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terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!)Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

terça-feira, 27 de maio de 2025

EM QUE MOMENTO O BRASIL TINHA SE F...O? E COMO O QUADRO ESTÁ MUDANDO?

A primeira pergunta, obviamente, coloca o Brasil diante da mesma indagação que Mario Vargas Llosa, no seu clássico Conversa na Catedral, fez sobre o país dele:  ¿En que momento se había jodido el Perú?.

O Brasil é pródigo em momentos patéticos, quando desperdiçou chances claríssimas de construir um futuro bem melhor para seu povo. Caso de 1792, quando delatores fizeram fila (Joaquim Silvério dos Reis estava longe de ser o único...) para delatar ao Visconde de Barbacena a Inconfidência Mineira. 

Com isto, continuou por mais três longas décadas sendo colônia do minúsculo Portugal, que muito dele tirava, quase nada dava e teria sido facilmente derrotado nos campos de batalha se seus filhos não fugissem à luta.

E no século passado teve a chance de uma verdadeira redemocratização em 1984, mas, rejeitando a emenda Dante de Oliveira, saiu da ditadura militar pela porta dos fundos, entregando a faixa presidencial para um notório serviçal do regime que findava.   

Outros exemplos eu poderia citar, mas encompridariam demasiadamente este artigo, portanto falemos apenas da última vez em que o Brasil sifu. Foi durante o medíocre primeiro mandato de Dilma Rousseff, que quis porque quis fazer a economia brasileira crescer graças a investimentos estatais, como se ainda estivéssemos no tempo do Petróleo é nosso .

Tornou-se inevitável uma aguda recessão e, quando caiu para a Dilma a ficha de que seria este o seu legado para o governo seguinte, não teve sequer a humildade de reconhecer que não conseguiria desfazer a lambança. 
Fez questão cerrada de reeleger-se, pensando em salvar sua biografia. 

Recorreu a um economista insignificante que servia ao inimigo de classe (Joaquim Levy) para consertar a lambança e, quando este previsivelmente fracassou, praticamente desistiu de defender seu mandato no front econômico, preferindo travar a batalha nos campos mais favoráveis ao  inimigo (o político e o jurídico), nos quais sua derrota era certa.     

Insistindo em permanecer presidente até o mais amargo fim, ao invés de renunciar para que a esquerda pudesse iniciar um contra-ataque, a mãe do fracassado Plano de Aceleração do Crescimento foi também mãe da vitoriosa escalada da extrema-direita, pois, nas manifestações de rua em prol do impeachment, os fascistas não paravam de acumular forças e nós, de perdê-las.

Como resultado estabeleceu-se a detestável polarização entre dois populistas nutridos pela cultura do século 20, ancorando o Brasil no passado ao invés de atualizá-lo para aproveitar as oportunidades do século 21.

Lula só enganou bem durante seu primeiro mandato, quando tirou a sorte grande com o boom das nossas commodities, que gerou apreciável crescimento econômico. Mas, foi só. Desde então alternaram-se governos liberais do PT e o ultradireitista do Bolsonaro, sempre muito aquém das necessidades brasileiras.
Nosso país, portanto, se ferrou pela última vez em 2012, quando Dilma lançou as bases do bolsonarismo e da polarização. E vai finalmente se livrar dos velhos caciques das duas seitas graças aos sucessivos fiascos de ambos, um prestes a ver o sol nascer quadrado e o outro só carecendo de manto e coroa para se tornar uma perfeita rainha da Inglaterra.

Ademais, as sucessivas hospitalizações de Lula e Bolsonaro já convenceram respectivos esquemas políticos de que nenhum deles terá sequer vigor físico para aguentar mais um mandato. Então, as escaramuças internas nos esquemas políticos dos dois astros cadentes já visam à definição de quem os substituirá no pleito presidencial de 2026. 

Tal disputa já começou quente e se prenuncia como uma verdadeira briga de foice no escuro... (por Celso Lungaretti)   

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

NÃO É COMO FARSA QUE A HISTÓRIA SE REPETE, MAS SIM COMO ÓPERA BUFA.

O heroísmo destes desatinados inspira admiração e respeito...
rui martins
CANUDOS E O FANATISMO DO GADO BOLSONARISTA
Seria exagero ver nas últimas demonstrações de fanatismo dos bolsonaristas semelhanças com os seguidores de Antônio Conselheiro (descritos originalmente em Os Sertões por Euclides da Cunha e relembrados, mais tarde, em A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa)?

Nem um, nem outro usaram a expressão, hoje empregada, de gado, mas descrevem um mesmo comportamento irracional, bruto, selvagem, de seres primários sem consciência de identidade, dispostos a seguirem como bestas do mato, sem razão e sem inteligência, seu líder. 

Felizmente, ainda existe uma diferença básica, a não transformação desses grupos de maioria evangélica num foco de resistência armada.

Ou teria sido a falta de diplomacia dos dirigentes da então recente república, no final do século 19, quem ateou fogo naqueles religiosos, ao tentar desmobilizá-los com o envio de tropas militares? 
...enquanto o histrionismo destes bovinizados só merece o mais profundo desprezo.
Imaginem se os atuais bloqueios e concentrações diante dos quartéis tivessem sido dispersados à força. Por certo teria havido resistência.

Não seria essa a razão do silêncio do presidente Bolsonaro: a expectativa de que ocorra um incidente capaz de incendiar essas manifestações grotescas de pessoas acampadas diante de muros, rezando, orando, gritando, exigindo uma intervenção divina em favor de um golpe militar e da anulação das eleições?

É verdade, não há um líder como Antônio Conselheiro contando histórias malucas, capazes de fazer esquecer a miséria, arrastando as pessoas a agirem como desprovidas de sanidade mental. Mas existem outros tantos conselheiros vivos nos celulares e computadores, distorcendo a realidade em nome do mito maior, o presidente derrotado, segundo eles, mediante fraudes invisíveis perpetradas por seres sobrenaturais, representantes das trevas comunistas.

Sem medo do ridículo, uma pastora profetiza, seguida por centenas de milhares de ovelhas, e testemunha sua fé inabalável em que anjos ou discos voadores impedirão a posse de Lula em janeiro. E os comentários fluem sem parar dando glória a Deus e exclamando aleluias. 
Nunca tantos foram envergonhados tanto por tão poucos

Não são mensagens enviadas por excitados moradores de hospícios. São também pronunciadas em igrejas e congregações repletas, como se nesses lugares todos tivessem virado loucos.

Alguns internautas, na contracorrente, chegaram a elaborar um repertório desses casos de loucura, ignorância, desespero e fanatismo mais comuns, com orações aos gritos, malucos vestidos com a bandeira brasileira marchando, prestando continência como se estivessem em pleno exercício de ordem unida no quartel. 

Mulheres que gritam em crise de histeria contra Lula, outras clamando em favor de uma intervenção divina diante de uma tempestade de vento e chuva que desmonta barracas, arrasta pelo chão e molha colchões, cobertores e alimentos, enquanto Deus permanece insensível.

Conselheiro era contra a República que acabara de ser proclamada e queria a restauração da monarquia, enquanto predizia o fim do mundo para o ano 1900, com a criação de uma Nova Jerusalém. E seus seguidores, gente simples, sofrida e sem instrução, na maioria analfabetos, acreditavam e estavam dispostas a matar e ou morrer pelo Conselheiro. 

O governo republicano levou três anos para acabar com o foco de extremistas, precursores dos atuais evangélicos. Foi truculento, pois temia que a erva daninha se alastrasse, num país sem cultura, vivendo seus primeiros anos de democracia.

Estranhas coincidências: os bolsonaristas são contra a democracia, pedem um golpe e preveem um próximo Apocalipse com a volta de Cristo –ou seria a volta de Bolsonaro? Uma tendência ao messianismo herdada dos colonizadores portugueses, para os quais o rei dom Sebastião, morto em 1578 numa batalha no Marrocos, retornaria para salvar os portugueses da miséria. 
Todos os planos infalíveis do Bozo floparam por serem meras
fantasias egocêntricas de um indivíduo insano e infantilizado.
 

Ao que parece, Bolsonaro acredita nos adivinhadores messiânicos segundo os quais Deus – embora santo, justo e bom – usará uma doença, um acidente ou um raio divino para impedir a posse de Lula.

Ou será que, na falta de um gesto desfechado dos céus, os seguidores do Messias Bolsonaro vão sentir-se obrigados a tomarem eles próprios a iniciativa de provocar uma versão verde-amarela do atentado trumpista estadunidense do Capitólio, tentando impedir a posse legal e oficial de Lula? Será que chegaremos a esse absurdo? 

Para evitar a transformação da Praça dos Três Poderes (onde Janja gostaria de promover uma festa popular) numa versão guerreira de Canudos, será necessário se deslocar a cerimônia da posse de Lula para outro lugar mais seguro e protegido por tropas militares bem equipadas, inclusive com armamento pesado, para fazer face aos malucos? 

Malucos incitados direta ou indiretamente, por militares, políticos, pastores evangélicos, comentaristas de rádios bolsonaristas, canais no Youtube e redes sociais especializadas em fake news, a pretexto – numa afronta à democracia – de que não foi ainda dada aos derrotados uma explicação satisfatória sobre o resultado das eleições. (por Rui Martins)
Antônio Conselheiro, cujo nome hoje consta da lista oficial dos Heróis da
Pátria, inspirou o personagem do beato Sebastião no filme Deus e o Diabo
na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que agora tem esta versão colorizada.  

terça-feira, 9 de novembro de 2021

QUEM FOI QUE REALMENTE FUGIU "DO CAMPO DE BATALHA CENTRAL"?

E
m artigo com a profundidade de uma poça d'água (ver aqui), Demétrio Magnoli recentemente inculpou a esquerda universitária e suas pautas identitárias por esta nova realidade que, segundo ele, faria Marx revirar-se no túmulo:
"Atualmente, os partidos à esquerda representam as classes médias urbanas, educadas e cosmopolitas, enquanto os partidos à direita assentam-se nos trabalhadores, na baixa classe média e nas pequenas cidades".
Diz suspeitar que a raiz de tal fenômeno tenha sido uma incapacidade da esquerda de responder ao "avanço das políticas econômicas liberais" a partir da queda do muro de Berlim em 1989, motivo pelo qual, segundo seu entendimento, elas "fugiram do campo de batalha central".

Tal fuga, na verdade, se deu na década anterior, quando, nos países latino-americanos, a derrota da luta armada foi quase comemorada como um triunfo por parte daqueles agrupamentos esquerdistas que não a travaram, chegando até a proibir seus quadros de socorrerem guerrilheiros em apuros, como fez o nosso partidão.

E, onde os movimentos contestatórios ameaçaram concretamente o poder burguês, foram exatamente os comunistas que deram mão forte aos governantes direitistas, casos emblemáticos da França (preferindo De Gaulle a Cohn-Bendit) e da Itália (mancomunando-se com a corrupta e mafiosa democracia cristã). 
PCB comunicando a expulsão de militantes simpáticos 
à luta armada, Marighella  e Jacob Gorender inclusos
Os identitários cometem mesmo erro crasso ao pulverizar a resistência ao capitalismo agônico (e, por isto, ainda mais nefasto e destrutivo), com cada tendência magnificando seus objetivos específicos sem atentar para o fato de que eles jamais serão real e definitivamente alcançados sob o regime da exploração do homem pelo homem. O certo seria priorizarem o enfrentamento vitorioso do inimigo comum. 

Mas, pelo menos os identitários são um fenômeno do pós-1968, enquanto o reformismo social-democrata que grassou na Europa e domesticou o nosso PT não passa de uma relíquia do pré-1917...

Quanto à lufada modernizadora da economia capitalista ocorrida no final do século passado, com a globalização dos mercados e alguns avanços científicos e tecnológicos significativos, ensejou muitas ilusões de humanização do capitalismo nos esquerdistas que, eles sim, buscavam uma justificativa para se distanciarem da batalha. 

[Lamento, especialmente, que o Paulo Francis, o Mario Vargas Llosa e o Jorge Semprún estivessem entre os que bateram em retirada...]

Hoje, contudo, está definitivamente provado que os ganhos produtivos a partir daí obtidos serviram foi para exacerbar a desigualdade econômica e social, a ponto de, p. ex., 1% da população brasileira concentrar metade da riqueza do país.

Noves fora, a esquerda se elitizou, isto sim, por ter buscado um modus vivendi com o capitalismo, contentando-se em tentar obter, para os explorados, algumas migalhas a mais do banquete dos biliardários, ao invés de se manter fiel à suas bandeiras históricas: a superação do capitalismo, abrindo caminho para a justiça social, a liberdade plena e um aproveitamento racional dos recursos finitos dos quais a humanidade depende para sua sobrevivência.

E, por não haver tido a coragem e o discernimento de continuar apontando às grandes massas qual é a verdadeira origem de sua permanente insatisfação, deixou o terreno livre para a manipulação da extrema-direita e da religião mercantilizada, que promovem verdadeira lavagem cerebral ao colocarem, de forma abastardada, as modernas técnicas de comunicação a serviço da mentira, do retrocesso e da desumanização. (por Celso Lungaretti)  

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

O primeiro comício das diretas-já levou 300 mil pessoas à Praça da Sé – mesmo local em que
os paulistanos iriam acompanhar e torcer em vão pela aprovação da emenda, três meses depois
Em que momento o Peru tinha se f... pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.
Da esq. p/ a dir.: Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.
Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti) 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SÓ NÃO VIRAM OS DESLIZES DO HERÓI MORO OS CEGOS DE ÓDIO PELO VILÃO LULA

"Moralmente as colchas inteiriças são tão raras! O principal é que as cores não se desmintam umas às outras —quando
não possam obedecer à simetria e regularidade"
(Machado de Assis, em Quincas Borba
O problema é quando se vende colcha moralmente monocromática que se revela bicolor. Nesta semana, o preto sóbrio da cruzada lavajatista da moral contra a política desbotou, exibindo a política cinzenta dos moralizadores.

Houve quem se espantasse. Não foram decerto os leitores de Machado de Assis, céticos das grandezas integrais e atentos às mesquinharias humanas. 

A figura do moralizador impoluto, que põe o interesse coletivo acima dos comichões de sucesso individual, é sempre desmascarada na ficção machadiana. Apenas opera nas narrativas maniqueístas, nas quais bem e mal são monolíticos e apartados como Deus e o Diabo.

Mas, no debate público brasileiro, Machado perdeu para a Marvel. O que mais se ouviu nos últimos anos foi a narração do triunfo da vontade da novela A Faxina Moral da Nação

Sua estrela: o então juiz Sergio Moro. Já faz tempo que vem na subida da rampa de sua jornada de herói. Elogio pra cá, prêmio pra lá, sucesso de livro e filme, smoking e toga. Em 2015, a revista Veja deu seu rosto na capa e, ao pé da imagem, Ele salvou o ano!
Quando um super-herói...

Mídias tradicionais e alternativas (Mônica Bergamo lembrou os elogios de Glenn Greenwald à Lava Jato, em 2017), parcelas gordas das elites social e econômica, políticos, juristas e intelectuais trabalharam com afinco para tornar a novela moralizadora um estouro de público. A Lava Jato foi cantada em prosa, verso e série da Netflix.

No enredo, os problemas públicos todos —disfunções da gestão, má qualidade de serviços e políticas estatais, ineficiência econômica— foram reduzidos a um fator único: a corrupção sistêmica. 

Ignoraram-se as causas múltiplas de processos complexos e jogos sobrepostos, com muitos atores, valores e interesses —nem todos negativos— na berlinda. É que a complexidade, sabem os roteiristas da Marvel, afasta espectadores.

Agrada aquilo que é simples: um vilão para o qual aflua o ódio coletivo. Feitos adquirem grandeza por contraste com malfeitos de mesmo quilate. A Lava Jato começou na onda antissistema contra tudo o que está aí, mas elegeu o antagonista principal. 

A operação restringiu o perímetro da vilania no debate público, sinonimizando corrupção e petismo. O corruPTos estampado em cartazes de protestos e o petralhas de Reinaldo Azevedo viraram pragas linguísticas. O capítulo da caça ao supervilão, chefe da quadrilha, foi um desdobramento lógico.

O problema dos super-heróis, contudo, é que as instituições democráticas, com suas regras, burocracias, demanda por provas e presunção de inocência, retardam a punição dos malvados. 
...precisa fazer jogo sujo para derrotar o vilão...

Nesta parte do enredo é que Moro cresceu. Julgou que, encarnando a moral pública, tornara-se mais legítimo que a lei, capaz de vencer bandidos que a Justiça comum seria incapaz de punir. Na luta justa, todas as armas se justificariam. Soturno e intrépido, teve a ousadia de prender um ex-presidente da República. 

Moro nunca esteve sozinho. A opinião pública sagrou-o o Justo. Foi aplaudido no exterior —por Mario Vargas Llosa, pela Universidade de Notre Dame, pela associação de ex-alunos brasileiros de Harvard (não confundir com os professores da universidade)—, em rede e na rua, que com hashtags e cartazes delegaram-lhe superpoderes moralizadores. 

Uma operação simbólica completada com os bonecões do bandido —o Pixuleco presidiário— e do mocinho —o exuberante Superman.

Agora o ex-juiz deu com o rochedo gigante do Intercept no meio do caminho. Mas nas boas narrativas do gênero, o herói enfrenta o obstáculo e o supera. O final será trágico, patético, feliz?
...é porque não passa de propaganda enganosa!

Até a epifania de Greenwald, a maioria do país não apenas acreditou no que Moro disse como referendou seus métodos. 

A matéria apenas escancara excessos que marcaram toda a jornada. Ele considerou suspeitos como culpados sumários, prendeu antes para investigar depois, grampeou e vazou conversa entre presidente e ex-presidente da República, ato de consequência política óbvia e imediata. Apenas não viu os deslizes do herói quem estava cego de ódio pelo vilão.

Mas para fãs, os fins sempre justificam os meios. A hashtag #EuApoioaLavaJato levantada contra a #VazaJato mostrou que os superpoderes de Moro não se esvaneceram no contato com a primeira dose de kriptonita. E o Superman pode sempre contar com a solidariedade dos demais Superamigos. (por Angela Alonso, professora de sociologia da USP e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

"Em que momento o Peru tinha se f...?", pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral. Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzirem os acontecimentos no sentido do eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f...

O PROBLEMA CENTRAL DO BRASIL É UMA DEFORMIDADE CULTURAL, A INVENCÍVEL COMPLACÊNCIA COM TUDO E COM TODOS

clóvis rossi
UMA RUÍNA CHAMADA BRASIL
Esse extraordinário cronista das agruras do Brasil chamado Vinicius Torres Freire errou apenas no timing, quando escreveu na Folha de S. Paulo, neste domingo (27), que “faz cinco anos, a gente tem a impressão de que o Brasil está em ruína progressiva".

Cinco anos, nada, Vini. Não sei datar exatamente mas é evidente que faz muito mais tempo que cabe ao Brasil a pergunta que, recentemente (*), o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa fez a respeito de seu país: “En qué momento se jodió Perú?” (vou traduzir jodió pudicamente por apodreceu).

Não são apenas as barragens que se rompem em Minas Gerais, os viadutos que cedem em São Paulo, a memória brasileira contida no Museu Nacional que pega fogo – os exemplos recentes que bateram no fígado do meu ídolo Vinicius.

Bem mais velho que ele, cansei de falar de outras degradações (outro sinônimo pudico para joderse).

Em março de 2018, para ficar no exemplo mais recente, escrevi:
.
"Em apenas cinco palavras, Ágatha Arnaus deu a explicação definitiva para a degradação infernal que assola o Brasil faz séculos:

'A gente acaba se acostumando’, disse Ágatha, a viúva de Anderson Gomes, o motorista da vereadora Marielle Franco, cuja execução representa a descida do país ao penúltimo círculo do inferno (sim, sempre conseguimos cair mais, mesmo quando parece que chegamos ao fundo do poço).

A gente se acostumou a perder o direito constitucional de ir e vir, desde que ir a determinados lugares significava correr enorme risco de não poder vir de volta.

A gente se acostumou a que a vida no Brasil é uma roleta russa: a gente nunca sabe se e quando a bala vai estar na agulha e nos atingir.

A gente se acostumou a aceitar que o Estado perdesse o monopólio do uso da força para grupos criminosos.

A gente se acostumou a aceitar o nome milícias para o que são esquadrões da morte.

[A propósito, pode já ir se acostumando à louvação de tais esquadrões por cabeças coroadas, que até dão medalhas de honra a figuras desse nefando time].

A gente se acostumou ao apartheid social, origem de fundo de tantos males. Não só se acostumou: distraídos e/ou desonestos intelectualmente até festejaram a suposta queda da desigualdade nos anos do PT. 

A gente aceitou a fraude, até descobrir que a desigualdade não caiu: a porcentagem que cabe aos 10% mais ricos, já obscena antes do PT, subiu de 54% para 55% de 2001 a 2015 (período quase todo sob Lula/Dilma).

A gente se acostumou à degradação da escola pública nos últimos 50 anos, poucos mais, poucos menos. É consequência direta ou indireta do apartheid social. No meu tempo de estudante, todo ele transcorrido em escolas públicas, o acesso era para poucos, basicamente para a classe média, e o ensino era ótimo.

A partir do instante em que se massificou o acesso à educação, a gente se acostumou a achar que os pobres que a ela chegavam não precisavam de ensino de qualidade —e todos os testes educacionais globais acabam sempre colocando o Brasil em situação vexaminosa.

A gente se acostumou com uma saúde pública eternamente degradada e acabou aceitando, os que podiam, migrar para os planos de saúde privados, que tradicionalmente figuram entre os que mais reclamações provocam nos organismos de defesa do consumidor.

A gente se acostumou à corrupção. Todos os políticos presos ou sendo processados foram eleitos, por mais que inúmeros deles estivessem há anos sob suspeita".
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Volto de 2018 ao presente, para citar email recebido de um acadêmico de alta qualidade, o sociólogo Zander Navarro. 

Segundo ele, o problema central do Brasil “é uma deformidade cultural", caracterizada, diz Navarro, por uma “invencível complacência, em relação a tudo e com todos, ainda que suas manifestações variem de acordo com as classes sociais. Trata-se de uma construção histórica e, por isso, estrutural, talvez impossível de ser mudada. E, não sendo mudada, nos condena às trevas para sempre".

O diabo é que as trevas golpeiam cada vez com mais frequência e com mais virulência. E aí, vem o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo Barcelos, e exibe pela tevê uma cena explícita de rendição (outro nome para complacência). 
Diz aos repórteres que uma segunda barragem na cidade (ameaçada de rompimento até então) não poderia se romper, porque “a cidade não merecia tanto azar".

Pois é, o Brasil depende de Deus estar acordado 24 horas por dia ou de o capeta estar no comando.
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* o Llosa pode ter repetido esta pergunta recentemente, mas é antiga: trata-se da frase de abertura de Conversa na Catedral, sua obra-prima de meio século atrás. 

Aproveitando o ensejo, republicarei em seguida o artigo que escrevi em 1994 para o Jornal da Tarde (SP), quando a rejeição da emenda das diretas-já completava 10 anos, utilizando a mesmíssima citação. (Celso Lungaretti)
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