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domingo, 4 de dezembro de 2022

ENQUANTO ESPERAMOS NOSSO DIA DA DESFORRA, QUE TAL UM APERITIVO?

 
O dia da desforra, que andou sumido do Youtube mas está novamente disponibilizado, é um filme que sempre me faz recordar o momento decisivo da minha vida, quando sai do lar familiar para correr mundo, correr perigo, conforme a canção do Caetano Veloso. E se trata de um dos melhores westerns revolucionários italianos daqueles anos rebeldes.

Seu diretor, Sergio Sollima, havia começado como crítico de cinema, entrara na indústria cinematográfica como roteirista e assistente da direção e só aos 30 anos teve sua primeira chance dirigindo (ainda assim, apenas um dos segmentos de uma comédia erótica). 

Como único diretor, O dia da desforra (1966) foi seu quarto filme e o primeiro realmente bem-sucedido. Correu mundo e foi tão apreciado que até uma sequência teve, Corre, homem, corre (1968), a qual, contudo, não chegou a empolgar. 

Também graças ao prestígio adquirido, Sollima ainda dirigiu outros dois filmes mais ambiciosos, o ótimo faroeste Quando os brutos se defrontam (1967) e o policial Cidade Violenta (1970).   
Depois Sollima voltou ao ramerrão, deixando a impressão que poderia fazer coisas melhores se lhe dessem os recursos e a liberdade de ação que teve em O dia da desforra.

Ignoro o quanto do conteúdo revolucionário deste filme se deve a ele e quanto ao co-roteirista Sergio Donati, que colaborou com o grande Sergio Leone em duas de suas obras-primas, Era uma vez no Oeste (1968) e Quando explode a vingança (1971). 

Pelos trabalhos desenvolvidos por ambos como roteiristas, percebe-se que Donati estava mais familiarizado com enfoques politizados.

Cuchillo Sanchez (Tomas Milian) havia sido um dos camponeses despertados para as lutas sociais por Benito Juárez. Depois que a revolução não vingou naquele momento (meados do século 19), tornara-se um bandido de pequenas contravenções e pouca importância, até ser acusado do estupro e assassinato de uma menina de 12 anos.
Jonathan Corbett (Lee Van Cleef), ex-xerife e depois caça-prêmios, é pressionado pelo ricaço Brokston a sair no seu encalço, inclusive porque capturar o autor de crimes tão repulsivos lhe aumentaria o prestigio. Brokston se propunha uma apoiar a candidatura de Corbett a senador, para obter, como reciprocidade, apoio ao seu projeto de implantação de uma ferrovia entre EUA e México.

A perseguição se alonga porque Cuchillo é hábil e astuto. E coisas surpreendentes acabam vindo à tona, principalmente sobre o quanto os acontecimentos estavam sendo influenciados pela gritante desigualdade social no México, o que conduz a um desfecho que se dá, realmente, num grande tiroteio, conforme o título que o filme recebeu nos EUA.

Os dois atores principais estão perfeitos nos seus papéis, a trilha sonora de Ennio Morricone é simplesmente um arraso e o filme vale cada fotograma. Pena que Sollima (falecido em 2015, aos 94 anos) nunca mais tenha acertado tão na mosca, embora seu trabalho seguinte, Quando os brutos se defrontam não haja ficado muito atrás. 

Por último, explico o que deixei antever no primeiro parágrafo: Em fins de fevereiro de 1969, prestes a ingressar na VPR, fui surpreendido com a 
queda de um companheiro que conhecia meu nome real e tinha como indicar à Oban meu endereço, então tive de sair às pressas de casa em plena madrugada para me colocar a salvo.

Com pouco dinheiro, passei uns 10 dias precariamente hospedado num hotel barato do centro velho de São Paulo, à espera do ponto que teria com o dirigente da VPR incumbido dos trâmites de integração do nosso grupo de oito secundaristas àquela organização.

Como a VPR atravessava um período tumultuado, de crise interna e prisões, só me restava aguardar pacientemente o encontro que havia sido marcado com intervalo bem maior do que o costumeiro.  

Sem saber como seria a nova etapa que me aguardava e apreensivo com a possibilidade de minha identidade já ter caído (eu só dispunha de meus documentos autênticos), fui duas vezes ao pulgueiro que ficava quase em frente do hotel e exibia... O dia da desforra.

Por falta de coisa melhor para fazer, em ambas permaneci por várias sessões seguidas, ora assistindo ao filme, ora mergulhado em reflexões. Ficou, assim, nas minhas lembranças como marco do exato momento em que minha vida mudou para sempre. (por Celso Lungaretti

sábado, 15 de janeiro de 2022

SEM AS PALHAÇADAS DE TERENCE HILL, "MEU NOME É NINGUÉM" TERIA SIDO UM IRMÃO MENOR DE "ERA UMA VEZ NO OESTE"

Foi como se o Trinity estivesse invadindo o set de Era uma vez no Oeste...
M
eu nome é ninguém (1973) é o filme de encerramento do Festival do Western Italiano que este blog realiza há exato um mês, ao longo do qual apresentou aos leitores 12 dos títulos mais expressivos dessa variante alternativa aos bangue-bangues estadunidenses – a qual superou tão acentuadamente a matriz original que Hollywood foi obrigada a curvar-se à Cinecittà, trocando o maniqueísmo rançoso de seus faroestes por uma visão mais realista e amarga do tempo das diligências...

Foi idealizado, produzido e dirigido pelo grande Sergio Leone, que preferiu, contudo, transferir a seu assistente Tonino Valerii o crédito de diretor.

Por quê? Tenho cá pra mim que ele não quis quebrar a sequência evolutiva de sua obra. Começara dirigindo épicos da Antiguidade (Os últimos dias de Pompéia –também não creditado–, 1959; e O colosso de Rodes, 1961), inventara o bangue-bangue à italiana ao transferir para o velho Oeste uma saga de samurais (Por um punhado de dólares, 1964) e foi realizando filmes cada vez mais ambiciosos:
...e desviando as atenções do lendário
Henry Fonda, já no ocaso da carreira 
Por uns dólares a mais (1965), em que uma busca de vingança assume contornos grandiosos;
— Três homens em conflito (1966), perfeito como filme de ação e extraordinário como líbelo contra a guerra;
— Era uma vez o Oeste (1968), um bangue-bangue nostálgico e filosófico, que contrapõe lendas e realidade, desmistificando fábulas românticas consagradas, ao mesmo tempo em que presta tributo a essas belas fantasias; e
— Quando explode a vingança (1971), tudo que ele queria dizer sobre as revoluções, sem prejuízo da ação propriamente dita, magnífica!

O passo seguinte seria Era uma vez a América (1984), monumento cinematográfico que mereceria ser reconhecido como uma das maiores obras-primas da sétima arte em todos os tempos.

Enquanto acumulava forças e reunia recursos para seu projeto mais caro e ousado, que tal ganhar um dinheirinho surfando na onda do sucesso de Terence Hill em clave cômica? [Este ator começara seguindo as pegadas de Franco Nero como mocinho sinistro, mas não convencia e acabou descobrindo sua real vocação ao estrelar o acomediado Chamam-me Trinity (d. Enzo Barboni, 1970).]

Ou, talvez, Leone simplesmente não tenha querido colocar sua assinatura num filme que tem grandes momentos mas, também, evidentes concessões comerciais. 

Isto porque Meu nome é ninguém combina o melhor do Leone (novamente a discussão sobre como se engendravam as lendas, a belíssima trilha musical –desta vez com inspiração wagneriana de Ennio Morricone e a dignidade que Henry Fonda confere ao seu personagem) com o pior do Terence Hill (as sequências típicas de comédia de pastelão, cuja ausência seus fãs jamais perdoariam...

A história é a de um jovem desconhecido mas muito hábil no gatilho (Hill), que importuna uma lenda viva do Oeste (Fonda), tentando por todos os meios forçá-lo a, antes de aposentar-se, inscrever seu nome definitivamente na História: quer que ele enfrente sozinho um verdadeiro exército de malfeitores.
Em termos qualitativos, o desperdício de tempo com as canastrices  de Hill coloca o filme mais ou menos no patamar de 
Por um punhado de dólares; sem elas, seria uma espécie de irmão menor de Era uma vez o Oeste

Mesmo assim, por seu ótimo ponto de partida e por algumas sequências inesquecíveis, merece ser visto.

Leone repetiria a dose com Trinity e seus companheiros (1975), usando Damiano Damiani como testa-de-ferro. 

Só que exagerou na dose, pois se trata de um filme vazio e indefensável, pior do que qualquer western dirigido por Leone ou pelo próprio Damiani (cujo Uma bala para o general, de 1966,  fora outra das inspiradas incursões da Cinecittà pela revolução mexicana). 

Felizmente, não houve uma terceira associação com Terence Hill, um ator simpático e carismático, mas que se projetou num contexto de decadência e descaracterização do gênero, acabando por as simbolizar. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

DEPOIS DE INVENTAR O WESTERN ITALIANO, SERGIO LEONE PRECISAVA DEMONSTRAR SEU TALENTO PARA VOOS MAIORES. CONSEGUIU!

P
or uns dólares a mais (1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele inventara o faroeste italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em 
Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, no lugar de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrerHonra a um homem mauSem lei e sem almaO homem dos olhos friosEstigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu 
toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito

[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em 
Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). 

Só que a motivação de um deles não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

AMBIENTADO EM MONTANHAS GELADAS, ESTE FAROESTE EVOCA MASSACRES QUE OS ESTADOS UNIDOS PREFERIAM ESQUECER

Trintignant: um bom ator francês num papel inadequado 
O
vingador silencioso é um western algo errático que Sergio Corbucci co-roteirizou e dirigiu em 1968, com a ação transcorrendo toda em meio à neve e ao frio das montanhas do Utah. 

Traz um dos anti-heróis mais implausíveis de todo o filão: o franzino e nada ameaçador Jean-Louis Trintignant como uma vítima de bandidos (os quais, quando ele era criança, executaram seus pais e lhe cortaram a garganta, tornando-o mudo). 

Adulto, ele se vinga ganhando a vida como caça-prêmios: mil dólares por contrato, para matar ou atirar em ambas as mãos  de malfeitores, de acordo com a gravidade dos seus crimes. [O personagem, Silenzio, na minha opinião, só se equipara ao Aquiles de Brad Pitt em Tróia (d. Wolfgang Peterson, 2004) na categoria de maior inadequação do ator ao seu papel, em termos de physique du rôle...] 

O enredo é convencional e, previsivelmente, o carismático Klaus Kinski rouba a cena, como um bandido desalmado, cínico e manipulador.
Klaus Kinski roubou a cena

O que mais impressiona no filme, contudo, é o seu tom sombrio e pessimista: as paisagens são desoladas e o mal prevalece em toda a linha, como se fosse uma inversão do maniqueísmo tradicional dos faroestes estadunidenses.

Ainda assim, eu nem o inseriria neste festival se não fosse  o mérito de ter chamado a atenção para um dos capítulos mais emblemáticos das injustiças e desigualdades estadunidenses: a chamada Guerra do Condado de Johnson, até então apenas vagamente mencionada nos filmes sobre Billy the Kid, como um acontecimento do seu passado. 

Os massacres finais de O Vingador Silencioso e do posterior O Portal do Paraíso (d. Michael Cimino, 1980) inspiraram-se em matanças ocorridas no curso de tal Guerra, que teve lugar no Wyoming, entre 1889 e 1893.

Os extermínios foram consequência da formação de uma associação, a WSGA, que contratou pistoleiros para perseguir (supostamente como ladrões de gado) os pequenos produtores que estavam ameaçando o monopólio dos grandes pecuaristas nela reunidos.

As vítimas de tal violência reagiram criando uma milícia, obviamente com poder de fogo inferior,  e as matanças se sucederam: mais de cem pessoas foram assassinadas até a intervenção apaziguadora de tropas federais. (por Celso Lungaretti)
 

sábado, 8 de janeiro de 2022

COMO É FORMADO UM LÍDER INSENSÍVEL E OPORTUNISTA? ESTE WESTERN EXPLICA.

O melhor filme a estrear no blog neste Festival do Western Italiano é, sem dúvida, Quando os brutos se defrontam (1967), o trabalho seguinte do diretor Sergio Sollima após a culminância de sua carreira, O dia da desforra (1966).

A distância qualitativa entre ambos e o restante da filmografia de Sollima sempre me fez suspeitar de que o milagre se deveu ao roteirista Sergio Donati, pois este várias vezes embutiu discussões políticas nos seus trabalhos, enquanto o xará diretor só o fez exatamente nessas duas vezes.

Vale ressalvar que mesmo a direção em si melhorou muito nessas ocasiões, mas nada de Sollima se compara, em termo de subtexto político, com a o diálogo entre o professor Brett Fletcher (Gian Maria Volonté) e o infiltrado da agência de detetives Pinkerton por ele desmascarado, quando este lhe atira isto na cara: "Civilizado entre os civilizados, selvagem entre os selvagens, você é um perfeito parasita: adapta-se a qualquer ambiente e a todos manipula para atingir seus fins".  

De novo é uma alusão ao Partido Comunista Italiano, que estava sendo muito questionado à medida que sua aura heroica dos tempos da resistência ao fascismo se tornava uma lembrança distante e a emergência de uma nova geração de esquerda, muito mais combativa, ia deslocando o PCI cada vez mais para a direita. 

Crítica ainda mais explicita à descaracterização dos velhos comunistas é feita em Quando Explode a Vingança, do Sergio Leone, que teve Donati como um dos roteiristas. Coincidência? 

Mas, estou colocando o carro na frente dos bois: vamos à história.

Brett Fletcher, um professor de Boston, na tentativa de curar-se de tuberculose vai para o clima quente do Texas, onde é tomado como refém pelo bandido Beauregard Bennet (Tomas Milian) quando este foge de sua escolta. 

A intenção inicial de Bennet é matar Fletcher ao pôr-se a salvo, mas, ferido, desmaia e o professor cuida dele. Restabelecido, o bandido convence o professor a pegar uma diligência e voltar à civilização, mas novamente é ajudado por ele num momento de perigo e, em débito, acaba aceitando-o na sua quadrilha,

A partir daí, os dois vão se transformando por força dessa convivência: Fletcher aprende a sobreviver entre os rústicos e, em seguida, a liderá-los, enquanto Bennet tem sua humanidade aos poucos despertada. 

O novo Fletcher, contudo, não tem compaixão nem espírito de solidariedade para com os perseguidos e faz recrutamentos numa cidade de foragidos cuja existência dependia de seus moradores não voltarem a delinquir. Ao quebrar tal regra, ele os condena a serem massacrados.

Já Bennet acaba sendo preso por (o que nunca faria antes) descuidar-se ao socorrer um menino mexicano atingido no fogo cruzado de um tiroteio do seu bando com a Pinkerton.

O final é  surpreendente, com o acerto de contas entre Bennet, Fletcher e o agente principal da Pinkerton, Charles Siringo (William Berger). 

Siringo, por sinal, existiu mesmo e, talvez por ter escrito vários livros baseados em sua atuação na Pinkerton, acabou ficando com a fama de haver sido o primeiro grande detetive dos EUA. Mas, no período em que transcorre a ação do filme, o da Guerra da Secessão, ele não passava de um menino. Sua participação nesta história foi só uma liberdade poética dos realizadores... (por Celso Lungaretti)  
Desconsidere o alerta que às vezes aparece, sobre uma versão mais
completa deste filme: ela já foi retirada do Youtube. Mostrava a última
aula do professor Fletcher e sua despedida do colégio de Boston 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O ESTRANHO CASO DO WESTERN ITALIANO QUE NÃO FOI UM GRANDE FILME, MAS EXERCEU ENORME INFLUÊNCIA.

Sergio Leone inventou o western italiano com Por um Punhado de Dólares (1964), definindo suas linhas mestras ao contrapor ao moralismo maniqueísta dos bangue-bangues estadunidenses um universo primitivo, carente de quaisquer valores que não fossem a luta pela sobrevivência e a defesa de interesses pessoais por todos os meios, em que o Bem não existia e os maus só se diferenciavam entre si por os piores atuarem em bandos e os menos piores (os anti-heróis) se virarem sozinhos graças às suas habilidades  superiores, principalmente no manejo das armas.

No sétimo dia o deus Leone descansou e o serafim Sergio Corbucci completou a criação, dando a tal universo um visual mais compatível, truculento, sombrio, sujo e enlameado, no qual os únicos poderes são:
— uma gangue que se identifica por suas echarpes e capuzes vermelhos, remanescente dos confederados vencidos na Guerra da Secessão, mas associada pelos signos visuais a sociedades ultradireitistas que viriam bem depois, como a Ku Klux Khan e a Tradição, Família e Propriedade (*); e
— um pequeno contingente de mexicanos que tenta obter recursos e armas para sua participação nas atividades revolucionárias .
A esse grotão decadente chega Django (Franco Nero), um soturno ex-soldado da União, a pé, carregando sua sela e arrastando um caixão, para logo envolver-se casualmente com os litigantes. Primeiro, vê três mexicanos chicoteando uma mulher loura por ela haver tentado fugir do grupo, que presumivelmente a aprisionara e a mantinha como concubina compulsória do líder (José Bordálo). 

Eles são baleados de surpresa por cinco echarpes vermelhas, que pretendem crucificá-la por sua promiscuidade com os inimigos, mas aí Django intervém, trava com eles rápido diálogo e, também sem aviso, não lhes dando a menor chance de reação, mata os cinco com disparos rápidos.

Assim, como se fosse um cavaleiro andante da Idade Média, o impulso de salvar aquela (não) donzela o coloca imediatamente no meio da disputa de poder que lá se trava, dando início à série de acontecimentos que protagonizará meio ao acaso, pois tinha ido lá apenas para fazer negócios com os mexicanos, não para envolver-se na briga deles. 

E isto com uma dose de violência  chocante para a época (hoje o filme passaria em qualquer sessão da tarde) e dois duelos icônicos com os echarpes vermelhas do major Jackson (Eduardo Fajardo), o primeiro na rua central da cidade e o final no cemitério.

Apesar do roteiro tosco e dos diálogos pueris
, foi um filme tão bizarro e impactante para a época que inspiraria fortemente boa parte dos spaghetti westerns vindouros. 

Afora ter gerado uma infinidade de fitas "B" com anti-heróis também chamados Django, mas sem ligação com a equipe do filme inicial e tendo outros atores no papel principal. 

Franco Nero só retomaria o personagem no outonal e meramente mediano Django – a volta do vingador (d. Nello Rossati, 1987).  

Até Quentin Tarantino quis imitar o filme de Corbucci, mas seu Django livre (2012) não tem sequer a desculpa de estar abrindo uma novo caminho: apenas fechou o ciclo da decadência de um cineasta menor, imerecidamente endeusado e que já deveria ter-se despedido da câmara após perpetrar o pastiche histórico Bastardos inglórios (2009), como um garotinho mimado brincando de dar a Hitler a punição que não recebeu da História.  (por Celso Lungaretti)    
o que  não seria de estranhar-se no cinema italiano, pois, p. ex., o delegado interpretado por Gian-Maria Volonté em Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (d. Elio Petri, 1970) tinha evidentes pontos de contato com fatos da vida do celerado tocaieiro do comandante Marighella, Sérgio Paranhos Fleury.

sábado, 1 de janeiro de 2022

O PRIMEIRO "FILME PARA VER NO BLOG" DE 2022 TEM UM TÍTULO BEM CONDIZENTE COM OS PRENÚNCIOS PARA O ANO: "DIAS DE IRA"

Giuliano Gemma, cujo nome real era este mesmo, 
foi o grande mocinho à antiga  do western italiano. 

Interpretava o bom rapaz, na contramão de Franco Nero, Clint Eastwood, Anthony Steffen, George Hilton, Tony Anthony, Gianni Garko e outros que personificavam  anti-heróis, geralmente caça-prêmios (até Terence Hill, antes de se consagrar em clave humorística como Trinity, fazia o gênero soturno).

A diferenciação até que favoreceu Gemma, pois ele pôde se projetar como contraponto ao niilismo e amoralidade dos spaghetti westerns –cuja característica mais marcante era a desmistificação dos congêneres estadunidenses, colocando a feia realidade histórica no lugar das fantasias edificantes e do maniqueísmo forçado. 

Neles não existiam vaqueiros rigorosamente escanhoados e respeitadores das pudicas moçoilas em quaisquer circunstâncias, nem o primado da  lei & ordem, mas, tão somente, indivíduos selvagens, dispostos a tudo para atingirem seus objetivos.  

Sua carreira de coadjuvante vinha desde 1958, mas foi em Os filhos do trovão (1962) que Gemma começou a decolar. Atlético e bem apessoado, levava jeito para os épicos da Cinecittà (atuou em 12 deles). 

Quando já estava a um passo do estrelato, nova porta se abriu para ele: os bangue-bangues, ciclo iniciado por Sergio Leone em 1964, com Por um punhado de dólares.

Utilizando nos seus três primeiros bangue-bangues um pseudônimo americanizado (Montgomery Wood), Gemma encontrou o caminho do sucesso em 1965, como o astro dos também americanizados Uma pistola para Ringo e O dólar furado. Na esteira faria outros 15 westerns, além de passar sem destaque por outros gêneros.

No Brasil, seu maior êxito foi O dólar furado, que permaneceu uma eternidade em cartaz... mas estava longe de ser um grande filme. 

Talvez seu maior atrativo haja sido o par romântico (outra raridade no filão) formado por Gemma e Ida Galli, além da inesquecível canção principal, "Se tu non fossi bella como sei".

Bem melhor é o abaixo disponibilizado Dias de Ira (1967), de Tonino Valerii, aplicado discípulo de Sergio Leone –o mestre até lhe permitiria ser creditado como único diretor de Meu nome é Ninguém (1973), embora o tivessem dirigido a quatro mãos.

A história é de um órfão, Scott (Gemma), que foi criado por prostitutas e faz os piores trabalhos, como o de recolher os baldes de excrementos de porta em porta. O pistoleiro Talby (Lee Van Cleef) chega à cidade e simpatiza com ele, mas não a ponto de aceitá-lo como discípulo.

Decidido a mudar de vida, deixando ser espezinhado pelos cidadãos respeitáveis, Scott persevera e, após salvar a vida de Talby, é finalmente admitido como seu aprendiz.  

Depois de assumirem juntos o controle da cidade, Talby passa, contudo, a ver Scott como uma futura ameaça e resolve se livrar dele antes disto.

Scott, que não conhecera o pai biológico, havia adotado como figura paterna um velho homem da lei (Walter Rilla), mas transferira sua devoção a Talby. 

É tangido, contudo, ao  confronto mortal com o pai substituto, quando utiliza apropriadamente os 10 mandamentos de um pistoleiro que dele aprendera(por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

JÁ LÁ SE VÃO 55 ANOS, MAS O MELHOR DE TODOS OS WESTERNS CONTINUA IMBATÍVEL!

A
ntes de anunciar o filme por mim considerado merecedor de tal distinção –e que está disponibilizado na janelinha abaixo–, vou fazer uma breve introdução.

O filão surgiu em 1903, com O grande roubo do trem (d. Edwin S. Porter), oito anos depois de os Irmãos Lumière terem exibido os 55 segundos do seu L'Arrivée d'un Train a La Ciotat, inventando o cinema.

Dos milhares e milhares de bangue-bangues lançados nestes 126 anos, qual pode ser considerado the best? É difícil dizer. Inexiste uma opção tão amplamente aceita quanto Cidadão Kane (d. Orson Welles, 1941) como o melhor filme de todos os tempos.

Os grandes westerns  puros, que fixaram a mitologia do gênero, foram No tempo das diligências (d. John Ford, 1939) e Os brutos também amam (d. George Stevens, 1953).

O western mais 
corajoso e digno é fácil de apontar: Matar ou morrer (d. Fred Zinnemann, 1952), uma parábola devastadora sobre o macartismo, realizada por alguns dos atores e técnicos que estavam sendo por ele perseguidos e cujo lançamento se deu no auge da caça às bruxas

É de arrepiar a cena em que o xerife (Gary Cooper) atira a estrela no chão e parte enojado da cidade que o tinha como ídolo, mas o abandonou no momento do perigo!

Os principais westerns outonais, retratando o fim desse período histórico e o crepúsculo das lendas por ele engendradas, devem ser creditados a Sam Peckinpah (Pistoleiros do entardecer, 1962; e Meu ódio será sua herança, 1969) e a Sergio Leone (Era uma vez o Oeste, 1968).

Finalmente, meu palpite como o melhor de todos os tempos é Três homens em conflito, de 1966, o extraordinário épico de Leone sobre três aventureiros (o bom Clint Eastwood, o mau Lee Van Cleef e o feio Eli Wallach) que caçam um tesouro em meio à Guerra da Secessão.

Foi, claramente, o divisor de águas na carreira de Sergio Leone, o momento em que ele mostrou ser muito mais do que o (brilhante) artesão que se evidenciara nos seus faroestes anteriores.

Em
 Por um Punhado de Dólares (1964) ele introduzira:
a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
 
Depois, em Por Uns Dólares a Mais (1965), todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço dos antigos mocinhos.

Aí, finalmente, estava pronto para seu tour-de-force.
Três Homens em Conflito foi a fita em que Leone definiu e afirmou seu estilo, embutindo no cinema de ação discussões mais profundas, sem prejuízo do entretenimento propriamente dito. 

É um tipo de obra em camadas. De acordo com sua sensibilidade, o espectador pode se divertir apenas com o básico ou captar os muitos toques subjacentes.

E é grandiosa a crítica que Leone fez ao belicismo, com algumas das sequências mais comoventes que o cinema já apresentou:
—  oficial bêbado sem coragem para, descumprindo as ordens recebidas, destruir a ponte;
— a orquestra do campo de prisioneiros tocando para abafar os ruídos da tortura;
— o jovem soldado agonizante a quem o Estranho Sem Nome dá seu charuto.

O duelo triangular no centro do cemitério é o mais artístico e climático que o cinema já apresentou e tem a valorizá-lo mais um tema emocionante de Ennio Morricone. Foi citado (ou seria melhor dizer copiado?) por Quentin Tarantino em Kill Bill.

Leva quase três horas e vale cada segundo. Um arraso! (por Celso Lungaretti)
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