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sábado, 1 de março de 2025

UMA CONSTATAÇÃO DO RUI MARTINS: OS GRUPOS EVANGÉLICOS REPETEM A FORMA COMO O 'PARTIDÃO' MOBILIZAVA O POVO.

Nostalgia 1: exposição sobre o legado
comunista realizada há 3,5 anos em Berlim.
rui martins
AS CÉLULAS COMUNISTAS
E AS IGREJAS EVANGÉLICAS
Seria possível fazer observações paralelas entre realidades distantes, como o comportamento dos eleitores da antiga República Democrática Alemã (a Alemanha Oriental, comunista), atraídos pela extrema-direita, com o crescente alinhamento das camadas populares de antigas áreas urbanas e industriais brasileiras às propostas da extrema-direita, calcadas numa linguagem fundamentalista de fundo religioso?

O que nos atrai nessa ´possível comparação são certas semelhanças entre a população da então Alemanha Oriental com o imaginário político do proletariado das regiões urbanas brasileiras.

De acordo com uma sondagem feita na antiga RDA e publicada em 2009, um quinto da população era nostálgico dos tempos do Muro de Berlim com seu regime stalinista. Para eles, a região tinha sido uma espécie de paraíso social, onde havia emprego e moradia para todos.

Vivendo em crise econômica, os alemães do Leste esqueciam as privações de liberdade, os pequenos salários, as dificuldades de viajar para fora do país, a censura, a polícia Stasi e outras tantas.
Nostalgia 2: o pesadelo nazista ressurgindo na Alemaha. 

N
outra pesquisa desse mesmo ano, publicada pelo jornal Der Spiegel, 57% dos alemães do Leste não hesitavam em defender o antigo regime de partido único.

Mas, 16 anos depois, conforme o resultado das recentes eleições legislativas demonstrou, as boas lembranças se esvaíram  os alemães orientais não aceitam as desvantagens ainda existentes numa comparação com a Alemanha Ocidental.

E já reencontraram, como no passado, os responsáveis: são os imigrantes. E o partido ultradireitista Alternativa Para a Alemanha, que dobrou o número de votos e ultrapassou os 30% na antiga RDA, tem a solução: a remigração, ou a expulsão de todos os imigrantes.

Alice Weibel, a dirigente do AfD, partido também qualificado como neonazista, rejeita qualquer sanção contra a Rússia, nega a mudança climática, quer a saída da zona do euro e da União Europeia, defende a família tradicional e os sexos masculino e feminino como modelos. 

Seu slogan, populista e nacionalista, Tudo pela Alemanha, vai na linha dos adotados pela pelos neonazistas nos EUA e no Brasil. Elon Musk, próximo do presidente Donald Trump, fez campanha eleitoral para Alice Weibel e utilizou também a plataforma X para isso.
A ditadura militar impôs a perda da autonomia da
rebelde cidade de Santos, só restituída em 1984
.

Qual a semelhança com a evolução da política nacional?

Talvez a nova geração não saiba e os mais idosos tenham esquecido, mas as ideias marxistas fizeram seu caminho no fim dos anos 1930 e, nas primeiras eleições depois da ditadura de Vargas. Em 1945, o velho partidão teve candidato próprio para presidente, Iedo Fiúza, que recebeu 10% dos votos. 

O candidato mais votado para o Senado foi Luiz Carlos Prestes e o PCB elegeu 14 deputados federais. Com o partido na legalidade, concorreram nas eleições intelectuais e artistas de prestígio como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Júnior, Candido Portinari, Mario Schemberg e Di Cavalcanti. Em 1947, o PCB foi declarado ilegal e os eleitos tiveram seus mandatos cassados.

O mais grave foi a repressão policial, fechando as células do partido em todo país. O PCB era forte na portuária Santos (chamada de Cidade Vermelha), com maioria eleita na Câmara; e nos municípios do ABC e na capital paulista, em fase de industrialização e com expressiva população operária.

Embora mantendo influência nos meios universitários, entre intelectuais e artistas, a proibição e perseguição do partido impediu uma popularização e influência política, embora despontassem alguns líderes carismáticos de esquerda.
Lula com o ex-presidente português Mário Soares: o PT
nasceu sob forte influência da Social-Democracia europeia

Até o surgimento do Partido dos Trabalhadores com Lula como figura de proa, criando um populismo ou militantismo reformista, na linha da Social-Democracia europeia, pugnando pelas conquistas sociais atingíveis dentro do capitalismo, na sequência das criadas por Vargas.

Em 1947, o movimento social e político comunista era extremamente ativo e crescia nas camadas populares com as células que promoviam cursos e reuniões políticas, e também festejos em espaços abertos com participação de jovens e crianças, numa espécie de grandes reuniões populares de famílias. 

Eu me lembro dessas festas no Morro de São Bento, na cidade de Santos, para onde me levava meu pai. Esses tipos de encontros populares desapareceram. Nem o PT conseguiu refazê-los com a mesma constância, criando vínculos entre as pessoas e as famílias.

Até chegarem os evangélicos com suas congregações e igrejas, seus cultos, reuniões de jovens, mulheres, escolas dominicais, uniões de mocidade e festas preparadas por seus pastores e fiéis. Na verdade, revivem as células do partido comunista, que permitiam sociabilidade, fortaleciam as amizades e se multiplicavam.
Heresia: evangélicos sorridentes, condescendendo com
a exaltação das armas na Marcha para Jesus de 2019.
 
O formato se assemelha bastante, com ligeiras variações, mas o conteúdo é muito diferente, com a religião como fator agregador e a política como objetivo, servindo como propagador do credo fundamentalista, próximo da extrema-direita.

Nem as redes sociais conseguem o mesmo resultado porque essas células garantem o contato humano direto e se tornam imbatíveis.

Qualquer semelhança entre essas duas realidades, alemã e brasileira, pode  ser mera coincidência. (por Rui Martins)

terça-feira, 19 de março de 2019

CARTA ABERTA AO LULA – 2

(continuação deste post)
"Não se faz isso com um companheiro"
Com a bifurcação conceitual de governo entre o nosso projeto de então e o projeto do PT, que se tornou cada vez mais evidente e distanciada, veio a nossa expulsão sob o argumento mentiroso de que a prefeita havia indicado um candidato do seu colete e sem qualificação à sua sucessão. 

Dalton Rosado, o modesto colaborador permanente desse blog, secretário de finanças da administração popular, foi o personagem pessoal dessa ocorrência política que bem demonstra o curso das coisas.   

Aliás, você mesmo, Lula, que me conheceu pessoalmente nas lutas populares em Fortaleza como advogado, e depois no exercício das minhas funções na prefeitura, sabia muito bem que eu não havia caído de pára-quedas, como tentou me rotular para o Brasil que não me conhecia. 

Não se faz isso a um companheiro sem que a História se encarregue de restabelecer a verdade com as devidas e cruéis consequências.  

O projeto do PT já havia passado a ser, mesmo antes de tal episódio, voltado para a mesmice do jogo político tradicional, no qual se exige muito dinheiro para participar com chance de vitória do processo eleitoral e, depois, para a conciliação com os poderes institucionais e corporativos. 

Daí para o envolvimento do PT com o que sempre houve de mais podre em termos de convivência política sistêmica foi um passo: o partido aceitou o fisiologismo como método de atuação política em todo o Brasil, passando a nortear-se, na prática, pela célebre frase com que o sinistro ministro Jarbas Passarinho justificou a assinatura do AI-5: “Às favas, sr. presidente, neste momento, com todos os escrúpulos de consciência!”. 
Outra expulsão traumática: a do ex-guerrilheiro Venceslau em 87

Os melhores e mais combativos quadros do PT foram paulatinamente alijados e substituídos pelos subservientes e pelos novos cristãos oportunistas (Delcídio do Amaral e tantos outros da mesma estirpe). 

Mas, confiar nos inimigos de classe nunca foi comportamento que trouxesse segurança para a esquerda que o adota, e o castelo de cartas começou a desabar com a auto-denúncia suicida de Roberto Jefferson, que fez balançar o PT no caso do mensalão e somente não lhe destituiu da Presidência da República em face de uma certa maré mansa da economia. 

Quando a marolinha virou um tsunami veio a Lava-Jato que trouxe à tona toda a podridão que permeia antes, hoje e sempre, o funcionamento da máquina estatal e os negócios de suas empresas milionárias com o mundo político e o empresariado privado. 

Assim, ruiu o edifício sobre cujo alicerce se erigiu um projeto político nascido sob a égide de pretensões populares ou revolucionárias e que descambou (como sempre acontece com poderes sob o comando fetichista da forma-valor) para uma negação de tudo que se possa conceber como emancipação popular. 
A Convergência Socialista, aqui vista desafiando a ditadura em 1978, seria expulsa do PT em 1992
Para os revolucionários, atingidos antes pelos desvios ideológicos do PT, e depois pelo descrédito que no Brasil de hoje atinge toda a doxa conceitual do pensamento libertador da humanidade, resta a humildade de, tal qual uma Fênix renascida das cinzas, aproveitar as experiências acumuladas e os desenvolvimentos teóricos das últimas décadas para tentar reconstruir e viabilizar o sonho de emancipação humana.

Se governar em prol do povo é impossível, porque o próprio Estado se constitui uma instância de governo opressora a serviço do verdadeiro poder (o econômico), criticar os governantes denunciando a natureza opressora desse mesmo Estado é tarefa possível e coerente.

É justamente a coerência da análise teórica e prática sobre os fundamentos sociais que estão na base do poder institucional que dá consistência à nossa crítica aos governos de direita, de centro ou de qualquer outro rótulo.  
Lula light em 1984, com Montoro, Brizola, Mário Soares...
[E até aos partidos de esquerda envolvidos numa aparente oposição sistêmica que somente contribui para a legitimação do poder que se diz voltado para o bem social, mas que é opressor na sua natureza ontológica.]

Caro companheiro Lula,

Hoje já consigo traçar um perfil daquilo em que você acredita como forma política ideal: aposta, como bom social-democrata, na humanização do capitalismo. 

A social-democracia é um hibrido de viés moderadamente esquerdista, com incentivo capitalista da produção; a estrela do PT não representa, portanto, fielmente a orientação político-ideológica do partido (a mão segurando a rosa, símbolo socialista, talvez fosse mais apropriada).

Social-democracia e liberalismo de direita são espécies de um mesmo gênero: o capitalismo. A primeira corrente quer um estado forte e intervencionista, keynesiano; e a segunda, um Estado mínimo e protetor das regras do livre mercado, do laissez-faire de Adam Smith. 

As diferenças são meramente políticas e terminam por aí, sempre convergindo para um mesmo proposito: a ontologização e permanência da mediação social sob a forma-valor.     

Mas, direitistas brasileiros são politicamente tão ignorantes que tomam você por comunista. Eles nem imaginam que você expulsou quase todos os comunistas do partido, só deixando ficar aqueles que lhe juraram fidelidade canina, como o ex-trotskista Antônio Palocci. 
Lula tinha confiança irrestrita no delator serial Palocci

Você escolheu mal em quem confiar, à direita e à esquerda.  

Aliás é esquisito como no Brasil os nomes dos partidos diferem do seu conteúdo, senão vejamos:
— o Partido da Social Democracia (PSDB) é de centro-direita, mais para o liberalismo ortodoxo do que qualquer outra coisa; 
— o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) é de direita, embora tenha o descaramento de se pretender herdeiro do trabalhismo getulista; 
— o DEM, tido como democrata, parece mais o Partido Republicano dos Estados Unidos. O Bob Fields [Roberto Campos] teria dado um grande presidente do Dem;
— o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) não passa de um amontoado de políticos fisiológicos, tanto que melhor seria chamá-lo de shopping-center da democracia
— o PDT, este sim herdeiro do trabalhismo getulista, agora está mais para Partido dos Ferreira Gomes, pelo menos até que outra mudança seja vantajosa para o clã; 
— o PC do B, Partido Comunista do Brasil, o que mais propõe é a retomada do crescimento, ou seja, mais capitalismo (é de fazer Marx remexer no túmulo 136 anos após a sua morte);
— o Psol faz lembrar aquela antiga propaganda de vodca, eu sou você amanhã;
— o PV, Partido Verde, é multicolor;
— e esse entreguista PSL, para fazer jus à grande maioria das notícias publicadas a seu respeito, deveria se chamar Partido Semeador de Laranjas(continua neste post)
.
(por Dalton Rosado)

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

RUI MARTINS: A CANDIDATURA FANTASMA DO LULA FOI UMA ESTRATÉGIA POLÍTICA "ILÓGICA, DISPARATADA E CAÓTICA".

rui martins
OS ERROS MORTAIS DO PT
Ao aceitar sua inelegibilidade e indicar Fernando Haddad como candidato do PT à presidência, pondo fim à candidatura fantasma, Lula encaixa mais uma derrota, revelando uma estratégia que não funcionou e só colecionou erros, alguns mortais para seu partido.

Quando terminarem as eleições e Lula, inofensivo, tiver transformada sua pena em prisão domiciliar, os ideólogos e ativistas do PT (alguns financiados por longo tempo, direta ou indiretamente) vão deixar o clima de campanha para, num exercício de autocrítica e contrição, localizarem quais foram os erros cometidos. 

Onde se iniciou o desvio que acabou por destruir o capital de confiança e popularidade acumulado, com a contribuição das diversas tendências de esquerda, desde sua criação em 1980? 

Numa análise sumária, o processo de fragmentação começou ao nível da composição ideológica da direção do PT. O Brasil seria compatível com uma esquerda autoritária baseada no conceito puro e duro marxista da luta de classes ou de um socialismo moderno e democrático?

Depois da ditadura militar, quando a campanha contra os militares era feita na base do retorno aos princípios básicos da democracia, seria possível uma campanha em favor de um partido radical de esquerda substituindo os militares por um governo popular de partido único?

Não, a campanha em favor do retorno à democracia, nos moldes das democracias europeias, com imprensa livre, tinha o apoio dos intelectuais contrários à mudança estrutural da sociedade pela imposição autoritária.
A social-democracia estava na moda nos anos 80. No centro da foto, Brizola e Mário Soares.
A experiência soviética de um Estado popular totalitário mostrava suas falhas e ia chegando ao seu fim. A tentativa reformista de um governo socialista democrático ensaiada por Alexander Dubcek em abril de 1968, tinha durado apenas quatro meses e terminado com uma intervenção soviética, no estilo colonialista.

Se José Dirceu, que se tornou o ideólogo do partido, imaginava uma transformação mais ampla da sociedade brasileira, logo percebeu ser praticamente impossível dentro da normalidade democrática – teria de ser realizada lentamente e dentro das possibilidades permitidas pelas estruturas já existentes.

O caminho teria de ser o da legalidade das eleições, com a gradativa politização do povo; e isto utilizando-se a criação de um líder popular, no qual o povo pudesse se reconhecer.

Lula seria esse líder por ter-se formado nas lutas sindicais e trabalhistas, na escola das concessões e negociações. Embora muito inteligente e capaz de aprender rapidamente a linguagem política, padecia da falta de uma formação ideológica e cultural, deixando-se levar principalmente pela sua intuição e sagacidade, nem sempre corretas. 
Luiz Gushiken, Lula e Zé Dirceu, também em 1984.

Porém, José Dirceu estava ali ao seu lado, quando Lula foi eleito presidente, para corrigir as falhas.

Com uma sociedade extremamente conservadora e desigual, na qual uma parcela importante da população ainda parecia viver num tipo de apartheid e semi-escravidão, as transformações sociais tinham de ser operadas de maneira branda a fim de evitar reações hostis das classes dominantes. 

Os segmentos pobres ou miseráveis passaram a merecer atenção do governo, em termos econômicos e de inclusão social. Em contrapartida, os setores financeiros, bancos, empresários também tinham tratamento preferencial, restando pouco para a classe média.

Para se manter e ir criando uma base nos governos municipais, o governo Lula precisava de financiamento e apoio dos parlamentares. Isso levou ao mensalão, cuja consequência mais danosa para o PT foi a queda de Dirceu e de outros mentores de Lula, que passou a ser considerado como um extraordinário animal político.

Essa substituição e a chegada de políticos mais realistas que normalizaram o PT, deixando prevalecer a prioridade da manutenção no poder em lugar da realização de reformas substanciais, permitiram o uso da corrupção.

Lula, em 2010, era reconhecido e respeitado como grande líder político e o Brasil citado como exemplo de grande país emergente. Provavelmente para não perturbar esse clima, Lula não pleiteou, como outros líderes de esquerda fizeram, um terceiro mandato; mas, cometeu o erro de escolher Dilma como sucessora, imaginando retornar ao poder em 2014. 
Dilma prometeu barrar reformas neoliberais. Mentia

Nesse ínterim, houve a crise econômica internacional. Dilma intratável não soube evitar a chegada da crise no Brasil, ignorou os sintomas de insatisfação de junho 2013, mas acabou sendo reeleita, a contragosto de Lula, que parecia perder sua força dentro do PT.

A reeleição de Dilma, seguida do que se chamou de estelionato eleitoral (por tentar aplicar uma política econômica de direita para corrigir seus erros do primeiro mandato), foi o começo do declínio do PT. Os processos da Operação Lava Jato não passaram de complemento. 

Era a hora do PT ter feito sua autocrítica ou mea culpa, desfazendo-se de Dilma e dos atingidos pelas investigações do juiz Sérgio Moro. Porém, a máquina partidária tinha inchado demais e não permitia essa dolorosa auto-medicamentação, que teria exigido também a aposentadoria de Lula.

Ao contrário do Partido Democrata Cristão alemão, que sacrificou seu líder Helmut Kohl (na época chanceler) por acusações de corrupção no financiamento do partido, e que se salvou dessa crise política ressurgindo alguns anos depois com Angela Merkel, o PT se personalizou em Lula, transformando-se, nestes últimos anos, num partido de populismo lulista personalista dito de esquerda.

Numa tentativa de sustentação do partido, criaram-se os mitos do golpe e das prisões sem prova que, diante do prestígio conquistado no passado por Lula, chegaram a ser aceitos por alguns órgãos importantes europeus de informação. 
"manutenção de Lula como candidato, mesmo preso"

E até o Comitê de Direitos Humanos da ONU, numa recomendação de seus dois vice-presidentes, defendeu a manutenção de Lula como candidato, mesmo preso, contrariando decisões legais da Justiça brasileira e sem avaliar as consequências internas, caso o Brasil aplicasse a recomendação ainda sem uma análise maior da questão quanto ao seu mérito. 

Porém, o Pacto assinado com o Comitê, embora aprovado pelo Legislativo, não chegou a ser assinado por Lula, que, entretanto, havia assinado e promulgado a Lei da Ficha Limpa no final de mandato.

Enfim, depois de meses de tentativas para manter a candidatura de Lula, e mesmo nos últimos dias depois de declarada sua inelegibilidade pelo TSE, o PT aceitou acabar com a candidatura fantasma diante da ameaça do ministro Barroso do TSE. Mas o candidato Haddad entra atrasado na corrida presidencial, talvez sem tempo para se recuperar do avanço dos principais concorrentes. 

Para reforçar a imagem de um Lula vítima de perseguição, seus advogados divulgaram nesta 2ª feira (10) um comunicado do que seria uma nova decisão do Comitê de Direitos Humanos em favor da candidatura de Lula. 

Não é isso, trata-se de uma comunicação pessoal enviada aos advogados de Lula, que haviam pedido maiores explicações aos relatores do Comitê sobre a recomendação do 17 de agosto. A nova queixa entregue dia 4 de setembro foi protocolada para apreciação.

Enquanto desenvolvia essa estratégia política ilógica, disparatada e caótica, que terminou sem nada conseguir, com a aceitação da candidatura de Haddad se constituindo numa derrota de Lula e do seu faro político, o Brasil viu surgir, em contraposição ao populismo de esquerda, a ameaça do populismo da extrema-direita, de colorido fascista, que vencerá o 1º turno do pleito presidencial.

Será a hora do voto útil contra a ameaça bolsonarista de transformar o Brasil, como ocorreu no Peru com Fujimori, numa nova ditadura. Qualquer um contra o perigo maior. Poderá ser Haddad, Ciro, Marina, Alckmin. 

Esperemos que, se não for Haddad o oponente do ultradireitista, a direção petista não cometa mais um erro, que seria o de se abster e garantir a vitória de Bolsonaro, para garantir uma confortável oposição. Oposição que não haverá, caso mergulhemos de novo na ditadura. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES (1924-2017): ERA TEMPO DE NOVAS ESPERANÇAS E ELE AINDA NÃO SABIA

Por Luiz Salgado Ribeiro (*)
.
Na tarde de 25 de abril de 1974, toda a redação do Estadão levantou-se para saudar, com gritos e palmas, a chegada de Miguel Urbano Rodrigues, líder comunista português, que lá trabalhava como editorialista. 

O motivo para aquela grande alegria era a surpreendente Revolução dos Cravos, que fizera Portugal amanhecer livre de uma ditadura que anoitecera o país desde 1926.

Cessados os aplausos, muita gente foi perguntar ao Miguel se ele tinha tido algum sinal de que a revolução iria eclodir. Muito ligado a antigos revolucionários portugueses, Miguel disse que os comunistas não sabiam de qualquer gestação de movimento armado. Também era total a ignorância, por parte dos socialistas, disse.

Depois, em tom de confidência, me chamou para um canto da redação e me mostrou uma carta de letras miudinhas, vinda de Paris e recebida pelo  editorialista ao sair do prédio onde morava, a caminho da redação. A carta era de Mário Soares, adversário político de Miguel Urbano, mas irmanado a ele pelos ideais de  derrubar a ditadura salazarista e pelas agruras que ambos sofriam como exilados.

Lembro-me muito bem da carta, porque ela me emociona até hoje. Mário Soares se confessava completamente desesperançado de poder viver numa pátria democrática. Dizia já estar atravessando a meia idade (à época, tinha 52 anos) e já estava cansado de esperar a queda da ditadura, ideal pelo qual lutava desde sua adolescência.

Achei uma grande ironia ver Mario Soares expressar-se com palavras tão amargas, justamente no momento em que multidões enchiam praças lusitanas para pular e cantar Grândola, vila morena, a música de Zeca Afonso que tinha servido como senha da revolução.

O episódio me ensinou que nunca é tarde para se ter esperanças e para continuar lutando por aquilo em que se acredita. 

Mário Soares não só voltou triunfalmente ao seu Portugal democratizado, como governou seu país por três vezes como primeiro-ministro e duas como presidente da República. 

Miguel Urbano também voltou a Lisboa para dirigir o jornal do Partido Comunista, retomando suas brigas com o líder socialista, interrompidas apenas enquanto ambos estavam exilados.

Agora, aos 92 anos, Mario Soares encerra sua carreira política e deixa ao mundo o grande exemplo de um estadista admirado e respeitado por todos.
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* Em sua longa e vitoriosa carreira jornalística, Luiz Salgado Ribeiro trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, Agência Estado, Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Jornal de Brasília e Tribuna do Norte, além de serviços de imprensa governamentais. É autor de Andanças: histórias de um jornalista à moda antiga (Primavera Editorial, 2010, 320p)
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