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sábado, 17 de maio de 2025

DURANTE A DITADURA, POR AMÁ-LO NÓS ÉRAMOS ESCORRAÇADOS. DESISTIREMOS AGORA DO BRASIL DE MODO PRÓPRIO?

"Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou
estrangeiro, estrangeiro no meu lar" (Boal e Garnieri)
É cada vez maior o número de parentes, conhecidos e amigos  cujos filhos estão participando de intercâmbio com outros países ou já se fixaram definitivamente no exterior. E tal possibilidade começa a ser um pesadelo para mim também. Reflitamos sobre o assunto.

Em termos teóricos, só há uma posição verdadeiramente defensável, a de que temos todos um compromisso moral com nosso povo sofrido, de permanecermos aqui e tentarmos fazer deste um país do qual nos orgulhemos, ao invés de nos causar profundo desencanto e enormes preocupações.

Mas, não serei eu a me colocar num falso pedestal, como se tivesse sempre pensado assim. Ao sair das prisões militares na década de 1970, também flertei com a ideia de dar o fora, pois não suportava o fato de que até 1969 percebia-se uma surda insatisfação do povo (em especial a classe média) com a ditadura militar, mas tal sentimento alterou-se diametralmente com o (mal) dito milagre brasileiro.

As pessoas comuns geralmente tinham medo de recriminar publicamente o regime dos generais, mas nas suas conversas havia sempre críticas mais ou menos veladas à vida que estavam levando sob o arbítrio ditatorial. 

Clandestino e caçado em todo país, com meu retrato nos cartazes de procurados, era gratificante para mim sentir que estava indo ao encontro  dos sentimentos da minha gente. 

Apesar de as perspectivas pessoais serem muito ruins (as chances maiores eram a de ser morto ou sofrer as piores torturas nos porões do regime), em nenhum momento cogitei aceitar a fuga para o exterior, que os coitados dos meus pais faziam até o impossível para viabilizar. 

Recebia por meio de pombos correios insuspeitos suas mensagens desesperadas e respondia  rechaçando as propostas e os consolando na medida do possível.
Então, quando a chance de comprar fuscas a prestação, lucrar uma merreca na bolsa de valores  e ter acesso a alguns itens de consumo rasteiro bastou para mudar os humores de contingentes significativos de brasileiros. vendo brotarem como cogumelos os cartazes de Ame-o ou deixe-o, lamentava profundamente a morte de companheiros queridos para quê... para ISSO?

Quanto mais o balanço das forças, em termos militares, se desequilibrava em nosso desfavor, mais convicto eu ficava de que melhor seria morrer lutando do que recuar juntamente com os pusilânimes. 

Ainda assim sobrevivi e, libertado em frangalhos, fui superar os traumas numa comunidade alternativa para a qual me convidaram antigos companheiros secundaristaa. Durante um ano recuperei as forças e  o bom ambiente entre quatro paredes me permitia ignorar que, fora delas, o Brasil que eu amara ia deixando de existir.

Quando a comunidade se dissolveu e tive de encarar aquela realidade detestável, morando com a companheira numa quitinete e amaldiçoando meu trabalho numa agência de comunicação empresarial, novamente cogitei o exterior como alternativa. Mas, já não tinha contatos que me permitissem viajar com segurança enquanto meus processos ainda  tramitassem nas auditorias militares. 
Ademais, caiu-me a ficha de que nem sequer conseguiria tirar passaporte italiano, embora meu avô paterno fosse de tal nacionalidade. Não tinha como comprovar isto com documentação  de lá nem como pagar a tradução de toda a papelada daqui para aquele idioma.

Resignei-me a esperar, mas aí foi tarde demais: os militares já não conseguiam fazer a economia brasileira crescer no ritmo necessário e dava para perceber que, mais dia, menos dia, devolveriam o abacaxi para os civis. 

A esperança em dias melhores ressurgiu. E logo eu estava comparecendo a cada uma das manifestações pelas diretas-já em São Paulo, até receber novo balde de água fria quando a emenda Dante de Oliveira foi rejeitada por uma Câmara Federal tão desfigurada como a atual.

Ou seja, eu também teria debandado se pudesse, principalmente na segunda metade da década de 1970. Mas, não sem dor no coração nem seduzido pela possibilidade de enriquecer; apenas por detestar o que o Brasil se tornara e não estar vendo perspectivas de melhoras. Quando estas surgiram, ainda que meio ilusórias, desisti definitivamente da evasão. 

O inesquecível futebolista Sócrates, face à perspectiva de ganhar rios de dinheiro na Fiorentina, prometeu, em plena manifestação das diretas-já no Vale do Anhangabaú, recusar a proposta italiana e permanecer no Brasil para reconstruir o país caso a eleição direta para presidente fosse restabelecida. Para mim também a perspectiva de livrar nosso povo da ganância capitalista era muito mais atraente que a de ser um estranho numa terra estranha.

Mas, talvez pelo fato de o Brasil, em termos gerais, estar agora pior ainda do que no século passado, serei sempre o primeiro a recomendar a nossos jovens que pensem um pouco no que estão deixando para trás: uma terra tão devastada que até a picaretagem religiosa e a loucura furiosa da ultradireita passaram a sensibilizar muitos cidadãos cujos cérebros foram bem lavados. 

E o que é pior: a esquerda que ora prevalece é a mais inadequada possível, empenhada apenas em maquilar o capitalismo, tornando-o palatável para os explorados, humilhados e ofendidos, ao invés de recolocar em pauta a substituição dessa competição canibalesca de todos contra todos pela priorização do bem comum e da união das gentes para a instauração de um regime de liberdade e justiça social plenas.

Em 1968, uma canção da peça Arena conta Tiradentes constatava: Eu sou brasileiro, mas não tenho meu lugar/ pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.

Fico me indagando se um dia os brasileiros teremos de conversar com nossos filhos e netos nos idiomas das nações prósperas que os acolhem.

Só seremos realmente felizes quando voltarmos a ser donos do nosso nariz e do nosso país, ao invés de nos conformarmos em virar estrangeiros em lares alheios. (por Celso Lungaretti)  

domingo, 22 de setembro de 2019

JÁ NEM ME LEMBRAVA DESTE CONTO SCI-FI QUE ESCREVI BEM LÁ ATRÁS. MAS, É COMO DISTOPIA QUE O AMANHÃ SE DELINEIA...

Por Celso Lungaretti
O jornalista Hélio Fernandes, irmão do Millôr, dizia ser capaz de escrever um jornal inteiro, desde o editorial até os necrológios.

Por obrigação ou diversão, acabei também fazendo quase tudo com a palavra escrita: autobiografia, textos jornalísticos, cases, discursos, teses, manifestos, panfletos, crítica artística, ensaios, crônicas, poesias, roteiros, etc.

Como este conto de umas quatro décadas atrás, quando eu era devorador compulsivo das obras de Philip K. Dick, Robert Heinlein, Kurt Vonnegut Jr., Richard Matheson, Robert Silverberg e Ray Bradbury.

Desde então, as ameaças à humanidade só aumentaram, o que o faz, para infelicidade minha e de todos que estão cientes de quão sombrios são cenários que nos esperam adiante, até mais pertinente do que então... 
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GARGALHADA NO INFINITO
Contar ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. “E eu, quão repulsivo deveria parecer?” – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. A produção de cereais era cada vez menor. Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

“Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?” – propôs Druso. 

“Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação...”

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação. Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. “Ou eu estava deliberadamente me alheando?”

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos.

Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.

Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo. Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. Pai da Astronave, Arquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável. 
Ao amanhecer, enquanto Ilana dormia profundamente, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.

Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. “Não merecemos sobreviver”, constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.

E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. “Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo” – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o vôo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. “Céus, quanto tempo desperdicei!” – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.

sábado, 17 de novembro de 2018

"PARECE QUE O BRASIL SOFREU LAVAGEM CEREBRAL COLETIVA", DIZ O RICARDO KOTSCHO. ACERTOU NA MOSCA!

 A ERA DA MEDIOCRIDADE EM MARCHA
Escrever sobre o Brasil neste momento não é só doloroso, é inútil.

Para dizer bem a verdade, não tenho mais nada de novo a escrever para vocês hoje.

Estamos sendo governados pelo piloto automático desgovernado deste trem fantasma chamado Brasil, rodando sem destino pelo sanatório.

Será que nada mais é capaz de nos causar espanto?

Já nem sei mais o que comentar sobre o presidente eleito.

Agora que vocês já o conhecem, depois de o eleger, entendam-se com ele.

Pensando bem, acho que nem sou mais daqui, não estou mais reconhecendo meu país.

Se tem um traço comum na cabine de comando desse trem fantasma é a mediocridade.

Há também claros sinais de insanidade patológica. 

Mas, o que mais me assusta no novo governo é a total ausência de um mínimo conhecimento sobre os reais problemas brasileiros.
Até para pilotar um caminhão, exige-se exame psicotécnico. Para governar o país, não.

Perto de alguns dos ministros nomeados, Cabo Daciolo até que é um sujeito bem equilibrado, quase normal, como escreveu Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo.

A Era da Mediocridade está em marcha acelerada no Brasil, como se pode notar não só nas declarações dos novos governantes, mas também nos comentários dos seus milicianos nas redes sociais, cada vez mais convictos e celerados.

Parece que o Brasil sofreu uma lavagem cerebral coletiva.

Só isso pode explicar a indicação desse místico bolso-trumpiano como chanceler de um país de 208 milhões de habitantes.

Disposto a ressuscitar a Guerra Fria, já é motivo de chacota na mídia global, mas por aqui até acham tudo muito bonito, muito natural, até pitoresco.

Ernesto Araújo é o nome dele, guardem bem este nome. Vocês ainda ouvirão falar muito nele.

Foi o cara escolhido pela família Bolsonaro, no terceiro escalão do Itamaraty, para declarar guerra ao mundo, começando por Cuba, um dos símbolos da Guerra Fria, que acabou faz tempo no resto do mundo.

“Bolsonaro com amor e com coragem”, escreveu ele na nota em que comunicou aos colegas a sua indicação para chefiar o Itamaraty.

É preciso mesmo muita coragem para nomear alguém como o embaixador Araújo, que se fantasiou de bolsominion durante a campanha para fazer campanha pelo capitão.

São as suas credenciais, sem falar no inacreditável blog em que atribui a globalização ao marxismo cultural.

As primeiras vítimas não são os 8,5 mil profissionais de saúde cubanos, que o capitão reformado prometeu expulsar do país, mas sim os seus pacientes, que nunca tinham visto um médico na vida nas nossas periferias e grotões.

Leio na coluna de Monica Bergamo que até 50 mil pessoas podem morrer precocemente, antes dos 70 anos, com a eventual paralisação do programa Mais Médicos e o congelamento dos recursos para a saúde.

Não se trata de um genocídio anunciado? A Confederação Nacional dos Municípios já prevê que a saída dos cubanos pode provocar um estado de calamidade pública na saúde.
Quem se preocupa com isso? Como já completei 70 anos, poderia dizer, se eu tivesse votado no capitão, que estou no lucro, ainda tenho plano de saúde, e nunca fui atendido por um médico cubano.

Mas, para pelo menos 24 milhões de brasileiros, a saída abrupta dos médicos cubanos pode provocar um apagão na saúde pública.

Azar dos prejudicados: foi assim que pensaram milhões de alemães, quando um militar de baixa patente, esquisito e obscuro, de bigodinho e topete, foi eleito para governar o país, e logo se transformou no Führer que declarou guerra ao mundo.

“Não é problema meu”, diziam seus seguidores, antes que ele começasse a quebrar tudo no próprio país, durante a tristemente célebre Noite dos Cristais (a estréia oficial do nazismo), que acaba de completar 80 anos.

A Era da Mediocridade não deixa espaço para dúvidas, receios, argumentos em contrário, alertas.

Qualquer crítica à nova ordem é recebida como mimimi dos que perderam a eleição.

Para a metade do eleitorado brasileiro que elegeu o capitão reformado, a guerra não acabou; ao contrário, está só começando.

Semana passada, no Rio, um ex-ministro dos governos petistas tomou um baita susto ao caminhar pela orla da praia.

Distraído, viu um marombado atiçar seu pitbull em cima dele, e sair dando gargalhadas.

Ele não sabe até agora se o dono do cachorro o reconheceu, ou se foi só por pura maldade contra um velhinho inofensivo

É assim que o horror se instala, aos poucos, sem muita sutileza.

Quando as pessoas se derem conta dos perigos que corremos, poderá ser tarde demais.

Anestesiada, a sociedade civil permanece em obsequioso silêncio só vendo o trem fantasma passar triunfante.

E assim começamos mais uma semana, na longa e angustiante espera da posse do presidente eleito.

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
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