Mostrando postagens com marcador Forças Armadas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Forças Armadas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

NÃO SE DEVE FAZER NEGÓCIOS COM ISRAEL. DEVE-SE LUTAR POR SUA DESTRUIÇÃO!

 

O ministro da defesa, José Múcio, é o maior exemplo da pusilanimidade do Lula: tendo feito vista grossa para os acampamentos bolsonaristas em frente aos quartéis, fez de tudo para proteger os militares durante a tentativa patética de insurreição do 8 de janeiro de 2023. Mesmo assim, foi mantido no cargo pelo presidente e hoje age abertamente em prol dos interesses mais reacionários e escusos do Brasil. 

Agora, resolveu fazer lobby aberto pelo estado terrorista de Israel dizendo que a compra de armamentos daquele país pelo Brasil foi barrada por questões ideológicas. Segundo ele, a concorrência para adquirir tanques e maquinários de guerra foi ganha pelos judeus, mas acabou travada por questões ideológicas. Além de reproduzir o blablabla de identificar o regime sionista com os judeus - Israel é um estado político que usa de uma religião para se legitimar -, ainda reduz o genocídio contra os palestinos a uma questão de ideologia! Não bastasse ser conivente com o extermínio operado por israelenses contra palestinos, e agora contra libaneses, ao não romper relações diplomáticas com Tel-Aviv, Lula aceita em seu governo um ministro que julga de menor importância a morte de milhares de pessoas! 

Não tenhamos dúvida, se Múcio vivesse no período do nazismo, também diria que possíveis ações contra a Alemanha de Hitler seriam ações meramente ideológicas. Para ele, o que importa é agradar aos milicos e garantir que eles tenham acesso a seus brinquedos de guerrear para poderem brincar de marcha soldado nos desfiles de sete de setembro. 

Não apenas a compra de tais equipamentos, com gasto superior a 1 bilhão de reais, é um acinte em um país com tantos problemas, como a compra ter sido feita de Israel é um absurdo ainda maior. Israel não é um estado legítimo, é um bunker colonial dos EUA e o único tratamento que deve receber é nosso profundo desprezo. Ao invés de negociar com Israel, a tarefa de todo ser humano digno é lutar por sua destruição. Não se trata de uma questão ideológica, se trata da luta contra o colonialismo e contra a limpeza étnica promovida há mais de sete décadas por europeus e estadunidenses no coração do Oriente Médio. (por David Coelho) 

domingo, 31 de março de 2024

60 ANOS DO GOLPE, A ESQUERDA PERDEU SEM LUTAR. REPETIREMOS A HISTÓRIA?

 

Dispenso-me de entrar nos detalhes sobre a inação generalizada. Nenhuma das lideranças operárias e nacionalistas mostrou audácia e iniciativa de luta. Todos ficaram à espera do comando do Presidente da República. Fracassaram não só os comunistas, mas também Brizola, Arraes, Julião e os generais nacionalistas. Jango não quis a luta, receoso de que a direção política lhe escapasse e se transferisse às correntes de esquerda. Colocou a ordem burguesa acima de sua condição política pessoal. Assim se deu a quarta e última queda da liderança populista. 

No dia 31 de março, a situação não era ainda favorável aos golpistas do ponto de vista estritamente militar. Teria sido possível paralisar o golpe se, ao menos, alguma ação viável de contra-ofensiva imediata fosse empreendida. Sabe-se que Lacerda só contava cm defesa muito precária no Palácio Guanabara. A tomada do Palácio pelos fuzileiros navais seria operação relativamente rápida e de enorme repercussão moral. O mesmo efeito de paralisia teria a dispersão dos recrutas, que desciam de Minas, por uma esquadrilha de aviões de bombardeio. A força-tarefa naval dos Estados Unidos, mobilizada no Caribe pela operação chamada Brother Sam, não alcançaria Santos antes do dia 11 de abril. Não trazia contingentes de desembarque e seu objetivo era o do efeito de demonstração e o de apoio aos insurretos com armas, munições e combustível, na previsão de guerra civil prolongada. Já envolvidos na escalada da guerra do Vietnã, não seria fácil aos Estados Unidos manter uma segunda frente no Brasil. Havia tempo para preparar condigna recepção de repúdio à força-tarefa norte-americana, tanto do ponto de vista militar como da mobilização das massas populares. 

Ao colocar suas fichas em Jango, a esquerda
apostou no cavalo errado e o fim foi trágico

Tornou-se corrente na literatura acadêmica a assertiva de que, no pré-64, inexistiu verdadeira ameaça à classe dominante brasileira e ao imperialismo. Os golpistas teriam usado a ameaça apenas aparente como pretexto a fim de implantar um governo forte e modernizador. 

A meu ver, trata-se de conclusão positivista superficial derivada de visão estática das coisas. Segundo penso, o período de 1960-1964 marca o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros neste século [20], até agora. O auge da luta de classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional da ordem burguesa do direito de propriedade e da força coercitiva do Estado. Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse. 

A hegemonia da liderança nacionalista burguesa, a falta de unidade entre as várias correntes, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os erros desastrosos acumulados, as ilusões reboquistas e as incontinências retóricas - tudo isso em conjunto explica o fracasso da esquerda. Houve a possibilidade de vencer, mas foi perdida. 

Gorender
Mais grave é que foi perdida de maneira desmoralizante. Com a definição incontestável no dia 1º de abril, já no dia 3 a operação Brother Sam era desativada no Caribe. Os generais triunfantes proclamaram que o Ocidente ganhou no Brasil formidável vitória a baixíssimo custo. (Jacob Gorender, historiador e antigo membro do PCB)

A passagem acima consta do livro "Combate nas Trevas", escrita por Jacob Gorender e publicado em 1987, logo após o fim da ditadura, portanto. Trouxe a citação para lembrar de duas coisas que pouco se abordam quando se fala no golpe militar de 1964: as contradições de João Goulart e o equívoco da esquerda. 

Na realidade, as duas coisas estão juntas, pois o equívoco da esquerda, particularmente do PCB, a levou a colocar suas fichas em João Goulart, praticamente o transformando na liderança principal dos movimentos populares que pipocavam país afora à época. Jango, contudo, não tinha nenhum plano de levar adiante uma revolução, antes buscava consolidar seu poder pessoal, tendo passado praticamente todo o triênio 1961-64 tentando o apoio de forças conservadoras e balançando ora à esquerda, ora à direita, se decidindo por um aceno maior à esquerda apenas quando as portas à direita foram decisivamente fechadas. 

A crença da esquerda na institucionalidade, personalizada no presidente, fez com que ela fosse pega de surpresa quando os golpistas se colocaram em marcha. Mesmo com um poderio reduzido, o golpe pode avançar triunfante pois não houve resistência digna desse nome e o presidente preferiu a capitulação, soltando sua patética frase de que "não desejava uma guerra civil no Brasil". 

Os golpistas poderiam ter sido derrotados,
mas faltou organização para resistir

Na verdade, os acontecimentos do pré-64 e do golpe revelam não apenas o comportamento da esquerda brasileira no período, mas também uma constante em sua história: a acomodação com forças conservadoras visando soluções institucionais para as crises. Sempre quando as classes trabalhadoras avançam no possível caminho da ruptura, a esquerda entra em cena para restabelecer o velho pacto de conciliação.

Os resultados são as soluções conservadoras para as crises brasileiras, como exemplificado no processo do fim da ditadura, com as massivas greves, e os levantes de Junho de 2013. Na primeira, as mobilizações dos trabalhadores terminaram na farsesca Diretas Já, na eleição indireta e finalmente na Constituinte, dando a luz a uma democracia capenga e limitada. Junho de 2013, por sua vez, foi equacionada no Impeachment e na eleição de Lula 3 em aliança com as forças do atraso. 

O futuro vai repetir o passado?
A única exceção ao comportamento da esquerda parecem ter sido as guerrilhas que não aceitaram qualquer tipo de atitude conciliatória e colocaram o caminho revolucionário de forma inequívoca. Tragicamente, ficaram isoladas do conjunto da população no contexto do milagre econômico, induzido pela ditadura justamente para enfraquecer as oposições ao regime. 

Hoje assistimos de novo a esquerda acreditar nos dispositivos institucionais, na fé legalista das Forças Armadas e no presidente da república, enquanto Lula vai ampliando seu pacto conservador, fortalecendo as forças direitistas e esvaziando a esquerda. Tomara que dessa vez os erros não tenham o mesmo final trágico. (por David Emanuel Coelho) 




quarta-feira, 3 de maio de 2023

PEGARAM A FRAUDE BOLSONARISTA DO CARTÃO DE VACINA. HORA DE PRESSIONAR PELA PRISÃO DO BOZO!

 


Ao que parece, podemos estar assistindo ao início da prisão de Jair Bolsonaro. Por óbvio, o Brasil é a terra onde pingo d'água tem nós, então a cautela é absolutamente necessária, mas o circo do Bozo está claramente desmoronando. 

Não poderia ser mais simbólico o motivo da tempestade a se abater sobre o ex-presidente fujão. Tudo começou com seu ímpeto assassino de matar o máximo possível de brasileiros durante a Pandemia de Covid-19. Brandindo o puríssimo chorume anarcocapitalista, defendia o direito do brasileiro de adoecer e ir a óbito em nome da liberdade do capital. Para dar o exemplo, nunca se vacinou, apregoando aos quatro ventos sua decisão. 

Contudo, muitos não acreditaram totalmente na história e passaram a cobrar que ele apresentasse o cartão para efetivamente comprovar sua recusa à vacina. Pressionado, e para não aparecer frente aos seus apoiadores pelo que é, um covarde, Bolsonaro autorizou em vídeo o acesso a seu cartão de vacina, dizendo:

"Não existe nenhum decreto meu decretando nada no tocante a sigilo. Nada. Zero. O que tem é uma lei de 2011, que eu sou obrigado a cumprir leis, que os assuntos de natureza particular eu não preciso ceder à lei de acesso à informação. [...] Da minha parte não tem problema nenhum alguém pegar o meu cartão de vacina e mostrar por aí. O que tem de pessoal até hoje, que a imprensa pediu e eu neguei, pelo que eu me lembre, cartão de vacina. Da minha parte aí, já falei para a assessoria, quem quiser o meu cartão de vacina, pode olhar. De certo, pessoal, eu entendo como a lei permite não mostrar. Se ela permite, eu posso mostrar, não tem problema nenhum"

De fato, a lei citada por ele,  a 12527, conhecida como Lei de Acesso à Informação, impõe o sigilo de cem anos a informações de cunho pessoal. Ocorre que tal lei também autoriza a divulgação dessas, caso expressamente autorizado pelo interessado, fato feito por Bozo no citado vídeo. Ora, se ele anuiu à divulgação desde que autorizado pela lei, e essa autoriza, não haveria mais argumento para manter o sigilo. 

Com base nessa premissa, alguns indivíduos - entre eles este escrevente - entraram com pedido junto ao Ministério da Saúde para o esclarecimento, afinal, se Jair Bolsonaro havia ou não tomado vacina contra a Covid e, em caso positivo, que fossem revelados local, data, fabricante e lote do imunizante utilizado. 

O Ministério negou o acesso em todas as instâncias e, apenas após recurso à CGU - Controladoria Geral da União - é que o sigilo enfim foi derrubado. Mas aí veio o grande mistério: constava, de fato, uma vacinação de Jair Messias Bolsonaro nos bancos de dados do Ministério da Saúde, mas tal dado fora excluído misteriosamente. A CGU iniciou investigação para apurar o fato, a Polícia Federal entrou também e o resultado vemos hoje. 

Ao que tudo indica, o ex-presidente fujão teria incumbido seu ex-assessor, o Tenente-Coronel Mauro Cid, a arquitetar um plano criminoso para inserir fraudulentamente seus dados e de seus familiares, além dos do próprio coronel e de seus familiares, no sistema do Ministério da Saúde, forjando, assim, um Certificado de Vacinação. Para isso, teriam utilizado vários funcionários da prefeitura de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Após a inserção e tendo obtido o certificado, teriam apagado os dados alegando lançamento equivocado. 

Qual finalidade teria Bolsonaro nessa ação? Ainda é incerto, mas especula-se que seria para garantir acesso aos EUA, possivelmente visando uma estadia mais longa, após o fim do período garantido pela condição de chefe de Estado. Já na época de Trump, o acesso ao país passou a ser possível apenas com certificado de vacinação, excetuando-se as autoridades, mas, não tendo sido reeleito, em algum momento o fujão teria de apresentar o documento para garantir sua permanência, caso contrário seria convidado a deixar a terra do Tio Sam. 

Fato é que os crimes são graves. Fraude processual, falsificação, associação criminosa e até corrupção de menores, pois a família Bozo falsificou o cartão da filha, mas não teve a responsabilidade de vacina-la. Fraudar o sistema do Ministério da Saúde é grave até pelas repercussões internacionais, pois é ele o responsável por atestar uma série de vacinas exigidas por outros países em seus processos de imigração. E se os países passarem a considerar o sistema brasileiro sem confiança, o que acontecerá? Em termos mínimos, mais burocracia e discriminação ao viajante; em máximos, podem chegar mesmo a negar o acesso aos brasileiros. Além de outros fatores importantes ligados à saúde de milhões de pessoas que podem ver remédios, exames, laudos, diagnósticos, etc., tudo corrompido pela ação de alguém inescrupuloso. 

Portanto, é mais uma ação de Bolsonaro contra a saúde pública brasileira, mas dessa vez, os rastros são evidentes e as digitais estão por todo lado. (por David Emanuel Coelho)
  



sábado, 1 de abril de 2023

O GOLPE DE 1 DE ABRIL DE 1964 FOI UMA SUCESSÃO DE FARSAS

 


O Golpe Militar de 1964 foi uma sucessão de farsas. Já começou farsescamente falsificando a data de sua eclosão, pois os golpistas, não querendo ser vítimas de troças associando seu movimento ao dia 1 de abril - dia da mentira - resolveram inventar nova data, 31 de março. 

Não pararam aí, contudo, as farsas, pois o golpe também se autointitulou Revolução, quando, na realidade, foi mera usurpação reacionária do poder, não tendo revolucionado nada além das contas bancárias de quem dele participou. Sim, porque, conforme já provado, o golpe foi feito à base de muitos dólares, os quais eram enviados em centenas de malas pelo Tio Sam para convencer os patrióticos oficiais brasileiros. 

Outra farsa foi terem usurpado o poder em nome da Democracia, apenas para impor ao país a mais brutal ditadura de sua história, com torturas, assassinatos, estupros, desaparecimentos, além de eleições suprimidas ou simplesmente negadas. Nunca antes - nem no período colonial, no Império ou mesmo no Estado Novo - a repressão foi tão bestial e a sociedade civil foi tão tolhida de participar dos rumos do país. 

Uma quarta farsa foi seu falso milagre econômico, adubado à base do endividamento titânico do Estado brasileiro e cujo único objetivo era aliciar a classe média e as classes trabalhadoras, isolando os revolucionários mais radicais no momento mais agudo da luta armada. O milagre do falso profeta Delfim Netto miou tão logo o choque do petróleo fez os dólares sumirem do país. O falso milagreiro, contudo, é até hoje respeitado na Economia, provando de novo o quanto essa disciplina é ela mesma também uma farsa. 

Por fim, a maior farsa viria à luz do dia muitos anos depois do bestial regime ter passado de acontecimento histórico para tema de história. Foi o aparecimento de seu filhote mais bastardo, Jair Bolsonaro e sua gangue, os quais viriam apenas para continuar a matança de brasileiros e assegurar cômodas boquinhas para o oficialato. 

Por ter sido farsa do princípio até depois do fim, o Golpe de 1964 merece todo o opróbio existente e ainda a ser criado, incluindo nisto seus apoiadores, executores e defensores, do passado, do presente e do futuro. Mais que uma quartelada, mais que uma tomada ilegítima do poder, o golpe hoje completado 59 anos foi o responsável por liquidar as possibilidades do Brasil vir a ser um país minimante justo, dentro dos limites capitalistas, deixando o legado de um país onde se morre e se mata por dois reais, às vezes até por menos. (por David Emanuel Coelho) 



quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

O ÓDIO DE BOLSONARO AOS IANOMÂMIS NÃO É DE HOJE

 

bernardo mello franco

Bolsonaro se vingou dos ianomâmis

Jair Bolsonaro vivia seu primeiro ano em Brasília quando o governo Fernando Collor demarcou a terra ianomâmi. Três dias depois, o jovem deputado subiu à tribuna para protestar. “Essa área é a mais rica do país. Por que instituir uma reserva indígena lá?”, reclamou.

Em tom conspiratório, ele sustentou que os ianomâmis seriam uma ameaça à segurança nacional. Da noite para o dia, poderiam iniciar um movimento separatista. “A curto prazo, essa área poderá tornar-se independente, e a perderemos definitivamente”, fantasiou. Começava ali, em novembro de 1991, sua cruzada contra a maior terra indígena da Amazônia.

Bolsonaro tentou convencer o Supremo Tribunal Federal a derrubar a demarcação. Sem sucesso na Corte, apresentou um projeto para anular o ato no Congresso. “Amanhã se dirá aí que estamos massacrando os ianomâmis. Em nome dos direitos humanos, quem garante que tropas estrangeiras não vão ocupar a Amazônia?”, discursou, em 1992.

Conforme este livro prova, 
o ódio aos indígenas não está apenas
na cabeça vazia do Bozo...
Em meio ao palavrório, o deputado deixou escapar seu real objetivo: liberar a exploração predatória da floresta. “Como o homem perdeu o paraíso através de uma maçã, os brasileiros vão perder o paraíso que é esse atual território. Não através de uma maçã, é lógico, mas através do nióbio, da cassiterita, do diamante”, disse.

A Câmara arquivou a proposta, mas Bolsonaro insistiu em perseguir os ianomâmis. Ao longo de sete mandatos, ele testou diferentes argumentos para depreciar os indígenas. No governo Fernando Henrique, alegou que eles seriam fantoches de ONGs controladas pela Casa Branca.

Na era Lula, trocou de inimigo imaginário e passou a atacar a China. A potência asiática estaria interessada em colonizar grandes espaços vazios nos confins da Amazônia. “Vão lotar seus cargueiros e despejar esse excesso populacional”, delirou.

Em 1998, o deputado chamou o Exército de incompetente por não ter aniquilado os povos originários. “Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país”, disse.

O plano de extermínio não prosperou, mas o capitão nunca se deu por vencido. Eleito presidente, ele desmontou a Funai, incentivou o garimpo ilegal e deixou os indígenas morrerem de fome. Bolsonaro se vingou dos ianomâmis. (Bernardo Mello Franco)


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

REFORÇO DO PUNITIVISMO NÃO É O MELHOR CAMINHO PARA LIDAR COM A EXTREMA DIREITA

       

passa palavra 

O QUE NOS RESTA?

Os acontecimentos do dia 8 de janeiro de 2023 em Brasília são por demais graves. Qualquer tentativa de subestimar a situação só revela a debilidade do que resta de extrema-esquerda. 

É preciso ser claro: o que ocorreu foi uma bem-sucedida ação do eixo radical do fascismo brasileiro, apoiados pela evidente leniência das forças de segurança que protegiam o local.

 Entre os capitalistas, a situação parece ter sido bem percebida, não à toa houve declarações da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), dos grandes meios de comunicação e da mais ampla gama de dirigentes políticos de todo o mundo. Não há de parte destes gestores uma ilusão com o número de manifestantes menor do que os “cinco milhões” almejados nas convocações. A coesão na classe política parece ter se forjado para condenar com clareza essas ações, exigindo das forças repressivas que se atue contra os fascistas.

 A intervenção no Distrito Federal, passando para o Ministério da Justiça o comando da Segurança Pública, e o afastamento do governador por 90 dias — por ordem judicial — indicam que as respostas às mobilizações golpistas serão mais enérgicas que as até então tomadas. O fortalecimento do aparato repressivo tem, no momento, um amplo apoio social. O apoio da esquerda à escalada repressiva parece advir da própria incapacidade de atuar por si para impedir a disseminação do fascismo na sociedade.

 Mas há de se perguntar em que medida se pode confiar no exército e na polícia para evitar o avanço da fascização.

Uma das primeiras manifestações pedindo intervenção militar de que se tem notícia na última década ocorreu em março de 2014, reunindo algumas dezenas de pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro. O único político que compareceu a elas foi o então deputado Jair Messias Bolsonaro. 

Logo após o segundo turno das eleições presidenciais daquele mesmo ano, em que Dilma Roussef venceria Aécio Neves, uma outra manifestação é convocada pedindo o afastamento da petista e acaba dividida entre os que queriam o impeachment e os que pretendiam uma intervenção militar. Ao longo de todo o ano de 2015 as manifestações contra o governo se repetem, reunindo cada vez mais gente, mas com a mesma divisão entre os que queriam o impeachment, que eram maioria, e os que pediam intervenção militar, que, embora minoritários, iam se tornando mais numerosos a cada manifestação.

 Revelou-se também uma divisão de estratégias nessa época: enquanto os grupos mais “institucionais” marcavam manifestações espaçadas e apostavam nelas como instrumento de pressão para ganhar apoio político e institucional para o impeachment, os grupos mais radicais apostavam em fazer mais manifestações.

 Já à época começaram os primeiros acampamentos. O local escolhido era em frente à FIESP, com a presença de vários militantes pró-intervenção e com o patrocínio da Federação das Indústrias, que fornecia o café da manhã, o almoço e o jantar dos acampados. Um pequeno grupo que estava acampado em Brasília chegou inclusive a levar um boneco inflável para homenagear um general do Exército que havia sido demitido após criticar o governo em uma palestra para oficiais da reserva e convocá-los para o despertar de uma luta patriótica — tratava-se do general Hamilton Mourão.

 

Em novembro de 2016 — já durante o governo de Michel Temer — um grupo de cerca de 50 manifestantes invadiu o plenário do Congresso Nacional pedindo intervenção militar e exaltando o então juiz da Operação Lava Jato, Sérgio Moro. Um observador atento notará que as imagens aí produzidas são em muito similares às da recente invasão aos prédios da Praça dos Três Poderes. Entre os manifestantes havia comerciantes falidos, seguranças, militares da reserva, policiais e donas de casa que recebiam pensão militar. Um deles declarou: 

“Invadimos para mostrar que aqui é a casa do povo. Os nossos representantes têm de temer. A lógica é muito simples, quando o povo teme o Governo é tirania. Quando o Governo teme o povo é que se tem liberdade. No Brasil, chegamos no ponto que não dá mais. Não é invadir escola. Isso é coisa de covarde, de bunda mole. Tem de invadir as Assembleias, o Congresso”

 O discurso explicitava uma apropriação das táticas de esquerda, de ocupação, e propunha uma radicalização estética das mesmas, envolta já no mito fascista de coragem para substituição das velhas elites.

 O movimento pró-intervenção militar é anterior ao bolsonarismo. O bolsonarismo, o lava-jatismo e todas as manifestações de direita de 2013 para cá serviram como incubadoras que permitiram a esse movimento crescer e se desenvolver a ponto de sair da sua condição marginal até se tornar o maior movimento social brasileiro na atualidade. Não nos parece surpreendente que apesar da manutenção de certo culto ao líder, esse movimento ganhe autonomia perante Bolsonaro e sua família, o que explica os fechamentos de vias promovidos no dia 9 de janeiro, mesmo após a condenação explícita feita por Jair.

 As ações dos últimos dias parecem ser a atuação de uma ala anti-institucional do bolsonarismo, pouco preocupada com disputas eleitorais, que deverá se manter ativa no próximo período, buscando cada vez mais a adesão das forças militares e policiais. Adesão esta facilitada pela ampla proximidade construída ao longo dos quatro anos de governo Bolsonaro em clubes de tiro.

 Não é desprezível o caráter messiânico e religioso dos atos. Acompanhando as lives dos acampamentos, era possível notar as orações e os sermões de outros acampados enquanto Lula tomava posse. As imagens das desmobilizações viralizaram com manifestantes chorando copiosamente em histeria coletiva. São pessoas dispostas a arriscar suas vidas pela causa.

 Ainda que os movimentos do dia 8 não tenham conseguido a tomada em definitivo do Estado, nos parece precipitado dizer que tenham sido derrotados. Os acampamentos serviram ao longo dos últimos sessenta dias como locais de grande potencial de formação interna para o movimento, aumentando sua identidade própria, possibilitando que os acampados constituam novos laços de amizade e solidariedade entre si. 


Pouco antes da posse de Lula pareciam ter entrado em descenso, porém a desmobilização pode ter sido revertida a partir dos atos do dia 8, como indica a breve retomada do acampamento em Belo Horizonte em simultâneo aos acontecimentos de Brasília. Mesmo o desmonte e a prisão em massa do acampamento de Brasília não têm ainda um desfecho previsível: provocarão uma desmobilização ou agitarão as bases em solidariedade?

 A esquerda se mostra um tanto atônita.

 Um acompanhamento do posicionamento da esquerda nas diferentes redes sociais indica uma demanda punitivista pela repressão institucional. Não se trata aqui de pensar que não se deva combater o fascismo com uso da força, mas será que o emprego e fortalecimento dos aparatos repressivos é uma boa estratégia? Em quem estamos depositando a confiança para um processo de desradicalização dos meios policiais e militares? 

Embora o discurso de que isso abriria um precedente para a repressão aos esquerdistas não nos pareça exato, pois as táticas e estratégias de repressão sempre foram amplamente usadas e abusadas contra a esquerda e os trabalhadores, a aposta em utilizar a expertise adquirida pelo vice-presidente em reprimir manifestações quando era governador não nos parece uma saída à esquerda. As apostas petistas de fortalecimento do exército feitas ao longo dos 12 anos de mandato não mostram uma boa perspectiva de futuro, e ao mesmo tempo os discursos sobre ser necessário desbolsonarizar essas instituições têm encontrado pouco eco nas práticas adotadas.

 Enquanto isso, a intervenção decretada na segurança pública do Distrito Federal tem outra consequência menos analisada, a impossibilidade de alterar a Constituição. O prazo de 23 dias pode ser eficaz para desmobilizar a ação em uma unidade federativa específica, mas aponta um possível caminho aos golpistas: repetirem as ações em outros pontos da federação, gerando novas intervenções e à consequente paralisia do governo, levando a um desgaste tanto institucional, quanto popular.

 A convocação de manifestações feitas pelo conjunto de movimentos sociais, para além de ser feita após os atos fascistas ganharem força jamais vista, não encontram na opinião pública o mesmo apoio que as demandas por repressão. 

Em parte, parece vir da intuição de que esses atos servirão apenas para mostrar números, aglutinar as bases de alguns movimentos sociais, mas estão longe de demonstrar uma estrutura organizativa de combate ao fascismo. A capacidade organizativa dos sindicatos e do que resta dos movimentos sociais parece refletir uma desmobilização de suas bases. A tendência é que o grosso das manifestações seja composto por uma esquerda difusa e pouco organizada por locais de trabalho, moradia ou estudo.

 Os tempos que se avizinham apresentam desafios maiores do que aqueles com que a extrema-esquerda tem demonstrado capacidade de lidar. (por Passa Palavra)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

MILITARES NUNCA ESTIVERAM SUBMERSOS

Alguns podem ficar comovidos com a nota do presidente da Anvisa, Barra Torres, contra as insinuações de Bolsonaro a respeito da aprovação da vacina infantil pela Agência. 

Pode-se mesmo pensar estarem os militares tencionando sua relação com o presidente genocida, pois, na mesma semana, o chefe do Exército impôs normativa requisitando vacinação do corpo militar e proibindo a publicação de notícias falsas. 

Nada mais falso, contudo. Na realidade, esta leitura é fruto de uma apreciação superficial dos acontecimentos. 

De fato, conforme já defendi em outras oportunidades, o governo Bolsonaro é um projeto dos militares. Foi a forma encontrada pela alta cúpula das três forças, da ativa e da reserva, de retornar ao poder político, pois marginalizados desde o fim da ditadura.   
Quando se tratava de conseguir o
cargo, valia tudo para bajular o chefe
.


Por isso, eles se associaram carnalmente a Bolsonaro na matança perpetrada durante a Pandemia. Tendo à frente um general incompetente, e com o Ministério da Saúde coalhado de oficiais, os  militares conduziram o programa bolsonarista da morte. 

A própria Anvisa, do incensado Barra Torres, várias vezes se submeteu à vontade bolsonarista, seja ao não impor medidas mais duras de restrição, ou quando não condenou aberta e oficialmente o uso da cloroquina e outros elixires do presidente, ou até mesmo ensejando, na época do debate em torno das vacinas Coronavac e Sputinik, o máximo possível de atrasos para a aprovação das vacinas  chinesa e russa.

Para além da Covid, a Anvisa tem sido, sob o comando de Barra Torres, a terra dos sonhos para o latifúndio e sua festa de agrotóxicos, com liberações recordes de substâncias comprovadamente tóxicas e deletérias para a saúde humana e para o meio ambiente. 

E os chefes das três forças? Apenas agora se dignam a impor vacinação obrigatória às suas tropas. Isto quando na iniciativa privada já se pratica, há meses, a  demissão por justa causa dos negacionistas.   

Sempre lembraremos de Pazuello e sua frase
emblemática: "Um manda, outro obedece"


Lembremos que tampouco há notícia da demissão em massa de seus cargos dos mais de 7 mil militares ocupantes de cargos públicos no nível federal. Nenhum deles fez o sacrifício maior de abrir mão de gordos salários e vantagens em nome da honra.

Na verdade, os valentes de ocasião da caserna farejaram a situação atual e sabem que seu monstro de Frankenstein está morto. Não podem mais contar com Bolsonaro para manter as boquinhas atuais, pois a chance do presidente se reeleger vão ficando cada dia mais nulas. 

Mais do que isso: Bolsonaro tem tudo para não apenas não se reeleger, mas também como jogar na desgraça para sempre todos os seus apoiadores mais próximos. 

Neste cenário, a alternativa é seguir a dica número um dos marketeiros e reposicionar a marca. Convém então vestir a máscara de defensor da racionalidade e da honra.

Por isso, Barra Torres, após ter aceitado passear sem máscara com Bolsonaro em 2020, se sujeitado às humilhações em lives ao lado dele e ter engolido calado os ataques contra a Anvisa em 2021, em 2022 vira  o grande herói do serviço público. 

Outros heróis virão, na senda das pesquisas eleitorais. (por David Emanuel Coelho)  

quinta-feira, 22 de julho de 2021

ACIRRA-SE A LUTA PELA CARNIÇA ESTATAL

É dito que uma presa sangrando atrai mais facilmente a atenção dos predadores. Não raro, predadores diferentes acabam por brigar entre si pelo direito de desfrutar da presa enfraquecida. 

Bolsonaro é um presidente fraco. Sempre foi. Chegou ao poder no rastro da decadência do regime político brasileiro, abalado por uma profunda e crônica crise sócio-econômica, cujo ponto de inflexão é junho de 2013 e suas já célebres manifestações. 

Criação de parte das Forças Armadas e do grande capital, o presidente nunca teve por base um robusto movimento popular, partidos políticos ou entidades sociais. Sua base sempre foi o grande capital, os militares e alguns setores dispersos da classe média e trabalhadora.

Este contexto foi piorando, com o aprofundamento da crise sócio-econômica mediante o aprofundamento da pobreza, do desemprego generalizado, da destruição ambiental, etc. 

O que era péssimo, piorou por completo graças ao genocídio patrocinado pelo governo federal na pandemia de Covid-19.

O resultado é visto por todos: o governo derreteu. 

Hoje ele é sustentado no aviso prévio, com o impeachment sempre a assombrar a porta do Palácio. Para resolver isso, Bolsonaro entregou por completo sua alma ao chamado centrão, ou Quadrilhão, como seria melhor nomear. 

Este agrupamento é insaciável e está tentando sugar o máximo possível do governo, tomando cargos, verbas, propinas, tudo que é possível de ser conseguido por chantagistas quando sentem o desespero da vítima. 

Mas não é apenas o impeachment que atormenta Jair. Sobrevivendo ao juízo do Congresso, são baixas as chances de sobreviver ao juízo popular nas eleições de 2022. E, diante disso, já antecipa a justificativa para a derrota com uma suposta fraude.
Por causa disso, defende o voto impresso e alega não ser possível eleição apenas com urnas eletrônicas. É neste diapasão que o General de pijamas e atual ministro da defesa, Braga Neto, mandou ameaça direta ao presidente da Câmara, Arthur Lira, determinando a eleição por voto impresso ou eleição nenhuma. 

Na data atual, em números inexatos, existem por volta de seis mil militares pendurados nas tetas governamentais, tomando conta de tudo, desde a compra de clipes de papel até de vacinas. Todos esses cargos teriam de ser divididos ou desocupados para entrega à turma de Ciro Nogueira e cia. 

Ora, há aí um cabo de guerra impossível de ser vencido. O preço a se pagar pelo apoio tanto de militares, quanto do centrão é quantificado em cifrões e postos de emprego na administração pública.

Quem é mais forte, o canhão ou a gravata? Depende do momento. Hoje, diria que a gravata, mas a depender dos rumos da crise brasileira, o canhão pode assumir a frente, tornando pó a artimanha política. 

Fato é que Bolsonaro foi mais um a ser engolido pelo turbilhão do decadente capitalismo brasileiro. (por David Emanuel Coelho)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

SAFATLE: "A ÚNICA SAÍDA É O IMPEACHMENT, QUE SE CONQUISTA ATRAVÉS DA OCUPAÇÃO DAS RUAS E DO BLOQUEIO DAS ATIVIDADES"

vladimir safatle
AS FORÇAS ARMADAS DO CAOS
Uma das maiores ilusões a respeito do Governo Bolsonaro é que ele seria composto por dois eixos em estado contínuo de antagonismo. 

De um lado, haveria o núcleo ideológico, com suas pautas de regressão social e isolamento internacional, enquanto no outro lado encontraríamos o núcleo militar. 

Se o primeiro seria impulsionado pela crença em ser o protagonista maior de uma revolução conservadora no Brasil, o segundo seria ainda pautado por certa perspectiva moderada e racional.

Na verdade, essa foi a melhor narrativa que as Forças Armadas poderiam encontrar para si mesmas. Isso lhes permitiu tomar de assalto o poder executivo, colocando milhares de seus membros da ativa e da reserva dentro da estrutura do poder, sem ter que assumir o ônus de agente fundamental do caos. 

Jogando a carta do corpo técnico que assume o Estado corrompido, procurando defende-lo de ideólogos que viriam de todos os lados, as Forças Armadas tentaram vender ao país a imagem de serem uma espécie de força de contenção indispensável e inevitável. 

Bastou uma pandemia com seus desafios reais para que toda essa história ruísse. Na verdade, o país viu, agora em escala catastrófica, a repetição do que sempre ocorre quando as Forças Armadas tomam a frente. 

O que está a ocorrer no Brasil atualmente é sim a implementação consequente do ideário que anima suas Forças Armadas. Pois, longe de serem uma parte da solução, elas são historicamente o eixo fundamental do problema.

Faz parte das tomadas de poder das Forças Armadas criar essa imagem de serem animadas por um conflito interno, como se estivéssemos a todo momento a lidar com uma instituição dividida entre o bom policial e o mau policial. 

Já na ditadura militar havia a pantomima do conflito entre o núcleo duro e os moderados. Foi isso que permitiu aos militares fazer um duplo papel, entre o Governo e a oposição ao Governo delas próprias. 

Se a ditadura brasileira conseguiu durar inacreditáveis 20 anos é porque tal pantomima fazia parte do modo normal de governo. Para fazer o Governo funcionar, era fundamental que os opositores encontrassem, nas próprias Forças Armadas, a esperança de uma contenção das Forças Armadas. 
Da mesma forma, agora estamos a ver o pretenso conflito entre o grupo ligado a Bolsonaro e os generais mais sensatos. 

Sensatez esta que não foi capaz de influenciar em uma ação sequer que pudesse tirar o país do caminho em direção às mais de 200 mil mortes, isto a despeito de todo o esforço estatal de desaparecimento de corpos.

Quem fizer uma pesquisa a respeito das propagandas louvando o ideal de desenvolvimento do regime militar encontrará essas campanhas narrando a vitória do homem (sim, eram sempre homens) sobre o inferno verde representado pela Amazônia. 

Vitória essa que se daria através da abertura de estradas como a Transamazônica ou de projeto absurdos e corruptos como o Projeto Jari. Fotos de grande troncos de árvores centenárias cortadas e empilhadas em caminhões ilustravam o canto do país que vencia suas fronteiras internas à base do fogo, do roubo, da posse e do desaparecimento dos corpos de ameríndios mortos. 

O que Bolsonaro fez foi simplesmente levar às últimas consequências o ideário que sempre moveu as Forças Armadas como ponta de lança da guerra do Brasil contra si mesmo. 

As chamas cuja fumaça chega agora até nossas grandes cidades não são fruto de um Nero tropical, mas a consequência lógica do espírito que suas Forças Armadas sempre representaram.

No entanto, essa guerra do Brasil contra si mesmo foi não apenas contra a natureza. Ela foi uma guerra contra sua própria população. A história das Forças Armadas brasileiras é a história de uma guerra interna, de uma guerra civil não declarada que vai de Canudos e Contestado até o uso do Exército como força de pacificação nas comunidades do Rio de Janeiro. 

Ela foi a história do uso da força e do extermínio contra movimentos populares de toda ordem desde o Império. Ela foi, ainda, a história perpetua da caça ao comunismo desde o aparecimento do primeiro líder popular da república brasileira, Luís Carlos Prestes: um militar que escolheu o lado das lutas populares e que antecipou as táticas que seriam usadas, de maneira vitoriosa, na grande marcha chinesa. 
Esse fantasma da
caça ao comunismo (comunismo é o nome que as Forças Armadas brasileiras usam para se referir à figura de um povo insurreto) se constitui na razão de existência das Forças Armadas brasileiras, e Bolsonaro sabe muito bem disso. 

É ele que o levou a dizer: "Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas". 

Mas, principalmente, militares brasileiros estão associados ao uso da força para o silenciamento das consequências da miséria e do descaso. Faz-se necessário lembrar disso mais uma vez, pois o que estamos a ver nessa pandemia, a catástrofe humanitária que a gestão das Forças Armadas produziu, não é um acaso. É a consequência necessária da maneira com que os militares sempre lidaram com a morte da sua própria população. 

Longe de procurar proteger as populações, suas ações sempre se deram no sentido de lembrar aos setores vulneráveis da população brasileira de que eles são matáveis sem dolo e sem imagem. É isso que as Forças Armadas estão a fazer mais uma vez com sua gestão criminosa e omissa em relação à pandemia.
Em menor escala, isso já ocorreu entre nós outras vezes. Que se lembrem dos espaços de silêncio da história brasileira. Lembremos, p. ex., da natureza da violência estatal para confinar e deixar morrer populações em crises de seca. 

Foi no Ceará, entre 1915 e 1932, que o Brasil conheceu campos de concentração (sim, este foi inclusive o termo usado à época) criados em cidades como Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Crato e Cariús, destinados a impedir que os flagelados da seca chegassem à capital. Campos nos quais se confinavam milhares de retirantes e se morria em massa por descaso, omissão e indiferença. 

E –vejam que coincidência!–, o número de mortes é ainda hoje incerto (estimam-se só no Patu, em Senador Pompeu, até 12 mil mortes sem certidão de óbito e em vala coletiva). Ou seja, este é, de fato, o
modus operandi das Forças Armadas.

Contra a revolta de setores da sociedade diante de tal descaso, as Forças Armadas agora ameaçam o país com um estado de defesa que suspenderia certas garantias institucionais, e que seria a forma efetiva de um autogolpe de Bolsonaro. 

No momento em que até tal carta é colocada sobre a mesa, o país não pode mais ser leviano em relação ao impeachment daquele que ocupa atualmente a presidência da república. 

Há sob sua responsabilidade direta uma somatória de crimes de omissão, de responsabilidade, de incentivo a comportamento que resultaram num verdadeiro genocídio da população brasileira. Nenhum presidente da república tem tantas razões para ser afastado, julgado e encarcerado quanto o senhor Jair Bolsonaro.
Um ano atrás, vários foram os que insistiram que a única saída seria o impeachment. Naquela ocasião, não faltaram os que disseram que clamar por um impeachment era colocar a política à frente das exigências imediatas de gestão. Disseram que era importante obrigar o Governo a atuar contra a pandemia, ao invés de dispersar forças num pedido de impeachment. 

A história demonstrou, no entanto, que não havia possibilidade alguma de levar Bolsonaro a gerir a pandemia. Ao contrário, ele não desprezou ocasião alguma para colaborar efetivamente para a situação na qual nos encontramos agora, com a população brasileira em estado de máxima vulnerabilidade, insuflando a indiferença em relação à morte e à ausência de proteção efetiva por parte do Estado.

Tudo isso demonstra, como há de se lembrar mais uma vez, que a única saída é o impeachment. E àquelas e àqueles que esqueceram, impeachment se conquista através da ocupação das ruas e do bloqueio das atividades. 

Os que têm privilégios ligados à segurança fornecida pelo acesso a serviços privados de saúde deveriam usar tal privilégio e forçar o fim deste Governo através da ocupação das ruas. Essa é a única coisa realmente concreta que podemos fazer para defender o país contra a pandemia. 

E é só a certeza da existência dessa força popular que fará as Forças Armadas ocuparem seu único e verdadeiro lugar: o afastamento da vida política nacional, o silêncio em relação à política e o retorno aos quartéis. 

Um pretenso Governo Mourão, por ser fruto da pressão popular, já nasceria natimorto. Isso até que consigamos, enfim, uma sociedade que não precise mais de Forças Armadas, por defender-se a si mesma. (por Vladimir Safatle) 
Related Posts with Thumbnails