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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

UM DOS CLÁSSICOS DO CINEMA INDIANO, O JOGADOR DE XADREZ É O RETRATO FIEL DE QUANDO A ELITE SE TORNA ALHEIA À PRÓPRIA REALIDADE

 


Satyajit Ray não é muito conhecido entre o público brasileiro, mas produziu algumas das maiores obras cinematográficas do século XX. Este cineasta indiano conseguiu captar não apenas a alma de seu país, mas também tocar temas universais. 

Este é o caso de O Jogador de Xadrez (Shatranj Ke Khilari), também traduzido por Os Jogadores do Fracasso, de 1977. A película aborda os acontecimentos anteriores à derrubada de Wajid Ali Shah, rei do território indiano de Nawab de Oudh, pelas forças inglesas ocupantes. 

A história possui três focos intrecruzados. Enquanto acompanhamos o cotidiano de dois membros da aristocracia local, Mirza Sajjad Ali e Mir Roshan Ali, vemos o desenrolar da trama britânica para depor o rei e tomar por completo o controle do governo local. Por sua vez, o rei, mais interessado em compor poesias e músicas, pouco tem a fazer diante da força avassaladora do Império

Satyajit Ray, um dos mais importantes
cineastas do século passado
Mirza e Mir seguem uma vida cômoda, graças ao fato de seus antepassados terem lutado em importantes guerras e conquistado, por graça real, terras e pensões. Contudo, ao contrário de seus ascendentes, os dois nobres não se interessam mais por lutas e combates reais, preferindo gastar toda sua energia em batalhas de Xadrez

Praticamente todo o tempo de seus dias é gasto em jogos intermináveis, a ponto de até mesmo negligenciarem o convívio com suas esposas. Sequer a notícia da possível ação inglesa para tomar o poder os afasta da concentração com as partidas. Quando finalmente é anunciado que as tropas invasoras ocuparão de fato o território, os nobres abandonam a cidade em busca de um lugar mais calmo para continuar as disputas, não por causa da invasão, mas para fugir do ambiente doméstico hostil. 

É nítido no filme a diferença entre a concretude política dos ingleses, posicionando-se no mundo real para derrubar o rei e controlar o governo, e a alienação dos nobres, perdidos em suas batalhas de tabuleiro e alheios à dinâmica histórica. No meio, o rei idealista sente vacilar os fundamentos de seu poder, e, diante do alheamento de sua aristocracia, não possui outra alternativa senão se render sem qualquer tipo de resistência. 

No avanço do capitalismo imperialista, momento registrado pelo filme, a elite indiana é indiferente quanto a quem vai governar. Tendo os ingleses já efetivamente dominado toda a economia do país, quem detém o poder político é algo de insignificante importância. Para esta aristocracia, é aceitável o novo papel subordinado dado para ela pela coroa britânica e seus encarregados. 

Por isso, O Jogador de Xadrez é um retrato fiel de quando uma elite se torna alheia ao destino de seu país e de seu povo e, vivendo da renda e da herança, preocupa-se mais com o imaginário que com o real. Algo não muito distante dos dias atuais. (por David Emanuel Coelho)




domingo, 6 de dezembro de 2020

ATUALIZAÇÃO DA FÓRMULA DO "KARATE KID", A MINISSÉRIE "O GAMBITO DA RAINHA" BEM QUE PODERIA CHAMAR-SE "CHESS GIRL"

L
igado no xadrez desde a minha meninice, eu já assistira a, no mínimo, uma dezena de filmes sobre a trajetória de enxadristas reais ou fictícios quando foi lançada a minissérie O gambito da rainha, criada por Scott Frank e Allan Scott, com sete episódios totalizando 6h33.

Então, apesar de iniciar sempre as minhas partidas com o dito gambito da dama, nem esta coincidência me animou a encarar a série. Só reavaliei por causa do surpreendente sucesso na TV por assinatura (me deixou curioso) e da recomendação da minha filha mais velha, que gostou muito.

Trata-se de um melodrama sobre uma menina que perde a mãe e  acaba no fundo do poço: um orfanato mantido por uma instituição religiosa. Lá um improvável zelador lhe ensina xadrez às escondidas da direção e lá também ela se vicia num calmante que lhe dá barato. E passa o resto da série dividida entre a tentação das bebidas e das drogas e a redenção como enxadrista. 

No fundo, embora o público mais sofisticado que a está curtindo não se dê conta, a receita do Karate Kid foi atualizada e temos agora uma Chess Girl. São dois produtos da indústria de entretenimento que mostram trajetórias atípicas mas fascinantes, até porque os personagens principais cativam e atraem a torcida dos espectadores:
— 
a dupla Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Sr. Miyagi (Pat Morita) no primeiro, juntando um filho sem pai com um pai que perdeu a família num bombardeio da 2ª Guerra Mundial; e, 
— no segundo, Beth Harmon (Anya Taylor-Joy, que lembra a Natassja Kinski quando jovem e tem um olhar mais expressivo ainda), a Cinderela conduzida pela carruagem do xadrez para o baile da corte, mas cujos traumas a fazem amiúde embarcar na abóbora da volta para a autodestruição.

Uma boa sacada foi ambientar a história no final dos '60, período em que a
guerra fria fez até o xadrez virar um peão (o duplo sentido cai como uma luva) da guerra de propaganda entre EUA e URSS.

Assim, depois de o furacão Bobby Fischer (tão genial quanto dividido entre a severa disciplina enxadrística e objetivos mais prosaicos, como grana e holofotes) conquistar e manter por três anos a hegemonia do xadrez mundial, os estadunidenses pegaram gosto pela coisa e resolveram encontrar outro alguém que humilhasse os soviéticos num dos esportes favoritos dos ditos cujos.  

Primeiramente elegeram como seu queridinho Viktor Korchnoi, um grande mestre internacional que em 1976 escolheu a liberdade, emigrando da União Soviética para morar na Suíça, mas dando a nítida impressão de que o fazia apenas por considerar que a federação de xadrez da URSS o desfavorecia na corrida atrás do título mundial. Não adiantou: disputou duas vezes a coroa com Anatoly Karpov, em 1978 e 1981, fracassando em ambas as tentativas.

Mais sorte tiveram os propagandistas dos EUA na escolha seguinte, um jovem enxadrista de estilo ousado e agressivo, muito melhor do que Korchnoi e um verdadeiro dissidente do burocratizado e fossilizado regime soviético: Garry Kasparov. Este protagonizou EM 1985 a maior disputa de título mundial de todos os tempos, contra Anatoly Karpov (foto abaixo).

O cauteloso Karpov começou se defendendo bem e aproveitando os erros de Kasparov, que se lançava com volúpia ao ataque. Colocou 5x1 no marcador. Precisava só da sexta vitória para vencer o match.
Aí Kasparov resolveu responder na mesma moeda: retrancou o seu jogo e não correu mais risco nenhum. Deu-se, então, uma sequência infernal de empates, uns vinte, se bem me lembro.

O franzino Karpov tinha menos resistência física e mental: na 47ª partida começou a desmoronar. Perdeu essa e a seguinte. Como as regras não admitiam interrupção por decisão médica, só lhe restava entregar os pontos ou ir para o tabuleiro sofrer mais três derrotas. Estava inapelavelmente vencido.

Foi quando o presidente da federação, um filipino, anulou o match por desumanidade. Decisão criticadíssima. E, quando nova disputa se travou a partir do zero, alguns meses depois, Kasparov, claro, massacrou Karpov. Depois de cumprir, assim, seu rito de passagem, ele se manteria durante os 15 anos seguintes como o maior de todos (de sua e das outras épocas).

Um detalhe significativo da série é quando Beth Harmon vê grandes mestres soviéticos analisando com Borgov (Marcin Dorocinski) a posição em que a partida havia sido interrompida. E o Benny (Thomas Brodie-Sangster) também já a advertira que, contra estrangeiros, a elite do xadrez da URSS atuava unida, todos por um.

Foi o que destruiu o melhor enxadrista que o Brasil já produziu, o Mequinho: p. ex. nas quartas-de-final do torneio dos candidatos ao direito de desafiar o campeão mundial, em 1974, ele tinha de analisar as partidas interrompidas madrugadas adentro, com a ajuda de poucos e fracos enxadristas brasileiros, enquanto Korchnoi ia passear com a família e deixava a tarefa com seu fabuloso time, só tomando conhecimento das conclusões na manhã do dia seguinte. 

O efeito cumulativo do esforço excessivo efetuado nessa e em tantas outras ocasiões certamente teve influência decisiva para ele para contrair uma miastenia grave em 1978.

Senti na pele como a obsessão do xadrez age. Eu e um grande amigo, aliás, vivemos o mesmo processo, com resultados ligeiramente diversos.

Ele, engenheiro de alto gabarito, trabalhando numa grande empresa pública que tinha enxadristas aos montes, conseguiu chegar à final do torneio interno. Capturou a dama do adversário, relaxou, deixou-se surpreender e perdeu uma partida praticamente ganha. 

Passou algumas semanas remoendo o que ocorrera, como errara, o que deveria ter feito, etc. Finalmente, concluindo que assim acabaria enlouquecendo, desistiu por completo do xadrez.

Eu também disputei com colegas de trabalho. Nem era tão significativa a competição, mas fiquei extremamente irritado por, com as brancas, ter sucumbido a um adversário de jogo calculista e covarde, que forçou trocas de todas as peças principais e secundárias, até sobrarem no tabuleiro os reis e um peão dele que eu não podia impedi-lo de coroar e transformar em dama. 

Eu passei uns 10 dias obcecado não com o que ocorrera, mas com a ansiedade da revanche. Não queria apenas derrotá-lo, mas o fazer de forma devastadora, mostrando como também se pode ganhar assumindo riscos e jogando com coragem.

Sei lá como eu ficaria se fracassasse. Mas, atuando de forma kamikaze como nunca, acabei obtendo uma vitória rápida que me lavou a alma. Provavelmente devo tê-lo surpreendido por cair matando antes mesmo de desenvolver as peças, como se estivesse eu a jogar com as brancas. 

Mas, passado o transe, decidi que nunca mais deixaria o xadrez me levar tão longe. E, desde então, nas raras ocasiões em que voltei a jogar, foi sempre encarando-o como esporte e não como disputa de vida ou morte.
Por último: o melhor dos muitos filmes sobre xadrez que vi foi
Lances Inocentes (d. Steven Zillian, 1993), sobre um personagem verídico, jovem prodígio do tabuleiro que começa derrotando todos os garotos de sua faixa de idade, mas de repente é surpreendido pela aparição de um menino melhor ainda. 

A pedra no caminho o abala muito, mas ele acaba dando a volta por cima ao mesclar as lições do mestre (Ben Kingsley) contratado pelo pai (Joe Mantegna) com os ensinamentos de um enxadrista de parques (Laurence Fishburne, foto acima) que se sustenta apostando em partidas-relâmpago e as vencendo. Ou seja, seu diferencial passa a ser o de dominar, além de teoria, também os macetes e improvisações do xadrez das ruas.     

E o melhor de tudo: depois de obter sua vingança e recuperar a hegemonia, ele não se restringe mais ao xadrez, passando a praticar vários outros esportes e saindo-se bem, no nível de atleta universitário, em todos. Foi um desfecho inesperado, mas muito mais saudável do que a compulsão pelas vitórias. (por Celso Lungaretti)
Em O sétimo selo, obra-prima de Ingmar Bergman, o cavaleiro 
disputa uma partida de xadrez contra a própria Morte e,
se conseguir derrotá-la, terá sua vida poupada.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

GRANDE CAMPEÃO ENSAIA UM MAGNÍFICO CANTO DO CISNE

Se alguns leitores deste blogue ficam escandalizados quando eu escrevo sobre o futebol, por eles tido como o  ópio do povo,  o que dirão ao encontrarem aqui algumas mal traçadas linhas sobre o  elitista  tênis?

Mas, nunca nego ou escondo minhas devoções e predileções. Jamais submeterei meus temas a triagens ideológicas,  submetendo-me a modismos e patrulhamentos.

Os pernósticos cricris que passam a vida procurando pêlo em ovo podem produzir verdadeiros tratados sobre a existência de implicações racistas na obra de Monteiro Lobato, que eu continuarei rindo na cara deles. 

Sou fiel ao primeiro autor a me estimular o espírito crítico, que fez uma obra grandiosa e,  last but not least, confrontou corajosamente os poderosos do seu tempo; não aos aprendizes de inquisidores que pensam ser de esquerda ao tentarem nos impor index.

Hoje é um dia em que não encontrei nada que me inspirasse em termos de  assuntos sérios. Gostaria de acreditar que ainda é possível fazer algo contra o golpe paraguaio, como os companheiros que articulam reuniões públicas, protestos e corrente virtuais, mas sei que o  impeachment-relâmpago  é fato consumado, só nos restando tomar precauções contra as viradas de mesa vindouras. Depois de Honduras não o fizemos e fomos surpreendidos pela segunda vez. Quantas mais?!

Enfim, apeteceu-me enfocar o tênis, apenas e tão somente porque Roger Federer tem no torneio de Wimbledon uma chance única, imperdível, de fechar sua trajetória com um canto do cisne magnífico.
* * *
Afora o futebol, único esporte coletivo que sempre me atraiu (a outros, como o vôlei e o basquete, eu só assisto nos grandes momentos), acompanhei com atenção o boxe e o xadrez, no passado; e até hoje me ligo no automobilismo e no tênis.

Refletindo um pouco sobre essas paixões, percebi que os quatro têm em comum colocarem o indivíduo diante de desafios extremos, andando no fio da navalha. São esportes em que só é grande quem alia uma vontade sobre-humana a um autocontrole inacessível aos comuns mortais.

No boxe, todos lembram a técnica refinadíssima de um Muhammad Ali, mas ele era muito mais do que isso. Tinha dons de grande estrategista, era como se combinasse os papéis de pugilista e de técnico.

Foi assim que ele venceu o invencível George Foreman, na maior luta de todos os tempos. Boxeou francamente contra ele no primeiro assalto e percebeu que jamais conseguiria a vitória lutando de igual para igual. A força descomunal do lutador mais jovem prevaleceria.

Então, adotou a postura que qualquer pugilista comum consideraria suicida diante da enorme potência dos golpes de Foreman: deixou-se ficar encostado nas cordas, recebendo o bombardeio e aparando-o com sua guarda.

Alguns obuses atingiam o alvo de raspão, outros se chocavam com os braços de Ali. Nenhum o abalou de verdade. E Foreman, acostumado a nocautes rápidos, foi se cansando.

No quinto assalto, o Ali aparentemente apático, que só se defendia, mostrou que era, isto sim, um tigre se preparando para dar o bote: com um contra-ataque fulminante, quase nocauteou Foreman.

Depois de mais dois rounds letárgicos, foi o que acabou acontecendo. Ali novamente surpreendeu Foreman e, com uma sequência de golpes cuja rapidez era inimaginável àquela altura de uma luta tão exaustiva, metralhou a cabeça de Foreman até fazer o gigante desabar em câmara lenta no ringue.

A coragem que deu a vitória a Ali nessa luta foi a mesma que o manteve no ringue até o fim de uma luta na qual teve seu maxilar fraturado no 2º round, contra Ken Norton.

O castigo que recebeu de Foreman foi tão terrível que, depois da vitória consumada, ele teve até um breve desmaio (que poucos perceberam) durante as comemorações. Até então, entretanto, a adrenalina o mativera em pé.

No xadrez também a pressão moral que um campeão suporta é devastadora, tendo de refletir sobre infinitas combinações enquanto o relógio o acossa.

É simplesmente inacreditável que o jovem desafiante Garry Kasparov tenha aguentado umas 20 partidas contra o campeão Anapoly Karpov, com 5x1 contra e dependendo só de uma derrota mais para perder o match, sem cometer falha nenhuma.

Forçou empate após empate, até que foi o veterano quem desabou: perdeu duas vezes seguidas e perderia as três restantes, se o match não tivesse sido anulado por "desumanidade" das regras (exigiam seis vitórias, pouco importando quantas partidas fossem necessárias para um deles alcançar tal total).

O socorro suspeito do presidente filipino da Federação Internacional de Xadrez não mudou o que já se decidira no tabuleiro. A coroa pertencia a Kasparov, que cumprira seu rito de passagem durante aquele torneio e dele saíra como homem e esportista superior: fulminou Karpov quando o match, zerado, foi disputado de novo.

No automobilismo, Schumacher não conquistou sete Mundiais de Fórmula 1 por acaso. Conseguiu aliar o senso estratégico de um Prost com o arrojo de um Senna (só o utilizando, entretanto, quando estritamente necessário, não se vexando em vencer corridas só na estratégia de troca de pneus, nas vezes em que isto bastava).

E Federer? Além de ser o mais completo tenista da História, "bom" ou "ótimo" em todos os fundamentos, ele já foi capaz de reerguer-se uma vez depois que derrubado do pedestal por Rafael Nadal e ameaça repetir o feito agora.

Acostumado ao predomínio absoluto, a emergência de um verdadeiro rival o desconcertou durante alguns meses, no segundo semestre de 2008.

Mas, nas férias de fim de ano, conseguiu colocar a cabeça em ordem; e encontrou ânimo para dar a volta por cima, vencendo o desafio de retomar sua coroa.

Para sua surpresa, acabou sendo bem mais fácil do que tudo levava a crer: na verdade, Nadal forçara a natureza para derrotar o titã. Exigira mais do seu corpo do que ele era capaz. Só assim, com muita transpiração, conseguira sobrepujar a inspiração de Federer.

O preço acabou sendo alto: depois de uma temporada consagradora, foi fulminado por uma contusão no joelho.

E Federer, que sempre mantivera o sacrifício exigido de seus músculos no limite do razoável, voltou ao topo por uns tempos.

Os jovens contra-atacaram: não só Nadal o desalojou de novo, como Novak Djokovic veio numa arrancada fulminante e superou a ambos. Federer chegou até mesmo a ceder a terceira posição no ranking, esporadicamente, a Andy Murray.

Não ganha um torneio de grand slam (os quatro principais do tênis: Wimbledon, Rolland Garros, Aberto da Austrália, US Open) desde o início de 2010.

Rico, respeitado e aclamado, feliz no casamento, de bem com a vida, pai coruja de duas gêmeas, tudo levava a crer que se curvaria à evidência dos fatos, pendurando a raquete como o maior de todos os tempos.

Mas, perseverou. E não como coadjuvante, o papel que Schumacher vem desempenhando estoicamente desde sua volta às pistas. Reciclou seu jogo, aperfeiçoou alguns golpes, melhorou as estratégias.

Foi buscar novas armas, já que as antigas tinham sido alcançadas pelos rivais. Seu saque, p. ex., agora é muito mais poderoso, abrindo caminho para vitórias rápidas contra os adversários mais fracos --dada a importância, no caso de um veterano, de guardar energias para enfrentar os mais fortes.

Então, desde o semestre passado, ele vem pouco a pouco se reaproximando do topo, armando o bote. E, agora, pode conseguir este feito que parecia impossível para um tenista  com mais de 30  (vai completar 31 anos em agosto), dependendo de sua colocação e da de Djokovic no torneio de Wimbledon, em curso; se for campeão, p. ex., ele voltará ao topo do ranking, além de igualar o recorde de mais semanas de permanência como o nº 1.

* * *

Como todo ser humano, admiro quem me inspira. Várias vezes meu autocontrole foi testado no limite extremo e, levando em conta a diferente magnitude dos desafios enfrentados, creio não ter ficado tão atrás de Schumacher, Kasparov e Federer. Também já ganhei partidas que pareciam totalmente perdidas, nas batalhas da vida.

E tenho, confesso, uma satisfação um tanto egoísta em presenciar os feitos dos maiores de todos os tempos. Pois, é sempre frustrante termos de ouvir falarem maravilhas sobre grandes nomes do passado, como se nada acontecesse de relevante no presente que vivemos.

Não questiono nem duvido que Leônidas da Silva, Fangio, Joe Louis e Capablanca tenham sido esportistas grandiosos.

Mas, em vez de ficar venerando quem nem sequer conheci, aprecio mais ter visto Pelé, Schumacher e Muhammad Ali superarem nitidamente os três primeiros; e saber que Kasparov, no mínimo, merece figurar ao lado do quarto, no panteão dos deuses do esporte.
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