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sexta-feira, 13 de junho de 2025

1965: A BOSSA TIRAVA O BRASIL DA FOSSA.

Marco da retomada artística: o Show Opinião.
Brasil, 1965. A repressão que se abatera sobre sindicatos, partidos políticos e entidades estudantis não foi estendida às artes, cuja relevância como fator subversivo vinha, até então, sendo quase nenhuma.

O teatro de denúncia, os Centros Populares de Cultura, o cinema novo, tudo isso até então  atingira contingentes pouco expressivos em termos numéricos, daí os novos donos do poder terem se permitido adotar com relação à cultura, uma postura inicial de déspotas esclarecidos...

Como consequência, os palcos e telas começaram a ser catalizadores do repúdio ao regime e das esperanças de uma reviravolta popular, ocupando o espaço dos canais de comunicação que permaneciam bloqueados.

Surgiam espetáculos de integração entre a música, a literatura e o teatro, como Liberdade, Liberdade e o Show Opinião (colagem em que os personagens-símbolos do povo oprimido, camponeses e favelados, eram representados pelo compositor de baião João do Valle e o sambista Zé Keti, respectivamente).
Oduvaldo Vianna Filho e Isabella em O desafio

O cinema, por meio de Paulo César Saraceni, lançava O desafio, filme cujo título aparecia em pichações contestatórias nos muros de São Paulo.

A música, após o refluxo da bossa-nova, tendia para um maior engajamento político e social, na linha defendida por Carlos Lira, Sérgio Ricardo, Edu Lobo e Nara Leão.

E a redescoberta ou revalorização dos sambistas do morro, colocados em evidência graças às parcerias com expoentes da bossa-nova (Pixinguinha/Vinícius de Moraes, Carlos Lira/Zé Keti, etc.), ainda rendia dividendos.

Foi quando o Centro Acadêmico Onze de Agosto, da tradicional Faculdade de Direito da USP, sediada no Largo São Francisco (de papel destacado em vários episódios de resistência ao arbítrio através dos tempos), decidiu promover noitadas de música popular no Teatro Paramount, sob o comando do radialista Walter Silva, apelidado de o pica-pau (ele era o apresentador de um programa de rádio dedicado à bossa-nova, pick-up do pica-pau). 

Logo esses shows eram assistidos por plateias entusiásticas (estudantes, intelectuais, boêmios, profissionais liberais).
O Paramount na fase das noitadas de MPB
Um ótimo documento do período foi o LP Uma Noite no Paramount, lançado em 1983 pela RGE – não é fácil de encontrar-se na internet, mas os obstinados o conseguem baixar. 

Divide-se quase que meio-a-meio entre a bossa-nova tradicional e canções de protesto como "Terra de ninguém", "Maria Moita", "Sem Deus com a família", "Aleluia", "Pedro Pedreiro".

A temperatura do espetáculo pode ser aferida pelo frenesi do público quando César Roldão Vieira canta versos do tipo "a minha mulher é só minha,/ a do branco eu nem sei se só dele é".

Um observador atento, Solano Ribeiro, viu a chance de realizar um evento de grande repercussão. Ele era um dos mandachuvas da TV Excelsior - Canal 9 (emissora paulista já extinta).
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1º FESTIVAL DE MPB: A ESTRELA SOBE NO GUARUJÁ.
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Idealizado por Solano Ribeiro, o 1º Festival da Música Popular Brasileira teve lugar no Guarujá (litoral sul paulista), em abril de 1965.

Projetou nacionalmente Elis Regina, que aos 12 anos começara a se apresentar em programas infantis de Porto Alegre, tendo depois gravado dois discos de músicas para a juventude e, afinal, firmado reputação como cantora de bossa-nova nas boates cariocas do Beco das Garrafas.
Sua interpretação vigorosa, arrebatada, com movimentação frenética (movia os braços como pás de moinho...), transformou-a instantaneamente em estrela.

Defendeu a canção vencedora, "Arrastão", parceria de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.

As classificadas a seguir não marcaram época:
  • 2ª, "Valsa do amor que não vem", de Baden e Vinícius, por Elizete Cardoso;
  • 3ª, "Eu só queria ver", de Vera Brasil e Mirian Ribeiro, por Claudete Soares;
  • 4ª, ""Queixa", de Sidney Miller, Zé Keti e Paulo Tiago, por Ciro Monteiro; e
  • 5ª, "Rio do meu amor", de Billy Blanco, por Wilson Simonal.
Como grande injustiçada ficou "Sonho de um carnaval", composição na mesma linha das que valeriam depois a Chico Buarque inúmeras vitórias em festivais. Os jurados passaram batidos pelos belíssimos versos e o enfoque desencantado, adulto, do fenômeno carnaval.
E, na interpretação de "Sonho de um carnaval", aparecia Geraldo Vandré – um paraibano que há mais de dez anos tentava a sorte no eixo Rio/São Paulo e já gravara um LP de peso (embora passasse quase despercebido).

"O FINO DA BOSSA", COM O CAST DO PARAMOUNT.

A poderosa TV Record - Canal 7 reagiu imediatamente, arrancando Solano Ribeiro a peso de ouro da Excelsior e entregando-lhe a organização do seu próprio festival.

Da mesma forma, contratou Elis Regina e colocou-a no comando de um programa que teria capital importância na afirmação dos novos valores da MPB: O Fino da Bossa.

Gravado as segundas-feiras no Teatro Record e levado ao ar nas quartas, O Fino da Bossa logo era enviado também a outros Estados brasileiros, além de ser reprisado nas tardes de sábado para os telespectadores paulistas.
O show inaugural ocorreu no dia 17 de maio de 1965, aproveitando, basicamente, o cast que vinha se exibindo no Paramount: Zimbo Trio, Ciro Monteiro, Nara Leão, Baden Powell, Edu Lobo, Jair Rodrigues e Maria Odete.

Comentando o espetáculo de estreia, o crítico de O Estado de S. Paulo destacou a capacidade de Elis Regina em acumular as funções de intérprete e apresentadora:
"...atuou a jovem e talentosa cantora em tal qualidade e como mestre de cerimônias, papel que desempenhou a inteiro contento. Temos a certeza de que, com mais um pouco de traquejo, a artista adquirirá, nessa prática, aquela mesma arte que a distingue como cantora popular moderna, de grande capacidade de transmissão, de interpretações muito pessoais e imaginativas..."
CRISE NO "FINO": A CLASSE MÉDIA TOMA O COMANDO.

Apesar de ser até hoje lembrado com esse nome, O Fino da Bossa só existiu nos três primeiros meses de programa. O título pertencia a Horácio Berlink Neto, que o utilizara num festival de bossa-nova por ele organizado em 1964 e no LP daí resultante.

A Record pôde aproveitá-lo no curto espaço de tempo em que Berlink foi o assistente do produtor Manuel Carlos. Depois, viu-se obrigada a trocar a denominação para O Fino.

Como atrações fixas, Elis Regina, Jair Rodrigues e o Zimbo Trio.

Elis e Jair respondiam pelas apoteoses finais, em pot-pourris que vinham dos tempos em que protagonizaram o show Dois na Bossa, no Teatro Paramount, sucesso no palco e em disco.
A fase inicial do programa, com predominância dos veteranos da bossa-nova e de sambistas do morro, segurou uma boa audiência até o início de 1966, quando O Fino começou a despencar nas pesquisas do Ibope.

Mas, a chama da resistência ao arbítrio se acendera, com a novidade de que a arte passara a ser uma via de escape face ao amordaçamento de partidos, sindicatos e outras entidades representativas da sociedade civil.

Com isto, a MPB ganhou um formidável impulso, colocando em evidência uma constelação  de talentos tão superlativos como nunca houvera antes, nem haveria depois. (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 9 de março de 2022

INVASÃO DA UCRÂNIA, ELEIÇÕES, MAMÃE FALEI, BBB... JÁ SATURARAM!!!

Resolvi escrever hoje sobre o décimo aniversário da morte do cineasta Paulo Cesar Saraceni, que transcorrerá daqui a cinco semanas.

Os leitores poderão considerar estranha tal escolha, mas foi a escapatória que encontrei para não abordar mais uma vez essa guerra retrô que um miasma do século 20  – déspota como Stalin e alucinado como Rasputin resolveu iniciar quando o mundo mal começava a respirar após aquela outra insuportável intrusão do passado no presente: uma peste!

E também para não perder mais tempo com uma eleição que apenas decidirá se o Brasil voltará aos tempos do mais rasteiro populismo com o Padim Lula ou do mais cruel obscurantismo com Torquenaro.

E, ainda, para não engrossar as fileiras dos que dão importância absolutamente desmesurada a besteirinhas como a satiríase de um cafajeste menor (quem nasceu para MamãeFalei nunca chega a Jece Valadão...) ou o voyeurismo de uma atração televisiva que coloca o grande público a espiar pelo buraco da fechadura os xiliques e baixarias de um catado de medíocres inglórios.

Fiquemos, pois, com Saraceni, que morreu aos 78 anos, tendo dirigido 13 filmes, nove dos quais também roteirizou.

Foi um dos fundadores do  cinema novo, mas nem de longe criou obras de importância equiparável às dos dois outros parceiros de empreitada: Glauber Rocha (indiscutivelmente, o maior cineasta brasileiro de todos os tempos) e Nelson Pereira dos Santos (bem mais prolífico e realizador de clássicos como Rio 40 Graus e Vidas Secas).

No entanto, Saraceni constituiu-se numa referência muito forte para minha geração, por um único motivo: seu 
O Desafio, lançado em 1965, foi uma corajosa resposta cinematográfica à quartelada. Flagrou os sentimentos de culpa, impotência e prostração subsequentes àquela vergonhosa derrota sem luta e forneceu-lhes catarse.

Tratou-se de uma prostração que acometeu toda aquela esquerda: foi dormir supondo-se a um passo do poder, iludida pelo triunfalismo inconsequente do Partido Comunista Brasileiro e seu principal dirigente (Luiz Carlos Prestes), mas acordou ouvindo marchas militares no famigerado 1º de abril de 1964.

E dá-lhe más ressacas! E dá-lhe lavagens de roupa suja! E dá-lhe lutas internas no partidão! E dá-lhe rachas!

Em 1965, a esquerda lambia as feridas e se reconfigurava, voltada para dentro de si mesma. Não reagia.

Aí, foi lançado O Desafio. E –juro!– o título apareceu pichado nos muros de São Paulo. Só o título, com a tinta escorrendo. Eu tinha 14 anos, via aquilo e nada entendia. Ignorava que fosse uma mensagem vinda das catacumbas: não estamos mortos!

Só em 1967, dando os primeiros passos no movimento estudantil, fui assistir ao filme e compreender o motivo das pichações.

E, francamente, não gostei daquele imenso desencanto que ele flagra, o atoleiro no qual se move Marcelo, o personagem politizado (interpretado pelo Vianninha, de saudosa memória), durante quase todo o tempo.

Mas vibrei com o final, quando ele enfim levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, decidido a retomar o bom combate. 
Isto ficou apenas sugerido, como se fazia necessário sob o tacão da censura.
Depois de um porre com um repulsivo colega de trabalho, vão ao apartamento deste, cuja esposa se despe e se-lhe oferece. Antes que ele tenha qualquer reação, o marido acorda e fita ambos, em meio à sua névoa alcóolica. 

Marcelo empurra a mulher e vai embora, enojado. Desce uma escadaria com expressão resoluta, afaga a cabeça de um menino pobre e se distancia, marchando ao encontro do seu destino.

Tudo isto ao som do tema "É um tempo de guerra", da peça Arena conta Zumbi.

Ou seja, da canção que Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo haviam derivado de uma poesia antológica de Bertolt Brecht, para usar o esmagamento do quilombo de Palmares como metáfora do golpe militar.

Na peça, era a lição que um guerreiro às portas da morte legava aos que viriam depois. Uma sugestão velada também, claro ("Eu sei que é preciso vencer/ Eu sei que é preciso lutar/ Eu sei que é preciso morrer/ Eu sei que é preciso matar"). Só que parecendo algo meio distante, lá pra frente, pois o momento era de derrocada.

No filme, ficou mais fácil perceber que se tratava do passo seguinte, imediato: um recado de que não só a luta tinha de ser retomada, como assumiria dali em diante características de guerra.


Foi profético. Houve mesmo a guerra, de consequências trágicas para a esquerda (quantos quadros insubstituíveis foram dizimados!), mas inevitável: ela só reconquistaria o respeito do povo caso se dispusesse a sangrar por seus ideais, como deixara de fazer em 1964.

Muitos dos que não pegaram em armas recriminaram nosso  
vanguardismo, nosso imediatismo pequeno-burguês. Segundo eles, só servimos para acirrar a repressão e fornecer pretextos para o endurecimento do regime.

Omitiram ter sido exatamente sua tibieza em 1964, quando deixaram de travar a luta em condições bem mais favoráveis, que nos obrigou a assumir adiante a missão quase kamikaze de lavar a honra da esquerda, virando a página da desmoralização e restituindo-lhe a credibilidade. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

VEJA OU REVEJA "O DESAFIO" DE 1965. SERÁ "MARIGHELLA" O DESAFIO DE 2021?

O inesquecível Vianninha nos deixou cedo demais...
O
 desalento e apatia nas fileiras da esquerda brasileira, após sofrer os sucessivos e terríveis abalos do impeachment da Dilma, prisão do Lula, eleição do Bolsonaro e entrega de Battisti à Itália, lembra muito a prostração subsequente ao golpe de 1964, quando a facilidade com que João Goulart foi expelido pelos conspiradores da caserna nos machucou quase tanto quanto a derrubada em si. 

Como voltar a crer nos dirigentes responsáveis por aquele desastre depois de as fanfarronices de Luiz Carlos Prestes se desmancharem vergonhosamente no ar, com um passeio de recrutas pela BR-3 (hoje rodovia BR-040) bastando para botar governantes e dirigentes de esquerda em fuga desabalada?

É esse momento de profundo desencanto que  O desafio (d. Paulo César Saraceni, 1965) flagrou, esmiuçou e pretendeu superar, apontando o caminho da retomada da luta.

De quebra, o filme dá, a quem viveu aqueles tempos, oportunidade de rever figuras queridas do cinema e das artes, como Elis Regina, Hugo Carvana, João do Vale, Joel Barcellos, Maria Bethânia, Nara Leão, Oduvaldo Vianna Filho, Zé Keti e outros. Quantos já se foram... 

A utilização de 
É um tempo de guerra (um dos temas musicais da peça Arena conta Zumbi, adaptando poesia célebre – vide aqui – de Bertolt Brecht) dá a palavra final: impossível conviver-se passivamente com o que o Brasil havia se tornado, então era hora de juntar os cacos e iniciar a resistência à desumanidade.

Estudantes pichavam os muros com o título do filme, que tinha duplo significado, sugerindo tratar-se de um repto cinematográfico ao regime militar. 

Lá pelos meus 14 anos, eu não entendia que raio de desafio era aquele. Levaria um tempinho para compreender. Mas, quando entendi, encontrei meu caminho na vida para sempre.

Marighella, de Wagner Moura, está cumprindo papel parecido atualmente... (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

VEJA OU REVEJA "O DESAFIO" DE 1965. SERÁ "MARIGHELLA" O DESAFIO DE 2019?

O inesquecível Vianninha, talento que perdemos cedo demais
O desalento e apatia nas fileiras da esquerda brasileira, após sofrer os sucessivos e terríveis abalos do impeachment da Dilma, prisão do Lula, eleição do Bolsonaro e entrega de Battisti à Itália, lembra muito a prostração subsequente ao golpe de 1964, quando a facilidade com que João Goulart foi expelido pelos conspiradores da caserna machucou quase tanto quanto a derrubada em si. 

Como voltar a crer nos dirigentes responsáveis por aquele desastre depois de as fanfarronices de Luiz Carlos Prestes se desmancharem vergonhosamente no ar, com um passeio de recrutas pela BR-3 (hoje rodovia BR-040) bastando para botar governantes e dirigentes de esquerda em fuga desabalada?

É esse momento de profundo desencanto que  O desafio (d. Paulo César Saraceni, 1965), flagrou, esmiuçou e pretendeu superar, apontando o caminho da retomada da luta.

De quebra, o filme dá, a quem viveu aqueles tempos, oportunidade de rever figuras queridas do cinema e das artes, como Elis Regina, Hugo Carvana, João do Vale, Joel Barcellos, Maria Bethânia, Nara Leão, Oduvaldo Vianna Filho, Zé Keti e outros. Quantos já se foram... 

A utilização de É um tempo de guerra (um dos temas musicais da peça Arena conta Zumbi, adaptando poesia célebre – vide aqui – de Bertolt Brecht) dá a palavra final: impossível conviver-se passivamente com o que o Brasil havia se tornado, então era hora de juntar os cacos e iniciar a resistência à desumanidade.

Estudantes pichavam os muros com o título do filme, que tinha duplo significado, sugerindo tratar-se de um repto cinematográfico ao regime militar. Lá pelos meus 14 anos, eu não entendia que raio de desafio era aquele. Levaria um tempinho para compreender. Mas, quando entendi, encontrei meu caminho na vida para sempre.

Cumprirá Marighella, de Wagner Moura, o mesmo papel em 2019? 
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