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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

ENQUANTO FESTEJÁVAMOS A PRISÃO DO BOLSONARO, ÉRAMOS TUNGADOS NA REVISÃO DA VIDA TODA DO INSS

N
esta terça (25), o plenário virtual do STF, por 8x3, extinguiu a última esperança dos trabalhadores, de receberem de volta o que lhes foi tungado pelos pacotes econômicos da ditadura militar.

Votaram a favor da canalhice Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. A orientação do governo do PT, que tem trabalhadores até na sigla, foi de que os ministros com ele alinhados favorecessem o esbulho dos direitos dos ditos trabalhadores (!).

O imbróglio começou em dezembro de 2019, quando uma decisão do Superior Tribunal de Justiça determinou o reconhecimento do direito dos aposentados e pensionistas a terem acrescidos aos cálculos de seus benefícios o universo de suas contribuições ao longo da vida, as quais não mais ficariam restritas àquelas feitas de 1994 em diante, conforme determinou a ditadura. Aí, um ano depois, o STF validou a revisão dos benefícios por 5 votos a 4.

No entanto, por pressões petistas o assunto votou a ser votado pelo Supremo e aí o digno voto de Ricardo Lewandowski foi desonrado por Cristiano Zanin, que herdou sua cadeira após a aposentadoria e mudou o resultado do julgamento. O governo do PT preferiu preservar recursos para a politicalha imunda do que pagar o que devia aos trabalhadores. 

Não me surpreendeu nem um pouco. Nós, os anistiados políticos, já havíamos sido vítimas de decisão semelhante. 

A lei que instituiu a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça garantia aos pensionistas o recebimento em 60 dias de uma indenização retroativa pelo tempo transcorrido desde que havíamos sido barbarizados pelas bestas-feras do regime militar, sem termos recebido nenhuma compensação durante décadas.

O governo do PT não cumpriu a lei e, ao invés de pagar tudo de uma vez, mandou um documento para assinarmos, concordando em receber o que nos era devido em suaves prestações mensais.

Não assinei o tal documento, por considerá-lo uma ofensa a quem tinha sangrado na luta contra a ditadura, já que nos chegou como uma ordem, sem justificação nenhuma. O governo do PT não julgou necessário dar a mínima explicação sobre o porquê de nos pedir que agíssemos contra nossos interesses. 

Então a AGU adotou uma infinidade de medidas protelatórias contra mim e demais insatisfeitos (cerca de um milhar), todas elas derrubadas pelo STJ por unanimidade. Quando uma era negada, a AGU entrava com outra.

Houve anistiados que me recriminavam, afirmando que eu deveria ser grato ao governo do PT. Grato por quê? Por ele estar escamoteando o pagamento do que o governo do FHC me concedera?

Finalmente o STF avocou o caso dos retroativos não pagos como repercussão geral e decidiu que deveriam, sim, ser pagos imediatamente. 

Na sessão de julgamento, dois ministros do Supremo salientaram que sempre existiram recursos para o pagamento imediato do que nos era devido, mas o governo do PT só usava para sua destinação original uma parcela mínima desses recursos,  para depois poder remanejar os quase 98% que sobravam para as habituais utilizações politiqueiras.

Eis uma afirmação esclarecedora do Dias Toffoli:
"...2,1% do total previsto nas leis orçamentárias atuais para indenização de anistiados foram efetivamente gastos, segundo as informações do próprio governo federal. Portanto, os outros 97,9% restantes representam valores disponibilizados e não pagos. As leis orçamentárias anuais disponibilizam valores para o pagamento da específica ação governamental de indenização aos anistiados políticos..."
E pensar que fui criticado por  não ter-me deixado enganar pelo governo do PT, que agia com má fé o tempo todo! (por Celso Lungaretti)      

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

"NÁUFRAGO DA UTOPIA"/ 20 ANOS: A VISÃO CRÍTICA, MAS DIGNA E SOLIDÁRIA, DE UM SOBREVIVENTE DA LUTA ARMADA.

F
az 20 anos que lancei o livro
Náufrago da Utopiana livraria Saraiva do Shopping Morumbi, com a participação do ex-preso político Ivan Seixas, do presidente do Sindicato dos Jornalistas Audálio Dantas e do jornalista Paulo Nogueira no debate que antecedeu a sessão de autógrafos.

Foi o coroamento da reabilitação da minha imagem como revolucionário. 

Tal revisão do passado acabou sendo uma consequência da luta pública que travei para que a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça colocasse em pauta o meu caso  (eu estava desempregado e em situação crítica, o que era a condição primeira da priorização de um julgamento, mas tal critério não estava sendo respeitado pelo colegiado). Minha batalha do tostão contra o milhão começou a repercutir na internet.

Ademais, o jornalista e escritor Marcelo Paiva inseriu uma referência desrespeitosa e gratuita sobre mim numa reportagem que fez para a Folha de S. Paulo. Ao polemizar com ele nas páginas do jornalão dos Frias pude mostrar o quanto havia de errado nas fantasias que circulavam na esquerda, começando pelo fato de que eram duas e não uma as áreas de treinamento guerrilheiro da VPR.

Foi minha primeira chance de expor o meu lado naquele episódio. Ao revelar que eu só conhecera a área 1 (desativada) e não estivera na área 2 (desbaratada pela repressão), coloquei um ponto de interrogação na mente de muitos companheiros que haviam acreditado piamente na versão mais falada.
Eu no centro, como um dos imortais da Oban
(nosso apelido para cartazes de procurados)
  

Logo em seguida eu tomei conhecimento de um relatório do II Exército que continha a data exata em que a repressão obteve, a partir de uma prisão efetuada  naquele dia, a localização exata da área 2 da Vanguarda Popular Revolucionária e iniciou os preparativos para o desencadeamento da Operação Registro: 18 de abril de 1970. 

Como eu havia sido preso dois dias antes, foi uma comprovação de que a lenda sobre ter sido eu o delator era uma falsidade e uma ignomínia (companheiros que não aguentaram a tortura descarregaram suas vaciladas sobre mim, transformando-me num indefeso bode expiatório, já que, preso, não tinha como contestar as inverdades). 

Pouco depois, Jacob Gorender, o maior historiador da luta armada brasileira, escreveu uma carta para a Folha de S. Paulo afiançando que eu era mesmo inocente daquela acusação infame. 

Foi o fim de um pesadelo de 35 anos e a reconquista da minha credibilidade para travar as lutas que surgissem no meu caminho. Era um tempo de batalhas ideológicas muito inflamadas na internet, tendo eu e o Ivan Seixas sido os maiores defensores no Orkut da memória da luta armada e dos combatentes que a haviam travado. 

Quando o guru dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, me atacou,  aceitei o desafio e botei-o para correr numa polêmica de três artigos cada.

Já o comentarista de tevê Boris Casoy me acionou na Justiça Criminal por haver-me referido a ele como antigo membro do nefando Comando de Caça aos ComunistasPenei para arrumar advogado que me defendesse gratuitamente, pois atravessava uma grave crise financeira, mas o Sindicato dos Jornalistas de SP acabou me socorrendo.
E um artigo sobre o CCC, publicado em 1968 pela Realidade, decidiu a questão: numa publicação de circulação nacional, Casoy era citado com membro da Juventude do CCC, portanto eu não cometia crime nenhum ao acreditar no que li na revista. 

O juiz de primeira instância concluiu que eu estava protegido pela liberdade de imprensa e não houve recurso contra sua decisão.

Enfim, o lançamento do Náufrago da Utopia ocorreu num momento em que eu completava uma guinada na minha vida passando a perseguir sem entraves os objetivos que durante 35 anos não pude buscar, por causa da estigmatização que sofria.  

Mesmo assim, tive dois bons momentos, levando à vitória a greve de fome dos quatro de Salvador e sendo talvez o único esquerdista a solidarizar-se na grande imprensa com o Paulo de Tarso Venceslau, expulso injustamente pelo PT

Depois que os caminhos se abriram, ainda travei lutas menores, além de uma que pareceu a concretização de uma visão de quando, lá pelos meus 13 ou 14 anos, encontrei numa biblioteca circulante aquela que seria minha primeira leitura de um livro sobre política adulta: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast. Fiquei, evidentemente, indignado com a injustiça cometida contra aqueles dois anarquistas italianos nos EUA.

Em 2008 o Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pediu-me ajuda e eu aceitei sem pestanejar.

Nunca me oferecia para atuar em episódios que estavam obtendo destaque na mídia (não queria ser chamado de caçador de holofotes), mas, quando estava em condições de prestar um grande auxílio a companheiros que recorriam a mim,  sempre atendia a suas solicitações. 

Via isto como era uma obrigação para um veterano que participara de uma luta com enorme letalidade do nosso lado. O mínimo que eu podia fazer para honrar o sacrifício dos companheiros era nunca recusar ajuda para um companheiro dela necessitado. 

Foram três anos (2008/2011) de uma luta extremamente desigual, contra a imprensa burguesa e o imenso poder de fogo de um país do primeiro mundo, que, ademais, jogava pra lá de sujo. Eu escrevia artigos quase diários, refutando as falácias da grande imprensa e pleiteando espaço para apresentar o contraditório, quase sempre negado. 

Ademais, atravessei o país fazendo palestras e participando de debates sobre o Caso Battisti. Meus textos eram publicados por vários sites e portais, então não seria pretensioso dizer que, na web, tive um papel destacado para a mudança de posição dos companheiros.

Talvez minha melhor contribuição haja sido ter-me tornado um repositório das informações de cocheira: por ser também jornalista e haver travado minhas polêmicas protegendo ciosamente tudo que tivesse obtido em off, colegas da grande imprensa começaram a me passar as informações sobre os círculos do poder que não podiam publicar em seus próprios veículos.

Inclusive uma valiosíssima: a de que o Lula, em fins do segundo mandato, não mexeria uma palha caso o STF, sozinho, extraditasse Battisti. Mas, se o abacaxi caísse na mesa dele, vetaria a extradição.

Graças a isso lutamos até o último argumento para que a decisão do caso não se desse no Supremo, no qual perdíamos todas as votações por 5x4, mas pelas mãos do Lula. O resto é História.

Gostaria de ter feito mais, contudo não consegui  o respaldo da esquerda organizada, que evitaria muitos vexames se aceitasse as estratégias que eu lhe propunha. Um consolo foi ter, no blog Náufrago da Utopia, combatido Jair Bolsonaro durante todo o ano eleitoral de 2018 e ao longo do seu famigerado mandaato.

Quando muitos se retraiam, temendo uma Operação Jacarta (massacre de opositores na Indonésia), não alteramos em uma vírgula sequer a linha editorial do nosso blog.

Concluindo: não daria para falar sobre o livro Náufrago da Utopia sem lembrar o contexto no qual foi escrito e os desdobramentos que gerou. Em termos literários, ele foi criado sob pressão máxima, pois devia vários aluguéis e estava ameaçado de despejo. 

O adiantamento que a Geração Editorial me prometeu contra a entrega do texto integral fez com que o terminasse em apenas 5 sofridas semanas. Para escrevê-lo fui obrigado a procurar informações sobre o destino de vários companheiros, o que há muito evitava fazer porque, quando ficava sabendo que haviam tido uma morte terrível nas garras da repressão, isto me deprimia demais. 

Então, parte do seu encanto advém de ser um livro escrito sob uma tremenda carga emocional, algo como a Autobiografia Precoce do Eugene Evtuchenko.

Uma decisão importante que tomei foi a de escrever com a isenção de um historiador, jamais escondendo ou maquilando episódios em que os personagens a mim simpáticos não se comportaram à altura do que deles eu esperava. 

Sempre detestei o culto à personalidade. A grandeza dos personagens históricos que a tinham em nada diminuía com o divulgação de seus maus momentos, pois estavam, como todos nós, longe de serem infalíveis.  Isto os fazia mais humanos. E a verdade é revolucionária.
A defesa dos direitos humanos é uma
prioridade do blog Náufrago da Utopia
.

Por que dividi o livro em três partes, as duas primeiras narradas na terceira pessoa e só a terceira parte na primeira pessoa? Foi uma forma de escapar ao constrangimento de relatar as torturas que sofri como quem as sofreu. Adotando a terceira pessoa, as torturas se referiam ao personagem Júlio, não a mim. 

Senti-me melhor assim, embora saiba que ser torturado por um estado policial não é vergonhoso, muito pelo contrário. Mas nem sempre as racionalizações  prevalecem sobre as emoções.

O Náufrago da Utopia foi um livro por muito tempo sonhado, daí a rapidez com que foi criado. Então, o uso da terceira pessoa nas partes iniciais também servia para descaracterizá-lo, no início, como autobiografia. 

O foco que eu escolhera fora mostrar oito jovens estudantes iniciando-se nos caminhos da revolução, mas da forma como tais personagens viam os grandes acontecimentos em cada momento. Ou seja, não como passado recordado mas sim como presente acontecendo. A primeira parte, com todo seu esforço de contextualização, é um painel sobre o movimento estudantil, a ditadura, a luta armada.

Depois, palestrando em escolas secundárias, tive a satisfação de ouvir alunos comentando que não sabiam nada sobre a ditadura, mas, depois do lerem meu livro, começaram a interessar-se pelo assunto. Fiquei emocionado. 

Quando já havia terminado as duas primeiras partes, me veio a ideia de adotar a primeira pessoa na parte final. Por quê? Para que ela fosse fiel ao meu ser  daquele momento. 

Eu não era mais o idealista ingênuo que havia sido quase destruído pela repressão nem o jornalista que adotava o pseudônimo de André Mauro para evitar problemas com a censura. Assumindo meu nome e minha história, estava recuperando a credibilidade. Tinha decidido ser, até o fim dos meus dias, um combatente da palavra, que em determinadas circunstâncias é mais eficiente do que as armas.

Aos jovens que me procuravam para saber qual minha opinião sobre uma nova luta armada, sempre mostrei cruamente como a dita cuja pode ser trágica quando a correlação de forças nos desfavorece tal qual agora. 

Aconselhava-os a, antes de mais nada,  irem aonde o povo estava, arregaçando as mangas e efetuando a laboriosa tarefa de politização do povão. Os voos maiores dependeriam do seu desempenho nessa etapa de acumulação de forças, pois hoje a correlação está totalmente desfavorável a nós

Encerro este artigo atual com o parágrafo final do livro de 2005:
"As cruzadas para mudar o mundo são repletas de armadilhas e sofrimento. Espero que ninguém mais entre de novo numa luta sanguinária com a ingenuidade do meu grupo secundarista em 1968. Mesmo assim, o mundo precisa ser transformado".

Desde então, o que mudou foi a premência da transformação do mundo, pois estamos  sob forte ameaça de extinção da espécie humana pelas alterações climáticas. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 22 de julho de 2025

HÁ 20 ANOS TRAVEI A BATALHA DECISIVA CONTRA A ARMADILHA DA HISTÓRIA QUE QUASE ME DESTRUIU

"O ministro de estado da Justiça, no uso de suas atribuições legais (...) e considerando o resultado do julgamento proferido pelo plenário da Comissão de Anistia na sessão realizada no dia 27 de julho de 2005, (...) resolve declarar Celso Lungaretti anistiado político (...), concedendo-lhe reparação econômica de caráter indenizatório, em prestação mensal, permanente e continuada, referente ao cargo de editor..."

No próximo domingo, portanto, se completarão 20 anos desde a sessão da Comissão de Anistia que foi o ponto de partida da maior volta por cima que dei na vida.

Em 1970 eu caíra numa armadilha de História e acabei sendo injustamente acusado de delatar a área principal de treinamento guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária, cuja localização eu nem sequer conhecia.

Por já estar preso no DOI-Codi/RJ, facilmente deduzi quem apontara aos militares onde ela ficava, mas não tinha provas e, ao perceber que estavam me fazendo de bode expiatório nessa questão, avaliei que seria ruim demais para a Organização e para todos os companheiros se eu tornasse pública minha conclusão. 
Dois militantes da VPR acusando um ao outro seria mais um forte abalo na nossa imagem. Preferi negar sempre a autoria, mas silenciar sobre a quem caberia verdadeiramente a responsabilidade. 

Tinha esperança de que ainda conseguiria lançar luzes sobre aquele episódio e, malgrado muitos companheiros não me concederem o benefício da dúvida, ainda tive oportunidade de prestar solidariedade revolucionária a outros injustiçados, nos casos dos quatro de Salvador e da expulsão de Paulo de Tarso Venceslau do PT

A virada do milênio, no entanto, teve um efeito surpreendente sobre mim: de um dia para outro senti que me privara de algo muito precioso ao não ser, até então, pai biológico. Criara uma filha adotiva até os 14 anos e fora uma má experiência, mas o meu melhor amigo me garantia que com uma criança do meu sangue o desfecho seria diferente.

Acreditei e finalmente resolvi colocar em risco a situação estabilizada que já conquistara aos 50 anos pelo sonho de ser responsável por outra vida. Antes mesmo de o Martinho da Vila compor a belíssima "Tom maior", eu já me imaginava transmitindo meu legado a um ser querido, ensinando-o a viver onde ninguém é de ninguém e a amar a liberdade como sempre amei.

Mas dar fim à velha vida foi oneroso e uma crise no mercado jornalístico era mau sinal para quem tinha salário elevado (o meu era). Enquanto isto, o projeto da nova vida estava dando certo, já tinha uma namorada grávida. 

Então um amigo advogado me trouxe a notícia sobre o início de atuação da Comissão de Anistia e eu tive o bom senso de inscrever-me no programa, embora me incomodasse ser recompensado por algo que fizera por idealismo e não por interesse. 

Mas, percebi que perdera o direito de ter esse tipo de escrúpulo quando resolvi priorizar a paternidade. O compromisso com a moça e a vida crescendo dentro dela passava na frente de tudo.

O que eu temera, contudo, aconteceu. Fiquei desempregado em dezembro de 2003 e passei enormes dificuldades financeiras em 2004 e 2005. A reparação econômica pelos danos físicos, psicológicos, morais e profissionais que um governo ilegítimo me causara acabou se tornando minha última esperança de voltar à tona. 

E tive de lutar por essa chance, pois os critérios do programa estavam sendo descumpridos e a prioridade para os desempregados na marcação de julgamentos, que me favorecia, vinha sendo ignorada pelo colegiado. Precisei exigir meu direito.

Finalmente, no dia 27 de junho de 2005 ocorreu o julgamento que decidiria se eu receberia uma indenização em parcela única de R$ 50 mil ou uma pensão vitalícia no valor médio dos salários que recebia no último emprego. 

Devendo três aluguéis, ainda tendo um teto graças à solidariedade da administradora, a indenização só serviria para prolongar a minha agonia, não para sair dela.

Sem formação jurídica, confiando no que aprendera no exercício do jornalismo, defendi sozinho o meu caso, o que quase nenhum anistiando fazia. O representante das Forças Armadas na comissão tudo fez para que eu recebesse apenas a indenização, mas acabei sustentando bem o meu pleito.

Deram-me a pensão vitalícia sem nenhum voto contrário: mesmo o que estava contra mim optou por abster-se. E o decano da comissão, no seu voto, disse que até então o meu caso era o de mais flagrante injustiça  dentre todos que haviam sido julgados. 
Exausto, ansioso por ar fresco, saí da sala de audiência e desabei no primeiro banco que vi. Então vieram uns seis funcionários subalternos da comissão me cumprimentar. Tão focado eu estava na batalha legal que nem percebera a torcida do pessoal dos serviços de apoio por mim. Uma senhora até chorou. 

E eu também choraria, se pudesse; fazia décadas que as lágrimas haviam secado. De tanto esforçarmo-nos para não dar tal satisfação ao inimigo, era frequente os torturados ficarmos com esse bloqueio permanente. 

Com o 
depoimento do historiador Jacob Gorender em meu favor, seguido da decisão da Comissão de Anistia, a esquerda passou a reconhecer a minha condição de injustiçado, o que inclusive permitiu que eu fosse o porta-voz informal do Comitê de Solidariedade ao Cesare Battisti no período 2008/2011 e que assumisse no Orkut, durante a década retrasada, o papel de um dos principais defensores da luta armada brasileira e dos militantes que a travaram. 

Éramos eu e o companheiro Ivan Seixas contra toda a rede das viúvas da ditadura e olavetes. E na batalha dos argumentos sempre prevalecíamos. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16 DE ABRIL DE 1970, QUANDO O SONHO SE TORNOU PESADELO E O PESO DA DITADURA MILITAR DESABOU INTEIRO SOBRE MIM

Júlio chega à praça Saens Peña às 6h38 do dia 16 de abril de 1970.

É uma fase de arbítrio e intolerância. Os partidos e organizações que ousaram pegar em armas para resistir à ditadura militar pagam um preço bem alto: as notícias de prisão e morte de militantes são praticamente diárias. Há indícios de melhora da situação econômica do País.

Ele veio de ônibus, calculando que daria tempo. Deu. O ponto com o Ivo e os dois simpatizantes está marcado para as 6h45.

Outro motivo para ter optado pelo ônibus é a certeza de que o coletivo estaria quase vazio nesse horário. Ótimo para quem precisa tomar cuidado com o revólver que traz na cintura, encoberto pela camisa folgada, que usa fora da calça.

Nesta manhã de quinta-feira Júlio não tem outros compromissos. Baterá um rápido papo com os simpatizantes que Ivo vai lhe passar e pronto! Estará livre para voltar ao quarto que aluga na casa de uma simpática velhinha do Rio Comprido (ótima cobertura, nada de fichas para preencher, nada que possa atrair atenções indesejáveis).

Para manter a fachada de vendedor, às vezes ele é obrigado a ficar matando tempo pela cidade mesmo quando não tem nenhuma tarefa da Organização para cumprir. Nesta semana, entretanto, ele disse à Dª Chica que ganhou alguns dias de folga.

Como os dois comandantes de unidades de combate foram convocados pelo Lamarca para uma reunião de emergência na área guerrilheira, não há muito para um comandante de Inteligência fazer.

Assim, Júlio tratou de arrumar uma desculpa para manter horários mais flexíveis. E, como vantagem adicional, pôde sair à paisana, sem o terno desconfortável para o clima carioca nem a pasta 007 em que costuma levar o seu .38 e uma caixa de balas.

Esteve com 
Ivo na véspera, num restaurante da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Encaminharam algumas tarefas, discutiram novidades, fizeram avaliações políticas. Sempre bem informado, Ivo ajuda Júlio a montar suas análises da situação.

O jovem comandante dá alguns detalhes de bastidores que lhe foram transmitidos por outros aliados, Ivo diz o que sabe a respeito, trocam ideias, tecem conjeturas.

A conversa rendeu tanto que acabaram separando-se às 22h40, meio tarde para quem precisa manter-se a salvo das batidas policiais. Foi quando Ivo disse ter dois simpatizantes para passar:

— Eles trabalham numa estatal e têm informações interessantes para o teu setor. Mas só podem te encontrar bem cedinho, o expediente deles começa às 8.

Júlio, que detesta cair da cama, foi obrigado a aceitar o horário desagradável. Consolou-se com a ideia de que depois poderia voltar para seu quarto e dormir mais um pouco.

Chega sem cautela nenhuma, pois confia no jeitão tranqüilo e na experiência de Ivo, um renomado ginecologista beirando os 40 anos, que chegara até a ser candidato à Prefeitura por um pequeno partido. Simpático e bem relacionado, ele é uma verdadeira mina de aliados e simpatizantes para a Vanguarda Popular Revolucionária.

Nas terríveis condições da clandestinidade, os militantes tentam agarrar-se a pequenas ilusões, que os ajudam a manter a ilusão maior de que exista alguma segurança para eles. Se encararem a verdade — de que, a cada instante, estão sujeitos a serem presos, torturados e mortos —, acabarão enlouquecendo.
Apelidamos ironicamente esses 
cartazes de "os imortais da Oban"
Assim, 
Júlio tem muito medo de cair num ponto com calouros na luta armada, mas confia quase cegamente nos veteranos — dentre os quais ele próprio se inclui, afinal já leva essa vida há um ano e a maioria não aguenta mais do que alguns meses.

Além disso, esteve com Ivo oito horas atrás. O que poderia acontecer ao bom doutor em tão curto espaço de tempo?

Se pressentisse algum perigo, Júlio teria ido de terno, com o braço para dentro e a arma já engatilhada na mão direita, oculta pelo paletó. É o que faz em pontos arriscados.

Até algumas semanas atrás, teria também uma cápsula de cianureto entre os dentes, pronta para ser rompida por uma mordida mais forte. Foi uma contribuição de simpatizantes da área de medicina, mas o primeiro quadro que preferiu a morte à tortura... sofreu apenas um ataque de diarreia que o debilitou ainda mais diante dos algozes. É que os aprendizes de feiticeiro ignoravam algum detalhe da fabricação do comprimido letal.

A notícia do fracasso chegou à Organização e os militantes mais queimado— aqueles com reais motivos para evitarem cair vivos — tiveram de voltar a conviver com seus temores, sem a opção de uma saída fácil e quase indolor.

O ponto é numa padaria da praça. Júlio olha para os lados antes de entrar, mas só por hábito. E começa a pedir um café no balcão, quando é violentamente agarrado por vários homens. Um o segura por trás, impedindo que mexa os braços. É arrastado para fora, desarmado, encapuzado e jogado no chão de um veículo. Percebe que seu pior pesadelo virou realidade.

Com as mãos algemadas para trás, o capuz apertado, a cara contra o chão, sente falta de ar. Alguém lhe segura a cabeça, forçando-a para baixo, de forma que fique bem oculto dos civis. Durante o trajeto, vai repassando na memória o que lera no panfleto Se Fores Preso, Companheiro, do experiente Carlos Marighella.

Lembra-se de que aconselhava o revolucionário a se comportar como um militar nas mãos do inimigo: dar só o nome (nem mesmo a patente poderia abrir). Mas, isso foi escrito em tempos distantes. Será possível manter agora essa atitude de desafio?
Morte por infarto do jovem Chael Charles
Schreier despertou indignação mundial

Um companheiro mandou do presídio uma descrição da sala de tortura, que disse ser envidraçada. Sugeriu que o preso se atirasse contra o vidro — o que ele próprio não fizera. 
Júlio pensa que é uma boa opção.

Isto, claro, se lhe derem chance. E se não lhe faltar coragem. A hora da verdade chegou e ele não tem certeza de como se comportará. 

Quanto durou o trajeto? Quinze minutos? Vinte? Percebe que chegou num quartel, o motorista explica-se ao sentinela. Acesso permitido. O veículo pára e Júlio é retirado aos trambolhões. Tiram as algemas, mas mantêm o capuz. Sente que está numa espécie de recepção.

- Nome!

Resolve ficar calado. Que vantagem há em revelar um nome que está nos cartazes de Terroristas Assassinos Procurados? Imediatamente começaria a ser tratado como um peixe grande.

-Nome!

- Como você se chama, filho-da-puta?

- É, assim não vai. Leva ele logo pro pau.

Conduzem-no aos empurrões. Cai, levanta-se, tenta manter a dignidade. Finalmente tiram o capuz. Está numa sala repleta de homens fortes e mal-encarados. Procura os vidros contra os quais se atirar, mas não existe nenhum. As paredes são todas acolchoadas.

Mandam-no tirar a roupa. Fica imóvel, mas também não resiste quando lhe arrancam todas as peças. Sente-se inferiorizado e frágil diante dos brutamontes. Deixa que lhe envolvam os braços com tecido, amarrem com uma corda, coloquem um cabo de vassoura entre eles e as pernas e o icem. Fica pendurado sobre dois cavaletes, como um frango no grill das padarias.

Atam eletrodos nos dedos. Começam a girar a manivela de um telefone de campanha, lentamente. Ele concentra todas as suas forças em não gritar. Não lhes dar esse prazer. Não mostrar fraqueza. Resistir.
Eremias, meu amigo desde o primário,
morto por dezenas de tiros aos 18 anos
De repente, o torturador acelera, gira bem depressa a maquininha. A sensação é terrível. Não consegue respirar. Sufoca. Quando o choque cessa, 
Júlio tenta absorver todo o ar que existe na sala. Mas, giram de novo. Param. Giram. Param.

Percebe que esses gritos animalescos estão saindo de sua garganta.

Socam-lhe o corpo, a cabeça. Mas são os choques que o abalam de verdade. A impressão de que morrerá sufocado, de que seu coração vai estourar.

Deixam que tome fôlego, perguntam-lhe o nome. Percebe que não aguentará, vai ter de mudar de atitude. Precisa de tempo para pensar. Diz o nome.

- Tá mentindo, piroca! Fala a verdade! Como se chama? (outra descarga)

- (ofegando) Sou eu mesmo! O dos cartazes!

Vão digerir a informação. Tiram-no do pau-de-arara, mandam ficar em pé, com o rosto contra a parede. Deixam que amarre de qualquer jeito a calça e a camisa rasgada em torno do corpo.

Antes de dar-lhes as costas, vê os torturadores sorrindo, com ar de deboche. Odeia-se por não ter resistido mais.

Percebe que isso é só o começo, o pior está para vir.

Um grandalhão dá um tapa na sua nuca, depois tenta assustá-lo com o símbolo do Esquadrão da Morte. Com uma mão agarra-o pelos cabelos da nuca; com a outra, coloca bem diante dos seus olhos a caveira do ridículo anel que usa.

— Bem-vindo ao inferno!
plateia estoura em gargalhadas.

À dor e vergonha vem se somar o desânimo. “Até quando terei de suportar essa ralé?” — pensa Júlio. Sua impressão é de que realmente desceu ao inferno.

Acima reproduzi a introdução do meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005).

Quando meu pior pesadelo se materializou há exatos 55 anos, eu só poderia supor que estivesse diante de três opções:
- sobreviver incólume;
- sobreviver lesionado;
- morrer.

Havia uma quarta, que nunca me ocorreria: sobreviver duplamente lesionado, fisica e moralmente,
por haver caído numa armadilha da História, em que me debateria pelos quase 35 anos seguintes.

Mas, somos mesmo joguetes dos deuses.

Quando já me conformava com a ideia de que a verdade a meu respeito só viria à tona -- se viesse --, após a morte, uma sequência de acontecimentos favoráveis alterou todo o cenário, no final de 2004.

Como se os fados quisessem me compensar pela maré de azar que me tornou bode expiatório de falhas alheias e por pouco não me destruíra em 1970.

Então, meia existência depois, os efeitos daquele terrível 16 de abril (e dos meses seguintes) foram superados. Passei a viver uma nova vida -- aquela que deveria ter vivido. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

YO SOY UN HOMBRE SINCERO. E, DE VEZ EM QUANDO, ENCONTRO OUTRO...

Defendendo minha causa sozinho neste colegiado, dei mais uma volta por cima em 1985 
M
eu último emprego fixo como jornalista profissional terminou juntamente com o ano de 2003. 

E não foi por desejo meu que, quando acabava de completar 53 anos, tive de ir me virar com bicos malpagos e acabar me salvando da ruína graças à anistia de ex-preso político que fui buscar na bacia das almas. 

[Motivo: uma ação entre amigos estava em curso para se atenderem primeiramente os bons companheiros da esquerda institucional, deixando para as calendas gregas os encrenqueiros da esquerda independente. 

Só consegui virar aquele jogo porque li atentamente as regras do programa e constatei que os critérios de priorização de casos para a marcação de julgamentos estavam sendo desobedecidos.] 

Tudo era mais difícil para mim naquele tempo porque estava nas listas negras da direita (tanto da selvagem quanto da civilizada) e também das da esquerda domesticada, aquela que deixara inclusive de utilizar a palavra revolução 

Pelos motivos certos, vale dizer; hoje agiria da mesmíssima maneira.

Tendo as viúvas de Hitler e Mussolini, os devotos do Deus Mercado e os discípulos de Eduard Bernstein contra mim, não sobrava quase ninguém influente ao meu lado. 

Mas, já passara por situações terríveis em 1970 e, se então sobrevivera, não seria por aquele muito menos que eu entregaria os pontos.

E lembrei a lição do Bob Dylan: when you ain't got nothing, you got nothing to lose. Então, dali em diante levei meu compromisso com a verdade às últimas consequências, não passando pano para mais ninguém. 

Malquisto por malquisto, preferi sê-lo por não me curvar a convencionalismos e hipocrisias. Mesmo porque, não pertencendo a nenhuma elite, nada me obrigava a aceitar as regras de bom tom de qualquer uma delas.

A minha mais recente verdade inconveniente está neste post do último domingo.

E hoje tive a satisfação de encontrar outro jornalista que não rasga seda para famosos: o comentarista esportivo Luís Augusto Simon, conhecido como Menon

É um arraso o seu texto de três horas atrás. (por Celso Lungaretti)
.
NÃO SENTIREI FALTA DE GALVÃO BUENO
A
Argentina ganhou seu terceiro título. 

Messi ganhou o seu primeiro.

O Brasil, uma vez mais, caiu para um europeu nas quartas. 

Marrocos levou a África pela primeira vez à semifinal da Copa do Mundo. 

E, por aqui, há um movimento para se transformar a despedida de Galvão Bueno da Globo num dos fatos predominantes da Copa. E ele também faz parte do movimento. 

Como eu não vejo a Globo, por motivos óbvios, desde 2016, não sentirei falta alguma. Nada. 

Há tempos não me irrito com aquela lenga-lenga incentivando rivalidade com a Argentina. Eu, que gosto da América do Sul e gosto do futebol argentino, vou ficar escutando aquele blablablá? 

Não é um narrador. É a voz amplificada do Brasileiro médio. No me gusta

Galvão não se comporta como um narrador, Ele é o dono da seleção. É a Voz do Brasil

Quando leva o treinador ao seu programa, é só bola levantada, nenhum questionamento. Depois, quando perde, fica dando indiretas e fazendo críticas. 

Como alguém que perdeu o seu brinquedo. Como um namorado que não aceita a separação. 

Não vou analisar a voz de Galvão Bueno. Não sou capacitado. Quem o é garante que sua técnica é perfeita. Para mim, tanto faz. 

E de quem eu gosto? De poucos narradores.

Na Olimpíada, cansado de pachequismo, via as competições nos canais sem áudio. Mesmo assim, foi surpreendido por repórter chorando ao fazer pergunta para o surfista. 

Realmente, não gosto do jornalismo tomado pelo entretenimento. Se não é assim na política, na saúde etc., por que precisa ser no esporte? 

A Voz do Brasil não é a minha voz. (por Menon)
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