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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!). Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

terça-feira, 16 de abril de 2024

HÁ 40 ANOS, OS FARDADOS DISPUNHAM DAS ARMAS E OS DESCONTENTES COM A DITADURA INUNDAVAM AS RUAS. O PAÍS EMBURRECEU?

Hoje se completam 40 anos desde o discurso de encerramento da campanha das diretas-já, considerado a maior manifestação popular em defesa da democracia já ocorrida no Brasil, tendo reunido cerca de 1,5 milhão de pessoas. 

Nove dias depois, a emenda Dante de Oliveira seria rejeitada na Câmara Federal, condenando o Brasil a uma redemocratização pela metade e a ser para sempre lembrado como um país que passou pano no terrorismo de estado ao qual foi submetido pelos usurpadores do poder durante os anos de chumbo. 
Osmar Santos foi o apresentador de todos os comícios das
diretas-já em SP. Atrás, Sócrates, Juninho e Casagrande.
Eis alguns trechos do trepidante relato que o grande Ricardo Kotscho fez do ato público em Todos sabiam aonde queriam chegar, publicado na Folha de S. Paulo:

"Era para ser apenas uma passeata, da Praça da Sé ao Vale do Anhangabaú, fechando o festival cívico da Campanha das Diretas, em São Paulo. 

Mas todos se deram conta de que não era uma passeata só, eram muitas, vindas de todos os cantos, batendo o recorde de gente em manifestações públicas no Brasil. 

Aos políticos, já faltavam palavras para expressar a emoção de ver o Vale do Anhangabaú transformado numa maré humana como nunca se viu antes igual no Brasil. 

Parecia que São Paulo inteira havia saído para as ruas A geração esmagada dos anos 60 e 70 estava de novo nas ruas, sem correr da polícia 
Leonel Brizola era, de todos, o orador mais eloquente.

Carros de som tascavam Caminhando, o hino de Vandré,
Vem, vamos embora, que esperar não é saber. 

Sai Vandré, entra Chico – apesar de você, amanhã há de ser outro dia / ainda pago pra ver esse dia nascer… 

Vem Milton Nascimento, entra Simone, brilha Elis. 

Às 20h30, no horário do final do comício, o presidente João Baptista Figueiredo surgia em rede nacional de TV para anunciar sua proposta: eleições diretas só mais tarde, em 1988, uma tentativa de esvaziar o movimento". 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

HOJE O DOUTOR SOCRATES FARIA 68 ANOS. MORRENDO DE DESGOSTO...

 
Manifestação das diretas-já no Anhangabaú. Atrás do apresentador Osmar Santos, 
da esq. p/ a dir., estão Sócrates, FHC, Casagrande e o dirigente Adílson Monteiro Alves.
M
uhammad Ali esteve no Brasil quando assumia conscientemente o papel de símbolo da luta dos negros contra o racismo; Pelé, por sua vez, era um gênio do futebol e um zero à esquerda em preocupações sociais.

Um repórter perguntou ao grande  Ali o que achava de Pelé. Com seu brilhantismo habitual, ele respondeu algo assim (não encontrei a frase exata): "Se alguém é um esportista extraordinário, isto já basta. Mas, se além disto, ele também levanta as bandeiras de sua gente e trava o bom combate, aí sim ele é completo".

Sócrates, que estaria fazendo 68 anos neste sábado (19), era completo.

Parafraseando o que Foreman disse sobre o próprio Ali, talvez Sócrates não tenha sido o maior jogador brasileiro de todos os tempos, mas, sem dúvida, foi o melhor cidadão brasileiro que já atuou no futebol profissional.

A ponto de, quando os melhores cidadãos brasileiros saíram às ruas para recuperar o direito de elegerem o presidente da República, ele ter assumido um compromisso solene com a multidão que lotava o Vale do Anhangabaú (SP). 

Dispôs-se a, caso fosse aprovada a emenda das diretas-já, recusar a proposta estratosférica da Fiorentina e permanecer no País para ajudar a reconstruí-lo. 

Por acaso, foi exatamente a vez em que consegui um lugarzinho bem próximo do palanque. Um momento de arrepiar! Meninos, eu vi...
Algo raro na época: mesmo não sendo centroavante, Sócrates fez os 4 gols que
decidiram o campeonato paulista de 83. Um foi de pênalti e os outros 3 são estes
No dia 4 de dezembro de 2011 perdemos um grande companheiro, um irmão de fé. Foi doído demais.

Hoje, contudo, fico pensando: o que ele faria no hospício em que a extrema-direita transformou o país, como se encaixaria neste Brasil covarde e abúlico que não reage nem mesmo quando um louco furioso extermina sua gente?

Provavelmente morreria de desgosto. (CL)
Documentário de curta metragem criado por Danilo Corrêa

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

"Em que momento o Peru tinha se f...?", pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzirem os acontecimentos no sentido do eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

HÁ ELEIÇÕES QUE SE PODE PERDER, MAS ESTA NÃO É UMA DELAS!!!

celso rocha de barros
PT, VOLTE A SER DIGNO DA HORA
O PT está prestes a ganhar algo raríssimo na política: uma segunda chance. 

O fracasso de Michel Temer e as revelações da Lava Jato sobre os partidos de direita deram sobrevida ao Partido dos Trabalhadores e colocaram Fernando Haddad no 2º turno, na eleição mais importante de nossa história. Há eleições que se pode perder, mas esta não é uma delas! 

É a chance de o PT encerrar a crise que ajudou a começar com a política econômica do primeiro mandato de Dilma Rousseff. O passo inicial, portanto, é abraçar a responsabilidade econômica que faltou a Dilma em 2012. 

O segundo passo é até mais importante: precisa abandonar qualquer ressentimento, qualquer desejo de vingança causado pela crise política que seus adversários provocaram com o impeachment de Dilma Rousseff.

Enfim, é hora de esquecer o programa do 1º turno e abraçar o programa da frente democrática que deve se formar no segundo. Esse programa deve reconhecer a necessidade de ajuste fiscal, corrigindo os defeitos do ajuste de Temer, e deixar de lado toda palhaçadinha de nova Constituição, controle da mídia e demais babaquices que intelectual petista burro enfiou no programa de governo porque estava com raiva do impeachment. 
Algumas dessas propostas podem até ser dignas de discussão, mas só depois de o PT reconquistar a confiança geral da população quanto à sua condição de partido responsável, na economia e na política. 

Essa é a segunda chance do Partido dos Trabalhadores, mas também é a última. Se o PT perder para Bolsonaro, há uma perspectiva real de que os pobres brasileiros não consigam mais se fazer ouvir no sistema político por uma geração. O PT não tem o direito de impor aos pobres essa tragédia sendo incompetente ou radical.

Agora é a hora do partido voltar a ser a alternativa da esquerda democrática como foi nos anos Lula. A campanha no 2º turno deve ser a mais inclusiva possível para todo mundo, da esquerda, do centro ou da direita, que defenda a democracia contra Bolsonaro.

Haddad é perfeitamente capaz de levantar as bandeiras que o PT precisa defender, mas o partido precisa deixá-lo vencer. É preciso terminar de ganhar os votos que eram de Lula entre os pobres, o que o PT sabe fazer.

Mas também é preciso ganhar terreno no centro, que não está interessado em discurso imbecil contra Lava Jato ou a favor do vagabundo Nicolás Maduro. 

É preciso deixar que os centristas democratas votem no PT. O partido que existiu até agora, aliás, acabou neste domingo (7). 

Serviu para manter o eleitorado lulista unido e colocar Haddad no 2º turno. Agora Haddad, junto a Jaques Wagner e os governadores do partido —que já vêm fazendo ajuste fiscal faz tempo— devem recriá-lo. 

Um partido de esquerda moderado sempre será favorito nas eleições brasileiras —o PT pode vencer a quinta presidencial seguida daqui a três semanas. É a última chance que o Partido dos Trabalhadores —de longe, o maior vitorioso de nossa história democrática, e, portanto, o maior interessado na preservação de nossa democracia —terá de desempenhar esse papel.

A sobrevivência da conversa democrática brasileira, a sobrevivência tanto da centro-esquerda quanto da centro-direita, nossa participação na comunidade das nações livres, depende da derrota de Jair Bolsonaro. 

Partido dos Trabalhadores, torne-se digno da hora. (por Celso Rocha de Barros)
.
Toque do editor: ao abrir o computador para começar a propor as alterações necessárias na campanha de Fernando Haddad para o 2º turno, encontrei boa parte do que pretendia dizer já expresso no artigo do Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela universidade inglesa de Oxford.

E muito bem dito, por sinal. No que diz respeito ao quadro atual, nossa concordância é praticamente total: barrar a arrancada fascista justifica qualquer sacrifício neste momento!

Evidentemente, haverá muito a ser feito depois, já que o capitalismo continuará impulsionando a desigualdade econômica e social, a barbárie, a destruição do nosso habitat natural e a infelicidade permanente dos seres humanos: 
.
— os que têm muito, por levarem existências vazias, sem comunhão com os demais seres humanos, nas quais só obtêm o que seu dinheiro pode comprar; e
                                             .
— os que têm pouco, por estarem sempre a um passo da miséria, obrigados a jornadas de trabalho massacrantes que há muito deixaram de ser necessárias e compelidos à competição canibalesca com seus iguais.
                                                      .
Mas, estamos em estado de emergência. Lembremo-nos de que, ao sucumbir às invasões bárbaras, Roma condenou a humanidade a um retrocesso atroz e a um milênio de trevas. Não temos o direito de omitir-nos face à escalada da desumanidade! (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O MELHOR TEXTO DO 'NÁUFRAGO' É SOBRE A TRAIÇÃO ÀS DIRETAS-JÁ

Inaugurado em 08/08/2008, este blogue completará cinco anos com quase 700 seguidores e mais de 770 mil visualizações de páginas, originárias do Brasil (600 mil), EUA (90 mil), Rússia (16,7 mil), Portugal (13 mil) e Alemanha (6,2 mil), principalmente.

Os textos postados estão na casa de 2,1 mil, sendo mais de 300 com o marcador Cesare Battisti; quando da libertação do escritor que a Itália queria silenciar, o total já era de aproximadamente 250. 

Foi a mais prolongada e --considerando-se a extrema desigualdade de forças--, surpreendentemente vitoriosa campanha assumida pelo blogue, que também se colocou ao lado do cineasta Roman Polanski; do ex-etarra Joseba Gotzon; de Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; da iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; do movimento estudantil em geral e dos universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e do de outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   

Afora as lutas travadas contra as múltiplas facetas e manifestações do autoritarismo, inclusive no seio da web; e a defesa permanente dos direitos humanos, dos ideais revolucionários e da memória da resistência à ditadura de 1964/85, da qual tenho orgulho de haver participado, ao lado de alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu.

O meu post preferido do blogue é uma crônica política que escrevi para o Jornal da Tarde em 1994, por ocasião do 10º aniversário da rejeição da Emenda Dante Oliveira.

Em termos políticos, porque considero a derrota das diretas-já e o golpe da eleição indireta como um momento maior da nossa História, só que no sentido negativo. 

Parte do esquema de sustentação da ditadura conspirou com Tancredo Neves para, primeiramente (votando contra a emenda), negar ao povo brasileiro o direito de eleger pela via democrática o seu presidente; e, em seguida (virando casaca na eleição indireta), levar ao poder o dito cujo, um oposicionista domesticado que, nas urnas, jamais se elegeria. 

Foi tão sórdida a manobra que o destino encarregou-se de a punir exemplarmente. Mas, isto piorou ainda mais o que já era péssimo: quem acabou governando não passava de um antigo garoto de recados dos ditadores. 

E o Brasil, ao invés de renascer, encruou, ficando entregue a nulidades a serviço da burguesia (Sarney, Collor e Itamar), a um ilustre intelectual cooptado pela burguesia (FHC) e a dois veteranos do bom combate que se deixaram manietar pela burguesia (Lula e Dilma aceitaram manter  imexível  a política econômica ditada pelos banqueiros e pelo grande capital) . 

E, em termos pessoais, aquele momento político inicialmente esperançoso, depois desalentador, se confundiu com o nascimento da minha primeira filha (adotiva, só 18 anos depois  eu viria a ser pai biológico). As emoções contraditórias marcaram-me profundamente, tanto que, após uma década, o passionalismo ainda era nítido no meu texto. 


A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

"Em que momento o Peru tinha se f...?", pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais -- conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada -- mesmo que tanto tempo depois -- minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o nilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f...


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