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segunda-feira, 22 de abril de 2024

TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ ABRIU CAMINHO PARA A REDEMOCRATIZAÇÃO CONSENTIDA

Por este placar os paulistanos viram, voto a voto,
a emenda Dante de Oliveira ir sendo rejeitada...
Foi de arrepiar a campanha das 
diretas-já, desenvolvida pela cidadania para convencer o Congresso Nacional a aprovar a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia imediatamente as eleições diretas para presidente da República.

Houve uma série de grandes comícios nas nossas principais capitais, alguns deles reunindo até 1 milhão de brasileiros (o derradeiro, em 16/04/1984, cravou a incrível marca de 1,5 milhão!) que não suportavam mais a bestialidade & boçalidade impostas pelos golpistas de 1964.

As minhas melhores lembranças são:

— o mar de camisas amarelas sinalizando a volta da esperança;

— o incrível tour-de-force de Leonel Brizola que, em função da mesquinha disputa de espaço político no campo da esquerda, começou sob vaias seu discurso numa manifestação das diretas-já na Praça Clóvis (SP) e, com sua fala empolgante, conseguiu colocar o público a seu favor, terminando sob aplausos generalizados; e

— a promessa do craque Sócrates em comício-monstro no Anhangabaú (SP), de que, caso fosse restituído ao povo brasileiro o direito de escolher seu presidente, ele ficaria aqui para contribuir na redemocratização, recusando a proposta astronômica da Fiorentina.

Infelizmente, o Congresso rejeitou naquele funesto 25 de abril a emenda Dante de Oliveira e a eleição acabou sendo, mais uma vez, indireta. 

Aí, parte dos parlamentares que haviam frustrado a vontade popular abandonou o partido da ditadura (o PDS, sucessor da Arena) e formou uma nova agremiação (o PFL, depois DEM) que, unida ao PMDB, assegurou a vitória do peemedebista Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os vira-casacas de última hora receberam as recompensas de sempre.
...por haver obtido só 62,6% de  votos favoráveis e não os
66,67%  que seriam necessários. Os ausentes decidiram.

Um dos piores deles era José Sarney,  que presidia o PDS mas estimulou a dissidência que viraria PFL... tendo, contudo, ele próprio se filiado ao PMDB, provavelmente para tornar mais digerível sua indicação para vice na chapa de Tancredo (a qual, evidentemente, já haveria sido articulada nos bastidores).

A presidência acabou lhe caindo no colo: como Tancredo, vitimado por uma infecção generalizada, nem sequer pôde assumir (Deus castiga!, diziam os antigos), o primeiro presidente pós-ditadura acabou sendo alguém que, meses antes, era um dos mais servis serviçais dos militares.

Eis as perguntas que não querem calar:
1. quando, exatamente, esses congressistas de origem  arenosa  decidiram desembarcar da canoa furada da ditadura?
2foi só depois de eles terem assegurado, com seus votos, a rejeição da emenda Dante de Oliveira?
3ou já era este seu objetivo desde o início, tendo voltado as costas ao povo para depois obterem bom preço nas barganhas com o PMDB?

Nunca tive a menor dúvida de que o jogo foi de cartas marcadas: o carteador trapaceou!
Foto divulgada para tranquilizar os brasileiros quanto  ao
estado de saúde do Tancredo; causou péssima impressão
.

O certo é que, pelo voto popular, daria Brizola ou Lula; pela via indireta, no infame tapetão, deu Tancredo.

A grande imprensa, sob a batuta da Rede Globo, tudo fez para vender o conceito de que tal saída da ditadura pela porta dos fundos era o coroamento das diretas-já

Fomos poucos os que, não só percebemos o embuste, como nos mantivemos coerentes com nossos valores, e, em meio à euforia orquestrada, denunciamos que tinha sido, isto sim, o resultado de uma traição à causa que havia mobilizado intensamente os melhores brasileiros

O oba-oba saudando a Nova República foi poeira colorida atirada nos olhos dos videotas, que acabaram engolindo gato por lebre: uma redemocratização pela metade, com expressiva participação de remanescentes ou cúmplices da ditadura, ao invés da verdadeira ruptura com o totalitarismo que a aprovação da emenda Dante de Oliveira teria propiciado.

Vai daí que não se investigaram as atrocidades cometidas pelo regime militar, nem se julgaram os criminosos (já que haviam anistiado preventivamente a si próprios!).
A eles se juntaria em 2016 a Dilma, segunda impichada

E, por havermos deixado passar o momento ideal para a apuração e punição dos responsáveis por tais episódios infames, a impunidade das bestas-feras e dos seus mandantes se tornou inevitável e irreversível. 

Impotente para mudar o rumo daquela farsa coonestada por uma esquerda já então ávida pelos nacos de poder que poderia conquistar sob a democracia burguesa, só pude desabafar:
"Não, não serei eu a tecer loas à transição manipulada que deu fim à ditadura militar sem mudança real na composição do poder (só nos métodos...) e sem que deixassem o povo decidir quem ele queria colocar no lugar do último general ditador. 
Nem endeusarei jamais! o político conservador com carisma zero que preferiu ver os brasileiros derrotados mais uma vez, desde que isto lhe permitisse apropriar-se da faixa presidencial sem passar pelo crivo das urnas".  
Enquanto isto, os bons companheiros engoliam não só o matreiro Tancredo Neves como (até mesmo!) o camaleônico José Sarney.  

Então, acabou sendo Sarney o presidente da redemocratização e, claro, esta ficou pela metade, exatamente por ser uma redemocratização consentida, sem coragem política para ultrapassar os limites traçados pelos que, presumivelmente, estariam deixando o poder. (por Celso Lungaretti
Brizola, por sua atuação destacada para frustrar o golpe já em 
1961, era quem os militares menos aceitariam como presidente.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

O primeiro comício das diretas-já levou 300 mil pessoas à Praça da Sé – mesmo local em que
os paulistanos iriam acompanhar e torcer em vão pela aprovação da emenda, três meses depois
Em que momento o Peru tinha se f... pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.
Da esq. p/ a dir.: Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.
Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

O PLACAR É PANDEMIA 7x1 BRASIL E OS GOVERNADORES AGORA AJUDARÃO O BOLSONARO A CARREGAR OS CAIXÕES

Não procurem justificativas científicas para a flexibilização do distanciamento social neste exato instante, por que elas inexistem: Estamos num patamar estratosférico de contaminações e mortes diariamente causadas pela Covid-19, com tendência a aumentarem e não, sequer, de se manterem nos inaceitáveis níveis atuais. 

Então, não aliviarei para ninguém: trata-se de uma decisão criminosa, cuja explicação real está no calendário eleitoral.

Se em março Jair Bolsonaro tomou conhecimento da gravidade da pandemia, sendo alertado de que ela tendia a provocar pelo menos 100 mil óbitos, é claro que os políticos profissionais em geral também ficaram então sabendo que marchávamos ao encontro de um furacão.

Obcecado com a reeleição, Bolsonaro logo deduziu que 100 mil caixões de defunto seriam peso demasiado para ele carregar na campanha sucessória; então, desertando antecipadamente da batalha para reduzir o estrago, optou por um negacionismo obtuso que, acreditou ele, serviria para jogar a culpa no colo dos governadores.

Mas, ninguém passa tanto tempo no baixo clero da Câmara Federal à toa. Se ele fosse brilhante e capaz de bolar estratégias geniais, sua trajetória não teria sido a de 28 anos de estagnação, sempre ladeado pelos piores e pelos mais medíocres.

Os governadores, capazes de pelo menos enxergarem o óbvio, foram por caminho diferente: fizeram o sanitariamente correto no primeiro semestre, apostando que Bolsonaro se afundaria até o pescoço na lama dos cemitérios antes do momento de os políticos se mobilizarem para a campanha eleitoral de 2020.

Sabiam muito bem que, fosse qual fosse o estágio sanitário, as pressões do empresariado tornariam os políticos de suas respectivas bases de sustentação incontroláveis: ou os governadores se prostrariam aos interesses econômicos ou a abertura se daria com bancadas rebeladas passando por cima deles.

Resumo da ópera: os mortos que poderiam ter sido salvos por uma administração competente da crise sanitária devem, até o fim de junho, ser creditados unicamente a Bolsonaro, enquanto os do 2º semestre vão na conta conjunta do presidente delirante com os governadores raposões. 

Veio-me à lembrança uma situação parecida. Quando das diretas-já, Tancredo Neves, com seu carisma zero, foi mero coadjuvante, ofuscado pelas muitas estrelas daquele movimento. Mas, articulador de bastidores, certamente já estava conchavando parte dos fisiológicos do partido de sustentação da ditadura militar, o PDS.

Aí, como numa eleição direta ele jamais se elegeria presidente, a dissidência do PDS foi mantida no armário até a votação decisiva, para impedir a aprovação da Emenda Dante de Oliveira

Feito o serviço sujo e tendo Paulo Maluf obtido em seguida a indicação do PDS como candidato situacionista, os amiguinhos do Tancredo saíram finalmente do armário, abandonando o navio que já fazia água; e, com o rótulo de PFL, concederam-lhe os votos necessários para dar um chapéu no Maluf na eleição indireta. 
Parece que até Deus ficou enojado, pois Tancredo, após ter roubado dos brasileiros o direito de eleger o presidente de sua escolha após 21 anos de seca... não conseguiu sequer tomar posse! 

Mas, o principal motivo de eu traçar este paralelo foi o que Tancredo declarou quando ficaram só ele e Maluf na jogada, após o segundo ter imposto sua vontade aos militares, que haviam escolhido Mário Andreazza como candidato mas foram contrariados pelos convencionais do PDS.

Disse Tancredo algo na linha de que Maluf havia se saído bem contra amadores, mas agora iria enfrentar um profissional.

A frase não teve nada de premonitória, como a imprensa avassalada interpretou: Tancredo sabia que, com a carta que tinha na manga (a traição daqueles filhotes da ditadura), a eleição estava no papo.

A distância entre os profissionais (os governadores) e o amador do baixo clero decidiu a parada atual: Bolsonaro foi destruído e logo será destituído, mas o placar dos brasileiros que não são políticos profissionais, está 7x1 para o coronavírus. (por Celso Lungaretti)  

domingo, 31 de março de 2019

O EXEMPLO DE SÓCRATES AINDA INSPIRA O CORINTHIANS: GANHAR OU PERDER, MAS SEMPRE COM DEMOCRACIA!

encontro com a ditadura – 19
Enquanto os nostálgicos da ditadura militar celebravam o período mais vergonhoso da História brasileira, o Corinthians aproveitava a semifinal do Paulistão/2019 para reverenciar a memória de um dos seus maiores craques e líder da chamada democracia corinthiana, que revolucionou o relacionamento entre jogadores e dirigentes, sepultando o autoritarismo tradicionalmente praticado pelos cartolas do nosso futebol. Trata-se, evidentemente, de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira.
O doutor Sócrates foi também grande defensor da redemocratização do país em 1984, quando participou ativamente da campanha das diretas-já, chegando a prometer que recusaria uma proposta milionária da Itália caso a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada pelo Congresso.
Com autorização da diretoria do clube, sua estátua ficará exposta na Arena Corinthians, juntamente com uma faixa daquela época que acaba de ser reencontrada: ganhar ou perder, mas sempre com democracia! 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

"Em que momento o Peru tinha se f...?", pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzirem os acontecimentos no sentido do eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f...

domingo, 3 de abril de 2016

ATÉ A 'FOLHA' CONCORDA: NOVA ELEIÇÃO É A MELHOR SOLUÇÃO.

O editorial vir na capa é sintomático 
Não terá sido coincidência o fato de os dois jornais mais influentes de São Paulo (que, ao lado de O Globo, são os maiores do País), terem publicado editoriais extremamente contundentes contra o Governo Dilma neste mesmo domingo, 3. Para quem consegue captar os subtextos da política e da comunicação, é sinal de que o drama brasileiro está chegando ao desfecho. 

O da Folha de S. Paulo, Nem Dilma nem Temer, começou acertando já no título: a presidente precisa ser substituída antes que o avanço daquela que já é a nossa pior recessão econômica de todos os tempos engendre a convulsão social, o caos e, talvez, uma nova ditadura; mas o vice não se constitui, nem de longe, no homem certo para unificar o País nestas circunstâncias dramáticas.

Então, tanto quanto a esquerda precisa ser refundada após os fracassos e a lama da era petista, a democracia brasileira precisa ser passada a limpo depois de haver atingido grau tão extremo de degradação. Como o poder político se esfarelou por completo, um novo governo só terá credibilidade se provir da fonte do qual emana, ou deveria emanar: o povo.

É paradoxal que o chamamento a uma nova diretas-já parta de um jornal tão identificado com más causas. Vale, contudo, lembrar que em 1984 a Folha apoiou a emenda Dante de Oliveira e, por ser o jornal mais simpático ao restabelecimento imediato das eleições diretas, teve um ganho imenso de prestígio, que logo se expressaria  em termos financeiros (aumento da circulação e das receitas publicitárias). Como atravessa um período de vacas magras, pode estar sonhando com um bis.

Quanto ao editoral de O Estado de S. Paulo (Contra o direito e a razão), constata o óbvio: ao tentar salvar-se do impeachment entregando as joias da coroa a partidecos como como o PHS, PTN, PSL e PT do B, Dilma está transformando o Planalto num "monturo" e, mesmo que por milagre consiga manter seu mandato, "terá de governar com essa equipe de desqualificados" e "não terá nenhuma condição de aprovar o que quer que seja no Congresso".

Resultado óbvio: "O País ficará paralisado". E, acrescento eu, como a natureza e a política abominam o vácuo, conflitos armados e quarteladas entrariam no leque das possibilidades. Trata-se do pior cenário, aquele que é simplesmente imperativo afastarmos.

Não passa de um tresloucado desvario a suposição de que ganharíamos agora uma luta que perdemos quando tínhamos quadros infinitamente melhores, éramos respeitados pelo povo e enfrentávamos uma ditadura tão tacanha quanto odiosa e sanguinária. Tudo leva a crer que, pelo contrário, desta vez colheríamos uma derrota ainda mais acachapante. Então, o enfrentamento deve ser evitado a qualquer custo, enquanto não recompusermos nossas fileiras e resgatarmos nossa credibilidade.

É coisa para anos: depois do vexame da capitulação sem luta em 1964, só conseguimos dar a volta por cima em 1968. 

Deixar desabar um governo que jamais foi revolucionário e hoje está caindo de podre é um preço barato a pagarmos para que a reconstrução da esquerda possa ser empreendida nas condições mais favoráveis, ou seja, em tempos de (ao menos relativa) calmaria.  

domingo, 30 de janeiro de 2011

A CHANCE DESPERDIÇADA DE UMA VERDADEIRA REDEMOCRATIZAÇÃO

"A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!"
(Castro Alves)

Foi de arrepiar a campanha das diretas-já, desenvolvida pela cidadania para convencer o Congresso Nacional a aprovar a emenda Dante de Oliveira, que restabelecia imediatamente as eleições diretas para presidente da República.

Houve uma série de grandes comícios nas nossas principais capitais, alguns deles reunindo até 1 milhão de brasileiros que não suportavam mais a bestialidade & boçalidade implantadas pelos golpistas de 1964.

As minhas melhores lembranças são:
  • o mar de camisas amarelas sinalizando a volta da esperança; 
  • o incrível carisma de Leonel Brizola que, em função da mesquinha disputa de espaço político no campo da esquerda, começou sob vaias seu discurso numa manifestação das diretas-já na Praça da Sé (SP) e, com uma fala empolgante, conseguiu colocar o público a seu favor, terminando sob aplausos generalizados; 
  • e a promessa do craque Sócrates num comício-monstro do Anhangabaú (SP), de que, caso fosse restituído ao povo brasileiro o direito de escolher seu presidente, ele ficaria aqui para contribuir na redemocratização, recusando a proposta astronômica da Fiorentina.
Infelizmente, o Congresso rejeitou em abril/2004 a Dante de Oliveira e a eleição acabou sendo, mais uma vez, indireta. 

Aí, parte dos parlamentares que haviam frustrado a vontade popular abandonou o partido da ditadura (PDS) e formou uma nova agremiação (o PFL, depois DEM) que, unida ao PMDB, assegurou a vitória do peemedebista Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os vira-casacas de última hora receberam todas as recompensas.

Um dos piores deles era José Sarney,  que presidia o PDS, estimulou a dissidência que viraria PFL... mas ele próprio se filiou ao PMDB, provavelmente para tornar mais digerível sua indicação para vice na chapa de Tancredo, que já estava sendo articulada.

A Presidência acabou lhe caindo no colo: como Tancredo, vitimado por uma infecção generalizada, nem sequer pôde assumir, o primeiro presidente pós-ditadura acabou sendo alguém que, meses antes, era um dos mais servis porta-falácias da ditadura.

E as perguntas que não querem calar:
  1. quando, exatamente, esses congressistas de origem  arenosa  decidiram desembarcar da canoa furada da ditadura?
  2. foi só depois de eles terem assegurado, com seus votos, a rejeição da emenda Dante de Oliveira?
  3. ou já tinham esse projeto em mente, mas voltaram as costas ao povo para depois obterem bom preço nas barganhas com o PMDB?
O certo é que, pelo voto popular, daria Brizola ou Lula; pela via indireta, deu Tancredo.

A grande imprensa, sob a batuta da Rede Globo, tudo fez para vender o conceito de que tal saída da ditadura pela porta dos fundos era o coroamento das diretas-já.

O auê saudando a Nova República foi poeira colorida atirada nos olhos dos brasileiros, que acabaram engolindo gato por lebre: uma redemocratização pela metade, com expressiva participação de cúmplices da ditadura, ao invés da verdadeira ruptura com o totalitarismo que a aprovação da emenda Dante de Oliveira teria propiciado.

Vai daí que não se investigaram as atrocidades cometidas pelo regime militar, nem se julgaram os criminosos (que haviam anistiado preventivamente a si próprios).

E, por se ter deixado passar o momento ideal para a apuração e punição dos responsáveis por tais episódios infames, é possível que isto nunca venha a ocorrer.

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