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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

"EXPLODIR OS LIMITES DA LINGUAGEM PARA QUE O MUNDO VÁ JUNTO": É O QUE SAFATLE SUGERE A QUEM QUER ENTENDER POLÍTICA

NÃO FALAR
Diante de 100 mil mortos, ocupar os espaços públicos para falar à classe média sobre como suportar a pandemia é só outra forma de puxar o gatilho
Diante da catástrofe (e o que temos diante de nós é a descrição mais clara de catástrofe ―não apenas a catástrofe do número impensável de mortos por negligência do estado, mas a catástrofe da vida normal que parece voltar numa letargia muda), seria o caso de dizer que este é um país não-viável, sentir até o mais profundo de nossos ossos sua inviabilidade para que esse sentimento queime todo e qualquer desejo de retorno em direção ao que quer que seja.   

Ao menos, esse desejo de não-retorno nos pouparia do último de nossos desejos responsáveis que só serviram para cavar mais fundo o impasse, a saber, os chamados para grandes frentes amplas contra o fascismo (e se me permitirem, vai aqui uma autocrítica pois até eu assinei um desses chamados, o que definitivamente não faria novamente). 
Eles formaram com JK a Frente Ampla mais bizarra de todas

Pois este é o país das frente amplas inúteis, dos bons sentimentos de responsabilidade civil que produzem monstros. Esse é o país dessa linguagem do diálogo entre diferentes. Do eterno diálogo de cúmplices. 

O mesmo argumento estava lá a selar o aperto de mão entre Luiz Carlos Prestes e Getúlio Vargas no final da 2ª Guerra. Uma frente ampla com comunistas, trabalhistas e os bons e velhos representantes das oligarquias locais. O resultado não foi brilhante. 

Ele voltou mais outra vez como certidão de nascimento da Nova República, quando uma outra frente ampla subiu aos palanques para dizer um eu quero votar para presidente, o que apenas serviu para dar alguma forma de legitimidade  ao pacto de paralisia que nos marcará durante os 30 anos por vir, pacto selado entre oposicionistas moderados e governistas sagazes.  

Se as palavras de ordem fossem para valer, a primeira coisa que Tancredo Neves-José Sarney teriam feito seria renunciar para a convocação de eleições gerais imediatas. Mas, não. Era o mesmo discurso contra o ódio (que, na época, atendia por outro nome. Seu alcunha era revanchismo).

Agora, foram necessárias apenas duas semanas para entendermos qual era a real função da frente ampla. O Brasil conhece atualmente forte tensão entre:
— uma extrema-direita popular de claros traços fascistas, que controla o executivo, e
— uma direta tradicional e oligárquica, que controla o judiciário e o legislativo. 

Ou seja, de um lado novos atores fora do horizonte tradicional da política, vindos do lumpem-proletariado; e, do outro, a casta política tradicional. 

Os dois lados do embate representam os mesmo interesses econômicos, comungam do mesmo projeto, mas não obedecem a mesma cadeia de comando. Era necessário um certo equilíbrio temporário que não dizia em nada a respeito de políticas de proteção da população contra a pandemia, mas apenas a uma geometria mais estável de partilha do poder. Geometria esta conquistada através da pressão da  chamada frente ampla

Esta era apenas uma forma de pressão que em momento algum levou efetivamente em conta a possibilidade de lutar para afastar o Governo. Assim, o país pôde continuar a assassinar sua população vulnerável enquanto preserva a ilusão própria a esta democracia geograficamente sitiada que construímos. 
Democracia que funciona num espaço geográfico definido nas regiões centrais das grandes cidades enquanto inexiste em suas periferias e nas relações no campo. Foi para preservar essa democracia geograficamente sitiada, que ameaçava ruir, que tais frentes amplas foram convocadas.

Ou seja, na hora de tomar ciência do intolerável, de mobilizar o entusiasmo para a tarefa dura e necessária de parar de falar como sempre falamos e começar a falar de outra forma, um falar de outra forma que produz necessariamente um agir de outra forma (já que vale aqui o dito de Austin, dizer é fazer), eis que reencarnam os mesmo enunciados, com seus mesmos tons e exortações, com suas mesmas falas de duplo sentido, que devem ser sempre lidas nas entrelinhas.  

Este país deveria aprender a recusar as falas que lhe são impostas, recusar a crença de que nossa emancipação se dará com as formas produzidas pelos setores mais fetichizados da indústria cultural, recusar os que nos aconselham o que fazer com nossos conflitos insolúveis, sejam eles individuais ou sociais. 

Parecem tipos de problemas diferentes colocados, de forma indevida, num mesmo nível. Mas quando a imaginação social de um país se paralisa, todos os níveis da vida parecem girar em torno da mesma cantilena. Melhor seria lembrar, como dizia Wittgenstein: Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo

Esta deveria ser a primeira lição para todos os que querem realmente entender política: explodir os limites da linguagem para que o mundo vá junto. (por Vladimir Safatle, na edição brasileira do El Pais)
TOQUE DO EDITOR – Como este artigo era longo demais para os padrões deste blog, deixamos de lado os dois primeiros (enormes) parágrafos, o que, a nosso ver, não prejudica a compreensão do tema, por serem basicamente introdutórios. Os interessados poderão acessar o texto integral aqui.

terça-feira, 11 de junho de 2019

PADILHA: "A DIREITA PRÓ-BOLSONARO E A ESQUERDA PRÓ-LULA SE TORNARAM IRMÃS SIAMESAS: NUNCA MUDAM DE OPINIÃO"

josé padilha
MANADAS DE WHATSAPP
Critiquei, recentemente, uma parte do pacote anticrime que o ministro Sergio Moro (Justiça) enviou ao Congresso. Mais precisamente, a que estimula o crescimento da violência policial no país. 

Moro respondeu com um post sem qualquer referência aos dados que citei. Disse, numa alusão ao fato de que sou cineasta, que minha crítica era ficção, como se não existissem milícias no Brasil. 

O descaso de Moro com dados que contrariam suas crenças é um exemplo do que chamo de desonestidade intelectual

Outro exemplo é a atitude da maioria dos formadores de opinião brasileiros, à direita e à esquerda. 

Uma parte se recusa a admitir que caiu no conto do vigário de Lula, se recusa a aceitar que ele capitaneou a associação PT-PMDB com um cartel de empreiteiros que desviou bilhões de dólares dos cofres públicos. 

A outra finge não ver que Jair Bolsonaro, além de desqualificado, tem conexões com a esgotosfera da polícia do Rio de Janeiro. 

No que tange à honestidade intelectual, a direita pró-Bolsonaro e a esquerda pró-Lula se tornaram irmãs siamesas: nunca mudam de opinião.

Não admitem a falibilidade de seus intelectos porque não satisfazem a definição do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. Não são pensadores, são membros de comunidades de ideias, de grupos de WhatsApp nos quais identidade tribal é critério de verdade.

Considere, leitor, os seguintes enunciados: 1 - a violência policial é um problema no Brasil; 2 - não deve haver uma reforma da Previdência; 3 - todos os atos de Moro na Lava Jato foram nefastos; 4 - Dilma e Lula são honestos; 5 - não pode haver privatizações; 6 - prisão em segunda instância é cercear o direito de defesa; 7 - o mensalão não existiu; 8 - a liberdade sexual é um direito individual; 9 - a maconha deve ser legalizada; e 10 - o impeachment foi um golpe.

A esquerda petista acredita em todos os enunciados acima. Já a direita bolsonarista não acredita em nenhum. Note, entretanto, que não há conexão lógica entre esses enunciados. A aceitação de um não implica a de outros.
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"As mensagens vazadas de Moro mostram um juiz trabalhando com procuradores para condenar réus. 

À luz deste fato, concluo que a Lava Jato foi um embate entre políticos corruptos e uma equipe de justiceiros" (José Padilha)
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Nada impede, p. ex., que alguém admire o combate do deputado Marcelo Freixo  às milícias, considere importante o ataque à roubalheira de Lula e companhia, que seja a favor da reforma da Previdência, que ache que Moro errou feio ao se associar a Bolsonaro, que defenda a liberdade sexual e a legalização da maconha, que ache que Dilma roubou, a despeito de o impeachment ter sido golpe, e que seja a favor da prisão após condenação em segunda instância. 

Uma pessoa assim, porém, não cabe nem no petismo nem no bolsonarismo.

Evidentemente, o leitor já concluiu que essa pessoa sou eu. A questão é: como é que virei tão gauche na vida (1)? Respondo: se novos fatos contrariam as minhas crenças, mudo de crença em vez de negar os fatos. 

As mensagens vazadas de Moro, p. ex., mostram um juiz trabalhando com procuradores para condenar réus. À luz deste fato, concluo que a Lava Jato foi um embate entre políticos corruptos e uma equipe de justiceiros (2)... 

O nome que dou à metodologia que coloca fatos à frente de crenças é racionalidade. O nome que dou à negação da racionalidade é desonestidade intelectual

Note, todavia, que as manadas de WhatsApp não definem desonestidade intelectual como eu. Para elas, um sujeito é desonesto intelectualmente quando contraria as crenças da sua manada. 

Honestidade intelectual, para esta gente, é coesão social. Concorde com alguma das proposições acima em um grupo de WhatsApp de direita, ou discorde em um de esquerda, pra ver o que acontece…

Ao ler a minha crítica a Moro, parte da esquerda assumiu que eu estava aceitando todas as suas outras teses. Alguns até disseram que era tarde, como seu eu estivesse pleiteando vaga em sua manada. 

Cruz-credo, digo eu! Faço questão de não pertencer nem ao petismo nem ao bolsonarismo, as duas manadas dominantes no Brasil.
Sob o risco de soar como um guru —e já soando—, sugiro a ambas que observem calmamente o que se passa em seus grupos de WhatsApp. Se fizerem isso, perceberão que nunca mudam de ideia porque têm medo do julgamento de seus pares. 

Perceberão que são reféns uns dos outros e que vivem uma dinâmica social que se opõe à razão. Concluirão, como Wittgenstein, que “o inferno não são os outros, o inferno são vocês mesmos”.                                                        .            
1  Alusão à famosa estrofe inicial do Poema de sete faces, de Carlos Drummond de Andrade: "Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida".
2  — Padilha se refere aos particulares que se arrogam o direito de fazer justiça com as próprias mãos, como os que, contratados pelas comunidades para protegê-las, espancam e até executam a bandidagem.
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