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segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

SÓ AGORA O PEDRO BÓ DA SILVA SE TOCOU DE QUE É CABRA MARCADO PARA MORRER

"Não é possível a gente aceitar o desrespeito à democracia, à Constituição e admitir que, num país generoso como o Brasil, tenha gente de alta graduação militar tramando a morte de um presidente da República, de seu vice e do juiz que era presidente da Suprema Corte Eleitoral."

Esta frase do Lula comprovou o que os esquerdistas conscientes já estavam carecas de saber: ele ingenuamente acredita nas lorotas institucionais e ficou perplexo ao tomar conhecimento de algo que, longe de ser inédito ou inaudito, já pode ter acontecido muitas outras vezes.

São no mínimo suspeitas, p. ex., as circunstâncias da morte de Costa e Silva, o segundo ditador do ciclo militar, logo depois de ele ter convocado juristas para elaborar uma reforma política visando à extinção do AI-5 e restabelecimento pleno da Constituição de 1967.

O derrame cerebral que incapacitou Costa e Silva uma semana antes de ele assinar emenda constitucional naquele sentido pode haver resultado de fortíssimas pressões da linha dura militar no sentido de que ele recuasse do propósito de iniciar a redemocratização do Brasil. 

Circulou nos bastidores que o teriam ameaçado de tornar público o desvio de verbas da Legião da Boa Vontade por parte da primeira dama Yolanda Costa e Silva, que a presidia.

Também ficaram cercadas de suspeitas as mortes de antigos portadores da faixa presidencial, como Castello Branco, João Goulart e Juscelino Kubitschek. E os planos para seus eventuais assassinatos decerto incluiriam militares de alta patente.

Isto para não falar da estilista Zuzu Angel, do jornalista Vladimir Herzog, do seringueiro Chico Mendes, da vereadora Marielle Franco e de um sem-número de sindicalistas e líderes populares executados, principalmente na área rural.

Enfim, nosso arremedo de democracia burguesa será respeitado enquanto isto for conveniente para o poder dominante (o econômico) e apenas naquilo que convier a tal poder dominante. Lula não aprendeu isto até hoje?!

Nos estertores do capitalismo, como nas selvas, o que prevalecerá mesmo é a lei do mais forte, tanto que os EUA e a Rússia estarão agora governados por criminosos impunes (Trump e Putin) enquanto Israel vai continuar massacrando crianças e idosos em suas guerras de conquista e metade da população mundial beirará a linha da pobreza.

Quanto ao Lula, antes de celebrar os valores republicanos deveria ao menos encontrar alguma forma de governar sem ceder às chantagens descaradas do Centrão e sem deixar boa parte dos brasileiros entregue ao terror das gangs da droga. 

Quem vive não só sendo explorado, como também extorquido, se encontra muito longe de estar desfrutando as garantias democráticas. (por Celso Lungaretti)

  

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

LULA AGORA PAGA O PREÇO DE NÃO TER FEITO A OBRIGATÓRIA AUTOCRÍTICA

elio gaspari
A BOLA ESTÁ NOS PÉS DE LULA. A  QUESTÃO É O QUE ELE VAI FAZER COM ELA. 
Lula já viu isso. 

Celso Rocha de Barros conta no seu livro PT, uma história que, no primeiro semestre de 1994, Lula pediu ao presidente do PT, Rui Falcão, que começasse a sondar nomes para seu governo. 

Pudera, em fevereiro ele tinha 30% das intenções de voto e Fernando Henrique Cardoso, com sua promessa de estabilização da moeda, patinava em 7%. 

Falcão não gostou da ideia. Achava-a prematura. Em julho, Lula caiu de 41% para 38% e FHC foi para 21%. Em outubro, deu no que deu.

Sem levar em conta o debate de domingo (16), o ponteiro da pesquisa do Ipec não se mexeu. No debate, Lula entrou cavalgando o Bolsonaro da pandemia. Estonteou-o. Nos segmentos seguintes, Bolsonaro trouxe-o para a discussão das malfeitorias praticadas durante seus oito anos de governo.

Lula repetiu o mantra do comissariado: as roubalheiras foram penalizadas pelos instrumentos que seu governo respeitou. Quebraram empreiteiras,  desempregando milhares de pessoas. 

A Lava Jato foi uma operação enviesada. A presença do ex-juiz Sergio Moro na comitiva ilustrava essa acusação. Até aí, cada um acha o que bem entende.

No entanto, o Lula do debate mostrou que não está convencido do que fala. Numa ocasião disse: "Se houve corrupção na Petrobras". Noutra, emendou: "Pode ter havido"

Moro foi um juiz parcial, e muitos procuradores agiram como dirigentes de grêmio estudantil, mas a roubalheira estava lá.

O modelito das plataformas estava lá desde o governo de Fernando Henrique Cardoso e ele nomeou Henri Philippe Reichstul para a presidência da empresa para cuidar do caso. Em 2003, com a chegada do PT ao governo, os cuidados acabaram.

As empreiteiras devolveram R$ 6,17 bilhões como pessoas jurídicas e os malfeitores devolveram mais de R$ 100 milhões como pessoas físicas. Se houve corrupção na Petrobras? Pode ter havido?

Bolsonaro tem nos pés a bola de ferro das centenas de milhares de mortos de um presidente que chamava de "maricas" quem tinha medo da Covid e queria se vacinar. 
Ele foi além, dizendo numa mensagem de madrugada, que não compraria a vacina chinesa. Orgulha-se de ter comprado o fármaco, mas quem começou a vacinar foi o governador paulista João Doria.

No debate de domingo o capitão mostrou que não tem uma resposta razoável para seu comportamento. Nem Lula para as roubalheiras da Petrobras.

Pouco habituado a debates com adversários, Lula desorientou-se no último bloco do debate, quando Bolsonaro trouxe a Petrobras para a roda, 

Lula não prestou atenção ao cronômetro. Ambos tinham 15 minutos de crédito. A certa altura o capitão tinha cerca de 6 minutos e Lula pouco mais de 1 minuto. Gastou-o dizendo que em janeiro o capitão iria para casa. Deixou Bolsonaro com 5 minutos e 42 segundos.

Na lógica do futebol, deixou o adversário com o domínio da bola na pequena área. Para seu alívio, Bolsonaro chutou na trave, vestindo a camisa da campanha de 2018.

Para quem ainda não decidiu seu voto, um não explicou sua conduta na pandemia e o outro diz que pode ter havido corrupção na Petrobras.

Falta a ambos a sabedoria de Juscelino Kubitschek: 
"Não tenho compromisso com o erro"

Isso precisa ser repetido porque eles querem governar o Brasil nos próximos quatro anos.  (por Elio Gaspari)

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

JOGO DOS 7 ERROS: ACHE DIFERENÇAS ENTRE FALAS DE LULA E DO BEATO SEBASTIÃO

"Eu não quero governar, eu quero cuidar do povo brasileiro. Quero cuidar de cada mulher, de cada homem, de cada mulher, como eu cuido da minha esposa, como eu cuido dos meus filhos, dos meus netos, porque esse país está precisando de cuidado e respeito.

Quero trabalhar em 4 anos por 40. Esperem para ver o que nós vamos fazer neste país para retomar o crescimento, gerar indústria nova, gerar emprego, aumento de salário, melhorar a Educação e a Saúde.

Quando vocês viajarem vão poder mostrar o passaporte de vocês com muito orgulho e ouvir bem-vindos brasileiros." (discurso do beato Sebastião, ersatz de um místico real do século 19, Antônio Conselheiro, no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, que Glauber Rocha realizou há exatos 60 anos, mas continua retratando fielmente os ranços salvacionistas, paternalistas e messiânicos do populismo brasileiro)


"
Andei por mais de cem lugar dizendo que o mundo ia acabar nesta seca, com fogo saindo das pedra. Os prefeito, as autoridade e os fazendeiro disseram que eu estava mentindo e que o sol era culpado da desgraça.

Mas, o ano passado eu disse que ia secar cem dia e ficou cem dia sem chuvê. Agora eu digo, no outro lado de lá deste Monte Santo existe uma terra onde tudo é verde, os cavalo comendo as flor, e os menino bebendo leite nas água do rio.

Os home come o pão feito de pedra e poeira da terra vira farinha, tem água e comida, tem a fartura do céu e todo o dia, quando o sol nasce, aparece Jesus Cristo e Virgem Maria, São jorge e meu santo Sebastião todo incravado de flecha no peito." (Lula mirando-se no governo JK, de seis décadas atrás, ao apresentar suas propostas de campanha em 2022, o que não é de estranhar-se, pois, afinal, suas referências são todas do passado...)


Troquei as bolas? Não faz mal. Dá tudo no mesmo.
.
Então, se você não encontrou diferença  nenhuma, 
sem problema: é porque realmente elas inexistem...(CL)

domingo, 18 de julho de 2021

ÉLIO GASPARI MOSTRA QUANTOS DETALHES SOBRE A HOSPITALIZAÇÃO DO GENOCIDA FORAM OCULTOS DOS BRASILEIROS

élio gaspari
SÓ HAVIA MENTIRAS EM NOTA DA PRESIDÊNCIA
SOBRE INTERNAÇÃO DE BOLSONARO
Eram 8h57 quando a Secretaria de Comunicação da Presidência da República informou o seguinte:
"O presidente da República, Jair Bolsonaro, por orientação de sua equipe médica, deu entrada no Hospital das Forças Armadas (HFA), em Brasília, nesta quarta-feira (14), para a realização de exames para investigar a causa dos soluços.

Por orientação médica, o presidente ficará sob observação, no período de 24 a 48 horas, não necessariamente no hospital. Ele está animado e passa bem".

Salvo a data e a identidade do paciente, era tudo mentira.

Em seguida, o chefe da Casa Civil, general da reserva Luiz Eduardo Ramos, informou: 
"Teve fortes dores às 4h, mas nada de grave até o momento. Então, graças a Deus, ele está muito bem. Repousando, que é o que ele precisa"
Salvo as dores da madrugada, tudo mentira.

Horas depois, Bolsonaro chegava ao hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde montou um pequeno circo.

Feiticeiros de palácio às vezes são bem-sucedidos e às vezes prejudicam a saúde dos pacientes cujo poder pretendem preservar. Assim se deu com a apendicite de Tancredo Neves em 1985 e com a gripe do marechal Costa e Silva em 1969.

É verdade que às vezes conseguem esconder os padecimentos dos chefes. Em 1959, esconderam o infarto de Juscelino Kubitschek. João Goulart teve pelo menos três ataques cardíacos entre 1961 e 1964. Jamais se falou do leve acidente vascular cerebral transitório de José Sarney.

Dois presidentes brasileiros, Costa e Silva e João Figueiredo, assumiram o cargo com médicos cantando a pedra de suas doenças circulatórias. Deu no que deu. Um foi incapacitado por um derrame, e o outro perdeu o rumo com um infarto em 1981. Lula e Dilma Rousseff deram exemplos de transparência médica.

O Bolsonaro que, segundo a Secom, passava bem e estava animado na quarta-feira, estivera internado no Hospital das Forças Armadas quatro dias antes. 

Felizmente, a realidade paralela dos feiticeiros foi retificada pelo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Ele revelou também que, ainda em Brasília, o pai foi para uma Unidade de Terapia Intensiva, onde intubaram-no para evitar que ele aspirasse o líquido que estava vindo do seu estômago. (Tratava-se da sonda gástrica.)

Se Bolsonaro tivesse ido a uma unidade do Samu no terceiro dia de sua crise de soluços, com muita probabilidade teria recebido a prescrição de vários exames. Paciente voluntarioso, como Tancredo, Bolsonaro não faz o que mandam os médicos. 
Às vezes, o paciente disciplinado acaba iludido pelos feiticeiros. Em 1969, passadas 27 horas do primeiro aviso de uma complicação neurológica e depois de perder a fala pela terceira vez, o presidente Costa e Silva perguntou ao capitão médico do serviço de saúde do Planalto:

—Não será derrame o que estou sentindo?

—Não senhor. Derrame não é. Vamos apurar tudo direitinho.

Era uma isquemia cerebral.

A insônia de Bolsonaro faz parte das mazelas da política nacional. Em 2019, ele contou: 
"Fiz exames para verificar as condições do sono. E descobri 89 episódios de apneia por hora [número de interrupções respiratórias no período]. Detenho o recorde brasileiro de apneia"
Não é um recorde do qual devesse se vangloriar. Getúlio Vargas tinha a sua apneia, mas cuidava-se, no limite da hipocondria.

Só os médicos podem decidir e devem falar com autoridade a respeito do estado de saúde do presidente. Se não fosse a intervenção de Flávio Bolsonaro, essa internação teria começado com feitiçarias. (por Elio Gaspari)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

"EXPLODIR OS LIMITES DA LINGUAGEM PARA QUE O MUNDO VÁ JUNTO": É O QUE SAFATLE SUGERE A QUEM QUER ENTENDER POLÍTICA

NÃO FALAR
Diante de 100 mil mortos, ocupar os espaços públicos para falar à classe média sobre como suportar a pandemia é só outra forma de puxar o gatilho
Diante da catástrofe (e o que temos diante de nós é a descrição mais clara de catástrofe ―não apenas a catástrofe do número impensável de mortos por negligência do estado, mas a catástrofe da vida normal que parece voltar numa letargia muda), seria o caso de dizer que este é um país não-viável, sentir até o mais profundo de nossos ossos sua inviabilidade para que esse sentimento queime todo e qualquer desejo de retorno em direção ao que quer que seja.   

Ao menos, esse desejo de não-retorno nos pouparia do último de nossos desejos responsáveis que só serviram para cavar mais fundo o impasse, a saber, os chamados para grandes frentes amplas contra o fascismo (e se me permitirem, vai aqui uma autocrítica pois até eu assinei um desses chamados, o que definitivamente não faria novamente). 
Eles formaram com JK a Frente Ampla mais bizarra de todas

Pois este é o país das frente amplas inúteis, dos bons sentimentos de responsabilidade civil que produzem monstros. Esse é o país dessa linguagem do diálogo entre diferentes. Do eterno diálogo de cúmplices. 

O mesmo argumento estava lá a selar o aperto de mão entre Luiz Carlos Prestes e Getúlio Vargas no final da 2ª Guerra. Uma frente ampla com comunistas, trabalhistas e os bons e velhos representantes das oligarquias locais. O resultado não foi brilhante. 

Ele voltou mais outra vez como certidão de nascimento da Nova República, quando uma outra frente ampla subiu aos palanques para dizer um eu quero votar para presidente, o que apenas serviu para dar alguma forma de legitimidade  ao pacto de paralisia que nos marcará durante os 30 anos por vir, pacto selado entre oposicionistas moderados e governistas sagazes.  

Se as palavras de ordem fossem para valer, a primeira coisa que Tancredo Neves-José Sarney teriam feito seria renunciar para a convocação de eleições gerais imediatas. Mas, não. Era o mesmo discurso contra o ódio (que, na época, atendia por outro nome. Seu alcunha era revanchismo).

Agora, foram necessárias apenas duas semanas para entendermos qual era a real função da frente ampla. O Brasil conhece atualmente forte tensão entre:
— uma extrema-direita popular de claros traços fascistas, que controla o executivo, e
— uma direta tradicional e oligárquica, que controla o judiciário e o legislativo. 

Ou seja, de um lado novos atores fora do horizonte tradicional da política, vindos do lumpem-proletariado; e, do outro, a casta política tradicional. 

Os dois lados do embate representam os mesmo interesses econômicos, comungam do mesmo projeto, mas não obedecem a mesma cadeia de comando. Era necessário um certo equilíbrio temporário que não dizia em nada a respeito de políticas de proteção da população contra a pandemia, mas apenas a uma geometria mais estável de partilha do poder. Geometria esta conquistada através da pressão da  chamada frente ampla

Esta era apenas uma forma de pressão que em momento algum levou efetivamente em conta a possibilidade de lutar para afastar o Governo. Assim, o país pôde continuar a assassinar sua população vulnerável enquanto preserva a ilusão própria a esta democracia geograficamente sitiada que construímos. 
Democracia que funciona num espaço geográfico definido nas regiões centrais das grandes cidades enquanto inexiste em suas periferias e nas relações no campo. Foi para preservar essa democracia geograficamente sitiada, que ameaçava ruir, que tais frentes amplas foram convocadas.

Ou seja, na hora de tomar ciência do intolerável, de mobilizar o entusiasmo para a tarefa dura e necessária de parar de falar como sempre falamos e começar a falar de outra forma, um falar de outra forma que produz necessariamente um agir de outra forma (já que vale aqui o dito de Austin, dizer é fazer), eis que reencarnam os mesmo enunciados, com seus mesmos tons e exortações, com suas mesmas falas de duplo sentido, que devem ser sempre lidas nas entrelinhas.  

Este país deveria aprender a recusar as falas que lhe são impostas, recusar a crença de que nossa emancipação se dará com as formas produzidas pelos setores mais fetichizados da indústria cultural, recusar os que nos aconselham o que fazer com nossos conflitos insolúveis, sejam eles individuais ou sociais. 

Parecem tipos de problemas diferentes colocados, de forma indevida, num mesmo nível. Mas quando a imaginação social de um país se paralisa, todos os níveis da vida parecem girar em torno da mesma cantilena. Melhor seria lembrar, como dizia Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo

Esta deveria ser a primeira lição para todos os que querem realmente entender política: explodir os limites da linguagem para que o mundo vá junto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do El Pais)
TOQUE DO EDITOR – Como este artigo era longo demais para os padrões deste blog, deixamos de lado os dois primeiros (enormes) parágrafos, o que, a nosso ver, não prejudica a compreensão do tema, por serem basicamente introdutórios. Os interessados poderão acessar o texto integral aqui.

terça-feira, 2 de junho de 2020

LÁ VEM O BRASIL, DESCENDO A LADEIRA... (um artigo de Dalton Rosado) – final

(continuação deste post)
"fazer-nos retroceder ao absolutismo feudal"
De resto, vale lembrarmos também os fatores políticos que concorrem para piorar nossas perspectivas. Então, como desrespeito governamental causador do descrédito mundial, podemos citar a incrível tomada de posições contrárias ao que o senso comum internacional já classificou como princípios consolidados e imutáveis, tais como:
— o desrespeito aos direitos das comunidades indígenas; 
— o descompromisso com a preservação ecológica; 
— a falta de empenho no combate à corrupção com o dinheiro público; 
— a hostilização de instituições do Estado (poderes Legislativo e Judiciário) que deveriam estar mantendo convivência harmoniosa com o poder Executivo; 
— as violações da Constituição; 
— a não observância da impessoalidade dos atos administrativos e a condescendência com o nepotismo; 
— o descumprimento unilateral da norma de soberania respeitosa e bilateral entre países, sem preferências e submissões ideológicas prévias; 
— o desinteresse pelo combate ao racismo, à xenofobia e à misoginia, dentre outras franquias democráticas burguesas consagradas pelo senso de civilidade (hipocrisias à parte).

O governo do capitão Boçalnaro, o ignaro tem retrocedido no tempo com relação a tais conquistas das democracias burguesas consolidadas (muitas das quais nós questionamos, principalmente aquelas que se referem à estrutura institucional vertical e opressora do Estado e à mediação social segregacionista pelo capital).
JK construía o futuro, o Bozo sonha com o passado
A democracia burguesa é uma arapuca dominada pelo poder econômico que dá a personagens como o Boçalnaro a oportunidade de assumir o poder político, mas continua sendo menos ruim do que o absolutismo militar com que sonha esse paradoxal personagem enxotado da caserna quando ainda era tenente. 

Os atos de governo parecem querer fazer-nos retroceder ao absolutismo monárquico feudal, no qual o rei era a Constituição. Aliás, não é de se admirar que ele tenha dito ser a constituição, nem que entre os parlamentares investigados no processo das fake news esteja um legítimo representante da família Orleans e Bragança, descendente dos monarcas que governaram o Brasil. 

Mas devemos dizer, a bem da verdade, que o soberano D. Pedro II era bem mais liberal, democrata e humanista do que os militares que aqui implantaram a República, a cuja tradição o governo atual rende repetidas homenagens. Mas nem a monarquia, nem o militarismo resolveram a contento os problemas sociais na história mundial. 

Ademais, as mudanças frequentes e por vezes em curtíssimo prazo de ministros e ocupantes de cargos importantes na estrutura administrativa são tão rápidas como o eram as blitzkriegs alemãs da 2ª Guerra Mundial, fato que revela o desacerto das escolhas e de suas políticas administrativas. 

Tal conjunção de crise econômica e desmandos políticos produz o desastroso caldo de cultura que submete o Brasil de hoje a vexames internacionais e às agruras que torturam nosso povo. 
"doutores trocados por oficiais na pasta da Saúde"
4o Brasil como atual epicentro da crise sanitária e da devastação florestal – temos, atualmente, uma média de 1.000 mortes diárias causadas pela Covid-19. 

Com os Estados Unidos registrando cerca de 1.500 óbitos diários, apenas estes dois países respondem por 60% do morticínio planetário, segundo a Organização Mundial da Saúde. 

É que tanto o presidente Destrumpelhado como o Boçalnaro teimam em minimizar a capacidade infecciosa do coronavírus e sua letalidade (que varia entre 5% e 8%, dependendo da capacidade de atendimento médico eficiente, saturado ou inexistente de cada região).

O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo comparou o isolamento social aos campos de concentração nazistas, um paralelo rechaçado com indignação por várias lideranças judaicas. Exagero tão descabido e equivocado apenas demonstra quão fora de sintonia são os seus conceitos.

Aliás, por que será que os sinistros gostam tanto de fazer alusões comparativas com o nazismo? Serão  atos falhos, reveladores das propensões ditatoriais que são obrigados a ocultar em público?

O governo Boçalnaro chegou ao cúmulo de afastar dois médicos que não aceitaram a implementação de bizarrices genocidas como drogas milagrosas e isolamento vertical. Não é de admirar-se que muitos doutores tenham sido substituídos por oficiais do Exército em pleno Ministério da Saúde (!).  Foi como entregar o volante do carro a um cego numa grande rodovia em horário de pico...   
Média de mil óbitos/dia e ele não dá a mínima!
Está devidamente comprovado que a cloroquina ou seu derivado hidroxicloroquina não apenas são ineficazes para o combate à Covid-19, como perigosos quando usados atabalhoadamente (seus efeitos colaterais podem causar a morte do paciente). 

Querer que um tal remédio sirva como profilaxia da doença é o mesmo que querer que um tiro de revolver atinja a lua (para usar em exemplo bélico, bem na linha das fantasias fálicas do Boçalnaro).

Querer que nossa economia, de há muito combalida, chegue a algo parecido com uma normalidade depois de duramente atingida pela pandemia, que já fez a recessão anterior evoluir para depressão, é tão absurdo como se pretender que o ministro Abraham Weintraub e suas idiossincrasias erradiquem o analfabetismo no Brasil.

Estamos despencando ladeira abaixo, mas como toda descida corresponde a uma posterior subida, ainda haveremos de vivenciar dias melhores... mas sob novos e corretos pressupostos! (por Dalton Rosado)

domingo, 19 de maio de 2019

O HOMEM DA VASSOURA SERÁ O HOMEM DA ARMINHA AMANHÃ? – 1

ricardo kotscho
OUTRO JÂNIO QUADROS?
Eu era menino ainda, tinha 12 anos, mas me lembro bem do tsunami que varreu literalmente o país durante a campanha presidencial. Meu pai, que era janista, morreu naquele ano. 

Vereador, prefeito, deputado, governador de São Paulo, Jânio da Silva Quadros subiu como um furacão na política brasileira no pós-guerra da década de 50, entre o suicídio de Getúlio Vargas e os anos dourados de JK.

Por que me lembro de tudo isso agora? 

Jânio não era um homem de partido, não pertencia a nenhum clã, combatia a velha política, andava em mangas de camisa, encarnava o moralismo autoritário e fez da vassoura seu símbolo numa campanha baseada no combate à corrupção. 

Não se desespere! Jânio vem aí para varrer a roubalheira!, gritavam seus seguidores pelas ruas, em tom ameaçador. 

Foi o primeiro político marqueteiro da nossa história. Aparecia em público com paletó ensebado de caspa ou com o quepe de motorista de ônibus. Comia sanduíches de mortadela para criar a imagem de homem simples do povo e em seus discursos abusava de próclises e mesóclises para mostrar erudição. 

“Os palanques transformaram-se em verdadeiros palcos de tragicomédia... Muitos o tomaram como um Messias”, escreveu a historiadora Maria Victoria Benevides no opúsculo O Governo Jânio Quadros.

Jânio se lançaria candidato à Presidência por uma coligação antigetulista de pequenos partidos. Logo conquistaria o apoio dos banqueiros e fazendeiros da UDN, e assim se elegeu com 48% dos votos de um total de 11,6 milhões de eleitores (hoje somos 147 milhões). 

Apenas sete meses após a posse, ao perder o apoio da UDN no Congresso, Jânio renunciou. Jogou tudo para o alto, sonhando em voltar nos braços do povo num lance bonapartista que não deu certo, e afundou o Brasil numa profunda crise política que três anos depois desaguaria no golpe de 1964.

Em 1986, nos 25 anos da renúncia, numa longa entrevista que fiz com ele para o Jornal do Brasil, rememorou assim os fatos: 
"Eu nem sequer me lembro direito... Me lembro apenas de ter telefonado para Eloá e dito: 'Arrume as malas porque eu não sou mais o presidente'. A minha displicência foi tal que, de Cumbica, eu fui para Santos, dirigindo meu fusquinha. E embarquei num cargueiro para Londres..."
Qualquer semelhança... (por Ricardo Kotscho, em artigo de 29/12/2018)

(continua neste post)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

PARADOXO: FAZEM QUESTÃO DE FESTEJAR O ANIVERSÁRIO DA DITADURA, MAS NÃO OUSAM DIZER SEU NOME!

encontro com a ditadura – 21
celso rocha de barros
ANTÍDOTO GOOGLE: FOI DITADURA
Inventei a expressão antídoto Google na época em que fazia blog. Um antídoto Google é um texto que explica direito o que muitos dos textos que aparecerão em uma busca de internet sobre um dado tema falsificam. Este pretende corrigir o meme não foi ditadura, espalhado pelos bolsonaristas.

Bom, foi ditadura.

No regime político inaugurado no Brasil em 1º de abril de 1964, os brasileiros não tinham o direito de eleger quem os governava. Logo, o regime de 64 foi uma ditadura.

Quando a UDN aderiu à luta armada em 31 de março de 1964, o discurso era o seguinte: as eleições presidenciais de 1965 seriam realizadas como a lei previa. Pelas pesquisas, o favorito para vencê-las era o moderadíssimo Juscelino Kubitschek.
"deputados que teriam feito oposição mais ativa foram cassados"

Mas aí, né, meu amigo? A turma já estava no poder, todo mundo arrumou cargo, todo mundo feliz de ser chamado de excelência, vão entregar o poder de volta para o povo por quê?

Não teve eleição presidencial em 1965.

Se houvesse Twitter na época, a hashtag #ChoraLacerda teria chegado ao topo dos trending topics, em homenagem ao otário que achou que seria o candidato do regime quando as eleições acontecessem.

O presidente passou a ser eleito pelo Congresso. Opa, você vai dizer, mas então tudo bem, é parlamentarismo, parlamentarismo é democracia também, certo?

Não, filho. Não era parlamentarismo. Era sacanagem.

O Congresso votava em quem os generais mandavam. Os deputados que teriam feito oposição mais ativa foram cassados logo no começo. Nenhum deputado queria ir para o pau-de-arara. Em 1968, os generais fecharam o Congresso por causa de um discurso. Imaginem o que teriam feito se os deputados resolvessem levar a sério a votação para presidente.

Era como nas eleições do Iraque do Saddam ou de Cuba do Fidel, em que o governo sempre ganhava.
"inventaram senadores que não eram eleitos pelo povo"
E todo mundo sabia que era teatro, não era segredo. Na época, ninguém se interessava pela votação no Congresso. O importante era saber como andavam as disputas entre os generais, porque dali é que saía o presidente.

A propósito, nesse meio tempo acabaram também as eleições para governador, porque a oposição venceu algumas delas. 

O padrão era esse. Toda vez que o regime perdia, fazia alguma mutreta com as regras. Por exemplo, na eleição de 1974 para senador, a oposição foi muito bem. Resultado: inventaram um novo tipo de senador, os senadores biônicos, que não eram eleitos pelo povo. 

Finalmente, os bolsonaristas gostam de perguntar: "que ditadura é essa que entregou o poder pacificamente?". Bom, pra começo de conversa, teve as ditaduras comunistas do Leste Europeu (à exceção da Romênia). Não é raro: a ditadura vê que vai cair e negocia a transição ainda no poder, de uma posição ainda vantajosa.

Se você quiser defender a ditadura mesmo assim, vá em frente, não sou sua mãe. Mas era ditadura.

E lembre-se: depois do golpe militar, foram 25 anos até os brasileiros voltarem a eleger seu presidente.
"...e aí nós resolvemos arriscar tudo elegendo Bolsonaro"

Depois do fim do regime, foram quase dez anos até a democracia controlar a inflação herdada da ditadura, mais de 20 até a desigualdade de renda cair até onde estava em 1964, e 30 até o Judiciário ganhar autonomia para processar governantes corruptos, o que era impensável na ditadura.

E aí nós resolvemos arriscar tudo elegendo Bolsonaro. (por Celso Rocha de Barros)

Toque do editor: muito internauta me propõe a dúvida que o Rocha de Barros abordou, se a ditadura foi mesmo ditadura (às vezes com um acréscimo: se foi ditadura o tempo todo ou somente a partir da assinatura do AI-5).

E sempre dou a mesma resposta: se conspiradores derrubam o governo constitucional sob falsa alegação (não havia ameaça real de tomada de poder pelos comunistas em 1964, foi só um espantalho para justificar a virada de mesa) e passam a impor sua vontade pela força, isto se chama ditadura e ponto final.

Muita gente tem uma visão hollywoodesca do assunto, pensa que ditadura se caracteriza pela intensidade da truculência. Ora, a ditadura brasileira só esteve sob o comando de ogros durante o mandato de Médici. No resto do tempo, utilizou apenas a força necessária para impor sua vontade. Era o argumento que lhe permitia prevalecer em todas e quaisquer circunstâncias.
Imagem de Gregório Bezerra sendo arrastado chocou o mundo
Foi muita a força que utilizou no momento inicial (uma imagem do digno e idoso dirigente comunista Gregório Bezerra sendo arrastado pelas ruas do Recife provocou indignação mundial), pouca a partir do 2º semestre de 1964, até tornar a crescer na setembrada de 1966, quando o movimento universitário deu a cara de novo nas ruas de São Paulo.

Seguiu-se a calmaria que antecede as tempestades e, em 1968, o protesto jovem irromperia logo no começo do ano, não saindo mais de cena. Foi crescendo cada vez mais, ao mesmo tempo que a ditadura desembestava a violência igualmente cada vez mais, até chegar à terra arrasada de 1972/73. 

Foi a fase do extermínio, quando passou a executar os resistentes (já prisioneiros ou no instante da captura) que, a seu critério, não deveriam sobreviver para participar das etapas seguintes da História do Brasil. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 28 de março de 2019

BALANÇO DA QUARTELADA IGNARA E DOS 21 ANOS QUE VIVEMOS AGONICAMENTE

encontro com a ditadura – 3
.
"Morte vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão 
que já se foi.
Revejo nesta hora 
tudo que aprendi, 
memória não morrerá!"
(Fernando Brant e Milton
Nascimento, "Sentinela")
Quando um governo paralisado por suas contradições, que não conseguiu até agora ensejar uma mínima esperança de resolução dos grandes problemas nacionais e começa a derreter em tempo recorde, aposta no acirramento das tensões políticas como forma de desviar a atenção da opinião pública da sua incapacidade de entregar aquilo que prometeu na campanha eleitoral mais mentirosa da História do Brasil, justifica-se plenamente uma recapitulação do que foi a usurpação do poder levada a cabo no dia da mentira de 1964 e a nada branda ditadura subsequente, ainda hoje louvada por seus carrascos impunes, reverenciada por suas repulsivas viúvas e defendida pelos cuervos  que o totalitarismo criou.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo.

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.


Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.
E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como hoje está mais do que comprovado. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e do Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.
Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).
O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada subversivo preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos fartos do autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já.

Foi responsável pela morte dos 434 opositores relacionados pela Comissão Nacional da Verdade,   pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos, afora ocorrências praticamente impossíveis de quantificar, como os abusos sexuais.

[Há quem sustente consistentemente que outros 600 camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas tenham sido assassinados por motivos políticos nos grotões do país entre 1961 e 1988. 

E respeitados antropólogos denunciam a ocorrência de um verdadeiro genocídio indígena nos anos de chumbo.]

Balanço que pulveriza a falácia de uma suposta brandura...  (por Celso Lungaretti)
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