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terça-feira, 21 de abril de 2026

O REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES MERECIA UM POVO MUITO MELHOR DO QUE A PARVA GENTE BRASILEIRA

"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 

...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.... 

O mito está mistificado.

Brecht cantou: Feliz é o povo que não tem  heróis. Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes" (Augusto Boal, Quixotes e Heróis). 

Liberdade, ainda que tardia... Mas a
tardança precisava ser de 3 décadas?!
"
Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. 


Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas. 

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto após assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário" (CL)
"Esse traidor [Joaquim Silvério dos Reis] foi correndo falar com o governador. Fez
uma tal cena que o Visconde de Barbacena soltou os milicos na rua, 
mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender"

terça-feira, 27 de maio de 2025

EM QUE MOMENTO O BRASIL TINHA SE F...O? E COMO O QUADRO ESTÁ MUDANDO?

A primeira pergunta, obviamente, coloca o Brasil diante da mesma indagação que Mario Vargas Llosa, no seu clássico Conversa na Catedral, fez sobre o país dele:  ¿En que momento se había jodido el Perú?.

O Brasil é pródigo em momentos patéticos, quando desperdiçou chances claríssimas de construir um futuro bem melhor para seu povo. Caso de 1792, quando delatores fizeram fila (Joaquim Silvério dos Reis estava longe de ser o único...) para delatar ao Visconde de Barbacena a Inconfidência Mineira. 

Com isto, continuou por mais três longas décadas sendo colônia do minúsculo Portugal, que muito dele tirava, quase nada dava e teria sido facilmente derrotado nos campos de batalha se seus filhos não fugissem à luta.

E no século passado teve a chance de uma verdadeira redemocratização em 1984, mas, rejeitando a emenda Dante de Oliveira, saiu da ditadura militar pela porta dos fundos, entregando a faixa presidencial para um notório serviçal do regime que findava.   

Outros exemplos eu poderia citar, mas encompridariam demasiadamente este artigo, portanto falemos apenas da última vez em que o Brasil sifu. Foi durante o medíocre primeiro mandato de Dilma Rousseff, que quis porque quis fazer a economia brasileira crescer graças a investimentos estatais, como se ainda estivéssemos no tempo do Petróleo é nosso .

Tornou-se inevitável uma aguda recessão e, quando caiu para a Dilma a ficha de que seria este o seu legado para o governo seguinte, não teve sequer a humildade de reconhecer que não conseguiria desfazer a lambança. 
Fez questão cerrada de reeleger-se, pensando em salvar sua biografia. 

Recorreu a um economista insignificante que servia ao inimigo de classe (Joaquim Levy) para consertar a lambança e, quando este previsivelmente fracassou, praticamente desistiu de defender seu mandato no front econômico, preferindo travar a batalha nos campos mais favoráveis ao  inimigo (o político e o jurídico), nos quais sua derrota era certa.     

Insistindo em permanecer presidente até o mais amargo fim, ao invés de renunciar para que a esquerda pudesse iniciar um contra-ataque, a mãe do fracassado Plano de Aceleração do Crescimento foi também mãe da vitoriosa escalada da extrema-direita, pois, nas manifestações de rua em prol do impeachment, os fascistas não paravam de acumular forças e nós, de perdê-las.

Como resultado estabeleceu-se a detestável polarização entre dois populistas nutridos pela cultura do século 20, ancorando o Brasil no passado ao invés de atualizá-lo para aproveitar as oportunidades do século 21.

Lula só enganou bem durante seu primeiro mandato, quando tirou a sorte grande com o boom das nossas commodities, que gerou apreciável crescimento econômico. Mas, foi só. Desde então alternaram-se governos liberais do PT e o ultradireitista do Bolsonaro, sempre muito aquém das necessidades brasileiras.
Nosso país, portanto, se ferrou pela última vez em 2012, quando Dilma lançou as bases do bolsonarismo e da polarização. E vai finalmente se livrar dos velhos caciques das duas seitas graças aos sucessivos fiascos de ambos, um prestes a ver o sol nascer quadrado e o outro só carecendo de manto e coroa para se tornar uma perfeita rainha da Inglaterra.

Ademais, as sucessivas hospitalizações de Lula e Bolsonaro já convenceram respectivos esquemas políticos de que nenhum deles terá sequer vigor físico para aguentar mais um mandato. Então, as escaramuças internas nos esquemas políticos dos dois astros cadentes já visam à definição de quem os substituirá no pleito presidencial de 2026. 

Tal disputa já começou quente e se prenuncia como uma verdadeira briga de foice no escuro... (por Celso Lungaretti)   

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TIRADENTES PODERIA TER SIDO O BOLIVAR BRASILEIRO, MAS NOSSO POVO PREFERIU RECEBER A LIBERTAÇÃO COMO DÁDIVA

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
.
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

A DESBOZIFICAÇÃO ESTÁ GARANTIDA, MAS O RESTO VAI DEPENDER DE NÓS

N
a atual sociedade do espetáculo, é enorme o contingente de cidadãos que, mesmo sendo sofisticados, acostumaram-se a acreditar nas supostas tempestades de som e fúria da política. 

Não se dão conta de que,  como Shakespeare alertou mais de quatro séculos atrás em Macbeth, elas ora estão significando nada.

E a história não é mais contada por um tolo, e sim pelos que lucram mantendo viva a ilusão de que os desenlaces dos grandes acontecimentos estão em acirrada disputa, embora  salte aos olhos que, pelo contrário, eles já foram determinados pela correlação de forças econômica, tornando-se extremamente previsíveis. 

O que seria da nossa grande imprensa caso tivesse se generalizado a  minha conclusão de que, após não ter dado seu autogolpe quando as circunstâncias lhe eram propícias no seu primeiro ano de governo, Bolsonaro dificilmente lograria adiante seu objetivo? Quantos bilhões de  dólares a indústria cultural teria deixado de faturar em cima da paúra dos eternos torcedores? 

Pior ainda seria se os cidadãos manipulados de forma científica pela lavagem cerebral de nossos tempos percebessem a obviedade de que, desde janeiro de 2020, quando Donald Trump foi expelido da presidência dos EUA, o improvável se tornou impossível.

Por quê? Porque os acontecimentos políticos importantes do Brasil são decididos fora do Brasil desde 1500.  
Porque Portugal era um tigre de papel, mas o gigante deitado eternamente em berço esplêndido desperdiçou a chance de adiantar o calendário da História em mais de três décadas com os inconfidentes mineiros, só consumando a independência sob a proteção da pérfida Albion e pelas mãos do príncipe estrangeiro.

Porque o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravatura, apenas o fazendo quando ela já se tornara contraproducente em termos econômicos.

Porque a ditadura de Getúlio Vargas apenas teve fim quando os estadunidenses, após lutarem contra a Alemanha e a Itália campos de batalha da Europa,  decidiram que não queriam miniaturas de Hitler e Mussolini empoderadas no seu quintal.

Porque o golpe de 1964 já vinha sendo tramado e até tentado pelos mesmíssimos conspiradores desde a década anterior, mas só virou realidade quando os EUA lhes deram sinal verde e se comprometeram a intervir militarmente em favor deles caso necessário.

De resto, uma ditadura ultradireitista como a sonhada pelos irmãos Bolsonaro, com a complacência do pai coruja, afeta negativamente os negócios, então se tornou no presente século uma opção indesejável para o grande capital (não confundir com os vira-latas do capitalismo, como os predadores ambientais).

Com o fracasso de Trump, seu boquirroto apoiador bananeiro passou a ser discretamente torpedeado por aquele gigante de quem em muito dependia economicamente e cujos militares desde os tempos da Força Expedicionária Brasileira exercem influência poderosa sobre os oficiais superiores do nosso Exército. 

Apesar de contemporizarem com Bolsonaro, tais comandantes, se tivessem de decidir se ficariam a favor ou contra um autogolpe no nascedouro, se inclinariam inevitavelmente para a segunda opção.

Ademais, Bolsonaro jamais teve coragem pessoal, nem miolos, nem liderança, nem raciocínio estratégico para encabeçar qualquer virada de mesa institucional. Toda a sua trajetória –de mediocridade e pequenas trapaças, fanfarronices estridentes, blefes cínicos e humilhantes negaceios quando chegava a
hora H– o evidenciava. 

Então, apenas bisou o Hitler que conseguiu tomar a Áustria e a Tchecoslováquia apenas blefando, mas não conseguiu fazer o mesmo com a Polônia, pois ingleses e franceses haviam aprendido a lição com os recuos anteriores e lhe declararam guerra em setembro de 1939.

Com sua crassa ignorância histórica, Bolsonaro não percebeu que nem seus blefes. nem o apoio do centrão comprado a peso de cargos e verbas, lhe proporcionariam o poder absoluto. 

E não foi o Supremo Tribunal Federal quem realmente inviabilizou sua escalada destrambelhada, mas sim os verdadeiramente poderosos (os donos do PIB e os altos escalões militares), ao garantirem aos nada heroicos ministros do STF que poderiam honrar suas togas sem risco da chegada de um soldado e um cabo para fechar a corte.  

Já impotente para levar a cabo suas ameaças fantasiosas, Bolsonaro quis dar demonstração de força no 7 de setembro de 2021 e escancarou, isto sim, sua fraqueza, tendo de ir sentar-se no colo do tio Temer e implorar-lhe que consertasse sua lambança.

Excluída a hipótese do autogolpe, depositou sua última esperança de reeleição na capitalização do bicentenário da independência, cometendo em vão um rosário de crimes eleitorais, pois seu destino já estava selado e a sólida rejeição por ele acumulada pesou mais do que tais pirotecnias na enésima hora. 

O novo ano começará com um novo presidente despachando no Palácio do Planalto. A mudança vai ser para melhor, pois  pior seria impossível. 

Mas, não se iludam: devolvida a racionalidade ao governo e sanadas as aberrações mais óbvias, a pátria desalmada continuará não sendo mãe gentil para a maioria dos filhos deste solo. 

Isto não está nos planos de quem já assumirá comprometido com a perpetuação de um sistema que coloca a obtenção do lucro acima da satisfação das necessidades humanas, nem sairá das urnas eletrônicas, nem vai cair do céu .

Só ocorrerá se e quando a gente brasileira se tornar realmente brava e tomar em mãos o próprio destino. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 20 de abril de 2022

MÁRTIR? TIRADENTES FOI, ISTO SIM, UM HERÓI REVOLUCIONÁRIO!

 "Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.
Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.
  • É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes e sua falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação da epígrafe escrita por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação ... 
O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma de suas maiores inspirações. 
.
(por Celso Lungaretti)

terça-feira, 21 de abril de 2020

TIRADENTES, O HERÓI DE UM POVO QUE SE IDENTIFICA MAIS COM FIGURAS PROTETORAS

"Brecht cantou: ‘Feliz é o povo que não tem
 heróis’. Concordo. Porém nós não somos
um povo feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes"

(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)
Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...


O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.


Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.


E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.


Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil em todos os tempos.


E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Leitura da sentença de Tiradentes (pintura histórica)

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude. 

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania: 
  • em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Inconfidentes: muita falação. Só Tiradentes era homem de ação
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros somos carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos padins Ciços da vida, passando por pais dos pobres tipo Getúlio Vargas e Lula.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como o são Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.
O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo do qual extraímos a epígrafe, escrito por Boal quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
"Dez vidas eu tivesse, dez vidas eu daria para salvar a deles"
"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação 
 ...O mito está mistificado".
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

SEMANA TIRADENTES/6 = O INCONFIDENTE CLÁUDIO MANUEL DA COSTA SUICIDOU-SE OU FOI 'SUICIDADO' COMO HERZOG?

Terá sido assassinado no cárcere...
No último dia de outubro de 2016, a revista Superinteressante trouxe este anúncio bombástico do jornalista Sérgio Amaral Silva, que já conquistou um Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos:
"Uma farsa que perdurou por mais de dois séculos na história do Brasil acabou de ser desvendada. Em 1789, um dos principais líderes da Inconfidência Mineira, o advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa, foi encontrado morto na prisão. Segundo a versão oficial, ele havia se suicidado. 
Cerca de 20 anos mais tarde, surgiu em Vila Rica (hoje Ouro Preto) alguém que dizia ter sido um dos médicos que examinaram o corpo. Ele afirmava que o laudo original, de assassinato, havia sido mudado para suicídio a pedido do governador, o visconde de Barbacena. Como essa testemunha era conhecida apenas pelo apelido de Paracatu, o caso foi tratado como lenda por gerações de historiadores, até nossos dias. 
Depois de pesquisar o assunto por mais de 25 anos, descobri a chave do mistério em um livro de 1911, Igrejas e Irmandades de Ouro Preto, do historiador Joaquim Furtado de Menezes. Ele faz uma referência ao projeto de construir uma capelinha ao lado da casa do cirurgião-mor Caetano José Paracatu. Tratava-se de Caetano José Cardoso, um dos responsáveis pelo laudo cadavérico de Cláudio. Ou seja, o tal Paracatu existia mesmo.
...A exemplo do jornalista Vladimir Herzog em 1975, Cláudio não se matou, mas foi assassinado. O provável mandante foi o visconde de Barbacena, cujo envolvimento na Inconfidência é pouco conhecido, mas que temia ser incriminado se Cláudio fosse ouvido pelo vice-rei no Rio de Janeiro". 
...assim como Vladimir Herzog?
É uma polêmica que perdura praticamente desde a morte de Cláudio Manuel da Costa. 

Filho de família abastada, aos 20 anos (em 1749) ele embarcou para Portugal, obtendo então o bacharelato em Cânones na Universidade de Coimbra. Retornou ao Brasil em 1753 ou 1754, dedicando-se à advocacia em Vila Rica (atual Ouro Preto). 

Jurista culto e renomado, ali exerceu o cargo de procurador da Coroa, desembargador, e, por duas vezes, o de secretário de Estado. Era conhecido e respeitado nos círculos literários.

Com a idade de 60 anos, teve uma participação colateral na Conjuração Mineira. Detido e interrogado uma única vez, morreu em circunstâncias obscuras, em Vila Rica, no dia 4 de julho de 1789. Oficialmente, teria cometido suicídio por enforcamento na prisão.

As dúvidas a respeito se baseavam, primeiramente, na relutância dos que o conheciam em aceitarem que ele fosse capaz de decisão tão extrema.

Depois, no fato de que o visconde de Barbacena só informou Lisboa da morte de Cláudio Manuel da Costa a 15 de julho, 11 dias depois de ter ocorrido; nesse meio tempo, mais exatamente no dia 11 de julho, deu conhecimento à corte de que ele fora interrogado, omitindo, contudo, que já estava morto. Isto se deveria a ser Manuel da Costa um personagem importante, cuja prisão poderia lhe causar embaraços, daí a necessidade de uma farsa ser montada.

Finalmente, desconfiava-se da posição em que foi encontrado o cadáver, de pé, encostado ao armário,  com a perna direita vergada e apoiada numa das prateleiras do móvel.

O chamado enforcamento por suspensão incompleta era então desconhecido. Só  depois de 1830, com o suicídio em Paris do príncipe de Condé, a Medicina Legal admitiu que ele possível, enfraquecendo a posição dos que acreditavam que Manuel da Costa fora vítima de homicídio.

Agora o quadro sofre nova reviravolta e a hipótese mais provável passa a ser a de que Tiradentes não tenha mesmo sido o único inconfidente assassinado pelos portugueses. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

SEMANA TIRADENTES/5 = CANCIONEIRO DA LIBERDADE

Previsivelmente, algumas de nossas melhores criações musicais libertárias giram em torno da figura exemplar de Tiradentes. Vale a pena lembrar aqui seis delas,
mesmo porque a indústria cultural, também de forma previsível, as
relega ao mais injusto esquecimento. Quatro são para
ser ouvidas e duas apenas lidas, pois
jamais foram gravadas.

1. Tema de Os inconfidentes (Cecília Meirelles/Chico Buarque)
"Toda vez que um justo grita/ um carrasco o vem calar/
quem não presta, fica vivo/ quem é bom, mandam matar"

2. Tiradentes (Chico de Assis/Ary Toledo)
"Esse feio traidor foi correndo falar com o governador/ contou tudo, fez uma tal
cena que o visconde de Barbacena/ soltou os milico na rua, mandou
sentar pua, pegar e bater e matar e prender!"

3. Dedicatória de Arena Conta Tiradentes (Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
Dez vidas eu tivesse,
dez vidas eu daria.
Dez vidas prisioneiras,
ansioso eu trocaria
pelo bem da liberdade,
nem que fosse por um dia.
Se assim fizessem todos,
aqui não existiria
tão negra sujeição,
que dá feição de vida
ao que é mais feia morte:
morrer de quem aceita
viver em escravidão.
Mais vale erguer a espada,
desafiando a morte,
do que sofrer a sorte
de sua terra alugada.
Mais vale erguer a espada,
desafiando a morte.
Dez vidas eu tivesse,
dez vidas eu daria...

4. Espanto (Theo de Barros/Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
"Não só contra os de fora foi o povo justiceiro/ contra a fome e a miséria levantou-se
o garimpeiro/ Contra os fortes desta terra levantou-se o Conselheiro/ De pé,
contra toda tirania!/ Sempre de pé está o povo brasileiro!"

5. Exaltação a Tiradentes (Penteado/Mano Décio da Viola)
"Joaquim José da Silva Xavier/ morreu a 21 de abril/ pela Independência do
Brasil/ Foi traído e não traiu jamais/ a Inconfidência de Minas Gerais"

6. Tema para coro de Arena conta Tiradentes (Augusto Boal/Gianfrancesco Guarnieri)
Eu sou brasileiro mas não tenho meu lugar,
pois lá sou estrangeiro, estrangeiro no meu lar.
A quem nasceu lá fora tudo seu a terra dá:
essa pátria não é minha, é de quem não vive lá.

O pássaro na gaiola, já nascido em cativeiro,
Aprende a cantar e canta se permanece prisioneiro.
Mas, se lhe abrem a portinhola, bem capaz é de morrer:
com seu medo à liberdade, já não sabe nem viver.

Quem aceita a tirania
Bem merece a condição
Não basta viver somente,
é preciso dizer não!
Não basta viver somente,
é preciso dizer não!
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