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terça-feira, 11 de julho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÍTULO DE EPÍLOGO

 


Ao longo do último mês, este blog publicou dez artigos analisando os dez anos das Jornadas de Junho de 2013, um artigo para cada ano completado. 

Imerso em distorções - sobretudo pelo lulopetismo -, pouco compreendido em sua radicalidade e em sua dinâmica complexa, Junho de 2013 é sem dúvida o mais importante acontecimento social e político do Brasil em décadas. Foi responsável por sepultar a Nova República e o Pacto Conservador urdido no período da democratização, ao mesmo tempo em que implodiu o lulismo e rejeitou por completo o sistema político tradicional. 

Durante um mês o país viveu em suspenso, tudo era possível e uma janela de oportunidades para transformações profundas estava aberta. A baixa organização das forças de esquerda, a perseguição e boicote do lulopetismo, a ação repressiva dos governos locais em conjunto com o governo Dilma e a própria perda de fôlego do movimento foram fatores cruciais para as mobilizações recuarem, sem, contudo, se dissipar o sentimento de insatisfação do povo, sentimento logo capturado por forças da extrema direita. 

Marx já havia analisado em seu clássico O 18 de Brumário de Luís Bonaparte como um levante social pode levar à instauração do mais pernicioso regime reacionário. No caso, ele mostrou como a reação burguesa ao levante proletário de 1848 conduziu a França paulatinamente para o regime ditatorial de Luís Bonaparte, sobrinho do grande Napoleão. A fúria da burguesia francesa diante do ascenso revolucionário era tão grande que, lembra o autor do Manifesto Comunista, até a simples urbanização de ruas passou a ser vista por políticos conservadores como algo socialista. Qualquer semelhança com o Brasil atual em que o simples ato de se vacinar foi taxado de comunista não é mera semelhança, mas apenas a reprodução do comportamento típico das classes dominantes quando tem seu domínio ameaçado. 

E não voltaríamos a ver esse movimento histórico ao longo dos últimos 175 anos? O próprio Nazismo nasce das entranhas fracassadas da revolução alemã e contou, inclusive, com a ajuda providencial da Social-democracia e sua República de Weimar de araque. Nesta, apenas comunistas eram cassados com o rigor da lei, os Hitler da vida passavam curtas durações atrás das grades, um lembrete de que a Justiça é acima de tudo pró-Capital.

Então que o levante social de 2013 tenha desembocado em Bolsonaro é apenas mostra dos caminhos tortuosos da luta de classes no capitalismo e apenas uma visão simplista, linear, não dialética da processualidade histórica pode deduzir da luta pelo Passe Livre a mortandade da Pandemia. Até porque tal forma de leitura, apoiada pelo lulismo, desconsidera as ações e omissões gravosas feitas pelo PT e pela esquerda ao longo do período. 

A esquerda, inclusive, até hoje não aprendeu as lições de 2013, não por falta de capacidade cognitiva, mas por impossibilidade objetiva. Compreender 2013 e tirar de lá as consequências adequadas seria força-la a renunciar ao projeto liberal de minoração de danos do capitalismo e assumir uma posição revolucionária e radical. Ou seja, seria abandonar de vez a ideia de administrar a falência capitalista mediante medidas estatais, cotas, bolsas, auxílios, empreguinhos, etc. e ir à raiz do problema: a existência da propriedade privada dos meios de produção. Mas isso significaria abrir mão de privilégios, cargos, emendas, a vida boa que a política burguesa proporciona e isso é inadmissível para a turma da esquerda domesticada. No fim, ela quer apenas é ser coparticipante do butim. 

Assim, ela não pode aceitar o significado de Junho de 2013 e precisa necessariamente se pautar em mentiras, mistificações e canalhices ideológicas. Sua corrupção ética a torna avessa à verdade e essa sempre é revolucionária. 

Na realidade, Junho de 2013 ainda não acabou, do mesmo modo que a revolução de 1848 segue inconclusa e o motivo é simples, não poderá nenhum movimento revolucionário chegar a seu termo enquanto houver capitalismo, ou esse será superado ou iremos para outra forma social mais rebaixada. A Idade Média mema foi o rebaixamento social da antiga sociedade greco-romana e podemos estar nos encaminhando para algo semelhante ao longo deste agitado século XXI, se não for encontrado caminho melhor. 

Fica então o convite para a (re)leitura dos dez artigos sobre as Jornadas de Junho de 2013, esperando-se com isso contribuir minimamente para o entendimento da história brasileira recente e dos caminhos possíveis de transformação não apenas deste país, mas de toda a humanidade. (por David Emanuel Coelho) 


PARTE 10: LUTA DE CLASES NO BRASIL 

PARTE 9: O LEVANTE VERDE E AMARELO

PARTE 8: DILMA NO LABIRINTO 

PARTE 7: O LEVANTE NACIONAL 

PARTE 6: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

 PARTE 5: A TÁTICA BLACK BLOC

 PARTE 4: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

PARTE 3: A LUTA PELO PASSE LIVRE

 PARTE 2: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 PARTE 1: A QUESTÃO URBANA 



terça-feira, 20 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 8: DILMA NO LABIRINTO

 

DILMA NO LABIRINTO 


Dilma nunca foi uma grande presidente. Já tinham ficado para trás seus anos de guerrilheira quando ela foi tirada da cartola por Lula para sucede-lo na Presidência da República. Naquele momento, ela era muito mais lembrada por seu papel de burocrata, por ter alijado Marina Silva do governo - em uma queda de braço por Belo Monte - e por ser a Mãe do PAC, o fracassado programa de obras públicas urdido no segundo governo Lula. 

Nunca havia ocupado cargo eletivo e tão pouco possuía raízes profundas no PT. Após os sucessivos escândalos dos dois governos de Lula, os nomes da alta cúpula do partido haviam se queimado um após o outro, notoriamente José Dirceu, José Genoíno e Antônio Palocci. Com isso, o atual presidente se viu fortalecido dentro da agremiação e, decidido a prosseguir com a mão no leme, escolhe uma sucessora sem brilho próprio. 

Com o trunfo de ser a primeira mulher a chegar à presidência, Dilma buscou mostrar no início de seu governo que não era um simples poste lulista, mas possuía vida própria e, sobretudo, ideias próprias. Logo de saída tratou de exumar o nacional-desenvolvimentismo de seu ocaso de mais de décadas, para isso recorrendo a medidas artificiais, como isenção fiscal e baixa de juros. Sem base econômica e social para levar adiante o projeto, seu plano acabou sucumbindo. 

Pela Copa, ela se unia a companhias nada
recomendadas. 

Muito se atribui a crise econômica da década passada às ações da ex-presidente. Contudo, tal diagnóstico é superficial, pois não leva em conta os efeitos da crise de 2008 no Brasil. Deflagrada nos EUA, a crise logo se alastrou aos países da Europa e do Oriente Médio, nesses últimos devido, sobretudo, à brutal queda no consumo estadunidense do Petróleo, fato responsável por desencadear a Primavera Árabe entre os anos de 2010 e 2013. 

Na América Latina, os efeitos da depressão a princípio não foram sentidos em toda a sua força graças ao fator China: esse país desacelerou seu crescimento econômico no período, mas ainda manteve taxas elevadas, as quais, contudo, foram decrescendo ano após ano. Assim, por exemplo, em 2011, primeiro ano de Dilma no poder, a China cresceu 9,55%, já em 2016, ano do impeachment, o crescimento foi de 6,85%. Essa mudança na economia chinesa é importante a se considerar porque desde a década de 2000 esse país passou a ser o principal destino dos produtos agrominerais brasileiros, tendo sido graças à sua voracidade que o segundo governo Lula pode contar com uma entrada maciça de dólares, garantindo redução no custo de vida no período e relativa ascensão social. 

Mesma lógica é vista no caso do Minério de Ferro, um dos principais produtos de exportação do Brasil. Em 2010, a tonelada era vendida a 163 dólares. Na época do Impeachment havia baixado a 55 dólares. Ou seja, ocorreu forte recuo da quantidade de entrada de dólares no país pela mesma quantidade produtiva. Dito de outra forma, o país empobreceu e, sem dólares suficientes em um contexto de super dependência da importação de bens industrializados, o custo de vida acelerou. 

Na realidade, a ex-presidente sentiu em seu mandato os efeitos da crise, somados ao acúmulo das contradições de décadas do modelo econômico e social do país. Lamentavelmente, tudo foi explodir justamente quando no poder se encontrava alguém tão inábil politicamente quanto a Dilma, pois suas ações também foram absolutamente desastradas.

Era possível mesmo que isso desse certo?

A princípio, diante da convulsão nacional, ela se calou. Limitou-se a operar no plano repressivo, longe dos holofotes, enviando forças militares e policiais para ajudar os Estados no processo de combate aos manifestantes. À medida que a situação crescia exponencialmente, confabulou com seu grupo mais privativo do poder - o único ao qual ela recorria com frequência em seus três anos de governo - e resolveu lançar 5 Pactos:

Responsabilidade Fiscal

Reforma Política

Transporte Público

Saúde 

Educação

De modo sintomático, os pactos se iniciaram com a preservação do sistema econômico urdido pelo plano real e sua necessidade de austeridade fiscal. De fato, ao colocar esse ponto como o principal, Dilma praticamente anulava os três últimos, pois seria impossível - como de fato se mostrou - cumprir qualquer demanda de melhoria nos transportes, na saúde ou na educação preservando o modelo neoliberal em vigor no país. 

Restava, portanto, apenas o segundo pacto, de reforma política. Espertamente, a ex-Gerenta lançava mão do mesmo mecanismo politicista já usado no Brasil desde o fim da ditadura, o de conduzir as insatisfações populares das ruas para o terreno seguro da institucionalidade. Lendo corretamente a falência do sistema político nacional, o lulopetismo apostava em sua reformulação para acalmar a ira do povo. Desse modo, sairiam de cena as demandas sociais e econômicas e ficaria apenas a questão política.

Encaixotada pelo Pacto Conservador,
Dilma tentava seguir a mesma lógica de sucesso
de Lula. 

Em resumo, Dilma deixava intocado o modelo econômico do país e oferecia em troca uma possível oxigenação do modelo político. Seria uma forma de rearranjar a estrutura de dominação no país, substituindo a carcomida República Nova por outra coisa. 

O que teria saído daí, jamais saberemos, pois a proposta dela foi de fazer uma reforma por intermédio de uma Assembleia Constituinte Exclusiva, que trataria unicamente da reforma política. Tão rápido quanto ratos emergindo do esgoto, contudo, todo o banditismo da política nacional se uniu contra a proposta e fez terrível pressão para que o plano fosse abandonado, o que Dilma logo assentiu, pateticamente. A ideia da Assembleia foi substituída por um projeto de lei para logo em seguida cair no esquecimento. 

Assim, sem reformas sociais ou políticas, Dilma passou a viver em um limbo. Não tinha nada a oferecer aos manifestantes e também havia se tornado definitivamente detestada entre a turba da política institucional. Ainda conseguiria vencer as eleições de 2014, graças a mentiras e ao resto de apoio popular, sobretudo no Nordeste, mas não resistiu ao Impeachment após praticar flagrante estelionato eleitoral contra os trabalhadores.

A rigor, as ações de Dilma durante as Jornadas de 2013 são expressão cabal do próprio movimento do lulopetismo. Diante da insurreição popular, se compôs inequivocamente com a burguesia nacional na preservação do status quo econômico e social, mas, ao mesmo tempo, tentou estabelecer outro processo de conciliação de classes pela via da reforma política. Ao fim, fracassou na recomposição do processo conciliatório e deixou nas massas, de forma indelével, a marca da traição. Como resultado, o lulopetismo perdeu por completo o apoio da classe trabalhadora urbana, das grandes metrópoles, resultando na quase derrota de 2014, no desastre de 2018 e na vitória na bacia das almas de 2022.

Sem nenhuma surpresa, as duas criaturas de Lula
foram dois completos desastres. 

Medíocre, truculenta, inexperiente e encaixotada pela camisa de força do Pacto conservador pós-ditadura, Dilma não pôde dar respostas ao movimento insurrecional surgido no país. Sua visão tecnocrata não lhe permitia admitir que a mobilização popular pudesse ser canal de mudanças. Acabou tendo um fim trágico e hoje é mantida pelo lulopetismo apenas pela força da conveniência, igual se mantém uma parente inconveniente unicamente por força dos laços familiares. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 

sábado, 17 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 7: O LEVANTE NACIONAL



O LEVANTE NACIONAL 


 Após o massacre perpetrado pelas forças policiais de São Paulo na quinta-feira, dia 13 de Junho, a população brasileira se indignou profundamente e manifestações começaram a ser convocadas em todo país. 

Dia 17 de Junho de 2013 pode ser considerada a data chave para as manifestações em nível nacional. Naquele dia, milhões de pessoas tomaram as ruas das grandes, médias e pequenas cidades para mostrar seu descontentamento com a ação arbitrária contra os manifestantes de São Paulo e demandar melhores condições de vida. A contagem da mídia e das autoridades é enviesada, pois apenas metrópoles como Belo Horizonte e Rio de Janeiro contaram com número superiores aos cem mil nas ruas.

Em Brasília, a cúpula exterior do Congresso Nacional é tomada por milhares de manifestantes. Ao contrário do 8 de janeiro de 2023, os manifestantes não depredaram a sede do poder legislativo, mesmo estando em número milhares de vezes maior que os pouquíssimos gatos pingados bolsonaristas. Lá subiram pacificamente, com cartazes e palavras de ordem em uma forma clara de exigir da classe política nacional o cumprimento de suas demandas. 

Em todas as capitais, grandes manifestações são registradas, com milhares e até milhões de pessoas tomando os logradouros públicos. De acordo com pesquisas da época, a maioria esmagadora - cerca de 70% - dos manifestantes tinha entre 15 e 25 anos, ou seja, eram adolescentes e jovens mostrando sua insatisfação. Importante notar o quanto esse quadro é destoante do que viriam a ser as manifestações direitistas, formadas majoritariamente por pessoas de meia idade - por volta de 45 anos - e mesmo os atos bolsonaristas, dominados pela terceira idade. É como se a juventude estivesse lutando pela mudança e a velha guarda estivesse na reação, se posicionando pelo antiquado. 

Esse quadro etário também desmente a propaganda lulopetista de que os manifestantes de Junho de 2013 eram fascistas ou foram a base para o bolsonarismo. Na realidade, aqueles manifestantes foram dramaticamente derrotados pelo governo Dilma, dando passagem à tomada da dianteira da insatisfação popular pela direita fascistóide. 

A principal característica de todas as manifestações ao redor do país era a aspiração pelo cumprimento das promessas inscritas na Constituição de 1988, ou seja, a plena execução dos direitos cidadãos à saúde e à educação, sobretudo. Contudo, implicitamente havia um ultimato ao próprio capitalismo brasileiro, pois as demandas populares só poderiam ser cumpridas se viesse abaixo o Pacto urdido na República Nova e fossem feitas reformas profundas na estrutura social e econômica do país. 

Enquanto portador maior do Pacto conservador, o lulopetismo não titubeou: assumiu o lado da burguesia e descambou forte campanha criminalizadora contra os manifestantes, além de fazer todos os esforços em apoiar a repressão. Dilma colocou nas ruas do país tropas do Exército e da Força Nacional de Segurança a fim de cooperar no esforço dos governos locais em conter a revolta.

Ao mesmo tempo, soou o alarme da classe capitalista brasileira através de sua mídia. Tendo a princípio assumido o discurso repressor, a imprensa burguesa mudou de tática diante do crescimento contínuo dos atos. Ao invés de simples condenar os atos, ela passou a usar dois métodos: por um lado, começaram a separar os manifestantes entre os bons - ordeiros, pacíficos - e os maus - baderneiros, vândalos infiltrados; de outro, passou a disputar a pauta das manifestações, trazendo a temática da luta contra a corrupção e colocando as questões econômicas e sociais em segundo plano.

Na época, se discutia no Congresso Nacional a PEC 37, um projeto de lei que visava ampliar o controle externo do Ministério Público. Nas manifestações ninguém havia elegido a luta contra a referida PEC uma pauta importante, pois era um assunto pouquíssimo debatido, mas acabou se tornando, para a mídia, a principal bandeira a ser entregue aos manifestantes. Assim, a luta moralista tomava o lugar da luta social, um prenúncio do processo vindouro da lava jato. 

Sintomático desse processo de mudança tática da mídia é o papelão desempenhado pelo medíocre Arnaldo Jabor. Cumprindo fielmente o script determinado por seus patrões da Globo, em primeiro lugar ele aparece em vídeo atacando os manifestantes e se perguntando se toda aquela violência era mesmo por 20 centavos. Posteriormente, diante da nova tática, se retifica e passa a defender as manifestações, mas com a pauta anticorrupção. 

Ou seja, se uniram na luta contra os levantes populares o lulopetismo, através de sua militância e do governo Dilma, e a mídia burguesa. À burguesia ficou claro que o lulismo não tinha mais o controle das massas e que agora era preciso reconstruir um processo de dominação e controle do povo. Esse processo, a rigor, começou ali com as pautas vazias anticorrupção e continuou nos anos seguintes até se cristalizar com o bolsonarismo, embora esse tenha se mostrado incontrolável por demais. 

A rigor, a mídia criou o ideário, disseminado até hoje, de que os manifestantes não possuíam pautas claras, de que os atos eram dispersos e sem foco, implicando implicitamente que apenas a pauta anticorrupção, introduzida por ela, teria validade. Na realidade, os atos questionavam de forma radical e muito bem estruturada toda a lógica excludente do capitalismo, em particular o modo como esse se configura no Brasil. 

De qualquer forma, naquela semana do dia 19 de Junho o Brasil começava um período crítico de possibilidades revolucionárias, tendo todas o país ficado em suspenso. Viveram-se ali aqueles períodos únicos na história em que tudo de sólido se desmanchava e em que tudo era possível de acontecer enquanto a história se acelerava bem diante de todos. (por David Emanuel Coelho) 



LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 


sexta-feira, 16 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 6: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

 

O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

Um fato claro nas manifestações de Junho de 2013 foi o rechaço absoluto à política institucional. Não apenas a recusa da presença de bandeiras partidárias, mas também o ódio aos políticos e a qualquer tipo de presença de organizações associadas ao sistema político nacional marcaram a irrupção do movimento em todo o país. 

Esse elemento, inclusive, é diferenciador das experiências passadas de manifestações populares no Brasil, quando era comum a presença maciça de organizações partidárias e de palanques. As Diretas Já são o exemplo paradigmático do modo de manifestação na história brasileira, com o formato de comícios em que políticos se revezavam em discursos enquanto o povo apenas ouvia sem agir diretamente. 

As Diretas também podem ser encaradas como um marco importante no processo de consolidação da República Nova e seu pacto conservador, pois incluiu forças políticas díspares indo desde o liberal Tancredo Neves, da oposição consentida à ditadura, até o operário Luís Inácio, passando por Leonel Brizola, todos unidos em torno da legitimação do processo transitório urdido pelos militares.

Assim, é bem simbólico que a ruptura com o Pacto Cidadão tenha ocorrido com o rechaço absoluto aos políticos e a seus comícios alienantes. 

Na realidade, a institucionalidade política está em degradação ao redor do mundo inteiro graças ao fenômeno da oligopolização econômica. No período clássico do liberalismo capitalista, a existência de pequenos e médios burgueses fazia acirrar a competição no mercado e criava vários grupos de interesse em confronto na arena política. A disputa entre esses grupos tornava as instituições estatais permeáveis à pressão popular, pois cada agrupamento buscava se chancelar junto a um segmento do povo. Igualmente, é nesse período que a socialdemocracia ascende na Europa representando a classe trabalhadora na equação das disputas políticas. 

Contudo, a situação muda com a reorganização neoliberal do capitalismo. Os pequenos e médios burgueses desaparecem, engolidos por mega corporações multinacionais. Os sobreviventes passam a ser meros prestadores de serviços das empresas maiores, sem autonomia. Os antigos burgueses se tornam trabalhadores precarizados ou vão viver de bicos cinicamente rotulados como empreendedorismo pelo grande capital. A homogeneização da economia acaba com a competição no mercado, pois, embora existam diferentes produtos e marcas, todas elas pertencem aos mesmíssimos grupos.  

O resultado político é o fim das grandes disputas políticas na sociedade. As poucas corporações compram praticamente todos os políticos, da esquerda à direita, e passam a controlar a agenda institucional tornando o Estado impermeável às reivindicações populares. Ou seja, a política passa a existir em função exclusiva dos interesses dos oligopólios. Os poderes executivo, judiciário e, sobretudo, o legislativo são totalmente dominados pelo poder do grande capital, tornando qualquer demanda popular praticamente impossível de ser apreciada. 

Pelo contrário, o que ocorre é uma enxurrada de medidas destrutivas ao interesse popular, com reformas trabalhistas, ataques ao meio ambiente, flexibilizações de benefícios sociais, privatizações, além de toda sorte de maracutaias associadas ao processo, instalando um clima de corrupção endêmica e baixíssimo grau de participação popular. 

As eleições se tornam meras chanceladoras de um único modelo político e o debate fica em segundo plano, imperando tão somente o uso ostensivo do marketing e da manipulação para vender o candidato. No fim, em cada eleição há uma disputa vazia em que nada de essencial se muda. Os partidos se revezam no poder com a aparência de serem forças opostas e inimigos mortais, mas, no fim e ao cabo, expressam e representam o mesmo grande capital, governando de modo praticamente idêntico. 

No Brasil, após o impeachment de Collor, se cristalizou uma oposição artificial entre PSDB e PT que cumpria rigorosamente o descrito acima, aparentar uma disputa e um revezamento político quando nenhuma diferença essencial existia entre eles. Na realidade, uma mesma linha mestra conduz os governos FHC, Lula e Dilma, uma linha continuada, com variações, por Temer e Bolsonaro e agora prosseguida com Lula 3.

Diante desse cenário, a população brasileira passou a sentir terrível frustração com a política institucional. Eleição após eleição, promessas eram feitas, grandes esperanças mobilizadas, mas nenhuma mudança concreta ocorria. O caldo da insatisfação foi crescendo paulatinamente até tomar proporções titânicas em Junho de 2013.

Os levantes significaram a derrocada completa do sistema político brasileiro que caducou de forma irreversível. O descolamento entre o povo e seus supostos representantes chegou a um nível tão profundo que a população não mais se reconhecia neles e esses tão pouco conseguiam entender os reclames populares. Décadas de engorda em palácios com reuniões fechadas, convescotes e acordões de bastidores deixaram os políticos tradicionais completamente alienados da realidade brasileira, sendo esse caso mais dramático no caso dos políticos de esquerda, rechaçados com ainda mais veemência pelos manifestantes na qualidade de traidores

O rechaço ao sistema político tradicional abriu possiblidades ricas no Brasil, como as experiências horizontais das Assembleias Populares e dos Movimentos Autonomistas. Infelizmente, tais ações tiveram vida curta, sendo esvaziados após o enfraquecimento do ímpeto das manifestações e as perseguições perpetradas pelo governo Dilma em articulação com os governos estaduais aos militantes mais ativos. No saldo, quem iria se beneficiar do sentimento anti-institucional seria as forças de direita, com a operação lava jato e a ascensão do bolsonarismo. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 5: A TÁTICA BLACK BLOC

 

 A TÁTICA BLACK BLOC

Um grupo que chamou a atenção nas manifestações de Junho de 2013 foi o Black Bloc. Sua forma distintiva de se vestir - sempre de preto e encapuzados -, além da disposição de enfrentar a repressão policial logo os transformaram em um dos principais grupos das manifestações.

Não tardou para o lulopetismo e a mídia identificarem no grupo os principais vilões das manifestações. A última começou a estabelecer uma separação entre manifestantes do bem, ordeiros e pacíficos, e manifestantes do mal, vândalos e baderneiros. O black bloc era justamente o manifestante malvado, pronto a praticar depredações e semear o caos. Ambos enxergaram no movimento a explicitação ideológica daquelas aspirações radicais que os manifestantes possuíam apenas latentemente. Ou seja, os black blocs externalizavam, de certa forma, o ímpeto anticapitalista das manifestações e por isso foram eleitos os inimigos número tanto pela exquerda reacionária, quanto pela mídia burguesa. 

Para o lulopetismo, ele representava a rebeldia das manifestações que rapidamente haviam se focado na oposição ao governo Dilma e na repulsa ao PT. Desligados do aparelho burocrático, sem pretensões eleitoreiras ou pautas que pudessem ensejar uma cooptação, os black blocs foram encarados como pura negatividade, diferente de tudo o que viera anteriormente nas lutas sociais, sempre marcadas pelo assistencialismo e o ímpeto reivindicativo dos movimentos.  

Por fim, os black blocs também sofreram ríspida oposição da esquerda não alinhada ao PT, particularmente do PSTU. Nesse caso, o principal motivo foi uma disputa pela vanguarda das manifestações, pois o partido trotskista acabou também sendo rechaçado em suas idas às ruas, por estar identificado aos partidos no geral e mesmo ao lulopetismo, mesmo não sendo parte do campo lulista. Já os black blocs não eram rechaçados, ao contrário, eram bem-vindos pelos manifestantes e sua resistência aguerrida à repressão acabava servindo de inspiração para outros. 

Mas, o que eram os black blocs? Para começar não são exatamente um agrupamento, mas uma tática. Não existe uma liderança black bloc, um coletivo black bloc ou mesmo manifestos black bloc. Qualquer um pode ser um black bloc, bastando para isso estar disposto a seguir os princípios gerais da tática.

Os black blocs surgiram na Alemanha nos anos de 1980 como meio para autodefesa dos manifestantes contra a polícia e forças neonazistas. Em 1999 ganharam projeção midiática graças à sua presença nas manifestações em Seattle, nos EUA,  contra a OMC - Organização Mundial do Comércio. A partir dali o ideário do movimento se alastrou ao redor do mundo, já existindo no Brasil antes de 2013, mas com pouca atenção. 

De inspiração anarquista, os black blocs não possuem uma linha de comando hierarquizada, ficando a organização restrita à espontaneidade de cada manifestação ou momento. Em geral, o grupo age em um processo de autodefesa e mesmo os vandalismos praticados são feitos como estratégia para retardar ou dificultar a ação policial. Assim, por exemplo, lixeiras são queimadas e barricadas montadas para impedir o avanço da tropa de choque. 

Mas existe também um momento ofensivo na tática black bloc quando ocorre o vandalismo performático que se trata da destruição de objetos símbolos do capital e de instituições do Estado. Assim, delegacias podem ser atacadas, guaritas e carros de polícia destruídos, agências bancárias podem ser invadidas e vandalizadas, etc. Nesse caso, o objetivo é aniquilar simbolicamente representações do capitalismo e de seu Estado, tornando sem valor aquilo que é valorado pelo capital e provocando na consciência popular a desacralização da sociedade capitalista. 

Essa ação, inclusive, sempre foi a que mais gerou polêmica, sobretudo com o PSTU. O centro da crítica se resumia justamente ao caráter performático, não efetivo, das ações contra os símbolos do capital, pois a destruição dos objetos e lugares não implicava na destruição efetiva da propriedade privada. Também se argumentava o quanto o vandalismo seria contraproducente para o movimento no geral, pois serviria de munição para as forças repressivas e para o ataque da mídia. 

No entanto, é importante ressaltar que a maior parte dos atos de vandalismo ocorridos em 2013 não vieram dos adeptos da tática black bloc, a qual, inclusive, nem era tão generalizada. Na realidade, o vandalismo era praticado em grande medida por indivíduos comuns, participantes dos atos e que muitas vezes invadiam e depredavam concessionárias de carros, agências bancárias, lojas e mercados no geral. Na maioria das vezes, as pessoas sequer cobriam seus rostos. Vale também considerar que o pequeno comércio era raramente atacado, não sendo incomum encontrar pequenos comércios, bancas de jornal e bares intactos em meio a um rastro de destruição. 

De fato, o impacto dos black blocs dentro das manifestações foi muito menor do que se acredita, pois em manifestações de milhões, eles costumavam ser algumas centenas e sua participação foi mais concentrada às grandes metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Em resumo, ficaram muito mais no imaginário, devido à disposição da ação direta e também à amplificação de sua imagem por parte do lulopetismo e da mídia. 

Seja como for, a tática ficou associada como um dos acontecimentos mais marcantes das Jornadas de Junho de 2013. (por David Emanuel Coelho)

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA

terça-feira, 6 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 1: A QUESTÃO URBANA

OS ANTECEDENTES DE JUNHO DE 2013: a questão urbana 

Em 2013, a população brasileira já era 85% urbana, auge de um processo de crescimento das cidades iniciado com o êxodo maciço das décadas de 1950-1970. Na região Sudeste, a mais populosa, o índice de urbanização passava de 93%, com três grandes regiões metropolitanas à frente, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte

A ocupação dos espaços urbanos durante esse período foi caótica e desigual, com massas de indivíduos ocupando terrenos devolutos, sobretudo à beira de estradas, corredeiras de água e regiões de mata. Mesmo loteamentos regulares ocorriam de forma desestruturada, não raro sem a devida infraestrutura para dar suporte às habitações, além de ficarem longe dos serviços.

A insuficiência crônica do capitalismo brasileiro, dominado pela mais-valia absoluta e pela remessa de valor para os países centrais, sempre tornou o mercado de trabalho deficitário, gerando desemprego massivo. Por isso, muitos indivíduos das cidades brasileiras jamais tiveram trabalho formal, vivendo entre bicos, crimes ou atividades esporádicas. Tal situação viria a piorar imensamente com a derrocada da indústria nacional, que de nacional tinha apenas o nome, pois controlada pelas burguesias dos EUA e da Europa. 

Após a indústria ser transferida pelas burguesias centrais para a Ásia, a economia brasileira entrou em processo de mudança de sua base produtiva, acentuando a natureza extrativista e, portanto, pressionando pela exploração da renda da terra. Esse processo foi acompanhado pelo crescimento do sistema financeiro graças à instituição de mecanismos para conter a inflação que passavam sobretudo por altas taxas de juros capazes de conter divisas no país e manter a taxa do câmbio em patamares aceitáveis. 

O fortalecimento do sistema financeiro foi o grande responsável pela expansão do crédito tanto às pessoas físicas, quanto às empresas, pois mesmo diante de taxas de juros elevadas, a alta liquidez de moeda garantia o processo de financiamento. Sem indústria, as mercadorias passaram a ser importadas, o que no fim não era um problema devido ao câmbio valorizado. 

Nas grandes cidades, a exploração da renda da terra ocorreu mediante a especulação imobiliária. Grandes empreendimentos e grandes obras começaram a substituir antigas comunidades ao mesmo tempo em que inflacionavam o valor de aluguéis resultando no deslocamento de contingentes populacionais para lugares ainda mais distantes e precários. 

Por isso, as periferias urbanas ganharam elas próprias suas periferias, localizadas principalmente nas cidades ao redor das metrópoles. Com serviços e empregos ainda localizados nas áreas centrais, o transporte público passou a ser essencial, com deslocamentos de horas feitos sobretudo em ônibus, já que o transporte ferroviário foi praticamente extinto no país. 

Passagens caras, veículos arruinados, lotados e horários descumpridos são o normal enfrentado por quem depende do transporte público brasileiro. Para fugir da humilhação diária, milhões adquirem automóveis, fato facilitado justamente pela abundância de crédito, o que contribui para a piora da qualidade da vida urbana com o aumento de congestionamentos e da poluição. A própria existência de uma frota maior pressiona pelo crescimento da malha rodoviária e pela construção de estacionamentos, retroalimentando a especulação imobiliária. 

De fato, as contradições nas grandes metrópoles só cresceram, ampliando também as tensões sociais. Para dar conta, o sistema repressivo foi expandido e reforçado, existindo não apenas as forças policiais tradicionais, mas também forças privadas, todas elas militarizadas e armadas até os dentes para uma guerra sem trincheiras. Não é preciso gastar muito tempo para debater sobre o nível de truculência destas forças, bastando lembrar en passant que o Brasil é campeão mundial em violência da polícia. 

Em muitos locais, a única presença do Estado é por intermédio da força policial, rotineiramente fazendo incursões sob o pretexto do combate ao tráfico de drogas. A maioria pobre e negra da população acaba sendo o alvo preferencial da violência e das abordagens sistemáticas, com ou sem causa fundada. Não raro ocorrem chacinas comandadas por agentes policiais e também não é incomum que estes sejam líderes de grupos criminosos dos mais variados tipos. 

Ou seja, as forças policiais acabam se somando a um ambiente de crise, contando como parte do problema e pouco como parte da solução. Não à toa, na explosão de Junho de 2013, a violência policial teve papel preponderante, muito maior inclusive que a questão do transporte público. 

Em resumo, as grandes cidades brasileiras passaram a abrigar o centro das contradições do capitalismo nacional com a precariedade das condições de vida, o subemprego, a violência, o caos do transporte, a ausência ou desestrutura dos serviços públicos e o altíssimo custo de vida. Nesse contexto é que o governo Lula decide sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olímpiadas de 2016, ampliando a especulação imobiliária e escancarando a falta de prioridades do governo para com a população trabalhadora. 

Os megaeventos deveriam ser o coroamento apoteótico do novo Brasil da propaganda lulopetista em que supostamente a miséria, a fome e o atraso teriam se tornado passado. Acabaram, contudo, sendo o pontapé da dissolução desse projeto político, mostrando de fato o quanto ele estava podre e oco. (por David Emanuel Coelho

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DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA REPÚBLICA NOVA 



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