Gian-Maria Volonté e Lou Castel: amizade inesperada.
Quando acompanhamos indignados a nova agressão do Trump ao continente americano, talvez nos sirva de um pequeno consolo assistir a este excelente faroeste anti-imperialista do cinema italiano.
O que gostaríamos de ver é uma união de países contra a pirataria internacional e a entrega de um ultimato ao sequestrador fanfarrão, mas não podemos esperar algo assim dos presidentes bananas de nuestra América, começando pelo Lula.
Isto porque ele se mostra mais apreensivo com as sequelas eleitorais do episódio do que com o risco que a própria Amazônia passou a correr de ser ocupada e saqueada. Então, fiquemos com a arte, pois a vida anda uma desilusão só...
Klaus Kinski: messiânico e carismático.
Gringoé o filme de 1967 que apontou um novo rumo para a carreira do diretor e roteirista Damiano Damiani (1922-2013), cujas incursões pelos épicos, dramas e comédias haviam tido resultados inexpressivos.
Ao contar uma história com fundo político e todos os ingredientes do cinema de ação procurados pelos fãs dos westerns, conseguiu agradar não só à clientela habitual dos bangue-bangues (desacostumada a a roteiros com essa qualidade superior e a tal excelência de interpretações, trilha sonora e direção), como também atrair um público mais politizado.
Gringo(também conhecido como Uma bala para o general) mostra o mercenário estadunidense El Niño(Lou Castel) tentando chegar ao acampamento de um dos líderes da Revolução Mexicana, dom Elias (Jaime Fernández) para o assassinar a soldo do reacionário governo asteca.
Consegue infiltrar-se num grupo guerrilheiro que ataca trens e guarnições militares para obter armas destinadas a Elias, mas sua tarefa se complica quando nasce uma inesperada amizade entre ele e o comandante da tropa, El Chuncho(Gian-Maria Volonté).
Num filme superlativo, com vários momentos inesquecíveis, destaque também para a primeira interpretação impactante do Klaus Kinski, como El Santo. (por Celso Lungaretti)
Foi como se o Trinity estivesse invadindo o set de Era uma vez no Oeste...
Meu nome é ninguém(1973) é o filme de encerramento doFestival do Western Italianoque este blog realiza há exato um mês, ao longo do qual apresentou aos leitores 12 dos títulos mais expressivos dessa variante alternativa aos bangue-bangues estadunidenses – a qual superou tão acentuadamente a matriz original que Hollywood foi obrigada a curvar-se à Cinecittà, trocando o maniqueísmo rançoso de seus faroestes por uma visão mais realista e amarga do tempo das diligências...
Foi idealizado, produzido e dirigido pelo grande Sergio Leone, que preferiu, contudo, transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.
Por quê? Tenho cá pra mim que ele não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia –também não creditado–, 1959; e O colosso de Rodes, 1961), inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
...e desviando as atenções do lendário Henry Fonda, já no ocaso da carreira
— Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
— Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
— Era uma vez o Oeste (1968), um bangue-bangue nostálgico e filosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que presta tributo a essas belas fantasias; e
— Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!
O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), monumento cinematográfico que mereceria ser reconhecido como uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.
Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica? [Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho sinistro, mas não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediadoChamam-me Trinity (d. Enzo Barboni, 1970).]
Ou, talvez, Leone simplesmente não tenha querido colocar sua assinatura num filme que tem grandes momentos mas, também, evidentes concessões comerciais.
Isto porque Meu nome é ninguém combina o melhor do Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical –desta vez com inspiração wagneriana– de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem) com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam...
A história é a de um jovem desconhecido mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.
Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as canastrices de Hill coloca o filme mais ou menos no patamar de Por um punhado de dólares; sem elas, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste.
Mesmo assim, por seu ótimo ponto de partida e por algumas sequências inesquecíveis, merece ser visto.
Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro.
Só que exagerou na dose, pois se trata de um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo próprio Damiani (cujo Uma bala para o general, de 1966, fora outra das inspiradas incursões da Cinecittà pela revolução mexicana).
Felizmente, não houve uma terceira associação com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do gênero, acabando por as simbolizar. (por Celso Lungaretti)
lista final de filmes do Festival do Western Italiano
Por uns dólares a mais(1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone. Ele inventara o faroeste italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares, transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás.
Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte. Em Por um punhado de dólares ele introduzira: — a figura do anti-herói no centro da trama; — a amoralidade básica dos tipos e das situações; — a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação; — a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e — um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.
A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, no lugar de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.
Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.
Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrer, Honra a um homem mau, Sem lei e sem alma, O homem dos olhos frios, Estigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito.
[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]
E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.
Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).
A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté).
Só que a motivação de um deles não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha. (por Celso Lungaretti)
lista final de filmes do Festival do Western Italiano
Se alguém considerar pretensão demasiada da minha parte intitular de Festival do Western Italiano esta modesta iniciativa, não discordarei.
Afinal, de há muito o blog já vinha oferecendo filmes expressivos desse filão, mais não fazendo porque nenhum membro da equipe saberia postar no Youtube os bangue-bangues à italiana importantes que ainda não estão lá disponibilizados (existe algum voluntario?).
Mas há uma novidade, sim: os vários filmes que estão estreando de uma vez só no blog, como este marco da nova abordagem dada pelo western italiano à revolução mexicana, que passou nos cinemas brasileiros com o título de Gringo e foi lançado em VHS como Uma bala para o general.
É o filme de 1967 que apontou um novo rumo para a carreira do diretor e roteirista Damiano Damiani, cujas incursões pelos épicos, dramas e comédias haviam tido resultados inexpressivos.
Ao contar uma história com fundo político e todos os ingredientes do cinema de ação procurados pelos fãs dos westerns, conseguiu agradar não só à clientela habitual dos bangue-bangues (desacostumada a roteiros com essa qualidade superior e a tal excelência de interpretações, trilha sonora e direção), como também atrair um público mais politizado.
Tendo a receita funcionado às mil maravilhas, ele passou a aplicá-la também em policiais sobre a máfia – uma dezena deles, com destaque para O dia da coruja (1968) e Confissões de um comissário ao procurador-geral da República (1971).
Janota estadunidense (Lou Castel), fingindo estar refugiado no México para escapar de uma condenação à morte em seu país, consegue infiltrar-se num bando que rouba armas para vendê-las ao comandante revolucionário General Elias (Jaime Fernández).
El Chuncho (Gian Maria Volonté), o líder, já integrara as fileiras de Elias por idealismo, mas havia se tornado mercenário sem que o resto do grupo, nem mesmo o seu messiânico irmão El Santo (um papel sob medida para o carismático Klaus Kinski!) o soubesse. Acreditavam estar ainda agindo em nome da revolução.
Apelidado por ele de El Niño, o infiltrado acaba despertando uma afeição paternal em Chuncho e, graças a ela, depois de muitas peripécias, consegue chegar ao acampamento de Elias, cuja localização era conhecida por bem poucos.
Mas, o único detalhe em que aquele calculista impiedoso cede a um sentimento humano poderá ser-lhe desastroso. (por Celso Lungaretti)
lista final de filmes do Festival do Western Italiano
Foi uma grata surpresa encontrar disponibilizado no Youtube um filme equilibrado sobre episódio revolucionário e com a assinatura de um cineasta competente.
Infelizmente, são raros. A maioria é de obras menores, reverentes em demasia, apologéticas e louvaminhas, como se grandes homens não fossem contraditórios tais quais todos somos, embora tendo momentos de intenso brilho, quando chegam a fazer a diferença para que os acontecimentos históricos se encaminhem numa ou noutra direção.
Mas, Damiano Damiani não era um diretor e roteirista qualquer. Depois de mais de uma década criando argumentos ou adaptando, dos livros para as telas, criações alheias, estreou na direção em 1960, incursionando pelas comédias à italiana, e depois chamou a atenção da crítica com um drama inspirado em Alberto Moravia (Vidas Vazias, 1963).
Finalmente, encontrou seu nicho com Gringo (1967) e O dia da coruja (1968): westerns e policiais na linha da contestação política, sintonizados com aquele momento em que a juventude ia às ruas protestar e erguer barricadas contra a desumanidade capitalista e o desencanto que lhe causava o autoritário e burocratizado socialismo real.
Tal fase, que vai até 1985, deixou como saldo filmes dignos e desmistificadores, que eram compreensíveis para, e apreciados por, públicos menos sofisticados que os dos chamados filmes de arte, curtidos pela intelectualidade; mas, algo repetitivos, tipo viu um, viu todos.
...ora está mais para Mahatma Ulianov.
Dois foram de qualidade superior e mereceriam ser mais conhecidos pelas novas gerações: Confissões de um comissário ao procurador-geral da república (1971) e Só resta esquecer (a.k.a. Todos estamos em liberdade condicional, 1971).
Quando os ventos de mudança não mais sopravam na Europa, Damiani fez alguns filmes relacionados a episódios históricos, inclusive o injustamente ignorado A investigação (1987, sobre a faina de um romano enviado pelo imperador Tibério para descobrir o cadáver de Jesus Cristo e, assim, desmentir sua ressurreição.
Na mesma linha está o filme para ver no blog a que os leitores podem assistir, legendado, nas janelinhas abaixo: as duas parte da minissérie O trem de Lenin (1988), totalizando 206 minutos.
Mostra a célebre viagem de Lenin para voltar em segurança do seu exílio suíço para a Rússia em 1917, depois que o czar Nicolau II abdicou como consequência dos protestos populares iniciados pelos operários de São Petersburgo e que se espalharam pelo país (a chamada revolução de fevereiro, que levou ao poder um governo provisório formado por representantes da nobreza e da burguesia, ao lado de socialistas moderados).
Face à dificuldade para chegar ao seu país em meio às batalhas da 1ª Guerra Mundial, Lenin (Ben Kingsley, geralmente correto, mas às vezes com cacoetes remanescentes do personagem que o celebrizou, Gandhi) aceita uma proposta do aventureiro Parvus (Timothy West), um gênio sem caráter que inspirara Trotsky na criação da teoria da revolução permanente, depois se afastara dos revolucionários russos e fora utilizar seus talentos para enriquecer na vida.
Lênin correu riscos e fez a revolução. Martov refugou e foi para a lata de lixo da História
Parvus convencera o governo da Alemanha a facilitar a passagem de Lenin por seu território, para que, de novo na Rússia, ele entrasse em choque com o governo provisório, enfraquecendo-o.
A suposição germânica era a de que tal divisão acabasse levando os russos a firmarem uma paz em separado, liberando os alemães para utilizarem seus efetivos no front ocidental.
Astuto, Lenin avalia que era fundamental estar presente no seu país o quanto antes, pois se abria uma janela revolucionária capaz de propiciar a concretização dos ideais que vinham sendo a razão maior de sua existência havia um quarto de século. Mas, ser-lhe-ia inconveniente retornar como um personagem que os adversários poderiam qualificar de espião alemão.
Então, negociou com os ditos cujos a inclusão de outros exilados na viagem, exatamente para não parecer o trem do Lênin e sim o trem dos russos. Oferecendo um lugar até para adversários como os mencheviques (Martov interpretado por Wolfgang Gasser, esperou para ver se a aventura não era uma cilada, tendo depois de correr atrás do prejuízo, obrigado a negociar outra viagem para ele e os seus).
O trem acabou partindo com 32 passageiros especiais, que viajaram separados dos demais, mas não como peste confinada num vagão lacrado, conforme ironizou Winston Churchill.
É fascinante ver:
A bela feminista, a lenda viva e a esposa condescendente
— os dotes de grande estrategista e orador de Lenin, que consegue superar brilhantemente a maioria das situações delicadas para o propósito do grupo, não hesitando em decepcionar seus admiradores em estações pelas quais o trem passa, por temer que suas aclamações deem pretexto para os alemães interromperem a viagem;
— seu desapego pessoal, a ponto de ser obrigado pelos companheiros a tomar banho de loja para não chegar a Petersburgo parecendo um mendigo e, pior, sofrendo com ataques de uma doença que ocultava penosamente porque lançaria uma nuvem negra sobre seu futuro político (há dúvidas sobre se seria ou não uma sífilis mal curada, mas a versão oficial acabou sendo a de que ele decaiu rapidamente nos dois anos finais por causa de uma aterosclerose progressiva);
— sua relação complicada com Inessa Armand, revolucionária, feminista, formada em economia e que escrevia sobre literatura (Dominique Sanda), uma mulher à frente do seu tempo, que tudo indica ter sido mesmo amante de Lênin, embora isto haja sido provavelmente deletado das biografias da era stalinista para não admitir-se a existência de uma nuance humana no revolucionário perfeito; e
— a resignação com que Zinoviev (Paolo Bonacelli) e a esposa Nadia Krupskaya (Leslie Caron) aceitam tudo que parta do grande homem, mesmo quando tal subserviência lhes é constrangedora, exatamente como age hoje o séquito do Lula no PT...
Gente de verdade é assim, tem necessidades humanas, não está fazendo História o tempo todo. Estátuas imponentes só servem para enfeitar (ou enfear) as praças públicas. (por Celso Lungaretti)
Meu nome é ninguém(1973) é mais um western italiano idealizado, produzido e, dizem, dirigido pelo grande Sergio Leone; só que, neste caso, ele teria preferido transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.
Por quê? Tenho cá pra mim que Leone não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia –também não creditado–, 1959; e O colosso de Rodes, 1961); inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi, a partir de então, realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
Era uma vez o Oeste (1968), um western nostálgico efilosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que presta tributo a essas belas fantasias;
Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!
O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), verdadeiro monumento cinematográfico, uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.
Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica?
[Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho taciturno, mas nesta linha não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediadoChamam-me Trinity, (d. Enzo Barboni, 1970), ao lado do fortão Bud Spencer.]
Meu nome é ninguém combina o melhordo Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical –desta vez um tanto wagneriana– de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem), com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam, mas cuja presença frustrou os devotos do western puro-sangue).
A história é a de um jovem desconhecido, mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer porque quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.
Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as palhaçadas de Hill o coloca mais ou menos no patamar de Por um punhado de dólares; sem tal concessão comercial, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste.
Mesmo assim, tem um ótimo ponto de partida e algumas sequências inesquecíveis. Merece ser visto.
Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro. O resultado foi constrangedor, perda total. Trata-se de um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo Damianiele mesmo (afinal, antes de entrar nessa roubada, Damiani firmara reputação em 1966 com o ótimo Gringo, uma das inesquecíveis incursões da Cinecittà pela Revolução Mexicana). Felizmente, não houve uma terceira associação de Leone com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do ciclo, acabando por as simbolizar. (por Celso Lungaretti)
Para quem está coçando o saco em casa, eis um western italiano de boa safra (1968), que pode servir, no mínimo, como um bom passatempo: Os violentos vão para o inferno.
O diretor é Sergio Corbucci, que fazia o gênero artesão, entregando filmes geralmente razoáveis e às vezes muito bons.
Casos de Romulo e Remo (1961), Dança macabra (clássico do terror italiano que ele co-dirigiu com Anthony Dawon em 1964, sem que sua participação lhe fosse creditada), o primeiro Django (1966), o Vingador silencioso (1968) e o interessantíssimo O especialista (1968), no qual transpôs para o Oeste selvagem sua visão sobre os jovens contestadores que sacudiam a Europa.
Os violentos vão para o inferno, cujo título mais apropriado teria sido O mercenário (como nos cinemas da Itália) tangencia a Revolução Mexicana, mas sem ir fundo como Damiano Damiani em Gringo e Sergio Leone em Quando explode a vingança.
Mostra um peão (Tony Musante) que se torna um rebelde foragido após reagir a uma humilhação dos poderosos e, por não entender do ofício, aceita pagar a um mercenário (Franco Nero) para ensinar-lhe a fazer a revolução.
Como vilão reencontramos uma figurinha carimbada dos filmes B estadunidenses, Jack Palance. E a trilha sonora de Ennio Morricone é diferenciada como sempre, com a canção principal destacando... assobios!
Uma curiosidade é que o bom retorno nas bilheterias resultou numa espécie de remake quase imediato (Companheiros, 1970), com enredo semelhante e novamente sob a direção de Sergio Corbucci.
Franco Nero, mercenário polonês no filme anterior, virou um aventureiro e vendedor de armas sueco. Jack Palance continuou sendo vilão. Entraram Thomas Milian (um cubano no papel de um rebelde mexicano) e Fernando Rey como professor revolucionário.
O enlace com a Revolução Mexicana foi acentuado. A simpática canção Vamos a matar, compañeros! acabou sendo uma das mais populares do mestre Morricone. E o desempenho nas bilheterias foi ainda melhor, mas não devem ter encontrado nenhum roteirista com imaginação suficiente para vender o mesmo peixe pela terceira vez...
Eastwood e Van Cleef: primeira dupla de anti-heróis de Leone
Um filmaço está novamente disponível no Youtube, mas não se sabe até quando. Quem aproveitar este período de férias para vê-lo ou revê-lo, não se arrependerá. Trata-se de Por uns dólares a mais(1965), o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone. Ele lançara o gênero western italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares, transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte. Em Por um punhado de dólares ele introduzira: — a figura do anti-herói no centro da trama; — a amoralidade básica dos tipos e das situações; — a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação; — a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e — um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Volonté depois se destacaria em papéis políticos
Depois, em Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas. A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.
Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.
Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrer, Honra a um homem mau, Sem lei e sem alma, O homem dos olhos frios, Estigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito.
Mesmo como coadjuvante, Klaus Kinski chamava a atenção
[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.] E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.
Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).
A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). Só que a motivação não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha.