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sábado, 11 de dezembro de 2021

TEMOS ALGO A COMEMORAR NESTA 2ª FEIRA? SIM, A CERTEZA DE QUE O AI-5 CONTINUARÁ ONDE ESTAVA: NA LIXEIRA DA HISTÓRIA!

Personagens que desembestaram o terrorismo de Estado
O dia 13 de dezembro de 1968 foi um dos mais funestos e vergonhosos da nossa história, pois nele se promulgou o Ato Institucional nº 5.   

Dezessete sinistros personagens deram sinal verde para torturas, assassinatos, estupros, ocultação de cadáveres e todo o festival de horrores dos anos subsequentes, principalmente até meados dos '80.

Eram eles o ditador Costa e Silva e 16 de seus ministros: Albuquerque Lima (Interior); Augusto Rademaker (Marinha); Carlos Simas (Comunicações); Costa Cavalcanti (Minas e Energia); Delfim Netto (Fazenda); Gama e Silva (Justiça); Hélio Beltrão (Planejamento); Ivo Arzua (Agricultura); Jarbas Passarinho (Trabalho); Leonel Miranda (Saúde); Lyra Tavares (Exército); Macedo Soares (Indústria e Comércio); Magalhães Pinto (Relações Exteriores); Mário Andreazza (Transportes); Souza e Mello (Aeronáutica); e Tarso Dutra (Educação).  

Só um permanece vivo até hoje, Delfim Netto, que está com 93 anos e não se arrepende da autoria de uma assinatura da qual tanto sangue jorrou: segue afirmando que, se as circunstâncias fossem as mesmas, voltaria a proceder da mesmíssima maneira.

O 16º a falecer foi (em junho de 2016) o igualmente empedernido Jarbas Passarinho, de origem militar, que  ao proferir seu voto, disse a frase mais emblemática daquela infame reunião ministerial:
Jarbas Passarinho assumiu-se inescrupuloso 

"Às favas, sr. presidente, neste momento,
todos os escrúpulos 
de consciência"
.
Ele continuou, pelas décadas adentro, enturmado com as aves de mau agouro, sempre defendendo o regime de exceção ao qual serviu nas equipes ministeriais de Costa e Silva, Médici e Figueiredo.

Um mês depois chegou a vez de Rondon Pacheco, cuja assinatura não consta do documento, embora chefiasse o Gabinete Civil. Talvez a lacuna se deva a haver sido um personagem reticente naquele momento, tendo inclusive tentado fixar prazo para a vigência do AI-5: um ano apenas. 

Também se atribui a ele e ao ministro da Justiça Gama e Silva o mérito de, numa reunião prévia, terem excluído do documento alguns pontos mais duros, como o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. 

Outra voz dissonante foi a do vice-presidente Pedro Aleixo, que inclusive empenhou-se adiante em restabelecer a legalidade. Chegou a convencer Costa e Silva, mas este morreu antes de concretizar o intento (coincidência?).

O  golpe dentro do golpe, que levou ao paroxismo o fechamento ditatorial do País, foi o lance decisivo da disputa interna entre a linha dura militar (que queria radicalizar o arbítrio) e os conspiradores originais (oficiais veteranos da participação brasileira na 2ª Guerra Mundial). 
Arbítrio ditatorial foi levado ao paroxismo

Os últimos, encabeçados por Castello Branco, pretendiam manter a usurpação do poder por pouco tempo. Falavam numa intervenção cirúrgica, durante a qual imporiam medidas que modernizassem o Estado e enfraquecessem a esquerda (prisões, perseguições, cassações, extinção de entidades legais, etc.). 

Aprenderam, contudo, que implantar uma ditadura é bem mais fácil do que dar-lhe fim.

As duas posições competiram acirradamente pela hegemonia na caserna ao longo de 1968, mas o crescimento dos movimentos contestatórios fez a balança pender para  o lado dos ferrabrases. 

Estes iam ao encontro da cultura de intolerância que grassava nos quartéis, pois se propunham a dotar o regime de meios para reagir com maior contundência às manifestações de rua e ao desafio das organizações armadas, passando por cima dos direitos humanos.

Pesaram também os interesses mesquinhos dos oficiais das três Armas, seduzidos pelas perspectivas que o prolongamento do regime de exceção e a ampliação dos poderes ditatoriais abriam para seu enriquecimento pessoal:
— os da ativa, como gestores de um setor estatal que estava sendo cada vez mais inflado, ou como beneficiários de suas boquinhas; e
— os da reserva como facilitadores dos favores oficiais (quase todos os grandes grupos privados contrataram militares reformados para integrarem seus conselhos de administração, como forma de terem seus interesses contemplados nos altos escalões governamentais).
"...gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente..." É mesmo?

Há historiadores hoje sustentando (vide aqui) que o AI-5 teria objetivado, principalmente, intimidar e enquadrar setores da sociedade civil que haviam apoiado o golpe de 1964, mas que, quatro anos depois, estavam ficando descontentes com a ditadura (casos da Igreja Católica, da imprensa, do Poder Judiciário e de líderes políticos). Fica o registro.

O pretexto para a nova virada de mesa foi um discurso exaltado do deputado Márcio Moreira Alves numa sessão esvaziada (o chamado pequeno expediente) da Câmara Federal, no início de setembro de 1968.

Tratava-se de uma lengalenga sem verdadeira importância (incluía até uma sugestão às moças, de que não namorassem alunos das academias militares – vide aqui), proferida apenas para constar dos anais e poder ser exibida depois aos eleitores, quando ele lhes fosse pedir votos num pleito vindouro.
Moreira Alves deu o pretexto que a linha dura buscava

Mas, um jornalista favorável ao arbítrio vislumbrou a oportunidade de uma provocação e trombeteou-a; em seguida, os partidários do enrijecimento a divulgaram amplamente, mimeografada, entre os fardados, insuflando a indignação.

As Forças Armadas se declararam atingidas e o governo pediu ao Congresso Nacional a abertura de um processo visando à cassação de Moreira Alves. 

Os parlamentares, depois de em tantas ocasiões, tão vergonhosamente, se prostrarem aos ultimatos da caserna, daquela vez rechaçaram o pedido, temendo que outras cabeças fossem exigidas na sequência e a caça às bruxas acabasse extinguindo o mandato de muitos deles. 

Pateticamente, encerraram a sessão cantando o Hino Nacional, sem perceberem que tinham é escancarado as portas do inferno.

A resposta da ditadura foi imediata e a mais tirânica possível: colocou os Legislativos federal e estaduais em recesso e impôs à Nação, na marra, novas e terríveis regras do jogo.

O presidente da República (escolhido por um Congresso Nacional expurgado e intimidado) passou a dispor de totais poderes para:
— cassar mandato eletivos;
— suspender direitos políticos;
— demitir ou aposentar juízes e outros funcionários públicos;
Este desafio foi outro pivô do AI-5
— suspender o habeas corpus em crimes contra a segurança nacional;
— legislar por decreto; e
— julgar crimes políticos em tribunais militares, dentre outras medidas totalitárias.

Principal ferramenta do terrorismo de Estado, o AI-5 só seria atirado na lixeira dez anos depois.

Nesse meio tempo, centenas de resistentes foram executados, dezenas de milhares torturados, mais de uma centena de parlamentares cassados, um sem-número de funcionários públicos atirados no olho da rua, a arte amordaçada (mais de 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros e umas 500 canções sofreram os rigores da censura), etc.

Quando os gorilas saíram do armário, o Brasil entrou num dos períodos mais bestiais e vergonhosos de sua História.

Hoje, embora a efeméride seja das mais negativas, há algo a ser comemorado: o fracasso acachapante da horda de mentecaptos ultradireitistas que, com o destrambelhado incentivo de um presidente cujos sintomas de insanidade mental são indisfarçáveis, tentou nos últimos três anos retirar tal abominação nauseabunda da lixeira da História. 

Mas, a micareta golpista que eles programaram para o último dia 7 de setembro flopou de forma tão ridícula que só haverá condições de repetirem tal palhaçada daqui a outra metade de século, caso a agonia do capitalismo não chegue ao fim até lá e suas vítimas, desesperadas, tenham nova crise de amnésia.

Desta vez não passaram. E, para os que virão depois de nós, fica a tarefa de garantir que nunca mais passem!
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UM DEPOIMENTO PESSOAL – Para jovens estudantes que, como eu, ingressaram na luta a partir do novo ascenso do movimento de massas,  aquele agourento 13 de dezembro de 1968 marcou o fim da aventura e o início da tragédia.

Passáramos o melhor ano de nossas vidas descobrindo a luta e descobrindo-nos na luta. Aí veio aquele pacote de medidas draconianas ao extremo, cujas implicações captamos de imediato: haviam declarado guerra contra nós e os riscos dali em diante seriam imensos. 

Mesmo assim, diante da alternativa desistir x perseverar, fizemos a opção digna... que se revelaria das mais sofridas.

Então, o AI-5 foi o divisor de águas entre o 1968 exuberante e o 1969 soturno.
A passeata dos 100 mil foi o ápice dos protestos de 68

Entre o enfrentamento a céu aberto e o martírio nos porões.

Entre a luta travada ao lado das massas despertadas e a luta que travamos sozinhos em nome das massas amedrontadas.

Meu avô morreu quando meu pai tinha 11 anos. Como era o primogênito, minha avó fez com que começasse imediatamente a trabalhar  numa fábrica escura, barulhenta e empoeirada, burlando a legislação que exigia idade mínima de 14 anos.

Passou o resto da vida lamentando a responsabilidade que desabou cedo demais sobre seus ombros. Num dia, estava despreocupadamente jogando bola no campinho ao lado de sua casa. No outro, esfalfando-se oito horas seguidas para colocar o pão na mesa familiar.

O AI-5 teve o mesmo efeito sobre mim. Até então, a militância era puro deleite. De um momento para outro, tornou-se um pesadelo que me deixou em frangalhos, além de tragar alguns dos meus melhores amigos e tantos companheiros estimados.

Parafraseando uma bela canção de Neil Young, foi a saída do azul e entrada nas trevas. (por Celso Lungaretti)
 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

INSENSATO COMO QUALQUER NAPOLEÃO DE HOSPÍCIO, O BOZO SEMEIA VENTOS E PODE COLHER UMA TEMPESTADE VERDE-OLIVA

william waack
A INSUBORDINAÇÃO
DE BOLSONARO
Durou quase meio século a trajetória do Exército entre eliminar a ameaça de anarquia dentro da instituição e o retorno à ameaça de anarquia. Nos dois episódios – quando a anarquia foi abortada e quando ela foi incentivada – a figura central foi o presidente da República.

No primeiro episódio o mandatário era o general Ernesto Geisel – alguém que, de fato, sabia o que era a natureza do poder. Destituiu sumariamente em 1977 seu ministro do Exército por entender que aquele oficial participava de um movimento de insubordinação, que arrasava qualquer princípio de autoridade, começando pela do presidente *.

No segundo episódio o mandatário é o ex-capitão Jair Bolsonaro – alguém que, de fato, nunca soube o que é poder. Incentivou a insubordinação de um general, atacando um pilar fundamental de qualquer Exército, sem entender que está colocando em jogo a própria autoridade. Aliás, exercida de forma incoerente, contraproducente e que está diminuindo depressa.

Talvez um especialista do campo da psiquiatria explique melhor o desprezo que Bolsonaro tem pelo funcionamento de instituições, que são complexas estruturas apoiadas tanto em normas e códigos formais quanto na confiança que se atribui a elas. 

Um esclarecedor exemplo desse fato está na maneira como Bolsonaro tratou o Ministério da Saúde, cuja eficácia acabou sendo severamente comprometida no combate à pandemia não tanto pelo aparelhamento com incompetentes, mas, sobretudo, pela concorrência a ele criada pelo presidente e seu círculo informal de aconselhamento integrando charlatães, puxa-sacos e irresponsáveis dando palpites sobre políticas públicas de saúde.
No caso do Exército, o primitivismo político de Bolsonaro o faz enxergar como última garantia de poder de fato. Daí querer dominá-lo. Contudo, até o mais empedernido leninista compreende que o poder político baseado exclusivamente na força militar não dura para sempre, e que o exercício do poder abarca convencimento, visão, liderança e articulação de diversas forças (para não falar das ideias e postulados que as movam). 

Na linguagem marxista, o bonapartismo bem-sucedido é o que conhece seus limites.

Mas, para Bonapartes de hospício, é bem possível que a recusa de Forças Armadas a embarcar em aventuras políticas tenha revigorado instintos nunca dominados. Bolsonaro é o principal insubordinado em relação ao Exército, fato mais uma vez demonstrado ao trazer para junto de si no Planalto um general processado por indisciplina. Está sinalizando a todos que a transgressão da regra compensa, contanto que o transgressor seja alguém de lealdade irrestrita ao mito. 

Políticos na posição de Bolsonaro que agem mais por instinto do que por raciocínio são a regra, e não a exceção. Os que se acham infalíveis, também. 

Quando instinto, visão e raciocínio combinam com os fatos da realidade, acabam virando estadistas. São raríssimos, e talvez a geração no Brasil que foi às urnas pela primeira vez já no século 21 não se lembre de nenhum. Os atuais passam longe disso.

Geisel abortou a anarquia e, de uma posição de autoridade, iniciou ainda em 1977 o caminho (admita-se, lento e tortuoso) que levou à devolução do poder aos civis e à redemocratização. Nesse sentido, é um marco na linha do tempo que não pode ser ignorado, pelo símbolo e pelas consequências. 

Um niilista como Bolsonaro, sem visão política coerente e desprovido de qualquer princípio que não seja a própria sobrevivência, ao incentivar a anarquia, também quer colocar um marco na linha do tempo.

Seu símbolo já é claro. Quanto às consequências, dependem do grau de coesão interna e da liderança de instituições como a do Exército. Ou seja, de como sobrevivem a Bolsonaro. (por William Waack), n'O Estado de S. Paulo)

* General linha dura, Frota discordava da política de Ernesto Geisel de devolução do poder aos civis e tentou abortá-la apresentando-se aos altos comandantes militares como postulante à chefia do governo, para a qual o presidente já escolhera João Baptista Figueiredo.
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Ou seja, insurgiu-se ao mesmo tempo contra uma das principais políticas de Geisel e contra a sua prerrogativa de indicar o sucessor.
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O 
desrespeito à hierarquia foi considerado tão grave pelo oficialato que mesmo os adversários da abertura de Geisel não deram um pio para evitar que ele destituísse Frota. (CL)

quarta-feira, 31 de março de 2021

O QUE HÁ PARA CELEBRAR-SE NESTE DIA, SENHOR MINISTRO? UMA ABOMINAÇÃO?

M
anda uma ordem-do-dia do  ministro da Defesa recém-empossado para uma permanência mínima no cargo,  pois o governo ao qual serve agoniza, que seja hoje (31) comemorado o aniversário da virada de mesa institucional responsável por 21 anos perdidos e por um festival de horrores que até hoje envergonha os brasileiros civilizados. 

O blog terá prazer em dar sua colaboração, recapitulando-a para os contemporâneos da infâmia e apresentando para as novas gerações o que foi a usurpação de poder verdadeiramente consumada no dia da mentira de 1964 e não na véspera (vide aqui), bem como a nada branda ditadura dela resultante, ainda hoje reverenciada por seus carrascos impunes, incensada por suas patéticas viúvas e louvada pelos cuervos  que o totalitarismo criou.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, caberia a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morresse – mas, pelo contrário, servisse de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo. 

Infelizmente, não estivemos nos últimos anos à altura de nossa missão, daí a catástrofe que se abateu sobre o Brasil, com um herdeiro espiritual do pesadelo anterior produzindo o maior morticínio gratuito da nossa dolorosa História (pouco importa se o chamarmos de genocídio ou de crime contra a humanidade, as discussões semânticas são um escárnio num momento  destes!). 

Mais de 100 mil conterrâneos já morreram de óbitos que poderiam ter sido evitados se o gerenciamento da pior crise sanitária de nossa História não estivesse entregue a um insano negacionista, sabotador dos esforços para a salvação de vidas. 

E é incerto o número de mortes escamoteadas das estatísticas oficiais, a ponto de já terem sido desmascaradas tramoias para o ocultamento de cadáveres sob os tapetes burocráticos (quem nos garante que outras tramoias do mesmo tipo não tenham escapado à vigilância dos cidadãos decentes?).

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultradireita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.
Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e 
eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo. 

Mas, refugaram diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.
O líder estudantil Vladimir Palmeira discursando na histórica passeata dos 100 mil
Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados 
grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado contragolpe preventivo, mas, tão somente, um golpe de Estado para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como os documentos sigilosos que foram sendo revelados ao longo destes 57 anos comprovaram cabalmente.. 

Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e do Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. 
Licença para matar: o golpe dentro do golpe
desembestou de vez o terrorismo de Estado 
Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio momentâneo da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando às chacinas a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970, teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.
Pelo menos 20 mil brasileiros foram torturados por motivos políticos durante a ditadura militar
As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente ordens homicidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (os chamados Esquadrões da Morte).
O último ditador militar deixou o poder com a economia estagnada, impopularidade
  crescente e querendo ser esquecido. O ministro Braga Netto prefere celebrar os fiascos
 
O aparato repressivo implantado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada 
subversivo preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor em posse dos resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de Estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. 

Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos fartos do autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda 
das diretas-já.

Foi responsável pela morte dos 434 opositores relacionados pela Comissão Nacional da Verdade, pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos, afora ocorrências praticamente impossíveis de quantificar, como os abusos sexuais.

[Há quem sustente consistentemente que outros 600 camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas tenham sido assassinados por motivos políticos nos grotões do país entre 1961 e 1988. 

E respeitados antropólogos denunciam a ocorrência de um verdadeiro genocídio indígena nos anos de chumbo.]

É esta efeméride sinistra que sua ordem do dia manda ser comemorada nos quartéis, senhor general?  

Isto me indigna tanto, como participante e vítimas desses acontecimentos –até hoje lesionado e até hoje inconformado com a morte de duas dezenas de estimados companheiros que entregaram a vida em nome da dignidade nacional!–, que evitarei dar-lhe uma resposta ditada por minhas emoções. 
[Correria o risco de fornecer pretexto para uma intimidação como as muitas que têm sido perpetradas contra blogueiros e articulistas, lastreadas em lei que não passa de um repulsivo entulho autoritário.]

Então, prefiro encerrar parafraseando a Bíblia (Lucas 23.34), na esperança de que ela não tenha entrado no índex destes tempos hediondos: Pai, perdoai-o, pois ele não sabe o que faz! 
(por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político – a foto ao lado foi tirada no DOI-Codi/RJ em 1970, ainda na fase das torturas, durante os 75 dias de incomunicabilidade)

"Revejo nesta hora tudo que ocorreu/ Memória não morrerá"

sábado, 18 de julho de 2020

SAI O BOZONAZI, VOLTA O BOLSONARO DO BAIXO CLERO. SE NÃO NOS MEXERMOS, VIRÃO 29 MESES DE PASMACEIRA – 2

Quando Jair Bolsonaro, sabemos agora como, conseguiu eleger-se presidente da República em 2018, cheguei a temer que fosse instaurar um regime verdadeiramente fascista no Brasil. 

Naquele melancólico 28 de outubro, saí caminhando pela noite de uma cidade que, ou tentava voltar a ser a São Paulo da garoa, ou derramava lágrimas pelo inferno a que 39,3% dos brasileiros haviam condenado não só a si próprios, mas também aos restantes 60,7%.

E refleti que havia perigo, sim, de que os piores cenários se materializarem, pesadelos como a Operação Jacarta (eliminação de uns 2 mil dissidentes, para que eles não participassem das fases seguintes de nossa História, pois até mesmo a direita mais hidrófoba sabia que, mais dia, menos dia, a democracia burguesa teria de ser restabelecida).

Tal limpeza de cenário foi mesmo cogitada pelos celerados do regime militar em meados da década de 1970, mas o ditador Ernesto Geisel abortou o projeto no nascedouro, ao exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo, sem que este e seus anjos exterminadores recebessem solidariedade nenhuma da tropa.

Enfim, mesmo naquele domingo nefasto e nefando concluí que bem maior era a chance de o cão que tanto ladrava acabar não mordendo, pois faltava uma peça fundamental do quebra-cabeças: uma economia suficientemente sólida para o Brasil permitir-se atrair uma forte rejeição internacional.

Alguns meses do (des)Governo Bolsonaro bastaram para eu ter a certeza de que a possibilidade maior inevitavelmente prevaleceria. Ele se desconstruía visivelmente e, se altos comandantes militares algum dia cogitaram acompanhá-lo numa aventura dessas, decerto já estariam percebendo que não passava do homem errado no lugar errado. 

Não era Hitler, Mussolini, Pinochet, nem mesmo um Plínio Salgado. Não passava de um farsante do baixo clero fazendo pose de bad boy.

Restava, contudo, o perigo de ele estar gerando uma massa crítica que poderia possibilitar a ascensão de outro líder, no qual a farda de golpista de ultradireita assentasse melhor.  

E, olhando um pouco mais à frente, havia uma tempestade econômica se armando, que certamente Bolsonaro e o mercador de ilusões Paulo Guedes não saberiam administrar.

Então, desde o 2º semestre de 2019 venho pregando o afastamento do Bolsonaro, a partir do verdadeiro rosário de crimes de responsabilidade por ele cometidos, quase todos bem piores do que o estelionato eleitoral da Dilma  Rousseff (as tais pedaladas fiscais, na verdade, não foram apenas o descumprimento de normas burocráticas, mas sim o expediente inconstitucional por meio do qual ela encobriu o descontrole das finanças públicas, para que não fosse um obstáculo à sua obsessão de reeleger-se, mesmo tendo feito um sofrível primeiro mandato).

A pandemia acelerou em muito o derretimento do (des)governo do pior presidente do Brasil em todos os tempos.

Seu negacionismo e sabotagem do combate científico da Covid-19 pode não caracterizar, em termos jurídicos, um genocídio, mas o efeito prático é exatamente o mesmo: o morticínio de dezenas de milhares de brasileiros cujo óbito teria sido evitado sob um presidente com um mínimo de qualificação para o cargo, que unisse União, estados e municípios para desenvolverem um esforço coordenado numa mesma direção e com uma perspectiva cientificamente correta. 

As esquisitices do Bolsonaro, que beiram a insanidade, tornaram o coronavírus fatal... também para ele! Pode não morrer da doença, mas seu futuro político já expirou. 

É cada vez menor o percentual de seus apoiadores bovinamente fanatizados. Parece que repetirá a trajetória dos 300 do Brasil, que na verdade eram uns 30 e agora não devem ser nem três...

E, já que estamos falando nisso, um dos motivos de o castelo de cartas ultradireitista ter sido derrubado pela primeira lufada de vento foi exatamente sua incapacidade de criar uma liderança capaz de desalojar o inepto Bolsonaro e assumir o controle da boiada. Sara Winter? Não me façam rir.

O guru charlatão que, comodamente instalado na segurança da Virgínia, movimenta seus títeres brasileiros para que retirem as batatas do fogo seguindo suas orientações (e correndo o risco de queimarem as mãos enquanto ele preserva as próprias!), não passa de um Sábado Dinotos piorado, pois pelo menos pusilânime o Aladino Félix (vide aqui) não era.

Sergio Moro tem miolos para alçar-se a voos mais altos, mas, para conseguir chegar aonde chegou partindo do quase nada (um mero juiz de 1ª instância!), teve de esconder muitos esqueletos no armário, dando ao Intercept Brasil a oportunidade de promover uma versão brasileira do Dia dos Mortos mexicano, ao colocar todos aqueles esqueletos dançando diante dos olhos espantados dos vivos. 

Jair Bolsonaro completou o serviço, ao açular seus boçalignaristas de raiz contra Moro, dando um de seus piores tiros no pé, mas também fazendo estragos no pé do vampiro de Curitiba (aquele abraço, Dalton Trevisan, firme e forte aos 95 anos!).

Outros desastres para o Bolsonaro foram:
— o desmantelamento de sua rede de fake news: 
— a saída para o centrão, demonstração cabal de que ele jamais cogitou combater de verdade a corrupção política; e
— a derrocada de Donald Trump, que começou o ano como favorito à reeleição nos EUA e agora não passa de um azarão.

Como desgraça pouca é bobagem, as investigações dos crimes de sua familícia chegaram a um ponto em que não apenas a permanência de Bolsonaro como presidente da República, mas também a dele e dos filhos fora das grades, dependem da anuência do chamado sistema, que pode derrubá-lo com um piparote.

Daí minha total concordância com as avaliações de Thomas Milz (vide aqui) e Ricardo Kotscho (vide aqui), bem sintetizadas por este último:
"Há um grande acordo em marcha entre civis e militares, magistrados e parlamentares, milicianos e evangélicos, gregos e troianos, para deixar tudo como está e ver como é que fica".
E as Forças Armadas? Estão satisfeitas com a nova proeminência e o mundo de cargos que Bolsonaro despejou no colo dos pijamados e até de oficiais da ativa, mas sabem muito bem que seria o pior momento possível para outra aventura como a de 1964: depois da tragédia humanitária em curso, a pior de sua História, o Brasil enfrentará uma depressão econômica igualmente sem precedentes. 

Então, melancolica mas honestamente, comunico a quem dá valor a minhas avaliações que, tendo o sistema vencido o braço de ferro com Bolsonaro e o emparedado, tende agora a deixá-lo  fazendo figuração como presidente nos próximos 29 meses, mas reduzido a um leão desdentado, uma rainha da Inglaterra.
Se nada de diferente acontecer, estamos condenados à estagnação e pasmaceira que marcou o governo do ditador João Baptista Figueiredo, o de José Sarney após o fracasso retumbante de seus planos econômicos e o de Dilma depois que Joaquim Levy se demitiu e ela desistiu de governar, ocupando-se apenas de tentar evitar seu impeachment, enquanto a debacle econômica avançava a passos de gigante.

O que pode alterar tal quadro?

Primeiramente, uma recaída do Bolsonaro, que pode chutar o pau da barraca, encarnar de novo o Bozonazi e tornar imperativo seu defenestramento.

Depois, nossa dita esquerda reencontrar a combatividade perdida, saindo de sua atual prostração.
Por Celso Lungaretti

Por enquanto, movimento secundarista e torcidas organizadas de futebol (!) à parte, a esquerda brasileira está fazendo lembrar o sarcasmo genial do Raulzito, pois neste ano inteiro tem permanecido sentada "no trono de um apartamento/ com a boca escancarada/ cheia de dentes/ esperando a morte chegar"...   

quarta-feira, 3 de junho de 2020

OS MILITARES QUE ANTECEDERAM O BOZO NO EXIBICIONISMO EQUESTRE TAMBÉM TINHAM IMAGENS HORROROSAS

Newton Cruz pelo menos mantinha pose de general...
ruy castro
GOVERNAR
A CAVALO
Os estertores da ditadura militar produziram uma figura de pé de página na história do Brasil: o general Newton Cruz. Enquanto chefe do SNI sob o presidente Figueiredo, só as trevas o conheciam. Mas, em 1983, quando Figueiredo o promoveu a comandante militar do Planalto, seu estilo saiu à luz do dia.

Newton Cruz foi pioneiro em mandar repórteres calar a boca, partiu para estrangular um deles numa coletiva e, de rebenque e capacete, comandava a cavalo as operações antiprotesto em Brasília, chicoteando os carros e jogando o pobre animal contra as pessoas na calçada.

É um perigo quando autoridades se prestam a tais fanfarronices. O povo tende a identificá-los com sua montaria, vendo neles um único quadrúpede. Newton Cruz nunca se livrou dessa imagem, nem mesmo quando foi acusado de envolvimento em episódios turvos da ditadura, um deles a bomba no Riocentro, em 1981. Passou à posteridade aos relinchos.
...enquanto o ex-tenente faz má figura até ao montar. 

Jair Bolsonaro saiu a cavalo pela Esplanada dos Ministérios neste domingo (31), saudando seus cada vez mais reduzidos apoiadores. Fez isso em mangas de camisa e com as fraldas para fora, como sói —afinal, é apenas um ex-tenente que foi promovido a capitão ao ser mandado embora do Exército. Nunca um suboficial lhe prestou continência. 

O homem a cavalo imagina-se uma potência, por ver os outros de cima para baixo. Bolsonaro, desmontado, ao rés do chão e acuado pela Justiça, já não está com essa potência toda.

E começa a tornar possível o que até há pouco parecia impensável: unir contra si as forças democráticas do Brasil, de várias cores políticas. Na ditadura foi assim —custou, mas chegou-se a um ponto em que ela já não interessava a ninguém, nem aos militares. A Bolsonaro só restará uma minoria falangista. Até o centrão, que ele pensou ter comprado, lhe dará uma banana.

O problema de governar a cavalo é que um dia ele tem de voltar para a estrebaria. (por Rui Castro)
Figueiredo se deliciando com a flagrância equina
Toque do editor — Talvez por limitações de espaço, o Ruy deixou de citar o mais notório cavaleiro que usou a faixa presidencial: o ditador João Baptista Figueiredo.

Certa vez, numa entrevista, indagaram-lhe o que achava do cheiro de povo e ele, de bate-pronto, tascou: "Eu prefiro o cheiro do cavalo". 

Piores do que esta, só a resposta dada a um garoto que lhe perguntou o que faria se o pai dele recebesse apenas um salário-mínimo ("eu dava um tiro na cuca") e sua afirmação de que "a solução para as favelas é jogar uma bomba atômica".

Também o povo não gostava do cheiro do Figueiredo, tanto que ele pediu aos brasileiros que o esquecessem e deixou a presidência por uma porta lateral, fugindo da cerimônia para não transferir pessoalmente a faixa a seu sucessor José Sarney, o vice empossado em razão da doença e morte de Tancredo Neves. (por Celso Lungaretti)
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