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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!). Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O PESADELO SE REPETIRÁ? SARNEY NÃO NOS BASTOU? AGORA TEREMOS DE SUPORTAR O SR. OPUS DEI?

Quando tivemos de engolir, como primeiro presidente da República civil após 21 anos de ditadores impostos pela caserna, um serviçal ridículo do regime militar, já deveríamos ter aprendido a não aceitarmos a formação de chapas encabeçadas por políticos de centro-esquerda que nós ingenuamente apoiávamos, tendo como vices criaturas escrachadamente de direita.

Mas, condescendendo com Tancredo Neves nos condenamos a uma redemocratização pela metade com José Sarney.

Votamos em Dilma  e acabamos assistindo, impotentes, Michel Temer a preparar o terreno para o advento da barbárie bolsonarista.

E agora, por havermos apostado  num Lula em franca decadência, nos vemos ameaçados com a eventualidade de suportarmos 2 intermináveis anos com Geraldo Opus Dei Alckmin no poder.

Bem diziam os antigos: quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue. 

Então, que nenhum dos nossos se queixe se os excluídos forem muitas vezes mais barbarizados, como o foram em 2012 na desocupação do Pinheirinho  (CL)

domingo, 28 de abril de 2024

O FIASCO DA ESQUERDA INSTITUCIONAL NO CONTEXTO DE GUERRA E DEPRESSÃO

 


N
ão me apraz constatar que a esquerda de há muito se conformou com um infrutífero papel de diluição do seu conteúdo revolucionário, anticapitalista, para se adaptar à forma de relação social própria ao sistema produtor de mercadorias, na vã tentativa de humanizá-lo. 

O mais grave é que isso ocorre no exato momento da sua desintegração total, evidenciada pelo pipocar das guerras e movimentos migratórios sem precedentes na história mundial, em face da inviabilidade estrutural dos conceitos de forma e conteúdo desse mesmo sistema. 

Assim, essa esquerda acaba por concordar implicitamente com a tese equivocada de que o capitalismo pode se adaptar às mutações sociais próprias ao movimento dialético da história tornando-se eterno.  

Dessa forma, no Brasil a esquerda institucional oPTou pela socialdemocracia e está definhando juntamente com a sua escolha de administração e participação política: a ordem econômica-institucional capitalista.  

Essa é a razão básica do crescimento da direita, que sem oposição consistente e duradoura, tenta fazer vingar os seus postulados retrógrados que encontram eco numa sociedade desesperada, desinformada e inconsciente de si mesma.  

Por aqui, há quase onze anos, em 2013, na cidade de São Paulo, Meca do capitalismo da América do sul, houve uma explosão de insatisfação popular por conta de um gatilho de tal estado de ânimo: um mero aumento de passagens. Um gatilho que gerou turbulências que perduram até hoje.   

Diante da ausência de comando de organismos sindicais e partidos da esquerda, que preferiram condenar o movimento, como ficou clara na posição da presidenta Dilma Rousseff, a direita “deitou e rolou” com seu discurso neofascista, recebendo apoio de uma classe média que, embandeirada de verde-amarelo, estimulou o impeachment que veio já em 31 de agosto de 2016, tendo o ex-petista Hélio Bicudo como signatário e sendo aceito pelo abominável presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e referendado pelo legislativo. 

Tudo ocorreu num prazo de pouco mais de três anos e foi o estopim da ascensão ao poder político federal de um deputado federal do baixo clero, de baixíssima capacitação moral e competência para o exercício do cargo: Bolsonaro, o ignaro.   

Resultado: fomos os campeões em porcentagem de mortes por uma epidemia sanitária - cerca de 10% do total das mortes calculadas em 7 milhões, quando temos apenas 3% da população mundial-, em face da demora do uso de vacinas e da incitação governamental à normalização e manutenção das atividades sociais - comércio, produção de mercadorias, serviços, escolas, etc. -, para ficarmos apenas nesse dado irrefutável de comportamento irresponsável e genocida.  

A ordem capitalista, na sua percepção do desastre sistêmico iminente que paira sobre sua cabeça, encontrou sobradas razões para anular um processo judicial parcial e midiático - não esqueçamos que a mesma rede Globo que hoje condena a lava jato, é aquela que tinha o privilégio de transmitir ao vivo e à cores as espetaculares prisões e arbitrariedades -, e trouxe ao processo eleitoral aquele que poderia vencer o tresloucado presidente candidato à reeleição, que deixara de servir aos interesses dos donos do PIB por sua idiossincrasia.  

Tal qual Tancredo Neves no passado, que sempre serviu de válvula de escape à direita para os momentos de tensões políticas e de ameaças à ordem institucional capitalista, trouxeram de volta o conhecido e moderno conciliador socialdemocrata que, para muitos trabalhadores desempregados, mal-empregados e pequenos comerciantes representava a lembrança de tempos mais venturosos: Luiz Inácio Lula da Silva. 

O personagem perfeito para cumprir o papel de administrador da crise de depressão capitalista mundial sob o manto da esmaecida estrela vermelha do socialismo mundial cooptado.  

Ufa!! Retiramos o bode da sala!! 

Mas, passado ano e meio do alívio, eis que temos que encarar a realidade. Há dez anos temos um PIB pífio e que se anuncia como ainda menor para este ano do que foi no ano passado, isso após 10 anos de paralisia econômica.   

Mas não devemos acreditar no senso de justiça das três principais instituições da democracia burguesa - parlamento, judiciário e força militar - a serviço dos donos do PIB daqui e do mundo, que agem de acordo com a direção dos ventos tal qual as birutas dos aeroportos.  

Temos problemas estruturais que já não encontram paliativos nas conhecidas medidas políticas e econômicas tradicionais que se expressam: 

- nos renitentes altos níveis de desemprego;  

- nos baixos salários médios que fazem os sindicatos se silenciarem por medo de demissões em massa e se enfraquecem por não apresentares soluções consistentes para seus associados;  

- na ameaça de retomada da inflação, que representa confisco de salários já defasados;  

- no aumento da criminalidade e poderio do crime organizado;  

- na contradição do discurso de preservação ambiental em contraponto à ênfase na produção e distribuição de petróleo;   

- na necessidade governamental de obediência às exigências ditatoriais de mercado que se contrapõem às justas necessidades do povo, sob pena de êxodo de investimentos; 

- na frustração pela sempre postergada retomada do desenvolvimento econômico num mundo em depressão, que promoveria relativo bem estar social; 

- nas taxas de juros altas e que incidem sobre uma dívida pública crescente e que penaliza o povo brasileiro (cada buchudinho da favela  paga R$ 3.600 de juros ao sistema bancário e rentistas do mundo todo), e que se diferencia dos juros pagos pelos membros do G7, demonstrando quão extorsivo é o sistema bancário mundial;   

- e tantas outras contradições que se explicitam no fato de não se poder (e nem se querer) negar aquilo a que se serve e do que se serve, ou seja, no fato da esquerda pretensamente anticapitalista receber benesses, sob as mais variadas formas, para administrar e assumir a falência sistêmica capitalista. 

Mas, para desespero dos conformistas, há um clima de guerra mundo afora.  

Tal clima de guerra deriva de uma crise estrutural do capitalismo que tenta manter pela força bélica o que já não pode ser contido pelas regras da política diplomática. A insatisfação no interior dos países gera uma ebulição por conta da pretensão de formação de novos blocos pretendentes a se tornarem economicamente e militarmente hegemônicos seguindo a natureza belicosa e competitiva própria ao sistema produtor de mercadorias.    

Enquanto isso, a esquerda perde sua referência revolucionária e se perde numa função estranha ao que é, ou deveria ser, seu ethos original para ocupar um espaço de coadjuvante na administração política do capitalismo decadente.  

Assim, a esquerda institucional abdica do protagonismo na cena mundial que está a merecer uma intervenção propositiva diferente, emancipatória, salvadora, igualando-se ao papel que os atores capitalistas estão a encenar. 

O povo, na sua crença ilusória e simplista da capacidade do poder político governamental de resolver os problemas que se agravam, vê-se diante da repetida frustração da ação governamental em cumprir tal desiderato, e manifesta o seu desencanto a cada ciclo eleitoral, e assim a vida segue com mudanças cosméticas que não alteram a substância do que lhe serve de base.  

Mas o espaço de manobra é cada vez mais reduzido no tempo e no espaço e essa é a razão pela qual o governo Lula perde prestígio, fato demonstrado pelas últimas pesquisas de opinião pública.   

A política, stricto sensu, na verdade é um poder sem soberania de vontade que foi moldado para servir ao capital e, portanto, não pode se voltar contra seu criador sob pena de deixar de ser o que é: uma esfera meramente serviçal de um senhor absolutista e ditatorial. 

À esquerda cabe se reinventar e confrontar essa realidade, por mais dura e difícil que seja, e para merecer a credibilidade duradoura perante a opinião pública.  

Isso somente poderá ser alcançado com a negação do poder político vertical imanente à ordem capitalista, ou seja, se se despir da roupagem com a qual se travestiu e que se constitui como contradição contida na afirmação concomitante daquilo que diz negar na sua ação político-social. (por Dalton Rosado)

 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ ABRIU CAMINHO PARA A REDEMOCRATIZAÇÃO CONSENTIDA

Por este placar os paulistanos viram, voto a voto,
a emenda Dante de Oliveira ir sendo rejeitada...
Foi de arrepiar a campanha das 
diretas-já, desenvolvida pela cidadania para convencer o Congresso Nacional a aprovar a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia imediatamente as eleições diretas para presidente da República.

Houve uma série de grandes comícios nas nossas principais capitais, alguns deles reunindo até 1 milhão de brasileiros (o derradeiro, em 16/04/1984, cravou a incrível marca de 1,5 milhão!) que não suportavam mais a bestialidade & boçalidade impostas pelos golpistas de 1964.

As minhas melhores lembranças são:

— o mar de camisas amarelas sinalizando a volta da esperança;

— o incrível tour-de-force de Leonel Brizola que, em função da mesquinha disputa de espaço político no campo da esquerda, começou sob vaias seu discurso numa manifestação das diretas-já na Praça Clóvis (SP) e, com sua fala empolgante, conseguiu colocar o público a seu favor, terminando sob aplausos generalizados; e

— a promessa do craque Sócrates em comício-monstro no Anhangabaú (SP), de que, caso fosse restituído ao povo brasileiro o direito de escolher seu presidente, ele ficaria aqui para contribuir na redemocratização, recusando a proposta astronômica da Fiorentina.

Infelizmente, o Congresso rejeitou naquele funesto 25 de abril a emenda Dante de Oliveira e a eleição acabou sendo, mais uma vez, indireta. 

Aí, parte dos parlamentares que haviam frustrado a vontade popular abandonou o partido da ditadura (o PDS, sucessor da Arena) e formou uma nova agremiação (o PFL, depois DEM) que, unida ao PMDB, assegurou a vitória do peemedebista Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os vira-casacas de última hora receberam as recompensas de sempre.
...por haver obtido só 62,6% de  votos favoráveis e não os
66,67%  que seriam necessários. Os ausentes decidiram.

Um dos piores deles era José Sarney,  que presidia o PDS mas estimulou a dissidência que viraria PFL... tendo, contudo, ele próprio se filiado ao PMDB, provavelmente para tornar mais digerível sua indicação para vice na chapa de Tancredo (a qual, evidentemente, já haveria sido articulada nos bastidores).

A presidência acabou lhe caindo no colo: como Tancredo, vitimado por uma infecção generalizada, nem sequer pôde assumir (Deus castiga!, diziam os antigos), o primeiro presidente pós-ditadura acabou sendo alguém que, meses antes, era um dos mais servis serviçais dos militares.

Eis as perguntas que não querem calar:
1. quando, exatamente, esses congressistas de origem  arenosa  decidiram desembarcar da canoa furada da ditadura?
2. foi só depois de eles terem assegurado, com seus votos, a rejeição da emenda Dante de Oliveira?
3. ou já era este seu objetivo desde o início, tendo voltado as costas ao povo para depois obterem bom preço nas barganhas com o PMDB?

Nunca tive a menor dúvida de que o jogo foi de cartas marcadas: o carteador trapaceou!
Foto divulgada para tranquilizar os brasileiros quanto  ao
estado de saúde do Tancredo; causou péssima impressão
.

O certo é que, pelo voto popular, daria Brizola ou Lula; pela via indireta, no infame tapetão, deu Tancredo.

A grande imprensa, sob a batuta da Rede Globo, tudo fez para vender o conceito de que tal saída da ditadura pela porta dos fundos era o coroamento das diretas-já. 

Fomos poucos os que, não só percebemos o embuste, como nos mantivemos coerentes com nossos valores, e, em meio à euforia orquestrada, denunciamos que tinha sido, isto sim, o resultado de uma traição à causa que havia mobilizado intensamente os melhores brasileiros

O oba-oba saudando a Nova República foi poeira colorida atirada nos olhos dos videotas, que acabaram engolindo gato por lebre: uma redemocratização pela metade, com expressiva participação de remanescentes ou cúmplices da ditadura, ao invés da verdadeira ruptura com o totalitarismo que a aprovação da emenda Dante de Oliveira teria propiciado.

Vai daí que não se investigaram as atrocidades cometidas pelo regime militar, nem se julgaram os criminosos (já que haviam anistiado preventivamente a si próprios!).
A eles se juntaria em 2016 a Dilma, segunda impichada

E, por havermos deixado passar o momento ideal para a apuração e punição dos responsáveis por tais episódios infames, a impunidade das bestas-feras e dos seus mandantes se tornou inevitável e irreversível. 

Impotente para mudar o rumo daquela farsa coonestada por uma esquerda já então ávida pelos nacos de poder que poderia conquistar sob a democracia burguesa, só pude desabafar:
"Não, não serei eu a tecer loas à transição manipulada que deu fim à ditadura militar sem mudança real na composição do poder (só nos métodos...) e sem que deixassem o povo decidir quem ele queria colocar no lugar do último general ditador. 
Nem endeusarei –jamais!– o político conservador com carisma zero que preferiu ver os brasileiros derrotados mais uma vez, desde que isto lhe permitisse apropriar-se da faixa presidencial sem passar pelo crivo das urnas".  
Enquanto isto, os bons companheiros engoliam não só o matreiro Tancredo Neves como (até mesmo!) o camaleônico José Sarney.  

Então, acabou sendo Sarney o presidente da redemocratização e, claro, esta ficou pela metade, exatamente por ser uma redemocratização consentida, sem coragem política para ultrapassar os limites traçados pelos que, presumivelmente, estariam deixando o poder. (por Celso Lungaretti) 
Brizola, por sua atuação destacada para frustrar o golpe já em 
1961, era quem os militares menos aceitariam como presidente.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 6: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

 

O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

Um fato claro nas manifestações de Junho de 2013 foi o rechaço absoluto à política institucional. Não apenas a recusa da presença de bandeiras partidárias, mas também o ódio aos políticos e a qualquer tipo de presença de organizações associadas ao sistema político nacional marcaram a irrupção do movimento em todo o país. 

Esse elemento, inclusive, é diferenciador das experiências passadas de manifestações populares no Brasil, quando era comum a presença maciça de organizações partidárias e de palanques. As Diretas Já são o exemplo paradigmático do modo de manifestação na história brasileira, com o formato de comícios em que políticos se revezavam em discursos enquanto o povo apenas ouvia sem agir diretamente. 

As Diretas também podem ser encaradas como um marco importante no processo de consolidação da República Nova e seu pacto conservador, pois incluiu forças políticas díspares indo desde o liberal Tancredo Neves, da oposição consentida à ditadura, até o operário Luís Inácio, passando por Leonel Brizola, todos unidos em torno da legitimação do processo transitório urdido pelos militares.

Assim, é bem simbólico que a ruptura com o Pacto Cidadão tenha ocorrido com o rechaço absoluto aos políticos e a seus comícios alienantes. 

Na realidade, a institucionalidade política está em degradação ao redor do mundo inteiro graças ao fenômeno da oligopolização econômica. No período clássico do liberalismo capitalista, a existência de pequenos e médios burgueses fazia acirrar a competição no mercado e criava vários grupos de interesse em confronto na arena política. A disputa entre esses grupos tornava as instituições estatais permeáveis à pressão popular, pois cada agrupamento buscava se chancelar junto a um segmento do povo. Igualmente, é nesse período que a socialdemocracia ascende na Europa representando a classe trabalhadora na equação das disputas políticas. 

Contudo, a situação muda com a reorganização neoliberal do capitalismo. Os pequenos e médios burgueses desaparecem, engolidos por mega corporações multinacionais. Os sobreviventes passam a ser meros prestadores de serviços das empresas maiores, sem autonomia. Os antigos burgueses se tornam trabalhadores precarizados ou vão viver de bicos cinicamente rotulados como empreendedorismo pelo grande capital. A homogeneização da economia acaba com a competição no mercado, pois, embora existam diferentes produtos e marcas, todas elas pertencem aos mesmíssimos grupos.  

O resultado político é o fim das grandes disputas políticas na sociedade. As poucas corporações compram praticamente todos os políticos, da esquerda à direita, e passam a controlar a agenda institucional tornando o Estado impermeável às reivindicações populares. Ou seja, a política passa a existir em função exclusiva dos interesses dos oligopólios. Os poderes executivo, judiciário e, sobretudo, o legislativo são totalmente dominados pelo poder do grande capital, tornando qualquer demanda popular praticamente impossível de ser apreciada. 

Pelo contrário, o que ocorre é uma enxurrada de medidas destrutivas ao interesse popular, com reformas trabalhistas, ataques ao meio ambiente, flexibilizações de benefícios sociais, privatizações, além de toda sorte de maracutaias associadas ao processo, instalando um clima de corrupção endêmica e baixíssimo grau de participação popular. 

As eleições se tornam meras chanceladoras de um único modelo político e o debate fica em segundo plano, imperando tão somente o uso ostensivo do marketing e da manipulação para vender o candidato. No fim, em cada eleição há uma disputa vazia em que nada de essencial se muda. Os partidos se revezam no poder com a aparência de serem forças opostas e inimigos mortais, mas, no fim e ao cabo, expressam e representam o mesmo grande capital, governando de modo praticamente idêntico. 

No Brasil, após o impeachment de Collor, se cristalizou uma oposição artificial entre PSDB e PT que cumpria rigorosamente o descrito acima, aparentar uma disputa e um revezamento político quando nenhuma diferença essencial existia entre eles. Na realidade, uma mesma linha mestra conduz os governos FHC, Lula e Dilma, uma linha continuada, com variações, por Temer e Bolsonaro e agora prosseguida com Lula 3.

Diante desse cenário, a população brasileira passou a sentir terrível frustração com a política institucional. Eleição após eleição, promessas eram feitas, grandes esperanças mobilizadas, mas nenhuma mudança concreta ocorria. O caldo da insatisfação foi crescendo paulatinamente até tomar proporções titânicas em Junho de 2013.

Os levantes significaram a derrocada completa do sistema político brasileiro que caducou de forma irreversível. O descolamento entre o povo e seus supostos representantes chegou a um nível tão profundo que a população não mais se reconhecia neles e esses tão pouco conseguiam entender os reclames populares. Décadas de engorda em palácios com reuniões fechadas, convescotes e acordões de bastidores deixaram os políticos tradicionais completamente alienados da realidade brasileira, sendo esse caso mais dramático no caso dos políticos de esquerda, rechaçados com ainda mais veemência pelos manifestantes na qualidade de traidores. 

O rechaço ao sistema político tradicional abriu possiblidades ricas no Brasil, como as experiências horizontais das Assembleias Populares e dos Movimentos Autonomistas. Infelizmente, tais ações tiveram vida curta, sendo esvaziados após o enfraquecimento do ímpeto das manifestações e as perseguições perpetradas pelo governo Dilma em articulação com os governos estaduais aos militantes mais ativos. No saldo, quem iria se beneficiar do sentimento anti-institucional seria as forças de direita, com a operação lava jato e a ascensão do bolsonarismo. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 

domingo, 1 de janeiro de 2023

O MALIGNO JÁ NÃO DÁ EXPEDIENTE NA PRESIDÊNCIA

josias de souza
3º MANDATO DE LULA SERÁ A 12ª TENTATIVA DE RECOMEÇO EM 6 DÉCADAS
É comum a vontade de começar tudo de novo, para ver se desta vez dá certo. 

Todo mundo já sonhou com a possibilidade de ter uma nova chance, de voltar atrás e, naquele momento decisivo, revisar os erros como se revisa um texto, apagando frases, suprimindo parágrafos, aperfeiçoando o enredo. 

O terceiro mandato de Lula será a 12ª tentativa de renascimento do Brasil em seis décadas de história republicana. 

A fuga de Bolsonaro para os Estados Unidos na antevéspera da nova posse de Lula potencializou a certeza de que o novo recomeço terá de partir do zero. Fracassos anteriores deixaram ensinamentos, aproximando o país de resoluções relevantes. 

O desastre Bolsonaro serviu apenas para demonstrar o que não deve ser tentado nunca mais. O brasileiro foi arrastado para o passado. Vive hoje a ressaca dos anos 60. 

Jânio Quadros e a vassoura que ele prometera usar para varrer a corrupção terminaram em renúncia. 

João Goulart, o vice que assumiu graças ao arranjo do parlamentarismo, acabou em deposição. 

O golpe militar de 64, que foi o desejo de mudança de muita gente, resultou em duas décadas de ditadura. 

A mobilização épica pelas Diretas Já, quarta tentativa de recomeço, deu em frustração. Decepcionaram-se os democratas, que tiveram que adiar o direito ao voto, e João Figueiredo, o último general-presidente, cujo epílogo foi uma declaração patética.

Instado numa entrevista de despedida a dirigir algumas palavras ao
povão, Figueiredo sapecou:
"Bom, o povo, o povão que poderá me escutar será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então, desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. E que me esqueçam". 
Tancredo Neves, a quinta tentativa de reescrever a história, terminou na cova. Tancredo saltou da vitória no colégio eleitoral para a cama de hospital. Morto, foi velado no Planalto antes de descer à sepultura. Deixou como herança o vice José Sarney, egresso da ditadura. 

Na gestão Sarney, a sexta tentativa, a restauração democrática confundiu-se com a anarquia econômica e administrativa. 

Fernando Collor, primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização foi o sétimo recomeço. Escorraçado pelo impeachment, revelou que o Brasil não aprendera com Jânio a desconfiar dos salvadores providenciais. 

Fernando Henrique Cardoso aproveitou o interlúdio representado por Itamar Franco para encaminhar, como ministro da Fazenda, a resolução do problema do combate à superinflação. 

Como presidente, após consolidar a mudança do regime monetário introduzida pelo Plano Real, FHC como que tirou das sombras todas as precariedades nacionais que eram obscurecidas pelo descalabro inflacionário: saúde sofrível, educação precária, desigualdade inaceitável... 

A Presidência pluritemática empurrou a oitava tentativa de renascimento para uma impopularidade que mantém o tucanato longe do Poder há mais de duas décadas. 

Em 2022, em estágio avançado de autocombustão, o PSDB desistiu de apresentar um candidato à Presidência. Saiu das urnas como um pequeno partido, a caminho do nanismo. 

Lula.1, o oitavo recomeço, tornou-se um caso único de presidente que sofreu emboscadas da Presidência quando já estava fora dela. 

Seu estilo de governar, firmando alianças tóxicas financiadas à base de mensalões e petrolões, revelou-se uma rendição à oligarquia política e empresarial. 

Após usufruir de seus dois primeiros mandatos, Lula deixou o Planalto enfiando os dedos no favo de mel de uma taxa de popularidade de 84%. Lambendo as mãos, elegeu a sucessora duas vezes. Tentava fugir das abelhas quando foi preso. 

Dilma Rousseff, o novo recomeço, foi vendida por seu criador como supergerente. Revelou-se um conto do vigário no qual o próprio Lula caiu. Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua como 12 milhões de pessoas. 

Se Lula passou à história como presidente que fez a sucessora, Dilma imortalizou-se como a criatura que desfez a obra do criador. 

Michel Temer, resultado da deposição de Dilma, sonhou em passar à história como presidente reformista. Depois do grampo do Jaburu, tudo virou epílogo no enredo do seu governo. 

Sobreveio Bolsonaro, o 11º recomeço. Catapultado pelo antipetismo do baixo clero parlamentar para o Planalto, Bolsonaro comandou o governo civil mais militar da história. 

Em quatro anos de Bolsonaro, o Brasil consolidou-se como o mais antigo país do futuro do mundo. Experimentou uma metamorfose às avessas. Como uma borboleta que volta à condição de larva, a pátria chega a 2023 arrastando atrás de si o seu passado como um casulo pesado e pegajoso. 

Mal comparando, Bolsonaro transformou a Presidência em algo muito parecido com um cano furado. Um esbanja água em esguichos perdulários. Outro esbanjou tolices e inverdades. O penúltimo jorro de Bolsonaro aconteceu na última 6ª feira (30). 

Antes de fugir para Orlando, paraíso do rato Mickey Mouse, o capitão ressurgiu numa live para dizer coisas assim: "Como foi difícil ficar dois meses calado trabalhando para buscar alternativas!". 

Ou assim: "Tem gente chateada comigo, dizendo que deveria ter feito alguma coisa, qualquer coisa. Mas, para você conseguir fazer alguma coisa, mesmo nas quatro linhas, você tem que ter apoio". 

A certa altura, Bolsonaro assumiu sua condição de camundongo autocrata:
"Entendo que fiz a minha parte, estou fazendo a minha parte. Agora, certas medidas têm que ter apoio do Parlamento, de alguns do Supremo, de outros órgãos e instituições". 
Ficou entendido que o Brasil só não virou uma
ratocracia porque as barricadas erguidas pela imprensa e pelo Judiciário, o instinto de sobrevivência dos aliados no Legislativo, a reação da maioria do eleitorado e os sinais emitidos pela comunidade internacional forçaram o capitão a se render à realidade:
"Não posso fazer algo que não seja bem feito e que, assim, os efeitos colaterais sejam danosos demais".
Bolsonaro desce ao verbete da enciclopédia como o presidente que virou a página da história para trás. Tornou-se um sub-Figueiredo. Há, porém uma diferença notável: o pedido do último presidente do ciclo militar –"Me esqueçam"– foi prontamente atendido pelos brasileiros. 

Bolsonaro adicionou à recusa de passar a faixa presidencial ao sucessor a fuga para o exterior.  Entretanto, continua boiando na atmosfera como uma ameaça insepulta. Avisou que não cogita jogar a toalha. 

Nas urnas de outubro, 60,3 milhões de brasileiros –o equivalente a 50,9% dos votos válidos no segundo turno de 2022– concederam a Lula 3 a oportunidade de liderar uma 12ª tentativa de renascimento . Foi uma vitória apertada. Bolsonaro degustou a preferência de 58,2 milhões de eleitores –ou 49,1% dos votos válidos. 

A despeito da vantagem magra, imaginou-se que, depois de tantos recomeços em falso, o Brasil finalmente deixaria de ser uma Terra plana. Entretanto, pesquisa Datafolha revelou que 39% dos brasileiros avaliam que a gestão ruinosa do capitão foi ótima ou boa. Outros 24% consideram que o desempenho de Bolsonaro foi regular. 

É como se 63% da sociedade transitasse entre o inacreditável e o inaceitável. Um pedaço do país tem dificuldades para acatar as ideias de Copérnico, para quem a Terra gira em torno do Sol. Outro naco hesita até mesmo em aceitar Darwin. 
Bolsonaro definiu a disputa eleitoral de 2022 como uma
guerra do bem contra o mal. A agora ex-primeira-dama Michelle rogou a Deus que afastasse do Planalto as assombrações demoníacas. Suas preces foram momentaneamente atendidas. O maligno já não dá expediente na Presidência, E madame tornou-se um adereço da fuga do marido. 

Nos mais de 60 anos que separam Jânio de Bolsonaro, o Brasil conviveu com duas formas de Poder discricionário: a ditadura institucionalizada e a ditadura da personalidade. Excetuando-se certos personagens que foram mais transições do que presidentes, proliferaram os ditadores e os loucos. 

A benevolência divina vinha poupando o país de alguém que acumulasse as duas condições. Súbito, surgiu Bolsonaro. 

O Brasil é um país que, além de dois presidentes submetidos ao impeachment, teve outro presidente que morreu no dia da posse. Antes, teve um que renunciou. E, antes ainda, teve um que se suicidou no Palácio. Nesse contexto, Lula tem a oportunidade de transformar a herança maldita de Bolsonaro num desastre didático e purgativo. 

Do contrário, arrisca-se a levar o país a confundir novamente em 2026 o histrionismo autocrático com substância e a loucura com solução. (por Josias de Souza)

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

CONFIRMADOS OS RECEIOS SOBRE A SAÚDE DO LULA, ELEGEREMOS ALCKMIN?!

Lula se recuperando do tumor de 2011
C
omo reagiria o PT se ficasse sabendo que seu candidato a presidente da República, o favorito da eleição, poderia não cumprir seu mandato, parcial ou totalmente, por causa de uma doença grave?

Conhecendo toda a trajetória desse partido, no qual militei durante uma década inteira (ingressei em 1979 para ajudá-lo a atingir o número de filiados  necessário para obter o registro na Justiça Eleitoral), não tenho dúvidas de que o PT tentaria manter tal informação em sigilo até o  final do pleito.

Daí minha decisão de abordar aqui um assunto melindroso, pelo qual eu passaria reto noutras circunstâncias.

No domingo retrasado (21), Gustavo Castañon, membro do diretório nacional do PDT, tuitou que "Lula deveria se submeter a uma avaliação médica pública para provar que seu câncer na garganta não voltou". [Referência a um tumor do qual Lula se livrou em 2011.]

Hoje (29) foi a vez de Ciro Gomes, o presidenciável do PDT, tuitar e logo depois apagar o seguinte:
"Será que não entendem que Lula está cada dia mais fraco fisicamente, psicologicamente e teoricamente para enfrentar a direita sanguinária?".
Some-se a isso a rouquidão do Lula tanto na sabatina do Jornal Nacional (25) quanto no debate entre candidatos de  ontem (28), além do suspeito excesso de elogios ao companheiro de chapa nas duas ocasiões e a conclusão será óbvia:  
Suspeita-se que Tancredo já estivesse morto
quando fizeram esta foto para tranquilizar o país
— ou se tratou de jogo sujo do PDT para disseminar alarmismo entre os eleitores adversários,
— ou o Lula corre mesmo o risco de repetir a sina de Tancredo Neves, que decerto já estava com um leiomioma qiando concorreu à presidência pelo colégio eleitoral, não conseguindo depois governar por um dia sequer do seu mandato.

O pior é que a escolha de Geraldo Alckmin, direitista moderado, para vice da chapa desagradou boa parte dos quadros não só do PT, como também dos partidos de esquerda  que estão a bordo da barca do Lula. Seria simplesmente ignóbil ludibriar toda essa gente que jamais quereria ver a faixa presidencial no ombro do carrasco do Pinheirinho, mas confiou na garantia do Lula de que saberia como lidar com ele.

O tempo urge e, se tais suspeitas forem infundadas, o PT precisa vir a público esclarecer todas as dúvidas o quanto antes e com a máxima transparência.

Já no caso de os receios serem procedentes, tem a obrigação política e moral de, honestamente, abrir logo o jogo, dando tempo à esquerda para concentrar seus votos e esforços num candidato que pertença realmente a nosso campo, ao invés de empoderar uma cria do Opus Dei.(Celso Lungaretti)

domingo, 24 de julho de 2022

SE O BOZO NÃO DERRETER DEPRESSA, CABERÁ O VOTO ÚTIL NO 1º TURNO (argh!)

A
o contrário do Lula, não temo nem hesito em reconhecer erros ou mudar de opinião quando se torna imperativo curvar-me às evidências de novos fatos.

Até agora eu  denunciava firmemente as manobras petistas para forçar o voto útil no 1º turno, pois será uma maneira a mais de esvaziar os pequenos partidos de esquerda, já torpedeados e quase destruídos pela cláusula de barreira.

Afora considerar simplesmente uma canalhice o PT e Lula estarem investindo neste cenário faz quase tanto tempo quanto o genocida. Jamais os perdoarei por boicotarem a luta pelo impeachment do Bozo apenas porque era o adversário mais fácil de derrotarem na eleição presidencial de 2022.

Por todos os motivos sobre os quais já discorri numa infinidade de artigos, tenho absoluta certeza de que o palhaço sinistro não se perpetuará no poder pela via golpista, pois tal regime não teria a mínima sustentação econômica. Mesmo que conseguisse um êxito inicial, sua ditadura lhe explodiria na cara em questão de meses, ou mesmo semanas.

Mas, o custo em vidas provavelmente seria maior ainda do que as centenas de milhares de brasileiros que o Bozo levou à morte durante a pandemia do coronavírus (algum dia ainda saberemos quantas foram realmente as vítimas fatais, provavelmente o dobro das oficialmente reconhecidas, e quantas tendiam a sobreviver se não houvesse um doido varrido encastelado no Palácio do Planalto).

Então, dou a mão à palmatória: para evitar mais mortes e sofrimento inúteis, é perfeita a vacina proposta neste domingo (24/07) pelo Elio Gaspari.

Lembrando que no dia 2 de outubro serão escolhidos 27 senadores, 513 deputados federais, aproximadamente mil deputados estaduais, além dos governadores que já houverem obtido maioria de votos válidos, ele ponderou que, se Lula também liquidar a fatura logo no 1º turno, um golpe teria contra si o fato de colocar sob suspeição a vitória de TODOS esses eleitos. 

Quem o tentasse, estaria batendo de frente com interesses amplamente majoritários. Sem chance.

Tenho de admitir que, caso o Bozo não derreta em agosto e setembro o suficiente para inviabilizar qualquer badernaço golpista após a consumação da derrota nas urnas eletrônicas, o mais sensato será taparmos o nariz e elegermos imediatamente o Lula.

Se isto servir como consolo, lembro que o Tancredo Neves sabotou as diretas-já para eleger-se pela via indireta, ganhou mas não levou. 

Talvez o destino ainda pregue uma peça no Lula, a quem devemos o suplício de havermos sido obrigados a aturar a totalidade dos quatro anos de horrores sob o Bozo, embora presidente nenhum da nossa República tivesse feito tanto quanto ele para merecer o impeachment. (por Celso Lungaretti) 
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