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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

ASSASSINADA COM PONTAPÉS NO CRÂNIO, ELA AINDA RECEBEU UM TIRO NA NUCA. SÓ DEPOIS ATIRARAM SEU CORPO NUM CANAL

No hotel Eden de Berlim, o soldado Runge destroça seu crânio e seu rosto a pontapés; outro militar, também a serviço do capitão Pabst, arremata com um tiro em sua nuca. Amarram seu corpo a sacos com pedras para que pese e não flutue, e jogam em um dos canais do rio Spree, perto da ponte Cornelius. Não aparecerá até duas semanas depois. 

O governo do socialdemocrata Friedrich Ebert acabava assim com a vida de Rosa Luxemburgo, a mais importante dirigente marxista da história, ex-militante do Partido Socialdemocrata da Alemanha (SPD), a líder mais significativa da Liga Espartaquista e fundadora do Partido Comunista da Alemanha.

Minutos antes, os mesmos personagens tinham assassinato o principal companheiro de Luxemburgo em sua longa trajetória. Karl Liebknecht – único parlamentar que em primeira instância (1914) votou no Reichstag (parlamento) contra os créditos de guerra para financiar a presença da Alemanha na 1ª Guerra Mundial  foi transferido para a prisão saindo do próprio hotel.

Antes de abandonar o local onde tinha sido interrogado lhe deram dois chutes que o deixaram aturdido e desmaiou; arrastado a um carro, é transportado ao Tiergarten, o grande parque de Berlim, onde é eliminado a sangue frio com tiros de pistola e abandonado no chão até ser encontrado. Tentativa de fuga, dirá a nota oficial; a de Luxemburgo trará linchada pelas massas.

Era a noite de 15 de janeiro de 1919. Neste sábado  (15) transcorrerá mais um aniversário da prisão e assassinato dos principais líderes da Liga Espartaquista e ícones históricos da revolução alemã de 1918-1919, que estoura logo depois de o Exército alemão ser derrotado e humilhado na 1ª Guerra Mundial
No mesmo 15 de janeiro de 1919 foram barbaramente 
assassinados pelos social-democratas Liebknecht e Rosa

Rosa Luxemburgo tinha passado os quatro longos anos da guerra na prisão, depois que em um comício, em Frankfurt, pediu aos soldados, com sua oratória envolvente, que se negassem a combater, irmãos contra irmãos. 

E exortou os trabalhadores de seu país a iniciarem uma greve geral que deveria contagiar os trabalhadores de outras nações do lado oposto, para que todos confluíssem sob a mesma bandeira, para além das pátrias. 

Sai da cadeia no início de novembro de 1918 e se une à onda revolucionária que inunda as ruas das principais cidades e, sobretudo, de Berlim. Dois anos antes, noutro comício, em 1º de maio de 1916, em meio à conflagração, Liebknecht encerra sua fala ao grito de Abaixo a guerra, abaixo o governo!. Também é preso e passa dois anos e meio na prisão. Sai em 23 de outubro de 1918.

A partir desse momento, restavam aos dirigentes espartaquistas apenas dois meses de vida, e dedicam suas forças a publicar um jornal (A Bandeira Vermelha) e a fundar o Partido Comunista da Alemanha. Tornam-se objeto do desprezo e do ódio de seus antigos colegas da socialdemocracia, que governavam na Alemanha havia algumas semanas. Ódio mortal. 

O historiador Sebastian Haffner escreveu que o assassinato de Luxemburgo e de Liebknecht foi planejado, no mínimo, no início de dezembro de 1918 e executado de forma sistemática. Apareceram cartazes nos postes das ruas que diziam:
"Operários, cidadãos! A pátria se aproxima do fim! Salvem-na! Está ameaçada e não de fora, mas de dentro, pela Liga Espartaquista. Matem seus líderes! Matem Liebknecht! Então vocês terão paz, trabalho e pão!". Assinado: "Os soldados do front"
Apesar das ameaças generalizadas, nenhum dos dois deixou Berlim nem tinha guarda-costas; simplesmente trocavam de residência.Assinado:

Quais foram os autores intelectuais do assassinato? O protagonista material foi o capitão Pabst (que décadas depois, em 1962, protegido pela prescrição do crime, falou abertamente sobre o caso) e seu esquadrão da morte, mas – segundo o historiador Haffner – não agiram como simples executores que obedeciam com indiferença uma ordem, mas como autores voluntários e convencidos do que faziam. 

A imprensa burguesa e socialdemocrata divulgou sem pudores várias incitações ao assassinato, enquanto os responsáveis socialdemocratas – Ebert, Noske, Scheidemann... – olhavam para o outro lado e permaneciam calados.

Quando Luxemburgo e Liebknecht saem da prisão, os fronts alemãs da guerra vão desmoronando e vem a desmoralização nas trincheiras. O kaiser Wilhelm II se refugia na Holanda. No mesmo dia em que Luxemburgo é libertada, o socialdemocrata Scheidemann proclama a república alemã de um balcão do Reichstag. 

Ebert ocupa a presidência, forma um conselho de ministros socialdemocratas moderados e pede ao povo que deixe as ruas e volte à normalidade. A ala majoritária do SPD queria a república e as liberdades, enquanto os espartaquistas visavam à revolução proletária, como indicam as proclamas: 
"Passou da hora das manifestações, das resoluções platônicas e das palavras de ordem. Para a Internacional chegou a hora da ação"
As duas facções, reformistas e revolucionários, lutarão encarniçadamente nas ruas de Berlim, às vezes edifício por edifício. O governo de Ebert confia a repressão dos insurgentes ao socialdemocrata moderado Noske, que organiza uma força militar na qual permite a integração dos oficiais do antigo exército monárquico. Em 13 de janeiro foi sufocada a insurreição espartaquista. Dois dias depois, acabam violentamente com a vida de seus principais líderes. (por Joaquín Estefanía, no El País)

Cinebiografia dirigida por Margreth von Trotta em 1986,
com Barbara Sukowa no papel da Rosa Vermelha

domingo, 5 de setembro de 2021

ATENÇÃO, BOLSOMINION QUE PRETENDE SEGUIR AS ORDENS MALUCAS E ILEGAIS DO BOZO NO BADERNAÇO: ELE É VOCÊ AMANHÃ

Jacob Chansley, 34 anos, mais conhecido como bisão ou xamã do QAnon, foi o arruaceiro-símbolo da turba que invadiu o Capitólio no último dia 6 de janeiro para tumultuar a apuração do resultado do pleito presidencial.

Preso no dia 9, amarga quase oito meses de prisão, acusado de seis crimes federais. Nesta 6ª feira (3) ele fechou acordo com os promotores que cuidam do caso, admitindo ter obstruído os procedimentos do colégio eleitoral. 

A pena, que oscilará entre três e quatro anos de prisão, vai ser anunciada no dia 17 de novembro. Além disto, Chansley se comprometeu a pagar 2 mil dólares pelo estrago e talvez ainda receba uma multa de 250 mil dólares.

O advogado de Chansley afirmou que seu cliente estava arrependido e que se sentia traído por Donald Trump, o homem a quem deu a lua e que lhe virou as costas.

Quando o presidente pediu que caminhassem com ele pela avenida Pensilvânia – prosseguiu o advogado Albert Watkins –, sentiram não apenas que o presidente estava falando com eles, mas que os convidava. Nosso presidente teve um papel? Teve alguma influência? Causou, ao menos em parte, o que aconteceu? Sim. Categoricamente. Sem dúvida alguma.

O juiz distrital Royce Lamberth ainda decidirá sobre o pedido do advogado de Chansley para libertar seu cliente enquanto aguarda a sentença. O Departamento de Justiça já se opôs a esse pedido feito reiteradamente desde a prisão de Chansley, em janeiro. 

É um homem com uma saúde mental vulnerável, que vive há oito meses o que qualquer médico diria ser a pior coisa que pode ser feita a alguém que tem um transtorno de personalidade, concluiu o advogado Watkins. 

De resto, bolsominion, não se iluda pensando que o palhaço agirá melhor com o seu gado do que o pato. Por tudo que vimos nestes catastróficos 32 meses, o genocida também usa, abusa e depois joga fora todos que lhe dão a lua
Se você não for membro do clã Bolsonaro, vulgo familícia, vai mofar na prisão e ele nem sequer lhe mandará um pacote de cigarros... 
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(por Celso Lungaretticom informações do jornal El País)

segunda-feira, 29 de março de 2021

A ASCENSÃO DO 'NARCOPETENCOSTALISMO' NO RIO DE JANEIRO

No Alcorão e na bíblia hebraica, Arão é apontado como o irmão mais velho de Moisés e um profeta de Javé, o deus de Israel. Nascido em 1396 a.C., seu nome na língua judaica significa pai de mártires

No Rio de Janeiro, em 2021, Arão é o apelido de Álvaro Malaquias Santa Rosa, 33 anos, traficante que comanda o Complexo de Israel, conjunto de favelas que abriga mais de 130 mil pessoas na zona norte da capital fluminense. 

Uma das principais lideranças da facção criminosa Terceiro Comando Puro, ele tem sob seu comando centenas de mártires armados com fuzis de assalto prontos para matar ou morrer na defesa dos pontos de venda de droga nas comunidades de Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas. 

Essa não é a única função deste moderno Arão do crime organizado: existem indícios de que ele teria sido ordenado pastor de uma igreja evangélica, segundo investigações da Polícia Civil.

O traficante, que também responde pelo vulgo Peixão –uma alusão ao antigo símbolo do cristianismo– determinou que fossem erguidas bandeiras de Israel em diversos pontos dos territórios controlados por ele. A estrela de Davi, símbolo maior do judaísmo, também estampa muros nas ruas e vielas do Complexo –uma delas pode ser avistada da avenida Brasil, uma das principais do Rio. 

O traficante leva a sério seus estudos de religião. Durante uma ação no local, policiais encontraram um esconderijo subterrâneo atribuído a ele: dentro do pequeno bunker, coletes à prova de bala, munições e um exemplar da Torá, o livro sagrado judeu, segundo reportagem do jornal O Globo. 

O uso da simbologia do Estado de Israel por parte de um traficante evangélico é justificado porque, para algumas das correntes das igrejas neopentecostais, a criação de Israel foi um sinal da volta de Jesus Cristo e a confirmação de promessas bíblicas do Antigo Testamento. Logo, algo a ser celebrado.

O próprio bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, reza alguns cultos com um kipá, o tradicional chapéu judaico, e utiliza vestimentas e adornos tradicionais do país.

As referências religiosas não param aí. O grupo de Peixão também se autodenomina Exército do Deus Vivo, tropa do Arão ou Bonde da Cabala (em referência a uma antiga tradição mística judaica). 

O traficante escolheu como símbolo pessoal o Peixonauta, personagem de desenho animado representado por um peixe que utiliza um capacete de astronauta. Grafites com este herói incomum também estampam as paredes do complexo. 

O fervor religioso e a simbologia infantil, no entanto, não se traduzem numa gestão pacífica dos territórios do conjunto de favelas: foragido há quase uma década, Peixão responde por ao menos 20 processos, com acusações que vão do tráfico de drogas a homicídio. 

Alguns dos assassinatos cometidos por seu exército contaram com requintes de crueldade, com corpos esquartejados e carbonizados.

Num áudio que circula em grupos de WhatsApp de moradores do complexo atribuído a Peixão, ele discorre sobre a situação nas comunidades que controla: "Se você falar com pessoas facciosas [que integram a facção] do CV [Comando Vermelho, rivais do TCP], vão dizer que nós é só coisa ruim. 

Mas se tu falar com alguém que gosta de ti, vão te falar o que 'tamo fazendo de bom aqui. União maneira, povo feliz. Ainda há muito o que fazer, mas 'tá muito diferente do que 'tava", diz o traficante. 

"O que eu posso te falar é que a gente aqui é puro, não fechamos a porta para ninguém. Se você estiver com seu coração puro e transparente e quiser estar aqui, posso até te armar, te deixar pesado", diz o chefe a um interlocutor desconhecido. "Mas você vai ser um em meio a centenas armados", diz em referência ao Exército do Deus Vivo sob seu comando.

A história do Complexo de Israel, que se consolidou em 2020 em meio à pandemia do novo coronavírus, começou antes de Peixão. 
Grafite do TCP mistura simbologia cristã com a do tráfico
Um dos primeiros sinais de que havia um novo movimento no crime organizado (apelidado de
narcopentecostalismo) em curso no Rio foi em 2013, com o Bonde de Jesus. Sob a liderança de Fernando Gomes de Freitas, vulgo Fernandinho Guarabú, morto pela polícia em 2019, traficantes vandalizaram terreiros de candomblé e umbanda no Morro do Dendê. 

Pais e mães de santo, bem como outros sacerdotes de religiões de matriz africana, chegaram a ser expulsos –algo que continua ocorrendo nos dias de hoje no complexo. As guias religiosas, assim como as roupas brancas, foram proibidas. 

Este fenômeno se espalhou por várias comunidades comandadas pelo TCP, facção que se originou em 2002 de um racha do Terceiro Comando. Depois de Guarabú, parte da cúpula se converteu ao evangelismo neopentecostal, alguns enquanto cumpriam pena em presídios no Estado. 
A estrela de Davi fascina os mais bizarros personagens 

O Rio de Janeiro é um bastião evangélico no Brasil, com 29,4% de sua população professando essa religião, segundo o mais recente censo, de 2010 (...). As milícias cariocas já controlam 25,5% dos bairros do Rio de Janeiro, num total de 57,5% do território da cidade. 

As três principais facções criminosas do tráfico de drogas –Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos– possuem juntas o domínio de outros 34,2% dos bairros e 15,4% do território. 

Ao todo, 3,7 milhões de pessoas vivem em local controlado por algum grupo criminoso, ou o equivalente a 57,1% da população da capital, segundo dados de uma pesquisa de várias organizações com dados de 2019. (por Gil Alessi, na edição brasileira do jornal global El País)
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TOQUE DO EDITOR – Morei no Rio de Janeiro durante três meses e meio em 1970, como militante clandestino da VPR; e, em meio aos horrores que marcavam cada dia de quem travava uma guerra tão desigual, consolava-me um pouco estar convivendo com o povo mais receptivo, cordial e brincalhão que já conhecera.
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Parte-me o coração ver o Rio de Janeiro reduzido a isso que transparece na excelente reportagem de El País, cujo texto integral pode ser acessado aqui.
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A cidade que um dia foi maravilhosa hoje se tornou horrorosa e está subjugada ao que há de pior no Brasil, como os traficantes, os milicianos e os Bolsonaros. Que terrível decadência!
(por
Celso Lungaretti

quarta-feira, 10 de março de 2021

RAIOS E AMEAÇAS DO MILITAR FRUSTRADO SÃO APENAS UM SINAL DE SUA FRAGILIDADE

juan arias
AS PALAVRAS QUE BOLSONARO NUNCA
PRONUNCIARÁ, PORQUE LHE QUEIMAM A LÍNGUA
O
vocabulário do presidente Jair Bolsonaro é muito restrito, talvez porque ele nunca tenha lido. 

Em seu dicionário pessoal só existem insultos, palavras obscenas, ameaças, zombarias. 

E as pronuncia sempre gritando, irritado, insultando, ameaçando. Seu vocabulário é o das armas, da guerra, do ódio e da morte.

Em seus discursos e arroubos de loucura não existem palavras de vida, de esperança, de alento, de compaixão. Ou ele desconhece essas palavras com as quais se constrói o mundo, ou elas queimam a sua língua.

Suas palavras, sempre burlescas ou ameaçadoras, evocam mais a linguagem atemorizante das armas que a alegria da vida. Não são palavras que convidem a compartilhar com o próximo seu pedaço de pão, e sim a desprezar a dor e a fragilidade.

Para ele, a vida é um direito apenas dos fortes, dos impassíveis perante a dor alheia. Zomba dos que choram e têm medo da morte. Onde pisa, por onde passa, deixa os rastros da indiferença para com os fracos.

Em seu vocabulário não cabem as palavras que constroem pontes de esperança, e sim as que buscam escavar trincheiras de guerra. Odeia falar de democracia e de respeito à natureza. A morte é o seu lema.
Não entende a política do diálogo e do respeito às diferenças, que são os ingredientes com os quais se constrói a paz. 

Quem, como ele, exalta a tortura e as armas e é incapaz de pronunciar palavras como diálogo, liberdade ou harmonia, é porque nunca saboreou o pão quente do encontro, do convívio pacífico, da compaixão com a dor alheia e da alegria compartilhada.

Quem zomba da morte e aboliu do seu dicionário a empatia pelos que sofrem é porque renunciou a saborear o melhor da vida, que é a paz. 

Para isso, entretanto, é necessário ser um homem de verdade, que não teme a fraqueza e nem os limites impostos pela realidade da vida, e que acredita ser onipotente.

Bolsonaro me lembra aquele militar espanhol, Millán Astray, que em plena guerra civil gritou na Universidade de Salamanca, em 1936: Morte à inteligência, viva a morte!.

E, no entanto, as sociedades são construídas com o grito de Viva a vida!. Um grito que surge das profundezas do amor e da esperança, e que por isso Bolsonaro nunca conseguirá entender. Ele se alimenta com as palavras de morte.

Por isso, a esperança para o Brasil que não renunciou às palavras que geram harmonia em vez de ódios é que Bolsonaro acabe apagado do dicionário para voltar ao esquecimento, e que um dia seja recordado apenas como um pesadelo que turvou nossos sonhos.

A esperança é que o parêntese de negacionismo do capitão e seu desprezo pela vida sejam, na expressão do Quixote,
apenas uma noite ruim passada numa estalagem ruim.

Depois das tempestades e dos trovões costuma aparecer o sorriso de um arco-íris, essa beleza que é incapaz de agradar ao capitão que, no dia em que o Brasil registrou o maior número de mortes da pandemia, um dia de luto nacional, foi saborear um banquete com direito a leitão, cerveja e gargalhadas.

Pelo amor que tenho a este país, prefiro pensar que os raios e ameaças do militar frustrado sejam apenas um sinal de sua fragilidade, que acabará se desmanchando como uma bolha de sabão. Só então o Brasil voltará a respirar o ar puro de sua natureza, hoje martirizada e desprezada por ele.

Quando cruzo com um brasileiro, prefiro ver no fundo de seus olhos as imagens de suas origens povoadas pelas belezas naturais de suas florestas e o reflexo de seus mares e rios cristalinos.

O Brasil leva o nome de uma árvore da selva, essa que hoje Bolsonaro tenta transformar num deserto perante o espanto do mundo. Quem rege os destinos deste país parece, mais que um brasileiro, alguém chegado de um planeta de espinhos e pedras. (por Juan Arias, na edição brasileira do jornal global El País)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

CARLA JIMÉNEZ: "BOLSONARO NÃO TEM HONRA NEM RESPEITO, TEM ATITUDES DE UM COVARDE, DE UM SABOTADOR NACIONAL"

DECRÉPITO TORTURADOR DE ALMAS, BOLSONARO
NÃO CABE NO CARGO QUE OCUPA, NEM CABE NO BRASIL
A
esta altura de 2020, qualquer pessoa que minimamente acompanhe o noticiário sabe que não há o que se surpreender com as atrocidades perversas que saem da boca do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ao zombar da tortura da ex-presidenta Dilma Rousseff ele só mostra sua verve de torturador que sempre soubemos que ele tinha. 

Não há diferença entre a frase esta semana ―Dizem que a Dilma foi torturada e fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio-X para a gente ver o calo ósseo― e o Quem procura osso é cachorro, dita em maio de 2009, quando Bolsonaro humilhava parentes de desaparecidos na ditadura (assassinados por militares que pensam como Bolsonaro) que faziam pressão para que fossem localizados os restos mortais de seus familiares.

Bater covardemente em alguém, ainda mais uma mulher, ex-presidenta, só é típico dos bárbaros, dos mesquinhos, dos pequenos que têm inveja, dos futriqueiros venenosos, dos picaretas. Debater o porquê de ele ter sido eleito e o que isso diz dos seus eleitores é algo que já se estendeu até demais nestes últimos dois anos. 

Já sabemos que Bolsonaro não é o mal puro, mas a síntese da maldade coletiva de um Brasil perverso, deformado. Não se trata somente da deformação dos que identificam e celebram sua crueldade, mas a distorção dos que não tiveram a chance de aprender e alcançar o que uma frase tão delinquente quanto a que ele pronunciou sobre Dilma faz mal à saúde do Brasil e à nossa democracia. 
A frase não é só sobre o passado. Ela tem uma correia de transmissão com a tortura que acontece nas delegacias e nas periferias do país todos os dias.


Custa chamar Bolsonaro de presidente da República. Ele não cabe nesse posto. Não representa o povo brasileiro, nem uma aspiração coletiva, nem um exemplo a ser seguido. Seus dois anos já demonstram que ele seria incapaz de fazer história com grandes realizações e contribuições para o Brasil. 

Não tem bondade, não tem empatia, não tem honra nem respeito. Tem atitudes de um covarde, um sabotador nacional, com auxílio de muitos que o ajudaram a chegar lá e agora se descolam, como o ex-ministro Sergio Moro. 

O ex-juiz sabia exatamente o tamanho da própria credibilidade naquele momento e recebeu todos os alertas de quem Bolsonaro era e agora vira e mexe o critica. Mas a última vez que Moro o criticou, no último dia 28, foi em função do atraso na campanha da vacinação. Não para condená-lo por Bolsonaro ter exortado a tortura a que foi submetida a ex-presidenta Dilma.

Bolsonaro sobrevive e, sim, uma tempestade perfeita pode reconduzi-lo ao poder em 2022. Ele tem a sorte de se deparar com uma época de lideranças fracas no Brasil, de gente que silencia sobre seus criminosos desvarios, cujos limites morais podem não ser tão baixos quanto os dele, mas com pontos de intersecção:
 é o constrangimento de ver o Supremo Tribunal Federal e procuradores de São Paulo envolvidos em pedido de prioridade na vacinação; 
 é o marketing de gestor do governador João Doria cortando verbas de Ciência em São Paulo (afora uma viagem desastrada quando os números da covid-19 estavam subindo);
  é deputado se gabando de ter ganhado fuzil de presente...

Justiça seja feita, Bolsonaro tem um papel fundamental para a história brasileira ao mostrar aos que defendem a democracia o tamanho da nossa arrogância e ignorância sobre o Brasil real. Nos contentamos com pouco achando que o pouco era muito porque era somente para nós.

Pois bem. Os anestesiados pelo pavor da miséria no poder com a ultradireita estão ganhando anticorpos e, se o presidente ainda goza de prestígio num grupo de eleitores, esse mesmo grupo vai cobrar a fatura quando os erros de Bolsonaro trouxerem a colheita. 

Ele, que apontava o confinamento vertical no início da pandemia como um antídoto para proteger a economia ―e não ficar para trás num mundo competitivo―, teve a incompetência de deixar o Brasil a esmo na hora que deveria montar uma campanha de vacinação nacional e isso cobrará seu preço no tempo da nossa recuperação. Mais valeram as picuinhas e as artimanhas grotescas do que focar num plano que finalmente o poderia colocar à altura de um estadista.

Bolsonaro não cabe no cargo de presidente e sua monstruosidade se destaca a cada dia no mundo em que vivemos. No momento em que a Argentina avança no debate sobre aborto, jovens vão às ruas no Peru, chilenos reescrevem sua Constituição, mexicanos e costa-riquenhos lideram a vacinação na América Latina, o presidente brasileiro vai se tornando um corpo estranho:
 é o presidente que mente ao mundo culpando indígenas pelos incêndios no Pantanal;
 o machista arcaico num mundo cada vez mais feminista; 
 o torturador de Dilma no dia da aprovação da abertura do seu processo de impeachment...

Pode ser que faltem dois ou até seis anos para que o peso de suas palavras o derrubem por si só. Para que seja o pária nacional, o antiexemplo, a dor na alma, a vergonha do Brasil. Tal qual quando na ditadura havia uma vergonha popular de dizer que se apoiou os crimes covardes do governo militar. 

Bolsonaro é o representante dos militares que iam botar bomba no atentado do Riocentro, dos militares que esconderam o rosto da fotografia enquanto Dilma era interrogada então com 22 anos. 

Dilma pode não ter sido tão popular enquanto presidente e isso é uma verdade que não se pode apagar. Mas seu tamanho e sua trajetória estarão altivas nos livros de história. Os de Bolsonaro, não.
(por Carla Jiménez, editora-chefe da edição brasileira do jornal global El País)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

BOLSONARO E TRUMP SÃO PIORES AINDA DO QUE OS FASCISTAS: QUEREM DESTRUIR O MUNDO MODERNO E VOLTAR À IDADE MÉDIA

"
O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. 

Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz."

Quanto Jair Bolsonaro balbuciou tais sandices em março de 2019, a impressão que dava é de não passar de uma tentativa canhestra, repleta de erros de português, de produzir uma frase de efeito. 

Infelizmente, contudo, ele era sincero ao declarar-se um agente da destruição, tanto que já destruiu um sem número de instituições brasileiras e é, por sua sabotagem ao combate científico da covid-19, o maior genocida da História brasileira, responsável direto por dezenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas (pouco me importando se muitos brasileiros desinformados ainda não perceberam isto, pois a ficha acabará por cair para eles também!). 

É o que fica evidenciado na entrevista, de autoria de Letícia Duarte para o jornal global
El País (acesse a íntegra
aqui), com o pesquisador da extrema-direita e etnógrafo estadunidense Benjamim Teitelbaum. 

Após 15 meses escutando os delírios de anormais como Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Duginautor (conselheiro de Putin), Teitelbaum (foto abaixo) escreveu Guerra pela Eternidade: o Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista, aqui lançado no semestre passado pela Editora da Unicamp.

Eis as principais afirmações de Teitelbaum na longa entrevista: 
"O Tradicionalismo [os devotos da seita grafam a palavra assim mesmo, com T maiúsculo] é originalmente uma escola espiritual filosófica que se tornou política em certo nicho. Os seguidores basicamente acreditam que a humanidade está ao fim de um longo ciclo de declínio e que vai ser concluído com destruição e renascimento. O que foi perdido neste ciclo de declínio foi o conhecimento verdadeiro da religião e também a ordem nas nossas sociedades –incluindo a diferença entre homens e mulheres, posições sociais e espirituais. 

No lugar disso, teríamos um mundo massificado e secularizado neste processo de modernização. O Tradicionalismo acredita que é preciso haver um cataclismo para restaurar o que acreditam ser a verdade. Um dos elementos desse Tradicionalismo politizado de direita é acreditar que é preciso restaurar uma hierarquia onde homens arianos e líderes espirituais estão no topo, em oposição a materialistas, não-arianos e mulheres.
...o Tradicionalismo acrescenta uma motivação espiritual para o que poderia ser simplesmente uma agenda política do populismo de direita, antiglobalista, antiprogressista. As pessoas podem aderir a isso por diferentes razões, como ressentimento econômico, racismo, antifeminismo… Mas o Tradicionalismo oferece uma motivação religiosa. E esse é um elemento importante. 

No caso de Olavo de Carvalho, p. ex., ele não expressa apenas um ódio às elites, desprezo à ciência, à mídia, às universidades. Existe também a visão, um certo mandato espiritual, com o desejo de destruir grandes organizações, como a União Europeia, as Nações Unidas. A seus olhos, a destruição é uma coisa boa. 

Isso é assustador e preocupante. Os tradicionalistas acham que essas grandes organizações querem unificar e homogeneizar o mundo com o comunismo, ou com dominação chinesa. Então Olavo quer ver o establishment no Brasil ser quebrado em peças e fraturado: sejam os militares, a universidade, a mídia. Destruição é a agenda.

...essas ideias extremas acabaram vindo à tona basicamente no mesmo momento, e não pelas mãos de Bolsonaro, Trump, e Putin, mas pelas mãos das figuras atrás deles, como uma espécie de Rasputin... os conselheiros místicos, influentes.

...o real sujeito do livro (...) é o que está por trás disso tudo, porque nos encontramos num momento em que as pessoas estão buscando ideologias que parecem destoar tanto do padrão. 

E essa ideologia não é o comunismo, não é liberalismo, não é fascismo. O Tradicionalismo é tão fora do mapa que nenhum cientista político, nenhuma think tank em Washington, ninguém no Congresso e nenhum candidato à presidência jamais ouviu falar dele. 

E esse movimento ainda assim se sustenta. Há tanto desencanto, tanta frustração com o status quo, que nós vemos atores buscando alternativas radicais.

...O Tradicionalismo é anti-progressista num nível que raramente vemos. Muitas pessoas costumam chamar a si mesmas de conservadoras, mas quase todo mundo no campo conservador é basicamente progressista no mundo ocidental. Elas acreditam que, se você reduzir as regulações governamentais do capitalismo e aumentar a liberdade individual sobre a propriedade, você pode criar uma sociedade melhor. Eles não são nostálgicos. 

O Tradicionalismo vai na direção diametralmente oposta. Eles não acreditam que seja possível mudar ou melhorar a história, acham que é preciso desfazer todo o mal feito para as nossas sociedades, e isso não significa voltar apenas décadas para trás, mas séculos.

O fascismo é futurista, modernista, a despeito de tudo. Hitler e Mussolini queriam transformar radicalmente suas sociedades, revolucioná-las. O Tradicionalismo vai na direção contrária: quer voltar para trás, num nível que ninguém leva muito a sério. E é nesse ponto que as ideologias se separam. 
Ambas se opõem ao feminismo, ao multiculturalismo, às políticas emancipatórias contemporâneas. Mas as diferenças são significativas. Há um elemento de destruição no Tradicionalismo que não necessariamente existe no fascismo.

...(sobre as teorias da conspiração culpando a China pela pandemia) Para Bannon e Ernesto Araújo, há uma questão mais específica: o fato de a China ser secular, antirreligião, e ao mesmo tempo massificante, globalizante, por estar eliminando fronteiras. Isso é um problema para os nacionalistas... para os tradicionalistas, a China não é uma vilã apenas pela questão econômica, mas é um demônio metafísico.

...Trump perdeu, mas ele continua sendo incrivelmente popular entre a direita. Não há nada parecido, nenhum republicano jamais recebeu tantos votos nos Estados Unidos. E além disso os republicanos ainda foram muito bem nas votações do Senado, no Congresso. Eles têm uma penetração crescente entre grupos minoritários e pessoas sem diploma. 

Tenho entrevistado muitos jovens republicanos e eles seguem a cartilha de Trump. Eles acreditam que Trump mostrou que, se conseguirem combinar políticas econômicas liberais com políticas sociais conservadoras, eles podem vencer os democratas. Isso deve manter a ideologia trumpista viva"

domingo, 6 de setembro de 2020

7 DE SETEMBRO: MORTE (parte 1)

Brasil chega ao Dia da Independência com um genocida no 
poder e negacionistas do genocídio em todas as partes
Se este 7 de Setembro transcorrer como se o Brasil vivesse algum tipo de normalidade, enterremos nossos corações, porque já estarão mortos. Devemos então parar de fingir que estamos vivos e assumir nossa condição de zumbis. 

Não o dos filmes, que tentaram escapar dessa condição. Mas os que escolhem ser contaminados pela normalidade criminosamente anormal. 

A covardia é uma forma de existência a qual se escolhe. Este país está cheio de oportunistas, sim. Mas também está cheio de covardes incapazes de defender qualquer território para além da sua família, porque também o sentimento de comunidade foi persistentemente destruído. 

Em 7 de Setembro de 1822, quando se aliviava de uma diarreia insistente no riacho Ipiranga, em São Paulo, o príncipe português Dom Pedro I teria gritado: Independência ou Morte! Depois de 198 anos, já entendemos que o Brasil sempre escolheu a morte. Mas jamais, em nenhum outro momento de sua história, o país havia alcançado esse nível de perversão sob o título formal de democracia. 

Negros e indígenas vivem uma longa história de extermínio, mas esta é a primeira vez em que um governo construiu uma máquina de morte. Temos um genocida no poder, e ele está matando tanto quanto deixando morrer. Tem intenção, tem plano e tem ação sistemática.
Os quatro pedidos de investigação de Jair Bolsonaro por genocídio e outros crimes contra a humanidade que já chegaram ao Tribunal Penal Internacional não são um jogo político de retórica. São a denúncia de que o judiciário brasileiro não consegue ou não quer barrar os crimes de Bolsonaro e de outras pessoas com cargos de poder no Governo, sejam generais ou civis.

Se conseguisse ou quisesse, como os fatos já mostraram, Bolsonaro nem poderia ter sido candidato. 

Ele é o resultado de uma longa série de impunidades iniciada ainda quando era militar. Foi absolvido no Tribunal Superior Militar, num julgamento povoado de indícios de fraudes, de planejar um ato terrorista com um motivo corporativo: botar bombas em quartéis para pressionar por melhores salários. 

Só se tornou presidente pela vocação característica do sistema judiciário brasileiro: a de punir severamente os pretos e pobres e despachá-los para um sistema carcerário incompatível com qualquer ideia de civilização, mas perdoar ou deixar de julgar os ricos e brancos. 

Especialmente se estes forem militares e tiverem o privilégio de uma justiça paralela que escolhe inocentes e culpados com base não nos fatos, mas nos interesses corporativos de uma instituição que se considera acima da Constituição.
Bolsonaro é brasileiríssimo. A criatura que está matando os Brasis que considera obstáculos ao seu projeto de poder, assim como as populações que despreza (indígenas e negros), é a versão mais bem acabada – e por isso tão terrivelmente mal acabada – de todas as deformações. As que os governos anteriores não quiseram corrigir, pelas mais variadas razões, as que as diferentes elites estimularam, para manter seus privilégios, as que o povo se acostumou a conviver.

O Brasil chega a este 7 de Setembro com os símbolos nacionais sequestrados pelo bolsonarismo. A bandeira foi sequestrada, o hino foi sequestrado, as cores foram sequestradas.  

Porque o bolsonarismo não se coloca como uma parte do Brasil, mas como o todo. Os outros Brasis e brasileiros que se opõem a ele são considerados e tratados como não brasileiros, como aqueles que precisam ser expulsos ou eliminados porque não deveriam estar aqui.

O seu discurso no telão da Paulista, pouco antes do segundo turno das eleições de 2018, quando a vitória já era certa, é explícito:
"Vamos varrer do mapa os bandidos vermelhos do Brasil (...) Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia"
Percebam. Não a lei do Brasil, que é a Constituição, mas a lei de todos nós. E esclareceu quem são nós: o Brasil de verdade.

O bolsonarismo é, em sua gênese e na sua estrutura, incompatível com a democracia. Na minha opinião, também incompatível com a civilização. O fato de Bolsonaro ter sido eleito não altera sua vocação totalitária nem sua lógica de eliminação dos opositores como falsos brasileiros. Ao contrário.  
Ao ser candidato, apesar de todos os crimes que já tinha cometido, a começar pelo de apologia à tortura, Bolsonaro desmoraliza e destrói uma combalida democracia que jamais foi capaz de julgar os crimes da ditadura e por isso jamais foi capaz de se proteger de criminosos como Bolsonaro.

Ele não apenas leva os generais de volta ao governo e militariza toda a máquina pública, o que pareceria impossível apenas alguns anos atrás, para um país que viveu uma ditadura militar de 21 anos. Bolsonaro também carrega para o Planalto a lógica de guerra dos regimes totalitários.

Na ditadura iniciada com o golpe de 1964, os inimigos da pátria eram os opositores políticos, especialmente os estudantes que a ela resistiram também com luta armada. No regime criado pelo bolsonarismo, que já não podemos chamar de democracia, os inimigos da Pátria são ampliados para todos aqueles que se opõem democraticamente a ele e a todos aqueles que são obstáculos ao projeto econômico de grupos no poder. 

Os opositores, como ele disse, devem ser levados à Ponta da Praia, referindo-se a um local de tortura e desova de cadáveres na ditadura, no Rio de Janeiro. Já os indígenas, principal obstáculo ao projeto de exploração da Amazônia, são tratados como uma espécie inferior: cada vez mais humanos iguais a nós. Aos quilombolas, outro obstáculo, ele se refere com termos usados para animais: nem para procriadores servem. 

De certo modo, Bolsonaro vai além da ditadura militar na qual se inspira ao tornar brasileiros de verdade apenas os fiéis de seu culto político ― e falsos todos os outros. Porque ele não é apenas um mau militar, como definiu o ditador e general Ernesto Geisel. Bolsonaro está também aliado aos pastores de mercado e ao ruralismo mais predatório. 

Bolsonaro emprestou à lógica da guerra dos generais uma versão bíblica do bem contra o mal, explicitada pelos brasileiros de verdade e pelos brasileiros de mentira. Estes devem ser expulsos ou eliminados não apenas como inimigos, mas como infiéis da pátria.

Para consolidar sua vitória colocou em campo uma máquina de propaganda, o chamado gabinete do ódio, que poderia ser elogiada por Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler. 

O bolsonarismo converteu todos aqueles que se opõem a ele em inimigos da pátria, do mesmo modo que o nazismo fez com os judeus num primeiro momento. 

Com os indígenas e com os negros, ele já entra numa segunda etapa, ao considerá-los apenas quase humanos como nós.

Bolsonaro e o bolsonarismo, que vai muito além dele, faz uma colagem dos totalitarismos do século 20 com a versão bíblica do evangelismo de mercado que se consolidou na política partidária neste século e alcançou o poder central com a eleição de 2018. 

Se fossem contemporâneos, Adolf dificilmente teria prazer em se sentar à mesa com Jair, porque a vulgaridade do presidente brasileiro o escandalizaria. Hitler queria criar sua própria arte e estética.  
Bolsonaro, pelo menos por enquanto, só quer destruir qualquer forma de arte. É o supremacista que prega (também) a supremacia da estupidez como a vingança dos ressentidos.

Bolsonaro não precisou criar seus campos de morte. Deixou a covid-19 avançar e agiu para reter recursos públicos destinados ao enfrentamento da doença, para afastar os quadros técnicos com experiência em saúde pública e epidemias, para vetar medidas decisivas de prevenção e para tumultuar o combate ao vírus.

Também incentivou a invasão das terras indígenas e das áreas protegidas por grileiros e garimpeiros. Se a pandemia acabasse hoje, este já é um Brasil sem muitas das grandes lideranças que lideraram seus povos na luta pelo direito a viver em suas terras ancestrais e para manter a floresta amazônica e outros biomas em pé. Parte dos opositores de Bolsonaro, na Amazônia que mais uma vez volta a queimar, morreram nos últimos meses. E a pandemia ainda está longe de acabar.

A mais recente liderança indígena morta por covid-19, em 31 de agosto, foi Beptok Xikrin, 78 anos, conhecido como Cacique Onça. Voltou à sua aldeia, no Médio Xingu, num caixão fechado, enfiado em uma lona, amarrado a uma caminhonete como se coisa fosse, na mais abjeta indignidade. Não basta matar ou deixar morrer, é preciso humilhar, quebrar a espinha dos povos indígenas também pelo insulto e pela desonra.

Mesmo para quem tem baixa expectativa com relação à decência das várias elites brasileiras, é custoso compreender como ainda chamam o que hoje há no Brasil de democracia. O que aí está não é bom nem mesmo para o mercado, essa entidade pronunciada com reverência. 

Que tipo de crença leva alguns setores, mesmo da imprensa, a considerar, depois de um ano e meio de governo, que há alguma composição possível com o bolsonarismo? 

A ação das elites não foi diferente nos processos totalitários do século 20, mas ainda assim é espantoso. (por Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista, no jornal global El Pais)
(continua neste post)
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