Mostrando postagens com marcador Eremias Delizoicov. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eremias Delizoicov. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de março de 2026

UMA TEMPORADA NO INFERNO DO DITADOR MÉDICI FOI MEU RITO DE PASSAGEM

A política brasileira anda um tédio só, com o exageradíssimo destaque dado a mais um episódio de corrupção, insignificante na comparação com outros do passado mas significativo como munição para os feios, sujos e malvados que disputam a corrida presidencial.
,
,Resolvi, então, publicar um trecho do meu livro Náufrago da Utopia, sobre o momento em que saí de casa para, como cantou a Gal Costa, correr mundo, correr perigo. 

Foi quando me tornei adulto. Antes, o movimento estudantil era puro deleite, mesmo tendo fugido da polícia duas vezes na base do pernas, pra que te quero. 

Iludia-me com a presunção de que sempre escaparia. E em abril de 1970, quando o pior finalmente aconteceu, eu já era considerado veterano, pois poucos duravam um ano naquele  auge do terrorismo de estado.

O destino me deu uma trégua, com os três primeiros meses transcorrendo sem mortes do nosso lado. O assassinato de Carlos Roberto Zanirato escancarou a porteira e os óbitos não cessaram mais.

Na primeira parte do livro, narrada na terceira pessoa, eu me denomino Júlio, meu nome de guerra quando era ativista da Frente Estudantil secundarista. 

Não sei a data exata do episódio aqui lembrado, mas já lá se vão 57 anos, tendo, com certeza, ocorrido no mês de março de 1969. (CL)

"...há quedas em cascata a partir da prisão [em 23/01/1969] de quatro militantes que, numa chácara de Itapecerica da Serra. maquilavam um caminhão para torná-lo idêntico aos do Exército.

Júlio recebe aviso da irmã de Maria das Graças, a  Baianinha: a repressão pode ficar conhecendo seu nome real e endereço a qualquer momento. Diego [Perez Hellin], Eremias [Delizoicov] e  Edmauro [Gopfert] também estão em risco. É melhor nenhum dos quatro passar o fim de semana em casa.

Júlio e Diego vão para Santos, com pouco dinheiro.

O azar os persegue. Só têm o suficiente para um almoço pobre, que dividem fraternalmente. Diego passa mal com sua gastrite.

À noite não podem dormir na praia por causa do toró que despenca. Tentam abrigar-se num edifício e acordam sob a mira do revólver do vigia, que os expulsa para a chuva. Finalmente o tempo melhora e ambos  desmaiam  na praia.

Acordando quase ao meio-dia, Júlio percebe que suas pernas haviam ficado expostas ao sol.

Queimadura brava, febre, fome, gastrite, tudo que pode acontecer de ruim com eles, acontece. Aguentam até o anoitecer e voltam.

Júlio chega em casa por volta da meia-noite e o pai dá o recado: a  Baianinha  esteve lá de novo e disse que o perigo é grande. Zonzo, desaba na cama e dorme. Mas, logo acorda sobressaltado e decide colocar-se a salvo. Já recobrou um pouco suas forças.

O que mais o inquieta, entretanto, é o receio de não estar preparado para as situações que vai enfrentar.

Como agiria agora um revolucionário experiente? Gastaria quase todo o seu dinheiro num hotel de bom padrão ou correria o risco de alojar-se num barato, mais exposto à polícia? É seguro colocar seu nome numa ficha?

No trajeto da Vila Prudente até o centro da cidade, não consegue desgrudar os olhos do taxímetro, fazendo contas e mais contas. Percebe que está fraco demais e precisa de repouso. Avalia que, mesmo sendo descoberto seu nome, levará tempo até que comecem a procurá-lo pra valer.

Acaba optando por um hotel simples mas respeitável, que não recebe pares para curta permanência.

Quando encosta a cabeça no travesseiro, percebe que o destino decidira por ele. Há alguns meses enfrentava o dilema de sair ou não de casa. Sabia que, para avançar na luta, teria de dar esse passo.

Levava a vantagem de, desde o primeiro momento, haver utilizado o nome-de-guerra em todas as atividades estudantis fora de sua própria escola. Os espiões da repressão devem conhecê-lo só como o  Júlio da Zona Leste. Jamais se colocava publicamente como aluno do MMDC. Tomava o maior cuidado para não ser seguido depois de uma passeata ou assembleia.

Mas, se o Deops realmente quisesse apanhá-lo, acabaria chegando a ele; suas chances de sobrevivência na luta aumentariam muito  caindo na clandestinidade.

No outro prato da balança colocava o desgosto que causaria aos pais, a forma como reagiriam à perda do filho único.

E, como não tinha mesmo dinheiro para manter-se fora de casa, ia adiando a decisão. Até que tudo se resolveu de forma praticamente automática, naquela noite. O rubicão foi transposto, as pontes queimadas.

Mas, jamais esquecerá a imagem do pai simulando um ataque cardíaco para comovê-lo e fazer com que desistisse. Foi a decisão mais difícil que tomara até então na vida
".

"Mamãe, mamãe, não chore,/ a vida é assim mesmo, eu fui embora./ Mamãe
mamãe, não chore,/ eu nunca mais vou voltar por aí/ ...eu quero mesmo é
isto aqui" Clique e ouça Gal Costa cantando Mamãe Coragem

quarta-feira, 16 de abril de 2025

16 DE ABRIL DE 1970, QUANDO O SONHO SE TORNOU PESADELO E O PESO DA DITADURA MILITAR DESABOU INTEIRO SOBRE MIM

Júlio chega à praça Saens Peña às 6h38 do dia 16 de abril de 1970.

É uma fase de arbítrio e intolerância. Os partidos e organizações que ousaram pegar em armas para resistir à ditadura militar pagam um preço bem alto: as notícias de prisão e morte de militantes são praticamente diárias. Há indícios de melhora da situação econômica do País.

Ele veio de ônibus, calculando que daria tempo. Deu. O ponto com o Ivo e os dois simpatizantes está marcado para as 6h45.

Outro motivo para ter optado pelo ônibus é a certeza de que o coletivo estaria quase vazio nesse horário. Ótimo para quem precisa tomar cuidado com o revólver que traz na cintura, encoberto pela camisa folgada, que usa fora da calça.

Nesta manhã de quinta-feira Júlio não tem outros compromissos. Baterá um rápido papo com os simpatizantes que Ivo vai lhe passar e pronto! Estará livre para voltar ao quarto que aluga na casa de uma simpática velhinha do Rio Comprido (ótima cobertura, nada de fichas para preencher, nada que possa atrair atenções indesejáveis).

Para manter a fachada de vendedor, às vezes ele é obrigado a ficar matando tempo pela cidade mesmo quando não tem nenhuma tarefa da Organização para cumprir. Nesta semana, entretanto, ele disse à Dª Chica que ganhou alguns dias de folga.

Como os dois comandantes de unidades de combate foram convocados pelo Lamarca para uma reunião de emergência na área guerrilheira, não há muito para um comandante de Inteligência fazer.

Assim, Júlio tratou de arrumar uma desculpa para manter horários mais flexíveis. E, como vantagem adicional, pôde sair à paisana, sem o terno desconfortável para o clima carioca nem a pasta 007 em que costuma levar o seu .38 e uma caixa de balas.

Esteve com 
Ivo na véspera, num restaurante da avenida Nossa Senhora de Copacabana. Encaminharam algumas tarefas, discutiram novidades, fizeram avaliações políticas. Sempre bem informado, Ivo ajuda Júlio a montar suas análises da situação.

O jovem comandante dá alguns detalhes de bastidores que lhe foram transmitidos por outros aliados, Ivo diz o que sabe a respeito, trocam ideias, tecem conjeturas.

A conversa rendeu tanto que acabaram separando-se às 22h40, meio tarde para quem precisa manter-se a salvo das batidas policiais. Foi quando Ivo disse ter dois simpatizantes para passar:

— Eles trabalham numa estatal e têm informações interessantes para o teu setor. Mas só podem te encontrar bem cedinho, o expediente deles começa às 8.

Júlio, que detesta cair da cama, foi obrigado a aceitar o horário desagradável. Consolou-se com a ideia de que depois poderia voltar para seu quarto e dormir mais um pouco.

Chega sem cautela nenhuma, pois confia no jeitão tranqüilo e na experiência de Ivo, um renomado ginecologista beirando os 40 anos, que chegara até a ser candidato à Prefeitura por um pequeno partido. Simpático e bem relacionado, ele é uma verdadeira mina de aliados e simpatizantes para a Vanguarda Popular Revolucionária.

Nas terríveis condições da clandestinidade, os militantes tentam agarrar-se a pequenas ilusões, que os ajudam a manter a ilusão maior de que exista alguma segurança para eles. Se encararem a verdade — de que, a cada instante, estão sujeitos a serem presos, torturados e mortos —, acabarão enlouquecendo.
Apelidamos ironicamente esses 
cartazes de "os imortais da Oban"
Assim, 
Júlio tem muito medo de cair num ponto com calouros na luta armada, mas confia quase cegamente nos veteranos — dentre os quais ele próprio se inclui, afinal já leva essa vida há um ano e a maioria não aguenta mais do que alguns meses.

Além disso, esteve com Ivo oito horas atrás. O que poderia acontecer ao bom doutor em tão curto espaço de tempo?

Se pressentisse algum perigo, Júlio teria ido de terno, com o braço para dentro e a arma já engatilhada na mão direita, oculta pelo paletó. É o que faz em pontos arriscados.

Até algumas semanas atrás, teria também uma cápsula de cianureto entre os dentes, pronta para ser rompida por uma mordida mais forte. Foi uma contribuição de simpatizantes da área de medicina, mas o primeiro quadro que preferiu a morte à tortura... sofreu apenas um ataque de diarreia que o debilitou ainda mais diante dos algozes. É que os aprendizes de feiticeiro ignoravam algum detalhe da fabricação do comprimido letal.

A notícia do fracasso chegou à Organização e os militantes mais queimados — aqueles com reais motivos para evitarem cair vivos — tiveram de voltar a conviver com seus temores, sem a opção de uma saída fácil e quase indolor.

O ponto é numa padaria da praça. Júlio olha para os lados antes de entrar, mas só por hábito. E começa a pedir um café no balcão, quando é violentamente agarrado por vários homens. Um o segura por trás, impedindo que mexa os braços. É arrastado para fora, desarmado, encapuzado e jogado no chão de um veículo. Percebe que seu pior pesadelo virou realidade.

Com as mãos algemadas para trás, o capuz apertado, a cara contra o chão, sente falta de ar. Alguém lhe segura a cabeça, forçando-a para baixo, de forma que fique bem oculto dos civis. Durante o trajeto, vai repassando na memória o que lera no panfleto Se Fores Preso, Companheiro, do experiente Carlos Marighella.

Lembra-se de que aconselhava o revolucionário a se comportar como um militar nas mãos do inimigo: dar só o nome (nem mesmo a patente poderia abrir). Mas, isso foi escrito em tempos distantes. Será possível manter agora essa atitude de desafio?
Morte por infarto do jovem Chael Charles
Schreier despertou indignação mundial

Um companheiro mandou do presídio uma descrição da sala de tortura, que disse ser envidraçada. Sugeriu que o preso se atirasse contra o vidro — o que ele próprio não fizera. 
Júlio pensa que é uma boa opção.

Isto, claro, se lhe derem chance. E se não lhe faltar coragem. A hora da verdade chegou e ele não tem certeza de como se comportará. 

Quanto durou o trajeto? Quinze minutos? Vinte? Percebe que chegou num quartel, o motorista explica-se ao sentinela. Acesso permitido. O veículo pára e Júlio é retirado aos trambolhões. Tiram as algemas, mas mantêm o capuz. Sente que está numa espécie de recepção.

- Nome!

Resolve ficar calado. Que vantagem há em revelar um nome que está nos cartazes de Terroristas Assassinos Procurados? Imediatamente começaria a ser tratado como um peixe grande.

-Nome!

- Como você se chama, filho-da-puta?

- É, assim não vai. Leva ele logo pro pau.

Conduzem-no aos empurrões. Cai, levanta-se, tenta manter a dignidade. Finalmente tiram o capuz. Está numa sala repleta de homens fortes e mal-encarados. Procura os vidros contra os quais se atirar, mas não existe nenhum. As paredes são todas acolchoadas.

Mandam-no tirar a roupa. Fica imóvel, mas também não resiste quando lhe arrancam todas as peças. Sente-se inferiorizado e frágil diante dos brutamontes. Deixa que lhe envolvam os braços com tecido, amarrem com uma corda, coloquem um cabo de vassoura entre eles e as pernas e o icem. Fica pendurado sobre dois cavaletes, como um frango no grill das padarias.

Atam eletrodos nos dedos. Começam a girar a manivela de um telefone de campanha, lentamente. Ele concentra todas as suas forças em não gritar. Não lhes dar esse prazer. Não mostrar fraqueza. Resistir.
Eremias, meu amigo desde o primário,
morto por dezenas de tiros aos 18 anos
De repente, o torturador acelera, gira bem depressa a maquininha. A sensação é terrível. Não consegue respirar. Sufoca. Quando o choque cessa, 
Júlio tenta absorver todo o ar que existe na sala. Mas, giram de novo. Param. Giram. Param.

Percebe que esses gritos animalescos estão saindo de sua garganta.

Socam-lhe o corpo, a cabeça. Mas são os choques que o abalam de verdade. A impressão de que morrerá sufocado, de que seu coração vai estourar.

Deixam que tome fôlego, perguntam-lhe o nome. Percebe que não aguentará, vai ter de mudar de atitude. Precisa de tempo para pensar. Diz o nome.

- Tá mentindo, piroca! Fala a verdade! Como se chama? (outra descarga)

- (ofegando) Sou eu mesmo! O dos cartazes!

Vão digerir a informação. Tiram-no do pau-de-arara, mandam ficar em pé, com o rosto contra a parede. Deixam que amarre de qualquer jeito a calça e a camisa rasgada em torno do corpo.

Antes de dar-lhes as costas, vê os torturadores sorrindo, com ar de deboche. Odeia-se por não ter resistido mais.

Percebe que isso é só o começo, o pior está para vir.

Um grandalhão dá um tapa na sua nuca, depois tenta assustá-lo com o símbolo do Esquadrão da Morte. Com uma mão agarra-o pelos cabelos da nuca; com a outra, coloca bem diante dos seus olhos a caveira do ridículo anel que usa.

— Bem-vindo ao inferno!
A plateia estoura em gargalhadas.

À dor e vergonha vem se somar o desânimo. “Até quando terei de suportar essa ralé?” — pensa Júlio. Sua impressão é de que realmente desceu ao inferno.

Acima reproduzi a introdução do meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005).

Quando meu pior pesadelo se materializou há exatos 55 anos, eu só poderia supor que estivesse diante de três opções:
- sobreviver incólume;
- sobreviver lesionado;
- morrer.

Havia uma quarta, que nunca me ocorreria: sobreviver duplamente lesionado, fisica e moralmente,
por haver caído numa armadilha da História, em que me debateria pelos quase 35 anos seguintes.

Mas, somos mesmo joguetes dos deuses.

Quando já me conformava com a ideia de que a verdade a meu respeito só viria à tona -- se viesse --, após a morte, uma sequência de acontecimentos favoráveis alterou todo o cenário, no final de 2004.

Como se os fados quisessem me compensar pela maré de azar que me tornou bode expiatório de falhas alheias e por pouco não me destruíra em 1970.

Então, meia existência depois, os efeitos daquele terrível 16 de abril (e dos meses seguintes) foram superados. Passei a viver uma nova vida -- aquela que deveria ter vivido. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

BRASIL CONTINUA EM DÉBITO COM MUITAS OUTRAS FAMÍLIAS, INCLUSIVE AS DE MARIGHELA E LAMARCA

Fernanda Torres interpretando
sua 
mãe: atuação superlativa. 
Eunice Paiva e Zuzu Angel tiveram eternizadas nas telas as suas corajosas lutas por entes queridos que foram exterminados pela ditadura dos generais. 

Merecem o respeito e gratidão dos melhores brasileiros, assim como todas as famílias que passaram por dramas semelhantes, durante a imensa tragédia do totalitarismo que se abateu sobre nosso país no período 1964-1985.

Nunca deixarei de lamentar quão pouco pude fazer por três dessas famílias.

Como a do meu colega desde o primário e companheiro de lutas desde o movimento secundarista, Eremias Delizoicov. 

Quando terminou minha temporada no inferno e voltei em frangalhos às ruas, duas vezes encontrei seu pai no ponto de ônibus. Em ambas ele quis (praticamente me obrigou) que fosse à sua casa, para ajudar a alimentar as esperanças de que o Eremias ainda estivesse vivo, foragido pelo mundo.

Tudo isto porque a repressão anunciou inicialmente a morte de outro companheiro e só um ou dois dias depois retificou a informação. Como os verdugos se negaram inclusive a entregar ao sr. Jorge os restos mortais do filho (provavelmente para evitar que constatasse as dezenas de disparos com os quais estraçalharam seu corpo, uma bestialidade a mais dentre tantas que cometeram), o sr. Jorge e a esposa continuavam sonhando com um impossível happy end. 

Naquelas duas tardes em que passei horas na casa deles, resisti à tentação de simplesmente dizer-lhes o que queriam escutar. Aconselhei-os a esquecerem tal ilusão e buscarem a felicidade possível no que restara da família: eles dois e o filho mais velho, que não participou da luta. 
Zuzu Angel passou por via crucis semelhante

Então, lembro-me dessas ocasiões como um interminável sofrimento a três, do qual eu tinha a obrigação de participar até poder ir-me embora, arrasado, para voltar a juntar os cacos da minha própria existência.

Como a família do Massafumi Yoshinaga, que eu nem sequer conhecia (mas um tio dele me contatou  no final de 2005, quando eu estava lançando o Náufrago da Utopia). 

Foi então que tomei conhecimento de quanto o Massa & família sofreram com a estigmatização por parte de pessoas de esquerda mais rápidas em condenar as vítimas do terrorismo de estado do que em lutarem contra ele quando tiveram a oportunidade de fazê-lo. 

Percebi que o tio Akitoshi queria de mim uma espécie de desagravo e isto, pelo menos, estava ao meu alcance. Divulguei vários artigos deplorando o abandono ao Massa quando ele decidiu sair da organização e foi largado no mundo sem grana, sem ajuda nenhuma para deixar o país, sem ter sequer onde esconder-se (chegava a dormir nas barracas do Mercado Municipal!),  depois de haver se tornado procuradíssimo pela repressão graças à sua atuação na VPR. 

Era desesperadora sua situação quando aceitou o conselho de um antigo guru, que intermediou sua rendição ao Dops, com a garantia de não ser torturado. Teria de participar de showzinhos montados pelos serviços de guerra psicológica das Forças Armadas, sendo solto logo em seguida... 
O drama da Família Paiva sensibilizou as novas gerações... 

...mas não para reencontrar, como sonhava, o calor do povo, e sim para viver execrado em seu próprio país, a ponto de enlouquecer (tinha alucinações de que seus pensamentos estariam sendo captados pela repressão) e de tentar três vezes o suicídio, até 
obter sucesso!

Fiz o máximo que pude, com meu teclado, para que ele passasse a ser visto com um pouco de compreensão, como mais um jovem destruído pelo arbítrio então vigente no Brasil. E me orgulho de haver rebatido firmemente o uso calhorda de sua desgraça por um antigo companheiro de movimento secundarista, depois economista burguês (um dos pais do Plano Cruzado). 

Num momento em que estava praticamente esquecido em sua profissão, tal indivíduo divulgou um artigo choramingas numa revista chique, não se vexando de atacar a memória de um morto para valorizar a dele própria. Desafiei-o para uma polêmica, mas ele preferiu ignorar. Refutei o artigo, mas a revista não concedeu direito de resposta. De qualquer forma, impedi que tal baixeza passasse inteiramente em branco.

Por último, indignei-me ao perceber que as viúvas da ditadura, com o apoio da imprensa canalha, lançavam uma ofensiva avassaladora contra a correta decisão da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, de fornecer uma reparação à altura do sacrifício do comandante Carlos Lamarca, executado por agentes do Estado brasileiro quando estava rendido e combalido. 
...mas resta a dívida com a Família Lamarca

Também dessa vez
pude somar minhas forças à da família que travava luta tão desigual, pouco apoio recebendo dos antigos companheiros do Lamarca. Cumpri integralmente o meu dever de solidariedade para com o combatente tombado.

De resto, não é só o reconhecimento dos pósteros a partir de filmes e livros que as famílias dos companheiros merecem, mas também o reconhecimento do próprio Estado brasileiro, que insiste em não colocar Carlos Marighella e Carlos Lamarca como dois dos maiores heróis que este país já produziu.

É ultrajante que eles não tenham seus nomes acrescentados às mais de 60 figuras históricas que já constam do Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Trata-se de outra dívida que a nação brasileira tem para com as famílias daqueles que mais a honraram com suas ações e com o sacrifício de suas vidas.

E que não será paga de maneira branda, agora que a direita manda e desmanda no Congresso Nacional. Mas, se evitarmos todas as batalhas difíceis de vencermos, perderemos a guerra de forma cada vez mais acachapante, como vem acontecendo desde 2016. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 3)

Enquanto era realizado o congresso do racha dos sete, transcorriam
as negociações do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick.
Até o racha dos sete, as circunstâncias vinham me propiciando uma escalada relâmpago nas fileiras da esquerda. 

Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Nunca tive obsessão pelo poder e. aos 18/19 anos, já possuía suficiente senso de autocrítica para perceber que não estava pronto para voos tão altos.  

Mas, eu mentiria se não admitisse que o novo status me deslumbrou um pouquinho que fosse, principalmente após passar 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha. 

[Caso, p. ex., de quando nos escolheram para panfletar Osasco ocupada pela PM em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não tinha tais melindres.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que deveria. Primeira foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 
Fernando Ruivo, vítima de um acaso.

No mês seguinte vieram o
Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo, de quem eu muito ouvia falar quando fazia movimento secundarista na órbita dessa organização universitária em 1968: o Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em outubro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Eu estava longe, participando da equipe precursora do treinamento guerrilheiro na região de Registro (SP), mas me senti culpado mesmo assim: tornara-me comandante estadual graças aos que, como ele, me haviam escolhido como líder de nossa base e delegado ao congresso de 1969 da VPR. 

Mas, não zelara por nenhum dos sete, absorvido que estava pelas minhas novas funções. A morte do Eremias, que preferira trocar tiros do que entregar-se vivo, embora pouca participação tivesse até então na VPR e não fosse depositário de segredos valiosos para a Operação Bandeirantes (precursora do DOI-Codi) pesava sobre meus ombros. Apesar das normas de segurança em contrário, eu teria como contatar alguns dos sete, mas não o fizera. E o despreparo do Eremias terminara em tragédia.

O certo é que, após estar a um passo da expulsão durante o Congresso de Teresópolis e ver-me salvo na enésima hora  pela decisão do Lamarca de desfechar o racha dos sete, não me senti vitorioso, muito pelo contrário. A beligerância com que se travara a luta interna, com os neo-massistas utilizando um verdadeiro arsenal de meias-verdades e mentiras descaradas para prevalecerem contra o Moisés e eu me lembrou os piores momentos do movimento estudantil.

Não conseguia engolir o episódio em que até a minha queda os adversários do nosso campo tramaram, como se fôssemos inimigos mortais. 



É que voltei de Teresópolis com a missão de apresentar aos militantes da VAR em SP  a visão dos refundadores da VPR, enquanto o Antônio Roberto Espinoza expressava a posição neo-massista. Isto só ocorreu, contudo, duas vezes.

Na primeira, apesar de o Espinosa ter sido sempre do Comando Nacional enquanto eu era comandante estadual, sai-me melhor do que o outro lado esperava. Aí, finda a segunda dessas reuniões, fui  a um ponto com antigos companheiros secundaristas que eu queria atrair para a VPR; em seguida, deveria ser apanhado por pessoal da VAR, pois nós havíamos ficado sem aparelhos em SP  e competia a eles me abrigarem.

Faltaram ao ponto e também faltaram na alternativa horas depois, deixando-me entregue à própria sorte, com meu rosto nos cartazes de procurados vistos em todo lugar, sem documentos capazes de enganar policial algum e com um .38 embaixo do braço. E deixara de ser seguro enfiar-me num hotelzinho barato, como fizera meses antes, ao sair de casa para entrar na clandestinidade.

Mas, uma moeda caiu em pé. Andando por ruas menos movimentadas do centro velho de SP, enquanto refletia sobre como escapar daquela enrascada, dei de cara com o Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, mais procurado ainda do que eu (travara tiroteio com agentes da repressão que vinham prendê-lo e aos irmãos, acabando por escapar ferido no braço).

Encontrá-lo caminhando pela rua, ainda com o braço na tipoia, foi um inacreditável golpe de sorte. Ele me abrigou como pôde e reatou meu contato com a VPR. Mas, a solidariedade impecável do Devanir não foi suficiente para eu esquecer que aqueles que nem duas semanas antes pertenciam à mesma organização, acabavam de tentar entregar-me às feras.

Amargurado, nem quis participar do rápido encontro no qual alguns dos principais quadros da VPR refundada aprovaram basicamente as teses do Jamil como plataforma doutrinária e elegeram um novo Comando Nacional. 

Em seguida, por estar muito queimado em SP (até na Biblioteca Central a Oban plantou agentes, na esperança de que eu aparecesse por lá, como fazia amiúde nos tempos de secundarista!), incumbiram-me de ajudar a preparar uma área de treinamento guerrilheiro para receber os primeiros aprendizes.
Livro raro, é o que melhor reconstitui
a queda das áreas guerrilheiras da VPR

Não fui tão mal no trabalho de campo como detratores exagerariam depois, mas o noticiário de cada dia me fazia tanta falta quanto o ar para respirar. 

Não suportava permanecer distante enquanto outros companheiros poderiam estar morrendo nas cidades. Quando chegava o motorista que trazia nossas provisões, mensagens e utensílios, eu simplesmente devorava os jornais recentes.

Então, quando o Lamarca decidiu que aquele sítio próximo a Jacupiranga tinha vários inconvenientes para nosso projeto e os trabalhos deveriam ser transferidos para outro município, supostamente longínquo, pedi para voltar ao trabalho urbano, pois avaliara que nele seria mais útil.

O Massafumi Yoshinaga, velho companheiro de militância secundarista (atuava na zona Sul e eu na Leste, mas ambos pertencíamos à mesma entidade), também aproveitou a ocasião para sair, não para outro tipo de trabalho, mas para desligar-se da VPR. Não suportava o isolamento das massas, "ficar ouvindo o dia inteiro papo sobre assuntos militares".

Iniciei 1970 no Rio de Janeiro, novamente designado para criar e comandar um serviço de Inteligência integrado por aliados e simpatizantes. Era um momento em que tinha até receio de abrir o jornal a cada manhã, pois eram cada vez mais frequentes as notícias de quedas e mortes de companheiros que eu conhecia pessoalmente.  

Organicamente ligado apenas a dois comandantes nacionais e a dois comandantes de unidades de combate. aos quais municiava com informações e análises, tinha uma visão bem clara de que nossa luta estava nos estertores: ou conseguiríamos virar o jogo com o lançamento da coluna móvel estratégica, ou definharíamos aos poucos. 

E chegou a mim uma mensagem familiar: um tio rico estava disposto a bancar a minha fuga para algum país da América do Sul ou Europa. 

Pensei um pouco no assunto e conclui que, ficando no Brasil, apostaria num fio de esperança e possibilidade muito maior seria a de acabar preso, torturado, morto. Não tinha ilusões quanto a isto.

Se partisse, minha utilidade para a revolução seria praticamente nenhuma. Como já queimara as pontes com a sociedade burguesa, eu alhures me tornaria um estranho numa terra estranha, perdendo inclusive a auto-estima.

Decidi ficar, até a improvável vitória ou até o mais amargo fim. (por Celso Lungaretti)    

ACESSE  TODOS OS POSTS DESTA SÉRIE CLICANDO EM
PARTE 1, PARTE 2, PARTE 3, PARTE 4, 
PARTE 5, PARTE 6, PARTE 7

domingo, 11 de agosto de 2024

A ESQUERDA QUE NÃO SE DEIXOU COOPTAR PELO CAPITALISMO: UM LEGADO (parte 1)

Ao acordar em maio de 1987 na enfermaria do Hospital das Clínicas (SP) com quatro fraturas na perna direita, sem sequer lembrar-me de como chegara àquela situação (havia sido atropelado por uma moto com passageiro), tive plena consciência de que estar vivo era um acaso e de que se podia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Desde então preocupei-me bem mais com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem de se teria condições para registrar uma mensagem derradeira.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado do que em escrever uma espécie de autobiografia precoce, lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz de revolucionário. Pois é disto que se tratava: dar ainda vivo uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

O certo é que agora, no finzinho de junho, hospitalizado por causa de uma doença infecciosa muito resistente, tive um piripaque que, durante uma hora, me deixou com a impressão de que chegara ao fim da linha. 

O ataque passou e agora, novamente dono do meu ser e do meu destino, resolvi não postergar mais a tarefa de redigir um balanço da minha jornada, na esperança de que sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver ainda em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 
Colegas no primário, depois fomos
companheiros de militância
 

Bem mais provável é a prevalência, em futuro imediato, dos mostrengos engendrados pelos palhaços do apocalipse, semeadores de urtigas.  

Ela começa exatamente nas férias escolares entre 1967 e 1968, quando, depois de umas poucas semanas de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo da mostrada em A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia apenas estar lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já encarava-a como uma decisão para toda a vida. E foi: lá se vai mais de meio século e continuo tão fiel quanto possível àquela longínqua opção revolucionária. 

Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu do de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitamos todas as missões e nos desincumbimos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 18 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente do que a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A captura e as torturas  que quatro de nós sofremos, outro.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido com a inusitada designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

O Gerson morreu baleado na rua
Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), era, quanto muito, tratado com uma camaradagem condescendente.

Ninguém esperava grande coisa de mim, mas, como a investidura não me subira à cabeça e eu mostrava muito empenho em acertar, estava sendo razoavelmente bem aceito. 

Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação vistosa no congresso de abril/1969 da VPR não justificava tal condição. 

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.

Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés, remanescente das mobilizações da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno, ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. Houve, em seguida, aquele congresso em Mongaguá para colocar a casa em ordem e foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização.

O Moisés seria executado na 
Casa da Morte de Petrópolis
Mas os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com o(s) comandante(s) nacional(is) aos quais estávamos submetidos. Até que o Moisés e eu chegamos à conclusão de que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista. 

O Comando Nacional passou a ter quatro integrantes dedicados à preparação do lançamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais; a fusão com o Colina manteve o mesmo desenho, com quatro comandantes incumbidos da luta principal e dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

Começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a fusão VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, pregando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o novo fortalecimento da ala massista. 

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior que nossas pernas se uma munição inesperada não tivesse caído em nossas mãos. Ela já era conhecida na organização, mas não estava sendo levada a sério. 

Ao perceber que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um documento que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato, incondicionalmente. 

A coisa então mudou de figura, pois se tratava do endosso estridente de um comandante estadual, mesmo que fosse provavelmente o de menor prestígio dentre todos. As chamadas Teses do Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem abordadas no Congresso de Teresópolis, tanto que néo-massistas correram a lançar documentos refutando-as. 

Eu colocara em movimento a roda do destino de uma forma inimaginável, ainda mais por isto estar partindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí para mim desgraças jamais sonhadas. (por Celso Lungaretti) 
"O que sou nunca escondi/ Vantagem nunca contei/ Muita luta já perdi/
Muita esperança gastei/ Até medo já senti/ E não foi pouquinho, 
não/ Mas fugir, nunca fugi/ Nunca abandonei meu chão"

ACESSE  TODOS OS POSTS DESTA SÉRIE CLICANDO EM
PARTE 1, PARTE 2, PARTE 3, PARTE 4, 
PARTE 5, PARTE 6, PARTE 7
Related Posts with Thumbnails