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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

ESTE FILME MARCOU O MOMENTO EM QUE A MINHA VIDA MUDOU PARA SEMPRE

O dia da desforra é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando, mal acabava de completar 18 anos, sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. 

E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes. Seu diretor, Sergio Sollima, começara como crítico de cinema, entrou na Cinecittà como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Já como único diretor, O dia da desforra (1966) seria seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 
Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o faroeste Quando os brutos se defrontam (1967), com Thomas Milian e Gian-Maria Volonté; e o policial Cidade Violenta (1970), estrelado por Charles Bronson.

Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia ter feito coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação de que dispôs em O dia da desforra.

Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) era um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), havia se tornado um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.

Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. 

Brokston se propunha a bancar a candidatura de Corbett a senador, para obter, em reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.

A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado na mosca, embora seu trabalho seguinte,
Quando os brutos se defrontam, não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o sentido do título que dei a este post. Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então precisei sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.
Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do
ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só trazia comigo os meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase na frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. 

Não pensei nisto então, mas havia um perseguido na tela e eu começava a levar vida de perseguido, tendo de esconder quem era, mudar a aparência, evitar lugares onde me conheciam, andar pelas ruas sempre atento à possibilidade de alguém estar seguindo meus passos, etc. Foi uma amarga ironia ser logo aquele o filme exibido do outro lado da rua.

Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 4 de dezembro de 2022

ENQUANTO ESPERAMOS NOSSO DIA DA DESFORRA, QUE TAL UM APERITIVO?

 
O dia da desforra, que andou sumido do Youtube mas está novamente disponibilizado, é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes.

Seu diretor, Sergio Sollima, havia começado como crítico de cinema, entrara na indústria cinematográfica como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Como único diretor, O dia da desforra (1966) foi seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Correu mundo e foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 

Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o ótimo faroeste Quando os brutos se defrontam (1967) e o policial Cidade Violenta (1970).   
Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia fazer coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação que teve em O dia da desforra.

Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). 

Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) havia sido um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), tornara-se um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.
Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar o autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. Brokston se propunha uma apoiar a candidatura de Corbett a senador, para obter, como reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.

A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado tão na mosca, embora seu trabalho seguinte, Quando os brutos se defrontam não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o que deixei antever no primeiro parágrafo: Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a 
queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então tive de sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.

Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só dispunha de meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase em frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

DEPOIS DE INVENTAR O WESTERN ITALIANO, SERGIO LEONE PRECISAVA DEMONSTRAR SEU TALENTO PARA VOOS MAIORES. CONSEGUIU!

P
or uns dólares a mais (1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele inventara o faroeste italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em 
Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, no lugar de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrer, Honra a um homem mau, Sem lei e sem alma, O homem dos olhos frios, Estigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu 
toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito. 

[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em 
Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). 

Só que a motivação de um deles não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha. (por Celso Lungaretti)

sábado, 1 de janeiro de 2022

O PRIMEIRO "FILME PARA VER NO BLOG" DE 2022 TEM UM TÍTULO BEM CONDIZENTE COM OS PRENÚNCIOS PARA O ANO: "DIAS DE IRA"

Giuliano Gemma, cujo nome real era este mesmo, 
foi o grande mocinho à antiga  do western italiano. 

Interpretava o bom rapaz, na contramão de Franco Nero, Clint Eastwood, Anthony Steffen, George Hilton, Tony Anthony, Gianni Garko e outros que personificavam  anti-heróis, geralmente caça-prêmios (até Terence Hill, antes de se consagrar em clave humorística como Trinity, fazia o gênero soturno).

A diferenciação até que favoreceu Gemma, pois ele pôde se projetar como contraponto ao niilismo e amoralidade dos spaghetti westerns –cuja característica mais marcante era a desmistificação dos congêneres estadunidenses, colocando a feia realidade histórica no lugar das fantasias edificantes e do maniqueísmo forçado. 

Neles não existiam vaqueiros rigorosamente escanhoados e respeitadores das pudicas moçoilas em quaisquer circunstâncias, nem o primado da  lei & ordem, mas, tão somente, indivíduos selvagens, dispostos a tudo para atingirem seus objetivos.  

Sua carreira de coadjuvante vinha desde 1958, mas foi em Os filhos do trovão (1962) que Gemma começou a decolar. Atlético e bem apessoado, levava jeito para os épicos da Cinecittà (atuou em 12 deles). 

Quando já estava a um passo do estrelato, nova porta se abriu para ele: os bangue-bangues, ciclo iniciado por Sergio Leone em 1964, com Por um punhado de dólares.

Utilizando nos seus três primeiros bangue-bangues um pseudônimo americanizado (Montgomery Wood), Gemma encontrou o caminho do sucesso em 1965, como o astro dos também americanizados Uma pistola para Ringo e O dólar furado. Na esteira faria outros 15 westerns, além de passar sem destaque por outros gêneros.

No Brasil, seu maior êxito foi O dólar furado, que permaneceu uma eternidade em cartaz... mas estava longe de ser um grande filme. 

Talvez seu maior atrativo haja sido o par romântico (outra raridade no filão) formado por Gemma e Ida Galli, além da inesquecível canção principal, "Se tu non fossi bella como sei".

Bem melhor é o abaixo disponibilizado Dias de Ira (1967), de Tonino Valerii, aplicado discípulo de Sergio Leone –o mestre até lhe permitiria ser creditado como único diretor de Meu nome é Ninguém (1973), embora o tivessem dirigido a quatro mãos.

A história é de um órfão, Scott (Gemma), que foi criado por prostitutas e faz os piores trabalhos, como o de recolher os baldes de excrementos de porta em porta. O pistoleiro Talby (Lee Van Cleef) chega à cidade e simpatiza com ele, mas não a ponto de aceitá-lo como discípulo.

Decidido a mudar de vida, deixando ser espezinhado pelos cidadãos respeitáveis, Scott persevera e, após salvar a vida de Talby, é finalmente admitido como seu aprendiz.  

Depois de assumirem juntos o controle da cidade, Talby passa, contudo, a ver Scott como uma futura ameaça e resolve se livrar dele antes disto.

Scott, que não conhecera o pai biológico, havia adotado como figura paterna um velho homem da lei (Walter Rilla), mas transferira sua devoção a Talby. 

É tangido, contudo, ao  confronto mortal com o pai substituto, quando utiliza apropriadamente os 10 mandamentos de um pistoleiro que dele aprendera. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

JÁ LÁ SE VÃO 55 ANOS, MAS O MELHOR DE TODOS OS WESTERNS CONTINUA IMBATÍVEL!

A
ntes de anunciar o filme por mim considerado merecedor de tal distinção –e que está disponibilizado na janelinha abaixo–, vou fazer uma breve introdução.

O filão surgiu em 1903, com O grande roubo do trem (d. Edwin S. Porter), oito anos depois de os Irmãos Lumière terem exibido os 55 segundos do seu L'Arrivée d'un Train a La Ciotat, inventando o cinema.

Dos milhares e milhares de bangue-bangues lançados nestes 126 anos, qual pode ser considerado the best? É difícil dizer. Inexiste uma opção tão amplamente aceita quanto Cidadão Kane (d. Orson Welles, 1941) como o melhor filme de todos os tempos.

Os grandes westerns  puros, que fixaram a mitologia do gênero, foram No tempo das diligências (d. John Ford, 1939) e Os brutos também amam (d. George Stevens, 1953).

O western mais 
corajoso e digno é fácil de apontar: Matar ou morrer (d. Fred Zinnemann, 1952), uma parábola devastadora sobre o macartismo, realizada por alguns dos atores e técnicos que estavam sendo por ele perseguidos e cujo lançamento se deu no auge da caça às bruxas. 

É de arrepiar a cena em que o xerife (Gary Cooper) atira a estrela no chão e parte enojado da cidade que o tinha como ídolo, mas o abandonou no momento do perigo!

Os principais westerns outonais, retratando o fim desse período histórico e o crepúsculo das lendas por ele engendradas, devem ser creditados a Sam Peckinpah (Pistoleiros do entardecer, 1962; e Meu ódio será sua herança, 1969) e a Sergio Leone (Era uma vez o Oeste, 1968).

Finalmente, meu palpite como o melhor de todos os tempos é Três homens em conflito, de 1966, o extraordinário épico de Leone sobre três aventureiros (o bom Clint Eastwood, o mau Lee Van Cleef e o feio Eli Wallach) que caçam um tesouro em meio à Guerra da Secessão.

Foi, claramente, o divisor de águas na carreira de Sergio Leone, o momento em que ele mostrou ser muito mais do que o (brilhante) artesão que se evidenciara nos seus faroestes anteriores.

Em
 Por um Punhado de Dólares (1964) ele introduzira:
—a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
 
Depois, em Por Uns Dólares a Mais (1965), todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço dos antigos mocinhos.

Aí, finalmente, estava pronto para seu tour-de-force.
Três Homens em Conflito foi a fita em que Leone definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito. 

É um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques subjacentes.

E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com algumas das sequências mais comoventes que o cinema já apresentou:
—  oficial bêbado sem coragem para, descumprindo as ordens recebidas, destruir a ponte;
— a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura;
— o jovem soldado agonizante a quem o Estranho Sem Nome dá seu charuto.

O duelo triangular no centro do cemitério é o mais artístico e climático que o cinema já apresentou e tem a valorizá-lo mais um tema emocionante de Ennio Morricone. Foi citado (ou seria melhor dizer copiado?) por Quentin Tarantino em Kill Bill.

Leva quase três horas e vale cada segundo. Um arraso! (por Celso Lungaretti)

domingo, 19 de dezembro de 2021

ERA O QUE TODOS AGUARDÁVAMOS NOS ANOS DE CHUMBO: O DIA DA DESFORRA!

O
dia da desforra é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida em que sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes.

Seu diretor, Sergio Sollima, começara como crítico de cinema, entrara na indústria cinematográfica como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Como único diretor, O dia da desforra (1966) foi seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Correu mundo e foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 

Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o faroeste Quando os brutos se defrontam (1967), que também faz parte deste festival, e o policial Cidade Violenta (1970), com um Charles Bronson que se havia tornado astro na Europa.

Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia fazer coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação que teve em O dia da desforra.   
Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). 

Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian), um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez, depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), havia se tornado um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.

Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. Brokston se propunha uma apoiar a candidatura de Corbett a senador, para obter, como reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.
A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado tão na mosca, embora seu trabalho seguinte, Quando os brutos se defrontam não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o que deixei antever no primeiro parágrafo: Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então tive de sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.
Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só dispunha de meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase em frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti)  
Menos mal que os leitores podem ir para o Youtube e ver lá o filme, mas ponho
em dúvida esta nova cláusula: parece-me que a restrição tem mesmo a ver é
com mensagem revolucionária, pois hoje ele jamais seria proibido até 18 anos.  
.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

LEMBRANDO GIULIANO GEMMA, 'MOCINHO' AMERICANIZADO DOS WESTERNS ITALIANOS.

Mea culpa: deixei passar em branco o quinto aniversário da morte do ator italiano Giuliano Gemma, falecido em outubro de 2013. Tinha 75 anos e foi vítima de um acidente rodoviário.

Mas, ainda que com um indesculpável atraso, aí vai um pequeno tributo.

Giuliano Gemma, cujo nome real era mesmo este, foi o grande mocinho à antiga  do western italiano. 

Interpretava o bom rapaz, na contramão de Franco Nero, Clint Eastwood, Anthony Steffen, George Hilton, Tony Anthony, Gianni Garko e outros que personificavam  anti-heróis, geralmente caça-prêmios (até Terence Hill, antes de se consagrar em clave humorística como Trinity, fazia o gênero soturno).

A diferenciação até que o favoreceu, pois Gemma pôde se projetar como contraponto ao niilismo e amoralidade dos spaghetti-westerns –cuja característica mais marcante era a desmistificação dos congêneres estadunidenses, colocando a feia realidade histórica no lugar das fantasias edificantes e do maniqueísmo forçado. 

Neles não existiam vaqueiros rigorosamente escanhoados e respeitadores das pudicas moçoilas em quaisquer circunstâncias, nem o primado da  lei & ordem, mas, tão somente, indivíduos selvagens, dispostos a tudo para atingirem seus objetivos.  
O professor e o aprendiz: 10 lições para tornar-se pistoleiro
Sua carreira de coadjuvante vinha desde 1958, mas foi em Os filhos do trovão (1962) que Gemma começou a decolar. Atlético e bem apessoado, levava jeito para os épicos da Cinecittà. Após outros cinco, a um passo do estrelato, nova porta se abriu para ele: os bangue-bangues, ciclo iniciado por Sergio Leone em 1964, com Por um punhado de dólares.

Utilizando nos seus três primeiros bangue-bangues um pseudônimo americanizado (Montgomery Wood), Gemma encontrou o caminho do sucesso no ano seguinte, como o astro dos também americanizados Uma pistola para Ringo e O dólar furado. Na esteira faria outros 15 westerns, além de passar sem destaque por outros gêneros.

No Brasil, seu maior êxito foi O dólar furado, que permaneceu uma eternidade em cartaz... mas estava longe de ser um grande filme. Talvez o atrativo maior tenha sido o par romântico (outra raridade no filão) formado por Gemma e Ida Galli, além da inesquecível canção principal, "Se tu non fossi bella como sei".

Bem melhor é o abaixo disponibilizado Dias de Ira (1967), de Tonino Valerii, aplicado discípulo de Sergio Leone –o mestre até lhe permitiria ser creditado como único diretor de Meu nome é Ninguém (1973), embora o tivessem dirigido a quatro mãos.
A canção principal fez razoável sucesso avulso, cantada por Fred Bongusto
.
A história é de um órfão, Scott (Gemma), que foi criado por prostitutas e faz os piores trabalhos, como o de recolher os baldes de excrementos de porta em porta. O pistoleiro Talby (Lee Van Cleef) chega à cidade e simpatiza com ele, mas não a ponto de aceitá-lo como discípulo.

Scott persevera e, após salvar a vida de Talby, é finalmente admitido como seu aprendiz. Depois de assumirem juntos o controle da cidade, Talby passa a encarar Scott como uma ameaça e tenta se livrar dele. 

Scott, que não conhecera o pai biológico, havia adotado como figura paterna um velho homem da lei (Walter Rilla), mas transferira sua devoção a Talby. É tangido, contudo, ao  confronto mortal com o pai substituto, quando utiliza apropriadamente as lições que dele recebera.  
A qualidade da cópia aqui oferecida está acima da média. Aproveitem!  

sábado, 22 de dezembro de 2018

O GRANDE MESTRE DO WESTERN ITALIANO E O FILME EM QUE ELE DEU DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA: "POR UNS DÓLARES A MAIS".

Eastwood e Van Cleef: primeira dupla de anti-heróis de Leone
Um filmaço está novamente disponível no Youtube, mas não se sabe até quando. Quem aproveitar este período de férias para vê-lo ou revê-lo, não se arrependerá.

Trata-se de Por uns dólares a mais (1965), o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele lançara o gênero western italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Volonté depois se destacaria em papéis políticos

Depois, em Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrer, Honra a um homem mau, Sem lei e sem alma, O homem dos olhos frios, Estigma da crueldade e O homem que matou o facínora.

Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito. 
Mesmo como coadjuvante, Klaus Kinski chamava a atenção
[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). Só que a motivação não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha.
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