcado por algumas vitórias políticas importantes e um acordo econômico ruim. 

A greve, assim como a mobilização de outras categorias de servidores federais, não conseguiu derrotar o governo e o seu reajuste zero em 2024. Não conseguiu uma reestruturação efetiva das carreiras da Educação Federal, não garantiu a reposição das perdas salariais e arrancou uma reposição muito tímida das verbas das universidades e institutos federais. 

A proposta fechada com o governo basicamente impede a perda inflacionária durante os próximos quatro anos. Mas, esse acordo ficará sob o risco de não ser cumprido pelo governo, diante da pressão do setor financeiro para garantir o Arcabouço Fiscal. 

Embora muito aquém do que se pedia, o acordo é maior do que o governo gostaria de ter concedido, algo que só foi possível pela enorme força demonstrada pela greve, uma das maiores dos últimos tempos. Além disso, a greve impulsionou a organização e a confiança da categoria em suas próprias forças e revelou o papel traidor das direções sindicais governistas, que saíram desgastadas e desmoralizadas. 

Grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação Federal tinham grandes expectativas de que, com Lula, haveria mudanças na situação de precariedade no ensino superior federal. Mas, o presidente ignorou suas promessas de campanha e, no seu primeiro ano de governo, aprovou o Arcabouço Fiscal para garantir o teto de gastos exigido pelos banqueiros e grandes empresários. 

Com isso, em 2024, no primeiro orçamento elaborado pelo novo governo, os servidores foram presenteados com reajuste zero e, para as universidades e institutos federais, com um corte de mais de R$ 300 milhões nas verbas de custeio. 

A expectativa em Lula começou a virar decepção e revolta. Foi esse sentimento de traição que alimentou a mobilização dos técnicos-administrativos das universidades e institutos federais e que depois contagiou os docentes e levou o movimento à greve nacional. 

Nesse momento, esse mesmo sentimento impulsiona a greve da área ambiental, que foi judicializada por Lula, visando que a greve seja decretada ilegal, e a greve dos servidores do INSS, marcada para o dia 16.

Durante a greve, a indignação com Lula aumentou muito. Em primeiro lugar, pela postura intransigente do governo, que lutou todo o tempo para não fazer qualquer tipo de concessão ao movimento e, até o fim, manteve sua decisão de conceder zero de reajuste em 2024.

Em segundo lugar, o movimento foi marcado pela prática antissindical adotada na negociação, com ultimatos, manobras, tabelas erradas e a construção da farsa do acordo com a PROIFES-Federação, uma entidade fantasma, controlada pelo PT e pela CUT, que assinou um acordo contra a decisão das suas assembleias de base. 

Em terceiro lugar, a postura do governo foi caracterizada por suas declarações públicas, atacando a greve e dizendo que os servidores deveriam agradecer ao governo, ao invés de criticá-lo.  

“Tem dinheiro para banqueiro, mas não tem para Educação!”

A indignação com o governo cresceu também em função do cinismo de Lula, afirmando que estava fazendo tudo ao seu alcance pela Educação. Uma grande mentira, que ficou evidente para os grevistas. 

O governo se nega a conceder um reajuste salarial em 2024 e a recomposição das verbas dos institutos e universidades federais, que teriam um custo anual de menos de R$ 10 bilhões. Contudo, continua cedendo uma enorme fatia das verbas públicas ao agronegócio, às grandes indústrias e ao setor financeiro. 

Com aquilo que a União gasta em apenas dois dias com a dívida pública - R$ 10,5 bilhões -, seria possível garantir mais de 7% para recomposição salarial, em 2024, e os R$ 4 bilhões que pedem os reitores para as verbas de custeio das universidades e institutos federais. 

Com 2% dos R$ 519 bilhões concedidos em isenções fiscais aos grandes empresários, somente em 2023, seria possível quase triplicar a proposta de reajuste salarial fechada com o governo, que custará R$ R$ 6,2 bilhões, em dois anos. 

É preciso também lembrar do papel das direções pelegas dos sindicatos, nas quais Lula se apoiou para tentar derrotar o movimento.

Para impor sua proposta salarial, Lula se apoiou nas direções governistas das entidades sindicais - PT, PSOL, PCdoB, PCB e UP -, que buscaram impedir e, depois, controlar a greve, para não afetar a popularidade do governo. 

A primeira traição foi abandonar a campanha salarial unificada e semear ilusões nas mesas específicas, que têm se mostrado desastrosas. Com essa postura, as entidades de servidores federais dividiram o movimento e isolaram a greve da Educação Federal. Entidades importantes, como a Confederação dos Trabalhadores Serviço Público Federal (Condsef), sequer entraram na greve. 

A segunda traição foi tentar impedir a greve na Educação Federal, mas, nesse caso, foram atropelados pela base. Durante a greve, passaram semanas preparando o desmonte da paralisação e não se cansaram em repetir argumentos para defender o governo: “A greve não pode se prolongar, para não fortalecer o fascismo”, “Lula, assuma as negociações”, etc. 

Foram inúmeras manobras, práticas burocráticas e antidemocráticas nos comandos de greve nacional e locais, para tentar impedir que a vontade das bases prevalecesse na condução da greve. Mesmo assim, o movimento conseguiu impor ações radicalizadas e mobilizações nacionais. 

A greve deixou algumas lições importantes. Está claro que Lula não vai resolver os problemas da Educação pública. Seu compromisso é governar com e para os grandes empresários, lhes garantindo todo tipo de privilégio fiscal e grandes fatias do orçamento. Contudo, não é possível governar para a burguesia e para os trabalhadores ao mesmo tempo.

Para garantir os investimentos nas universidades e institutos federais, a valorização salarial e o fim do processo de privatização, é preciso derrotar o Arcabouço Fiscal de Lula. E isso só será possível construindo um poderoso processo de mobilização, que envolva não apenas o setor da Educação, mas todos os setores da nossa classe.

Para isso, é necessário construir uma nova direção para as entidades sindicais. Uma direção sindical que se paute pela independência de classe e assegure a democracia operária como método de condução do movimento. Que organize e impulsione a luta da classe trabalhadora por suas demandas e, consequentemente, para enfrentar e derrotar o governo.

Isso não implica descuidar da luta contra a ultradireita, que segue como uma ameaça concreta contra a classe trabalhadora. Mas, é falacioso o argumento de que combater Lula ajuda a ultradireita, pois Lula não a está combatendo. 

Pelo contrário, quando aplica as diretrizes do Arcabouço Fiscal, atua para derrotar e desmoralizar as lutas dos trabalhadores; quando passa a mão na cabeça dos chefes da tentativa de golpe do ano passado, está justamente pavimentando o caminho para a volta desse setor ao poder.

Nosso desafio é a construção de uma forte oposição pela esquerda ao governo Lula, sem descuidar do combate à ultradireita. Uma oposição que se apoie na organização e na mobilização da nossa classe, em defesa das demandas do povo trabalhador e dos interesses do país, e que tenha como perspectiva colocar os trabalhadores e trabalhadoras para governar o Brasil, através das suas organizações e de conselhos populares.

Só assim abriremos caminho para a superação do capitalismo, um sistema em que a riqueza está a serviço do lucro e do enriquecimento de poucos. Assim, poderemos dar curso à construção do socialismo, garantindo não apenas uma educação pública, de qualidade e a serviço do desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do país, como também uma vida digna e humana para todos e a todas. (Eduardo Zanata, do jornal Opinião Socialista)

segunda-feira, 13 de maio de 2024

A INDIGNAÇÃO DO MINISTRO PETISTA É JUSTIFICADA, MAS FOI SEU PARTIDO QUEM DEIXOU O OVO DA SERPENTE CRESCER TANTO

Abaixo reproduzo trechos de um desabafo do ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Paulo Pimenta, contra a infestação de fake news. Ele tem a minha total solidariedade. 

Vale lembrarmos, contudo, que a postura do partido do Pimenta era bem diferente em 2007, quando nós, da esquerda que era e continua sendo revolucionária, enfrentávamos o mesmíssimo problema. 

Se os petistas houvessem então somado forças conosco contra as viúvas da ditadura e os novos fascistas que estavam formando, provavelmente o ovo da serpente nem sequer teria eclodido e infernizado a tal ponto o cotidiano dos brasileiros. 

Pimenta soaria muito mais verdadeiro agora se sua catilinária viesse acompanhada por uma sincera autocrítica, pois a eternidade que tal ficha demorou a cair para o PT se mede, inclusive, pelo número de mortes evitáveis mas não evitadas durante a recente pandemia: uns 400 mil brasileiros dizimados como consequência da sabotagem vacinal  (por Celso Lungaretti)
"CONFESSO QUE PERDI A
 CABEÇA COM MENTIROSOS"  
"
Na madrugada em que se completaram dez dias do maior desastre meteorológico da história do meu estado natal, fiquei acordado respondendo diversas mensagens de preocupação. 

Dezenas de pessoas me enviavam em seus celulares um vídeo onde supostamente eu era linchado à noite em uma visita a um abrigo. Amigos, companheiros, familiares me perguntavam se eu estava bem, se precisava de ajuda. 

O vídeo é mais um episódio de uma estratégia organizada de desinformação que acontece no Rio Grande do Sul. As imagens são de uma assembleia sindical no Ceará, onde alguém (que não sou eu) é alvo de violência, porém as mensagens não apenas davam a entender que o vídeo era atual e me envolviam, como diziam que eu estava tendo a recepção que merecia. 

Mentir não é novidade, a mentira não nasceu com o WhatsApp, mas é nas redes sociais que surge o fenômeno de produção de mentiras em escala industrial, com ações coordenadas e métodos para desinformar.

É difícil de entender que em um momento de tamanha fragilidade, pessoas se escondam em suas telas produzindo conteúdos que sabem ser mentirosos para que tenham algum tipo de ganho político ou econômico. 

Por isso me indigno. Por isso, falei que deviam prender quem tem propositalmente produzido essas mentiras de forma estratégica para desinformar as pessoas, por isso oficiei a Advocacia Geral da União e a Polícia Federal para que investiguem essas pessoas como criminosos.
" (ministro Paulo Pimenta, da Secom)
Observações  antes tarde do que nunca, o PT não só denuncia o uso desembestado da mentira por parte da extrema-direita para desqualificar seus adversários políticos, como pede que tal prática seja investigada e punida com prisão dos responsáveis.  

Eu concordo, até porque já defendia a adoção de tais medidas... em 2007! (vide  aqui, p. ex., uma denúncia que então fiz e o tiroteio cerrado que provocou nos comentários). 

Se a força majoritária da nossa esquerda tivesse também erguido tal bandeira quando nós, os sobreviventes da luta armada, sofríamos idêntica campanha de satanização virtual (um balão de ensaio para a atual produção de mentiras de forma estratégica a que se refere Pimenta), talvez o infame palhaço assassino nem sequer tivesse sido eleito na mais mentirosa e manipulada eleição brasileira de todos os tempos, a de 2018. 

Contudo, o inimigo de classe naquele tempo era subestimado pelos petistas, que se mostravam muito mais hostis a nós do que aos ultradireitistas, praticamente os ignorando, como se fossem malucos sem real importância. 

Deu no que está dando. (CL)

domingo, 28 de abril de 2024

O FIASCO DA ESQUERDA INSTITUCIONAL NO CONTEXTO DE GUERRA E DEPRESSÃO

 


N
ão me apraz constatar que a esquerda de há muito se conformou com um infrutífero papel de diluição do seu conteúdo revolucionário, anticapitalista, para se adaptar à forma de relação social própria ao sistema produtor de mercadorias, na vã tentativa de humanizá-lo. 

O mais grave é que isso ocorre no exato momento da sua desintegração total, evidenciada pelo pipocar das guerras e movimentos migratórios sem precedentes na história mundial, em face da inviabilidade estrutural dos conceitos de forma e conteúdo desse mesmo sistema. 

Assim, essa esquerda acaba por concordar implicitamente com a tese equivocada de que o capitalismo pode se adaptar às mutações sociais próprias ao movimento dialético da história tornando-se eterno.  

Dessa forma, no Brasil a esquerda institucional oPTou pela socialdemocracia e está definhando juntamente com a sua escolha de administração e participação política: a ordem econômica-institucional capitalista.  

Essa é a razão básica do crescimento da direita, que sem oposição consistente e duradoura, tenta fazer vingar os seus postulados retrógrados que encontram eco numa sociedade desesperada, desinformada e inconsciente de si mesma.  

Por aqui, há quase onze anos, em 2013, na cidade de São Paulo, Meca do capitalismo da América do sul, houve uma explosão de insatisfação popular por conta de um gatilho de tal estado de ânimo: um mero aumento de passagens. Um gatilho que gerou turbulências que perduram até hoje.   

Diante da ausência de comando de organismos sindicais e partidos da esquerda, que preferiram condenar o movimento, como ficou clara na posição da presidenta Dilma Rousseff, a direita “deitou e rolou” com seu discurso neofascista, recebendo apoio de uma classe média que, embandeirada de verde-amarelo, estimulou o impeachment que veio já em 31 de agosto de 2016, tendo o ex-petista Hélio Bicudo como signatário e sendo aceito pelo abominável presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e referendado pelo legislativo. 

Tudo ocorreu num prazo de pouco mais de três anos e foi o estopim da ascensão ao poder político federal de um deputado federal do baixo clero, de baixíssima capacitação moral e competência para o exercício do cargo: Bolsonaro, o ignaro.   

Resultado: fomos os campeões em porcentagem de mortes por uma epidemia sanitária - cerca de 10% do total das mortes calculadas em 7 milhões, quando temos apenas 3% da população mundial-, em face da demora do uso de vacinas e da incitação governamental à normalização e manutenção das atividades sociais - comércio, produção de mercadorias, serviços, escolas, etc. -, para ficarmos apenas nesse dado irrefutável de comportamento irresponsável e genocida.  

A ordem capitalista, na sua percepção do desastre sistêmico iminente que paira sobre sua cabeça, encontrou sobradas razões para anular um processo judicial parcial e midiático - não esqueçamos que a mesma rede Globo que hoje condena a lava jato, é aquela que tinha o privilégio de transmitir ao vivo e à cores as espetaculares prisões e arbitrariedades -, e trouxe ao processo eleitoral aquele que poderia vencer o tresloucado presidente candidato à reeleição, que deixara de servir aos interesses dos donos do PIB por sua idiossincrasia.  

Tal qual Tancredo Neves no passado, que sempre serviu de válvula de escape à direita para os momentos de tensões políticas e de ameaças à ordem institucional capitalista, trouxeram de volta o conhecido e moderno conciliador socialdemocrata que, para muitos trabalhadores desempregados, mal-empregados e pequenos comerciantes representava a lembrança de tempos mais venturosos: Luiz Inácio Lula da Silva. 

O personagem perfeito para cumprir o papel de administrador da crise de depressão capitalista mundial sob o manto da esmaecida estrela vermelha do socialismo mundial cooptado.  

Ufa!! Retiramos o bode da sala!! 

Mas, passado ano e meio do alívio, eis que temos que encarar a realidade. Há dez anos temos um PIB pífio e que se anuncia como ainda menor para este ano do que foi no ano passado, isso após 10 anos de paralisia econômica.   

Mas não devemos acreditar no senso de justiça das três principais instituições da democracia burguesa - parlamento, judiciário e força militar - a serviço dos donos do PIB daqui e do mundo, que agem de acordo com a direção dos ventos tal qual as birutas dos aeroportos.  

Temos problemas estruturais que já não encontram paliativos nas conhecidas medidas políticas e econômicas tradicionais que se expressam: 

- nos renitentes altos níveis de desemprego;  

- nos baixos salários médios que fazem os sindicatos se silenciarem por medo de demissões em massa e se enfraquecem por não apresentares soluções consistentes para seus associados;  

- na ameaça de retomada da inflação, que representa confisco de salários já defasados;  

- no aumento da criminalidade e poderio do crime organizado;  

- na contradição do discurso de preservação ambiental em contraponto à ênfase na produção e distribuição de petróleo;   

- na necessidade governamental de obediência às exigências ditatoriais de mercado que se contrapõem às justas necessidades do povo, sob pena de êxodo de investimentos; 

- na frustração pela sempre postergada retomada do desenvolvimento econômico num mundo em depressão, que promoveria relativo bem estar social; 

- nas taxas de juros altas e que incidem sobre uma dívida pública crescente e que penaliza o povo brasileiro (cada buchudinho da favela  paga R$ 3.600 de juros ao sistema bancário e rentistas do mundo todo), e que se diferencia dos juros pagos pelos membros do G7, demonstrando quão extorsivo é o sistema bancário mundial;   

- e tantas outras contradições que se explicitam no fato de não se poder (e nem se querer) negar aquilo a que se serve e do que se serve, ou seja, no fato da esquerda pretensamente anticapitalista receber benesses, sob as mais variadas formas, para administrar e assumir a falência sistêmica capitalista. 

Mas, para desespero dos conformistas, há um clima de guerra mundo afora.  

Tal clima de guerra deriva de uma crise estrutural do capitalismo que tenta manter pela força bélica o que já não pode ser contido pelas regras da política diplomática. A insatisfação no interior dos países gera uma ebulição por conta da pretensão de formação de novos blocos pretendentes a se tornarem economicamente e militarmente hegemônicos seguindo a natureza belicosa e competitiva própria ao sistema produtor de mercadorias.    

Enquanto isso, a esquerda perde sua referência revolucionária e se perde numa função estranha ao que é, ou deveria ser, seu ethos original para ocupar um espaço de coadjuvante na administração política do capitalismo decadente.  

Assim, a esquerda institucional abdica do protagonismo na cena mundial que está a merecer uma intervenção propositiva diferente, emancipatória, salvadora, igualando-se ao papel que os atores capitalistas estão a encenar. 

O povo, na sua crença ilusória e simplista da capacidade do poder político governamental de resolver os problemas que se agravam, vê-se diante da repetida frustração da ação governamental em cumprir tal desiderato, e manifesta o seu desencanto a cada ciclo eleitoral, e assim a vida segue com mudanças cosméticas que não alteram a substância do que lhe serve de base.  

Mas o espaço de manobra é cada vez mais reduzido no tempo e no espaço e essa é a razão pela qual o governo Lula perde prestígio, fato demonstrado pelas últimas pesquisas de opinião pública.   

A política, stricto sensu, na verdade é um poder sem soberania de vontade que foi moldado para servir ao capital e, portanto, não pode se voltar contra seu criador sob pena de deixar de ser o que é: uma esfera meramente serviçal de um senhor absolutista e ditatorial. 

À esquerda cabe se reinventar e confrontar essa realidade, por mais dura e difícil que seja, e para merecer a credibilidade duradoura perante a opinião pública.  

Isso somente poderá ser alcançado com a negação do poder político vertical imanente à ordem capitalista, ou seja, se se despir da roupagem com a qual se travestiu e que se constitui como contradição contida na afirmação concomitante daquilo que diz negar na sua ação político-social. (por Dalton Rosado)

 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

UMA ESQUERDA MORREU MAS NÃO SABE, OUTRA PRECISA NASCER MAS NÃO CONSEGUE

Comunidade primitiva, escravidão, feudalismo, cada etapa histórica pela qual a humanidade passou teve começo, meio e fim.

Agora está em curso a agonia do capitalismo, que não sobrevive sem contínua expansão, só que não tem mais para onde expandir-se, depois de vir por tanto tempo driblando com artifícios o fato de que cada vez se alarga mais o abismo entre os volumes sob ele produzidos e os indivíduos em condições de adquiri-los.

O desenvolvimento das forças produtivas que ele impulsionou em séculos passados seria suficiente para que cada habitante do planeta dispusesse do suficiente para uma existência gratificante e para que não esgotássemos estupidamente os requisitos imprescindíveis para a própria sobrevivência da humanidade.

Mas, como o Império Romano conseguiu esmagar a única força capaz de fazê-lo avançar para um estágio superior de civilização  (os gladiadores de Spartacus, que acenaram com a promessa de fim da escravidão, embora não sentissem-se suficientemente fortes para assumir bandeira tão ambiciosa e quisessem apenas escapar para serem livres longe dos romanos), o capitalismo já estagnou e está nos estertores, mas ainda consegue evitar a imprescindível ruptura.

Os ganhos obtidos pela humanidade com os desenvolvimentos científicos e com o barateamento da produção foram usurpados pelo capitalismo, que acumulou um monumental poder de fogo e, com isto mais a lavagem cerebral martelada dia e noite por sua indústria cultural, consegue não só perpetuar e fazer aumentar cada vez mais os riscos de extinção da espécie humana, como alavancar implacavelmente a desigualdade entre as classes em cada país e entre os países mais desenvolvidos e os países relegados à miséria, à fome, às pestes e às guerras insanas como as duas atuais.

O capitalismo conseguiu neutralizar inclusive a esquerda institucional, que por vários motivos já não consegue mais sobreviver fora do sistema, como nós, os contestadores da geração 68, tentamos e em parte então conseguimos durante um curto período. Hoje, os jovens de que desesperadamente necessitamos em nossas fileiras, não se dispõem mais a lutar em duas frentes, a militância anticapitalista e a batalha pela subsistência.

Então, os partidos que se rendem à institucionalidade burguesa, como o PT, levam a esmagadora vantagem de darem a seus quadros a possibilidade de  se dedicarem somente ou principalmente à militância.

[Falo do fundo eleitoral, da cota de assessores dos quais cada representante no Legislativo pode dispor às expensas dos contribuintes, das boquinhas na administração pública e nas estatais, dos salários exorbitantes que são pagos para militantes do partido no poder ao atuarem em entes na esfera de influência do dito cujo, na enxurrada de anúncios para as páginas virtuais de blogueiros mais dependentes que nunca do PT, etc., etc., etc.]
O centrão todo poderoso e a rainha da Inglaterra

È óbvio que a dependência financeira gera a dependência política. Tal esquerda
teúda e manteúda é obrigada a omitir-se vergonhosamente quando o PT passa como um trator sobre os valores fundamentais do marxismo e do anarquismo.

Quanto à esquerda que tenta sustentar-se na raça, sem vender sua alma ao donos do Brasil, ela fica eternamente relegada à insignificância, com efetivos e recursos insuficientes para virar o jogo mediante uma ação organizada de atração/conscientização de novos quadros, ou formação de territórios livres como a Colônia Cecília no final do século retrasado e em nossas comunas alternativas de 1968, muito menos para expropriar o inimigo (como fazíamos em 1969/1972).

O que resta é a alternância infinita de governos da esquerda domesticada e governos da direita selvagem, como está se vendo no Brasil e na Argentina, sem que consigamos quebrar essa polarização que faz a História travar e tudo piorar cada vez mais.

Por enquanto, a esperança que restou são novas explosões de indignação como a do Brasil em 2013 e a de diversos países (com destaque para o Chile) em 2019, pois se todas as portas da razão estão fechadas, pelo menos o espontaneísmo é impossível de represar infinitamente: sempre acaba chegando a gota d'água que extravasa o copo da cidadania manietada.

Mas, até para isto, precisamos formar os mínimos quadros de uma nova vanguarda, caso contrário as ondas de revolta, com líderes como a pobre Sininho, passarão sem que consigamos cravar a estaca no coração do vampiro. 

Vale lembrar: numa dessas
janelas históricas, o Partido Bolchevique, que seria quase insignificante em tempos normais, conseguiu em 1917 tomar o poder como quem tira o doce da boca de uma criança, simplesmente porque era a única força disciplinada e consciente dos seus meios e dos seus fins durante aquele pandemônio.

E é para a formação dessa nova vanguarda, que resgate a combatividade esquerdista evaporada durante a hegemonia do PT, que eu venho lutando ao longo do presente século. Trata-se do último legado que quero deixar, depois de dedicar a minha vida à revolução desde a virada de 1967 para 1968, quando tracei meu caminho na vida.

E uma bandeira a ser erguida imediatamente, para a acumulação de forças, é a adequada punição do indiscutível responsável pela morte evitável de centenas de milhares de vulneráveis durante a recente pandemia de covid. 

Salta aos olhos e clama aos céus que Lula, depois de tudo haver feito para que os torturadores da ditadura militar não fossem punidos, age agora de forma muito semelhante, tendo inclusive demorado uma eternidade para indicar o novo procurador geral da República e, depois, escolhido um candidato que inspira mais dúvidas do que certezas.

É óbvio que o encarceramento do genocida causaria comoção, e gente indo às ruas defender seus ideais assusta a esquerda que se desvirtuou e hoje pouco mais é do que uma força auxiliar da burguesia. A ela convém a pasmaceira, que lhe permite continuar se satisfazendo com as migalhas que caem da mesa da burguesia. Mas nós queremos muito mais: que finalmente se banqueteiem os que fazem o PIB crescer mas sempre veem, impotentes, uma minoria usurpar a parte do leão. 

Depois de todos os crimes cometidos pelo genocida no quadriênio infernal de 2019/2022, se ele escapar das grades será como se um Hitler, caso sobrevivesse à derrota nazista, tivesse sido deixado livre e solto para continuar praticando e pregando sua necropolítica abominável.

Cada derrota consentida fortalece o inimigo e debilita nossa moral. É fundamental cessarmos o quanto antes tal hemorragia. Se quisermos resgatar a esquerda autêntica do fundo do poço, o primeiro passo é termos a coragem de agir como nossos corações e mentes mandam, ao invés de permitirmos que se passe pano naquelas imagens dantescas de seres humanos morrendo sufocados por falta de respiradores. 

Temos de projetar para os brasileiros a imagem de uma esquerda que está de novo disposta à luta. Aquela que se deixou expulsar pusilanimemente  da avenida Paulista e depois ficou assistindo de longe enquanto secundaristas e torcedores de futebol travavam suas batalhas no seu lugar não nos serve mais para nada. Seu prazo de validade está definitivamente vencido.

Já passou da hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a construir uma esquerda de verdade. (por Celso Lungaretti)
"Inventando o necessário movimento pra não estar morto. Xaxando,
sambando, frevando ou sem saber dançar direito: renascer das cinzas!"
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