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segunda-feira, 19 de maio de 2025

MALCOLM X, ÍCONE DO MOVIMENTO NEGRO NOS ANOS 60, HOJE FARIA 100 ANOS.

H
oje (19/05) se comemora o centenário de nascimento de um dos personagens mais emblemáticos dos turbulentos anos 60 nos EUA, o ativista negro Malcolm X, grande amigo de outra lenda do período, o pugilista Muhammad Ali.

Com seis anos de idade ele perdeu o pai, pregador batista e membro da Associação Universal para o Progresso Negro, que foi massacrado por uma horda da Black Legion, organização terrorista de supremacistas brancos, e largado nos trilhos de um bonde. Embora tivesse seu corpo quase dividido ao meio, o pastor agonizou durante horas antes de expirar.

Sua mãe, fustigada pela miséria e abandonada pelo homem com quem pretendia casar, enlouqueceu. Malcolm e seus sete irmãos foram distribuídos por lares de acolhimento.

Mesmo assim ia bem nos estudos, até que, no oitavo ano, um professor do qual gostava desencorajou-o de seguir a profissão que escolhera: "Um advogado? Isto não é um objetivo realista para um negro. Por que não tenta carpintaria?".

Tornou-se um adolescente problemático, foi expulso da escola, passou a beber, a fumar marijuana, a usar roupas extravagantes, a frequentar salões de dança. Trocou uma digna namorada negra por uma mulher branca, causando-lhe tal desencanto que ela acabou entregando-se às drogas e à prostituição.

Malcolm também se viciou em cocaína e andou praticando assaltos para bancar os aproximados 20 dólares por dia que gastava com a droga. 

Preso e condenado a 11 anos de detenção, foi regenerado por outro prisioneiro, que o inspirou a converter-se ao Islã e conduziu-o para as fileiras do guru picareta Elijah Muhammad e seus muçulmanos negros.  

Após sair da prisão com 27 anos, destacou-se como fervoroso ministro dessa seita separatista, que se diferenciava de outras vertentes do movimento negro por sua maior combatividade e uma disciplina próxima à militar.

Ativista convicto, grande orador e personagem carismático, acabou fazendo sombra ao líder da seita, que sentiu-se cada vez mais ameaçado por Malcolm levar a sério aquilo que para ele não passava de retórica conveniente. 

Algo que incomodou muito Elijah foi Malcolm ter se aproximando dos movimentos pelos direitos civis. 

Malcolm, por sua vez, desencantou-se com a satiríase do guru, que mantinha relações adulteras com as discípulas e engravidara várias delas.

Tendo rompido com a Nação do Islã, feito uma peregrinação a Meca e se tornado cada vez mais um missionário que assumia a pauta política do movimento negro até as últimas consequências, Malcolm virou alvo de atentados e acabou assassinado em fevereiro de 1965, a mando de Elihan Muhammad. 

Sua cinebiografia, Malcolm X (1992), disponibilizada abaixo, é o melhor filme da carreira do diretor Spike Lee e tem uma atuação de gala do Delzel Washington. Os 202 minutos passam num piscar de olhos. (por Celso Lungaretti)  

sábado, 20 de novembro de 2021

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA DE 2015 FOI MARCADO POR ESTE ARTIGO ANTOLÓGICO DO APOLLO NATALI CONTRA O RACISMO

E
m 31 de outubro de 2015, a atriz Taís Araújo passou a ser vítima de infame ação concertada no Facebook: uma foto dela que já estava no ar havia quase um mês de repente se tornou alvo de um sem-número de comentários preconceituosos provenientes de diferentes perfis. 

E deu esta altiva resposta:
"Eu não vou apagar nenhum desses comentários. Faço questão que todos sintam o mesmo que eu senti: a vergonha de ainda ter gente covarde e pequena neste país, além do sentimento de pena dessa gente tão pobre de espírito. Não vou me intimidar, tampouco abaixar a cabeça".
Três semanas depois, o episódio foi lembrado num artigo antológico do meu amigo de décadas e colaborador inesquecível deste blog, Apollo Natali, alusivo ao Dia da Consciência Negra. É com muito orgulho que o republico neste ano da desgraça de 2021. (CL)
.
"
Querida Taís de todo o Brasil, esse seu desabafo contra o racismo, que faz entristecer o coração brasileiro, é apenas mais um entre os milhares deles, semelhantes, sofridos, diários, esparramados pelo mundo, desde que mundo é mundo. 

Entre eles estão os marcantes, históricos, grandiosos desabafos contra a discriminação de um Nelson Mandela, um Martin Luther King, de um Joaquim Nabuco. 

Este último, com seu persistente desabafo jurídico abolicionista abalou a mais longa escravidão de negros do mundo, que desconsoladamente aconteceu neste nosso querido Brasil durante sufocantes 358 anos.

Os mais inconformados dizem que a escravidão no Brasil vigorou arrastados 388 anos, desde o seu descobrimento, em 22 de abril de 1500, até a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Não. A mais longa escravidão, a mais demorada  trevosa inclinação do ser humano, a de escravizar seu semelhante, foi a dos hebreus, no Egito: 700 anos.

Sem resposta à pergunta que não cala 
– por que racismo? –- resta-nos o conforto de festejar as iniciativas de parte da humanidade não-racista em marcar, com datas comemorativas, a ação, a luta, o esforço, a memória de personalidades brancas e negras, para erguer o estandarte da dignidade das pessoas negras e de outras colorações não-brancas.

A batalha de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul foi apoiada por organizações de mulheres brancas, ativistas, a combater o odioso racismo institucionalizado contra os negros por parte de uma minoria branca. Não é confortador? Disse Mandela: estamos lutando por uma sociedade em que as pessoas parem de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça, é uma questão de ideias.           

Sobra-nos no Brasil a aflição de constatar discriminação até por parte de negros e índios: Helda de Sá, uma mestiça cabocla amazonense, só depois de dobrar sistemática oposição de militantes do movimento negro e indígena, conseguiu cadastrar-se como a única delegada mestiça a participar da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, em 2005, em Brasília. Discriminação por quê?
Um ano depois, ao comemorar-se o
Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, o governador Eduardo Braga, movido pela Nação Mestiça-Movimento Pardo-Mestiço, sancionou lei tornando o Dia do Mestiço, 21 de março, uma data oficial do Estado do Amazonas, em homenagem a todos aqueles que possuem mais de uma origem racial no Brasil, mulatos, caboclos, cafuzos, ainocos, entre outros, e seu papel na formação da identidade nacional.
  
Na sequência, em 24 de junho, comemora-se o Dia do Caboclo, que foi o primeiro mestiço brasileiro. E em 2010 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ,descobriu, afinal,  que os brancos deixaram de ser maioria no País, se comparados ao total das outras classificações de cor e raça.

Agora, neste 20 de novembro, o Brasil comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, data da morte do escravo Zumbi dos Palmares, em 1695, para  lembrar a resistência do negro contra a escravidão, desde o primeiro tráfico de africanos para o Brasil,  iniciado menos de meio século depois de sua descoberta.  
Pouco mais de mil cidades brasileiras, entre os 5.570 municípios do país, celebram o Dia da Consciência Negra. Dependem da aprovação dos prefeitos. Há brancos que se empertigam contristados diante de altares e olvidam as lições de humanidade de suas religiões.

Entidades como o Movimento Negro, o maior do gênero no País, organizam palestres e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. A instituição procura evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.

Mesmo nos Estados Unidos, onde a realidade é o secular massacre de negros nas cidades sulistas e o atual, televisionado, desrespeito aos seus direitos, existe o Dia de Martin Luther King, feriado nacional, oficializado em 1983, comemorado na terceira 2ª feira de janeiro, data próxima ao aniversário do líder morto em 1968.

O quadro nos Estados Unidos ainda hoje é de protestos de negros por todo o país e repressão dos brancos contra eles, como nos velhos tempos de Luther King.  

Mas, não devemos perder a fé em nossos irmãos brancos, disse o próprio Luther King, no auge de sua luta. 

De algum modo, acrescentou, esperançoso, precisamos acreditar que os mais desnorteados dentre os brancos possam aprender a respeitar a dignidade e o valor de cada ser humano.

Obama se preocupava com o que acontecia na escola com suas filhas negras, com sua esposa, e sentia particularmente a humilhação comum sofrida pelo negro em seu pais. O senador, à saída de restaurantes, era tratado como um manobrista.

Desabafo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Barack Obama, do tempo em que era senador: 
— o índice de mortalidade infantil entre os americanos negros e pobres é semelhante ao da Malásia;
— entre os negros é comum o desemprego e processos criminais que um em cada três deles vai sofrer;
— brancos ganham em média 70% mais do que os negros;
—há discriminação sistemática e prolongada por parte de grandes corporações, sindicatos ou áreas do governo municipal;
— há bairros em que não se vendem imóveis a negros, etc.

A miscigenação está tornando os Estados Unidos mais negro e moreno. Contudo, em geral, os membros de todas as minorias continuam a ser medidos pelo grau de assimilação da cultura branca, o quão próximo seus padrões de discurso, suas roupas ou seu comportamento estão da cultura branca dominante; e quanto mais uma minoria se desvia desses padrões exteriores, mais sujeita fica aos preconceitos.

Meu próprio desabafo contra as sombrias manifestações de racismo que se perpetuam no planeta azul, e sem pretensões de qualquer exibicionismo humanitário, é oferecer à nossa magoada Thais Araújo, e a todos os demais magoados negros, e todos os brancos, e todos de todas as colorações, duas matérias minhas sobre opressão aos negros que estão flutuando no Google.

Uma, de título um pouco forte porque inevitável, Tio Sam, Tio Sam, que matas os teus negros, é uma paráfrase dos ditos de Jesus Cristo: Jerusalém, Jerusalém, que matas os teus profetas. 
por Apollo Natali

São desabafos e lamentações de Martin Luther King sobre a opressão dos brancos contra os negros de seu país.

Outra, de título 
Escravidão!, é a resenha-de-uma-resenha do total de 50 que compõem um livro de História que pretende explicar o Brasil (escrevo História com maiúscula e ponto e basta). 

A obra, coordenada pelo jornalista Lourenço Dantas Motta, chama-se Introdução ao Brasil – um banquete no Trópico, dois volumes, Editora Senac São Paulo."
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

UM NOVO 1968 PODE ESTAR COMEÇANDO

O protesto dos estudantes contra a palestra ultradireitista...
Esta notícia é atual:
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"O campus da Universidade da Califórnia em Berkeley foi fechado nesta quarta-feira (1) em meio a um protesto violento contra uma palestra do editor do site de extrema-direita Breitbart, Milo Yiannopoulos.

...A polícia ordenou que os manifestantes da universidade se dispersassem e, de acordo com a rede de TV americana CNN, pelo menos um incêndio foi iniciado pelos manifestantes".

Este trecho de um ótimo artigo da revista Cult, assinado por Sean Purdy (professor do departamento de História da USP), nos mostra o papel histórico que tal universidade desempenhou na década de 1960:
                                                                                                              .
"A primeira grande mobilização do movimento estudantil nos Estados Unidos aconteceu na Universidade da Califórnia em Berkeley em 1964-1965 sobre o direito dos estudantes de organizar atividades políticas no campus, já que, nos anos 1950, os administradores dessa renomada universidade pública haviam banido tais atividades.

No outono de 1964, estudantes abertamente organizaram atos no campus em solidariedade ao movimento negro para desafiar as proibições. O aluno Jack Weinberg foi preso pela polícia e uma manifestação espontânea de 3 mil estudantes cercou o carro da polícia, proibindo-o de partir por 32 horas. Por dois meses, estudantes continuaram organizando grandes atos e manifestações sob a bandeira do Movimento pela Livre Expressão. Em dezembro, alunos ocuparam o principal prédio da administração da universidade. A polícia entrou e mais de 700 alunos foram presos.
...veio na sequência das manifestações de repúdio a Trump. 

Em janeiro, a universidade suspendeu os líderes da ocupação, provocando uma greve estudantil e manifestações amplas que efetivamente fecharam a universidade. Logo depois, a administração da universidade cedeu e atividades políticas foram permitidas no campus.

O Movimento pela Livre Expressão obteve uma vitória importante, inspirando a organização estudantil no país inteiro. Com a aceleração da guerra no Vietnã, a SDS e outras organizações montaram campanhas nacionais contra a guerra e contra o serviço militar obrigatório".

Estamos passando por momento semelhante, com uma difusa insatisfação entre os jovens dos EUA e Europa, cientes de que a crise econômica colocará enormes obstáculos no seu caminho para a inserção profissional e sucesso nas futuras carreiras. 

Os avanços autoritários pipocam em várias nações e a recém-iniciada presidência de Donald Trump vai na contramão de quase tudo que é belo, digno e justo na face da Terra, ameaçando tanger a humanidade para uma nova Idade Média ou mesmo para o extermínio (em função de seus desvarios ambientais).

Não é utópico trabalharmos com a hipótese de que os EUA novamente se dividirão entre uma embotada e intolerante parcela reacionária e uma ampla frente comum de pessoas esclarecidas e idealistas, dispostas a deter a marcha para a insensatez trumpiana. 
Trump poderá bisar o papel da Guerra do Vietnã: o de aberração contra a qual os melhores se unem.
Sendo que, desta vez, a correlação de forças não será maioria silenciosa x minoria estridente, mas, provavelmente, meio a meio (não esqueçamos que a o apresentador de reality show só ganhou permissão para tocar o terror graças ao estapafúrdio sistema eleitoral estadunidense, pois foi sua hilária adversária quem obteve maior quantidade de votos).

E, com os rigores que se abatem sobre a Europa, tudo leva a crer que uma escalada de protestos estudantis e outras manifestações de inconformismo contra as políticas de Trump repercutirá instantaneamente no velho continente, alavancando o ressurgimento, em larga escala, da contestação jovem.

Um novo 1968 não só é possível, como pode já estar começando.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

É PROIBIDO PROIBIR AS CAÇADAS DO PEDRINHO!

Para nunca esquecermos: a dignidade dos atletas que
fizeram a saudação do Poder Negro no pódio olímpico.
Ridículo atroz: os patrulheiros cricris que tentaram e não conseguiram fazer com que o Ministério da Educação vetasse a adoção nas escolas do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, agora atraíram o movimento negro para sua cruzada obscurantista e retrógrada. Estão submetendo esta questiúncula ao Supremo Tribunal Federal.

Levamos tanto tempo para nos livrar da censura ditatorial e agora esses aprendizes de Dona Solange querem trazê-la de volta! Repulsivo.

Repito o que pessoas familiarizadas com a literatura estão carecas de saber:
  • quem expressava uma visão caricata da personagem Tia Nastácia era a personagem Emília, não o autor;
  • a visão da personagem Emília era a visão que muitas pessoas preconceituosas tinham mesmo dos negros, então nada há de errado em que ela esteja expressa num livro, pois a função de obras literárias nunca foi a de esconder o que existe, fingindo que não existe (maquilagem não é cultura, tanto quanto consultório sexológico de TV não é cultura);
  • o errado seria o autor  endossar  os preconceitos raciais, o que ele nunca fez;
  • o autor não falava pela boca da personagem Emília, imatura e pirracenta, mas sim pela boca dos personagens amadurecidos e compassivos, principalmente a Dona Benta e o Visconde de Sabugosa;
Para nunca esquecermos: a abjeta censura, que levava 
o "Jornal da Tarde" a substituir notícias por receitas.
  • se formos colocar livros no index por causa de usos e pequenos detalhes de época, os chatos de galocha vão dedicar-se em tempo integral à busca de pêlos em ovo e acabará sobrando, para fins pedagógicos, apenas a tralha recente, medíocre e descartável, infinitamente inferior à literatura infanto-juvenil do GRANDE REVOLUCIONÁRIO que foi Lobato.
É o sonho das editoras: que, a cada ano, troquem-se todos os livros, maximizando-lhes as receitas. Houve tempo em que eu recebia desses tentáculos da indústria cultural, para escrever pequenas críticas, o pacote anual de lançamentos paradidáticos. Folheava-os e quase vomitava; sentia enorme dó das novas gerações. 

Aquilo servia para torná-las consumistas bem adaptadas a uma sociedade desumana, não para estimular-lhes o espírito crítico e contestatório, como Lobato fazia admiravelmente. Mil vezes melhor para nós seria se a meninada estivesse hoje curtindo O Sítio do Picapau Amarelo ao invés da saga Harry Potter!

Quanto ao movimento negro, que sempre apoiei em suas causas justas --defendi com unhas e dentes as cotas universitárias e sou sempre o primeiro a denunciar a vandalização de templos umbandistas por hordas nazistóides--, lamento muito que se tenha colocado a reboque desses intriguentos de boutique.

Pregar a censura, explícita ou velada, dá péssima imagem a quem o faz. Os antigos companheiros de jornada deveriam lembrar-se de que, quando nós (os brancos revolucionários, seus aliados) chocávamos os racistas fazendo coro com a afirmação de que  Black is beautiful!, havia outro slogan lapidar, surgido nas barricadas parisienses: É proibido proibir!

Nenhum dos dois defasou. Devemos repeti-los sempre, para exorcizar tanto o fantasma da Ku Klux Klan, quanto o de Torquemada.
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