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terça-feira, 18 de junho de 2024

LULA VAI SENDO TRAGADO PELA CRISE CAPITALISTA. QUAL SERÁ O FUTURO DA ESQUERDA?


 "Passado mais um capítulo da luta de classes no Brasil, Bolsonaro foi derrotado por uma margem de apenas 2.139.645 votos, evidenciando a profunda divisão social do país. 

O fato de o presidente ter ido dormir após o resultado, sem sequer agradecer aos seus apoiadores pela boa votação ou exortá-los a continuarem lutando, expressa o seu fracasso pessoal profundo. 

A humilhação sofrida pelo führer de comédia pastelão, contudo, não significará o fim do movimento que o levou ao Palácio do Planalto. Na realidade, o dito bolsonarismo, que é a extrema-direita eclodida a partir de 2013, já se prenunciava antes das jornadas de junho daquele ano. 

O líder caído seria o responsável por sua vitória em 2018, quando nele canalizou suas forças. Passado o período de abatimento, vai reorganizar-se e preparar o campo para a luta contra o novo governo

A vitória do bolsonarismo em São Paulo foi importante neste contexto. O governo bandeirante, o segundo maior ente da federação, se transformará num bunker da extrema-direita, para o qual irão todos os enjeitados do governo federal. A máquina estadual tende a ser usada no combate a Lula, mantendo a chama do reacionarismo acessa. 

Na realidade, apesar da vitória lulista no governo federal, o grande vencedor das eleições foi o bolsonarismo: prevaleceu na maioria dos grandes centros urbanos, elegeu mais congressistas, ditou o debate e, acima de tudo, se impôs enquanto força renovadora, de transformação. 

Tendo os olhos votados para o passado e formando uma grande aliança com o status quo nacional, o lulismo, por sua vez, venceu muito mais enquanto um veto às forças retrógradas, ao obscurantismo, à falta de pudor pela vida e à devastação ambiental. 

Mas não conseguiu colocar-se enquanto um movimento inspirador de transformações. E aí reside todo o drama do momento. 

A eleição de Lula só foi possível por um grande acordo de cúpula, uma articulação nas altas esferas do capitalismo, passando pelo STF, banqueiros, tucanos históricos e grande capital internacional. Foi o grande pacto nacional já vaticinado por Romero Jucá, cuja meta é reestabelecer os marcos institucionais pré-junho de 2013, trazendo de volta a reprodução sossegada do valor. 

Noutras palavras, restaurar a pax neoliberal, cujo ápice se deu no segundo governo do Lula, e desacelerar a luta de classes. 

No entanto, vontade é uma coisa, efetividade é outra. Quem de fato comanda o ritmo dos acontecimentos não é o político x ou y, ou mesmo a nanica burguesia brasileira, mas a economia capitalista, terreno completamente objetivo e com sua própria legalidade. E, nesta seara, até mesmo os capitalistas estadunidenses e europeus estão apavorados, sentindo o buraco abrir-se cada dia mais. 

Os prenúncios de cataclisma ficam mais evidentes e as tensões geopolíticas recolocam no plano mundial o que vem acontecendo no plano micro da economia do dia-a-dia. 

Aumento do custo de vida, desabastecimento, fome –a qual agora assombra até mesmo a classe média branca europeia– e, finalmente, a sombra da guerra mundial mostram a aproximação de uma depressão titânica capaz de engolir a tudo e todos, cujo desfecho é imprevisível e cujo impacto no Brasil poderá fortalecer a extrema-direita oposicionista.

Para além disso, a reorganização econômica do Brasil para um regime agromineral-extrativista segue em frente. Bolsonaro foi o representante mais bem acabado desta nova lógica porque ele simplesmente a colocava sem peias, sem duplo discurso e sem qualquer tipo de vergonha. Lula retorna para dar um verniz civilizado para esta nova lógica, mantendo-a, mas com uma capa racionalista.

Nisso reside outro ponto débil com potencial para engolir o novo presidente, pois quanto mais avança a nova matriz econômica, mais fortes ficam as forças do atraso e, correlatamente, sua expressão política no Brasil, o bolsonarismo. 

A precarização das relações de trabalho, a flexibilização das leis ambientais, a dilapidação da indústria e das empresas públicas, a crise urbana com a explosão da violência, tudo isso fortalece o tripé reacionário do agronegócio, igrejas evangélicas e militarismo. Terá Lula condições de mexer no nervo disso e reverter as condições regressivas no Brasil? Eu diria que não

Não apenas o agora presidente eleito ajudou nesse processo quando de suas passagens pelo governo federal, como também está hoje afiançado de modo íntimo com os grandes capitalistas brasileiros que almejam justamente o avanço do dito cujo, embora, como dito, num ritmo menos irascível. Seria preciso romper e radicalizar à esquerda, mas isto seria dissolver o grande pacto e recolocar a luta de classes noutro nível. 

Então, o futuro se prenuncia tenebroso. A extrema-direita seguirá mobilizada e o novo governo, centrado no passado e acreditando ser possível uma conciliação já caducada, aprofundando o modelo de espoliação do pais, estará muito em breve em face de uma profunda impopularidade e frustração. Nesse momento, o pior poderá acontecer e os derrotados de hoje talvez voltem reenergizados. 

Não há saída além da mobilização popular e do avanço de transformações efetivamente positivas para o Brasil, rompendo com o modelo extrativista e democratizando de fato a vida social. 

Mas, é provável que isso talvez esteja para além da capacidade de Lula."

O texto acima é a íntegra de um artigo que escrevi no Blog um dia após a vitória de Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, intitulado O que esperamos do 3º governo Lula?  e que pode ser acessado clicando aqui. O coloquei na íntegra para demonstrar que não há qualquer surpresa quanto aos rumos de Lula 3 e a situação desnorteada em que ele se encontra hoje. Somos profetas? Não, somos apenas marxistas se valendo da mais avançada ciência já constituída para compreender a realidade humana: o materialismo histórico. 

Assim, o texto publicado pelo Celso nesse último sábado - EM 2022 NÓS GANHAMOS UMA ELEIÇÃO MAS PERDEMOS UMA NAÇÃO. AGORA TEREMOS DE SUAR SANGUE PARA CORRIGIR A LAMBANÇA - atesta o que já vínhamos alertando e converge com meu prognóstico pós-eleição. Não é algo fácil nos levantarmos no meio da euforia barata e do superficialismo analítico que domina a esquerda brasileira, tão capenga na prática quanto na teoria, e por isso é sempre necessário reconsiderar nossos acertos. 

A verdade atual de Lula 3 é a trilha certa para o desastre. Amarrado aos acordões com as altas esferas capitalistas, submisso feito um cãozinho, incapaz de reestabelecer o milagre de seus primeiros dois mandatos - pois a objetividade do mundo não o permite mais -, o presidente vai murchando a olhos vistos e se esvanecendo pouco a pouco, como se estivéssemos assistindo àquelas cenas de transição no cinema em que os protagonistas vão sumindo paulatinamente da tela para dar lugar à escuridão. 

Sua intransigência com a greve da educação federal é mais uma etapa nesse processo, pois ao pisar no pescoço de milhares de docentes, técnicos e estudantes, ele está condenando a si mesmo ao alienar uma categoria historicamente lulista. Enquanto isso, vai promovendo a estratégia burra de fortalecer os setores ligados à extrema direita, em um repeteco de suas ações de décadas atrás, quando despejou toneladas de dinheiro nos milicos, nos fundamentalistas religiosos e no agronegócio, apenas para ver dali nascer o Dionísio ex-presidente fujão. É um jênio da política, de fato!

Indivíduos iguais a Lula só dão certo quando o vento está soprando a favor. São aqueles tipos que vão ao sabor das correntes, ganhando impulso pelo momento favorável, mas sem nenhuma capacidade de forjar um caminho próprio e intervir nos acontecimentos para induzir outro caminho. Expressam o que já falava Maquiavel dos sujeitos que vivem tão somente da Fortuna e pouco ou nada possuem de astúcia: quando a roda gira e o destino muda, eles fatalmente naufragam. 

Caso a roda não gire de novo, o destino de Lula parece ser tão amargo quanto foi o de sua criatura, Dilma. Cabe a nós decidirmos o que se fará depois, repetiremos a mistificação lulopetista reciclando o discurso fajuto do golpe ou vamos, dessa vez, fazer um balanço franco e verdadeiro do buraco em que nos enfiamos? (por David Coelho)






quarta-feira, 12 de junho de 2024

CHILIQUE DE LULA CONTRA GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL TEM RAZÃO DE SER: GREVISTAS COLOCAM EM XEQUE OS PODRES ACORDÕES DOS CAPITALISTAS

 

O chilique de Lula na segunda-feira, 10/06, veio acompanhado de chiliques nos jornais Folha de São Paulo e O Globo, grandes porta-vozes da burguesia brasileira. O cerne dos três, presidente e jornalões, é atacar a greve, tentando jogar a sociedade contra os profissionais da educação - quem perde são os alunos, disseram presidente e editorialistas - e acusar a greve de intransigente. 

Ora, intransigente tem sido Lula que desde o ano de 2023 vem se recusando a negociar com os trabalhadores da educação federal, enquanto concede aumentos substanciais às categorias bolsonaristas da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Penal, o que, segundo fontes do PT, seria uma estratégia para conquistar tais setores ao lulismo... o filme se repete, de forma bisonha

Mas qual o motivo do ataque coordenado entre Lula e jornalões à greve dos trabalhadores da educação? O motivo é simples, nossa greve não é apenas uma greve de um setor, mas um movimento que coloca em xeque a política econômica de austeridade fiscal cristalizada no Arcabouço Fiscal, versão piorada do Teto de Gastos e que foi aprovada pelo presidente Lula e por seu medíocre ministro Haddad em 2023.

Os acordões que livraram Lula da cadeia e o conduziram de volta à presidência, fazendo chapa ao insípido Alckimin, passam diretamente pelo aprofundamento das privatizações do serviço público, cortes de gastos e ataques aos trabalhadores. A última missão de Lula é completar aquilo que o presidente fujão, Bolsonaro, não conseguiu: implementar as "reformas" neoliberais que formalizam o assalto rentista ao orçamento público e promovem a superexploração dos trabalhadores brasileiros. 

Nesse aspecto, não pode causar estranheza a proposta de Haddad de acabar com os mínimos constitucionais para a educação e a saúde, garantias hoje já largamente ignoradas, mas que eliminadas de vez significariam o fim da educação e da saúde públicas no Brasil. Ou sua outra proposta de desatrelar benefícios sociais da correção inflacionária, virtualmente levando seus beneficiários à fome. Que crianças fiquem sem escola, doentes sem hospital e velhos morram de fome, mas que o capital seja saciado! 

Mas não contavam com a greve da educação federal. Seus paus mandados, encastelados nas direções sindicais, tentaram de tudo para evitar que a greve saísse. Não conseguiram. Depois, tentaram de tudo para que ela se encerrasse em pouco tempo, também não conseguiram. Em todas as ocasiões, as bases os atropelaram. Acabaram tomando um puxão de orelha do seu chefe supremo, o pelego-mor, e agora estão em desespero pois não sabem mais o que fazer. 

Ao mesmo tempo, lulistas se aliaram a bolsonaristas para irem às portas dos campi, fantasiados de pais preocupados, pressionarem contra a greve. Dentro das instituições federais, professores lulistas passaram a trabalhar contra a greve, fazendo cartas apócrifas, mentindo e mesmo minando a legitimidade sindical. Vale tudo para proteger o Messias de Garanhuns!

Apesar disso tudo, a greve segue forte e o cerne da política econômica da burguesia brasileira é desnudada. Essa, portanto, não é uma simples greve de mais uma categoria do funcionalismo público, é uma greve contra o nó górdio do regime capitalista hoje no Brasil e, particularmente, uma greve que tensiona os acordões espúrios de Lula e do PT. (por David Coelho)

segunda-feira, 10 de junho de 2024

GREVE DA EDUCAÇÃO FEDERAL: PRESSIONADO, LULA ESTÁ NA HORA DA VERDADE!

 

O amor acabou! Assim pode ser resumida a fala de Lula na reunião desta segunda-feira, 10/06, com reitores. Pressionado pela greve  da educação federal que já dura mais de dois meses, o presidente resolveu convocar  os gestores das instituições federais de ensino para um encontro em Brasília para anunciar a ampliação do orçamento dessas instituições. 

Contudo, Lula foi além. Arrogantemente, desferiu ataques aos grevistas, apelou para a situação dos alunos e convocou as lideranças sindicais a acabarem com a greve! Em uma única fala, desconsiderou que a situação da greve foi criada por ele próprio, por causa de sua intransigência nas negociações, negligenciou a situação calamitosa da educação pública federal - com campi caindo aos pedaços - e ignorou que existe uma democracia sindical em que as greve são pautadas e encerradas pelos trabalhadores em assembleias e não pelas direções. Certamente, nesse último ponto, deve ter se referenciado nos pelegos da CUT e assemelhados, sempre prontos a tratorar as bases em prol dos interesses de cúpula. 

A verdade é que Lula demonstrou o quanto está acuado. O golpe planejado por ele contra a greve, ao assinar um acordo falso com um sindicato fantasma, foi desbaratado e os trabalhadores rejeitaram em massa o seu ultimato, indo às ruas em peso em manifestações nacionais no dia 03 de Junho. Não tendo conseguido desmobilizar a greve, Lula apela ao autoritarismo, tentando impor, através de seus paus mandados nos sindicatos, um encerramento da paralisação sem o atendimento de nossas demandas. 

Espremido entre seus compromissos com os capitalistas e o rugir do povão, Lula tenta se sair do mesmo modo que em seu primeiro governo, através da desmobilização das lutas populares e do atendimento integral das demandas do andar de cima. Pois, certamente, Lula jamais se dirigiria aos banqueiros, prepostos do agronegócio e demais capitalistas da forma como se dirigiu aos trabalhadores da educação. Para os capitalistas, ele sempre foi e sempre será subserviente, dando até muito mais que eles pedem. 

Contudo, o presidente parece não ter percebido que não há mais condições de agradar a todo mundo e ter o ganha-ganha que marcou seu segundo governo. Hoje, diante da aguda crise do capitalismo e das pressões para jogar a conta nas costas das grandes massas empobrecidas, ou se está de um lado ou se está de outro. Ou você está ao lado da população que clama por mudanças ou está ao lado dos parasitas da burguesia brasileira e internacional. Não há mais espaço para meio termo!

Apesar das ameaças e da truculência de Lula, a greve segue forte e os trabalhadores da educação federal seguem mobilizados. Nesta semana, em que haverão duas mesas de negociação com o governo, no dia 11 e no dia 14, será o momento do presidente mostrar de fato se seu discurso em prol da educação é algo concreto ou apenas falácia de campanha. Lula está na hora da verdade e seu futuro será decidido agora! (por David Coelho)



quinta-feira, 30 de maio de 2024

REFLEXÕES NUM DIA VAZIO DE CORPUS TRISTI

Aos 73 anos, não mudo uma palavra no velho aforismo italiano La vecchiaia è na brutta bestia (a velhice é uma fera medonha). 

Isto mesmo reconhecendo que a minha poderia ser muito pior do que está sendo. Problema potencialmente mais grave, só tive um tumor, descoberto logo no início e que, no momento considerado ideal pela oncologista, foi zerado por sessões de radiologia.

Mas, incomodam-me muito as pequenas limitações que vão surgindo, como estar levando umas quatro horas para redigir e editar um artigo que finalizava em três, ou os joelhos que se ressentem das longas caminhadas que sempre gostei de dar e agora estão pedindo próteses. 

Conviveria melhor com minhas limitações se me conformasse com elas, mas tendo a excedê-las amiúde. Aos 17 anos decidi tornar-me um homem de ação e não de contemplação; tal opção moldou meu temperamento na vida adulta. 

Doença nenhuma me impedia de comparecer às manifestações #ForaBolsonaro, mesmo conscientes de que só conseguiria nelas permanecer por cerca de uma hora. E não ia por superestimar a minha importância, mas sim porque me sentiria acabado se nem mesmo desse as caras.

São tantos os médicos me alertando que por enquanto o senhor não tem nada, mas daqui a alguns anos terá de operar catarata, glaucoma... ou raio que os parta, que fico me sentindo como um condenado à espera de uma inevitável sentença vindoura.  

Sem nenhuma ilusão quanto ao fato de que minha existência não vai melhorar, mas sim piorar, com o passar dos anos, ainda assim tentarei prolongá-la o suficiente:
— para ajudar minhas duas filhas a estabilizarem-se na vida (suponho que uns dez anos mais bastarão); e,
— se calhar, ainda desempenhar o papel para o qual venho me preparando desde 1967, qual seja o de ajudar na ressurreição de uma esquerda realmente combativa, em substituição da que resolveu na década de 1980 tornar-se mera coadjuvante do capitalismo e não sua coveira.

Para tanto, vou até obrigar-me a levar a sério os cuidados preventivos dos quais fugi a vida inteira. Já estou morrendo de saudade da feijoada fumegante e gordurosa aos sábados e das horas que passava bebericando e jogando conversa fora com amigos, sem dar a mínima para a ressaca do dia seguinte.
E, como fiz na vida quase tudo que me propus a fazer (mesmo ciente de que as consequências poderiam ser muito duras, como algumas foram), aceito tranquilamente que as pessoas queridas tenham o mesmo ou até mais êxito do que eu na busca dos seus objetivos. Torço por elas e adoro acompanhar suas novas descobertas, realizações, processos de afirmação.

Só de ver minha filha mais velha apaixonada de verdade pela primeira vez, fico extasiado, lembrando de quando passei por idêntica situação e dediquei à minha musa uma poesia que um pau no computador depois destruiu, mas terminava assim: "Faço versos como preces,/ apostando no triunfo da beleza e do amor". 

Mesmo não sendo devoto de nenhuma religião, a prece até que foi atendida, minha primogênita está aí para provar.

Assim como me emociona observar o David Coelho trilhando o caminho que sempre soube que trilharia, desde que, em 2018, me entusiasmei com seus textos nas discussões virtuais e o convidei para colaborar com este blog.

Se a esquerda brasileira estiver destinada a renascer das cinzas, como fez depois da derrota sem luta de 1964, aposto todas as minhas fichas em que ele será uma das novas caras que emergirão no processo. 

Ao participar do comando da greve da Educação Federal, inclusive indo a Brasília para as tratativas, o David me fez lembrar tanto a batalha que lá travei por minha anistia, quanto as idas para acompanhar as várias sessões de julgamento do escritor Cesare Battisti no período 2008/2011.
 
Embora não me agradasse nem um pouco o jeitão da capital federal, que me parecia uma distopia futurista (Mundos fechados, de Robert Silverberg, 1936), acaba sendo gratificante lembrarmos de vitórias arrancadas com enorme sacrifício.

E me tocou também o David ter-me contado que está enfrentando uma sintomática aliança de pais conservadores/reacionários bolsonaristas com lulistas, contingentes amiúde flagrados em perfeita comunhão contra a esquerda combativa. O que faz todo sentido, pois, embora posem de inimigos ideológicos, têm nos interesses mesquinhos seu ponto de convergência, caçadores de rachadinhas e boquinhas que são.

É outra situação do meu passado evocada, a de quando liderei com três colegas uma inusitada paralisação do então Colégio Estadual MMDC, em junho de 1968. Foi numa sexta-feira à noite e teve fortes emoções:
— todos os alunos no pátio, atendendo à nossa convocação;
— alguém (nunca soubemos quem) sabotando a luz e deixando a escola às escuras; 
— a chegada de policiais do Dops numa viatura do Juizado de Menores, como camuflagem;
— o professor de química Mário Hato discursando em nosso favor, trepado numa cadeira, quando um investigador chegou chutando a dita cuja para longe e atirando-o ao chão;   
— o professor dedo-duro  de português acompanhado por dois agentes, procurando-nos por todo o pátio, munidos de faroletes, sem perceberem que, ao avistarmos os fachos de luz, distanciávamo-nos calmamente por entre as rodinhas formadas;
— a abertura dos portões que eles haviam trancado e a saída em massa de nós todos, que demos de cara com um colega preso porque havia sido surpreendido esvaziando os pneus da viatura fake;
— a covardia de um agente que, apavorado com os gritos de Solta!Solta!, se pôs a dar tiros para o alto, provocando o estouro da boiada (um colega tropeçou no momento de um disparo e ficamos acreditando que tinha sido baleado); e
— a ida imediata de nós quatro, os líderes, à redação da Folha da Tarde, para relatarmos tudo que ocorrera, daí resultando uma pequena notícia publicada no dia seguinte com o ótimo título de Dops invade escola atirando
Na segunda-feira, os estudantes do noturno não ousavam entrar no MMDC por temerem prisões. Eu e o Eremias Delizoicov fomos negociar e eles só ingressaram no prédio depois de voltarmos para informá-los do compromisso assumido pela diretora no sentido de não haver prisões nem retaliações. 

Participamos em seguida de uma reunião extraordinária da Associação de Pais e Mestres. Como a companheira Maria das Graças estava acamada com hepatite, coube-nos defender a paralisação. 

Pais barrigudos e furibundos ensaiavam até agredir-nos, mas outros os seguravam. O Eremias os ironizava o tempo todo e eu fazia a defesa política, o que também os tirava do sério porque não conseguiam prevalecer contra um jovem de 17 anos na batalha dos argumentos.

Triste pensar que em outubro de 1969 o Eremias, um ano mais novo do que eu, morreria baleado 35 vezes por uma equipe da PE da Vila Militar (RJ). Estudáramos juntos, embora nem sempre na mesma classe, desde o primário. 

Preso, conheci os quatro que o haviam executado quando poderiam facilmente tê-lo subjugado vivo; além de tudo incompetentes, agiram com tamanha bestialidade por confundirem-no com um ex-sargento que também integrava a Vanguarda Popular Revolucionária e era bem mais velho. 

Tomara que a trajetória do David seja menos sofrida. Mas, quando tantos se omitem das lutas absolutamente necessárias, os que as assumem estão sempre sujeitos a carregaren uma carga mais pesada. É por isto que Brecht os chamava de imprescindíveis. (por Celso Lungaretti)
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