Mostrando postagens com marcador Primavera de Paris. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Primavera de Paris. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Paris, mas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

O ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 18 de novembro de 2025

PROIBIÇÃO DA LINGUAGEM NEUTRA É UM ATO DE AUTORITARISMO RIDÍCULO

Militantes da revolução ortográfica exageraram 
em suas demandas e os tradicionalistas marcaram pontos

Sempre achei uma besteirinha a chamada linguagem neutra, que torna indeterminado se uma palavra se refere ao universo masculino ou feminino. 

Nisto e em quase todas as esquisitices do politicamente correto, a minha posição sempre foi a de que precisamos mudar o mundo, não a forma como nos referimos às coisas do mundo. 

Não devemos nos iludir, fazendo da rejeição de usos costumeiros um cavalo de batalha, como se o machismo fosse desaparecer bastando que o tornássemos uma palavra interditada. 

Continuaria existindo e causando os males que causa, pois sua extinção depende de uma transformação maior da sociedade, conhecida como revolução.

Isto posto, considero um ato de ridículo autoritarismo a lei que Lula acaba de sancionar, proibindo o uso de linguagem neutra na administração pública de todo o país.

Por que agir como se ainda estivéssemos na ditadura militar, quando os caprichos dos poderosos viravam lei?

Concordo que a tal linguagem neutra não deva ser imposta ao cidadão comum, pois  aí o serviço público estaria servindo para o proselitismo de uma prática que, por enquanto, tem mínima adesão.

Não vejo, contudo, por que não se proíbe o uso da LN apenas no que tenha relações com, ou se destine ao, público externo. 

Assim, não se estaria impondo a LN à coletividade em geral, nem impedindo que os adeptos dessa mudança conquistassem adeptos para sua cruzada no ambiente de trabalho.

Transcorridos 57 anos desde as barricadas parisienses, a palavra de ordem É proibido proibir continua tendo muito a ver. (por Celso Lungaretti)  

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O RAULZITO FARIA 80 ANOS NESTE SÁBADO. EIS UM ARTIGO QUE RELEMBRA O SEU MAIS BELO SONHO: A SOCIEDADE ALTERNATIVA.

No início dos anos 80, quando trabalhava em revistas de música, tive uma breve amizade com o Raul Seixas.

O que nos aproximou foi termos ambos 1968 como referencial maior de nossas existências. 

Canções tipo "Metamorfose Ambulante", “Tente Outra Vez”, "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda rabugenta se reerguia, passando como um rolo compressor sobre os loucos sonhos dourados da  geração das flores.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raulzito, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que estivessem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Essas comunidades existiram no Brasil, de 1968 até meados da década seguinte. Nelas praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria sendo, isto sim, mudado pelo mundo.
Woodstock 69, o festival da paz e amor  

Vimos esta previsão melancolicamente confirmada adiante. Companheiros que um dia travaram dignamente o bom combate foram se tornando indiferentes aos dramas do povo brasileiro; existiram até uns tantos que se bandearam para a direita e outros que, para nossa imensa vergonha, se desnortearam com a embriaguez do poder a ponto de delinquirem. 

De nossa parte, em vez de conquistarmos o governo para acumularmos poder e tentarmos implantar uma sociedade mais justa de cima para baixo, nós queríamos deslocar o eixo para o sentido horizontal. 

Ou seja, acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até engolirem a sociedade antiga. Hoje a coisa não seria tão simples assim, mas, como ponto de partida, por que não?

As teses e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60 continuam sendo uma das melhores tentativas que podemos fazer para sairmos deste inferno pamonha que o capitalismo globalizado engendrou. Daí o empenho dos conservadores de direita e de esquerda (eles existem, sim!) em relegá-las ao esquecimento. 1968 ainda é tabu..
O NÉO-ANARQUISMO 
.
Maio de 1968: barricada numa rua de Paris.
Se, como todo mundo diz, a sociedade alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do bruxo Aleister Crowley (que ele e o Paulo Coelho andaram traduzindo do original), também se inspirava nas barricadas parisienses, nas comunidades hippies e na contracultura, o que poucos apontam.

Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos, na convivência solidária com os irmãos de fé em nossos territórios livres.

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, p. ex., na segunda estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou."

Os conservadores sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores consequências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento bizarro, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo.

Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida, embora burra.

Este não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.
.
LIKE A ROLLING STONE 
.
Woody Guthrie (esq.) inspirou fortemente Bob Dylan
Eu morei numa comunidade alternativa, em 1971/72. 

Foi uma experiência riquíssima, num momento em que eu precisava extravasar as emoções represadas no cárcere e me reconstruir, já que o sonho de uma sociedade de liberdade e justiça social ficara adiado por décadas e eu, esperançoso como qualquer adolescente, não me preparara psicologicamente para suportar a sociedade unidimensional que a contra-revolução erigiu.

Atrapalhava muito, naquela terrível Era Médici, a tensão entre a liberdade que conseguíamos vivenciar em recinto fechado e o terror e o medo que grassavam lá fora.

Vivíamos acuados, os cidadãos comuns nos olhavam com receio ou rancor por causa de nossas cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e alguns sentiam-se tentados a ir buscar também o seu quinhão do  milagre brasileiro.

Hoje, quem tem olhos para ver já pode aquilatar o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada: parafraseando Conrad, "o horror, o horror!".

Acostumado aos tempos em que se labutava para viver, eu não consigo aceitar que atualmente as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas por objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.).
A lendária comunidade pioneira
E tudo isso para quê? Para poderem comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrarem relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois já não sabem mais interagir –querem apenas usar umas às outras.

Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos, como então, estarmos todos nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor.

Com as facilidades de comunicação atuais (que fizeram muita falta em 1968 e anos seguintes), essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoreau em A Desobediência Civil.

Seria um ponto de partida. E, conforme os territórios livres fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério – uma alternativa para toda a sociedade...

COMO FAZER 
.
Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos.

Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (com inocência, pois não éramos dados ao sexo grupal).

Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade.
Na Bahia, Arembepe era o paraíso agora... 

Havia problemas, claro. Emprestávamos ao outro o que ele estava precisando mais, numa boa; só que, às vezes, descobríamos na enésima hora que alguém tinha levado sem pedir aquilo que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa 
comuna.


Também não era fácil administrarmos o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam.

O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária.

Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos.

Onde erramos? Duas vaciladas fatais implodiram a comuna. 
...dos bichos grilos daqui e de hermanos

Uma foi deixarmos a droga correr solta – LSD e maconha, principalmente, pois o propósito era abrirmos as  portas da percepção, no dizer de Huxley. Isto, entretanto, trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar. Acabaram ocorrendo conflitos, rompimentos.

A outra foi recebermos de braços abertos todos os pirados que surgiam, vendo um amigo em cada pessoa que parecesse estar fora do sistema. Como sempre, apareceram os aproveitadores, os parasitas, os pequenos marginais. E a polícia veio atrás.

Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Foi com imenso pesar que vimos aqueles laços se romperem, sendo obrigados a voltar, cada um por si, à luta inglória pela sobrevivência. Era uma tortura sermos obrigados a correr de novo atrás do ouro de tolo, quando não tínhamos mais  aquela velha opinião formada sobre tudo...

Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades ainda poderão ser viabilizadas. Há que se tentar outra vez. Mesmo porque, como disse o Raul, "basta ser sincero e desejar profundo/ você será capaz de sacudir o mundo".
.
O NOVO DESAFIO
.
A tentativa de irmos engendrando uma alternativa ao sistema dentro do próprio sistema tem muito mais a ver agora do que no tempo do Raul, pois os homens precisarão unir-se para enfrentar a crise das alterações climáticas.
Acidente nuclear japonês: um terrível alerta. 

Na segunda metade deste século, o planeta será fustigado por terremotos, maremotos, furacões, tufões, tsunamis, inundações, fome e seca. As perdas poderão ser diminuídas se os homens se ajudarem mutuamente, sem o egoísmo e a competitividade capitalistas; caso contrário, até mesmo o fim da espécie humana não estará descartado.

O futuro da humanidade não pode ficar à mercê da ganância, sob pena de interesses mesquinhos acabarem destruindo o planeta.

Os homens têm de encontrar formas de organizar-se para a produção em termos solidários, visando o bem comum e não o lucro. Cooperarem em vez de competirem.

Mas, isso não pode ser imposto por uma burocracia. Chega de ditadura do proletariado, estatização compulsória da economia e outras experiências que malograram!

É uma mudança de cultura que teremos de efetuar voluntariamente, se quisermos legar aos nossos descendentes algo além de uma Terra arrasada.

Precisaremos construir algo novo a partir da cooperação voluntária dos cidadãos. Mostrarmos que o bem comum deve prevalecer sobre os interesses individuais. Convencermos os recalcitrantes ou mantê-los fora da nova sociedade que estivermos criando. E isso fazendo o possível e o impossível para evitarmos que ela também descambe para a coerção e a repressão.
"...e o mundo será um só!"

E não serão os podres poderes atuais que vão encabeçar essa luta. A união de que necessitamos deve ser forjada a partir de agora, como uma rede a ser montada pelas pessoas de boa cabeça, independentemente de governos e partidos políticos.

Se o enfrentamento da maior ameaça com que os homens já se depararam não propiciar o surgimento de uma sociedade melhor, nada mais o fará. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 19 de junho de 2025

NUMA DÉCADA AGÔNICA, ESTE FILME RESGATOU NOSSOS SONHOS E ESPERANÇAS. HOJE TAMBÉM NOS FALTA UM ALENTO

Um dos filmes com intenções políticas mais poéticos da história do cinema, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (que completará meio século no ano que vem...) mostra uma Suíça que, em meados da década de 1970, retornara à plena normalidade capitalista, nada restando dos ventos de mudança que sopraram fortes em 1968, com exceção de um ou outro indivíduo isolado que representava alguma faceta das utopias cultivadas pela geração anterior.

Já não existia um projeto coletivo a imantar tais vertentes, mas os pequenos profetas (como o ótimo diretor Alain Tanner  os qualificou em entrevistas) continuavam tentando levar adiante, isoladamente, aquilo em que acreditavam. Eram oito, todos com os nomes iniciados por M (de maio, o mês das barricadas francesas).
O personagem Mathieu segue as pegadas de Rousseau

Uma teia de circunstâncias inesperadas os vai colocando em contato, até que os oito se reúnem numa única ocasião, congraçando-se na fazenda do personagem que se dedica ao cultivo de vegetais sem contaminação química. É quando almoçam exultantes, numa sequência, belíssima, que simboliza a 
Santa Ceia. 

Bem naquela fase e sob tais auspícios, o casal de fazendeiros gera um filho, que terá o simbólico nome de Jonas. 

A alusão é ao profeta que foi engolido pela baleia mas sobreviveu, assim como o filme acena com a esperança de que a criança sobreviverá à gordura capitalista para, no ano 2000, corporificar uma nova e definitiva síntese dos ideais dos pequenos profetas.

Embora o filme não esclareça como isto se dará, parece destacar sobretudo a via representada pelo personagem Mathieu (São Mateus?), que Rufus interpreta.

Ele quer educar as crianças de forma que não percam sua bondade natural, escapando ilesas aos condicionamentos ideológicos que uma sociedade corrupta lhes tenta impor, mais ou menos como Jean-Jacques Rousseau preconizou em Emílio, ou Da Educação. 

Hoje, quando as melhores esperanças da humanidade parecem ter ficado para trás, substituídas pelos piores augúrios quanto à própria sobrevivência da nossa espécie, Jonas... é um filme simplesmente obrigatório. 

Até por colocar em questão algo que realmente vale a pena discutirmos: se 1968 foi uma primavera que passou em nossas vidas ou o ensaio geral de uma revolução que ainda chegará. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para assistir ao filme completo no Youtube

terça-feira, 8 de agosto de 2023

EM 8 DE AGOSTO DE 2008 NASCIA O BLOG NÁUFRAGO DA UTOPIA: CADA POST É UMA SEMENTE NO DESERTO DO MEU TEMPO.

Hoje (8) o blog Náufrago da Utopia  completa 15 anos. 

Com 7.750 posts publicados e quase 4,4 milhões de visualizações ao longo do tempo, foi criado com os objetivos de:
— priorizar, em pé de igualdade, as três principais bandeiras da esquerda (justiça social, liberdade e respeito pelos direitos humanos); e
— de ser uma tribuna sempre acessível para o exercício do pensamento crítico por parte dos cidadãos comprometidos com o avanço da civilização e a construção de uma sociedade igualitária e livre.

Trocando em miúdos, lancei o blog em 8 de agosto de 2008 porque nossa esquerda começava a inclinar-se cada vez mais para o autoritarismo, repetindo a trajetória das grandes revoluções que se desvirtuaram ao sacrificarem a liberdade e violentarem os direitos humanos em nome da justiça social. 

E que nem esta última foram capazes de entregar, pois acabaram cavando um fosso profundo entre o proletariado (que deixou na prática de ser o sujeito da revolução, tornando-se submisso objeto  da atuação de qualquer auto-proclamado guia genial dos povos) e a nomenklatura (que passou a exercer uma dominação de casta e a desfrutar de privilégios equivalentes aos das antigas classes proprietárias).
Dalton

Então, o blog do Náufrago se dispôs a resgatar a proposta original e jamais cumprida do marxismo, qual seja a de conduzir a sociedade a um estágio tão avançado de civilização que ela fosse capaz de governar-se por si mesma, sem a idiotia populista nem o sebastianismo  messiânico, muito menos classes, nações, fronteiras e exércitos. 

Isto equivaleria a darmos um fim à pré-história da humanidade, estabelecendo o sonhado reino da liberdade, para além da necessidade, no qual fossem proporcionadas a cada ser humano plenas condições para desenvolver suas melhores aptidões e potencialidades, dando, ao mesmo tempo, uma voluntária contribuição para o bem comum. 

Nunca tive a ilusão de que apenas um blog fosse capaz de corrigir o rumo que a esquerda brasileira vinha adotando há um século, com um breve intervalo em 1968 e anos seguintes, quando o sonho ameaçou tornar-se vida e foi esmagado pela pior repressão a que este país já foi submetido.

Eu pretendia apenas manter a lembrança daquilo que jamais deveria ser esquecido: 
— que o marxismo nasceu como promessa de liberdade, tão poderosa que, embora periodicamente extirpada pela manipulação das consciências e pela bestialidade da força, continua vindo à tona até hoje, vide as manifestações de 2013 no Brasil e de 2019 em vários outros países; e 
— preservar a memória dos companheiros que haviam ousado lutar e travaram o bom combate praticamente sem chance de vencerem, até para que seu sacrifício jamais parecesse ter sido em vão. 
Rui
Quanto ao pensamento crítico, constitui-se também num legado de 1968: defendíamos  o direito de todas as pessoas e forças políticas apresentarem livremente suas opiniões e vê-las discutidas, desde que não estivessem alinhadas com a desumanidade (ditaduras e/ou a exploração do homem pelo homem).

Serviria, portanto, como antídoto à voracidade de tendências ditas esquerdistas que, ávidas pelas migalhas de poder e por parasitárias boquinhas, combatiam os adversários de esquerda de forma mais encarniçada ainda do que aos inimigos de classe.  

De tudo que fizemos no blog ao longo destes 15 anos, destaco a luta pela liberdade de Cesare Battisti, talvez a batalha mais desigual que a nossa esquerda  já venceu, contra a tendenciosidade da grande imprensa brasileira e a enorme pressão exercida por um país do 1º mundo que, tangido por um devasso aspirante a duce, voltava a flertar com o fascismo. 

[Infelizmente, os seres humanos não são esculpidos em pedra. Então, após décadas de perseguição e sofrimento, o companheiro cedeu à chantagem dos inquisidores, negando a si próprio em troca da promessa –não cumprida– de receber tratamento carcerário digno.] 
David

E tenho especial orgulho da postura adotada pelo blog desde que o pesadelo bolsonarista se prenunciava no ano eleitoral de 2018 até sua derrota definitiva no 8 de janeiro.

Foram quase cinco anos sem nenhuma hesitação diante do bufão genocida, fazendo-lhe as críticas mais contundentes, pregando a todo momento o seu impeachment  e divulgando com grande antecedência a certeza de que cada uma das micaretas golpistas com as quais ele tentava virar a mesa e perpetuar-se no poder fracassaria miseravelmente, não só por causa de sua liderança insana e caótica, mas também da sua notória covardia pessoal. 

Por último, estendo um forte abraço:
— ao Dalton Rosado e ao Rui Martins, companheiros de jornada que produziram textos de imenso significado humano e político, suando a camisa sem interesse nenhum que não fosse o de espalharem suas ideias e criações, até porque, à maneira antiga, o blog sempre recusou vender espaço e jamais remunerou colaboradores (o segundo passo só seria possível se déssemos o primeiro); e
— ao David Emanuel Coelho, o benjamim  da turma, em quem depositamos nossa confiança para preservar e fazer crescerem as sementes que plantamos, quando não estivermos mais aqui para fazê-lo em pessoa.
Celso e Apollo
Foi emocionante vê-lo recentemente publicar uma
série de 11 lúcidos textos, esqueleto do livro sobre as jornadas de 2013 que adiante há de lançar. Nela se evidenciou o quanto ele tem para dar à esquerda brasileira, que carece desesperadamente de novos quadros, não só para a recomposição de suas fileiras, como também para resgatarem sua combatividade perdida.

Só lamento que o Apollo Natali, grande amigo e mestre cronista, não tenha esperado para comemorar conosco. Jamais o esqueceremos! (por Celso Lungaretti) 
"Hoje o verso é uma semente do meu peito num deserto. Verde
que te quiero verde, mas não há verde por perto" (Sérgio Ricardo)

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

GODARD ESTÁ MORTO. FOI MEU PRIMEIRO SONHO, MAS NÃO O ÚNICO

Puro Godard! Em meio a uma discussão com Marianne, Ferdinand diz: "Viram? Ela é
 sempre assim!". Ela: "Com quem você está falando?". Ele: "Com os espectadores".
Ela, após olhar para trás e tomar um susto: "Mas, nós não devemos fazer isso". 
N
a década de 1960, curti intensamente os filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard, que se foi por suicídio assistido nesta 3
ª feira (13), aos 91 anos, aparentemente apenas por estar "exausto", cansado de viver.

Se eu fosse ainda o crítico de cinema queum dia fui, relembraria toda a sua carreira, mesmo não a tendo acompanhado com interesse depois de 1968. 

Mas, já não preciso representar tais papéis. Posso me ater ao que Godard para mim representou. Aos que quiserem ler algo mais na linha convencional, recomendo esta minha evocação da nouvelle vague, filão do qual ele foi o expoente mais conhecido e influente.  

Deveria ter uns 15 anos quando me atraiu uma acanhada mostra do cinema francês, com a exibição de sete filmes, um por dia, alternados em duas salas de um bairro paulistano pouco dado a iniciativas artísticas: a Vila Mariana. 
Godard, sendo preso nos protestos de 1968... 
Era um momento em que procurava um caminho na vida e a novidade me interessou a ponto de pegar dois ônibus, com um amigo da escola, para irmos assistir a alguns desses filmes. 

Dois eram do Godard, se bem me lembro O pequeno soldado (1963) e Tempo de guerra (1963). Misturando poesia, tiradas filosóficas, HQ, non sense, sacadas políticas, humor negro, irreverências de todo tipo, eles me deslumbraram. Desconstruía o cinema que eu conhecia até então, propondo um novo, muito mais ousado e criativo.

Assisti a quase tudo dele dessa época.  Compunha um painel das opções existenciais dentro da sociedade burguesa, negando-as.  

Seu Tempo de Guerra me surpreendeu por ser uma produção baratíssima, com atores desconhecidos, e mesmo assim tão contundente na crítica às guerras capitalistas, em que coitadezas são laçados para servirem de buchas de canhão e destruídos sem sequer saberem por que estavam lutando. 

Em O Desprezo (1963), bateu pesado nos esquerdistas bem pensantes que, para subirem na vida numa sociedade que afirmam detestar, abrem mão de suas convicções sem pestanejar. No caso, trata-se de um roteirista de cinema que, ao ter a grande chance de projetar-se na profissão, não hesita em empurrar a esposa para os braços do poderoso produtor que a deseja, passando a receber dela o merecido desprezo. Quantos semelhantes a ele conheci por aí...

[Ficou associado a um dos momentos mais bizarros de minha militância clandestina. Lá pelo último trimestre de 1969, ocorreu de eu ficar sem abrigo, descontatado da VPR, com minha foto nos cartazes de procurados, esperando o ponto que um companheiro de outra organização conseguiu marcar para eu reencontrar-me com os meus. 
...e convencendo colegas a pararem o Festival de Cannes.

Depois de uma noite tumultuada e insone, eu tinha o dia inteiro pela frente, precisando fazer hora discretamente, sem chamar a atenção, pelo centro velho de São Paulo. E. noutro cinema que não costumava exibir os chamados filmes de arte, estava em cartaz O Desprezo.

Entrei e assisti a três sessões seguidas, sempre caindo no sono logo no comecinho e acordando quando as luzes se acendiam no final, sobressaltado com a possibilidade de a arma que eu carregava sob o braço ter sido vista por alguém.  Afinal, fui-me embora para meu ponto... e só veria inteiro esse filme décadas depois.]

Prestou tributo aos pequenos marginais que povoam a literatura e a sétima arte da França, de uma forma encantadora e com um amor livre que chocava quem se acostumara ao moralismo estadunidense, em sua estreia no longa-metragem: Acossado (1960).

Representou o admirável mundo novo que a tecnologia estava criando como ums sombria distopia em Alphaville (1965) .   

Fez sua declaração de horror aos Estados Unidos, a tudo que  o país era e a tudo que sua lavagem cerebral cinematográfica projetava para o mundo, em Made in USA (1966), do qual nunca esqueço a Anna Karina esclamando "Que vontade de vomitar desde que me arrasto por aqui!".

E o meu predileto, O demônio das onze horas (1965), que cansei de rever, é sobre um intelectual que rompe com sua vida previsível ao embarcar numa aventura com sua nova amante, que está sendo caçada por uma gang ou serviço secreto em razão de uma história complicada (que o filme não esclarece) e se torna também alvo da perseguição.  
"O desprezo": o roteirista só observa o poderoso
produtor dar uma óbvia cantada na sua esposa. 

Ou seja, mostrava uma via de escape romântica a uma existência insossa e desprovida de significado. "Foi meu primeiro, meu único sonho", dizia uma das frases disparadas pelos personagens a pretexto de nada, mas que, na verdade, comentavam a ação do filme.

E encontrar outra vida, naquele momento, era exatamente meu primeiro sonho. Só que, ao contrário do Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) do filme, que nem agonizante admitia que a namorada Marianne (Anna Karina) o chamasse pelo apelido carinhoso de Pierrot, eu ainda teria muitos outros sonhos pela frente,...

Até que a busca artística do Godard chegou ao ponto de maior proximidade com minha busca pessoal em A Chinesa, que estreou na França em agosto de 1967 mas só chegou ao Brasil no ano seguinte. 

Mostra um grupo de jovens reunidos numa comunidade para aprenderem teorias revolucionárias e tentarem viver e se relacionar como homens novos. Quando os ventos de mudança sacudiram o mundo em 1968, A chinesa foi reconhecido como um filme premonitório. Aqui, se constituiu, simplesmente, no que mais marcou nosso grande ano da contestação. 

Na virada de 1967 para 1968, eu vivenciara o mesmo que A chinesa mostra, a reunião com outros principiantes para estudar a revolução e conviver de maneira solidária e livre com aquela que viria a ser doravante minha família principal. 

E, como os personagens da fita, saí desse trailer da revolução disposto a dedicar a ela o resto da vida, passado então a defrontar-me com as dificuldades para levar à prática a opção que fizera, muito piores aqui do que na França.
Alain Tanner, herdeiro de Godard, morreu dois dias antes

Então, enquanto Godard e outros cineastas interrompiam aos berros o Festival de Cannes de 1968 (o que nunca ocorrera e jamais ocorreria de novo) porque a verdadeira arte naquele momento se encontrava nas barricadas de Paris, eu e três colegas interrompíamos aos berros as aulas do Colégio MMDC, numa Mooca que não via algo semelhante desde que nela se iniciara a grande greve anarquista de 1917. 

A partir de 1968, fui fazer da vida real o meu próprio filme, então não precisei mais do Godard e nem acompanhei atentamente sua carreira.

Mas, por outra coincidência, seria eu o crítico paulistano que mais entusiasticamente acolheria o filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, do cineasta suíço Alain Tanner, quando este estreou aqui (com um considerável atraso). 

Os críticos da grande imprensa detestaram, eu adorei e dei uma pequena contribuição para ele acabar virando um cult dos saudosos de 1968, principalmente no bairro boêmio do Bixiga, cujo cineclube cansou de exibi-lo.

Tanner então  me pareceu o diretor que conseguira dar o passo adiante que faltou a Godard depois de A Chinesa.

E não é que ele morreu exatamente dois dias antes de Godard, e aos 92 anos, portanto quase com a mesma idade?! (por Celso Lungaretti)
Não encontrei no Youtube algum filme completo do Godard para 
postar aqui, mas este trecho de Masculino, Feminino 
(1966) é  uma de suas grandes sacadas, ao desmistificar em
definitivo as suspeitas e superestimadíssimas pesquisas de opinião.
Related Posts with Thumbnails