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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!)Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

O primeiro comício das diretas-já levou 300 mil pessoas à Praça da Sé – mesmo local em que
os paulistanos iriam acompanhar e torcer em vão pela aprovação da emenda, três meses depois
Em que momento o Peru tinha se f... pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.
Da esq. p/ a dir.: Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.
Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

UMA VITÓRIA DE BOULOS DESLANCHARIA O PROCESSO DE ACUMULAÇÃO DE FORÇAS DA NOVA ESQUERDA, QUEIMANDO ETAPAS.

Hoje haverá finalmente um debate eleitoral com real importância. Fazia tempo.

Debates eleitorais pela TV costumam ser extremamente tediosos, um mero entrechocar de imagens forjadas pelos marqueteiros cujos cordéis movimentam os fantoches em cena.

São exceções irrisórias as situações pitorescas que às vezes destoam da pasmaceira habitual. Eis algumas:
— quando Richard Nixon, ainda sem aquilatar a importância da imagem, foi ao confronto decisivo contra John Kennedy com a aparência desleixada de sempre (ruim a ponto de os democratas terem feito um cartaz de campanha com a frase você compraria um carro usado deste homem?). Mais do que os argumentos, o eleitorado dos EUA comparou o garboso Kennedy ao mal-encarado Nixon, com os resultados conhecidos;
— quando o obeso deputado Gastone Righi queria entregar alguns papéis a Jânio Quadros no ar e foi se arrastando grotescamente por baixo do ângulo captado pelas câmeras... sem imaginar que, maldosamente, elas se voltariam na sua direção, expondo a todos os telespectadores seu puxa-saquismo explícito;
— quando Franco Montoro esperou sua tréplica a Jânio Quadros, no encerramento do debate, para acusá-lo de torpeza (havia sido vítima da ditadura e estava mancomunado com os antigos perseguidores), de forma que suas tentativas raivosas de dar resposta teriam de ser (e foram) rechaçadas pelo mediador, fazendo-o parecer destrambelhado e patético;
— 
quando Boris Casoy perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus e FHC se queixou de que haviam combinado não tocar nesse assunto, dando ao adversário Jânio Quadros um trunfo talvez decisivo para vencer uma eleição parelha;
— quando Brizola e Maluf perderam as estribeiras e ficaram se xingando no ar. Filhote da ditadura!, repetiu várias vezes o gaúcho, enquanto o outro respondia: Desequilibrado! Desequilibrado! Passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!;
— quando Lula teve um apagão no debate decisivo com Collor e reagiu com apatia aos ataques do inimigo, não contestando sequer a afirmação de que seu aparelho de som era mais caro que o do ricaço das Alagoas;
— quando o mesmo Collor, tentando voltar à tona depois de escorraçado do poder pelos caras-pintadas, foi escalado para formular uma questão ao folclórico Enéas Carneiro e, depois de pensar um pouco, desistiu: Fala qualquer coisa aí. Enéas gastou seu tempo criticando o próprio Collor, que esnobou de novo o adversário ao ter a chance da réplica: Continua falando.

Lembrei-me de sete momentos interessantes num sem-número de debates a que assisti ou dos quais tomei conhecimento. Posso ter esquecido um ou outro mais. O certo é que a mesmice e a chatice predominam de forma avassaladora, de forma que neles só me interessavam as situações bizarras e a análise das estratégias por eles adotadas (e da capacidade que tinham para cumpri-las direitinho como os marqueteiros as haviam formulado). 

O que diziam e prometiam, desde muito jovem eu percebi que não passavam de palavras ao vento. Como aquele compromisso solene da Dilma, de ser a salvação para os eleitores que temiam as reformas austericidas; se votassem nela, prometia, não seriam vítimas dos rigores neoliberais. 

Tão logo iniciou o 2º mandato, empossou o neoliberal Joaquim Levy como o mandachuva da economia. Só faltou ela dizer, parafraseando as crianças de antigamente, enganei uns bobos na casca dos ovos...   

O debate desta 6º feira (27) será o primeiro que verei desde os dois da campanha presidencial de 2018 ocorridos antes de o Bolsonaro amarelar (foi levado às cordas pelo Guilherme Boulos no primeiro e mandado à lona pela Marina Silva no segundo). 

Aí, depois daqueles dos quais fugiu graças ao atentado mais fajuto de que tomei conhecimento desde o assassinato do John Kennedy (oficialmente atribuído a um único atirador embora houvesse dúzias de evidências de que ele fora alvo de um fogo cruzado), não perdi mais tempo. Afinal, a chance de deter o palhaço sinistro praticamente deixara de existir.

E o de hoje me interessa pelo poderoso impulso que uma vitória de Boulos dará à afirmação de uma nova esquerda, mais combativa e, espero, determinada a ir à raiz de nossos problemas: a agonia do capitalismo, que, enquanto sobreviver, vai se tornar cada vez mais nocivo à humanidade, a ponto de levá-la à destruição se continuarmos assistindo, abúlicos, à marcha da insensatez.
Afinal, seja quem for o prefeito, governador ou presidente, não terá como solucionar o insolúvel, embora um governante sem condições intelectuais, morais e mentais para o exercício do cargo possa causar enorme estrago.

Mas, ter alguém do nosso campo como prefeito da principal cidade do país em termos de expressão política e econômica sempre cumprirá um papel destacado no processo de acumulação de forças que temos pela frente, inclusive porque estamos premidos pela necessidade imperativa de contarmos o quanto antes com um presidente minimamente à altura dos desafios colocados pela pandemia e pela depressão econômica iminente. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

CRÔNICAS DO MEU E DO TEU TEMPO - 1

A NOVÍSSIMA POLÍTICA 
DE ALIANÇAS DO PT
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Rui Falcão informou que o partido dará preferência a PC do B e PDT ao fazer as coligações para as eleições municipais. Mas, ora diabo, o que é que vocês querem? Não vamos ser radicais, é preciso avaliar o assunto "caso a caso". 

Segundo o mesmo Falcão, um aliado em algum município pode muito bem ser do PMDB, bastando apenas provar que não é golpista e que defende as causas sociais —apresentando um atestado de bom sujeito, talvez. E assim continuará, mesmo com um acusando o outro de algo tão extremo quanto GOLPE DE ESTADO, o casamento entre os dois partidos.

Afinal não é sempre, é só "dependendo do caso". O que Deus uniu, o homem não separa..

TEMER, COMENDO PELAS 
BEIRADAS DESDE 1981.
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Estes aqui são uns recortes de páginas do Estadão e da Folha de 1985, quando houve a crise na Segurança Pública em São Paulo, e o secretário era ele mesmo, o nosso arabezinho do Interior. 

A SSP quase rachou àquela altura, com Temer acusado de manipular a corrupção na Polícia Civil em favor da sua carreira política. O governador era então Franco Montoro, um sujeito democrático e sério, mas em meio a uma situação extremamente grave deixada pela ditadura militar. Um setor da Polícia Civil queria se distanciar da PM tanto quanto possível, por causa da horrível reputação dos Esquadrões da Morte, que eram quase como uma divisão da Polícia Militar.

Mas o espertalhão se saiu por cima e pôde realizar os seus sonhos como parlamentar, indo finalmente se sentar no colo de um presidente da República, o Lula, no ano de 2010. E é isso aí a história de Michel Temer.
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BEM UNIDOS, FAÇAMOS!

Na atualidade temos essa nova, nova de verdade, mobilização de estudantes secundaristas, que começou em São Paulo e já se espalha pelo Brasil. A linha é a de ocupar e tomar o poder nas escolas, ainda que por um período apenas, contra o pensamento e a vivência da burocracia, do reacionarismo, da mesmice, da conivência, da subserviência e da inércia, em defesa daquilo que todos dizem defender, uma revolução educacional no Brasil.

É claro que as ocupações, por si sós, revelam-se insuficientes e não produzem mudanças radicais, mas são uma experiência de radicalidade, de luta autônoma, sem manipulação, sem pedir licença a ninguém. Coisa muito boa há de se criar a partir daí. 

Quanto à política, esse setor da juventude rechaça por igual o PMDB, o PSDB, o PT, a pelega Ubes e todo o velho formato da política, sem afrouxar e sem dar trela a qualquer conversinha. Esses meninos e meninas sabem das coisas. 

O JOGO DOS SETE ERROS
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Durante as manifestações de 2013, enquanto a Polícia Militar sequestrava e assassinava o Amarildo no Rio, matava a bomba uma trabalhadora da limpeza pública em Belém do Pará e descia o sarrafo em estudantes e trabalhadores em São Paulo, contra um aumento de tarifas e depois contra outras coisas, a assessoria de imprensa petista (Brasil 247, Blog da Cidadania e  Conversa Afiada, dentre outras melancolias) gritava, com boa parte da torcida organizada do PT: Vai, PM! Dá-lhe, PM! 

O sr. ministro da Justiça José Eduardo Cardozo ofereceu solenemente a Força Nacional de Segurança ao Alckmin, para manter a ordem em São Paulo, enquanto Lula, pai dos pobres e mãe dos banqueiros, lavava as mãos como sempre. Aliás, pouco antes de 2013, falando sobre violência policial, Lula chegou a dizer: "Ué, a polícia bate em quem tem de bater".

Ao longo de uma década e meia, o PT se associou a tudo que não presta (a Michel Temer e Eduardo Cunha, inclusive), em nome de uma tal governabilidade

E agora, onde está essa maravilha, a milagrosa governabilidade? E, principalmente, para que serviu? 

Mas, lembrem-se, a culpa de todo o nosso fracasso como república, de toda a decadência política do Brasil e de todo o atraso da sociedade é deles, deles, lá longe, os ricos que não gostam de ver pobre andando de avião. 

O lado de cá, não: o lado de cá é santo e, ademais, é vítima de um golpe

Fácil, né? (por Eduardo Rodrigues Vianna)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

RETA DE CHEGADA: TEREMOS AINDA UM VERDADEIRO DEBATE ELEITORAL?

Preferências pessoais e torcidas à parte, a temporada de debates da eleição presidencial 2010 é, provavelmente, a mais tediosa de todos os tempos.

Os três candidatos com chance de vitória não produziram um único momento maior, limitando-se ao óbvio ululante, ao blablablá que lhes foi martelado na cabeça pelos detestáveis marqueteiros e a uma caricata guerra de tortas de lama.

Em vez de aspirantes a comandar uma grande Nação, ora parecem fedelhos xingando um ao outro de  fdp, ora aprendizes de guarda-livros (os contadores de outrora) esmiuçando irrelevâncias do livro-caixa.

Passam ao eleitor a idéia de que bom presidente seja aquele que decora mais estatísticas e consegue esclarecer, de batepronto, qualquer questiúncula administrativa.

Algo como o melhor aluno da classe no ensino fundamental, sempre interrompendo a professora para exibir seus conhecimentos. Na minha geração, quem se comportava assim era qualificado de  chato de galochas  e de  cdf.

Então, palmas para Plínio de Arruda Sampaio, que ousou admitir no ar que nada sabia sobre as compras de navios pela Petrobrás!

E você, sabe? Interessa-se por elas? Eu também não.

Plínio tem conseguido pelo menos surpreender, daí a definição hilária do humorista José Simão: "geriátrico da breca".

No entanto, sua fina ironia se choca com a muralha de indiferença dos bem ranqueados, tipo "o que vem do traço não me atinge".

Só a coitadeza da Marina Silva parece incomodada, mas ela não é adversária à altura de ninguém. Dá sempre a impressão de que deveria estar disputando o  desafio ao galo, e não a série A do Brasileirão.

Se Plínio conseguisse atrair Dilma Rousseff ou José Serra para o confronto, aí sim poderíamos ver faíscas. Mas, nenhum deles cairá nessa armadilha.

Então, às vésperas dos últimos debates -- os da Record e da Globo --, só nos resta torcer para que o improvável ainda ocorra.

Que o Serra, em desespero de causa, esqueça a decoreba e o ramerrão, improvisando falas mais interessantes, nem que seja para fazer jus ao militante estudantil de seus melhores tempos.

E que a Dilma volte a ser a companheira vibrante que conheci na VAR-Palmares, com menos encenação e mais paixão, pois o figurino de  vovó paz & amor, definitivamente, não lhe assenta.

Para matar as saudades, eis algumas reminiscências de debates dos quais sobrou algo para lembrarmos depois:
  • quando Richard Nixon, ainda sem aquilatar a importância da imagem, foi ao confronto decisivo contra John Kennedy com a barba por fazer. Mais do que os argumentos, o eleitorado dos EUA comparou o garboso Kennedy ao mal-encarado Nixon, com os resultados conhecidos;
  • quando um deputado dos mais obesos queria entregar alguns papéis a Jânio Quadros no ar e foi se arrastando grotescamente por baixo do ângulo captado pelas câmeras... sem imaginar que, maldosamente, elas se voltariam na sua direção, expondo a todos os telespectadores seu puxa-saquismo explícito;
  • quando Franco Montoro esperou sua tréplica a Jânio Quadros, no encerramento do debate, para acusá-lo de torpeza (havia sido vítima da ditadura e estava mancomunado com os antigos perseguidores), de forma que suas tentativas raivosas de dar resposta foram rechaçadas pelo mediador e a imagem final do  homem da vassoura  foi a mais negativa possível;
  • quando Boris Casoy perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus e FHC se queixou de que haviam combinado não tocar nesse assunto, dando ao adversário Jânio Quadros um trunfo decisivo para vencer uma eleição parelha;
  • quando Brizola e Maluf perderam as estribeiras e ficaram se xingando no ar. "Filhote da ditadura!", repetiu várias vezes o gaúcho, enquanto o outro respondia: "Desequilibrado! Desequilibrado! Passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!";
  • quando Lula teve um apagão no debate decisivo com Collor e reagiu com apatia aos ataques do inimigo, não contestando sequer a afirmação de que seu aparelho de som era melhor que o do ricaço das Alagoas;
  • quando o mesmo Collor, tentando voltar à tona depois de merecidamente botinado do poder, foi escalado para formular uma questão ao folclórico Enéas Carneiro e, depois de pensar um pouco, desistiu: "Manda ele falar o que quiser". Enéas gastou seu tempo criticando o próprio Collor, que esnobou de novo o adversário ao ter a chance da réplica: "Manda ele continuar falando".
 

    quarta-feira, 4 de agosto de 2010

    COMEÇA A TEMPORADA DE DEBATES: EIS OS MAIS MARCANTES (OU RIDÍCULOS)

    Debates eleitorais pela TV costumam ser extremamente tediosos, um mero entrechocar de imagens forjadas por marqueteiros como o Duda Mendonça, cujos cordéis movimentam os fantoches em cena.

    São exceções irrisórias as situações pitorescas nesses debates. Eis algumas:

    • quando Richard Nixon, ainda sem aquilatar a importância da imagem, foi ao confronto decisivo contra John Kennedy com a barba por fazer. Mais do que os argumentos, o eleitorado dos EUA comparou o garboso Kennedy ao mal-encarado Nixon, com os resultados conhecidos;
    • quando um deputado dos mais obesos queria entregar alguns papéis a Jânio Quadros no ar e foi se arrastando grotescamente por baixo do ângulo captado pelas câmeras... sem imaginar que, maldosamente, elas se voltariam na sua direção, expondo a todos os telespectadores seu puxa-saquismo explícito;
    • quando Franco Montoro esperou sua tréplica a Jânio Quadros, no encerramento do debate, para acusá-lo de torpeza (havia sido vítima da ditadura e estava mancomunado com os antigos perseguidores), de forma que suas tentativas raivosas de dar resposta foram rechaçadas pelo mediador, fazendo-o parecer destrambelhado e patético;
    • quando Boris Casoy perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus e FHC se queixou de que haviam combinado não tocar nesse assunto, dando ao adversário Jânio Quadros um trunfo talvez decisivo para vencer uma eleição parelha;
    • quando Brizola e Maluf perderam as estribeiras e ficaram se xingando no ar. "Filhote da ditadura!", repetiu várias vezes o gaúcho, enquanto o outro respondia: "Desequilibrado! Desequilibrado! Passou 15 anos no estrangeiro e não aprendeu nada!" (foto acima);
    • quando Lula teve um apagão no debate decisivo com Collor e reagiu com apatia aos ataques do inimigo, não contestando sequer a afirmação de que seu aparelho de som era melhor que o do ricaço das Alagoas;
    • quando o mesmo Collor, tentando voltar à tona depois de botinado do poder, foi escalado para formular uma questão ao folclórico Enéas Carneiro e, depois de pensar um pouco, desistiu: "Manda ele falar o que quiser". Enéas gastou seu tempo criticando o próprio Collor, que esnobou de novo o adversário ao ter a chance da réplica: "Manda ele continuar falando".
    Lembrei-me de sete momentos interessantes num sem-número de debates a que assisti ou dos quais tomei conhecimento. Posso ter esquecido um ou outro mais. O certo é que a mesmice e a chatice predominam de forma avassaladora.

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