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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

INÓCUO SOB O CAPITALISMO, O COMBATE À CORRUPÇÃO É UMA BANDEIRA QUE SEMPRE ALAVANCA O POPULISMO DE DIREITA.

Combater a corrupção no capitalismo = enxugar gelo
O
circo do combate à corrupção  reergueu suas tendas para o espetáculo caso Master, ora em cartaz

Desde já se sabe que os palhaços da política profissional não passarão maus momentos. Os histriões dos principais partidos já teriam até acertado uma trégua entre eles, para evitar que as denúncias mútuas façam mais cabeças rolarem). 

No final, apesar de estar esperneando um bocado, o principal me(r)dalhão punido deverá ser Dias Toffoli, um mero e medíocre lambari, que não deveria nem ter recebido de presente uma cadeira no Supremo Tribunal Federal,

Daí eu estar republicando trechos de um artigo de 2009, quando uma disputa por mercado recebeu inclusive o apoio de partidos de esquerda -- uma vergonha! 

Tenho orgulho da minha atuação na série de escândalos que conseguiram aviltar ainda mais a política brasileira; alertei sempre que eles beneficiariam principalmente a direita. Não fui ouvido, mas meu papel eu cumpri. A omissão e oportunismo de outros companheiros prevaleceu e nosso povo sofreu as consequências. 

O vilão supremo Jair Bolsonaro, inclusive, não chegaria onde chegou se a Operação Lava-Jato não tivesse predisposto eleitores a fazerem a escolha mais funesta de suas vidas. Tento evitar que o desatino se repita.
O powerpoint do Dallagnol, um descalabro da Lava-Jato.
Q
uando, na década retrasada, contingentes da nossa esquerda tomaram partido por uma facção de gangsteres do capitalismo, de preferência à outra que com ela travava uma disputa mafiosa pelo florescente mercado de telecomunicações, fui um dos poucos articulistas a alertar que tal imbróglio não nos dizia respeito e nele não havia ninguém com quem devêssemos nos alinhar. 

De inocente útil chegava o delegado Protógenes Queiroz, o personagem mais badalado da Operação Satiagralha, que tirou as batatas do fogo enquanto um ex-superior hierárquico dele, alinhado com uma das quadrilhas litigantes, evitava queimar os dedos. Detonou sua carreira policial, mas ganhou inesperado prêmio de consolação: uma cadeira na Câmara Federal... pela legenda do PCdoB! 

A tal populismo rasteiro se reduzia um partido que ousou pegar em armas contra a ditadura militar. E não estava sozinho: o Psol também estendeu o tapete vermelho para o ingênuo delegado Brancaleone, que, contudo, o rejeitou.

Foi quando recoloquei em circulação uma conclusão definitiva do Paulo Francis sobre o udenismo e o golpismo de meados do século 20: O combate à corrupção é uma bandeira da direita (mais tarde, cunhei eu também um bordão nessa linha, a corrupção é intrínseca ao capitalismo).

Eis minha argumentação de abril/de 2009): 
Diagnóstico correto. E cuidado, essa doença mata!
...
as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento.

Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.

Não o faz. Desatinadamente, algumas de suas tendências reforçaram as denúncias que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as que deram pretexto à dita redentora de 1964 (que, claro, nada mudaram exceto melhorar a sorte dos beneficiários do butim ou ávidos de poder).

Então, digo e repito: em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.
Em sua agonia, o capitalismo cada vez mais recorre à força.

A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém.

E por que a corrupção não pode ser erradicada sob o capitalismo? Porque este coloca como prioridade máxima da existência humana o enriquecimento individual, a vitória na luta de todos contra todos por um lugar ao sol, ainda que pisando no pescoço da mãe para alcançar tal intento, como diria o Brizola.

Se esta é a lógica do sistema, sempre haverá quem busque atalhos para alcançar o objetivo à margem das regras que o próprio sistema estabelece mas manda às favas quando lhe convém. 

A alternância de cruzadas moralizadoras com períodos em que a corrupção corre solta dá a tônica do capitalismo. 

Revolucionários não deveriam jamais vergar-se aos estados de ânimo popular produzidos pela lavagem cerebral permanente do sistema, mas sim esclarecer corajosamente a seus públicos que todas as Lava-Jatos da vida cumprem a mesmíssima função de enxugar gelo.

E, enquanto a ilusão não se desfizer, acarretará golpes de estado, impeachments, vitórias eleitorais de demagogos grotescos e outros desdobramentos nefandos. (por Celso Lungaretti)

sábado, 18 de maio de 2024

É NA ESCURIDÃO DA NOITE SOMBRIA QUE MELHOR VEMOS BRILHAREM AS ESTRELAS

Ao criar sua majestosa Noite Estrelada, Van Gogh teve de buscá-la na memória, pois
no sanatório em que estava internado não lhe permitiam pintar no quarto de dormir.
dalton rosado
A DITADURA DO FETICHISMO DA MERCADORIA
Não há ditadura maior do que o fetichismo da mercadoria. Isto porque se processa na mente, ainda que seja auxiliada pelas armas e por estas imposta desde o seu surgimento.

Mesmo diante da intensificação das alterações climáticas causadas pelo aquecimento global, para o qual concorrem principalmente as duas locomotivas capitalistas do mundo (Estados Unidos e China) e a omissão dos fóruns internacionais que deveriam priorizar a salvação da espécie humana, o capital segue em frente na sua faina autofágica.

Assim é que o Rio Grande do Sul padece sob tempestades de chuva e vento que matam e desabrigam dezenas de milhares de pessoas.

Paralelamente, intensificam-se as guerras com poderio bélico, com poderio bélico cada vez mais avassalador;  e também podemos sucumbir como espécie graças a uma guerra nuclear que volta a nos assombrar como nas décadas de 1950 e 1960, quando os cidadãos chegavam a adaptar os porões de suas casas para servirem de abrigos atômicos quando acontecesse o pior.   

A que se deve o flagelo da guerra, senão à ambição de poder e riqueza decorrente do fetiche da mercadoria, embrutecendo o ser humano e tangendo-o de forma inexorável para a morte?

Por que se gastam milhões na produção de armamentos:
— senão para gerar o lucro da venda de tal produção e possibilitar que algumas nações armadas até os dentes submetam os países com menor poder de fogo?
— senão em razão dessa coisa absurda que é a coisificação da vida pelo processo de mercado, com a morte sendo celebrada no altar do fetichismo da mercadoria, o santo graal da modernidade decadente?

O jovem estadunidense que deixou sua vida e seu sangue derramado nas terras vietnamitas, ou voltou mutilado no corpo e/ou na alma por matar pessoas que desconhecia, é igual aos russos e ucranianos que deixam seus sonhos de amores e realizações nos campos de trigo do país invadido.

Entretanto, Lyndon Johnson e Vladimir Putin, títeres da tirania política do capital, justificaram e justificam a morte em nome de uma hipotética vida coletiva que eles afirma(ra)m estar ameaçada, sem explicar que eram/são movidos por uma engrenagem política a serviço do capital, do qual são obedientes representantes teleguiados por uma esquizofrenia demoníaca que lhes dá ordens repulsivas, e que consiste no fetichismo da mercadoria.

A vida sob o regime de produção de mercadorias ilude a todos como o sonho do apostador em loterias que faz planos para gastar a dinheirama que pretende ganhar graças àquele bilhete e que, assim, continua a jogar mais para manter viva sua esperança, ainda que as possibilidades estejam esmagadoramente contra ele. 

O êxodo de jovens russos avessos a arriscarem suas vidas numa mera guerra de conquista atesta o fracasso da propaganda oficial que tenta convencê-los da existência de objetivos nobres como a defesa da pátria.  Cresce cada vez mais o número dos convictos da iniquidade dessa guerra. 
Heróis são os que têm a coragem de dizer não à matança bestial, ainda que isto lhes custe as piores perseguições.

Os protestos contra os massacres israelenses aos palestinos em Gaza, nos campi das universidades estadunidenses de Columbia e Nova York, foram reprimidos por policiais obedecendo ordens políticas que justificaram (falaciosamente) tais atos como sendo necessários para retomada do campus, que sofreu atos perturbadores de violência, formas de intimidação e destruição de propriedade.

Certo estava Bertold Brecht: Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Há uma violência intrínseca à forma-mercadoria que é pouco percebida em razão da sua aparente neutralidade, ou seja, por apresentar-se como um fato social aparentemente ingênuo e benfeitor: a produção de objeto que, transformado em mercadoria, atende ao consumo e satisfação de uma necessidade social, humana. Só que, ao fazê-lo de modo meramente oportunista, encobre a essência de seu conteúdo de segregação social.

Assim, a necessidade humana de tais ou quais produtos é utilizada para se obter a escravização indireta pelo trabalho abstrato produtor de mercadoria e mais-valia. que concentra a riqueza material transformada em riqueza abstrata e assim viabiliza a acumulação excludente do capital. 

Tem, portanto, sua essência configurada como um vírus corrompedor de toda a sociedade, responsável pela decomposição da alma humana.

A mercadoria tem valor de uso e valor de troca, que se consubstanciam como acumulação excludente de valor do tempo-trabalho nela hipostasiado, daí decorrendo a acumulação de capital num processo de necessária reprodução continua que tende ao infinito, mas que termina por esbarrar na finitude do consumo humano e nas contradições que lhes são imanentes, tornando-se socialmente destrutiva e, por fim, autodestrutiva de sua forma fantasmagórica.

É a segregação social da forma-mercadoria e seus paradoxos existenciais que se manifestam nas disputas de mercado, com cada capitalista produtor e detentor da sua mercadoria tentando excluir os seus concorrentes, após explorar o trabalho abstrato e o tempo-valor de quem a produz. Ou seja, trata-se do eterno motor da guerra entre os homens teleguiados pela ditadura da riqueza abstrata nela contida e à qual os homens servem politicamente.   

É inaceitável falar-se em democracia como sinônimo de expressão da livre vontade coletiva, se nas tais eleições livres são escolhidos governantes que nada governam, mas que são, isto sim, governados a priori por uma relação social ditada pelo fetichismo da mercadoria, que a tudo corrompe socialmente.

Quando um governante se corrompe, apropriando-se indebitamente dos impostos estatais do aparelho de estado que serve à grande e abrangente corrupção da forma-mercadoria (leia-se capitalismo), seja para si ou para a manutenção política do seu partido, ele está estabelecendo uma concorrência com o Deus a que serve politicamente (o aparelho de estado nada mais é do que um serviçal do capital). 

Daí existir um constante
frisson entre a necessidade de reprodução do capital e a debilidade de sua cidadela protetora, o estado, quando subtraída pela corrupção política.   

Sergio Moro e seus amigos do Ministério Público, manipulando o processo criminal pelo uso de arbitrariedades na instrução processual, pareceram falsa e equivocadamente ser benfeitores sociais, pois o grande público era induzido por um processo midiático político-judicial parcial e faccioso a crer que se combatia realmente a corrupção com o dinheiro dito público (o qual não pertencia ao público público e, para piorar, a corrupção jamais deixou de existir e ainda existe). 

O episódio da Lava-Jato deixará como legado, para os historiadores futuros, a conclusão de que enquanto perdurar a forma-mercadoria como sistema social de produção, existirão:
— o facciosismo  judicial hipócrita; 
— a corrupção sistêmica inerente ao próprio capital; e,
— de quebra, a corrupção política e do crime organizado, que se confundem por objetivos comuns, quais sejam o poder do dinheiro e seu poder derivado sem soberania de vontade, a política.

O dinheiro, única mercadoria sem valor de uso, é a representação numérica da abstração valor que comanda negativamente a vida social real e que somente se reproduz pela fórmula da crítica marxista: dinheiro que se transforma em mercadoria, que se transforma em mais dinheiro. 
Trata-se de um processo que tende ao infinito, até esbarrar na ilogia de sua própria essência destrutiva e autodestrutiva. Tal crítica, vale dizer, jamais foi 
observada pelos maus intérpretes, ditos marxistas, dos ensinamentos de Karl Marx, o sábio barbudo judeu-alemão antissionista (tal qual Albert Einstein).

Mas, ainda há esperança. Afinal, é na escuridão da noite sombria que melhor podemos ver brilharem as estrelas! (por Dalton Rosado)

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

PENDENGA TOFFOLI x TRANSPARÊNCIA INTERNACIONAL É PREOCUPANTE: PODE ESTAR VINDO UMA TEMPESTADE DE M...

Dias Toffoli, ministro do STF, parece disposto a devolver para as grandes empresas corruptoras até o último centavo que a Operação Lava-Jato lhes tomou. 

Justifica-se alegando que os dirigentes crapulosos que fecharam acordo com as autoridades para saírem da prisão estavam sendo pressionados ilegalmente por Sergio Moro, Deltan Dallagnol e cupinchas. E está certo, segundo a letra da Lei.

Mas, é simplesmente chocante que, num país onde os coitadezas são tratados a pontapés pelos meretríssimos juízes, às vezes permanecendo uma eternidade presos antes que caia a ficha de eles terem sido vítimas de erros judiciais, os corruptos de alto coturno recebam tratamento tão benevolente. Só falta Toffoli lhes entregar, além da grana das falcatruas de volta, também diplomas de honra ao mérito.

Dá para acreditar que sejam inocentes e mesmo assim tenham aberto mão de fortunas para serem libertados? Quem engolir isto compra até terrenos em Marte.

Mais: Dias Toffoli entrou numa briga estridente com a ONG Transparência Internacional, que criticou suas decisões de ressarcimento de óbvios culpados. Contra-atacou acusando a TI de haver se apropriado de parte dos butins devolvidos.

Quem conhece o ministro de outros carnavais está careca de saber que ele não é nenhum herói e, já com a vida mansa, não estaria jogando uma cartada tão perigosa (pode resultar no seu impeachment) em troca do agradecimento$ comovido$ da Odebrecht e outra$ que tai$. É areia demais para o seu caminhãozinho, está faltando algo nessa história.  

Há, sem dúvida nenhuma, algum sujeito oculto manuseando os cordéis nos bastidores.
  
E, pelo que se viu até agora, o dito cujo pode muito bem ser o Lula, pois ele tem uma verdadeira obsessão em convencer o mundo de que as lorotas por ele contadas para defender-se das acusações da Lava Jato eram a mais pura e angelical expressão da verdade. 

Não lhe basta terem as acusações que lhe eram feitas sido anuladas em função de excessos cometidos pelos acusadores. O céu é o limite: o Lula faz questão de receber um certificado de inocência... que provocaria gargalhadas em quem é do ramo até o fim dos tempos. 

Ele tinha total direito de queixar-se dos dois pesos e duas medidas aplicados no seu caso, pois culpados das mesmíssimas práticas eram quase todos os governantes do Brasil através dos tempos. Perguntasse por que só eu? e estaria tocando em cheio na ferida. Já afirmando eu sou inocente, fui uma exceção à regra, ele se igualou aos grandes humoristas brasileiros.

Se for do Lula que advém a surpreendente coragem de Dias Toffoli ao peitar a maioria dos juristas deste país e uma ONG prestigiosa como a TI, ai de nós: a casa acabará caindo e a direita vai receber um fabuloso trunfo populista para virar o jogo depois da avalanche de derrotas recentes.

Meu palpite é o de que vem uma shit storm por aí. Espero estar equivocado desta vez. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

UMA ESQUERDA MORREU MAS NÃO SABE, OUTRA PRECISA NASCER MAS NÃO CONSEGUE

Comunidade primitiva, escravidão, feudalismo, cada etapa histórica pela qual a humanidade passou teve começo, meio e fim.

Agora está em curso a agonia do capitalismo, que não sobrevive sem contínua expansão, só que não tem mais para onde expandir-se, depois de vir por tanto tempo driblando com artifícios o fato de que cada vez se alarga mais o abismo entre os volumes sob ele produzidos e os indivíduos em condições de adquiri-los.

O desenvolvimento das forças produtivas que ele impulsionou em séculos passados seria suficiente para que cada habitante do planeta dispusesse do suficiente para uma existência gratificante e para que não esgotássemos estupidamente os requisitos imprescindíveis para a própria sobrevivência da humanidade.

Mas, como o Império Romano conseguiu esmagar a única força capaz de fazê-lo avançar para um estágio superior de civilização  (os gladiadores de Spartacus, que acenaram com a promessa de fim da escravidão, embora não sentissem-se suficientemente fortes para assumir bandeira tão ambiciosa e quisessem apenas escapar para serem livres longe dos romanos), o capitalismo já estagnou e está nos estertores, mas ainda consegue evitar a imprescindível ruptura.

Os ganhos obtidos pela humanidade com os desenvolvimentos científicos e com o barateamento da produção foram usurpados pelo capitalismo, que acumulou um monumental poder de fogo e, com isto mais a lavagem cerebral martelada dia e noite por sua indústria cultural, consegue não só perpetuar e fazer aumentar cada vez mais os riscos de extinção da espécie humana, como alavancar implacavelmente a desigualdade entre as classes em cada país e entre os países mais desenvolvidos e os países relegados à miséria, à fome, às pestes e às guerras insanas como as duas atuais.

O capitalismo conseguiu neutralizar inclusive a esquerda institucional, que por vários motivos já não consegue mais sobreviver fora do sistema, como nós, os contestadores da geração 68, tentamos e em parte então conseguimos durante um curto período. Hoje, os jovens de que desesperadamente necessitamos em nossas fileiras, não se dispõem mais a lutar em duas frentes, a militância anticapitalista e a batalha pela subsistência.

Então, os partidos que se rendem à institucionalidade burguesa, como o PT, levam a esmagadora vantagem de darem a seus quadros a possibilidade de  se dedicarem somente ou principalmente à militância.

[Falo do fundo eleitoral, da cota de assessores dos quais cada representante no Legislativo pode dispor às expensas dos contribuintes, das boquinhas na administração pública e nas estatais, dos salários exorbitantes que são pagos para militantes do partido no poder ao atuarem em entes na esfera de influência do dito cujo, na enxurrada de anúncios para as páginas virtuais de blogueiros mais dependentes que nunca do PT, etc., etc., etc.]
O centrão todo poderoso e a rainha da Inglaterra

È óbvio que a dependência financeira gera a dependência política. Tal esquerda
teúda e manteúda é obrigada a omitir-se vergonhosamente quando o PT passa como um trator sobre os valores fundamentais do marxismo e do anarquismo.

Quanto à esquerda que tenta sustentar-se na raça, sem vender sua alma ao donos do Brasil, ela fica eternamente relegada à insignificância, com efetivos e recursos insuficientes para virar o jogo mediante uma ação organizada de atração/conscientização de novos quadros, ou formação de territórios livres como a Colônia Cecília no final do século retrasado e em nossas comunas alternativas de 1968, muito menos para expropriar o inimigo (como fazíamos em 1969/1972).

O que resta é a alternância infinita de governos da esquerda domesticada e governos da direita selvagem, como está se vendo no Brasil e na Argentina, sem que consigamos quebrar essa polarização que faz a História travar e tudo piorar cada vez mais.

Por enquanto, a esperança que restou são novas explosões de indignação como a do Brasil em 2013 e a de diversos países (com destaque para o Chile) em 2019, pois se todas as portas da razão estão fechadas, pelo menos o espontaneísmo é impossível de represar infinitamente: sempre acaba chegando a gota d'água que extravasa o copo da cidadania manietada.

Mas, até para isto, precisamos formar os mínimos quadros de uma nova vanguarda, caso contrário as ondas de revolta, com líderes como a pobre Sininho, passarão sem que consigamos cravar a estaca no coração do vampiro. 

Vale lembrar: numa dessas
janelas históricas, o Partido Bolchevique, que seria quase insignificante em tempos normais, conseguiu em 1917 tomar o poder como quem tira o doce da boca de uma criança, simplesmente porque era a única força disciplinada e consciente dos seus meios e dos seus fins durante aquele pandemônio.

E é para a formação dessa nova vanguarda, que resgate a combatividade esquerdista evaporada durante a hegemonia do PT, que eu venho lutando ao longo do presente século. Trata-se do último legado que quero deixar, depois de dedicar a minha vida à revolução desde a virada de 1967 para 1968, quando tracei meu caminho na vida.

E uma bandeira a ser erguida imediatamente, para a acumulação de forças, é a adequada punição do indiscutível responsável pela morte evitável de centenas de milhares de vulneráveis durante a recente pandemia de covid. 

Salta aos olhos e clama aos céus que Lula, depois de tudo haver feito para que os torturadores da ditadura militar não fossem punidos, age agora de forma muito semelhante, tendo inclusive demorado uma eternidade para indicar o novo procurador geral da República e, depois, escolhido um candidato que inspira mais dúvidas do que certezas.

É óbvio que o encarceramento do genocida causaria comoção, e gente indo às ruas defender seus ideais assusta a esquerda que se desvirtuou e hoje pouco mais é do que uma força auxiliar da burguesia. A ela convém a pasmaceira, que lhe permite continuar se satisfazendo com as migalhas que caem da mesa da burguesia. Mas nós queremos muito mais: que finalmente se banqueteiem os que fazem o PIB crescer mas sempre veem, impotentes, uma minoria usurpar a parte do leão. 

Depois de todos os crimes cometidos pelo genocida no quadriênio infernal de 2019/2022, se ele escapar das grades será como se um Hitler, caso sobrevivesse à derrota nazista, tivesse sido deixado livre e solto para continuar praticando e pregando sua necropolítica abominável.

Cada derrota consentida fortalece o inimigo e debilita nossa moral. É fundamental cessarmos o quanto antes tal hemorragia. Se quisermos resgatar a esquerda autêntica do fundo do poço, o primeiro passo é termos a coragem de agir como nossos corações e mentes mandam, ao invés de permitirmos que se passe pano naquelas imagens dantescas de seres humanos morrendo sufocados por falta de respiradores. 

Temos de projetar para os brasileiros a imagem de uma esquerda que está de novo disposta à luta. Aquela que se deixou expulsar pusilanimemente  da avenida Paulista e depois ficou assistindo de longe enquanto secundaristas e torcedores de futebol travavam suas batalhas no seu lugar não nos serve mais para nada. Seu prazo de validade está definitivamente vencido.

Já passou da hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a construir uma esquerda de verdade. (por Celso Lungaretti)
"Inventando o necessário movimento pra não estar morto. Xaxando,
sambando, frevando ou sem saber dançar direito: renascer das cinzas!"

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

JOSÉ GENOÍNO E OUTROS FIGURÕES DO PT TEMEM QUE O PGR INDICADO POR LULA RESSUSCITE A OPERAÇÃO LAVA JATO

Na semana que vem, o polêmico indicado por Lula para novo procurador geral da República, Paulo Gonet, deverá ser submetido à sabatina no Senado. 

Há nas fileiras do PT um temor generalizado de que se trate de um cavalo de Troia que poderá escancarar as portas do partido para a invasão dos inimigos. 

A extrema-direita exulta, como a deputada bolsonarista Bia Kicis bem expressou:
"Paulo Gonet é conservador raiz, cristão, sua atuação no STF nos processos da Lava Jato foi impecável".
É exatamente aí que mora o perigo, segundo o competente colega Marcelo Godoy, do Estadão, ouviu da boca de José Genoíno, um dos dirigentes históricos do PT:
"A Lava Jato não foi um desvio do Moro, mas uma concepção que fazia da Justiça um instrumento político. Quando se pega um procurador-geral com uma concepção lavajatista, a qualquer momento, dependendo das circunstâncias, pode surgir o fantasma da Lava Jato. Em que momento pode aparecer, não sei, mas que é um problema, é".
Ou seja, as muitas ressalvas internas ao nome de Gonet advêm de seu perfil ser exatamente o oposto daquele que se esperaria de uma escolha do autocrata do PT. 

Das duas, uma: ou Lula é o gênio que sempre acreditou ser ou não passa de um jenio que novamente vai botar os pés pelas mãos. Seu decepcionante desempenho no primeiro ano do Lula.3 nos faz prever (e temer) a segunda hipótese.

Eu, que sempre considerei o combate à corrupção uma bandeira da direita, cansei de advertir que o flerte com tal punitivismo demagógico, tão estridente quanto inócuo enquanto estivermos sob o jugo do capitalismo, seria desastroso para a esquerda. 

Este artigo dá uma boa ideia das minhas insistentes tentativas de conjurar tal perigo, desde a Operação Satiagraha, uma antecessora da Lava Jato. 

Fui ignorado e o PT pavimentou o caminho para sua derrocada na década passada e consequente volta triunfal da extrema-direita.

Sou teimoso e lancei, contra o atual tiro no pé do Lula, um dos meus artigos mais contundente de 2023: este. Constato agora que até o Genoíno compartilha minha avaliação (quem diria...).

Alguém precisa avisar o
 jenio que ele está flertando com impeachment e até com uma nova temporada em cana. 

Para piorar, o Lula não leva jeito nenhum de que conseguiria dar nova volta por cima. O tempo passou na janela, só Lulalina não viu... (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 19 de setembro de 2023

AO PGR QUE LULA ESTÁ PRESTES A INDICAR CABERÁ PERMITIR OU IMPEDIR QUE A JUSTIÇA PUNA O PIOR GENOCIDA DA NOSSA HISTÓRIA

PGRs que só servem para blindar altas
autoridades são inaceitáveis hoje em dia
Para quem segue a escola marxista, sempre foi um óbvio ululante que não existem Poderes imparciais e isentos na democracia burguesa, pois Executivo, Judiciário e Legislativo giram em torno daquele que realmente determina o destino das nações: o poder econômico.

Daí eu ter considerado ridículo o chororô petista quando a gerentona trapalhona foi impichada, não exatamente em razão de obscuras pedaladas fiscais, mas por ir além de suas prerrogativas constitucionais para evitar que o eleitorado tomasse conhecimento da situação crítica a que ela havia reduzido as contas públicas. O nome do motivo real do impeachment é estelionato eleitoral.

E ela perdeu qualquer autoridade moral para chiar porque, mal acabava de tomar posse no seu segundo mandato, nomeou o neoliberal Joaquim Levy como ministro da Fazenda, depois de haver jurado várias vezes de pés juntos que o eleitorado se salvaria das reformas neoliberais exigidas pelo grande empresariado se votasse nela. 

Este último estelionato foi muitíssimo mais grave do que a maquilagem das contas públicas, mas seria difícil para os donos do Brasil obterem seu afastamento sob tal alegação. Já as tais pedaladas permitiam que ela fosse defenestrada sem ferir a letra da Constituição.  

Na época, ressaltei que, formalmente, não havia motivo para o PT abrir tamanho berreiro contra o encaminhamento dado àquele impeachment, mas todos os motivos para lembrar que já haviam ocorrido várias situações similares no passado, só que com presidentes de direita e sem que as coisas tivessem sido levadas a tal extremo.
Lula, quando trombeteava que, graças a ele, a pasta dos
Esportes deixara de ser moeda de troca de vis barganhas 
Mas, claro, o PT jamais quis ir pelo caminho correto porque tal argumento evidenciaria, mais uma vez, que a democracia burguesa sempre foi um jogo de cartas marcadas, o que coloca os partidos de esquerda que submetem-se à sua institucionalidade, desistindo de fazer a revolução, na ignominiosa posição de estarem iludindo seus eleitores, ao fazê-los crer na lorota de que a classe operária chegará ao paraíso pela via eleitoral. 

Então, como na década passada, é uma justiça tendenciosa que agora impõe penas exorbitantes à boiada bolsonarista, que Jesus Cristo decerto não consideraria tão culpada assim ("Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem"). 

Mas, sendo o STF uma instância política como é, devemos atentar para o fato de que no próximo dia 26 termina o mandato do pior procurador geral da República que este país já teve, principal responsável pela impunidade de que desfrutava o pior presidente idem, causador da morte de centenas de milhares de brasileiros com sua sabotagem alucinada ao combate científico da pandemia.

Então, vários meses atrás já se sabia que parlamentares participantes da CPI da Covid esperariam até o Brasil voltar a ter um PGR de verdade para submeter-lhe as conclusões daquele colegiado, que apontavam diretamente para a abertura de processo contra o genocida-mor da Nação.
Ele fez por merecer uma pena de
30 anos... e nem um ano a menos!



Salta aos olhos que agora ocorre o mesmo: os julgamentos da semana finda, de três coadjuvantes da barbárie, não passaram de um aquecimento para os que virão depois, quando, não havendo nenhum PGR bolsonarista para impedir, serão processados e 
condenados (face às provas e depoimentos acumulados, é inadmissível não o serem) os peixes grandes, sem os quais aqueles fanáticos descerebrados nunca teriam feito o que fizeram.

Então, como escreveu uma colega da grande imprensa, era importante fixar o patamar de 17 anos de prisão, porque tende a ser não o teto, mas sim o piso para as penas dos maiores culpados (aqueles que sabiam muito bem o que estavam fazendo!).

E, embora tudo nos leve a recordar o julgamento de Nuremberg, desta vez o desfecho poderá ser mais alentador, pois o pior de todos os psicopatas empoderados não se suicidou, nem se suicidará, já que coragem pessoal para tanto ela cansou de comprovar que não tem.. 

Portanto, tudo indica que teremos a oportunidade de ver o nosso Hitler trancafiado numa masmorra por 30 anos (o máximo que a justiça brasileira admite), tantas deverão ser as condenações que ele sofrerá nos vários processos aos quais vai responder doravante. As penas tenderão a somar centenas de anos, dificultando as iniciativas para liberá-lo antes do tempo.

Servirá de pequeno consolo para a infinidade de brasileiros que perderam seus entes queridos graças à insensibilidade extrema daquele ser abominável. E, de certa forma, será a tardia justiça que tanto buscamos, em vão, no caso dos torturadores da ditadura militar.
Um governo deste tipo jamais pode ter
a cumplicidade da esquerda brasileira

Devemos, contudo, ficar alertas: no segundo mandato, Lula proibiu seus ministros mais combativos de alinharem-se ao clamor por uma revisão da anistia de 1979, que igualara os torturados e/ou covardemente executados aos seus verdugos, com isto, na prática, inviabilizando a última possibilidade de eles serem punidos por seus crimes hediondos.

Como várias vezes o Lula já se demonstrou algo condescendente com Jair Bolsonaro, enquanto não perde chance para dizer  cobras e lagartos do Sérgio Moro, é importante nos posicionarmos firmemente para que, ao escolher o próximo PGR, ele não saque da manga outro Zanin.

Estão bem vivas nas nossas lembranças as terríveis decepções que Lula causou:
— ao indicar para o STF um defensor das posições políticas do PT, mas adepto da pauta conservadora na área de costumes, como se fosse outro ministro "estupidamente evangélico"; e
— ao sacar a valorosa e respeitadíssima Ana Moser do ministério dos Esportes para empesteá-lo com a nulidade que o centrão designou para recolher parte substancial da grana preta que advirá da liberação dos cassinos on line.

Então, que não ouse Lula optar por outro Aras. caso contrário terá de buscar sustentação política com as viúvas do Bolsonaro, pois, para todo esquerdista autêntico, será a gota d'água.

Alternativamente, Lula pode manter o mesmíssimo Aras, assim tudo vai ficar mais claro e a ficha cairá inclusive para os companheiros lerdos de compreensão. 

Será salutar se todos soubermos exatamente com quem estamos lidando, seja na PGR, seja na presidência da República.
 (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 17 de julho de 2023

EU SOU O MESTRE DO MEU DESTINO, EU SOU O COMANDANTE DA MINHA ALMA.

Nelson Mandela não aparece na galeria dos personagens inspiradores deste blog por acaso: admiro-o profundamente.

Mandela estava certíssimo ao pegar em armas contra a dominação dos africâneres e o brutal  apartheid dela decorrente, permaneceu preso por 27 anos como consequência de seus ideais, mas teve a lucidez política de reciclar-se para atingir seu objetivo de maneira diferente, noutro contexto.

Quanta diferença em relação ao Lula, que esbanja elogios ao Mandela mas permanece com a cabeça firmemente enraizada no passado, insistindo, p. ex., em exumar o totalmente anacrônico nacional-desenvolvimento de meados dos anos 50!

Lula, que passou apenas 1 ano e 7 meses preso, não se livrou até agora dos rancores então acumulados, a ponto de ter várias vezes demonstrado, inclusive em pleno Governo Bozo, que preferia vingar-se do já debilitado Sergio Moro do que minar a autoridade do genocida hidrófobo.

Assisti a vários filmes sobre o Mandela e considero que o melhor, disparado, é Invictus, de 2009, por ser, dentre todos, o que tem o melhor diretor (Clint Eastwood), o melhor roteiro (de Anthony Peckham e John Carlin) e o melhor ator principal (Morgan Freeman, superlativo!).
Freeman (esq.) conheceu Mandela (dir.) e diz
tê-lo admirado mais do que ao próprio Papa.

Infelizmente o Youtube não permite que ele seja postado na nossa tradicional janelinha, pois o disponibilizou apenas para compra. Também é encontrado em vários
streamings e quem sabe lidar com torrents pode baixá-lo clicando aqui.

A ideia de escrever este post me veio ao encontrar a poesia que o Mandela do filme diz ter-lhe dado forças nos piores momentos de seu calvário: é de William Ernest Henley, escrita em 1875. 

Tem tudo a ver com a trajetória dos que dedicam suas vidas ao bom combate, daí eu estar reproduzindo-a abaixo. (por Celso Lungaretti)
.
INVICTUS
Nas noites que me encobrem,
negras como um poço, de ponta a ponta,
eu agradeço a um deus qualquer
pela minha alma inconquistável. 

Das garras impiedosas das circunstâncias
não recuei nem chorei.
Sob os golpes do destino,
minha cabeça sangra mas não se curva.

Além deste lugar de ódio e lágrimas,
há apenas o horror das sombras.
Entretanto, a ameaça dos anos
ne encontra, e me encontrará, destemido.

Não importa quão estreito o caminho,
quão cheia de punições a minha sina,
eu sou o mestre do meu destino,
eu sou o comandante da minha alma.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

A VEZ DE DELTAN JÁ CHEGOU, A DE MORO CHEGARÁ EM BREVE

 


A
cassação de Deltan Dallagnol é mais um capítulo do processo de ostracismo que vem sendo imposto aos ex-membros da outrora poderosa operação Lava Jato, responsável por abalar os pilares da podre República brasileira entre os anos de 2014 e 2018.

Os chamados Tenentistas Togados espalharam o terror nas hostes políticas nacionais, atacando a tudo e a todos. Inicialmente, pareciam seguir a cartilha do Mensalão, focando o discurso da  moralidade contra o governo petista, particularmente contra Lula, e por isso ganharam incondicional apoio da mídia e das altas instâncias do Judiciário. Gilmar Mendes, por exemplo, hoje grande inimigo dos lavajatistas, foi um entusiasmado apoiador de primeira hora da trupe. 

Logo porém os tenentistas mostraram possuírem seu próprio programa político e começaram a estender investigações e devassas para todos os partidos e para todo o espectro do sistema. O objetivo não era apenas derrubar o lulopetismo, mas fazer vir a baixo toda a República, abrindo caminho para outra coisa mais assemelhada a um estado policialesco. Enquanto vigorou a aliança tática com o tucanato e a burguesia para viabilizar o Impeachment de Dilma, a corda dos togados foi sendo alongada, mas tendo se obtida a retirada da ex-presidente e, sobretudo, com a saída de cena de Lula, devido à sua prisão, as coisas começaram a desandar e o lavajatismo foi sendo paulatinamente minado. 

A vitória de Bolsonaro em 2018 foi vista pelo establishment como efeito colateral do lavajatistismo graças ao seu discurso moralista e de crítica radical ao sistema político da República Nova. O plano era a vitória de Alckimin e o retorno do tucanato ao poder após quase 20 anos longe da rapadura, mas o ex-presidente fujão acabou faturando dentro da falência generalizada do sistema. A ida de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça apenas evidenciou a íntima conexão entre a Lava Jato e a extrema-direita.

Foi sob a tutela de Bozo e de Moro que a Lava Jato começou a ser ostracizada. Já tendo cumprido seu objetivo de arruinar o lulopetismo e sob pressão dos políticos tradicionais - que condicionaram apoio ao governo em troca do desmonte da operação -, as investigações foram rareando e a autonomia da chamada República de Curitiba foi sendo podada. Em 2019, a Vaza Jato expôs os intestinos nada republicanos do grupo, demonstrando claramente o conluio existente entre MPF e Sérgio Moro e o quanto esse último era de fato o chefe do processo investigativo e não apenas um neutro juiz. 

Já no final daquele ano Lula era libertado e algum tempo depois teria seus processos anulados pelo STF. Estava montado o palco final do grande acordo nacional, com supremo, com tudo, nas imortais palavras de Romero Jucá, em que o petista seria a última salvação para o establishment impedir o bolsonarismo de engolir todas as instituições nacionais e ser definitivamente varrido do mapa. 

Para os outrora heróis da Lava Jato o cenário agora era difícil. A maré virara e tinham feito inimigos para todos os lados, até mesmo com o próprio Bolsonaro, insatisfeito com as pretensões eleitorais de Moro. Esse abandona o governo acreditando na miragem de que seria candidato de uma suposta terceira via, nunca concretizada. Sem viabilidade presidencial, se agarra em um cargo de senador para ter imunidade e renda. 

Deltan fareja o mesmo contexto difícil e o MPF, sob a tutela de Augusto Aras, inicia processo disciplinar contra ele. Para escapar, se demite do cargo do Ministério Público e, mesmo contrariando a Lei da Ficha Limpa, se lança candidato a deputado federal, conseguindo a vitória com tranquilidade. 

No entanto, os tempos são outros e hoje o lavajatismo não possui mais nenhum poder para levar adiante qualquer ação política. A presença de seus membros no legislativo tem muito mais o papel de blindagem e salvaguarda financeira que o de avanço em um programa reformista. Não interessa mais à burguesia nacional e à plutocracia reviver os dias jacobinistas do Tenentismo Togado. Como resultado, deixam seus antigos vassalos entregues à sanha da miríade de inimigos que fizeram por todo lado naquela época. 

Fosse possível sintetizar com uma só palavra a situação de Moro e Dallagnol neste momento e essa seria solidão. Tendo aberto múltiplos flancos de batalha, pois acreditavam estar fazendo desmoronar todo o sistema, fizeram centenas de inimigos, mas quase nenhum aliado. A conta está chegando e não parará de chegar tão cedo. (por David Emanuel Coelho) 

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