Sou fiel ao primeiro autor a me estimular o espírito crítico, que fez uma obra grandiosa e, last but not least,
confrontou corajosamente os poderosos do seu tempo; não aos aprendizes
de inquisidores que pensam ser de esquerda ao tentarem nos impor index.
Enfim,
apeteceu-me enfocar o tênis, apenas e tão somente porque Roger Federer
tem no torneio de Wimbledon uma chance única, imperdível, de fechar sua
trajetória com um canto do cisne magnífico.
Afora
o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como
o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei
com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no
automobilismo e no tênis.
Refletindo um pouco sobre
essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo
diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em
que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole
inacessível aos comuns mortais.
No boxe, todos lembram a
técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do
que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os
papéis de pugilista e de técnico.
Foi assim que ele
venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos.
Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que
jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força
descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.
Então,
adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida
diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar
encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua
guarda.
Alguns obuses atingiam o alvo de raspão,
outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E
Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.
No
quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia,
mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com
um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.
Depois
de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali
novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja
rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva,
metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara
lenta no ringue.
A coragem que deu a vitória a Ali
nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na
qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.
O
castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória
consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam)
durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera
em pé.
No xadrez também a pressão moral que um
campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas
combinações enquanto o relógio o acossa.
É
simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha
aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1
contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem
cometer falha nenhuma.
Forçou
empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas
vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido
anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco
importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar
tal total).
O socorro suspeito do presidente filipino
da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no
tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de
passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista
superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.
No
automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1
por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o
arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente
necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca
de pneus, nas vezes em que isto bastava).
E Federer?
Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em
todos os fundamentos, ele já foi capaz de reerguer-se uma vez depois que
derrubado do pedestal por Rafael Nadal e ameaça repetir o feito agora.
Acostumado ao predomínio
absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante
alguns meses, no segundo semestre de 2008.
Mas,
nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e
encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de
retomar sua coroa.
Para sua surpresa, acabou sendo bem
mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a
natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era
capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a
inspiração de Federer.
O preço acabou sendo alto:
depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no
joelho.
E
Federer, que sempre mantivera o sacrifício exigido de seus músculos no
limite do razoável, voltou ao topo por uns tempos.
Os
jovens contra-atacaram: não só Nadal o desalojou de novo, como Novak
Djokovic veio numa arrancada fulminante e superou a ambos. Federer
chegou até mesmo a ceder a terceira posição no ranking, esporadicamente,
a Andy Murray.
Não ganha um torneio de grand slam (os
quatro principais do tênis: Wimbledon, Rolland Garros, Aberto da
Austrália, US Open) desde o início de 2010.
Rico,
respeitado e aclamado, feliz no casamento, de bem com a vida, pai coruja de duas
gêmeas, tudo levava a crer que se curvaria à
evidência dos fatos, pendurando a raquete como o maior de todos os
tempos.
Mas, perseverou. E não como coadjuvante, o
papel que Schumacher vem desempenhando estoicamente desde sua volta às
pistas. Reciclou seu jogo, aperfeiçoou alguns golpes, melhorou as
estratégias.
Foi buscar novas armas, já que as antigas tinham sido
alcançadas pelos rivais. Seu saque, p. ex., agora é muito mais poderoso,
abrindo caminho para vitórias rápidas contra os adversários mais fracos
--dada a importância, no caso de um veterano, de guardar energias para
enfrentar os mais fortes.
Então, desde o semestre
passado, ele vem pouco a pouco se reaproximando do topo, armando o bote.
E, agora, pode conseguir este feito que parecia impossível para um
tenista
com mais de 30 (vai completar 31 anos em
agosto), dependendo de sua colocação e da de Djokovic no torneio de
Wimbledon, em curso; se for campeão, p. ex., ele voltará ao topo do
ranking, além de igualar o recorde de mais semanas de permanência como o
nº 1.
* * *
Como todo ser humano, admiro
quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite
extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios
enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e
Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas,
nas batalhas da vida.
E tenho, confesso, uma
satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos
os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem
maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de
relevante no presente que vivemos.
Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.
Mas,
em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter
visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três
primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do
quarto, no panteão dos deuses do esporte.