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segunda-feira, 1 de abril de 2024

O COMPLÔ QUE MATOU JOHN KENNEDY ABRIU CAMINHO PARA O GOLPE NO BRASIL

Eu vou! Eu vou! Eu vou derrubar o governo, agora eu vou! Pararatimbum, pararatimbum!
O esquema dos golpistas de 1964 vinha sendo montado desde a década anterior, mas ainda não estava pronto quando da renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961. 

Os conspiradores nela viram, contudo, uma oportunidade de queimar etapas e resolveram precipitar as coisas: convenceram os comandantes das três Armas a tentarem impedir a posse do vice-presidente legal (João Goulart), que estava ausente, visitando a China em missão oficial. 

Como o afobado come cru, eles foram derrotados:
— pela resistência do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que passou a conclamar o Brasil inteiro a não permitir a usurpação de poder, utilizando para tanto uma rede de emissoras de rádio que se formou espontaneamente  (a Rede da Legalidade);
O governador corajoso e o general legalista foram
decisivos para evitar que o golpe ocorresse já em 1961
  
— pela decisão do comandante do III Exército (RS), o general legalista Machado Lopes, de colocar-se ao lado de Brizola, passando, portanto, a existir a ameaça de militares combaterem uns aos outros, hipótese que sempre horrorizou nossas Forças Armadas; e
— pela firme oposição de cabos e sargentos do Exército e Marinha ao golpe, criando outra divisão entre os fardados.

A crise acabou com a solução conciliatória de se dar posse a Goulart mas instituir-se o parlamentarismo, de forma que os poderes presidenciais foram momentaneamente reduzidos (o plebiscito de janeiro de 1963, contudo, restabeleceu o status quo ante).

Os conspiradores, face ao fracasso inicial, tiveram de repensar todo seu planejamento. Desfecharam perseguições nos quartéis, isolando e transferindo para unidades distantes os líderes dos subalternos que haviam se colocado contra o golpe, enquanto o pusilânime Goulart nada fazia para proteger quem lhe havia sido leal.

E, percebendo que careciam de algum respaldo na coletividade, partiram para a conquista do apoio da classe média conservadora, contando para tanto com o apoio do clero reacionário e de entidades anticomunistas como a TFP e a TFM.  
Goulart só desistiu de agradar ao oficialato, tomando o
partido dos subalternos, quando já era tarde demais.
  
[
Afora a mãozinha estadunidense, com a enxurrada de investimentos em Bolsa de Valores, suficiente para forjar o boom econômico de curta duração conhecido como milagre brasileiro.]

Os viradores de mesa só se considerariam prontos para nova tentativa 20 meses depois. 

O passo final foi a conquista da caserna, empreitada facilitada pelo apoio crescente que passaram a ter da classe média (afinal, os oficiais eram majoritariamente dela oriundos) e pelos préstimos de provocadores como o marinheiro de 1ª classe Anselmo (erroneamente apelidado de cabo), que radicalizaram ao máximo a insubordinação dos cabos e sargentos das Forças Armadas contra o oficialato. 

[Meu saudoso companheiro na VPR, o José Raimundo da Costa, dito Moisés, era um dos líderes dos marujos e nunca quis acreditar que Anselmo fosse um infiltrado, embora já existissem suspeitas. Pagou com a vida por seu apreço pelo colega de antigas jornadas.]

O que os oficiais mais prezam é sua autoridade. E, dias antes do golpe, a viram estridentemente ultrapassada por Jango. É que, com o mandato cada vez mais ameaçado, Goulart havia finalmente descido do muro, daí ter ousado proibir a prisão de marinheiros e fuzileiros navais responsáveis por uma comemoração levada a efeito depois de vetada pelos escalões superiores. Foi a gota d'água: o oficialato alinhou-se em massa com o golpe.
Lyndon Johnson, com seu chapéu de cowboy: o
 homem errado, no lugar errado, na hora errada
 

A ruptura da ordem legal 
àquela altura já estava sendo amplamente requerida pelos capitalistas e latifundiários, além de endossada por Lyndon Johnson, que herdou a presidência após John Kennedy ser assassinado por um fogo cruzado até agora atribuído oficialmente a um único aturador (seria o Lee Oswald um homem-polvo?!).  

A CIA favorecia e financiava os conspiradores havia muito tempo, mas John Kennedy, caso tivesse sobrevivido ao atentado de Dallas, dificilmente lhes daria sinal verde. 

Vale lembrar que ele não autorizou a disponibilização de cobertura aérea para a invasão da Baía dos Porcos, crucial para o sucesso da empreitada, mas que deixaria as digitais dos EUA impressas numa flagrante interferência na política interna de um país soberano (Cuba). 

A posse em 22 de novembro de 1963 de Johnson, um caipirão texano que obviamente comeria na mão da CIA, significou a remoção de um importante obstáculo para o golpe brasileiro, tanto que, a partir daí, só transcorreram 130 dias até Olímpio Mourão Filho começar a descer a BR-3 (hoje rodovia BR-040) com suas tropas, iniciando a quartelada.

Anticomunista com carteirinha assinada e falsário desmascarado em vida (forjou o chamado Plano Cohen para alavancar a instalação do Estado Novo em 1937), Mourão antecipou-se por alguns dias ao cronograma dos conspiradores históricos, mas nada lucrou com isto: o poder não ficou com o ejaculador precoce, mas sim com o esquema golpista que vinha sendo laboriosamente montado desde a década anterior.   

Tão vergonhosa foi a facilidade com que um aventureiro desprestigiado na própria caserna e seus recrutas imberbes derrubaram Goulart que a esquerda entrou num longo processo de crítica e autocrítica, do qual decorreram 
o colapso da hegemonia do PCB e a ascensão da luta armada como principal forma de resistência à ditadura após a assinatura do AI-5. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 17 de fevereiro de 2024

AS ÚLTIMAS CHANCES DE PUNIÇÃO DOS TORTURADORES DA DITADURA FORAM JOGADAS NO LIXO POR LULA E DILMA

O GOVERNO LULA ESCOLHE O SEU LADO: O DE BRILHANTE USTRA (artigo de 23/10/2008)
Se ainda havia alguma dúvida quanto à posição do Governo Lula diante da ditadura de 1964/85 e as atrocidades por ela cometidas, agora deixou de existir: coloca-se mesmo ao lado dos totalitários.

Quem fala por Lula é o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, que acaba de fazer rasgados elogios ao período de arbítrio, questionando até seu caráter de uma verdadeira ditadura; e o ministro da Defesa Nelson Jobim, que se manifesta e age como porta-voz no governo dos contingentes mais intransigentes das Forças Armadas.

Tarso Genro e Paulo Vannuchi, respectivamente ministro da Justiça e secretário nacional de Direitos Humanos, sofreram uma derrota acachapante com a decisão tomada pela União de assumir a defesa dos ex-comandantes do DOI-Codi/SP, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir dos Santos Maciel, no processo que lhes-é movido pelos procuradores federais Marlon Weichert e Eugênia Fávero.

Os procuradores pleitearam a responsabilização pecuniária desses militares da reserva pelas mortes e sevícias ocorridas durante o período de 1970/76, quando estiveram à frente daquele centro de torturas. Ou seja, que fossem declarados culpados pelos crimes e práticas hediondas cometidos sob seu comando e repusessem tudo que a União despendeu em reparações a suas vítimas.

Dos 6.897 cidadãos que passaram pelas garras do DOI-Codi/SP, a grande maioria sofreu as torturas costumeiras (choques elétricos, espancamentos, pau de arara, afogamentos, asfixia, etc.), acrescidas de uma exclusividade da casa: a cadeira-do-dragão. 
A marcante contribuição do DOI-Codi/SP à desumanidade

O assento e os encostos para os braços e cabeça do nefando artefato eram revestidos de metal, para aumentar a potência das descargas que a vítima, amarrada, recebia. Vladimir Herzog foi um mártir brasileiro bestialmente assassinado dessa maneira.

A União tinha três caminhos a escolher: entrar no processo ao lado dos procuradores, permanecer neutra ou tomar a defesa dos carrascos. Fez uma escolha inconcebível e inaceitável, até porque contradiz frontalmente toda a legislação internacional subscrita pelo Brasil e as recomendações da ONU. O Governo Lula nos tornou párias da civilização.

Em sua defesa dos carrascos, a Advocacia Geral da União invocou a anistia autoconcedida pela ditadura no ano de 1979, que nada mais representou do que um habeas-corpus preventivo para quem sabia ter incidido em assassinatos em massa (incluindo as mortes durante as sessões de tortura e a execução a sangue-frio de prisioneiros que estavam sob a guarda do Estado), sevícias as mais brutais, sequestros (até de crianças!), estupros, ocultação de cadáveres e outras abominações.
A TORTURA ERA REGRA, NÃO EXCEÇÃO – Esta evolução dos acontecimentos, entretanto, está longe de ser inesperada, vindo ao encontro do que escrevi quando Genro e Vannuchi promoveram uma audiência pública para discutir a punição dos torturadores, no final de julho de 2008. Lula, por intermédio de Jobim, desautorizou qualquer iniciativa do Executivo no sentido da revogação da Lei da Anistia.
Lula discursou no lançamento do livro sobre os executados
pela ditadura; depois, os fardados rugiram e ele miou.
Genro tentou maquilar a derrota como vitória, propondo que fossem abertas na Justiça ações contra os ex-torturadores, acusando-os de terem cometido crimes comuns. Segundo ele, as atrocidades não se tipificavam como crimes políticos e, portanto, ficavam de fora do guarda-chuva protetor da Lei da Anistia.

De imediato, eu adverti:
— que a tortura nunca fora um excesso cometido por meia-dúzia de aloprados nos porões, mas sim uma política de Estado que, embora não assumida formalmente, nem por isso deixara de ser menos efetiva, tendo sido implementada com a concordância ou a omissão de toda a cadeia de comando;
— que o atalho proposto por Genro impediria a responsabilização dos mandantes, permitindo apenas o enquadramento dos executantes;
— que daria aos acusados uma forte arma de defesa, pois eles argumentariam exatamente que estavam apenas cumprindo ordens;
— que não representaria a verdadeira justiça, ficando-se longe de passar o período realmente a limpo; e
— que o caminho judicial seria tão longo e os recursos protelatórios à disposição dos réus, tantos, que poucos deles (ou nenhum) acabariam recebendo a sentença definitiva em vida.

Audir dos Santos Maciel morreu nesse meio-tempo. Brilhante Ustra, septuagenário, já sofreu crises cardíacas [morreria em outubro de 2015].
Lula talvez cresse que os presos políticos usuais recebiam o
mesmo tratamento vip que lhe foi proporcionado no Dops

E as tentativas de contornar-se a Lei da Anistia, doravante, terão como adversária a União, que oficializou sua posição de endosso à impunidade dos carrascos.

Então, fica cada vez mais evidenciado que não se fará justiça sem suprimir-se mais este entulho autoritário. 

A anistia de 1979 tem de ser revogada, em nome das vítimas da ditadura mais brutal que o Brasil já conheceu e de nosso auto-respeito como nação. Que se levante a bandeira correta e justa, de uma vez por todas!

Quanto a Genro e Vannuchi, a dignidade impõe que se afastem de um governo que os desautoriza a cada momento.

Assim como a dignidade impõe ao presidente Lula que renuncie à pensão de prejudicado pela ditadura [passou 31 dias preso no Dops em 1980, com a imprensa cansando de publicar fotos dele batendo bola com outros sindicalistas detidos...] que vem recebendo há décadas e restitua cada centavo aos cofres públicos.

Por uma questão de coerência: quem se alinha com os déspotas e verdugos, moralmente não merece reparação de vítima. É o mesmo caso do Cabo Anselmo [o qual pleiteava anistia de vítima da ditadura sob a alegação de que, inexistindo o regime de exceção, ele não teria desempenhado o papel de traidor e algoz de militantes; o seu pedido em princípio atendia às regras do programa e só pôde ser recusado porque se comprovou que ele já era agente do Cenimar infiltrado na esquerda antes do golpe de 1964].
PAREM AS ROTATIVAS!!!
 – O artigo acima republicado era a parte inicial de uma duologia sobre como o Brasil até agora vinha falhando miseravelmente na eliminação do entulho ditatorial chamado Lei da Anistia, um mero habeas corpus preventivo que os mandantes dos extermínios e atrocidades da ditadura militar concederam em 1979 a si próprios e a seus jagunços. 

Mas, numa surpreendente reviravolta, acaba de surgir a notícia de que o ministro do STF Dias Toffoli pretende fazer ainda neste ano o que nem a presidente ex-torturada ousou: promover uma audiência pública para rediscutir a Lei da Anistia (algo que já deveria ter sido encaminhado desde 1985!).  

Ou seja, abre-se a perspectiva de corrigirmos uma aberração grotesca com apenas 39 anos de atraso. Os vizinhos que passaram pela mesma situação e não foram tão pusilânimes como nós morrerão de rir. Mas, antes tarde do que nunca: pelo menos o precedente que ficará para o futuro não será uma vergonha nacional.

Então, surgida esta pra lá de inesperada nova chance de punição dos torturadores da ditadura (ainda que os grandes vilãos já tenham morrido e só restem alguns gatos pingados de escalão inferior para responderem por seus crimes hediondos), desisti da duologia, mas manterei o artigo de 17/02/2024 com o título que fazia sentido no sábado e caducou no domingo. 

A boa nova dominical será analisada no artigo dominical que ainda estou redigindo e entrará no ar nas próximas horas.
 
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 22 de abril de 2022

O BRASIL NÃO É PARA GOLPISTAS AMADORES

O golpe de 64 somente se viabilizou para fatores internos e externos  externos conjugados.

Vivíamos ainda sob os efeitos de uma guerra fria que havia tomado o rumo das Américas e Caribe em face da revolução cubana e da crise dos mísseis que tencionou o mundo diante da possibilidade de um conflito nuclear. 

Os Estados Unidos, temendo o alastramento da influência soviética, arquitetaram um projeto para a América do Sul que consistia em golpes militares como antídoto contra governos de tendências esquerdistas que se sentissem estimulados pelo exemplo cubano.

Jango Goulart no Brasil e Allende no Chile são dois exemplos marcantes desse temor estadunidense; e este foi um fator externo preponderante, de vez que os EUA sempre nos consideraram um quintal da casa grande (ou da Casa Branca).

O poderio estadunidense afrontado e vencido por Cuba tinha estabelecido um limite para a guerra fria diante do qual os Estados Unidos não aceitariam ultrapassagem.                      

Internamente tínhamos um quadro de inflação crescente e um governo populista e trabalhista que desde Vargas se traduziu num movimento pendular entre o oportunismo político eleitoral que fazia concessões à esquerda pelega e satisfeita com as migalhas que o capitalismo sempre lhe oferece, e a corte à sempre poderosa elite política brasileira. 
"...militares sequiosos por obterem poder político e 
econômico correspondente ao seu poder de fogo..."

De quebra, historicamente sempre houve a cobiça dos militares, sequiosos por obterem poder político e econômico correspondente ao seu poder de fogo.

Pronto, o golpe direitista estava maduro desde dez anos antes, quando foi abortado pelo suicídio de um populista trabalhista advindo das hostes militares subalternas (tratou-se, contudo, apenas de um adiamento).  

Hoje o quadro é outro. 

Não há nenhuma perspectiva de alastramento de blocos internacionais de poder pseudo-comunista, mesmo estando o capitalismo colapsar por seus próprios fundamentos internos. E isto porque os antigos e pretensos comunistas nada mais eram do que capitalistas de Estado: tão logo esbarraram (Rússia e China) na necessidade de expansão capitalista, não hesitaram em aderir à economia de mercado. 

O que ora se vê é uma disputa pela hegemonia de mercado entre blocos capitalistas, quais sejam: 
— os capitalistas decadentes do ocidente, com suas moedas podres, de um lado; e,
— do outro, e os capitalistas euroasiáticos, pretendentes de um deslocamento do poder econômico do capital. 

Estão todos eles fadados ao fracasso e envolvidos numa disputa fratricida por um espólio capitalista que faz água por todos os lados, inclusive com graves danos ecológicos terrestres e atmosféricos que prenunciam uma conjugação de fatores ameaçadores à humanidade.
Autogolpe à moda do Bozo

Fiz questão de contextualizar o Brasil neste quadro mundial porque a intercomunicação e dependência num mundo com economia capitalista globalizada e convivendo com fatores contraditórios exacerbados (como a tecnologia aplicada à produção de mercadorias e serviços que torna supérflua e reduzida em maior parte a fonte de sustentação capitalista, a extração de mais-valia) torna o
Boçalnaro, o ignaro, nada mais do que um atrapalhado (ainda que perigoso) aprendiz de feiticeiro. 

O decreto presidencial que concede liberdade ao antigo soldado da polícia miliar Daniel Silveira (uma nova roupagem de provocador como o Cabo Anselmo, sem disfarce) tem vícios de forma e conteúdo. 

Na questão de forma, é inconstitucional porque se constitui como desvio de finalidade daquilo que a Constituição define como prerrogativas subjetivas da Presidência da República para a sua concessão. 

É intempestivo porque ainda não houve o trânsito em julgado do acórdão do STF, pois os embargos declaratórios com caráter infringentes seriam o recurso tempestivo para o réu tentar modificar a decisão e até a dosimetria da pena.

Ainda na questão de forma, podemos considerar que as atitudes do deputado federal Daniel Silveira se constituem como flagrante falta de decoro parlamentar quando nega a Constituição que jurou respeitar. 
Daniel Silveira e Rodrigo Amorim: vândalos que
desrespeitaram a memória de uma assassinada. 

Unicamente o sentimento corporativo e negociatas fisiológicas do
centrão com o Palácio do Planalto o isentam, no parlamento, desta culpa.                                                                         
Na questão de conteúdo podemos afirmar que não há clamor popular pelo descarte da condenação do dito cujo, um miliciano típico que não hesita em fazer apologia pública de assassinatos como o da vereadora Marielle Franco e seu motorista, bem como apregoa um golpe militar ao estilo do AI-5 de 1968, que jogou o Brasil nas trevas do obscurantismo mais recalcitrante. 

Somente os fanatizados bolsonaristas com vezo totalitário apoiam, por maldade ou ignorância, as atitudes do réu condenado.  

Todos os considerandos do decreto presidencial apenas reforçam em nós a certeza de que se conseguimos nos livrar de um autogolpe até aqui, ele continua sendo tentado e, principalmente, será reforçado por suas hostes totalitárias quando se consumar a derrota eleitoral iminente. 

Cabe ao STF ter a altivez de considerar inconstitucional o decreto presidencial da Graça que absolve o réu Daniel Silveira, sob pena de nos quedarmos ao arbítrio e desmoralização do Estado de Direito conquistado a duras penas.  

Como no poema em homenagem a Maiakovski, quem deixa que se arranque um flor no jardim sem dizer nada, pode posteriormente não ter força para impedir que sua garganta seja cortada em face do seu silêncio inicial. (por Dalton Rosado)
Homenagem do Dalton à Rosa Fonseca, ex-presa política e fundadora
do grupo Crítica Radical. Ele a interpreta em dueto com Gomes Brasil

sexta-feira, 18 de março de 2022

A QUARTA MORTE DO CABO ANSELMO

O ex-marinheiro de primeira classe José Anselmo dos Santos –que, apesar do apelido, nem sequer o posto de cabo alcançou–, morreu pela quarta vez na última 3ª feira  (15) de mal súbito, aos 81 anos, no município paulista de Jundiaí, onde morava sob o nome falso de Alexandre da Silva Montenegro.

Sua primeira morte (a moral) se deu no período pré-golpe militar, quando aceitou atuar como agente provocador do Centro de Informações da Marinha, o Cenimar, para insuflar movimentos de protesto da marujada, ajudando a criar o clima para a quartelada tramada pela extrema-direita desde a década de 1950 e tentada sem êxito em agosto de 1961.

Um agente duplo, com calculismo e desfaçatez, conquista a confiança de outras pessoas para frustrar seus objetivos, traí-las e desgraçá-las. Que tipo de gente quer uma vida destas?

E o que já era ruim no tempo da conspiração contra João Goulart ficou ainda pior quando Anselmo passou a agir na luta armada como um anjo exterminador daqueles com quem atuava e convivia, chorava junto as tragédias e confraternizava junto nos triunfos, até engravidava. 

Como nossas funções na organização nada tinham em comum, não fiquei conhecendo pessoalmente o Anselmo. Mas, soube muito dele por relatos de outros companheiros, principalmente daquele que era seu melhor amigo e protetor.

Tendo ingressado na Vanguarda Popular Revolucionária em abril de 1969, morei durante algumas semanas com o José Raimundo da Costa (o Moisés, que seria lembrado como o último comandante da VPR), num apartamento que alugamos em meu nome real e tivemos de abandonar às pressas ao constatarmos que não só minha identidade já era conhecida pela repressão, como ambos aparecíamos com fotos nos cartazes de procurados pela ditadura.

O Moisés, que havia sido outro dos líderes dos movimentos da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, acreditava piamente que as suspeitas em circulação na esquerda a respeito do Anselmo (vários dos seus ex-colegas na Armada sustentavam que ele sempre servira à comunidade de informações) não passariam de calúnias do Partido Comunista Brasileiro.

Após o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas logo mudou de ideia e, embora fosse uma das pessoas mais procuradas do País, saiu andando calmamente de lá, sem ser detido.

Algum tempo depois foi preso, exibido como troféu pela ditadura... e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual, segundo o jornalista/historiador Elio Gaspari, 
"Anselmo fazia serviços de telefonista, escrivão e assistente do único detetive do lugar". A situação carcerária do ex-marujo, continua Gaspari, não cessou de melhorar:
"Com as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir à cidade. Numa ocasião surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escritório e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licença dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido".
Finalmente, sem nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o hóspede saíra e não voltara. 

O grande jornalista Jânio de Freitas assim comentou tal episódio:
"O compreensível ódio da oficialidade desacatada pelos marinheiros, logo na mais classista das forças militares, transmudou-se em represália feroz quando o golpe possibilitou a prisão da marujada rebelde. Masmorras e prisão nas piores condições em navios foram o destino comum dos apanhados.
Não, porém, para o maior incitador da rebelião e das ameaças à oficialidade: Anselmo foi posto em um pequeno e pacato distrito policial na orla da floresta do Alto da Tijuca, sem vigilância especial, e disponível para seus visitantes.
Em poucos dias, não precisou de mais do que sair pela porta para a liberdade. Os visitantes perderam a sua nos dias seguintes".
Mas, com a imprensa amordaçada e não existindo ainda a internet, informações como esta se misturavam à intensa boataria e era quase impossível separar-se o joio do trigo, daí o descrédito do Moisés – mesmo porque o PCB lhe dava motivos de sobra para desconfiar de tudo que dele provinha, tendo chegado ao cúmulo de, no seu principal jornal, apontar o comandante Carlos Lamarca como agente da CIA, golpe baixo para evitar que seus militantes prestassem ajuda solidária à VPR.

Assim, o Moisés se referia com carinho ao Anselmo, descrevendo-o como um militante bem intencionado, cujo grande defeito seria gostar muito de aparecer. Aliás, sendo sargento e lhe convindo, portanto, exercer sua influência discretamente, o Moisés transmitia ao Anselmo o conteúdo político dos discursos inflamados que ele deveria proferir e depois ficava só observando o desempenho daquele que ele supunha ser seu melhor boneco de ventríloquo.  

Tendo ido treinar guerrilha em Cuba após sua fuga, Anselmo ficou menos falado por aqui durante alguns anos. O Moisés permaneceu irredutível na convicção de sua inocência até agosto de 1971, quando pagou caro por ela: depois de haver sobrevivido durante sete anos à perseguição da ditadura, foi atraído para uma emboscada pelo Anselmo e acabou sendo capturado vivo, hipótese que sempre descartava (garantia-me que se faria matar antes disto). 

Os suplícios que certamente sofreu na Casa da Morte de Petrópolis, sabendo que no final da linha estava sua execução, me davam pesadelos quando escrevia o Náufrago da Utopia e era obrigado a evocar de novo esses terríveis episódios.  Nos piores momentos da minha temporada no inferno, eu tinha pelo menos a esperança de sobreviver e um dia enfrentar de novo aqueles inimigos. O Moisés nem isto tinha.    

Com sua morte, a autodissolução da VPR e o caos instalado entre os dispersos remanescentes da luta armada, o Anselmo conseguiu incrivelmente permanecer ativo no seu ofício por mais um ano e meio. 
Soledad e as outras 5 vítimas do Massacre da
Granja São Bento
, articulado pelo Anselmo.

Eis como Élio Gaspari relatou, em 
A Ditadura Escancarada, a mais lembrada de suas missões, até porque não hesitou em sacrificar a militante paraguaia com quem vivia e estava grávida dele, Soledad Viedma Barrett:
"A última operação de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (...) resultou numa das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre chácara da periferia.
Lá, segundo a versão oficial, deu-se um tiroteio (...). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça. (...) A advogada Mércia de Albuquerque Ferreira viu os cadáveres no necrotério. Estavam brutalmente desfigurados".

Foi a segunda morte de Anselmo: a operacional. A partir daí, não conseguiria iludir mais ninguém na esquerda, então passou a ser um ocioso sustentado e protegido por delegados do Deops paulista, às vezes conseguindo um dinheirinho extra com entrevistas e livros que profissionais escreviam sobre ele ou no lugar dele.

Ainda o requisitaram para uma tentativa de desqualificação da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça: ele pediu anistia e, caso esta lhe fosse negada, a rede de extrema-direita poderia fazer muito alarido alegando parcialidade do colegiado.

A comissão percebeu a armadilha; por seus critérios, Anselmo teria mesmo direito a uma reparação se houvesse trocado de lado apenas ao ser preso pelo delegado Sergio Fleury em maio de 1971, conforme sustentara em suas entrevistas e livros.

[Isto porque sua vida teria saído dos trilhos a partir da instauração de um governo ilegítimo e, portanto, seria também uma vítima da ditadura, mesmo havendo se tornado seu ignóbil serviçal.]
No inferno de Dante, o círculo reservado
para os traidores é o nono.

A possibilidade de agraciar quem levara à morte os verdadeiros resistentes (embora nem de longe  suas vítimas chegassem a
 "100, talvez 200", como ele trombeteava repulsivamente) era tão desagradável para a comissão que ela retardou a marcação do julgamento do caso do Anselmo até lhe chegarem às mãos evidências conclusivas no sentido de que ele já era agente duplo quando foi dado o golpe e, portanto, não fazia jus a um centavo sequer.

A verdade foi estabelecida a partir de documentação secreta do Serviço de Inteligência da Aeronáutica, de papéis recebidos do Arquivo Nacional e de um depoimento do ex-delegado Cecil Borer no sentido de que Anselmo era mesmo um infiltrado (ver aqui), comprovando de viva voz o que sempre se suspeitara: não passava de farsa a alegada fuga do marinheiro da delegacia carioca na qual estava detido em maio de 1966, pois ele havia sido simplesmente solto.

Esta foi a terceira morte do Cabo Anselmo: a dos últimos fiapos de credibilidade que porventura lhe restassem. Só ingênuos dali em diante acreditariam em suas fantasias hediondas e só ultradireitistas fanáticos comprariam sua pseudo-autobiografia de 2015, Minha verdade, que merecidamente encalhou por não passar de um amontoado de mentiras já desmascaradas.

Ao tomar conhecimento de sua quarta morte, a imagem que me veio à mente foi a transformação que ocorre com Dorian Gray após esfaquear o quadro, no romance famoso do Oscar Wilde. Será este o motivo de só terem anunciado o óbito depois do enterro, ou minha imaginação voou longe demais? (por Celso Lungaretti)

sábado, 5 de junho de 2021

BOLSONARO VENCEU UMA BATALHA QUE APRESSARÁ A SUA DERROTA NA GUERRA

S
e Jair Bolsonaro tivesse os conhecimentos históricos indispensáveis para um presidente de verdade, jamais afrontaria os altos comandantes militares como acaba de fazê-lo, repetindo a insensatez de João Goulart no dia 27 de março de 1964, quando anistiou marinheiros insubmissos cuja prisão o ministro da Marinha determinara.

Com isto, involuntariamente coroou de êxito a estratégia dos golpistas, de instigar cabos e sargentos contra os oficiais das Forças Armadas, na qual teve papel destacado o chamado Cabo Anselmo que, conforme ficou definitivamente provado há exatos 10 anos (vide aqui), já era um agente provocador quando radicalizava as assembleias da marujada com sua retórica incendiária.

José Raimundo da Costa, meu companheiro de militância na Vanguarda Popular Revolucionária, me contou que um oficial da Marinha o foi prender naquele período, a bordo do navio em que servia. Seus colegas marujos lhe perguntaram:
— O que fazemos com esse palhaço?
Moisés foi o último
comandante da VPR
Ao que ele respondeu, sem nenhuma hesitação:
— Jogamos no mar, é claro! 
O Moisés (seu nome-de-guerra) não podia adivinhar que o tal oficial jamais esqueceria tamanha humilhação e, passando a integrar o serviço secreto da Marinha, moveria céus e terras para capturá-lo e tirar vingança. Provavelmente teve muito a ver com seu covarde assassinato na Casa da Morte de Petrópolis, em agosto de 1971, após ter caído numa armadilha do (logo quem!) cabo Anselmo 

O maniqueísmo simplista da maioria dos esquerdistas atuais os leva a reservarem para os militares invariavelmente o papel de vilãos, sem uma análise rigorosa dos episódios passados nem um aprofundamento dos atuais.

Que os altos oficiais das três Armas, em sua maioria, sempre penderam mais para a direita é óbvio, até por provirem de famílias abastadas, mas daí a crer que eles invariavelmente foram golpistas e fascistas distorce os fatos:
— o tenentismo da década de 1920 consistiu, basicamente, em revoltas contra o status quo oligárquico na chamada República Velha, com participação de jovens oficiais tanto de esquerda quanto de direita;
— dentre os de esquerda, destaque, claro, para Luiz Carlos Prestes, que depois seria indicado pela Internacional Comunista para o papel de dirigente máximo do PCB;
— dentre os de direita, Olímpio Mourão Filho, que chefiaria o serviço secreto integralista, forjaria o Plano Cohen (fajutice que serviu como pretexto para justificar a instauração do Estado Novo em 1937) e desencadearia o golpe de 1964, ao colocar suas tropas na Via Dutra, em marcha para o Rio de Janeiro;
— as Forças Armadas tanto combateram a Revolta Vermelha (ou Intentona Comunista) de 1935 quanto o Levante Integralista de 1938;
— Getúlio Vargas, ideologicamente próximo do fascismo, teve de renunciar ao poder em outubro de 1945, sob ameaça de um golpe militar (!);
Figura muito discutível em termos políticos, Vargas foi
exemplar ao tornar sua morte uma arma contra o inimigo
— convertido em nacionalista após os EUA haverem favorecido seu defenestramento, Vargas estava prestes a cair  novamente em 1954, graças a um golpe orquestrado principalmente pela UDN, com apoio explícito de oficiais da Aeronáutica, e que obteve a adesão de generais do Exército no momento decisivo. Mas, com seu suicídio e carta-testamento, Getúlio inviabilizou a tomada de poder pelos golpistas e o oficialato militar se conformou, aceitando que o vice-presidente Café Filho assumisse a presidência;    
— nova tentativa de golpe respaldada por oficiais ocorreria com a renúncia de Jânio Quadros em 1961, com a recusa em empossarem o vice-presidente João Goulart, mas a resistência do governador gaúcho Leonel Brizola, com o apoio do III Exército, abortou a empreitada, prevalecendo uma solução de compromisso: Jango assumiria, mas com seus poderes limitados pela introdução do parlamentarismo;
— por fim, o golpe tramado desde a década anterior por um grupo de militares liderado pelo marechal Castello Branco e assessorado pela CIA virou realidade em 1964, mesmo assim só se tornando consensual entre os altos comandantes na reta final, após sucessivos episódios de quebra da hierarquia como os que relatei na abertura deste artigo.

Ou seja, embora houvesse um dispositivo golpista há muito montado por uma ala militar e buscando incessantemente tanger os acontecimentos para a ruptura institucional, a coisa só engrenou de vez após os oficiais se verem desacatados abertamente pelos subalternos, com a tolerância de Goulart.
Lyndon Johnson engolia
todas as lorotas da CIA

Outro fator importante foi Lyndon Johnson haver sido empossado na presidência dos EUA em 22 de novembro de 1963, substituindo o assassinado John Kennedy, que era bem diferente daquele caipirão texano que comia nas mãos da CIA.

Embora os golpistas estivessem havia muito tempo sendo apoiados pelos falcões estadunidenses, temiam que Kennedy refugasse, não querendo envolver-se com a derrubada de um presidente estrangeiro (afinal, ele negara, na enésima hora, o apoio aéreo do qual os mercenários a soldo dos contras cubanos careciam para terem alguma chance de êxito ao desembarcarem na Baía dos Porcos).

Com a certeza de que teriam os EUA a seu lado, durante e depois do golpe, os castellistas partiram para a última etapa do plano, a conquista dos quartéis, facilitada pelo jogo duplo de uns e a ingenuidade de outros dos subalternos revoltosos. 

Mesmo ao longo dos 21 anos de trevas, também não havia monolitismo nas Forças Armadas, mas contínuas disputas pelo poder.

Antes de 1968, a linha dura pugnava para radicalizar a ditadura e os castellistas queriam honrar sua proposta inicial de uma intervenção saneadora, seguida da devolução do poder aos civis. As escaramuças se sucederam ao longo do ano até que um discurso algo pueril do deputado Márcio Moreira Alves (que sentido fazia recomendar às moças que não namorassem com cadetes das escolas militares?!) forneceu o componente emocional necessário para a imposição do golpe dentro do golpe, o AI-5, à medida que os parlamentares negaram permissão para que seu colega fosse julgado (e, inevitavelmente, cassado).

Mesmo assim, os castellistas contra-atacaram e é provável que tal cheque em branco para o terrorismo de Estado sem quaisquer limites tivesse sido cancelado pelo ditador Costa e Silva, se o piripaque que o acometeu não o prostrasse antes de revogar o AI-5, conforme cogitava. 
O que mais se aproximou de um monolitismo foram os anos Médici (de outubro/1969 a março/1974), com os castellistas reduzidos à impotência e a linha dura torturando, matando e barbarizando à vontade.

Havia, ainda assim, uma ala militar minoritária que seguia o exemplo do presidente peruano Juan Velasco Alvarado, contestando a subserviência aos EUA, defendendo medidas como a nacionalização de setores-chave da economia e a ampliação do limite territorial marítimo para 200 milhas (que, para contentá-la, Médici adotou). Mas, coincidia com a linha dura quanto à radicalização da ditadura.

A partir da posse de Ernesto Geisel, as disputas militares se reacenderam entre os aceitavam sua proposta de uma gradual abertura política, desenhada por Golbery do Couto e Silva, e a ainda influente linha dura, que explodiu bancas de jornais, enviou cartas-bombas, sequestrou pessoas, planejou atentados que teriam causado morticínio em larga escala como o do Riocentro e fez provocações como os assassinatos de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho no DOI-Codi, até ser finalmente derrotada, ao custo das sucessivas exonerações do comandante do II Exército e, em seguida, do próprio ministro do Exército.  
Militares, aliás, devem perder o sono com a hipótese 
de se verem igualados às milícias e/ou às PMs
De 1985 até a posse do pior presidente da República do Brasil em todos os tempos, houve relativa paz na caserna, com a prevalência dos oficiais que queriam manter as Forças Armadas limitadas aos seus deveres constitucionais; restou apenas um pouco de
ruído, proveniente da velha guarda ideologizada, que tudo fazia para manter sob o tapete do esquecimento as práticas hediondas da ditadura. 

Bolsonaro, que teve de passar à reserva do Exército em 1988 para escapar de uma punição mais condizente com a gravidade dos seus contínuos desacatos aos superiores hierárquicos, nada aprendeu com sua destrambelhada tentativa de peitar os comandantes. Aproveitando a sua, no mínimo lotérica, ascensão à presidência, duas vezes já cedeu à tentação de retaliar a instituição que o expeliu.

Pelo que conheço dos bastidores da caserna (e não é pouco, pois jamais deixei de registrar na memória e de refletir sobre tudo que presenciava ou ficava sabendo durante o período em que fui hóspede compulsório dos fardados, nem de analisar os episódios militares subsequentes à luz do que havia aprendido), são corretos os relatos de que os altos comandantes estão profundamente insatisfeitos com a humilhação a que o Exército acaba de ser exposto.

O fato de haverem refugado desta vez nem de longe garante que Bolsonaro já tenha tudo dominado. Serve-lhes, contudo, como advertência de que, quanto mais cederem, mais desmoralizados ficarão. E de que, perdendo o respeito dos subalternos, estarão sujeitos a terem suas ordens por eles desacatadas e até a serem atirados no mar, como em 1964.

Ademais, se o êxito da ditadura parecia uma aposta pelo menos plausível em 1964, só néscios hoje não percebem que, com as crises sanitária e econômica agravando-se cada vez mais e com o mundo inteiro encarando o Brasil como pária, sem esperança de qualquer tratamento privilegiado por parte dos EUA, o futuro que se desenha para nosso país é o pior possível: depois da anarquia militar, o caos. 
Freud diria que Bolsonaro é movido por
um desejo inconsciente de autodestruição

Com a agravante de que o governo e a popularidade de Bolsonaro derretem a olhos vistos, sem nenhuma chance de reviravolta, pois os maiores problemas que enfrentamos, ou estão sendo causados por ele ou por ele potencializados. Se pagarem pra ver, os oficiais constatarão que desperdiçam suas fichas de popularidade sucumbindo a blefes.

Como néscios os altos comandantes militares não são, salvo um ou outro que se presta a servir de ajudante-de-ordens para um reles capitão baderneiro, não duvido de que eles logo extraiam as conclusões que se impõem e ajam em conformidade com elas. 

Caso contrário, as consequência serão trágicas para os brasileiros e aviltantes para eles. Quantos sapos ainda serão capazes de engolir? (por Celso Lungaretti)     

quinta-feira, 28 de março de 2019

JOÃO GOULART FOI DERRUBADO PELO PIPAROTE DE UM MAD DOG FARDADO

Não há muito o que se dizer sobre a nefasta e nefanda quartelada de 1964, que neste 1º de abril soprará 595 velinhas ensanguentadas, num Brasil que andou flertando de novo com o abismo, mas o rechaçou definitivamente no último 7 de setembro, quando a maracutaia golpista do Bozo flopou de forma ridícula. 

Enfim, como a História ultimamente se tornou um campo de batalha entre os que pesquisam e analisam os acontecimentos para conseguir interpretá-los e os que distorcem os acontecimentos para encaixá-los dentro de suas convicções prévias de um primarismo atroz, tentemos alinhavar o que realmente importa. 

Começando pela obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
  • após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter frustrado os golpistas e garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos. Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um verdadeiro expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases (suas associações continuaram ruidosas, como convinha aos planos desses reaças, mas não poderosas, pois, dispersos, passaram a ser caciques com poucos índios);
Mourão Filho, macaqueando MacArthur
  • a participação civil no golpe, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script conspiratório, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a virada de mesa mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;
  • o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo; 
  • quando o atentado de Dallas atirou a presidência dos EUA no colo do caipirão Lyndon Johnson, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa ruptura constitucional no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami para a derrubada de Fidel Castro); e 
  • o hegemônico Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que militares legalistas defenderiam Goulart e, como consequência, semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra o golpe, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse estruturar).
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho.

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e redator do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação como espantalho para assustar milicos.
Recrutas passeando pela BR-3, qual patos em estande de tiro

Sedento de glória, ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem sua bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, porque a tão trombeteada ameaça comunista na verdade inexistia, a marcha pela então BR-3 (hoje rodovia BR-040) acabou sendo um passeio. Dois ou três caças da FAB teriam sido suficientes para a abortarem, pois os inexperientes recrutas debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência.

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo piparote de um mad dog fardado. (por Celso Lungaretti)
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