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sábado, 26 de abril de 2025

SE COLLOR MERECE OITO ANOS DE PRISÃO, BOLSONARO DEVERIA PEGAR OITO SÉCULOS

Q
uando Jair Bolsonaro, o pior presidente brasileiro de todos os tempos, tudo fazia para arrastar os trabalhadores a seus empregos no auge da pandemia de covid, com enormes riscos de encontrarem a morte após agonias terríveis, estávamos próximos da unanimidade. 

Quase todos os esquerdistas defendíamos com unhas e dentes que o direito das pessoas à vida prevalecia de forma esmagadora sobre o desespero dos agentes econômicos face aos prejuízos que estavam sofrendo.

Outros mudaram, mas eu não. Continuo sustentando que vida vale infinitamente mais do que grana.

Então, pergunto: se o também ex-presidente Fernando Collor de Melo merece cumprir oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a quantos SÉCULOS de prisão Bolzonaro deveria ser condenado por, com sua sabotagem premeditada ao combate científico da covid, haver causado a morte de algo entre 350 mil e 400 mil brasileiros que, noutras circunstâncias, teriam sobrevivido à pandemia, segundo as projeções matemáticas CONFIÁVEIS de vários institutos científicos estrangeiros (já que os balanços brasileiros, subdimensionados desde a base, eram totalmente INCONFIÁVEIS!).

De resto, coerente com as convicções que nortearam toda a minha vida adulta, deixo registrado meu inconformismo com o vezo oportunista de nossa esquerda, que mais uma vez se curvou a uma conveniência de momento ao ínvés de ser fiel a seus valores e discursos anteriores.   

Refiro-me a não ter feito a mais ínfima ressalva à decisão do Supremo Tribunal Federal, de julgar primeiramente o golpismo (crime contra as instituições) e só depois a morosidade intencional na disponibilização de vacinas para o povo e a confusão causada pelo fato de o próprio presidente da República estar impingindo preferencialmente à população  ridículas pajelanças (crime contra a vida).

Simbolicamente, isto passou para o homem comum a noção de que a vandalização dos suntuosos palácios do poder seja um crime pior do que, com uma inconcebível e inaceitável omissão no cumprimento do dever, causar a morte por atacado de cidadãos em sua maioria fragilizados pela pobreza.

Acossados pela barbárie ultradireitista, muitos esquecemos que a democracia burguesa seja o que é: um avanço com relação ao absolutismo feudal, mas uma ordenação jurídica que consagra o direito à propriedade como superior a todos os demais.

Cabia, sim, lutarmos decididamente contra um retrocesso civilizatório que, em muitos aspectos, equivaleria a uma volta ao autoritarismo e ao obscurantismo da Idade Média. Mas foi um exagero nós também endeusarmos. ACRITICAMENTE, o dito estado democrático de direito. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 8 de abril de 2025

O CIRCO DOS HORRORES NUNCA MAIS LEVANTARÁ SUA LONA TENDO O BOZO COMO BUFÃO PRINCIPAL

"Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: 'Antes que o galo cante hoje, você me negará três vezes'. Saindo dali, chorou amargamente" (Lucas 22:54-71).

Mas, segundo a Bíblia, Cristo levou na esportiva a pusilanimidade de Pedro e continuou confiando nele para ser a pedra sobre a qual edificaria sua igreja.

Na vida real, contudo, as coisas são bem diferentes... ainda mais quando se trata dos humores dos ultradireitistas, que, como primatas que são, cultuam desmesuradamente a força bruta.

Portanto, quando Jair Bolsonaro montou todo o esquema de golpes de Estado mas, na hora H, refugou, eu passei imediatamente a considerá-lo carta fora do baralho para os voos mais altos da horda a que pertence.

Refiro-me, é claro, aos Dias da Pátria de 2021 (quando caiu no ridículo total de ter de suplicar ao Michel Temer que limpasse a sua sujeira) e 2022 (o do bicentenário da Independência, quando nem mesmo a solenidade da data lhe incutiu coragem), depois ao 8/1 (quando foi esconder-se na Disneylândia e ficou assistindo pela TV a cabo, junto com o Pateta, enquanto seus zumbis eram presos).
Após amarelar em 2021, o Bozo sentou no colo do Temer

Assim, imediatamente após a terceira amarelada, já escrevi que mito com faniquito é rima que não funciona. 

Assim como o Jânio Quadros após a renúncia e o Fernando Collor após o impeachment (a Dilma nem sequer tentou!), o máximo a que poderia aspirar seria uma cadeira de prefeito ou uma vaga no Legislativo.

Daí o fracasso vexatório da maluquice do último domingo (6), quando o que resta do seu gado foi pastar na avenida Paulista tentando forçar uma anistia que, dentre outras inconstitucionalidades, teria como objetivo máximo livrá-lo da merecida temporada no xilindró. 

Alguém esqueceu de avisá-lo que só se anistiam condenados, o que ele ainda não é. Quiseram botar o carro na frente dos bois e só conseguiram irritar expoentes menos asnáticos da extrema-direita, que se queixaram da truculência com que os desmiolados estão tentando fazê-los embarcar nessa canoa furada.

O circo dos horrores nunca mais levantará sua lona tendo o Bozo como atração principal. Tudo leva a crer que o próximo grão bufão será o Tarcísio. (por Celso Lungaretti)

sábado, 15 de março de 2025

SÓ FALTA O LULA NOMEAR UM XERIFE PARA EVITAR QUE GALINHAS SEJAM SACANEADAS

Muito barulho por nada em 1986. Teremos remake?
Já são 55% os brasileiros que desaprovam o governo errático do Lula, segundo pesquisa divulgada divulgada pelo instituto Ipsos-Ipec nesta quinta-feira, 13.

E o pior é que ele tenta reverter tal quadro mediante estridentes afirmações demagógicas, no pior estilo populista. Como esta, sobre o peso do ovo na disparada da inflação dos alimentos: 
"Não tem como explicar por que o ovo tá caro. Alguém está passando a mão, este é o dado concreto. Não sabemos quem é, e nós queremos saber. Estão sacaneando as galinhas".
Só falta o Lula mudar o ministro da Fazenda e nomear um xerife dos preços para ambos atuarem como fiscais dos galinheiros e dos supermercados. 

Que falta lhe fazem o Dilson Funaro e o delegado Romeu Tuma, aos quais coube o papel de palhaços do circense Plano Cruzado de fevereiro de 1986! Naquele tempo, até a extravagante proprietária de um restaurante paulistano batia boca com os responsáveis pela condução da política econômica do País e era por eles tratada como vilã do congelamento de preços...
Mal recebiam o pagamento, os brasileiros corriam a fazerem
compras, por saberem que o dinheiro logo se desvalorizaria

O que restou daquela shakespeareana tempestade de som e fúria significando nada

O presidente José Sarney foi escorraçado pelo eleitorado na eleição de 1989, abrindo caminho para a ascensão fulminante do embusteiro Fernando Collor. 

Este tinha fama de  caçador de marajás na distante Alagoas e conseguiu fazer o povo acreditar que ele seria eficiente na perseguição aos tubarões responsáveis pela disparada dos preços, depois de Sarney fracassar em tal empreitada. Deu no que deu.

Finalmente: antes que o Lula decida enveredar em definitivo pelo caminho da farsa irresponsável, quero lembrar-lhe que, depois da sucessão de pacotes econômicos policialescos e malogrados do Sarney, este deixou o governo como recordista da inflação brasileira em todos os tempos: 84,3% num único mês, março de 1990.

Será que o Lula não aprendeu nada com a história vivida? Ou já esqueceu tudo? (por Celso Lungaretti)

sábado, 30 de novembro de 2024

SE LULA FACILITAR A ANISTIA DO BOZO, SAIRÁ DO PALÁCIO DO PLANALTO PARA ENTRAR NA LIXEIRA DA HISTÓRIA

Começarei com uma autocrítica: lamento muito ter deixado meus leitores acreditarem que o grande ídolo do Bozo fosse o Falso Brilhante (aquele comandante de centro de torturas que, num momento de aflição, chegou a declarar que era o Exército brasileiro quem merecia ocupar o banco dos réus caso houvesse um julgamento de Nuremberg à brasileira, não ele, coitadinho, que só cumprira ordens superiores...).

Ainda que, nesse seu raro instante de sinceridade, o torturador-símbolo do Brasil realmente tenha mesmo soado como um inspirador do palhaço amarelão, no resto do tempo não chegou a descer tão baixo. Então, tudo me faz crer que as loas a Ustra fossem apenas uma provocação à esquerda por parte do Bolsonaro; e que a grande influência da sua trajetória haja sido bem outra, aquela turminha de Chicago do tempo da lei seca.

Mas, incompetente inclusive como gângster, parece que o bufão psicopata não aprendeu nem mesmo que chantagistas precisam ter um refém em seu poder para imporem sua vontade aos chantageados. Até os velhos parceiros das milícias do Rio de Janeiro poderiam ter-lhe explicado isto.

O Al e o Sortudo, seja lá o círculo infernal que habitem atualmente, devem estar gargalhando da tentativa do capo da Famiglia Bozone, de forçar o mais mole de todos os moluscos a conceder-lhe uma anistia na marra, caso contrário virará o Brasil de pernas pro ar.

Alucinando na sua realidade paralela, o brochador serial não tem a mais remota noção de que já voltou a ser nada e hoje não conseguiria virar nem Niterói de pernas pro ar. 

Aliás, referindo-me a outra bizarrice recente do homem que virou muco  (a de trombetear aos quatro ventos que poderá enfurnar-se numa embaixada), isto deveria servir como alerta para os que têm o dever de impedi-lo de fugir da punição por seus crimes.  

Se ele tiver um pouco de sorte, talvez os poderosos atuais lhe permitam mofar durante os próximos anos numa embaixada qualquer e não na masmorra brasileira em que já deveria estar trancafiado faz muito tempo.

Quanto ao político gelatinoso que a direita aparentemente permitirá que continue fingindo-se de presidente até o primeiro dia de 2027, vale uma advertência: ele tinha o direito e (a falta de) caráter necessários para perdoar o adversário que em 1989 revelou ao Brasil inteiro  que ele traíra sua esposa, produzira uma filha bastarda, escondia a dita cuja da opinião pública havia um tempão e pressionara fortemente (mas em vão) a amante a abortá-la em benefício de suas ambições políticas.

Mas, para se deixar clicar abraçado ao Collor, depois que este o submetera a tamanha humilhação, Lula só precisava ter um estômago capaz de digerir quaisquer sapos que ele engolisse.

Já anistiar o responsável indiscutível pelo extermínio de uns 400 mil brasileiros que deveriam ter sobrevivido à pandemia de covid seria a indignidade suprema. Estaria saindo do Palácio do Planalto para entrar na lixeira da História.  (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A FAMIGLIA BOLSONARO ESTÁ EM PÂNICO: PABLO MARÇAL AVANÇA PARA SER O NOVO MALVADO FAVORITO DA EXTREMA-DIREITA.

N
uma única semana, o ultradireitista Pablo Marçal deu um salto gigantesco nas pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo, passando a ser visto e temido pela famiglia Bolsonaro como a maior ameaça atual ao seu futuro político.  

E isto no que tange não apenas  à anistia ilegal e inconstitucional que o palhaço psicopata espera obter do Congresso Nacional para disputar a presidência da República em 2026, quanto à sua própria chance de êxito em tal eleição.

[A segunda hipótese, evidentemente, no caso de o Brasil avacalhar-se em definitivo e admitir a candidatura do responsável indiscutível pelo maior extermínio de brasileiros em todos os tempos: os cerca de 400 mil que teriam sobrevivido à covid se a presidência não estivesse sendo exercida por um sabotador da vacinação.] 

Por que Pablo Marçal assusta tanto seus iguais? A melhor explicação que encontrei é a de Celso Rocha de Barros neste artigo simplesmente brilhante. Sua conclusão:
Na disputa de qual parlapatão é mais crível fazendo cara de mau...
"...a guerra civil na extrema-direita prova que há riscos em recrutar seus eleitores apenas por estímulos emocionais de curto prazo, por choques de adrenalina causados por ofensas e grosserias, por reflexos de autodefesa diante de ameaças imaginárias. Deu certo para Bolsonaro até aparecer alguém com ainda mais disposição do que ele para mentir, para ofender, para chocar pela baixeza".
É bom que já haja quem analise o fenômeno sem papas na língua. A vitória do Bozo em 2018 apenas confirmou o que Charles De Gaulle disse  (ou lhe imputam erroneamente) quando da chamada guerra da lagosta, seis décadas atrás: "O Brasil não é um país sério". 

Ademais, tem um povo tão embasbacado diante do autoritarismo que já elegeu abominações como Jânio Quadros, Fernando Collor e Jair Bolsonaro. além de sujeitar-se docilmente a 15 anos de ditadura sob Vargas e a 21 anos de ditadura sob os generais.

A grande novidade deste mês do cachorro louco, contudo, foi apenas e tão somente o que eu já venho cantando em prosa e verso desde a tentativa circense de golpe de estado no 08.01.2023: que Jair Bolsonaro seria fatalmente substituído por outra aberração qualquer como principal líder da extrema-direita brasileira. Agora já sabemos quem vai para o trono.
...o Bozo, após as brochadas de 2021, 2022 e 2023, não dá nem pra saída.

E isso não foi nenhuma adivinhação ou fruto de profundas análises acadêmicas. Bastava o bom conhecimento que tenho das trajetórias tanto dos chefões fascistas do século passado quanto dos que seguem seus passos no século atual; ele me dava a certeza de que, para liderar tal malta ignara, seria sempre necessário alguém com uma forte imagem de valentia e truculência.

Então, depois de o bufão amarelão haver convocado duas vezes seu gado para o golpe (nos Dias da Pátria de 2021 e 2022), refugando vergonhosamente na hora H; e de haver engatilhado a terceira tentativa para quando estivesse a salvo na Disneylândia, deixando os seguidores no Brasil a sofrerem as consequências no seu lugar, era impensável que continuasse a liderá-los. 

Inevitavelmente haveria de surgir quem desempenhasse o papel de Brucutu com a credibilidade que ele perdera. 

E esse alguém tomaria o seu lugar, como o Pablo Marçal está avançando para tomar. Quem viver, verá. (por Celso Lungaretti)
 

quinta-feira, 20 de junho de 2024

O LULA DIZ PARA SE DANAREM OS ARTISTAS QUE ENSINAM PUTARIA ÀS CRIANÇAS. ESTARÁ FLERTANDO COM UMA VOLTA DA CENSURA?

"Cruz, credo! O tal Michelangelo tem de se 
danar! Criança não pode ver essa putaria!"
De hora em hora, o Lula piora. Ou perdeu a memória, ou crê que nós todos a perdemos, pois acaba de fazer uma profissão de fé naquele moralismo rançoso que virou peça de museu a partir da década de 1960:
"Eu sou da turma em que artista, cinema e novela não é (sic) para ensinar putaria. É para ensinar cultura, contar historia, contar narrativas, e não para dizer que nós queremos ensinar às crianças coisas erradas. Nós só queremos fazer aquilo que se chama arte. Quem não quiser entender o que é arte, dane-se. Queremos muita arte, muita cultura".
Depois de ele haver admitido que no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo usava o seu cargo para cantar as viúvas que vinham atrás dos seus benefícios e de ter sido fulminado em plena campanha eleitoral de 1989 pela revelação de que escondia a existência de uma filha fora do casamento e pressionara em vão a amante para abortá-la em benefício de sua carreira política, que moral ele tem para dar palpites sobre o que deva ou não ser ensinado ás crianças? 

Além de levantar um assunto totalmente desaconselhável para quem possui telhado de vidro, o Lula parece inclusive estar pregando a volta à abominável censura artística do período militar. Sua incontinência verbal não tem mais limites.  

Faz um bom tempo que ele deixou de sentir necessidade de esconder que foi, desde o início de sua trajetória sindical, um conservador em pele de esquerdista, com uma visão política absorvida do coronelismo nordestino e lapidada pelo sindicalismo de resultados estadunidense. 

Mas, a desfaçatez com que ele descarta os valores que um dia fingiu professar desembestou de forma chocante no terceiro mandato. 
Sua verdadeira compulsão de chocar e espezinhar aqueles dos quais serviu-se para a conquista da faixa presidencial se tem voltado, nos últimos tempos, para a pauta de costumes. A nova aposta reeleitoral é a de ele se tornar um sapo engolido pelo poder econômico como a alternativa menos extremada ao bolsonarismo. 

Sonha com o tetra sem haver honrado os compromissos assumidos para, na bacia das almas, conquistar o tri . Embriagado com sua condição de principal serviçal dos que realmente mandam no Brasil, parece nem dar-se conta de que de que seu prazo de validade está chegando ao fim e a sua maria-fumaça pode muito bem descarrilar no meio do caminho. 

Seria uma justiça poética o Lula ser usado e jogado fora assim como, desde a década de 1970, vem usando e jogando fora as bandeiras da esquerda combativa. 

Mas, um novo impeachment tenderia a produzir outro monstro, provavelmente o governador paulista Tarcísio de Freitas, já que falta ao palhaço assassino equilíbrio mental para não atrapalhar os negócios dos poderosos, como fez ao sabotar a vacinação contra a covid-19, o que apenas alongou em muito a paradeira geral causada pela pandemia. 

Os episódios do Jânio Quadros, Fernando Collor e Dilma Rousseff evidenciaram que quem é expelido da presidência da República não volta a ela no Brasil. E salta aos olhos que o Bozo não será exceção (alguém pode tentar contrapor o caso do Getúlio Vargas, mas ele não foi defenestrado como presidente eleito e sim como o ditador do período 1930-1945).

Enfim, melhor será se um dos incontáveis ministros do Lula convencê-lo a desistir desses sincericídios, caso contrário vai estar não só dando tiros no pé, como poderá despertar suspeitas de que algo da loucura do antecessor escapou no ano passado à desinfecção do 3º andar do Palácio do Planalto. (por Celso Lungaretti)
Qual será a opinião do palpiteiro com faixa presidencial sobre o erotismo
refinado do Raul Seixas? Ele também o coloca na vala comum da putaria? 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ ABRIU CAMINHO PARA A REDEMOCRATIZAÇÃO CONSENTIDA

Por este placar os paulistanos viram, voto a voto,
a emenda Dante de Oliveira ir sendo rejeitada...
Foi de arrepiar a campanha das 
diretas-já, desenvolvida pela cidadania para convencer o Congresso Nacional a aprovar a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia imediatamente as eleições diretas para presidente da República.

Houve uma série de grandes comícios nas nossas principais capitais, alguns deles reunindo até 1 milhão de brasileiros (o derradeiro, em 16/04/1984, cravou a incrível marca de 1,5 milhão!) que não suportavam mais a bestialidade & boçalidade impostas pelos golpistas de 1964.

As minhas melhores lembranças são:

— o mar de camisas amarelas sinalizando a volta da esperança;

— o incrível tour-de-force de Leonel Brizola que, em função da mesquinha disputa de espaço político no campo da esquerda, começou sob vaias seu discurso numa manifestação das diretas-já na Praça Clóvis (SP) e, com sua fala empolgante, conseguiu colocar o público a seu favor, terminando sob aplausos generalizados; e

— a promessa do craque Sócrates em comício-monstro no Anhangabaú (SP), de que, caso fosse restituído ao povo brasileiro o direito de escolher seu presidente, ele ficaria aqui para contribuir na redemocratização, recusando a proposta astronômica da Fiorentina.

Infelizmente, o Congresso rejeitou naquele funesto 25 de abril a emenda Dante de Oliveira e a eleição acabou sendo, mais uma vez, indireta. 

Aí, parte dos parlamentares que haviam frustrado a vontade popular abandonou o partido da ditadura (o PDS, sucessor da Arena) e formou uma nova agremiação (o PFL, depois DEM) que, unida ao PMDB, assegurou a vitória do peemedebista Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os vira-casacas de última hora receberam as recompensas de sempre.
...por haver obtido só 62,6% de  votos favoráveis e não os
66,67%  que seriam necessários. Os ausentes decidiram.

Um dos piores deles era José Sarney,  que presidia o PDS mas estimulou a dissidência que viraria PFL... tendo, contudo, ele próprio se filiado ao PMDB, provavelmente para tornar mais digerível sua indicação para vice na chapa de Tancredo (a qual, evidentemente, já haveria sido articulada nos bastidores).

A presidência acabou lhe caindo no colo: como Tancredo, vitimado por uma infecção generalizada, nem sequer pôde assumir (Deus castiga!, diziam os antigos), o primeiro presidente pós-ditadura acabou sendo alguém que, meses antes, era um dos mais servis serviçais dos militares.

Eis as perguntas que não querem calar:
1. quando, exatamente, esses congressistas de origem  arenosa  decidiram desembarcar da canoa furada da ditadura?
2foi só depois de eles terem assegurado, com seus votos, a rejeição da emenda Dante de Oliveira?
3ou já era este seu objetivo desde o início, tendo voltado as costas ao povo para depois obterem bom preço nas barganhas com o PMDB?

Nunca tive a menor dúvida de que o jogo foi de cartas marcadas: o carteador trapaceou!
Foto divulgada para tranquilizar os brasileiros quanto  ao
estado de saúde do Tancredo; causou péssima impressão
.

O certo é que, pelo voto popular, daria Brizola ou Lula; pela via indireta, no infame tapetão, deu Tancredo.

A grande imprensa, sob a batuta da Rede Globo, tudo fez para vender o conceito de que tal saída da ditadura pela porta dos fundos era o coroamento das diretas-já

Fomos poucos os que, não só percebemos o embuste, como nos mantivemos coerentes com nossos valores, e, em meio à euforia orquestrada, denunciamos que tinha sido, isto sim, o resultado de uma traição à causa que havia mobilizado intensamente os melhores brasileiros

O oba-oba saudando a Nova República foi poeira colorida atirada nos olhos dos videotas, que acabaram engolindo gato por lebre: uma redemocratização pela metade, com expressiva participação de remanescentes ou cúmplices da ditadura, ao invés da verdadeira ruptura com o totalitarismo que a aprovação da emenda Dante de Oliveira teria propiciado.

Vai daí que não se investigaram as atrocidades cometidas pelo regime militar, nem se julgaram os criminosos (já que haviam anistiado preventivamente a si próprios!).
A eles se juntaria em 2016 a Dilma, segunda impichada

E, por havermos deixado passar o momento ideal para a apuração e punição dos responsáveis por tais episódios infames, a impunidade das bestas-feras e dos seus mandantes se tornou inevitável e irreversível. 

Impotente para mudar o rumo daquela farsa coonestada por uma esquerda já então ávida pelos nacos de poder que poderia conquistar sob a democracia burguesa, só pude desabafar:
"Não, não serei eu a tecer loas à transição manipulada que deu fim à ditadura militar sem mudança real na composição do poder (só nos métodos...) e sem que deixassem o povo decidir quem ele queria colocar no lugar do último general ditador. 
Nem endeusarei jamais! o político conservador com carisma zero que preferiu ver os brasileiros derrotados mais uma vez, desde que isto lhe permitisse apropriar-se da faixa presidencial sem passar pelo crivo das urnas".  
Enquanto isto, os bons companheiros engoliam não só o matreiro Tancredo Neves como (até mesmo!) o camaleônico José Sarney.  

Então, acabou sendo Sarney o presidente da redemocratização e, claro, esta ficou pela metade, exatamente por ser uma redemocratização consentida, sem coragem política para ultrapassar os limites traçados pelos que, presumivelmente, estariam deixando o poder. (por Celso Lungaretti
Brizola, por sua atuação destacada para frustrar o golpe já em 
1961, era quem os militares menos aceitariam como presidente.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 2: A FALÊNCIA DA REPÚBLICA NOVA


 OS ANTECENDENTES DE JUNHO DE 2013: a falência da República Nova

O regime militar foi estabelecido em 1964 para garantir uma modernização conservadora no Brasil em que a industrialização e urbanização foi feita de modo subordinada ao capitalismo central da Europa e dos EUA. Como consequência, o país não modificou sua estrutura social, mantendo a propriedade fundiária inalterada e a super exploração da mão de obra, resultando em um país com um dos parques industriais mais avançados do planeta, mas com mazelas piores que os presentes em países miseráveis da África.

O Milagre Econômico foi concebido às expensas do endividamento externo do país e objetivava isolar a oposição revolucionária aglutinada nas guerrilhas. Com o boom econômico, grande parte da classe média e mesmo da classe trabalhadora passou a dar apoio à ditadura, deixando os bravos militantes à mercê da truculência da repressão. Contudo, o Milagre duraria pouco e já por volta de 1974 fazia água diante do Choque do Petróleo, fazendo crescer a insatisfação popular. Apesar de uma tentativa de ressureição por parte do ditador Geisel, o único jeito foi implementar um processo de abertura política a fim de garantir a permanência da estrutura econômica e social instaurada após o Golpe. 

No centro do projeto de transição estava a criação de uma democracia de baixa intensidade, com eleições regulares, alternância de poder e certos direitos elementares, mas que nada de essencial mudasse. Para tal feito, a distensão foi acontecendo a conta-gotas, com os agrupamentos mais radicais sendo introduzidos paulatinamente no jogo institucional. 

No entanto, a situação social e econômica se deteriorava rapidamente e a hiperinflação corroía a renda dos trabalhadores levando às gigantescas mobilizações operárias do fim da década de 1970 e que se estenderam por grande parte da de 1980. Diante de uma possível mobilização revolucionária, a saída do regime foi acelerar os processos de distensão e permitir a organização política dos trabalhadores a fim de integra-los no processo de autorreforma da ditadura. Nisso, a oposição liberal jogou grande papel, colocando ênfase mais no retorno pleno da democracia e menos em questionamentos à estrutura socioeconômica. Vendia-se a ideia de que as transformações sociais viriam futuramente com eleições livres. 

O nível do engano desta estratégia ficou demonstrada com o fracasso do movimento das Diretas-Já e a articulação entre a oposição liberal com as facções civis apoiadoras da ditadura. A morte de Tancredo Neves levou ao poder José Sarney, eminência parda do regime em retirada e que tratou de prosseguir a dissenção segundo os planos dos ditadores, convocando uma constituinte limitada, não investigando os crimes dos militares e, sobretudo, não mexendo na estrutura econômica cristalizada durante o regime. 

Formou-se, então, um pacto entre as forças de esquerda do país e os grupos conservadores e reacionários advindos da Ditadura. Por esse pacto, transformações pontuais eram permitidas ao país desde que não se tocasse na estrutura fundamental da propriedade privada, sobretudo no papel subordinado do Brasil no capitalismo internacional. Tal pacto foi batizado de Nova República, em que a questão social estaria no centro dos problemas políticos sem, contudo, tematizar a economia. 

Incapaz de modificar a estrutura socioeconômica, a esquerda passou a se concentrar na conquista de direitos sociais que deveriam ser codificadas na nova carta constitucional e em legislações infraconstitucionais. Acreditava-se que a ação estatal seria capaz de corrigir as graves desigualdades do país e estabelecer um desenvolvimento social para o país sem romper com o pacto. Começava assim o chamado cidadanismo, em que o indivíduo teria sua vida melhorada graças aos direitos sociais garantidos pelo poder público, ou seja, pelos serviços públicos ofertados pelo Estado. 

Porém, a promessa nunca se tornou realidade justamente devido ao subfinanciamento dos serviços públicos e as limitações da vida cotidiana dos trabalhadores, esmagados pela miséria, pelo desemprego e pela falta de perspectivas. O pacto, porém, continuou sua existência, agora explicitado pelo chamado Presidencialismo de Coalização, iniciado logo após o impeachment de Fernando Collor. 

Collor, inclusive, pode ser considerado a última etapa do processo de transição iniciado pela ditadura, pois também oriundo da oligarquia florescida durante o regime militar. Após sua saída da presidência, a oligarquia mais reacionária do país continuaria a ter papel importante, mas com ação maior no legislativo e nos Estados, assumindo papel denominado impropriamente de fisiologista, primeiro com FHC, depois com Lula e Dilma. 

A falta de mudanças após o fim do regime militar foi se juntar com as contradições oriundas da reorganização produtiva do país após o declínio da Indústria nacional gerando tensões sociais geometricamente crescentes. A frustração com a falta de mudanças e o sentimento de estagnação se agravaram com a ausência de mudanças no governo lulopetista que havia sido eleito com altas promessas de novos tempos para o país. Embora, tal como na época do Milagre, o boom das commodities tenha favorecido e mascarado as contradições, a ponto de garantir a eleição de Dilma e um fim de governo com altíssimos níveis de aprovação para Lula, a verdade é que as tensões se acumulavam de forma grave e bastaria um rastilho para explodirem. 

A crise de 2009, tal como o Choque do Petróleo, teve impacto profundo no Brasil, fazendo de imediato caírem as  entradas de divisas. Um  país desindustrializado, altamente dependente da importação de mercadorias, sentiu profundamente a nova situação com o encarecimento acelerado do custo de vida e a desaceleração da economia. Em uma sociedade com renda historicamente reduzida, a piora da inflação já significou terrível aperto financeiro e reversão de expectativas, trazendo à luz do dia as contradições acumuladas. 

As massas identificaram rapidamente a contradição entre os péssimos serviços públicos disponibilizados pelo Estado - garantidos como direitos pelo cidadanismo - e os exorbitantes gastos com as mega obras para a Copa e para as Olímpiadas. Implicitamente, aquele pacto oriundo do fim da ditadura era rechaçado nas ruas do Brasil pois se passava a exigir a efetivação da promessa de serviços de qualidade e da melhora das condições de vida cotidianas. Questionar a condição calamitosa da saúde e da educação, questionar o caos do transporte público, questionar a ruína da vida urbana e a falta de perspectiva e de qualidade de vida era colocar o dedo diretamente na ferida do Pacto urdido na República Nova. 

Por isso, tal pacto morreu em Junho de 2013, tendo essa ruptura ficado mais clara nos anos seguintes, sobretudo com o Impeachment de Dilma e a eleição de Bolsonaro. Os partidos políticos surgidos após a ditadura foram massivamente rechaçados pela população, não raras vezes de forma violenta, inclusive, e sobretudo, os partidos de esquerda, vistos como traidores do ideal de mudança social.

O ideal do cidadanismo, de trazer melhoramentos sociais sem romper com a ordem socioeconômica herdada da Ditadura bateu ali claramente no teto, entrando fragorosamente em parafuso. Nas semanas daquele Junho intenso, novas formas políticas foram possíveis, ficando tudo em suspenso. (por David Emanuel Coelho

LEIA O PRIMEIRO ARTIGO DA SÉRIE:

 DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUESTÃO URBANA 

quarta-feira, 17 de maio de 2023

LIVRO DE JOSÉ CHASIN É RELANÇADO EM BELO HORIZONTE. RETOMAR O CAMINHO DA REVOLUÇÃO É HOJE MAIS FUNDAMENTAL DO QUE NUNCA.

 

Realizou-se nessa terça-feira, 16/05, na Faculdade de Direito da UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais - o lançamento do livro O Futuro Ausente, do marxista José Chasin, que pode ser baixado gratuitamente nesse link

Na realidade, o texto foi escrito há trinta anos na esteira da falência da URSS e do fiasco da transição democrática no Brasil com a eleição de Collor e o naufrágio da dita nova esquerda, com o PT à frente. Contudo, quando se lê o texto revela-se mais atual que a maioria esmagadora do que é escrito hoje em dia em nome do marxismo ou da esquerda em geral. Suas análises e problemas continuam na ordem do dia e não é possível refletir sobre os problemas e desafios da esquerda sem necessariamente passar por essa obra. 

Chasin é formado em filosofia pela USP, tendo sido ativo no movimento estudantil no período pré-1964. Fez parte à época do PCB - Partido Comunista Brasileiro - dentro do qual fez forte oposição às perspectivas teóricas e práticas do partido, sobretudo em sua ideia de apoiar uma suposta revolução burguesa no Brasil, posição com fundamental responsabilidade, como se sabe, pelo fiasco da esquerda em se opor ao golpe militar. Após a instalação da ditadura, perseguido pelo regime, não encontrou oportunidades para lecionar, tendo de ir para empregos comuns no setor privado, assim ficando até meados da década de 1970, quando consegue posto de professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP).

Ali, bastante fora do radar da repressão - que se concentrava na USP- desenvolve forte movimento de debate intelectual das obras de Marx, questionando as leituras simplistas da esquerda dominante e introduzindo outros marxistas, notadamente Lukács. Logo, porém, o regime também se atenta à dinâmica que lá se passava graças à ação de Vicente Unzer de Almeida, então professor da Fesp, alto executivo da Mercedes-Benz e colaborador da ditadura, além do apoio de professores da esquerda descontentes com as críticas desenvolvidas por Chasin. Diante desse movimento, acaba sendo demitido em 1976 com base no Ato Institucional nº 5 e no Decreto-Lei 477.

Mesa de lançamento do livro. Da esquerda para a direita: Vitor Sartori,
Sabina Silva, Vânia Noeli e Ester Vaisman. 
Voltou assim à condição de aperto financeiro, vivendo de cursos livres e aulas particulares. Sem opções no país, embarca em 1978 para Moçambique, para estruturar o ensino universitário naquele país. Acaba voltando de lá em 1980, após a Lei da Anistia, para trabalhar na Paraíba, logo porém também sendo perseguido pelas forças mais reacionárias do estado. Por fim, se estabelece em Belo Horizonte, dando aula de filosofia na UFMG até seu falecimento em 1998.

Nesse meio tempo entre sua volta de Moçambique e seu falecimento, foi responsável pelo surgimento do movimento Ensaio, editora que publicou diversas traduções importantes do pensamento marxista e uma importante revista para o debate intelectual entre várias vertentes da esquerda nacional. Por lá escreveram e debateram Florestan Fernandes, Paulo Freire, Ricardo Antunes, Antônio Cândido, Sérgio Lessa, entre outros. 

Na realidade, eu nunca tive aulas com José Chasin, mesmo tendo estudado no mesmo departamento onde deu aulas, e isso porque minha entrada na universidade ocorreu 8 anos após sua morte. Fui apresentado ao filósofo através de sua viúva, Ester Vaisman, a quem devo muito de minha formação marxista. Antes de tomar contato com suas obras, eu já tinha uma posição revolucionária, mas de forma alguma uma formação marxista adequada, tendo sido apenas com a leitura de seus textos que consegui chegar a um nível de rigor teórico e prático adequado.

Chasin me apresentou um marxismo além do lugar comum ou dos chavões partidários e militantes, fazendo-me compreender o papel determinante da teoria e a necessidade imperiosa de articular essa teoria com o entendimento do mundo concreto, do desdobramento histórico. Também me ensinou a não ter ilusões com a política tradicional e os partidos da dita esquerda, estando a única alternativa possível na emancipação humana total e completa. 

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG,
meu local de formação universitária e último espaço de
trabalho de José Chasin. 
Quando escreveu seu texto, há trinta anos, Chasin se desamparava diante de um cenário de terra arrasada. O fracasso histórico da União Soviética tornava acéfalo por completo os partidos e movimentos revolucionários ao redor do mundo, ao mesmo tempo que mantinha o chamado por ele de cadáveres insepultos, estalinistas saudosos desse mesmo regime falecido. Em paralelo, a nova esquerda rejeitava o marxismo e embarcava em análises do mundo capitalista sem qualquer rigor teórico, não tardando muito para nadarem na corrente neoliberal. Já à época ele dizia que o Império do Nada passava a presidir - se referindo a Collor - trazendo a primeiro plano todos os preconceitos e tendências conservadoras, com a morte da revolução. Mal sabia ele o quanto as coisas piorariam muito décadas após sua morte. 

Na realidade, quando se lê seus textos entre as décadas de 1980-90 é notável o quanto ele viu com clareza o desenvolvimento histórico mundial e particularmente do Brasil, antecipando em muito fenômenos que viriam a ocorrer apenas na época atual. Significativo, por exemplo foi seu prognóstico do fiasco de PT e PSDB - devemos recordar que, na década de 1990, os tucanos eram considerados de esquerda... - e sobretudo o quanto Lula, ou melhor, Luís Inácio, era um político medíocre  com profundo peso reacionário. 

Vinte e cinco anos após sua morte, é preciso reconhecer o quanto seu pensamento segue vivo e necessário. Se quisermos trabalhar por um futuro que não seja ausente, José Chasin é um dos autores fundamentais para esse processo. (por David Emanuel Coelho) 

quinta-feira, 9 de março de 2023

BOLSONARO ESTÁ FORA DE COMBATE, MAS LULA AINDA PODE SER NOCAUTEADO PELA ESTAGNAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

U
m dos poucos respiradouros através dos quais a vida inteligente ainda ventila a grande imprensa, William Waack coloca uma questão interessante em sua última coluna n'O Estado de S. Paulo: por que a popularidade do Lula não decolou significativamente nem a do Bozo despencou para profundidades abissais neste começo de 2023?

Afinal, tais deveriam ser as consequências lógicas da fuga do genocida para a Disneylândia, após ter armado a bomba-relógio da mais alucinada de suas micaretas golpistas e dado a mais vergonhosa de suas brochadas, deixando os bovinizados seguidores a arcarem sozinhos com as consequências judiciais de sua insanidade mental e incompetência política. 

Segundo Waack, "a insurreição bolsonarista do 8 de janeiro (...), supõe-se, destruiria a essência" de tal corrente política, enquanto "o escândalo das joias das Arábias (...) destruiria a essência da pessoa" que a encabeçava.

Isto não ocorreu por enquanto (embora deva ir acontecendo aos poucos, tanto que os ultradireitistas já buscam um líder alternativo) devido a "dois fatores de grande abrangência", segundo Waack.
"Um deles é aquilo que os profissionais de pesquisas chamam de calcificação, ou seja, as duas metades que saíram das urnas em 2022 continuam mais ou menos iguais, com o mesmo teor de polarização. E minimizam, ignoram ou absorvem qualquer fato negativo dentro da própria corrente. 
Outro fator (...) é a maneira como vastas parcelas da população lidam com o uso do dinheiro público (que milhões nem entendem que é o dinheiro dos impostos que pagam). No ambiente calcificado, a indignação com o uso privado de recursos públicos é ainda mais seletiva. Perdoa-se sem muitos rodeios se o ocorrido for no lado certo, ou se há necessidade política de votos no Congresso".  

Só que a calcificação não vem de agora. A sabotagem premeditada do combate científico à pandemia de covid, jamais deixarei de repetir, fez do palhaço sinistro o maior assassino de brasileiros de nossa História. 

Institutos ligados a grandes universidades do exterior dão como favas contadas que um contingente de aproximadamente 400 mil das vítimas fatais se deveu às decisões hediondas do portador da faixa presidencial. Com o tempo isto é a que se lerá nos livros de História brasileiros, mas aí não haverá mais a quem castigar. 

Bolsonaro não chegou ao patamar de Adolf Hitler, responsável último pela morte de algo entre 1,5 milhão e 3 milhões de alemães, mas neste país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, sem um passado tão sangrento quanto o de várias nações europeias, tal número é simplesmente estarrecedor e deveria ter despertado indignação exacerbada. 

No entanto, não há sequer a certeza de que, mesmo voltando ao Brasil, o celerado vá para trás das grades: é bem capaz de escapar apenas com a inelegibilidade. Mereceria é ter o mesmo final de seus antepassados ideológicos, o alemão faniquiteiro com bigodinho ridículo e o italiano careca com alma e camisa de corvo...

Mas, a tal da calcificação embute um perigo maior do que o apontado por Waack: o de que, mesmo o contrabandista de joias acabando por se tornar um personagem secundário como o é hoje Fernando Collor (os próprios políticos ultradireitistas temem que sua popularidade desabe até uma faixa de 10% a 15% do eleitorado), por este caminho se destruirá o personagem, mas não se vai imunizar a sociedade brasileira contra uma nova investida fascista.

Os desvarios e vilanias do Bozo são gritantes demais e extrapolaram os limites que o poder econômico traçara para ele, daí a decisão tomada no semestre passado, de lhe retirarem a escada, deixando-o pendurado na brocha. 
[Ou alguém acredita que os ministros do STF, no momento decisivo, agiriam com tamanha firmeza se não soubessem estar respaldados pelos que realmente mandam no Brasil?]

No entanto, o capitalismo mundial continua marchando para o fim, a empurrar com a barriga suas contradições até que a situação se torne totalmente insustentável:
— seja com as bolsas de valores do mundo inteiro despencando como peças de dominó e provocando uma depressão mais terrível ainda do que a iniciada em 1929;
— seja com as catástrofes decorrentes do aquecimento global aumentando cada vez mais em quantidade e contundência, podendo inclusive provocar outros acidentes radiativos como o de 2011 na usina japonesa de Fukushima; 
— seja com a 3ª Guerra Mundial que já pode estar começando na Ucrânia;
— seja com a simultaneidade e sinergia das ameaças já citadas, além de outras possíveis (como uma intensificação do surgimento e aumento da letalidade das epidemias).

Então, a aposta lulista em que um capitalismo cada vez mais fragilizado ainda vá tirar a economia brasileira da longa recessão que nos despedaça (nosso último ano com evolução expressiva do PIB foi 2010: 7,5%) não passa de sonho de uma noite de verão. De 2003 para 2023 a crise do sistema de exploração do homem pelo homem se agravou muito.

Com a permanência da estagnação econômica, que é um fenômeno estrutural e não pode ser removida apenas alterando-se a taxa básica de juros, logo o desencanto popular morderá os calcanhares de Lula, dando oportunidade a qualquer outro(a) aventureiro(a) fascista que mentirosamente se proponha a acabar com a velha política

A insatisfação popular vai sendo represada até que exploda como aqui em 2013 e no Chile e outros países em 2019. E o alvo principal será sempre quem o povo vê como responsáveis por suas mazelas: os políticos profissionais, o presidente da República, o Congresso, o poder judiciário, etc.

Ao avassalar-se ao centrão de forma vexatória e caricata, a ponto de perdoar até os descalabros cometidos pelo ministro das Comunicações Juscelino Filho no exercício de uma função da qual não entende bulhufas, Lula terá se tornado um personagem tóxico quando o povo não aguentar mais tudo que está aí

Ainda dá tempo para a esquerda desembarcar dessa canoa furada, pois as pastas ministeriais, mordomias, falcatruas e boquinhas poderão ser-lhe cobradas em dobro pelas multidões enfurecidas adiante. 

Ou a esquerda resgata sua independência com relação ao poder econômico e deixa de cumprir a função de mera força auxiliar da dominação burguesa, ou será arrastada pela tempestade que está se formando.

A alternativa que os fascistas oferecem é a entropia, o caos e um retrocesso civilizatório de vários séculos.

Temos de personificar a promessa de sobrevivência e o aperfeiçoamento da civilização, com a priorização do lucro e da ganância sendo substituída pela do pleno atendimento das necessidades humanas.

Caso contrário, perderemos inclusive a nossa razão de existir. (por Celso Lungaretti)  
 
Nesta excelente canção de 1988, Leonard Cohen avisa, entre outras
coisas, que a peste estava chegando. Mas morreu antes disto, em 2016.
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