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domingo, 22 de dezembro de 2024

O NATAL QUE NOS DEVE INSPIRAR É O DOS EXPLORADOS, HUMILHADOS E OFENDIDOS

Esqueçam o Papai Noel que a Coca-Cola vestiu com suas cores e representa a apoteose do consumismo! 

que o mundo realmente evoca (ou deveria evocar) no Natal é a saga de um filho de carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados:
  • economicamente, porque pobres;
  • socialmente, porque insignificantes; e
  • politicamente, porque tiranizados.
Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de 6 mil cruzes fincadas ao longo da Via Apia foram o desfecho da epopeia do gladiador trácio que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.
Kirk Douglas, inesquecível como Spartacus

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, contudo inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.
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O RISCO DE CATÁSTROFES E O FANTASMA
DO RETROCESSO CIVILIZATÓRIO
.
O fantasma a nos assombrar agora é o mesmo do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.
"...o capitalismo hoje produz legiões de excluídos..."

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com consequências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas, na beira do abismo, recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Estamos em plena contagem regressiva, encaminhando-nos para o momento em que as contradições insolúveis do capitalismo acabarão desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930; e em que nos veremos gravemente ameaçados pela sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos tais desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.
"...a solidariedade, ao invés do egoísmo..."

O desprendimento, em lugar da ganância; a cooperação, substituindo a competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, caso se mobilizem e organizem tendo o bem comum como prioridade suprema, eles aproveitarão muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade. (por Celso Lungaretti)
O épico de 1960, um filmaço do Stanley Kubrick!

quinta-feira, 9 de maio de 2024

EM 71 CAETANO VELOSO JÁ DIZIA: "TODOS SABEM QUE AS NOSSAS CIDADES FORAM CONSTRUÍDAS PARA SEREM DESTRUÍDAS"

 dalton rosado
A DECADÊNCIA EXPLÍCITA DAS CIDADES
Edifício histórico de Fortaleza, o São Pedro já estava com 
tombamento aprovado, mas em 2021 foi devolvido ao dono
 
Salta aos olhos o nexo causal das mutações sociais em curso, provocadas pela era da terceira revolução industrial da microeletrônica e sua inadaptação às relações sociais próprias ao patriarcado do sistema produtor de mercadorias.  

Em nenhum momento da História houve tão profundas e rápidas transformações de hábitos comportamentais e de produção de mercadorias e serviços em face da inconciliabilidade entre forma e conteúdo nas relações sociais capitalistas como as que estão a ocorrer nos últimos 50 anos.

A tecnologia da era cibernética da microeletrônica trouxe consigo a mais profunda mutação própria ao processo dialético histórico já havido anteriormente... e pode se tornar revolucionária, caso venhamos a compreender o seu uso socialmente necessário.
 
Entretanto, tal inconciliabilidade está a exigir novos conceitos de produção e serviços sociais justamente porque, ao invés de trazer comodidade de vida às pessoas (proporcionada pelos ganhos do saber adquirido), está a causar a decadência social de modo acentuado e perigoso. Todo dia agora se ouve falar em guerra atômica.
Outros edifícios provisoriamente tombados: acabaram
destruídos antes de serem restaurados e reaproveitados

Eis que:
— sabemos ir a Marte e não sabemos como aplacar a fome no mundo, que aumenta cada vez mais;
— sabemos muito sobre genética humana, mas estamos promovendo a destruição da vida por aquecimento do planeta;
 fazemos cálculos antes inimagináveis em segundos e ignoramos os números da tragédia vivida pela humanidade;
 sabemos racionalmente da importância da paz e nos armamos com máquinas da morte cada vez mais sofisticadas para a promoção da guerra, etc.

Ou mudamos o nosso modo de produção e distribuição de bens necessários ao consumo, colocando a tecnologia ao nosso favor, ou vamos sucumbir diante da inviabilidade de vida social configurada na paralisia da falência capitalista e do seu estado mantenedor.

Não se produz porque não se vende, e não se vende porque não se produz. A cobra está a comer a sua própria cauda.

Em qualquer cidade do mundo capitalista, nas quais a cisão social foi sempre perceptível, mais ou menos acentuada dependendo do país, há dois fenômenos visualmente perceptíveis:
Esta é a Fortaleza que não aparece nos cartões postais
 crise habitacional para os pobres e enclausuramento dos ricos nos condomínios de luxo por medo da violência urbana; e
 migração das lojas, dos antigos centros comerciais para os shopping centers.

A questão do fechamento das lojas se prende a dois fatores básicos: as compras pelo sistema de
delivery por aplicativos e o aumento dos assaltos à mão armada. 

A segurança de shoppings centers e condomínios fechados, aliada às compras e serviços que são efetuadas por aplicativos, transformaram os hábitos de uma forma generalizada.

Tudo se faz e se trata via celulares e a comunicação eletrônica por estes aparelhos e computadores é preponderante. Já se conversa com o vizinho de mesa por telefone e, em qualquer fila de espera, 80% de  todas as pessoas que ali estão têm os olhos fixos na telinha.

Advogados peticionam eletronicamente; os processos são digitalizados; as audiências são virtuais e a vida sem interação humana é cada vez mais individualista. Idem, idem para cálculos de engenharia e desenhos arquitetônicos, resultados de consultas médicas e até cirurgias à distância.

Nas grandes fábricas impera a robotização que substitui os operários, que desempregados, mendigam os empregos que sempre os escravizaram, e já não têm força de exigência e pressão por melhores salários, contentando-se com a preservação do emprego cada vez mais precarizado e tremendo de medo face aos frequentes cortes de pessoal.
Grauciano Rodrigues, campeoníssimo surfista
cearense, continua morando até hoje na favela

Na Fortaleza em que vivo há 54 anos e pela qual me apaixonei, a cisão social sempre existiu mas agora toma ares dramáticos.
         
Em contraste com uma Beira-Mar lindíssima, iluminada pelo sol do ano todo e pelas luzes de neon durante a noite com seus prédios luxuosos margeando os belíssimos verdes mares cantados em prosa e verso, notam-se, à pouca distância, a imagem da decadência.

A Praia do Futuro tem um presente de favelização crescente, daí a mercadoria terra não ser acessível a quem ganha salário-mínimo ou vive do bolsa família e agradece aos céus a forte maresia que por lá tudo corrói e afasta os moradores ricaços de um cenário deslumbrante de mar, dunas e praia.

A favelização é também uma tônica nas moradas sem a mínima estrutura urbana de habitação.

Até mesmo nos bairros ricos de uma cidade de cerca 2,6 milhões de habitantes (mas cercada por um cinturão de pobreza), vemos casas sem pintura, lojas fechadas, ruas esburacadas, precária coleta de lixo, homens maltrapilhos carregando carrinhos-de-mãos da coleta de objetos para reciclagem, zumbis viciados e escravizados pelo consumo do crack devastador, insegurança causada pelos altos índices de violência urbana, num cenário que me entristece e aterroriza.

As praças públicas dos bairros elegantes estão tomadas por moradores em situação de rua que improvisam barracos de proteção nesses tempos de chuva no nordeste do Brasil. 
Enésima operação policial que nada resolve na cracolândia 

Em frente à Faculdade de Direito, outrora ambiente solene e de vida política pulsante, pululam abrigos de papelão nas suas marquises, improvisados pelos seres que por ali amargam o seu desespero; idem, na Praça da Bandeira, em frente à velha cátedra.

Nos bairros pobres, de moradas sem esgoto sanitário e ruas mal-cuidadas, as casas sem pinturas emolduram a face triste e perplexa de uma população que sequer compreende o porquê de tanta tecnologia em contraste com a precarização de suas vidas sem perspectivas.  

O fenômeno se repete em todas as grandes cidades brasileiras, numa prova de que não é uma questão de má-administração pública localizada, mas de uma realidade sistêmica.
 
O que dizer de São Paulo, a meca do capitalismo da América Latina, com seus problemas de verdadeiras multidões ocupando espaços para o consumo de entorpecentes, as cracolândias?

Também por lá são comuns as ocupações de espaços por sem-tetos, em contraste com uma Avenida Paulista e suas suntuosas catedrais do mundo empresarial e financeiro.
Moradores de rua acampados no Masp (avenida Paulista)

As quais, vale dizer, servem como moldura da decadência no seu entorno a desfigurar e denunciar a ilusória imagem de progresso e de sua “feia fumaça que sobe encobrindo as estrelas”  (Caetano Veloso).

Precisamos de uma reflexão sobre tudo isto! 

Não se trata de uma polarização entre a direita recalcitrante e retrógrada e a oposição a ela por partidos mais ao centro ou à esquerda na geopolítica conformista, mas da urgente adaptação dos saberes adquiridos pela humanidade ao longo de séculos e que ora se condensam de tal forma científica aplicada à lógica funcional de uma relação social segregacionista e autofágica que expõe a necessidade de efetivação de pressupostos adequados à nova realidade social.

Desculpe, minha Fortaleza querida, se lhe tratamos tão mal. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

CRACOLÂNDIA E O CAPITALISMO APODRECIDO

 

A imagem de uma multidão de zumbis nas praças e calçadas de lojas e de prédios, fechados ou não, tem algo em comum: a negatividade da relação social capitalista.  

As lojas estão fechadas pela depressão capitalista aliada ao novo método de vendas eletrônicas com entregas de mercadorias por domicílio; já a multidão de viciados tornados dependentes do crack é o paraíso dos vendedores dessa mercadoria maldita, uma das poucas em ascensão de venda e consumo. 

É a mercadoria dinheiro o objeto primeiro das duas constatações. No caso das lojas a falta de compradores sob tal método lojista; no caso da cracolândia a cobiça dos traficantes em ganhar dinheiro com a miséria alheia. 

A motivação da produção de cocaína, da qual seus produtores extraem um derivado mais barato e maléfico como o crack, são os exorbitantes lucros em dinheiro gerados aos traficantes de drogas e fonte da eterna corrupção econômico-político-policial que circula nessa operação mercadológica. 

A tragédia social causada pelas drogas jamais poderá ser eficazmente debelada pela criminalização e atuação policial preventiva e punitiva justamente porque o fetichismo da mercadoria impele todo um conjunto de segmentos que se beneficia dessa forma de escravização humana pela dependência de entorpecentes do mesmo modo que a humanidade se escraviza por viver sob uma relação social fetichista da qual se torna dependente e escravizada sem sequer conhecer a negatividade que lhe é imanente. 

As pessoas adoram o dinheiro, que lhes traz poder e comodidade quando acumulado, mas sequer o conhecem na sua essência constitutiva. O toxicômano é enganado pelo torpor do êxtase das drogas que o torna quimicamente dependente sem que conheça ou queira conhecer os mecanismos deletérios no seu organismo provocado perlo consumo delas.  

Ambas são mercadorias, a mercadoria droga e a droga mercadoria.  

A farmácia, invadida pelos drogados da cracolândia recentemente em São Paulo, vende os remédios que curam as doenças sem perceber que a mercadoria remédio é também uma droga no sentido econômico-fetichista da palavra e tão nociva quanto a substância nela contida que visa curar outras doenças. 

Quando nos debruçamos sobre o período da lei seca nos Estados Unidos, que visava proibir totalmente o uso de álcool pela população, o que se viu foi o crescimento da criminalidade e do crime organizado personificados na pessoa do lendário Al Capone, um mafioso novaiorquino filho de  imigrantes italianos.  

A conclusão a que se pode chegar é que o combate às drogas somente seria realmente eficaz se vivêssemos numa sociedade sem a mediação ilusoriamente tentadora, ou fetichista, do dinheiro e na qual ocorresse a justiça social e o exemplo para os jovens de valores morais elevados, o que evidentemente não ocorre na sociedade do capital. 

O comércio de drogas encontra na pobreza juvenil da periferia o seu combustível de propagação, seja pela oferta de dinheiro fácil, os famosos aviões do tráfico, ou pela fuga de uma realidade negativa que não quer reproduzir graças ao exemplo vivenciado ao ver seu pai trabalhador chegar à velhice após anos de trabalho assalariado e carente de tudo.  

Para os jovens é difícil acreditar na possibilidade de justiça social na sociedade do capital graças à discrepância de capacidade de consumo havida entre os filhos da classe média alta, bem remunerada, e a grande maioria da população.  

Para ele é desestimulante continuar a ter uma vida de carência daquilo que seria o básico de uma existência minimamente sustentável: boa moradia, boa alimentação, segurança contra uma violência urbana que só cresce justamente nos segmentos sociais mais empobrecidos, boa assistência médica e educacional, sistema de transporte coletivo eficaz e confiança num futuro promissor.      

Sob o capital, a autoridade instituída é constantemente questionada pela juventude pelo mau exemplo que representam. Em tais condições morais, éticas e existenciais a fuga para o consumo de drogas ou possibilidade de descolar uma grana fácil, mesmo com a sua comercialização criminalizada, é um forte atrativo para quem é carente de tudo.  

A pergunta que se coloca diante de tudo isso é: alguém produziria e comercializaria drogas somente para enlouquecer e receber o escárnio social da comunidade se não fosse o interesse em acumular dinheiro que advém de tal produção e comercialização?  

O traficante que distribui dinheiro na comunidade sofrida para protegê-lo teria o aplauso e poder que tem sem o dito cujo?   

É evidente que não, e esse é mais um exemplo simples e prático da negatividade intrínseca à relação social mediada pelo valor, que pode ser ampliado para todas as outras áreas do crime, como aquele original que é a descriminalizada apropriação indébita da riqueza material - tornada abstrata, concomitantemente - socialmente produzida e que ora se encontra na sua fase histórica de final de vida.  

Se quisermos acabar com a cracolândia teremos que primeiro superar o modo de relação social sob a forma valor, e tudo começa pela negação das categorias capitalistas sob as quais se ergue todo o edifício fantasmagórico de uma sociedade coletivamente tão doente quanto aqueles pobres coitados que se viciaram e que se tornaram zumbis perambulantes que expõem as chagas sociais que todo o establishment não quer enxergar.  

Todos nós somos zumbis que acordam pelas manhãs para ganhar dinheiro sem conhecer a sua essência constitutiva tóxica; os drogados da Cracolândia são apenas uma das partes visíveis de um sistema apodrecido. (por Dalton Rosado) 




terça-feira, 24 de janeiro de 2023

É COMO UMA VELHA DAMA INDIGNA QUE SÃO PAULO FAZ 469 ANOS

O desfile do IV Centenário, no Anhangabaú, 
passou sob o Viaduto do Chá durante a tarde.
  
M
inha mais remota lembrança  de São Paulo é a comemoração do seu quarto centenário, em 1954.

Eu estava com três anos e meus pais me levaram na festa que teve lugar no Viaduto do Chá, à noite.

Uma multidão como eu nunca vira e as luzes poderosas, refletidas nos aviõezinhos de papel laminado que jorravam do alto dos edifícios, ficaram gravadas para sempre na minha memória.

E eu soube que vivia numa cidade chamada São Paulo. Que essa cidade fazia 400 anos. E que era muito mais imponente naquele local das festividades do que onde eu residia.

Fui captando melhor esse contraste à medida que crescia. 

Morava na Mooca, bairro operário que gravitava em torno de um cotonifício gigantesco, o Crespi, tomando um quarteirão inteiro.

Além disso, havia muitas outras fabriquetas. E na Mooca moravam, principalmente, os operários dessas indústrias e os que nelas haviam trabalhado. Gente simples e austera.

Ao centro eu ia com minha mãe uma vez por mês, pois, naquele tempo, pagava-se o aluguel no escritório do locador.

Bom para mim, que via cenários diferentes e era premiado com uma guloseima do Café Moka, na Praça da Sé.
Exatos 30 anos depois, lá estava eu de novo no Anhangabaú, participando,
eufórico, do ato público de lançamento da campanha das diretas-já
Sentia-me achatado pelos arranha-céus e estranhava todos aqueles homens de terno passando apressados. Sentia-me num mundo diferente, de grandes lojas, vitrines enfeitadas e movimento incessante.

Aquilo me parecia o progresso, a modernidade, desvalorizando, aos meus olhos de menino, o bairro pobre do meu dia a dia.

O chamado centro histórico de São Paulo, entre as praças da Sé e da República, concentrava comércio, entretenimento e bancos, principalmente.

E a proximidade do Palácio do Governo, nos Campos Elísios, ajudava a manter essa região como a principal da cidade.

Mas, o palácio se foi para o Morumbi, em 1965.
O cotonifício Crespi parado e trabalhadores protestando
na rua: assim se iniciava a histórica greve geral de 1917
Os ricaços, aos poucos, mudaram dos arredores. E, a partir da inauguração do Minhocão, em 1971, os Campos Elísios e seu entorno entraram em decadência acelerada.

O comércio moveleiro de alto padrão também migrou da rua das Palmeiras, que ficava ao lado.

Como na agonia do Império Romano, os bárbaros foram tomando os territórios ao redor do centro histórico, cujo brilho só perdurou por um tempinho mais.

A partir da inauguração do metrô, em 1974, o distrito da Sé se definiu como zona de passagem, atravessada por centenas de milhares de pessoas.

Seu comércio chique debandou e as lojas se adequaram ao perfil de uma clientela mais pobre e menos exigente.

Nas minhas sete décadas de vida, presenciei a fase derradeira do esplendor do centro histórico e acompanhei cada momento de sua degradação.

Mais ainda do que ao Caetano, alguma coisa acontecia no meu coração ao cruzar a Ipiranga com a avenida São João.

É difícil transmitir, aos que nela já nasceram, a diferença entre a vida antes e depois da sociedade de consumo. Algo assim como interagirmos antes com pessoas, mesmo que não as melhores possíveis, e depois com meros robôs (o homo economicus em sua plenitude...).
A Avenida Paulista é o cartão postal da São Paulo desumanizada que faz 469 anos...
Como disse o Tom Zé, São Paulo tinha todo defeito, era uma metrópole em que habitantes vindos de todo canto se agrediam cortesmente, correndo e morrendo a todo vapor, na perseguição frenética da grana.

Mas, ao falar em aglomerada solidão, ele exagerou. Pois, a indiferença, a impessoalidade, a falta de calor humano iriam intensificar-se mesmo é nas décadas seguintes àquela na qual Tom Zé compôs sua São, São Paulo, meu amor, que lhe valeu a vitória, pelo júri popular, no IV Festival de MPB da TV Record (1968).

E a região da Avenida Paulista, atual cartão postal de São Paulo, não substitui o centro histórico de outrora num aspecto fundamental: expressa a sociedade motorizada, em que pedestres ficam espremidos e os automóveis reinam imponentes.

Os bancos e os escritórios de grandes empresas agora estão na Paulista, tramando e implementando a desumanização, como sempre.

Quanto ao comércio e ao entretenimento, foram confinados nos shopping centers.
...mas a cracolândia expressa bem melhor o que Sampa se tornou; uma velha dama indigna!
A sensação que me dá é de ter sido expulso das ruas e das praças, que não pertencem mais ao povo, assim como o céu deixou de ser do condor.

Ao mesmo tempo, em tardia autocrítica, percebo que a existência mais aprazível para seres humanos nunca esteve no Centrão endinheirado, mas sim na Mooca que era humilde da minha infância, mas depois endinheirou-se e descaracterizou-se. O bairro onde comecei a vida já não tem mais vida que valha a pena ser vivida.

Da São Paulo que eu amei deve sobrar um tiquinho nos bairros distantes onde os vizinhos ainda se falam e conhecem, onde as crianças ainda brincam nas ruas e onde as pessoas ainda fazem parte de uma comunidade, não de um condomínio.

Pelo menos é no que eu quero acreditar, pois estou um pouco velho para sair em busca da cidade perdida.

E o pior de tudo é este pressentimento de que nem no mais longínquo bairro da periferia a encontrarei. (por Celso Lungaretti)  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

LEONARDO SAKAMOTO: "AS MARRETADAS DO PADRE JÚLIO LANCELLOTI CONSTROEM UM FUTURO MENOS SOMBRIO PARA SP"

A
s imagens do padre Júlio Lancellotti derrubando, nesta 3ª feira (2), pedras colocadas pela Prefeitura de São Paulo para impedir que pessoas em situação de rua pudessem descansar na Zona Leste da capital viralizaram nas redes sociais. 

Se, por um lado, elas demonstram o pior da insensibilidade e do elitismo de nossa maior cidade, por outro deixam claro que a resistência segue viva, derrubando pedras embaixo do viaduto a marretadas, nas palavras do próprio coordenador da Pastoral do Povo de Rua. 

A administração municipal disse à Folha de S. Paulo que exonerou o responsável pela obra, sem dizer quem foi o gênio, e começou a retirada das pedras. Em última instância, contudo, o verdadeiro responsável não é anônimo: estava assistindo a Palmeiras e Santos, numa aglomerada arquibancada do estádio do Maracanã, neste sábado de pandemia. 

São Paulo sobrepõe preocupações estéticas aos princípios éticos no trato com a coisa pública. E, portanto, a zeladoria de um lugar acaba se tornando mais relevante do que o cuidado com os cidadãos mais vulneráveis que lá estão. Bruno Covas não foi o primeiro e não será o último. 

Em julho de 2017, após a capital paulista ter registrado a madrugada mais fria do ano até então, equipes da gestão João Doria lavaram a Praça da Sé com jatos de água, molhando as pessoas em situação de rua que dormiam por lá, além de seus cobertores e pertences. 

Em 2014, a gestão Fernando Haddad implementou paralelepípedos ao redor das pilastras do metrô na Zona Norte de São Paulo, local onde pessoas em situação de rua costumavam dormir. 

Tanto os prefeitos Gilberto Kassab quanto José Serra ergueram estruturas bisonhas que ficaram conhecidas como
rampas antimendigo, impedindo que seres humanos por lá descansassem. 

O padre Júlio é uma pedra no sapato de muita gente. Eu, que não creio, dou graças a Deus por ele existir. 

Seu trabalho incansável, muitas vezes realizado sob ameaça de morte, me lembra uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista". (um artigo de Leonardo Sakamoto)
TOQUE DO EDITOR – Se as únicas opções dadas aos mendigos (detesto eufemismos, a rua não é situação para ninguém!!!) forem a de se deitar sobre pedras ou sair em busca de um lugar onde não tenham de imitar faquires, é óbvio que o padre Júlio fez muito bem.

Mas, tendo morado durante duas décadas ao lado de um vão do minhocão no qual os mendigos se concentravam por causa da distribuição de alimentos ali realizada pela pastoral, nunca me conformei em ver seres humanos abandonados para irem morrendo aos poucos, em nome do direito que eles teriam de dispor como bem entendessem de suas sofridas existências.
Cracolândia, no centro velho de Sampa: nela os viciados exercem o direito de agonizarem em público.
O exercício de tal direito prevalecia sobre o nosso, os moradores da região, de não termos nossas crianças expostas a cenas degradantes como as de os mendigos consumirem crack, transarem e defecarem em público; agredirem quem lá residia ou por lá passava (sim, existiam os doidos furiosos que perseguiam as pessoas pacíficas com porretes!); roubarem roupas nos varais, etc. 

Eu jamais me conformei com tal solução, de as autoridades lavarem as mãos, permitindo que eles vivessem e morressem onde lhes desse na telha, sem real empenho em recolhê-los, alimentá-los e tratá-los. 

Era óbvio que, se os mendigos detestavam tanto os recolhimentos à sua disposição, era porque lá sofriam espancamentos e maus tratos tais que, a neles permaneceram, preferiam sujeitar-se ao frio, à chuva, à crueldade humana (como a dos pivetes que lhes tacavam fogo) e a longas caminhadas diárias até pontos de distribuição de alimentos.
Quando a polícia os expulsava, saíam arrastando-se como zumbis pelas ruas da cidade, mas logo voltavam.
Mas, a responsabilidade do Estado, de dar-lhes tratamento de gente e não de animais nos canis públicos, continuava existindo. E, porque tal omissão era tolerada pelas pastorais por motivos ideológicos, a coisa degenerou em cracolândias e chacinas.

Tudo errado. E a cultura da insensibilidade preparou psicologicamente os cidadãos para pouco se revoltarem diante de uma omissão maior ainda, a do genocida governo federal (bem como de aprendizes de genocídio estaduais e municipais) diante das mortes causadas pela pandemia.

As marretadas devem mesmo ser dadas. Mas, na direção dos verdadeiros responsáveis por toda essa desumanidade com a qual convivemos dia após dia! (por Celso Lungaretti) 

sábado, 27 de maio de 2017

A CONEXÃO DA CRACOLÂNDIA COM O REINO DA CORRUPÇÃO

"Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem
mesmo os nossos problemas" (Charlie Chaplin)
.
Há 22 anos moro no mesmo lugar, sempre fazendo o mesmo percurso de casa até o escritório. Assim, tendo de passar sempre pelo mesmo semáforo, pude acompanhar a evolução (ou involução) daquele menino de 14 anos, saudável, que lavava pára-brisas para ganhar alguns trocados. 

Papeávamos. Éramos antagonistas futebolísticos, então ele sempre zoava comigo quando o Ceará (meu time) perdia, recebendo o troco nas derrotas do Fortaleza. perdia. Tínhamos uma relação cordial.

Com tempo ele foi decaindo: os dentes, antes sadios, ficaram cheios de cáries; a roupa, cada vez mais suja e rota; a barba crescendo de modo descuidado; e o seu ar já não era alegre, mas sombrio. O crack fez dele um zumbi ambulante, desinteressado pelo que acontecia ao redor, esquecido do futebol.

Assisti, impotente, à sua decadência física e mental, até o dia em que não mais o vi no semáforo. Havia sido assassinado por um traficante, por não poder pagar-lhe o que devia.

Esta história é real e se repete com um incontável número de meninos e meninas jogados(as) na rua por um sistema segregacionista que os marginaliza. É-lhes introjetado na mente, subliminar ou diretamente, o repúdio a uma ordem social injusta, cuja injustiça, contudo, eles não compreendem, acabando por internalizar uma culpa pessoal que na verdade não têm. Isso os leva a buscar na droga o prazer e a liberdade que jamais tiveram;  e se tornam cada vez mais escravos do vício. Uma armadilha social.
O que assusta mais, a ficção dos filmes de zumbis...

Nós todos somos culpados pela morte do menino do semáforo, tendo o traficante que o matou sido um instrumento da nossa indiferença com relação à injustiça social sistêmica. A indiferença que fabricou os dois personagens. 

Quem é mais criminoso? O grande empresário do tipo Joesley Batista, que movimenta bilhões de dólares graças ao meteórico enriquecimento obtido com o desvio de verbas que deveriam ser utilizadas em benefício da população, em falcatruas facilitadas pela omissão do Estado e intermediada por políticos? Ou o favelado que, para escapar da miséria ambiente, foi atrás do lucro fácil (e perigoso) do tráfico de drogas?

Todos esses criminosos, tanto os de colarinho branco e jatinho de milhões de dólares quanto os de fuzil AR-15 nas mãos dentro do gueto, são gerados no ventre da serpente capitalista. O móvel da corrupção praticada por empresários em conluio com políticos e da corrupção de menores e adultos pelas drogas é o mesmo: o dinheiro ou poder (que, finalmente, se traduz em dinheiro e vice-versa). 

A superação da forma-mercadoria, célula germinal de toda a corrupção social (mas que parece, aos olhos ingênuos e desavisados, algo tão natural como o ato de respirar), é o único modo de acabarmos com a produção e comércio internacional cada vez mais intenso das drogas, que nenhuma polícia é capaz de conter (lembram-se da escalada do gangsterismo durante a década de 1930, quando a lei seca vigorava nos Estados Unidos?).
...ou a realidade dos expulsos da cracolândia se arrastando pelas ruas paulistanas?

O mesmo raciocínio se aplica, sem tirar nem por, à produção e o comércio de armas. Elas são fabricadas, principalmente nas economias desenvolvidas, porque o capitalismo não pode desprezar qualquer possibilidade de lucro (ainda mais agora, quando o dito cujo se torna escasso!). Até porque, desde o seu surgimento, o capitalismo se impôs à base da violência, da qual é concomitantemente causa e efeito, o que leva à existência de armas cada vez mais sofisticadas. 

A grande indústria bélica obtém seu lucro sangrento causando a morte, geralmente instantânea, de tanta e tanta gente; e as drogas, matando lentamente.  

Vide o que ocorre com políticos e fundamentalistas africanos e árabes, a digladiarem-se entre si na busca de um poder miserável diante de um povo desesperado, já que tornado supérfluo pelo capitalismo (não produz valor e, portanto, não pode consumir valor em qualquer quantidade que seja, mas vive sob a égide do capital). Ou seja, está condenado à morte caso o próprio capitalismo não morra antes).
As batalhas contra os zumbis de mentirinha do cinema...
Este é o caldo de cultura do fundamentalismo religioso arcaico: a incompreensão de qual seja a causa da miséria social. E é por aí também que podemos entender por que crescem tanto as seitas religiosas charlatãs, que fazem da miséria extrema de suas vítimas uma fonte de riqueza para si.      

A produção das mercadorias armas e drogas obedecem a um mesmo critério teleológico (a obtenção de valor, dinheiro, lucro), ainda que se queira separar uma coisa da outra. A cracolândia é uma de suas consequências mais chocantes.
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O INFERNO PAULISTANO
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A existência de verdadeiros guetos de consumidores e traficantes de drogas a céu aberto na cidade de São Paulo reflete um dos muitos sintomas de degradação social na Meca do capitalismo na América do Sul. 

As tragédias sociais existentes em São Paulo têm como causa a mesma lógica do capitalismo que a transformou no maior centro mercantil da América do Sul. Isto explica, p. ex., a existência da favela Heliópolis, tida como uma das maiores do continente sul-americano (120.000 pessoas habitam num emaranhado de vielas e construções toscas fora do padrão recomendável de habitabilidade), bem demonstrando o que é o capitalismo: uma ilha de riqueza cercada por um oceano de pobreza. 
...ou o pau comendo adoidado nas ruas de São Paulo?
Entretanto, os governantes do estado capitalista, submissos à lógica destrutiva da vida social a que servem, jamais podem discutir com seriedade, sem a hipocrisia costumeira, o que está na base desse problema social. Afinal, eles não podem morder a mão do dono (parafraseando Celso Lungaretti, ao ironizar o feitiço virando contra o feiticeiro Reinaldo Azevedo).

Assim, por não poderem debelar as causas do problema, atuam nos seus efeitos, amontoando doentes e criminosos numa mesma vala comum, como se fossem todos párias sociais. 

Episódio parecido, aliás, ocorreu quando o corvo Carlos Lacerda era governador do estado da Guanabara: ele mandou afogar mendigos, por não suportar vê-los enfeiando a cidade. O princípio é o mesmo, embora os aprendizes de feiticeiros atuais ainda não estejam adotando a solução final, talvez por lembrarem que Lacerda acabou se dando mal (a imprensa descobriu).

Devemos insistir na necessidade de discussão do modelo social sob o qual vivemos e que é a causa de todos os males, ao invés de ocultarmos os problemas debaixo do tapete, adotando soluções paliativas que nunca resolvem satisfatoriamente qualquer problema.

Há um aumento redobrado dos antigos problemas sociais, que agora explodem de forma conjunta e sob os mais variados aspectos: cracolândia, redução de direitos trabalhistas e previdenciários, desemprego estrutural, predação ecológica, aumento da violência urbana, corrupção com o dinheiro dito público, falência dos serviços públicos de educação e saúde, crise no topo das instituições do Estado, falência das contas públicas, favelização crescente, etc.
Por Dalton Rosado

Já estamos assistindo, em plena capital do País, a chocantes enfrentamentos de populares com o aparato repressivo, paradoxalmente composto composto por pessoas da mesma origem de classe (afinal os militares são irmãos, primos, namorados, ou amigos dos que protestam). 

Este quadro de deterioração social cada vez mais acentuada e acelerada somente poderá ser revertido com a superação e o fim daquilo que lhe origina: a mediação social feita pelo dinheiro, que se tornou criminosa, obsoleta e inviável.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O SONHO NUNCA ACABA

Para quem tem uma longa estrada atrás de si, o aniversário convida à reflexão, a fazer um inventário dos sonhos concretizados, pendentes e desfeitos.

Mais ainda quando, como é o meu caso, ocorre exatamente na véspera de um dia decisivo: no domingo saberei se o meu último sonho terá sido, parafraseando meu velho amigo Raulzito, um sonho que sonhei só ou um sonho que se sonha junto e vira realidade.

Como estou desde os 17 anos empurrando pedras para o topo da montanha e várias vezes elas despencaram (algumas de forma extremamente sofrida, como quando tantos  imprescindíveis  se imolaram numa guerra impossível de ser vencida), não encaro uma eventual derrota como tragédia. O importante é lutarmos pelos objetivos corretos, de forma íntegra e dando o melhor de nós.

Até porque os combatentes da justiça social e da liberdade perseguimos um ideal milenar, sem que a vitória até agora nos sorrisse. Aproximamo-nos e distanciamo-nos dela, apenas. A humanidade irmanada na priorização do bem comum e do pleno atendimento das necessidades humanas continua existindo apenas na imaginação de poetas como John Lennon, de profetas como Karl Marx e de bravos guerreiros como Che Guevara.

Não existe, contudo, nada de mais nobre a que dedicarmos nossa existência. Quem trava o bom combate e o faz como bom combatente é o sal da Terra, o arauto da solidariedade e o portador da esperança.

Os que nos propomos a desempenhar tal papel não nascemos prontos. Tentamos construirmo-nos como homens novos ao longo da jornada, conscientes de que as pessoas estarão sempre atentas, avaliando nossos sonhos pelo que fizermos. Ninguém sonhará junto se nós mesmos não nos mostrarmos à altura dos ideais que professamos.

Então, refleti muito antes desta incursão tardia pela política convencional. Estava consciente de que me exporia à incompreensão de alguns e à desqualificação por parte de outros; e que a mentalidade clubística ainda predominante na esquerda me faria, deixando de ser independente, perder espaços e tribunas na internet.

Havia, no entanto, valores mais importante a considerar do que meus ônus pessoais.

Desde 2007 eu vinha denunciando os balões de ensaio fascistizantes na capital paulista. Com os tucanos e seus aliados monopolizando os governos estadual e municipal, a cidade se torna, cada vez mais, o laboratório no qual se testam as fórmulas para um novo totalitarismo, aferindo-se a resistência da sociedade ao estado policial.

A escalada autoritária veio intensificando-se de ano a ano:
  • as  invasões bárbaras  da USP começaram com o ingresso das mais truculentas tropas de choque da Polícia Militar em algumas situações e acabaram com a ocupação permanente da Cidade Universitária, evocando os piores tempos da ditadura militar;
  • a repressão da Marcha da Maconha também representou uma volta àquele passado infame em que se atentava impunemente contra a liberdade de expressão e de manifestação;
  • a forma como dependentes químicos foram escorraçados da cracolândia a pontapés fez lembrar o próprio nazismo;
  • na desocupação do Pinheirinho, chegou-se ao absurdo de desconsiderar uma ordem judicial para cumprir outra e de sequestrar um idoso para que a imprensa não constatasse seu estado lastimável após o espancamento sofrido (com a agravante de que ele faleceria três semanas depois);
  • a prática, adotada pela PM sob as vistas grossas do governo do Estado, de maquilar execuções a sangue-frio como mortes decorrentes de resistência à prisão tem merecido repúdio universal;
  • a designação de oficiais da reserva da PM para gerirem 30 das 31 subprefeituras paulistanas implica a adoção da mentalidade policial no trato dos problemas sociais e para fins de controle político, com os excessos intimidatórios já sendo notados na periferia e bairros pobres (a vandalização do Sarau do Binho é um exemplo).
A DECISÃO DE LEVAR A LUTA AO CAMPO DO INIMIGO

A influência exercida pela web no Caso Battisti só se repetiu no episódio da proibição da Marcha da Maconha, quando os saudosos do arbítrio foram obrigados a recuar. Mas, mostrou-se insuficiente nos demais casos, principalmente o do Pinheirinho, quando havia gritantes motivos para se exigir o impeachment do governador Alckmin, mas nem sequer foi tentada uma mobilização neste sentido (embora eu tenha lançado sucessivas exortações e estimulado de todas as maneiras tal iniciativa).

Então, levando em conta o menor impacto atual das redes sociais em batalhas importantíssimas e o fato de estar sendo boicotado pela grande imprensa (que, macartista como nunca, fechou-se para mim como profissional e nem sequer permite que meu nome seja citado como personagem histórico e participante de acontecimentos atuais), decidi abrir uma segunda frente, levando a luta para o campo do inimigo.

Qualquer que seja o resultado do pleito, não me arrependo. Era o que havia a ser feito. Quando portas se fecham, os revolucionários temos de abrir outras, jamais deixando que nos reduzam à impotência. Cumpri o meu papel.

Também acredito ter contribuído para aclarar noções sobre como deve comportar-se um candidato de esquerda em processos eleitorais que, no nosso caso, devem ser encarados sempre como oportunidades táticas para acumulação de forças e não como objetivos estratégicos.

Por mais que este conceito seja tido como axiomático em termos teóricos, a compulsão de vencer a qualquer preço acaba contaminando muitos companheiros, que incorporam acriticamente as práticas das campanhas dos candidatos do sistema, em todos os sentidos:
  • buscando evidenciar-se melhor do que eles na gestão das miudezas paroquiais, quando nossas campanhas devem ser sempre ideológicas, por princípio e até por eficácia (correndo na mesma faixa dos direitistas e reformistas, sempre perderemos para seus recursos e sua máquina de comunicação infinitamente superiores);
  • personalizando as campanhas como eles fazem, o que vem ao encontro da intenção da burguesia e sua indústria cultural, de desideologizar as eleições, tornando-as semelhantes à escolha de ítens para consumo;
  • e até repetindo a prática repulsiva de convidar os eleitores a votarem em alguém apenas por ser filhote deste ou daquele, e não por ter as melhores aptidões e antecedentes na luta revolucionária.
Do meu pai herdei o exemplo, os princípios morais e a educação que ele, com tanto sacrifício me proporcionou. Nunca precisei de outros pais, nem os procurei. Desde os 17 anos venho escrevendo minha própria história.

E é ela que deve justificar, ou não, a escolha dos eleitores e o apoio dos companheiros que ainda venham a contribuir para uma arrancada final.

No fundo, trata-se de mais uma luta de Davi contra Golias. Mesmo quando todas as carta parecem estar todas marcadas contra nós, temos de manter o ânimo e lutar até o fim. Às vezes, como no Caso Battisti, o aparentemente impossível acontece.
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