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domingo, 25 de maio de 2025

O CRÍTICO ACIDENTAL TAMBÉM APONTA OS 10 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS

O
 UOL ultimamente tem publicado listas de
10 melhores filmes de todos os tempos, elaboradas por cineastas como Guillermo Del Toro, Martin Scorcese,  Oliver Stone e Sofia Coppola.

Não sou nenhum mestre do ofício, quanto muito um crítico acidental (vide aqui), nem imaginava que minhas preferências pudessem acrescentar algo às escolhas desses profissionais consagrados, então ia me limitando a somente ler e meditar sobre tais listagens.

Só que percebi um pequeno detalhe: os 10 mais desse pessoal nem de longe estavam com essa bola toda. Lista por lista, uma minha seria até melhor. 

O que, lembrei-me depois, já percebera noutros carnavais. As opiniões de críticos costumam ser bem melhores que as dos técnicos e artistas que atuam na área, pois estes últimos valorizam exatamente aqueles concorrentes ou antecessores com os quais se identificam ou se identificaram. Na verdade, estão votando em si mesmos ao votarem nos outros.

Já os críticos somos mais propensos a reconhecer a genialidade de quem nos desagrada. Acho um pé no saco os aclamados
filmes de gangstêres do Martin Scorcese, mas nunca os qualificaria de irrelevantes. E aplaudo em pé os muitos que ele faz sobre o blues e quase ninguém vê (só O Último Concerto de Rock, de 1978, foi bem nas bilheterias). 

Eis minha lista. Quem discordar, pode detoná-la à vontade nos comentários:

    Cidadão Kane (dirigido por Orson Welles e lançado em 1941): um divisor de águas, estava tão adiante de sua época que só começou a ser alcançado por outros cineastas na década de 1960. Mostra a chamada coisificação de um ricaço que, idealista no início, sofre tais tragédias pessoais que acaba se enclausurando amargurado numa ilha de quinquilharias valiosas e nelas projetando sua humanidade até nada restar além de uma palavra enigmática a ser decifrada. 
   Oito e meio  (d. Federico Fellini, 1963): pura genialidade e irreverência desde o título zombeteiro, pois apenas quer dizer que se trata do oitavo filme dirigido por Fellini, além do seu episódio numa obra conjunta. Visão delirante de um cineasta em crise criativa e tentando colocar uma ordem no seu emaranhado de lembranças dolorosas e desafios presentes, é um arraso e o seu desfecho, um dos melhores da história do cinema. 
    A ponte do rio Kwai (d. David Lean, 1957): nunca o cinema explorou tão bem o drama de indivíduos com talentos superlativos, mas capazes de passar sem sequer perceberem de heróis a traidores por sua vulnerabilidade às armadilhas do ego (no caso, a necessidade obsessiva de afirmar superioridade sobre outros povos, vista como uma característica de caráter inglesa). Outro filme com desfecho de arrepiar. 
    
Era uma vez na América (d. Sergio Leone, 1984): uma aula de história do século 20, com a trajetória, desde a meninice, de quatro amigos judeus-estadunidenses simbolizando a transição dos pequenos negócios aventureiros para as grandes corporações implacáveis. A América que deixou de existir é a dos ideais dos fundadores e a que tomou seu lugar, a do crime organizado. Nada melhor para entendermos como se chegou ao pesadelo trumpiano. E se trata de um épico sobre gangsterismo  que, por comparação, pulveriza a pieguice rasteira dos chefões de Francis Ford Coppola e Mario Puzo.
    Stalker (d. Andrei Tarkovsky, 1979): provavelmente o filme de ficção científica mais ambicioso de todos os tempos, ao colocar em discussão os grandes temas da humanidade ao longo da incursão por uma zona proibida de um guia místico, um professor para quem nada existe além da ciência e um escritor em busca de inspiração. A fé, a ciência e a arte numa difícil jornada por uma terra devastada, para chegarem a um quarto que, após ser atingido por um meteorito, se tornou local em que a verdade é revelada e os desejos, atendidos.    
    Blow-Up (d. Michelangelo Antonioni, 1966): fotógrafo descobre, ao revelar o filme com fotos tiradas num parque, que casualmente registrou um assassinato.  Mas a descoberta seguinte é ainda mais surpreendente: ninguém está interessado. Depois de muito empenhar-se em trazer o caso à tona, conforma-se em também acreditar nas ilusões, como todos os outros, ao invés de afligir-se com as realidades desagradáveis. É uma parábola devastadora sobre a exacerbação do narcisismo e da alienação na sociedade de consumo, outro filme que nos ajuda a compreender o pesadelo atual.   
    Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972): é Herzog encontrando um paralelo perfeito para Adolf Hitler no aventureiro Lope de Aguirre, que em 1561 assume violentamente a liderança de uma expedição espanhola na América quando o comandante já decidira ordenar o retorno. Apesar de todos os seus rompantes de autoritarismo e de a inutilidade dos esforços evidenciar-se cada vez mais, todos se resignam. A vontade alucinada de um único homem arrasta os demais insensivelmente para a destruição, assim como o povo alemão continuou hipnotizado pelo führer mesmo quando já saltava aos olhos o fracasso iminente. 
    Terra em transe (d. Glauber Rocha, 1967): continua sendo até hoje o melhor de todos os filmes sobre a tragédia latino-americana, por ir corajosamente ao fundo da questão, ao apontar as culpas de uma direita totalmente desumana e predatória ao extremo, de uma esquerda que amiúde fracassa nos momentos decisivos além de facilmente se deixar seduzir por farsantes populistas e/ou autoritários e de povos que não ousam tomar o destino nas próprias mãos, eternamente dependentes de quem os guie. E mesmo o poeta, que é capaz de perceber tal tragédia em toda a sua extensão, não consegue escapar da armadilha e destravar a História. Como a esquerda armada poderia dizer de si própria, só lhe restou imolar-se em nome da beleza e da justiça, quanto muito deixando um exemplo mais digno para os pósteros.
    O sétimo selo (d. Ingmar Bergman, 1957): se Deus não existe e o homem é o lobo do homem, o que resta? O bravo cavaleiro percorre as terras devastadas da Idade Média à procura de uma resposta que nunca surge, enquanto os horrores se renovam e acumulam cada vez mais. Seu tempo restante de vida depende da partida de xadrez que disputa com a Morte, mas aos poucos vai se compenetrando de que não reencontrará a esperança em lugar nenhum. Um dos filmes mais pessimistas que conheço, mas é impossível deixarmos de admirar a integridade com que Bergman expõe suas próprias dúvidas e o domínio que tinha de sua arte.   
10º  O demônio das Onze Horas (d. Jean-Luc Godard, 1965): não poderia faltar o cineasta mais influente do último grande período revolucionário da humanidade, a segunda metade da década de 1960. Godard inspirou cineastas por todo o planeta, desconstruiu o cinema convencional e deu asas à imaginação como ninguém até então fizera. É difícil colocar um único de seus filmes entre os melhores de todos os tempos, na verdade o principal legado que deixou foi o conjunto de sua obra. Mas, talvez por mera questão de momento, os dois mais marcantes acabaram sendo este e A Chinesa (1967).  E talvez sua obra-prima haja sido interromper o Festival de Cannes de 1968 porque aquilo que realmente importava estava acontecendo lá fora, nas ruas e nas barricadas de Paris. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

DEPOIS DE INVENTAR O WESTERN ITALIANO, SERGIO LEONE PRECISAVA DEMONSTRAR SEU TALENTO PARA VOOS MAIORES. CONSEGUIU!

P
or uns dólares a mais (1965) foi o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele inventara o faroeste italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Depois, em 
Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, no lugar de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrerHonra a um homem mauSem lei e sem almaO homem dos olhos friosEstigma da crueldade e O homem que matou o facínora.
Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu 
toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito

[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em 
Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). 

Só que a motivação de um deles não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

VEJA "AGUIRRE" E CONSTATE: PERSONAGENS DESVAIRADOS E AUTODESTRUTIVOS SEMPRE NOS FAZEM LEMBRAR CERTO MITO MICADO

Aguirre, a cólera dos deuses (1972) —disponibilizado, completo e legendado, na janelinha abaixo— é a obra máxima do diretor alemão Werner Herzog, que começou no dito cinema de arte e marcou forte presença nas décadas de 1970 e 1980. 

Desde então, contudo, sua carreira decaiu miseravelmente, com exceção do genial No coração da montanha (1991), no qual contrasta a integridade e a comunhão com a natureza de um alpinista veterano com a avidez de um novato talentoso pelo sucesso  e seus frutos.  

Mas, Herzog não deve ser julgado por equívocos como a refilmagem piorada de Vício frenético (levou uma goleada do original de Abel Ferrara!) e O sobrevivente. Ele chegou a ser muito grande. Deveria ter encerrado a carreira quando não lhe ofereciam mais projetos com os quais tivesse afinidade ou que estivessem à altura do seu talento.

Aguirre continua sendo, até hoje, um dos filmes que melhor flagram a apatia e passividade com que o povo alemão se submete a líderes autoritários imbuídos de ambições desmedidas e destrutivas, acompanhando-os até o mais amargo fim. O paralelo com Hitler e seu Reich de mil anos é mais do que evidente.
Destaque também para a inesquecível atuação do carismático Klaus Kinski, que parece ter nascido para representar o papel de D. Lope de Aguirre —o aventureiro que, quando o fracasso de uma expedição em busca de Eldorado se evidencia, não se conforma com a decisão de D. Pedro de Urzúa (nosso velho conhecido Ruy Guerra), o qual, sensatamente, ordena o retorno. 

Aguirre assume então o comando pela força e arrasta a todos para o âmago da selva amazônica, que os tragará.

Os  cenários naturais são majestosos, a ganância ensandecida de Aguirre impacta fortemente os espectadores e o filme é lembrado também pela convivência difícil entre Kinski e Herzog, que o diretor depois esmiuçaria no documentário Meu melhor inimigo (1999). 

Qualquer semelhança com o pior equívoco do eleitorado brasileiro em todos os tempos —um indivíduo tão truculento, alucinado e autodestrutivo quanto Aguirre— já não pode ser vista como mera coincidência, mas sim como premonitória...

sábado, 22 de dezembro de 2018

O GRANDE MESTRE DO WESTERN ITALIANO E O FILME EM QUE ELE DEU DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA: "POR UNS DÓLARES A MAIS".

Eastwood e Van Cleef: primeira dupla de anti-heróis de Leone
Um filmaço está novamente disponível no Youtube, mas não se sabe até quando. Quem aproveitar este período de férias para vê-lo ou revê-lo, não se arrependerá.

Trata-se de Por uns dólares a mais (1965), o primeiro grande filme do mestre Sergio Leone.  Ele lançara o gênero western italiano no ano anterior com Por um punhado de dólares,  transpondo para o velho Oeste uma história de samurais. Muitos cineastas vieram atrás. 

Então, seu novo filme era uma espécie de desafio, a hora de separar o homem dos meninos: tinha de provar que seu estrondoso sucesso inicial não fora apenas um golpe de sorte.

Em Por um punhado de dólares ele introduzira:
— a figura do anti-herói no centro da trama;
— a amoralidade básica dos tipos e das situações;
— a apresentação criativa dos letreiros iniciais, valorizada com vários recursos, inclusive o uso de animação;
— a nova concepção musical que Morricone trouxe para os westerns; e
— um dos personagens mais emblemáticos do bangue-bangue à italiana, o pistoleiro oportunista interpretado por Clint Eastwood.
Volonté depois se destacaria em papéis políticos

Depois, em Por uns dólares a mais, todas essas características foram desenvolvidas e aprimoradas. É um filme muito melhor do que o anterior, mas, paradoxalmente, não apresentou novidades significativas.

A única que vale a pena citar é a colocação de dois personagens em destaque, em vez de um. A partir daí, os filmes de Leone trariam sempre essa dupla de anti-heróis ocupando o espaço do antigo mocinho.

Para encarnar o segundo anti-herói (o primeiro continuou sendo Clint Eastwood, novamente na pele do Estranho Sem Nome), ele escolheu outro ator estadunidense que caiu como uma luva no papel: Lee Van Cleef.

Ao contrário de Eastwood, que não fora muito longe em Hollywood como astro (salvo num seriado de TV), Van Cleef já tinha longa e bem-sucedida carreira... como coadjuvante. Atuara em westerns memoráveis como Matar ou morrerHonra a um homem mauSem lei e sem almaO homem dos olhos friosEstigma da crueldade e O homem que matou o facínora.

Como no caso de Eastwood (e, mais tarde, de James Coburn e Eli Wallach), o olho clínico de Leone detetou em Van Cleef o potencial para voos maiores; e, com seu toque de Midas, elevou a carreira do dito cujo a um patamar bem mais alto, a partir de seus inesquecíveis desempenhos em Por uns dólares a mais e Três homens em conflito
Mesmo como coadjuvante, Klaus Kinski chamava a atenção
[Van Cleef teve muita sorte ao trocar temporariamente Hollywood pela Cinecittà, pois também Sergio Sollima e Tonino Valerii levantaram a bola para ele marcar belos pontos, respectivamente em O dia da desforra e O dia da ira.]

E, se Por um punhado de dólares fora um filme-de-astro-único (Eastwood), Por uns dólares a mais teria, além dele e de Van Cleef, outra grande atração, o vilão genial, psicótico e drogado interpretado por Gian-Maria Volonté. É difícil dizer quem defendeu melhor seu personagem; mas, justiça seja feita a Volonté, coube a ele a composição mais difícil.

Klaus Kinski também está no elenco, só que sem todo o carisma que logo se vislumbraria em Gringo (d. Damiano Damiani, 1966), para irromper com força total em Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972).

A história é a de dois caça-prêmios (Eastwood e Van Cleef) que unem forças para uma empreitada complicada, mas muito rentável: capturar/eliminar a quadrilha do Índio (Volonté). Só que a motivação não é apenas mercenária: há uma vingança no final da linha.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

PARA LER E REFLETIR: COMO A INTRANSIGÊNCIA DA ESQUERDA ALEMÃ ABRIU CAMINHO PARA A VITÓRIA DE HITLER

"...os eventos que tiveram lugar na Alemanha a partir do final dos anos 1920 ganham nova perspectiva, sobretudo agora, quando a extrema-direita levanta novamente a cabeça em diversas partes do mundo. 

O nazismo venceu no início dos anos 1930, em parte porque durante os dez anos anteriores realizou um intenso e escrupuloso trabalho de agitação e propaganda sobre as massas pequeno-burguesas e declassés de uma Alemanha dilacerada e humilhada pelo tratado de Versalhes. Em parte, porque faltou inteligência e iniciativa revolucionária aos chefes do proletariado.

É preciso lembrar que o nazismo não era a única força política na Alemanha daqueles anos e nem sequer a maior. Ao lado do NSDAP, o partido de Hitler, havia duas outras poderosas forças: os social-democratas do SPD e os comunistas do KPD, que, juntas, abarcavam a imensa maioria da classe operária alemã. 

Esta, por sua vez, mesmo após três levantes derrotados (1919, 1921 e 1923), continuava sendo a principal força social e política do país. Uma política justa por parte da direção do proletariado poderia ter barrado o caminho de Hitler ao poder e transformado a crise terminal da república de Weimar numa terceira revolução alemã, ou ao menos impedido a ascensão do nazismo.

Poderia não quer dizer que certamente seria. Mas é preciso saber que esteve colocada essa possibilidade. A vitória do nazismo nunca foi inevitável. 
O putsch da cervejaria, em 1923, deveria ter servido de alerta para a esquerda alemã... 

Ela ocorreu por uma complexa combinação de fatores, em que um dos mais importantes foi a política adotada pelo KPD stalinizado, que considerava a social-democracia como a principal inimiga da classe trabalhadora e por isso se recusava terminantemente a realizar com ela qualquer frente única para barrar a ascensão de Hitler.

...A fase de crescimento vertiginoso da influência do nazismo coincide no tempo com o que o stalinismo convencionou chamar de terceiro período. O termo foi cunhado em 1928 e corresponderia ao período de agonia final do capitalismo, etapa na qual o capitalismo seria fatalmente destruído pela revolução proletária. 

A conclusão lógica dessa avaliação foi que as massas se encontravam em um gigantesco ascenso, e que, portanto, toda e qualquer frente com outras forças e movimentos deveria ser descartada. Os partidos comunistas deveriam marchar sozinhos, rumo à tomada do poder. 
...assim como a componente golpista da paralisação dos caminhoneiros não acordou nossa esquerda 
Qualquer frente ou acordo seria uma traição e significaria a entrega da revolução. Sendo assim, a luta contra os inimigos internos ao movimento operário deveria ser intensificada e até elevada ao primeiro plano. Desta forma, toda a política dos partidos comunistas deveria ser direcionada contra o principal concorrente dentro do movimento operário: a social-democracia e os partidos socialistas.

Vale a pena lembrar que esta política de delimitação absoluta com os reformistas já havia sido condenada pelo III Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1921, no qual se definiu pela atuação em conjunto, sob certas condições, com os partidos da social-democracia internacional. Esta política de unidade de classe para enfrentamento do inimigo comum entrou para a história com o nome de Frente Única.

Desde a sua elaboração, a política ultra-esquerdista do terceiro período foi aplicada a fundo na Alemanha. Isso significou a recusa a qualquer unidade de ação entre o SPD e o KPD para enfrentar física e politicamente o nazismo. 
Bolsonaro é insignificante demais?

Em todas as situações e em qualquer lugar, a social-democracia era considerada o inimigo principal. O reformismo foi igualado ao nazismo; surgiram e se propagaram expressões estúpidas e rasteiras como social-fascismoala moderada do fascismo (para se referir ao Partido Socialista) e outras.

Como desenvolvimento lógico dessa lamentável teoria, se afirmava que a vitória sobre o fascismo (que se reconhecia como inimigo) não seria possível sem que antes se derrotasse a social-democracia. A social-democracia era, segundo a teoria de Stalin, o pior inimigo, pois estava infiltrada nas fileiras do movimento operário, enquanto o fascismo era um elemento externo e, por isso, menos perigoso.

...a direção do KPD e da Internacional Comunista acreditava que os nazistas, uma vez no poder, se desgastariam tão rapidamente, que isso abriria, quase que imediatamente, a possibilidade de um governo do KPD. Coerente com essa previsão, em 1931 [o dirigente comunista alemão Ernst] Thälmann lança mais uma fórmula: “Depois de Hitler, será nossa vez!” Foi o último erro daquela direção.

Um mês depois da nomeação de Hitler como chanceler da Alemanha, o KPD já estava na ilegalidade, suas sedes estavam destruídas e seus líderes já estavam na prisão. O Partido Nazista, por sua vez, em novas eleições, conquistou a maioria definitiva no Reichstag, com mais de 17 milhões de votos. A vitória nazista estava consolidada. 

...Não seria um exagero dizer que a história não conhece até hoje maior exemplo de estupidez e cegueira política. O preço deste erro foi pago com o esmagamento do movimento operário alemão e com a 2ª Guerra Mundial." 
(trechos do excelente artigo As lições de Trotski na luta contra o fascismode Henrique Canary, publicado
em 2017 no site Esquerda OnLinecuja íntegra 
pode ser acessada aqui)

domingo, 15 de junho de 2014

PROJETOS DISPARATADOS VÊM DE LONGE NA REGIÃO AMAZÔNICA

Numa homenagem do blogue aos projetos megalomaníacos, estapafúrdios e perdulários que a região amazônica tem a sina de inspirar, tanto em tempos de ditadura (Transamazônica) quanto nos de democracia (arena de Manaus), resolvi postar aqui o Fitzcarraldo (d. Werner Herzog, 1982). 

Completo e legendado, resgata as peripécias do inglês Brian Sweeney Fitzgerald, fã de Caruso que se obstinou em construir uma casa de óperas no Alto Amazonas

Ou seja, trata-se de um filme sobre os sonhos malucos que acabam virando pesadelos -neste caso, com a atenuante de não estar associado à mais imunda politicalha (vide aqui). 

A atuação de Klaus Kinski é soberba, embora as más línguas garantam que esteve aquém do seu desempenho nos arranca-rabos com o diretor Herzog... 

Destaque também para a extraordinária Claudia Cardinale, que continua firme e forte no seu 56º ano de carreira; e para nossos inesquecíveis José Lewgoy e Grande Otelo.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A AMBIÇÃO DELIRANTE DE AGUIRRE E O REICH DE MIL ANOS DE HITLER

Aguirre, a cólera dos deuses (1972) -disponibilizado, completo e legendado, na janelinha abaixo- é a obra máxima do diretor alemão Werner Herzog, que começou no dito cinema de arte e marcou forte presença nas décadas de 1970 e 1980. 

Desde então, contudo, sua carreira decaiu miseravelmente. Mas, não deve ser julgado por equívocos como a refilmagem piorada de Vício frenético (levou uma goleada do Abel Ferrara!) e O sobrevivente. Ele chegou a ser muito grande. Deveria ter encerrado a carreira quando não lhe ofereciam mais projetos com os quais tivesse afinidade ou que estivessem à altura do seu talento.

Aguirre continua sendo, até hoje, um dos filmes que melhor flagram a apatia e passividade com que o povo alemão se submete a líderes autoritários imbuídos de ambições desmedidas e destrutivas, acompanhando-os até o mais amargo fim. O paralelo com Hitler e seu Reich de mil anos é mais do que evidente.

Destaque também para a inesquecível atuação do carismático Klaus Kinski, que parece ter nascido para representar o papel de Don Lope de Aguirre -o aventureiro que, quando o fracasso de uma expedição em busca de Eldorado se evidencia, não se conforma com a decisão de Don Pedro de Urzúa (nosso velho conhecido Ruy Guerra), o qual, sensatamente, ordena o retorno. Assume o comando pela força e arrasta a todos para o âmago da selva amazônica, que os tragará.

Os  cenários naturais são majestosos, a ganância ensandecida de Aguirre impacta fortemente os espectadores e o filme é lembrado também pela convivência difícil entre Kinski e Herzog, que o diretor depois esmiuçaria no documentário Meu melhor inimigo (1999). 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

"MOBY DICK" DISSECA OS LÍDERES MESSIÂNICOS E CATASTRÓFICOS

Adaptação cinematográfica clássica de um clássico da literatura, o Moby Dick de 1956 (que vocês podem assistir, completo e legendado, na janelinha abaixo) é praticamente insuperável, em função da excelência da trinca de grandes talentos que reuniu e da perfeita sinergia que se verificou entre eles: 
  • o diretor John Huston, cuja alma de aventureiro lhe permitia valorizar como ninguém as histórias de homens que se propõem desafios quase inalcançáveis e desenvolvem esforços descomunais para concretizá-los -caso também dos fundamentais O tesouro de Sierra Madre (1948) e O homem que queria ser rei (1975).
  • o roteirista Ray Bradbury que, como escritor, foi um dos pais das novelas de sci-fi, tendo praticamente lançado a tendência de enfocar mais as consequências dos avanços científicos sobre os homens e a sociedade, do que embasbacar-se com as geringonças futuristas, como fazia Isaac Asimov. Sem Bradbury não teriam existido Philip K. Dick, Robert Silvelberg, Robert A. Henlein e outros autores que, basicamente, projetaram no futuro, amplificadas, as inquietações e ameaças do presente. Gente desse quilate não trabalha mais para Hollywood, privando o cinema comercial das centelhas de vida inteligente que lhe serviam como álibi para a infinidade de tralhas que despejava nas telas.
  • e Gregory Peck, o ator que parece ter nascido para interpretar o Capitão Ahab. É difícil imaginarmos algum outro ator que tivesse não só a competência artística, mas também o enorme carisma que o papel exige.
A insânia do projeto de Ahab e a liderança messiânica que exerce, envolvendo a marujada na sua idéia fixa e fazendo com que ela marche passivamente para a própria destruição, é o cerne desta obra-prima de Huston. 

Neste sentido, pode-se dizer que inspirou outro filme seminal: Aguirre, a cólera dos deuses (1972), de Werner Herzog. E que ambos foram fortemente inspirados por Adolf Hitler, o homem que mesmerizou o povo alemão e arrastou-o para o mais amargo fim.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

UM FILME NA CONTRAMÃO DO JUVENILISMO OPORTUNISTA

O diretor alemão Werner Herzog, hoje com 71 anos, é um grande talento que não encontra mais espaço para fazer grandes filmes. Dá vontade de chorar quando comparo Aguirre, a cólera dos deuses (1972) com tralhas caça-níqueis como O sobrevivente (2006).

Na contramão dos críticos, considero No coração da montanha (1991), que vocês podem ver completo e legendado na janelinha abaixo, como sua última obra-prima. 

É de arrepiar! Numa fase em que o cinema já mimava despudoradamente os jovens, por serem eles os maiores consumidores do produto  filmes, Herzog foi na direção contrária. [A coisa é tão patética que a novela no qual se baseou o filme Fuga do Século 23, dirigido por Michael Anderson, estabelece 21 anos como o limite da vida no futuro, em função da escassez de recursos. O filme, contudo, preferiu fixar em 30 anos a idade em que as pessoas tinham de ser executadas, para não assustar a  clientela...] 

Um aclamado alpinista por vocação e paixão (Vittorio Mezzogiorno), já quarentão, entra em confronto com um jovem (Stefan Growacz) interessado apenas em colher os frutos do sucesso: grana & fama. Para tornar a disputa mais dramática, o novo fica com a mulher (Matilda May) do velho.

Ambos acabam travando um duelo mortal ao escalarem, cada qual por uma face, um dos picos mais perigosos do mundo. Um tem a ambição e o vigor, o outro a afinidade com a natureza adquirida num longo convívio e as habilidades desenvolvidas à custa de haver sempre amado aquilo que fazia. 

De quebra, Herzog fustiga com suas alfinetadas mais cáusticas a indústria cultural.

As performances e personagens de Mezzogiorno e Donald Sutherland são simplesmente inesquecíveis.

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