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quarta-feira, 23 de novembro de 2022

...E O PALHAÇO, O QUE É? É LADRÃO DE ELEIÇÃO!

ricardo kotscho
MORAES DÁ XEQUE-MATE EM CHICANA
GOLPISTA DA DUPLA BOLSONARO & VALDEMAR
H
á três semanas, inconformado com a derrota que ele não esperava, Bolsonaro deixou de vez de governar o país, trancou-se no Palácio da Alvorada e passou a procurar um jeito de melar a eleição.

Enquanto isso, seus seguidores bloqueavam estradas e rezavam ajoelhados diante de quarteis para pedir intervenção militar e impedir a posse do presidente eleito Lula. 

Na noite desta 3ª feira (22), o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, precisou de apenas alguns minutos, para dar um xeque-mate na delirante representação do PL de Valdemar Costa Neto em que, sem nenhuma prova, simplesmente declarava a vitória de Bolsonaro com 51,05% dos votos no 2º turno das eleições. 

Como assim? De onde tiraram isso? Com base no relatório produzido por um certo Instituto do Voto Legal, que teria encontrado "desconformidades irreparáveis de mal (sic) funcionamento" das urnas eletrônicas, Bolsonaro & Valdemar pediram a anulação dos votos de 279 mil urnas, o suficiente para inverter o resultado da eleição. 

Enquanto Valdemar ainda lia, com certa dificuldade, o relatório apresentado à imprensa, em cinco linhas Alexandre de Moraes determinou que, em 24 horas, o PL inclua na ação o questionamento do resultado do 1º turno das eleições, em que o partido elegeu a maior bancada da Câmara, com 99 deputados, além de 14 senadores e governadores. 

Assim, Moraes matou no nascedouro mais uma tentativa golpista da conspiração palaciana, já que as mesmas urnas foram empregadas no 1
º e no 2º turnos. 

Se serviram para eleger parlamentares e governadores do PL, por que as mesmíssimas urnas, já empregadas também na vitória de Bolsonaro em 2018, não prestariam mais para eleger Lula no 2º turno da eleição de 2022? 

Com a maior cara de pau, sem acreditar no que falava, o inacreditável Valdemar alegou que os modelos antigos das urnas, anteriores a 2020, têm todas o mesmo número de patrimônio. 

E daí? Isso, segundo ele, impediria a fiscalização das urnas que foram validadas por auditorias das Forças Armadas e do Tribunal de Contas da União, além de diversos organismos internacionais. 

Durante toda a campanha pela reeleição, Bolsonaro colocou em dúvida a segurança do sistema eleitoral, atiçando seus seguidores a reagir em caso de derrota, o que para ele só seria possível se a eleição fosse fraudada, antes mesmo da abertura das urnas. 

Os devotos reagiram, como ele esperava, e continuam bloqueando estradas e quarteis até agora, numa inédita escalada de violência pós-eleitoral. 

Antes do vexame protagonizado por Valdemar, generais e aliados fiéis do ainda presidente reuniram-se com ele no Alvorada pela manhã para convencê-lo a deixar seu autoexílio no Alvorada e voltar a trabalhar, porque seu sumiço já estava pegando mal. 

Nunca se viu nada parecido na nossa República de tantos golpes militares, desde a Proclamação, em que presidentes foram levados ao suicídio, ao impeachment ou à renúncia, mas ainda não se tinha chegado ao ponto de apresentar um relatório fajuto para inverter no grito o resultado de uma eleição – nem em eleição de síndico na Barra da Tijuca, em que Bolsonaro, aliás, já foi derrotado. 

Parece coisa de doido, e é. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)  

terça-feira, 17 de novembro de 2020

APÓS BOLSONARO TER DESPEDAÇADO SUAS PROMESSAS DE 2018, OS ELEITORES FIZERAM AGORA PICADINHO DO QUE HAVIA SOBRADO

eliane cantanhêde
O GRANDE DERROTADO
Tal qual o verdadeiro Trump nos Estados Unidos, o Trump tupiniquim, Jair Bolsonaro, também nega a realidade, não reconhece a derrota e, como não dá para acusar a mídia desta vez, ataca a urna eletrônica e já ensaia o discurso da fraude! 

Nenhuma pirotecnia, porém, é capaz de anular ou esconder Suas Excelências, os fatos. E os fatos são claríssimos: Bolsonaro é o grande derrotado das eleições municipais de 2020.

Não apenas seus candidatos perderam feio e os votos do seu filho Carlos encolheram 34% na base eleitoral da família, o Rio, como tudo o que Bolsonaro representa afundou:
  1. a antipolítica cedeu lugar à política, à experiência, aos partidos;
  2. o PSL, que inflou e se transformou em segunda força na Câmara, murchou;
  3. tanto bolsonaristas renitentes quanto arrependidos, que brilharam em 2018, apagaram em 2020.
As eleições confirmaram que o Brasil é de centro e que a chegada ao poder da extrema-direita bruta, virulenta, delirante e sem programa, foi um ponto fora da curva, que vai ficando rapidamente no passado. 

O novo normal é normal mesmo. DEM, PSDB, MDB, PSD e Cidadania, que formam um sólido bloco de centro que não se confunde com o Centrão, vão recuperando o espaço perdido para Bolsonaro.

Assim, 2020 projeta a volta do centro e uma polarização atualizada: a direita não é exclusivamente bolsonarista e a esquerda não é mais apenas petista. 

A direita experiente e confiável amplia seu leque e se articula inclusive com setores da esquerda moderada. 

A esquerda ganha nova cara e frescor. Basta ver o desempenho no primeiro turno e as perspectivas no segundo de PSOL, PDT, PCdoB e PSB.

Mais do que a derrota de tudo o que Bolsonaro significa e de tudo que ele trouxe à cena nacional em 2018, a guinada político-eleitoral deve ter efeitos práticos e imediatos. Onde? No governo. 

Não dá mais para fingir que as falas e atos de Bolsonaro são normais e que os militares continuam indiferentes ou coniventes. Muita coisa está mudando e até parte dos militares já admitiu o óbvio: o rei está nu.

O resultado das eleições reforça a posição e os argumentos dos generais, almirantes, brigadeiros e assessores que mantêm os pés no chão e tentam chamar o presidente à realidade, alertá-lo para o que está ocorrendo. Com nomes, siglas, números e porcentuais, talvez alguém possa convencê-lo de que ele faz mal à saúde – dele, do governo e do País. Precisa parar e refletir.

A eleição coincide com a explicitação do racha do governo entre duas alas

De um lado, os meninos da ala ideológica, capazes de ameaçar o Supremo, ironizar o Congresso e chamar um general de quatro estrelas de Maria Fofoca
De outro, a
ala militar, que mais e mais aplaude em silêncio o vice-presidente, general de Exército Hamilton Mourão.

Os meninos pululam em torno dos filhos de Bolsonaro, brincando de ideologia, reverenciando gurus, fazendo apologia de armas, guerreando a favor das más e contra as boas causas. 

Já a ala militar tenta dar ordem à bagunça e se descolar do linguajar do presidente: pólvora (contra os EUA), maricas, boiolas, gripezinha, conversinha fiada... Como reagiu o general Santos Cruz pelas redes, é uma vergonha. Quem há de discordar?

Assim, a derrota de Bolsonaro vem bem a calhar, para dar um choque de realidade e tentar acordar o presidente para o que de fato importa: a pandemia, a economia, a crise social. 

Assim como Trump perdeu nos EUA, a extrema-direita, os seguidores e o blábláblá que levaram Bolsonaro à presidência também perderam no Brasil. Bolsonaro despedaçou suas promessas e princípios de 2018 e os eleitores fizeram picadinho do que havia sobrado. 

Os militares estão vendo tudo isso. O Centrão também. (por Eliane Cantanhêde)

domingo, 19 de julho de 2020

A DISFUNCIONALIDADE DO CAPITALISMO TORNA IMPERATIVA A SUA SUPERAÇÃO. A ALTERNATIVA É UM GENOCÍDIO SEM FIM – 3

(continuação deste post)
Os fatores exógenos resultantes do próprio progresso e da riqueza por ele proporcionado (que é apenas localizado em ilhas de prosperidade questionáveis), apontados por Paul Mason, como obesidade, diabetes, contaminação pulmonar pela ingestão da nicotina,e outras mazelas sociais, não deve ser assim considerado. 

É certo que as populações faveladas do Brasil têm problemas de obesidade porque consomem produtos de baixo conteúdo proteico e de aquisição mais barata, como é o caso dos produtos derivados do trigo (pão, macarrão, bolo, pasteis, etc.), e isso não representa riqueza, mas justamente o seu contrário. 

Mas é igualmente certo que o capitalismo e seu sistema político não protegem a população, mas apenas a usam para o seu desiderato socialmente segregacionista, daí ser contraditória a sua correta conclusão quanto a esse aspecto, pois se equivoca quando ao mesmo tempo faz uma incorreta proposição estatizante.

Como os keynesianos em geral, ele acredita na possibilidade de existência de Estado (que como tal é sempre hierarquicamente vertical) protetor da população, sem compreender que todas as formas de Estado existentes na História, inclusive as atuais, sempre oprimiram e oprimem as suas populações sob a justificativa pouco convincente de as proteger. 

Como promover e prover a melhora quantitativa e qualitativa das demandas sociais a partir do Estado falido em decorrência de que já não pode cobrar impostos na dimensão das exigências dessas demandas sociais???
Que Estado obterá recursos monetários (que é a razão de ser do capitalismo) e que seja suficientemente rico e detentor de sensibilidade social para prover as demandas sociais, como se fosse esfera estranha e soberana perante o capitalismo decadente? 

Se o projeto neoliberal faliu junto com seu austericídio social do Estado mínimo, como pretensão de salvar o capitalismo das pretensas garras da social democracia, não será um novo modelo estatizante que poderá restabelecer a normalidade social em rota acelerada rumo ao abismo, como quer Mason.  

Ele chega ao ponto de defender a ideia absurda de que os Bancos Centrais devam comprar a dívida pública estatal como forma de fortalecimento do Estado (???)... 

Ora, encarregados que são de fazer o controle monetário em benefício do capital, os Bancos Centrais se constituem, assim, em partes fundamentais da estrutura estatal capitalista; chegam a ser quase um Estado à parte, com a mesma função administrativa submissa e estritamente técnica em favor do capital. 

Os Bancos Centrais não produzem dinheiro-valor (ainda que o emitam com ou sem valor), como parece entender Paul Mason, mas apenas administram a emissão de moeda, de modo a que a propriedade capitalista esteja conectada com o valor representado por tal moeda emitida. 

Se assim não fosse bastaria que se emitisse moeda dentro das necessidades de consumo populacional para que os problemas sociais estivessem resolvidos. A proposição de Paul Mason quanto aos Bancos Centrais é de uma primariedade tal que me assusta que tal conceito ganhe notoriedade como coisa séria. 

Os Bancos Centrais somente estão emitindo moedas sem lastro por ordem do sistema capitalista e do seu Estado, os quais compreendem que, sem tal emissão, todo o sistema decretaria falência (como ocorreu em 2008/2009) mais brevemente do que acontecerá em futuro próximo; e o faz sabendo que se trata de um paliativo amargo, com graves consequências colaterais e que deve ser suprimido antes que o próprio capitalismo morra em decorrência dos tais efeitos colaterais. 

É a vitalidade das relações mercantis que determina a emissão de moeda controlada pelos Bancos Centrais; então, como ditas relações estão em processo de depressão, tais instituições bancárias vivem os paradoxos próprios de uma situação insustentável sob a lógica funcional do capital. 

Dinheiro sem valor e fora da conexão com a produção de mercadorias é como querer curar uma metástase cancerígena com cloroquina.  

Não necessitamos de Bancos Centrais, mas, muito pelo contrário, precisamos acabar com o dinheiro, expressão numérica monetária abstrata que se materializa nas mercadorias para segregar socialmente a maior parte da população em benefício da menor parte.

Tendo função somente como força regulamentar e administrativa monetária capitalista, os Bancos Centrais jamais subsistirão a uma sociedade que supere a forma-valor.  

Por fim, Mason defende um salário universal, em dinheiro. É impressionante como todos os críticos do capitalismo decadente, a quem louvamos a intenção, só conseguem raciocinar dentro da caixa!  
Ou seja, mantêm-se eternamente aferrados a critérios capitalistas de relações sociais, inventando fórmulas que mais não são do que adereços cosméticos que mantêm a mesma estrutura carcomida.

Por acaso o dinheiro que ele quer que se torne salário básico universal não se constitui em representação do valor que compra mercadorias produzidas sob critérios de valor (trabalho abstrato, extração de mais-valia, lucro, mercadorias, mercado, valor, imposto,s etc.,), estando, portanto, inserido no conjunto de categorias decadentes que formatam o capitalismo? 

Devemos abandonar o medo da adoção de um novo modo de produção social, sem mensuração monetária, mas dentro do critério segundo o qual seja exigido de cada um segundo sua capacidade, dado a cada qual segundo suas necessidades (Marx), e no qual as riquezas materiais da natureza e o saber adquirido pela humanidade possam ser usufruídos(as) e compartilhados(as) por todos. 

Chega da artifícios inconsistentes de humanização do capitalismo em rota falimentar! Devemos superá-lo in totum e sepultá-lo como um estágio escravista sub-reptício da evolução humana. (por Dalton Rosado)

domingo, 16 de fevereiro de 2020

FILMES "CORINGA" E "PARASITA" FLAGRAM A REBELIÃO CEGA NUM MUNDO SOCIALMENTE DEVASTADO PELO NEOLIBERALISMO

De vez em quando a academia de Hollywood faz justiça à arte e premia filmes esteticamente importantes. Este é o caso recente do sul-coreano Parasita, do diretor Bong Joon-ho. 

Não entrarei em detalhes da trama para não atrapalhar a experiência de quem ainda não viu (o tal do spoiler) e para não ser redundante com quem já o conhece. Ressaltarei apenas a lógica expressa ali das relações de classe no capitalismo neoliberal decadente. 

Embora a história se passe na Coréia do Sul, suposto paraíso neoliberal, quem assiste facilmente vê as similaridades com qualquer outro país do mundo e, em especial, com o Brasil. Uma população trabalhadora remediada vive na tensão entre as promessas de consumo e cidadania não cumpridas e a indigência completa. Por outro lado, há uma família de classe média alta alienada de sua realidade e pretendendo emular os valores from USA

A trama do filme é justamente o encontro destes dois mundos e como cada família fará para atingir seus objetivos e conseguir realizar as promessas feitas a elas. Aos pobres, a promessa da cidadania consumidora; aos ricos, a de participarem da lógica cultural globalizada. 

Os ricos usam os pobres, os pobres usam os ricos e a única forma possível de contato entre eles é a da desfaçatez e do parasitismo social. 
Daí vermos na tela uma sociedade em que não há mais espaço para a solidariedade ou para relação juridicamente mediatizada. Ao contrário da antiga relação trabalhista mediada por direitos de empregados e funcionários ou mesmo da antiga relação de patronagem (na qual os funcionários eram protegidos de abusos dos seus patrões), agora, no capitalismo neoliberal, só pode imperar a relação hipócrita, pois precária, de indivíduos isolados e voltados apenas à realização de seus objetivos pessoais. 

Nesta lógica, o outro aparece apenas enquanto um instrumento cujo uso deve ser feito ao mínimo, pois seu fedor pode contaminar o ambiente...

A classe alta não se reconhece mais no povo, pois o compartilhamento cultural deixou de ser o de outrora. Até a língua comum é paulatinamente abandonada em prol do universal inglês. Neste aspecto, os trabalhadores só valem para esta burguesia enquanto força de trabalho ativa. Quando não estão desempenhando um trabalho, eles simplesmente não existem para ela. 

Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora também vê à burguesia enquanto fonte financeira. Não é uma classe oposta, são indivíduos com dinheiro, capazes de pagar seu acesso ao mundo do consumo. 
Revoltas à Coringa estão nas ruas, mas...
A relação entre as classes, portanto, passa a ser tênue, atomizada e inconsistente. E isto terá consequências quanto à luta de classes. 

No mundo neoliberal, as organizações de classe – sindicatos, partidos, associações – não existem mais, são apenas simulacros que representam a si mesmas e não aos trabalhadores. 

Do mesmo jeito, os órgãos de representação política – parlamento, judiciário, ministérios, etc – foram sequestrados pelo capital monopolista e não possuem mais permeabilidade aos reclames populares. Numa espécie bizarra de Estado de natureza hobbesiano (o homem é o lobo do homem), há uma guerra surda de todos contra todos.

Sendo assim, como poderá ser expressa a guerra de classes? Apenas enquanto ódio pessoal. Quando finalmente a máscara da hipocrisia caí e não é mais possível existir relação entre os indivíduos, a única saída é cada um cuidar de seus interesses passando por cima do outro. 

E é neste momento que o trabalhador concebe o burguês enquanto seu inimigo de classe e, na sua impotência, só pode executar um ato máximo de ódio pessoal. 

É justamente a rebelião cega, vingança pessoal que nada muda. 

Algo semelhante ocorre em Coringa, mas dando um passo além. Embora esteticamente inferior ao filme coreano, a adaptação cinematográfica do anti-herói dos quadrinhos também consegue apanhar com precisão a dinâmica da era neoliberal do capitalismo. 

Estrategicamente ambientado na década de 80 – para relembrar a funesta era Reagan e também para evitar acusações de incentivo à violência na época atual – o filme vai mostrar outro lado do processo de decomposição social. Enquanto Parasita se voltou às relações deterioradas entre as classes sociais, Coringa abordará como o próprio mundo social se decompõe. 
...Parasita também mostra sociedade se desintegrando...

Muitos censuram o fato de se apresentar no filme um personagem psicologicamente desequilibrado como sendo o vetor de revolta contra o sistema capitalista. Isto seria uma forma, dizem, de atribuir a revolta contra o sistema como sendo um ato de loucos ou criminosos. Há certa justiça nesta censura, mas ela parte de uma consideração parcial da realidade. 

Tal como no caso de Parasita, a realidade é a da destruição das vias coletivas de organização. É o mundo do desespero individualista. As promessas da revolução e da realização humana do fim da história fracassaram. Só restou a realidade dura e alucinada na qual até mesmo a solidariedade de colegas de trabalho e o amor familiar deixaram de existir. 

Neste mundo arruinado, o único caminho lúcido é a loucura. Ela será a forma fundamental de rebelião contra a realidade e será o vetor da luta de classes. E, tal qual no filme coreano, chegará uma hora em que se descortinará ao trabalhador a natureza de classe da burguesia e sua condição de inimiga. E, de modo igual, a única forma de expressar o ódio será pela via pessoal. 

A diferença, no entanto, é que em Coringa, o ato de rebelião pessoal servirá de exemplo para uma rebelião coletiva, desengatando a guerra de classes na cidade de Gotham. Os ricos são os inimigos e devem ser eliminados. 

No entanto, trata-se ainda de uma rebelião individualizada. Os ricos não são visados enquanto classe social ontologicamente concreta, mas enquanto um amontoado de indivíduos agindo contra os trabalhadores. Mais uma vez, o grau de consciência de classe ainda está dentro dos limites do neoliberalismo e impera a atomização. A classe em si ainda está obnubilada pela composição de vários indivíduos. 
...e a pergunta crucial é: até quando suportaremos? Não será nas telas que vamos encontrar a resposta
Coringa dá um passo além de Parasita porque nele a rebelião se torna coletiva, embora ainda permaneça na lógica cega da pura vingança pessoal. 

Retrato mais correto de nossa realidade, porém. Em nossa época, vivenciamos uma série de rebeliões ao redor do mundo, rebeliões muitas vezes que descambam para a vingança pessoal contra símbolos ou indivíduos. O alvo é a vidraça do banco, o ônibus, o presidente, o ministro ou o partido. No entanto, a estrutura social do capitalismo não é confrontada explicitamente, apenas questionada implicitamente. 

Não é gratuito, portanto, o fato de que tais rebeliões muitas vezes terminarem em nada ou mesmo serem apropriadas pela extrema-direita. Pois, sua essência acaba sendo o puro ódio e ressentimento, e disto quem melhor sabe são os neofascistas. Necessitados de inimigos individualizados, Trump, Bolsonaro, Johnson e demais palhaços o apontam para a purgação das massas: é o gay, o imigrante, o esquerdista, o professor, a mulher, etc.

Coringa e Parasita despontam como dois dos filmes que melhor retratam nossa época, uma época devastada socialmente pelo neoliberalismo e cuja recusa pelas classes trabalhadores não encontra uma orientação racional e emancipatória. (por David Emanuel de Souza Coelho)

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

ESTAMOS NUMA DEMOCRADURA E AVANÇA CADA VEZ MAIS A CONTAGEM REGRESSIVA PARA UMA EXPLOSÃO SOCIAL

Estamos próximos, no Brasil de hoje, daquilo com que sonhavam os golpistas de 1964, ao planejarem uma intervenção cirúrgica para eliminar a influência da esquerda nos Poderes da nação, nos veículos de comunicação, nos sindicatos, nas instituições de ensino e no movimento estudantil, principalmente, para em seguida devolverem uma democracia expurgada e reformatada.

Mas, o arbítrio que era para durar poucos anos acabou estendendo-se por 21, durante os quais, na verdade, só se poderia enxergar uma ditabranda (conforme pretendeu a Folha de S. Paulo, num dos editoriais mais infelizes de sua história) no período final, sob João Baptista Figueiredo (1979-1985). O leão já estava desdentado, após os sucessivos fracassos no front econômico lhe retirarem a última justificativa para sua existência, deixando a ditadura em agonia lenta.

A situação atual, contudo, lembra mais o período de 1965 a 1967, quando o furor subsequente à usurpação do poder deu lugar a uma espécie de resignação e pasmaceira, com a contestação ao regime sendo banida das ruas, praças e locais de trabalho, mas consentida na música popular, no cinema e no teatro (a resistência a eles era tão ínfima que os militares se davam ao luxo de vestir a fantasia de déspotas esclarecidos...). 
Aí tivemos a escalada de radicalização ao longo de 1968, culminando em dezembro com a assinatura do Ato Institucional nº 5, que iniciou o período mais extremado e bestial do regime militar.

Durante as trevas absolutas que vão da entrada em vigor do AI-5 até o final do mandato de Emílio Médici em março de 1974, foram 279 os oposicionistas assassinados (baseio-me no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, mas não levo em conta a divisão meramente formal entre aqueles cuja morte foi provada e aqueles cuja existência evaporou sem deixar rastros...) e acrescentaram-se mais 12 atos institucionais à legislação de exceção.

Já no período 1965/67  os atos institucionais foram apenas três e os assassinados, 12, em contraste chocante com o morticínio de 1964 (27 mortos!!!), quando a vitória da quartelada foi comemorada à moda dos selvagens.

A comparação com a democradura de hoje se impõe. 

Então, o sistema mudava leis e extinguia direitos consolidados a bel-prazer, contando com a conivência de um Congresso que fora domesticado por meio das cassações de mandatos que modificaram a correlação de forças e intimidaram os oposicionistas salvos da degola.

Agora, os parlamentares estão exultantes com o semi-parlamentarismo decorrente da inapetência para o cargo do presidente-bufão, que lhes permitiu herdarem o papel de principais executantes das determinações do poder econômico, enquanto ele próprio se ocupa de ninharias e baixarias.
Pasmem: os patrões do PT rezam pela mesmíssima cartilha!

As pressões sobre a cultura, a imprensa e as instituições de ensino são ainda maiores atualmente do que naquele intervalo histórico. 

O movimento estudantil até agora não sofreu repressão comparável, p. ex., à desencadeada quando da setembrada de 1966, mas ainda é cedo para soltarmos suspiros de alívio: 2020 se prenuncia um ano sujeito a intempéries, à medida que ficar claro para os brasileiros que as reformas neoliberais do Paulo Guedes produzirão aqui o mesmíssimo resultado que estamos constatando ultimamente no Chile (após anos e anos de retórica triunfalista dos mercadores de ilusões!).

Mas, a principal diferença entre o despotismo esclarecido de 1965/1967 e a atual democradura é que a esquerda brasileira efetuou então o processo mais aprofundado de crítica e autocrítica de toda sua história, questionando erros cometidos e atuações desastrosas, para daquela derrota acachante extrair todas as lições aproveitáveis, no sentido de sua ampla reconfiguração. 

Havia a consciência de que jamais poderia ser repetido fracasso tão humilhante quanto o da derrubada do governo João Goulart sem nenhuma resistência significativa por parte daqueles que até a véspera diziam que já estavam no poder (dou nome ao boi: o fanfarrão Luiz Carlos Prestes).

Hoje, pelo contrário, o PT conseguiu evitar que suas terríveis lambanças fossem colocadas em xeque em 2016, quando do impeachment de Dilma Rousseff, e ameaça repetir o feito agora, se o posicionamento stalinista do Lula a respeito da autocrítica prevalecer.

A autocrítica abortada de 2016 nos conduziu à entrega do poder à extrema-direita em 2018. A nova Operação Abafa nos levará aonde? 

A uma ditadura sanguinária explícita, como sonham Olavo de Carvalho e seus miquinhos amestrados? 

Ou a um despotismo esclarecido permanente, como poderia ter ocorrido caso a esquerda não houvesse redescoberto a combatividade perdida em 1968?

No fundo, nosso povo não sairá da dramática e degradante situação atual se a subjugação ao poder econômico for imposta com a vaselina do Legislativo e do Judiciário, muito menos se com o ferro em brasa dos inquisidores redivivos.

Ou forjamos uma nova esquerda, reciclamos nossa atuação e reassumimos o protagonismo político, ou assistiremos impotentes, de braços cruzados, à explosão social que inevitavelmente decorrerá dos rigores neoliberais que nos estão sendo enfiados goela abaixo. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

VLADIMIR SAFATLE, EXPLICANDO A ATUAL ONDA DE INSURREIÇÕES: "SÃO LUTAS DE CLASSE SEM CONSCIÊNCIA DE CLASSE".

vladimir safatle
QUANDO AS RUAS QUEIMAM
Um mar de tranquilidade. Fora assim que o presidente chileno Sebastian Piñera havia definido seu país, antes da população ir às ruas para não mais sair, queimar prédios, desafiar toques de recolher, decretos de emergência e ser assassinada pelo seu próprio governo. 

Até agora 19 mortos, sendo uma criança de quatro anos: algo que seria mais correto descrever como um puro e simples massacre. Depois de o exército cometer tais assassinatos, vimos Piñera em cadeia nacional pedindo perdão pela insensibilidade diante dos problemas sociais que ele aparentemente sequer sabia existir.

De fato, os que nos governam parecem ter uma definição muito peculiar de tranquilidade. Isto já aconteceu outras vezes. Em 2011, os países árabes pareciam tranquilos até que um trabalhador tunisiano ateou fogo em seu próprio corpo, imolando-se em praça pública, abrindo uma sequência de mobilizações populares que derrubou governos e colocou novamente a política nas ruas. 
Queima de móveis e papéis numa barricada de Santiago

Essa sequência de insurreições acabou por chegar até mesmo ao Brasil, que em 2013 vendia para o mundo interior a versão de que era um mar de tranquilidade e de estabilidade tropical.

Agora, talvez estejamos diante de uma segunda onda de insurreições que parecem seguir, mais ou menos, o mesmo padrão, seja no Chile, no Equador, na França, no Líbano. 

Começa-se com uma rebelião contra um medida econômica punitiva para os mais pobres: aumento de imposto de gasolina, aumento de passagens de transporte público, criação de taxa em uso de WhatsApp. 

A pauta parece pontual mas ela rapidamente se alastra expondo um descontentamento profundo e estrutural com as condições econômicas e sociais. 

Os governos imediatamente agem mobilizando aparatos impressionantes de violência e controle. 

A França dos coletes amarelos conta presos em manifestações aos milhares. Cenas de jovens secundaristas de Mantes-la-Jolie de joelhos, em fileira e com as mãos na cabeça circundados por policiais rodaram o mundo. Não por acaso, elas pareciam saídas da 2ª Guerra.

Depois de compreender a ineficácia da violência extrema, os mesmos governos passam à negociação. Mas agora descobrem que de nada adianta voltar atrás nas medidas econômicas. 
Secundaristas de joelhos na França: volta ao nazismo?

A população quer o fim desses governos, ela sabe que as decisões serão sempre tomadas ouvindo interesses que lhes são contrários. 

Um setor fundamental da sociedade descola-se da sua aderência aos princípios gerais da governabilidade. Ela está disposta a seguir novos rumos.

Este é um ponto central para compreendermos essa segunda leva de insurreições mundiais: elas recolocam em circulação a experiência da luta de classes e de recusa a ser governado por quem tem compromisso com políticas de empobrecimento. 

Muitos analistas percebem termos dessa natureza como resquícios arcaicos de algum Museu das Ideias Perdidas

Sua aderência à crença de que a história terminou na defesa da democracia liberal tal como a conhecemos até agora os impede de compreender o sentido de processos de desidentificação generalizada com o poder. Processos que eles procuram colocar todas na conta do populismo e de formas de regressão das massas para fora dos acordos de gestão que pareciam aceitos por todos.

No entanto, é de luta de classe que se trata no que estamos a ver agora. A compreensão de que as políticas de austeridade eram, na verdade, políticas de concentração e de defesa de interesses intocados das elites rentistas espalha-se de forma cada vez mais sistemáticas. A linha de clivagem fundamental reaparece como divisão entre ricos e os economicamente vulneráveis. 
"gramática forjada nas HQ's e nos filmes de super-heróis"

Pode não existir mais uma consciência de classe, por uma série de razões vinculadas à configuração dos processos políticos contemporâneos com suas dificuldades estruturais em produzir dinâmicas de emergência de corpos políticos convergentes. 

Há de se lembrar também da demissão genérica de processos de crítica cultural, o que faz com que até as lutas políticas pareçam necessitar de um gramática forjada na indústria cultural, nos quadrinhos e nos filme de super-heróis. 

Mas o que vemos atualmente são lutas de classe sem consciência de classe, ao menos até agora. O que não significa que a próxima volta do parafuso não seja exatamente a consolidação de uma consciência genérica de classe renovada capaz de articular transversalmente a multiplicidade de experiências de espoliação e exploração.

Por outro lado, pergunta-se por que tais insurgências não ocorrem no Brasil. Até mesmo comentários a respeito da falta de bravura do povo brasileiro começam a circular. Quem acredita em explicações psicológicas dessa natureza deveria subir algum dia o Complexo do Alemão a fim de ver ruas com barricadas, com grandes tonéis de concreto construídos pela própria população a fim de impedir a subida de caveirões da polícia. 
O Complexo do Alemão, abarrotado de policiais

Eles poderiam também ver os telhados cheios de projéteis de fuzis militares e ouvir os relatos de mães que contam a história do extermínio de seus filhos pelas forças da ordem

Ou seja, a relação entre estado e populações pobres e negras no Brasil só pode ser descrita de forma precisa mobilizando conceitos como guerra civil não declarada e praça de guerra.

Isto ocorre porque o poder sabe muito bem que as possibilidades de insurreição em nosso país são reais. Pois é praticamente inevitável que tais possibilidades se tornem realidade. 

No mesmo momento que as ruas de Santiago ardiam em chamas, o mesmo projeto ultraneoliberal autoritário que estava queimando no Chile era implementado no Brasil através da última votação da reforma da previdência. Algumas pessoas devem lembrar que a pobreza não mente. Tais reformas não levarão a classe trabalhadora ao paraíso, como não levaram em lugar algum. Antes, elas levarão a mesma frustração que chilenos e equatorianos expressaram. 

Os números fazem arder toda ideologia: menos de 3% das famílias se apropriam atualmente de 20% da renda total do país (segundo IBGE). Em 2018, o rendimento do grupo 1% mais rico cresceu 8,4% enquanto o dos 5% mais pobres caiu 3,2%. Isto num país com taxas de desigualdade impensáveis para o resto do mundo. Tal processo irá apenas se acentuar. Que não nos enganemos: o Chile é aqui.
Extrema-direita tenta capitalizar repúdio ao Estado
No entanto, há um dado importante e diferencial no Brasil. Os que ocupam atualmente o governo já se colocam como força anti-institucional. 

Temos um governo que fala, a todo momento, estar operando uma revolução no país. Por isto, ele mobiliza continuamente a lógica do governo contra o Estado

Diante de manifestações com as que estamos vendo agora eles podem muito bem associar a mais extrema violência a um discurso de acolhimento. 

Algo do tipo entendo seu descontentamento. Estou, desde que entrei no governo, lutando contra as forças do estado, do parlamento e mesmo do meu partido que procuram me impedir de governar. Peço a vocês mais poderes contra as forças ocultas que dominam a política nacional e não permitem que um não-político como eu atue.

Isto significa que, assim como em 2013, as força de transformação podem ser colonizadas por processos autoritários no Brasil. Por isto, todo o esforço deveria se dirigir para se preparar a esses processos insurrecionais. Ou seja, todo esforço em direção a trabalhos transversais de convergência e assunção de uma pauta clara de ruptura econômica. 

Para se ter uma ideia, há dias o candidato democrata Bernie Sanders divulgou seu programa econômico para a próxima eleição norte-americana. Esse programa, de um candidato do Partido Democrata, é infinitamente mais radical do que todos os programas que a esquerda oficial brasileira foi capaz de apresentar. 
Bernie Sanders, bem mais radical do que a esquerda brasileira 

Suas proposições sobre modificação estrutural das relações trabalhistas ao dar aos trabalhadores quantidade igual de assentos nos boards de empresas e garantir que, ao menos, 20% das ações estejam nas mãos do trabalhadores é simplesmente fora da pauta no Brasil.

Isso demonstra como não estamos politicamente preparados para o novo round da luta de classes. (por Vladimir Safatle, no jornal internacional El País)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

QUAL SERÁ A FAGULHA BRASILEIRA?

A revolta está no ar e nas telas, com protestos brotando como cogumelos pelo mundo...
Aprovado o confisco das aposentadorias dos trabalhadores: festa nos bunkers de banqueiros e financistas do Brasil. 

A aprovação em si não foi surpresa. A casa de bandidos chamada Congresso Nacional é movida na base do suborno. Aberto o cofre, o resto não passa de questão de tempo. A surpresa é a apatia social em torno desta aprovação. 

No tocante à oposição, a indiferença é explicada por acordos de bastidores em favor da libertação de Lula (falo mais disto noutro artigo).

Quanto ao povo, sua indiferença advém tanto de uma despolitização fruto de décadas de pregação à direita (via TV, rádios, jornais e igrejas) e à esquerda (graças a Lula e asseclas), quanto da desinformação pela qual a mídia também tem grande responsabilidade. E não podes ser omitidas a apatia generalizada e uma visível indiferença a mudanças pela via institucional. 
...mas o povo brasileiro assiste bovinamente à destruição boçal dos fundamentos da vida civilizada...
O povo brasileiro não acredita na política institucional. Prova disto é o constante crescimento dos votos nulos, brancos e de abstenções nas últimas décadas, além da baixa aprovação das instituições do Estado – atestada por pesquisas de institutos insuspeitos como Ibope e DataFolha –, afora ter eleito um imbecil que pregava contra o stablishment. Não se enganem, o povo elegeu Bolsonaro por acreditar que ele destruiria o sistema político brasileiro. 

Quantas lágrimas rolariam hoje no Brasil se um atirador entrasse no Congresso Nacional e promovesse um massacre de parlamentares, fazendo voar perucas e ternos? Nenhuma! 

Quanto choro haveria se o STF explodisse rumo aos céus? Zero! 

Sejamos realistas, o povo odeia seus ditos representantes e defensores dos seus direitos. Odeia seus juízes, seus governadores, seus prefeitos e representantes legislativos. O ódio no Brasil é tão profundo que se pode cortá-lo no ar. 
...pode, contudo, ser só a calmaria que antecede a tempestade...
Mas, não é apenas ódio ao sistema político. É também de classe. Menos claro, mas presente. O Brasil é um país tão desigual e massacrante que o vizinho com um padrão de vida um pouco melhor já é visto como sendo um burguês. 

O favelado odeia a classe média remediada, que por sua vez odeia o favelado incivilizado. Isto porque o abismo é imenso e basta ter uma renda mensal de meros 5 mil reais para alguém já ser considerado rico! Mesmo que tal rico esteja afogado em dívidas do cartão de crédito ou do consignado bancário. 

Tal golpe de vista também é fruto da despolitização. O trabalhador pobre não consegue enxergar de modo adequado seu verdadeiro inimigo de classe. Muitas vezes, acaba se solidarizando com ele. Odeia seu vizinho, que pode viajar para o Nordeste, mas fica entusiasmado com o dono da Havan, um dos maiores exploradores do país. 

Felizmente, na prática o povo acaba mostrando sua capacidade de identificação política. 2013 já mostrou isto: em meio ao tumulto, bancas de jornais acabavam pagando o pato da fúria do povo, mas também agências bancárias, lojas de veículos, lojas do varejo e hipermercados. Cada ônibus queimado nos quase diários protestos das periferias brasileiras é prova da consciência de classe do povo, que teima em surgir, apesar de tudo.

Hoje, a situação da população brasileira é muito pior do que era em 2013. A recessão econômica, incubada pela crise de 2008, mas largamente piorada pela burguesia brasileira para impor suas medidas draconianas, leva milhões de brasileiros ao desemprego, ao subemprego e à miséria. 
...e nada impede que ressurja aqui o que aqui nasceu...

Quem não trabalha, sobrevive no crime, na venda ambulante ou na mendigagem. 

A sorte não é melhor para quem trabalha, tendo de se submeter, muitas vezes, condições desumanas ou aceitar virar um empreendedor: entregador de comida, cruzando a cidade em cima de motos e bicicletas, ao longo de jornadas de doze horas e faturando pouco mais que o suficiente para sobreviver. 

O Estado brasileiro, por sua vez, resolveu abandonar por completo qualquer tentativa de mitigar o sofrimento dos infelizes. Até mesmo o neoliberal bolsa família passou a ter sua verba diminuída, em paulatino processo de extinção. 

A burguesia abraçou por completo sua natureza colonial e viverá de vender commodities, comprar manufaturados e enricar com jogatinas financeiras. Não quer mais produzir um só parafuso. 

Como consequência, milhões de pessoas são jogadas na desesperança. E, com a crescente automação técnica dos serviços, tudo tende a piorar no médio prazo, pois nem os precários empregos atuais estarão disponíveis no futuro. 

A consequência será terrível, pois milhões de desempregados, desalentados e desesperançados formarão uma massa poderosa de insatisfeitos, causando intensas tensões políticas. Nos aproximaremos do que já dizia Marx no século 19: "os trabalhadores não possuem nada a perder a não ser seus grilhões". 
...até porque a tarefa ficou inconclusa em 2013 e urge completá-la!
Neste contexto, a grande questão é: qual será o estopim da sublevação popular no Brasil? Em 2013, não foi exatamente a alta da passagem do transporte coletivo, mas a violência desmedida da PM contra os  manifestantes na Avenida Paulista que impulsionaram milhões às ruas. E agora, o que será?

No Equador e na França foram aumentos do combustível. Em Hong Kong, a tentativa de aprovar uma lei de extradição. No Chile, foi a majoração dos tíquetes do metrô. No Líbano, uma singela lei que buscava taxar conversas de WhatsApp. Em Honduras, fraudes eleitorais e no Haiti, novamente o encarecimento do preço do combustível. 

No entanto, tais foram as fagulhas, as causas são muito mais profundas, principalmente o fato de a economia estar degradada, com poucos faturando bilhões e muitos relegados a condições materiais cada vez piores. 
Então, como acontecerá no Brasil? Qual será nossa fagulha? 

Que a sublevação virá, é algo esperado até por Bolsonaro, pois ele colocou o exército em prontidão. A contagem regressiva está em curso. (por David Emanuel de Souza Coelho) 
"O 3º mundo vai explodir! Quem tiver sapato não sobra!"
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