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terça-feira, 4 de julho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 10: LUTA DE CLASSES NO BRASIL

LUTA DE CLASSES NO BRASIL

 De acordo com o DIESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - em 2013 foram registados cerca de 2050 greves no Brasil, um aumento de 133% com relação a 2012, quando foram registradas 877. Foram 11.1342 horas paradas no país, contra 86.291 um ano antes. 

Esses números mostram o quanto as Jornadas de Junho de 2013 foram um movimento orgânico da classe trabalhadora brasileira que foi às ruas em peso, mas também se mobilizou em seus locais de trabalho. Mais que isso, quando se observa analiticamente as greves do período, é possível ver que a maioria foi feita apesar, e mesmo contra, as lideranças sindicais, reproduzindo o traço de questionamento à política institucional e seus aparatos vistos nas ações de rua. 

Ou seja, na realidade Junho de 2013 se mostrou como uma potente sublevação dos trabalhadores, situação potencialmente revolucionária e momento chave da luta de classes no Brasil. Não à toa, a resposta contrária por parte dos capitalistas, através da mídia, dos governos locais e, sobretudo, do governo lulopetista, foi dura e engenhosa, combinando repressão com cooptação do sentimento popular contra o status quo socioeconômico. 

As justas palavras de Florestan Fernandes, de que o Brasil vive uma contrarrevolução permanente, se faz marcar aqui também, mas com uma mudança qualitativa, pois pela primeira vez na história a burguesia brasileira não simplesmente impôs medidas de repressão ou conduziu a insatisfação para os marcos seguros da institucionalidade. Dessa vez, ela engendrou algo que as burguesias europeias já tinham feito há cem anos: ela mesma se tornou rebelde e líder da revolta popular. 

O nome tradicional desse movimento da burguesia é fascismo. O processo consiste em canalizar a insatisfação popular desviando-a do questionamento à propriedade privada para algum outro alvo - geralmente minorias sociais - e dar respostas moralistas para os problemas socioeconômicos. Mas tudo isso é feito encenando rebeldia contra as instituições apodrecidas e, às vezes, até mesmo contra o capitalismo, de forma genérica. Para dar certo, as lideranças dos movimentos sempre precisam ser outsiders.

O fascismo, contudo, é sempre imperialista e, por isso, um país periférico e subordinado igual o Brasil não pode ter um movimento fascista pleno, mas apenas cópias. Por aqui, nunca aparecerá um Hitler ou um Mussolini, no máximo alguém palidamente parecido com Salazar ou Franco, aliás, foi isso mesmo que aqui se vivenciou com Vargas e os ditadores fardados, desfoques do nazifascismo original. 

Ainda está em aberto o debate sobre a natureza do movimento atual da extrema-direita. Não há dúvidas, porém, das semelhanças com o fascismo do século passado, mas ainda em um grau menor de organicidade e estrutura que aquele. Não existem, por exemplo, milícias paramilitares ou estruturas sindicais, sendo, contudo, provável seu aparecimento futuro, sobretudo com o acirramento da guerra da Ucrânia, onde hoje milhares de neonazistas são abastecidos com armas pela OTAN, algo também existente na Rússia do grupo de inspiração fascista Wagner - batizado com o nome do compositor favorito de Hitler e sempre lembrado pelo tom antissemita de muitas de suas músicas. 

Seja qual for o termo mais adequado, a burguesia brasileira se lançou em nova estratégia contrarrevolucionária em 2013 urdindo o movimento que, na falta de melhor designação, pode ser chamado de bolsonarismo. O centro desse processo ocorreu a partir do alto comando militar que fez leitura atenta e engenhosa da conjuntura. 

Em 2014, quando as ruas ainda queimavam ao redor do país, os generais começaram a abrir as portas dos quartéis para um deputado federal ainda pouco relevante, mas já em meteórica ascensão de popularidade, Jair Bolsonaro. Suas participações em programas de TV e suas polêmicas sobretudo contra a comunidade LGBT, além do discurso moralista, o iam tornando a face mais destacada do movimento direitista. Por fim, seu alijamento do centro do poder o tornava uma figura aparentemente contrária ao sistema, aos poderosos, indo ao encontro dos anseios populares de luta contra o status quo

No mesmo ano, outro movimento importante foi efetuado pela classe dominante brasileira através do surgimento da Operação Lava Jato com o intuito de ser a saneadora da República. A operação condizia perfeitamente com o discurso anticorrupção encampado pela mídia e entregue como pauta aos manifestantes e vinha como uma forma de satisfazer a fúria popular com a política tradicional. 

Na operação, os membros mais débeis da burguesia foram sacrificados. Políticos tradicionais ou mais odiados, à esquerda e à direita, foram limados. Tudo ocorreu como se acontecesse uma espécie de oferenda para aplacar a fúria do povo, ao mesmo tempo em que novos líderes eram forjados a partir da tônica do moralismo. Foi a era dos Tenentistas Togados, em que um Juiz de primeira instância de uma capital secundária do sul, de dentro de seu escritório, concentrava em si todos os poderes da nação em sua caneta. 

Enquanto o bolsonarismo foi predominantemente arquitetado a partir dos militares, a lava jato nasceu das entranhas da mídia burguesa. Os dois movimentos andaram de forma paralela e se retroalimentaram no período, com Bolsonaro frequentando ambientes midiáticos e os togados sendo recebidos pela milicada país afora. A culminância viria a ser o Impeachment de Dilma, período em que a aliança entre os dois se aprofundou e praticamente se tornou uma coisa só. Assim continuaria até o começo do governo Bolsonaro, quando a ambição togada incomodou o ex-presidente fujão e a aliança foi dissolvida.  

De qualquer forma, os dois movimentos de extrema-direita cumpriram importante função para a burguesia brasileira no período posterior a Junho de 2013, pois, cada qual a seu modo, conseguiram canalizar a insatisfação popular para uma forma reacionária de rebelião, puramente performática e cirúrgica, dando à burguesia um respiro em um contexto de forte assédio popular. Ao mesmo tempo, a institucionalidade política pode se reorganizar durante o período, voltando em 2022 com um pacto renovado, posando de salvacionista diante das atrocidades da extrema-direita, quando, na realidade, é apenas o velho mofo retrógrado. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE VERDE E AMARELO

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA


terça-feira, 27 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 9: O LEVANTE VERDE E AMARELO


 O LEVANTE VERDE E AMARELO

Após a eclosão das manifestações, a mídia, vencida em sua primeira tática de incentivar a repressão, assume nova tática de disputar as pautas dos protestos e dividir os manifestantes entre bons e maus, ordeiros e baderneiros. Começam a surgir, nessa onda, manifestantes caracterizados de verde e amarelo e mesmo pedindo Intervenção Militar. 

Geralmente, a propaganda lulopetista foca a participação desses manifestantes para reforçar seu argumento falso de que Junho 2013 teria sido o ovo da Serpente do fascismo. Tal análise é incorreta por vários pontos de vista, mas peca por dois motivos principais.

O primeiro é desconsiderar a magnitude da presença desse grupo mais direitista nas ruas àquela época. Enquanto um grupo majoritariamente com idade superior a 35 anos, de alto rendimento e com ideais pró-mercado, a presença deles era em número reduzido caso comparado à massa de manifestantes, fato atestado por pesquisas dos próprios grupos de mídia realizadas durante as manifestações. A maioria absoluta dos manifestantes estava preocupada com questões sociais - transporte, educação, saúde - e era formada por estudantes.

A pauta anticorrupção foi introduzida pela
mídia burguesa

O segundo aspecto é não entender a processualidade histórica. A história é um terreno de possibilidades, com tendências que algumas vezes não se realizam, becos sem saída e acontecimentos com fins muito diferentes dos inicialmente colocados. Assim, é apenas se considerando a processualidade histórica que é possível entender como a Revolução Russa pôde terminar em Vladimir Putin ou como a Revolução Alemã conduziu ao fim à ascensão do Nazismo. 

Forças díspares disputam todo movimento político de massas e no meio do processo há a luta de classes, sempre colocando avanços e recuos. Uma intricada relação entre condições objetivas e subjetivas interagem complexamente para determinar para qual caminho se dirigirá o processo histórico. Ou seja, entre o começo de um processo e seu término existem diversos momentos responsáveis por determinar o caminho de fato seguido. 

Em outras épocas, essa análise da processualidade histórica era chamada de dialética, por levar em conta as complexas dinâmicas contraditórias que regem a história humana. Ela se opõe à análise mecânica, reducionista, que vê apenas uma linha direta entre o início de um acontecimento histórico e seu final. 

Assim, quem analisa a história por uma ótica mecânica acabará defendendo teses esdrúxulas de que o Iluminismo foi o responsável pelo Holocausto Nazista ou que a Revolução Francesa levou ao colonialismo. Embora de fato existam relações entre tais fenômenos, elas são contraditórias e sutis, não estando em uma dinâmica de causa e efeito igual um fenômeno da natureza. 

Igualmente, colocar uma linha reta entre Junho de 2013 e a ascensão bolsonarista é um equívoco porque desconsidera todo o processo contraditório existente naquele período. É efetuar uma análise mecânica, superficial e tola, recortando da história apenas uma faceta simplificadora. Contudo, por uma análise dialética é possível visualizar sim o aparecimento das forças de extrema-direita já naquele momento, embora de forma minoritária. 

Inicialmente minoritários, os verde e amarelo
assumiriam a liderança da luta política 

Na realidade, as forças de extrema-direita vinham se reorganizando no Brasil há anos. Tendo submergido após o fim da ditadura, nunca deixaram de existir por completo, ficando apenas abaixo do radar. Mas, conforme prova a influência de Olavo de Carvalho na internet no período, existia algo borbulhando por baixo da superfície. 

Contudo, quem galvanizava as forças reacionárias não era a extrema-direita, mas a mídia mediante campanhas moralistas. O tema da corrupção era batido diuturnamente contra o governo lulopetista e ganhou mais potência após o escândalo do Mensalão. Antes de Bolsonaro e sua trupe explorarem ad nauseam as fake news, a grande imprensa brasileira já fazia uso corriqueiro de histórias sensacionalistas e esdrúxulas, sempre com fundo moral, como é cabalmente atestado pela trajetória da revista Veja no período. 

Colunistas histriônicos eram bem-vindos não apenas para escrever, mas também para falar na Televisão e no Rádio. Indivíduos do porte de Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Roberto Guzzo, Carlos Sardenberg, entre outros, martelavam dia e noite o mantra da moralidade e do pensamento liberal. Até mesmo o desencarnado Olavo de Carvalho tinha lugar na grande mídia durante um período. 

O resultado era a formação de um caldo cultural, sobretudo na classe média e alta, conservador, focado na lógica moral e aderente aos valores da sociedade de mercado. Quando em 2013 as manifestações eclodem, a mídia burguesa já possuía um contingente populacional adestrado e pronto para tomar as ruas seguindo a pauta direitista. 

É por isso que a ação da Globo e demais grupos midiáticos conseguiu ser tão eficaz, pois sua pauta anticorrupção já ressoava em parte da população e mesmo seu discurso ordeiro e contrário à quebra radical da ordem fazia eco às pregações anteriores contra o perigo vermelho, a ameaça venezuelana ou mesmo a bagunça petista

Assim eram as capas da Veja
na década retrasada

Desse modo, convocados pela burguesia através da sua mídia, os manifestantes tomaram para si a tarefa de ir às ruas disputar a liderança do processo, mas não para golpear o capitalismo brasileiro, não para lutar por saúde, educação e transporte, ou mesmo contra a violência policial, mas para trazer o país de volta à ordem, para sanear a República e conduzir a nação de volta aos seus tempos brilhantes, em que não haviam black blocs, lutas sociais, e tão pouco direitos trabalhistas para empregadas domésticas, cotas raciais em universidades e pobres frequentando aeroportos. 

A partir da lógica aprendida dos grupos de mídia, todas essas coisas eram atribuídas ao governo petista, daí ser importante fazer a roda da história girar para trás, para antes de Lula e de Dilma, para antes da bagunça lulista. O que a fração dominante da burguesia não conseguiu ver, contudo, é que essa volta ao passado era vista por setores da extrema-direita não apenas como um retorno à era pré-PT, mas sim à era pré-democracia. Por isso, junto com a massa liberal, galvanizada pela mídia, também começou sair às ruas as viúvas de 1964, empoderando bandeiras em prol da Intervenção Militar no país, ou seja, de um golpe para reestabelecer o regime autocrático. 

A direita liberal e a extrema-direita possuíam pautas profundas em comum, sendo a imediata a salvação do país de um possível processo revolucionário. Para além disso, a luta contra o lulopetismo e por reformas liberais. Por isso, se uniram de forma estratégica em uma aliança que perduraria até o início do governo Bolsonaro quando, diante da possibilidade de serem engolidos pelo monstro, os liberais começaram a dissolver o pacto. 

No entanto, o ponto crucial é que em Junho de 2013 tais agrupamentos eram minoritários. Estavam nas ruas, disputavam a liderança e tentavam impor suas pautas, mas não tinham êxito, a ponto de logo começarem a recuar, reclamando do vandalismo e da falta de rumo do movimento. O que virou o jogo a favor deles foi a ação repressiva do governo Dilma que conseguiu conter o levante popular e, pela perseguição aos indivíduos mais mobilizados, desincentivou a continuidade dos atos. Somou-se a isso o pesado boicote promovido pelas organizações satélites do lulopetismo e as manifestações foram enxugando até minguarem de vez. 

Esmagado por Dilma, o Não Vai Ter Copa
foi o último suspiro da rebelião de 2013

Mas não desapareceram, pois o processo insurrecional e de descontentamento prosseguiu. Ele foi apenas transmutado de uma rebelião anticapitalista para uma mobilização conservadora e focada justamente nos pontos pautados pela mídia: luta contra a corrupção e medidas liberalizantes. Assim, já em 2014, após o rescaldo do fracassado movimento Não Vai Ter Copa, a direita, agora mais organizada e estruturada, saí às ruas pelo Impeachment de Dilma. Só puderam ocupar as praças públicas porque a própria ex-presidente as deixou vazias, prontas para serem tomadas pela massa de verde e amarelo antes minoritária. 

A história, conforme já vimos muitas vezes, é também irônica. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. DILMA NO LABIRINTO 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O LEVANTE NACIONAL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: O RECHAÇO À POLÍTICA INSTITUCIONAL

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A TÁTICA BLACK BLOC

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA




terça-feira, 13 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 4: A QUINTA-FEIRA QUE INCENDIOU O BRASIL

 

13 DE JUNHO DE 2013: A NOITE QUE INCENDIOU O BRASIL

O ano de 2013 começou modorrento na política. Os debates se travavam em torno das possíveis alianças para o pleito presidencial do ano seguinte e especulava-se uma insatisfação do PMDB para com dona Dilma devido à tentativa dela em criar novo partido com Gilberto Kassab. A maior preocupação do lulopetismo era com o tempo de TV na propaganda eleitoral, temia-se perder preciosos minutos na televisão caso a aliança com a direita desandasse. 

Fora da política, o grande debate era com o atraso das obras para a Copa do Mundo. A Copa das Confederações seria já em Junho de 2013 e o cronograma estava atrasado, trazendo a ira da FIFA e comentários nada amistosos de Jérôme Valcke, à época Secretário Geral da organização. As obras para os torneios também traziam escândalos de corrupção e acusações de abusos contra a população pobre, obrigada a se retirar de suas casas para o alargamento de vias e construção ou reforma de estádios. Contudo, nada na superfície indicava o furacão que viria na metade do ano. 

Antes de virar prefeito, Haddad recebeu as 
bençãos de Maluf.
Nas profundezas sociais do país, porém, algo se mexia e as contradições acumuladas durante décadas estavam perto de explodir em fúria e violência. Já no começo do ano as manifestações contra o aumento da passagem em Porto Alegre haviam prenunciado algo novo, mas logo ficaram no passado como mais um ato do obscuro Movimento Passe Livre. 

Fernando Haddad, prefeito recém empossado de São Paulo, havia decidido não aumentar as tarifas do transporte público no começo do ano para não iniciar mal seu mandato. Conchavado com o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, postergou o aumento para Junho, e determinou o reajuste em vinte centavos. Logo o MPL convocou manifestações contra o aumento, tal como fizera anteriormente. A resposta de Haddad e Alckmin foi brutal

A manifestação do dia 11 de Junho é reprimida violentamente pela polícia, espancamentos gratuitos são registrados. De Paris, onde estavam para lançar a candidatura de São Paulo para mais um megaevento, Haddad e Alckimin atacam os manifestantes e dão luz verde para o recrudescimento da repressão. O ex-prefeito se refere aos manifestantes como "gente que não aceita o estado democrático de direito". Quem poderia imaginar que essa retórica era tão velha? Alckmin em sua verve fascistóide apenas prefere falar de criminosos e vândalos e ordena o aumento da força policial. Nenhum dos dois se dispõe a negociar o reajuste ou ouvir as demandas dos manifestantes, respondendo apenas com a brutalidade. Não por acaso, hoje ambos estão no mesmo governo, como um sinal da unidade da plutocracia nacional mortalmente ferida naquele 2013.

Editorial do Estadão pede mais repressão aos
manifestantes.

No dia 13 de Junho, editoriais do Estadão e da Folha de São Paulo reclamavam uma dura repressão contra os manifestantes. O Estadão clamava que era chegada a hora do Basta e exortava o governo a impedir as ocupações das vias. Já a Folha dizia que era preciso retomar a Nossa avenida Paulista, se referindo ao principal lugar de concentração dos militantes. Exortado pela mídia, o governo se sentiu justificado em liberar de vez seus cães da coleira, o que viria a provocar naquela noite algumas das cenas mais bestiais da história nacional. 

A história possui momentos de inflexão em que ações aparentemente irrisórias de personagens acabam provocando um deslocamento imprevisto. Esses personagens, inclusive, costumam ser absolutamente medíocres e totalmente desprovidos de qualquer senso histórico, social ou político mais amplo. Naquele 13 de Junho tivemos a confluência da ação desses personagens medíocres - os editorialistas da grande mídia, Alckmin e Haddad - mas que conduziram a desdobramentos inimagináveis e incontroláveis. 

Apesar da repressão, os atos só cresciam.
As manifestações só cresciam em tamanho ato após ato, fazendo jus ao bordão dos manifestantes "Amanhã será Maior!". Naquela quinta mais de dez mil pessoas desfilaram pelas ruas até serem reprimidas pela PM e pela Guarda Municipal. Espancamentos aleatórios, uso indiscriminado de bombas de gás, tiros indiscriminados de bala de borracha, prisões a esmo, vandalismo perpetrado pelos próprios policiais para culpar os manifestantes, tudo isso foi capturado em vídeo por toda região do centro paulistano. A repressão foi tão bestial e despropositada que pessoas alheias à manifestação foram igualmente espancadas. Jornalistas ficaram cegos devido às balas de borracha atiradas pelas tropas e outros foram duramente espancados pelas forças policiais. 

Logo as imagens do terror policial correram o país e provocaram escândalo diante do absurdo e da desproporcionalidade da repressão. Ficou claro para todos o que estava em jogo ali: não era o simplesmente aumento da passagem, era o direito democrático à liberdade de se manifestar. Ao contrário da crença arraigada de que o levante de Junho de 2013 foi catalisado pela alta das tarifas do transporte, o real motivo foi a ação bárbara da polícia naquela noite do dia 13. Os levantes foram, em primeiro lugar, uma resposta à brutalidade policial.

Jornalista da Folha ferida com 
tiro de bala de borracha.

A bestial repressão acabou sendo um tiro pela culatra, pois, ao contrário de esvaziar os atos, estes não apenas cresceram geometricamente, mas se espalharam pelo país. O que eram simples manifestações localizadas à cidade de São Paulo contra o aumento da tarifa se transformaram em levantes de extensão nacional. Em uma semana o Estado brasileiro estava nas cordas e a burguesia brasileira, pela primeira vez em décadas, tremia diante da possibilidade real de uma mobilização revolucionária em suas ruas. 

Como sempre, ninguém tinha ciência do que viriam das mobilizações daqueles dias, mas todos tinham certeza de que nada seria como antes. E, de fato, quando a bola rolou para a medíocre Copa das Confederações, a verdadeira disputa estava nos arredores dos estádios e naquela noite de 13 de Junho de 2013 começava o período mais turbulento e imprevisível da história brasileira no último meio século. (por David Emanuel Coelho) 

LEIA OS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A LUTA PELO PASSE LIVRE

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A FALÊNCIA DA NOVA REPÚBLICA



segunda-feira, 12 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 3: A LUTA PELO PASSE LIVRE

 

OS ANTECENDENTES DE JUNHO DE 2013:  A LUTA PELO PASSE LIVRE


O
Movimento Passe Livre - MPL - foi criado no Fórum Social Mundial de 2005, realizado em Porto Alegre e contou com o apoio inclusive de militantes ligados ao PT. Tratava-se de uma forma de aglutinar milhares de lutadores nacionais em prol do Passe Livre para todos os cidadãos, independente de idade ou condição social. 

Dois anos antes já haviam acontecido fortes mobilizações contra o aumento da passagem em Florianópolis, a ponto da circulação de veículos na cidade ter sido travada durante o período mais agudo da luta. Em 2003, Salvador já havia testemunhado um dos maiores levantes estudantis até aquele momento justamente contra o aumento da tarifa na cidade, com milhares de jovens atropelando as organizações pelegas ligadas ao PT para pressionar pela derrubada das passagens, mobilização conhecida pelo nome de Revolta do Buzu. Já nesta revolta não existiam lideranças claras, sendo marcada pela horizontalidade. 

Historicamente são sempre os estudantes a sentirem em primeiro lugar a pressão econômica no aumento do custo de vida e também os primeiros a saírem às ruas para contestar a situação vigente, pois, ao contrário de outros segmentos sociais, não possuem interesses cristalizados que podem ser colocados em risco nas mobilizações, agindo literalmente sem nada a perder, mas com muito a ganhar. A mesma lógica da ação estudantil já tinha sido vista no Brasil à época da ditadura do Estado Novo e da Ditadura Militar e voltaria a se repetir em 2013.

As mobilizações embrionárias em prol do Passe Livre foram ganhando outras cidades importantes do país até chegar à própria São Paulo dois anos antes de 2013. Naquele momento, Gilberto Kassab era o prefeito e, por isso, a mobilização contra o aumento da tarifa contou com o apoio total do PT e seus políticos, sendo notada a presença ostensiva nas ruas de vereadores petistas e o apoio das organizações estudantis ligadas ao lulopetismo. Importante relembrar que no mesmo ano, Kassab fechou acordo com Dilma para criar novo partido e assim enfraquecer o PMDB, indo para a base de apoio ao governo da então Gerenta

A principal mudança dos petistas entre 2011 e 2013 no que tange à mobilização do MPL contra o aumento das passagens é o fato de há dez anos o prefeito ser Fernando Haddad. As mobilizações colocavam em xeque o controle do lulopetismo do terceiro maior orçamento do país e, por isso, foram sentidas de imediato como uma ameaça por parte da burocracia partidária e sindical encrustada na Prefeitura. 

Já no começo de 2013, pouco meses antes da explosão em São Paulo, uma forte mobilização tomou conta das ruas de Porto Alegre contra o aumento das passagens naquela cidade. A mobilização já antecipava muito do que viria nos próximos meses, com depredações e repressão aguda das forças policiais. A capital gaúcha ficou praticamente paralisada durante mais de uma semana até que as manifestações refluíram com a manutenção do aumento. 

Como é possível ver, a mobilização contra o aumento das tarifas de modo algum foi algo surgido da noite para o dia, tão pouco foi fruto da ação de movimentos exógenos, sem lastro social ou histórico, como falsamente acusado pela mentirosa propaganda lulopetista. Foi antes o resultado de quase uma década de intensas mobilizações ao redor do Brasil, com acúmulo prático e teórico, graças às mobilizações de movimentos estudantis e organizações revolucionárias. 

O principal ponto é que tais movimentos e organizações sempre existiram em paralelo à maquinaria lulopetista, não fazendo parte de suas engrenagens burocráticas e, portanto, não recebendo subvenções ou ordens das cúpulas lulistas. Outro ponto importante é a forma de organização horizontal, sem lideranças cristalizadas ou estrutura hierárquica clara, com grande mobilidade de seus membros e flexibilidade na organização e articulação dos movimentos. Esse último fator, inclusive, desabrocharia intensamente em Junho de 2013 implicando nas características de horizontalidade vistas e que tanto desnortearam as autoridades e a intelligentsia brasileiras. 

Essas características foram fundamentais para o desenvolvimento da luta dos movimentos pelo passe livre e pela efervescência das lutas estudantis durante aquele período, eclodindo em Junho de 2013. Ao não estarem submetidos aos ditames lulistas, tais movimentos puderam operar com radicalidade e sem compromisso com a realpolitik, rejeitando qualquer acordo pelo alto ou os pactos da esquerda com as forças do atraso. Sem pretensões eleitorais ou interesse por cargos, puderam colocar o dedo na ferida sem temer as consequências para seus agrupamentos ou para suas vidas particulares. Para todos os fins possíveis, o MPL e os movimentos congêneres foram as autênticas forças revolucionárias do Brasil naquele período. 

E o que questionavam? Não era apenas o transporte público e sua lógica segregacionista, era todo o sistema capitalista, particularmente em sua forma brasileira. Ao negar a existência de catracas, os movimentos pelo passe livre recusavam a própria forma da mercadoria, o próprio valor enquanto meio de reprodução da vida social. O valor que se interpõem entre as pessoas e a livre circulação pela cidade, também se interpõem entre elas e a habitação digna, entre elas e a alimentação, entre elas e o trabalho digno e humanizado, entre elas e outras pessoas. Questionar as catracas era no fim questionar o próprio Capital e Junho de 2013 foi essencialmente o momento de maior contestação radical ao capitalismo na história do Brasil. (por David Emanuel Coelho




LEIA OS DOIS PRIMEIROS ARTIGOS DA SÉRIE: 


quinta-feira, 8 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. PARTE 2: A FALÊNCIA DA REPÚBLICA NOVA


 OS ANTECENDENTES DE JUNHO DE 2013: a falência da República Nova

O regime militar foi estabelecido em 1964 para garantir uma modernização conservadora no Brasil em que a industrialização e urbanização foi feita de modo subordinada ao capitalismo central da Europa e dos EUA. Como consequência, o país não modificou sua estrutura social, mantendo a propriedade fundiária inalterada e a super exploração da mão de obra, resultando em um país com um dos parques industriais mais avançados do planeta, mas com mazelas piores que os presentes em países miseráveis da África.

O Milagre Econômico foi concebido às expensas do endividamento externo do país e objetivava isolar a oposição revolucionária aglutinada nas guerrilhas. Com o boom econômico, grande parte da classe média e mesmo da classe trabalhadora passou a dar apoio à ditadura, deixando os bravos militantes à mercê da truculência da repressão. Contudo, o Milagre duraria pouco e já por volta de 1974 fazia água diante do Choque do Petróleo, fazendo crescer a insatisfação popular. Apesar de uma tentativa de ressureição por parte do ditador Geisel, o único jeito foi implementar um processo de abertura política a fim de garantir a permanência da estrutura econômica e social instaurada após o Golpe. 

No centro do projeto de transição estava a criação de uma democracia de baixa intensidade, com eleições regulares, alternância de poder e certos direitos elementares, mas que nada de essencial mudasse. Para tal feito, a distensão foi acontecendo a conta-gotas, com os agrupamentos mais radicais sendo introduzidos paulatinamente no jogo institucional. 

No entanto, a situação social e econômica se deteriorava rapidamente e a hiperinflação corroía a renda dos trabalhadores levando às gigantescas mobilizações operárias do fim da década de 1970 e que se estenderam por grande parte da de 1980. Diante de uma possível mobilização revolucionária, a saída do regime foi acelerar os processos de distensão e permitir a organização política dos trabalhadores a fim de integra-los no processo de autorreforma da ditadura. Nisso, a oposição liberal jogou grande papel, colocando ênfase mais no retorno pleno da democracia e menos em questionamentos à estrutura socioeconômica. Vendia-se a ideia de que as transformações sociais viriam futuramente com eleições livres. 

O nível do engano desta estratégia ficou demonstrada com o fracasso do movimento das Diretas-Já e a articulação entre a oposição liberal com as facções civis apoiadoras da ditadura. A morte de Tancredo Neves levou ao poder José Sarney, eminência parda do regime em retirada e que tratou de prosseguir a dissenção segundo os planos dos ditadores, convocando uma constituinte limitada, não investigando os crimes dos militares e, sobretudo, não mexendo na estrutura econômica cristalizada durante o regime. 

Formou-se, então, um pacto entre as forças de esquerda do país e os grupos conservadores e reacionários advindos da Ditadura. Por esse pacto, transformações pontuais eram permitidas ao país desde que não se tocasse na estrutura fundamental da propriedade privada, sobretudo no papel subordinado do Brasil no capitalismo internacional. Tal pacto foi batizado de Nova República, em que a questão social estaria no centro dos problemas políticos sem, contudo, tematizar a economia. 

Incapaz de modificar a estrutura socioeconômica, a esquerda passou a se concentrar na conquista de direitos sociais que deveriam ser codificadas na nova carta constitucional e em legislações infraconstitucionais. Acreditava-se que a ação estatal seria capaz de corrigir as graves desigualdades do país e estabelecer um desenvolvimento social para o país sem romper com o pacto. Começava assim o chamado cidadanismo, em que o indivíduo teria sua vida melhorada graças aos direitos sociais garantidos pelo poder público, ou seja, pelos serviços públicos ofertados pelo Estado. 

Porém, a promessa nunca se tornou realidade justamente devido ao subfinanciamento dos serviços públicos e as limitações da vida cotidiana dos trabalhadores, esmagados pela miséria, pelo desemprego e pela falta de perspectivas. O pacto, porém, continuou sua existência, agora explicitado pelo chamado Presidencialismo de Coalização, iniciado logo após o impeachment de Fernando Collor. 

Collor, inclusive, pode ser considerado a última etapa do processo de transição iniciado pela ditadura, pois também oriundo da oligarquia florescida durante o regime militar. Após sua saída da presidência, a oligarquia mais reacionária do país continuaria a ter papel importante, mas com ação maior no legislativo e nos Estados, assumindo papel denominado impropriamente de fisiologista, primeiro com FHC, depois com Lula e Dilma. 

A falta de mudanças após o fim do regime militar foi se juntar com as contradições oriundas da reorganização produtiva do país após o declínio da Indústria nacional gerando tensões sociais geometricamente crescentes. A frustração com a falta de mudanças e o sentimento de estagnação se agravaram com a ausência de mudanças no governo lulopetista que havia sido eleito com altas promessas de novos tempos para o país. Embora, tal como na época do Milagre, o boom das commodities tenha favorecido e mascarado as contradições, a ponto de garantir a eleição de Dilma e um fim de governo com altíssimos níveis de aprovação para Lula, a verdade é que as tensões se acumulavam de forma grave e bastaria um rastilho para explodirem. 

A crise de 2009, tal como o Choque do Petróleo, teve impacto profundo no Brasil, fazendo de imediato caírem as  entradas de divisas. Um  país desindustrializado, altamente dependente da importação de mercadorias, sentiu profundamente a nova situação com o encarecimento acelerado do custo de vida e a desaceleração da economia. Em uma sociedade com renda historicamente reduzida, a piora da inflação já significou terrível aperto financeiro e reversão de expectativas, trazendo à luz do dia as contradições acumuladas. 

As massas identificaram rapidamente a contradição entre os péssimos serviços públicos disponibilizados pelo Estado - garantidos como direitos pelo cidadanismo - e os exorbitantes gastos com as mega obras para a Copa e para as Olímpiadas. Implicitamente, aquele pacto oriundo do fim da ditadura era rechaçado nas ruas do Brasil pois se passava a exigir a efetivação da promessa de serviços de qualidade e da melhora das condições de vida cotidianas. Questionar a condição calamitosa da saúde e da educação, questionar o caos do transporte público, questionar a ruína da vida urbana e a falta de perspectiva e de qualidade de vida era colocar o dedo diretamente na ferida do Pacto urdido na República Nova. 

Por isso, tal pacto morreu em Junho de 2013, tendo essa ruptura ficado mais clara nos anos seguintes, sobretudo com o Impeachment de Dilma e a eleição de Bolsonaro. Os partidos políticos surgidos após a ditadura foram massivamente rechaçados pela população, não raras vezes de forma violenta, inclusive, e sobretudo, os partidos de esquerda, vistos como traidores do ideal de mudança social.

O ideal do cidadanismo, de trazer melhoramentos sociais sem romper com a ordem socioeconômica herdada da Ditadura bateu ali claramente no teto, entrando fragorosamente em parafuso. Nas semanas daquele Junho intenso, novas formas políticas foram possíveis, ficando tudo em suspenso. (por David Emanuel Coelho

LEIA O PRIMEIRO ARTIGO DA SÉRIE:

 DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013: A QUESTÃO URBANA 

quinta-feira, 1 de junho de 2023

DEZ ANOS DE JUNHO DE 2013. O BLOG COMEÇA UMA SÉRIE DE ARTIGOS DO EVENTO MAIS IMPORTANTE DA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL

 


Há dez anos um dos maiores eventos da história brasileira tomava vulto nas ruas do país, eram as Jornadas de Junho de 2013, evento responsável por mudar de forma profunda nossos rumos políticos, sociais e culturais. 

Expressão do colapso do sistema político nacional, da degradação da vida urbana e do desencanto com a trajetória lulopetista no poder, Junho de 2013 mobilizou milhões de pessoas como jamais se havia mobilizado antes ou como jamais voltariam a se mobilizar posteriormente. Sobre a aparência de uma contestação genérica pelos péssimos serviços públicos e contra os gastos faraônicos para a Copa do Mundo, na realidade havia uma ruptura profunda com a estrutura econômica e política cristalizada após o fim da ditadura militar e levada a cabo pelos governos da dita esquerda. 

A emergência do movimento significou o naufrágio definitivo do lulopetismo que não titubeou em assumir seu lado contra os manifestantes, articulando nacionalmente uma contra ofensiva ao levante por meio da repressão jurídico-policial e da desmoralização discursiva. Hoje o lulopetismo é apenas um zumbi vagueando pelo mundo apoiado nas lembranças da era de ouro dos dois primeiros governos Lula. 

Por cerca de um mês, o povaréu tomou conta dos espaços públicos, com ocupações não apenas das vias de trânsito mas também de assembleias, câmaras municipais e sedes do poder executivo.  Após o auge do processo, as massas refluíram em quase todo país, exceto no Rio de Janeiro, onde barricadas continuaram ardendo por mais um ano. 

Por fim, o movimento Não Vai Ter Copa - inspirado nos gritos dos manifestantes - foi o epílogo das jornadas, com mobilizações menores mas ainda de intensa radicalidade, tendo sido violentamente esmagado pela repressão comandada pelo governo de Dilma. 

Essa sempre se colocou contra as mobilizações, liderando a repressão seja diretamente com o uso da Força Nacional e do Exército, seja indiretamente através de apoio aos governos estaduais. No auge do processo repressivo, a ex-Gerenta chegou a criar comitê de inteligência militar para espionar os manifestantes, se associando a Sérgio Cabral na formulação de um grupo policial para perseguir e enquadrar suspeitos

Dilma viria a ter um destino trágico, mas nada que não tenha sido consequência de suas próprias escolhas. Ao optar por uma aliança com as forças mais reacionárias do país, alienando-se do povo, empenhou seu futuro nas mãos de uma turba de bandidos. Na primeira situação de enfraquecimento, eles deram o bote. 

Nada poderia ser diferente, pois ao reprimir e aniquilar o movimento de esquerda das Jornadas, o lulopetismo deu grande ajuda à direita que, com suas manifestações ordeiras, muito dinheiro, apoio da mídia e da oposição conservadora, conseguiu tomar as ruas agora vazias e assumir a bandeira da indignação popular, agora com pautas reacionárias. Bolsonaro nasceu aí. 

Para analisar com mais completude e detalhes todo o movimento de Junho de 2013, com seus antecedentes e suas consequências, o blog publicará dois artigos por semana durante este mês de Junho. Será uma forma de passar a limpo um dos períodos mais turbulentos da história nacional e que está longe de ter acabado. (por David Emanuel Coelho)

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