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terça-feira, 22 de julho de 2025

HÁ 20 ANOS TRAVEI A BATALHA DECISIVA CONTRA A ARMADILHA DA HISTÓRIA QUE QUASE ME DESTRUIU

"O ministro de estado da Justiça, no uso de suas atribuições legais (...) e considerando o resultado do julgamento proferido pelo plenário da Comissão de Anistia na sessão realizada no dia 27 de julho de 2005, (...) resolve declarar Celso Lungaretti anistiado político (...), concedendo-lhe reparação econômica de caráter indenizatório, em prestação mensal, permanente e continuada, referente ao cargo de editor..."

No próximo domingo, portanto, se completarão 20 anos desde a sessão da Comissão de Anistia que foi o ponto de partida da maior volta por cima que dei na vida.

Em 1970 eu caíra numa armadilha de História e acabei sendo injustamente acusado de delatar a área principal de treinamento guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária, cuja localização eu nem sequer conhecia.

Por já estar preso no DOI-Codi/RJ, facilmente deduzi quem apontara aos militares onde ela ficava, mas não tinha provas e, ao perceber que estavam me fazendo de bode expiatório nessa questão, avaliei que seria ruim demais para a Organização e para todos os companheiros se eu tornasse pública minha conclusão. 
Dois militantes da VPR acusando um ao outro seria mais um forte abalo na nossa imagem. Preferi negar sempre a autoria, mas silenciar sobre a quem caberia verdadeiramente a responsabilidade. 

Tinha esperança de que ainda conseguiria lançar luzes sobre aquele episódio e, malgrado muitos companheiros não me concederem o benefício da dúvida, ainda tive oportunidade de prestar solidariedade revolucionária a outros injustiçados, nos casos dos quatro de Salvador e da expulsão de Paulo de Tarso Venceslau do PT

A virada do milênio, no entanto, teve um efeito surpreendente sobre mim: de um dia para outro senti que me privara de algo muito precioso ao não ser, até então, pai biológico. Criara uma filha adotiva até os 14 anos e fora uma má experiência, mas o meu melhor amigo me garantia que com uma criança do meu sangue o desfecho seria diferente.

Acreditei e finalmente resolvi colocar em risco a situação estabilizada que já conquistara aos 50 anos pelo sonho de ser responsável por outra vida. Antes mesmo de o Martinho da Vila compor a belíssima "Tom maior", eu já me imaginava transmitindo meu legado a um ser querido, ensinando-o a viver onde ninguém é de ninguém e a amar a liberdade como sempre amei.

Mas dar fim à velha vida foi oneroso e uma crise no mercado jornalístico era mau sinal para quem tinha salário elevado (o meu era). Enquanto isto, o projeto da nova vida estava dando certo, já tinha uma namorada grávida. 

Então um amigo advogado me trouxe a notícia sobre o início de atuação da Comissão de Anistia e eu tive o bom senso de inscrever-me no programa, embora me incomodasse ser recompensado por algo que fizera por idealismo e não por interesse. 

Mas, percebi que perdera o direito de ter esse tipo de escrúpulo quando resolvi priorizar a paternidade. O compromisso com a moça e a vida crescendo dentro dela passava na frente de tudo.

O que eu temera, contudo, aconteceu. Fiquei desempregado em dezembro de 2003 e passei enormes dificuldades financeiras em 2004 e 2005. A reparação econômica pelos danos físicos, psicológicos, morais e profissionais que um governo ilegítimo me causara acabou se tornando minha última esperança de voltar à tona. 

E tive de lutar por essa chance, pois os critérios do programa estavam sendo descumpridos e a prioridade para os desempregados na marcação de julgamentos, que me favorecia, vinha sendo ignorada pelo colegiado. Precisei exigir meu direito.

Finalmente, no dia 27 de junho de 2005 ocorreu o julgamento que decidiria se eu receberia uma indenização em parcela única de R$ 50 mil ou uma pensão vitalícia no valor médio dos salários que recebia no último emprego. 

Devendo três aluguéis, ainda tendo um teto graças à solidariedade da administradora, a indenização só serviria para prolongar a minha agonia, não para sair dela.

Sem formação jurídica, confiando no que aprendera no exercício do jornalismo, defendi sozinho o meu caso, o que quase nenhum anistiando fazia. O representante das Forças Armadas na comissão tudo fez para que eu recebesse apenas a indenização, mas acabei sustentando bem o meu pleito.

Deram-me a pensão vitalícia sem nenhum voto contrário: mesmo o que estava contra mim optou por abster-se. E o decano da comissão, no seu voto, disse que até então o meu caso era o de mais flagrante injustiça  dentre todos que haviam sido julgados. 
Exausto, ansioso por ar fresco, saí da sala de audiência e desabei no primeiro banco que vi. Então vieram uns seis funcionários subalternos da comissão me cumprimentar. Tão focado eu estava na batalha legal que nem percebera a torcida do pessoal dos serviços de apoio por mim. Uma senhora até chorou. 

E eu também choraria, se pudesse; fazia décadas que as lágrimas haviam secado. De tanto esforçarmo-nos para não dar tal satisfação ao inimigo, era frequente os torturados ficarmos com esse bloqueio permanente. 

Com o 
depoimento do historiador Jacob Gorender em meu favor, seguido da decisão da Comissão de Anistia, a esquerda passou a reconhecer a minha condição de injustiçado, o que inclusive permitiu que eu fosse o porta-voz informal do Comitê de Solidariedade ao Cesare Battisti no período 2008/2011 e que assumisse no Orkut, durante a década retrasada, o papel de um dos principais defensores da luta armada brasileira e dos militantes que a travaram. 

Éramos eu e o companheiro Ivan Seixas contra toda a rede das viúvas da ditadura e olavetes. E na batalha dos argumentos sempre prevalecíamos. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 25 de junho de 2022

NO BRASIL, O PRESIDENTE AVISA OS PATIFES DE QUE A POLÍCIA VAI CHEGAR

O
Brasil não muda nunca.

Em 6 de novembro de 1916 foi gravado nosso primeiro samba, "Pelo telefone", composto pelo Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos), com letra do jornalista Mauro de Almeida.

E os dois versos iniciais já escancaravam quão bizarro é este país tropical: "O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar/ que na Carioca tem uma roleta para se jogar".

Naquele tempo, zombou o letrista, caberia aos delegados divulgarem para os malandros os endereços da jogatina proibida (no caso, o tradicional Largo da Carioca). 

E, como tapar o sol com a peneira é outra tradição nacional, algum tempo depois a abertura teve de ser alterada.

Ficou sendo "O chefe da folia pelo telefone manda me avisar/ que com alegria não se questione para se brindar". Um dos piores remendos que vi na vida...

Mais de um século depois, é o presidente da República quem alerta um patife de que a polícia vai revistar sua casa.

Tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Ou, como teria supostamente dito De Gaulle, o Brasil não é um país sério... (por Celso Lungaretti)

domingo, 15 de dezembro de 2019

TEMOS DE ACREDITAR QUE O AMOR PREVALECERÁ SOBRE O ÓDIO

Quanta coisa me passou pela cabeça neste domingo, ao ver minha filha mais velha colando grau no ensino médio!

Em meio a todas as decepções do Brasil atual, será um reconfortante contraponto acompanhar as batalhas que a Luana começará agora a travar por seu lugar ao sol. 

Tem tudo engatilhado para começar uma promissora carreira no mês que vem e coloca o ingresso na faculdade como grande objetivo para 2021. 

Ao mesmo tempo, sinto crescer a minha responsabilidade, pois, quando resolvi ser pai idoso, projetava um cenário bem diferente para a criança que tanto posterguei. Espero viver o suficiente e poder dar uma boa contribuição para que sua fase adulta transcorra num país de verdade, e não num circo de horrores.

Por uma ironia do destino, até o ano 2000 eu hesitava em trazer mais gente a um mundo tão injusto e desigual. 

Naquele final de século e de milênio, acreditei que, pelo menos, períodos terríveis como o da ditadura militar haviam ficado definitivamente para trás; e pesou na minha escolha um súbito sentimento de que perderia algo de muito precioso se não passasse pela experiência da paternidade. 
It's a long way...

Talvez um atavismo de minha ascendência italiana, sei lá. De um momento para outro este se tornou um imperativo, algo que faltava para me completar como ser humano. Como se já não bastasse colocar no papel as lições aprendi a duras penas mergulhando fundo nas contradições do meu tempo; deveria também transmiti-las diretamente a um ente querido. 

"Vou ensiná-lo a viver onde ninguém é de ninguém: vai ter que amar a liberdade, só vai cantar em tom maior, vai ter a felicidade de ver um Brasil melhor", eu sonhava, inspirado pelos belíssimos versos de Martinho da Vila.

Quem leu o Náufrago da Utopia sabe que tal guinada iria desestruturar toda a minha existência. O preço que paguei foi altíssimo e em dois anos (2004 e 2005) envelheci uns dez. 

Mas, acabei dando a volta por cima. E as emoções de hoje reforçaram a minha certeza de que aquele salto no escuro, tão impulsivo e temerário, foi melhor do que qualquer outra decisão que eu pudesse ter tomado. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 3 de maio de 2019

AVE, BETH CARVALHO! AVE, MADRINHA DO SAMBA! (um tributo de Dalton Rosado)

Madrinha é apelido carinhoso para quem é mãe com o coração. 

Você recebeu esse apelido da turma do samba por sua capacidade de mostrar ao Brasil e ao mundo que o samba é a nossa identidade cultural maior. 

Que, ao invés de aceitarmos que algum desavisado torça o nariz para nosso ritmo pelo fato de haver nascido do povo, devemos agradecer a esse mesmo povo por tê-lo inventado e aperfeiçoado, mesmo diante da perseguição inicial sofrida (na forma de patrulhamento cultural elitista).

A sua capacidade de exaltar o samba não se deveu apenas ao seu imenso talento, combinando voz, capacidade de execução instrumental e percepção social, mas, sobretudo, à sua sensibilidade musical.

Foram imensos o talento e a sensibilidade da Beth! Ela, num determinado momento,  soube transitar da bossa nova –que é maravilhosa e uma das muitas variações da matriz samba– para a chamada MPB socialmente engajada e, posteriormente, para o samba de raiz, indo resgatar os sambistas (compositores e cantores)  que cantam a vida nos subúrbios sofridos da cidade cindida em classes sociais, e que, com suas poesias sob a forma de melodias repletas de sábias erudições populares, contam a nossa história e promovem a catarse da dor cotidiana com alegria e esperança.     

Não poderiam os poetas do samba ter achado um apelido mais apropriado: madrinha do samba! Melhor do que rainha, termo que implica a existência de súditos subalternos. Madrinha é quem cuida com carinho e amor de mãe, sem pedir troco, num pé de igualdade e gestos fraternos.

Beth Carvalho é o fio condutor final da trajetória que levou o samba (cantado às escondidas no terreiro da Tia Ciata há mais de cem anos e perseguido pelas otoridade de então, cumpridoras da lei que criminalizava os compositores e cantadores de samba como capadócios a serem enquadrados no delito de vadiagem) à consagração em pleno e majestoso Teatro Municipal do Rio de Janeiro, quando foi, finalmente, ovacionado!

Tenho identidades pessoais com a Beth Carvalho que me emocionaram ao saber de ausência física que doravante se imporá entre nós: 
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— ela considerava o samba como uma forma de revolução popular, conceito da qual sou adepto (aliás também Caetano Veloso enfatizou, corretamente, tal poder transformador);
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 era torcedora do Botafogo, o time da estrela solitária, que, como o povo, tem obtido poucas vitórias ultimamente, o que valoriza ainda mais aquelas que são conseguidas graças a esforços heroicos; 
— esteve sempre do campo do agir e pensar que condena o capitalismo e suas regras ditatoriais encobertas pelo o manto hipócrita da democracia burguesa, talvez por ter assistido em casa às dificuldades pessoais enfrentadas pela família, tanto que seu pai foi perseguido pela ditadura militar;
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— era mangueirense de carteirinha (e eu também sou admirador dessa escola).
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[Aliás, em 2007, quando alguns diretores menos sensíveis da Verde-e-Rosa, no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a destronaram por questões menores do carro alegórico dos baluartes, fiquei tão chocado que compus uma música sobre o tema, que brevemente estarei disponibilizando aqui.

Uma característica da Beth Carvalho era a generosidade para com os sambistas anônimos que passaram ser reconhecidos após terem contato com sua capacidade e sensibilidade de reconhecimento da boa qualidade de suas composições, acolhendo-os no discutível mercado fonográfico.  

Artistas como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Beto Sem Braço, Sombra, Sombrinha, Élcio Soares, Délcio Carvalho, Alcir Portela, Bira Presidente e Almir Guineto são alguns cujas composições e talentos se tornaram conhecidos graças à interação com o mundo do samba de raiz promovida pela Beth Carvalho, já cantora e instrumentista famosa.

Grupos de sambistas como o Fundo de Quintal e blocos como o Cacique de Ramos foram beneficiados com a generosidade artística de Beth Carvalho e puderam ganhar notoriedade com a promoção visual lhes foi justamente concedida pela madrinha do samba. 

Não apenas artistas populares suburbanos ganharam visibilidade a partir da generosidade da Beth Carvalho, mas expoentes então marginalizados do samba puderam ter os seus talentos revisitados —casos de Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Nelson Sargento, Lupicínio Rodrigues e Cartola, além do revival do sempre presente e antológico Noel Rosa. 

Outros já em evidência como Martinho da Vila, Jorge Aragão, Dona Ivone Lara e Gonzaguinha tiveram as suas maravilhosas músicas embelezadas e divulgadas ainda mais pela voz e talento de Beth Carvalho. 

Uma delas ganhou o espaço sideral ao ser enviada numa nave à Marte, com a possibilidade de ser um dia ouvida por seres interplanetários: falamos do gostoso samba “Coisinha tão bonitinha do pai”.

Aliás, por falar em filhos, a Beth, que fez tudo com perfeição, é mãe da bela e talentosa Luana Carvalho, que, independentemente do prestigio de quem lhe deu a vida, tem capacidade de se fazer por ela mesma no campo musical, seguindo os passos da família (a avó de Beth também era musicista, a capacidade musical está, portanto, no seu DNA).

Em 1984 Beth Carvalho foi homenageada pela Escola Unidos do Cabuçu com um samba-enredo em sua homenagem: “Enamorada do Samba”. Justo título para quem a ele dedicou uma vida inteira, e que ora ganha outra dimensão. 
Quem tem pouco mais de 50 anos se lembra muito bem do surgimento daquela voz poderosa, bem colocada, de uma bela mulher com trejeitos harmoniosos e atraentes cantando a música "Andança", de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi, no Festival Internacional da Canção de 1968, conquistando o público e obtendo a 3ª colocação no concorridíssimo e politizado certame musical. 

A música “Andança” é um clássico da chamada MPB, indispensável em qualquer roda de violão e cantadores de samba e MPB, tanto que era sempre exigida pelo público nos shows da Beth Carvalho. 

Costumo dizer que os poetas, como Apollo Natali, não morrem: sobrevivem graças à perpetuação de suas obras. Assim, a interplanetária Beth Carvalho, está perpetuada por sua voz inconfundível e talento excepcional. 

Obrigado, Beth, por ter existido e continuar existindo para sempre em nossa melhor memória afetiva e musical!

Ah, mas como dói essa saudade... (por Dalton Rosado)
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