Mostrando postagens com marcador Ulysses Guimarães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ulysses Guimarães. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de novembro de 2025

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

Em que momento o Peru tinha se f...? , pergunta Mario Vargas Llosa logo na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.
Da esq. p/ a dir., Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro.


Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada. 

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática (um velho cacique da velha política, cuja morte precoce me fez lembrar as advertências da Vovó, Cuidado que Deus castiga!)Tanto tramou  para chegar à presidência apesar do seu carisma zero e não pôde exercê-la sequer por um dia... 

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários
Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti, no 10º aniversário da rejeição da emenda Dante Oliveira)

sexta-feira, 29 de abril de 2022

CIRO GOMES DÁ UM CHEGA-PRA-LÁ NUM BOLSOMINION. E DAÍ?

C
iro Gomes tem muitos defeitos, mas ele e o irmão Cid não fogem da briga nem ficam escondidos debaixo da cama quando é hora de irem à rua defender suas convicções de peito aberto. 

Importunado por um bolsominion que insistia em colocar-se à frente, atrapalhando sua caminhada na Agrishow de Ribeirão Preto (SP), Ciro lhe deu um chega-pra-lá e o provocador achou melhor bater em retirada. 

Não foi uma verdadeira agressão; nem sequer um forte empurrão, que teria atirado o bolsominion no chão. Suponho que o dito cujo se afastou por perceber, fuzilado pelo olhar do Ciro, que o candidato não deixaria barata mais uma petulância.

Fernando Collor conquistou a confiança das elites, que até então buscavam outras opções, por não intimidar-se em 1989 diante de uma multidão hostil no RJ, prosseguindo com sua carreata e mostrando o muque aos que o ameaçavam.

Em maio de 1978, o já sexagenário Ulysses Guimarães deu exemplo aos outros oradores que com ele participariam de um comício em Salvador. Para chegar ao palanque, tinha de atravessar uma praça tomada por 400 policiais com seus cães ferozes, mas não titubeou: foi em frente, exigindo que abrissem passagem para um deputado do Brasil. 
O senador Cid Gomes levou dois tiros ao se lançar com
uma retroescavadeira contra PMs amotinados em 2020
Os outros políticos tiveram de segui-lo, pisando em ovos, porque seria vergonhoso demais mostrarem covardia em tal situação. 

Ciro Gomes, vale acrescentar, foi além na Agrishow, acusando o Bozo de nazista e de ladrão de rachadinha.

Dos presidenciáveis de esquerda ou que se passam por tais, ele é, sem dúvida, aquele que mais demonstra ter os brios de um verdadeiro homem de esquerda. 

À falta do saudoso Leonel Brizola, é o único que, eleito, não se intimidaria diante de um golpe ultradireitista, dispondo-se a lutar pelo seu mandato. Jamais aceitaria ser escorraçado do Palácio do Planalto com um pontapé no traseiro.  

Infelizmente para o nosso lado, ao que tudo indica não será ele o eleito. As lições de 1964 e 2016 foram insuficientes para nos compenetrarmos de que não basta ganharmos eleições, temos de estar aptos para defender mandatos quando os poderosos decidem virar a mesa.  (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 18 de março de 2022

YO NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY!

Coincidência ou não, após usar cocar: 

1) o Ulysses Guimarães
se perdeu no mar como o
da guerra de Troia (e nem
sequer voltou para Ítaca);

2) o Lula foi preso; e

3) a Dilma, impichada.

Então, agora que um muito
pior do que esses três também anda brincando com a sorte...

...tentemos dar as mãos e gritar juntos: ACORDA, TUPÃ!!!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

A NOITE EM QUE O BRASIL SE F...

O primeiro comício das diretas-já levou 300 mil pessoas à Praça da Sé – mesmo local em que
os paulistanos iriam acompanhar e torcer em vão pela aprovação da emenda, três meses depois
Em que momento o Peru tinha se f... pergunta Mario Vargas Llosa na abertura de Conversa na Catedral, que, lançado em 1969, continua sendo até hoje a culminância de sua extensa carreira literária.

Talvez a indagação seja mais fácil de responder no caso brasileiro: foi em 25 de abril de 1984.

Era uma noite úmida e estávamos na Praça da Sé, esperando o País renascer. A Câmara Federal apreciava a Emenda Dante de Oliveira e um gigantesco placar fora erguido para permitir o acompanhamento voto a voto.

Antes, ouvimos discursos e mensagens augurando vitória. Depois, foi a derrota que se desenhou aos poucos, enquanto a garoa aumentava. Por fim, o longo caminho de volta para casa. Uns poucos exaltados e querendo briga, os outros cabisbaixos, sem ânimo para mais nada.
Da esq. p/ a dir.: Ulysses Guimarães, Brizola, Lula (o
único ainda ativo), Osmar Santos e Franco Montoro

Fazia 11 dias que minha primeira filha nascera. Não lhe legaria o Brasil de meus sonhos. 

As músicas, as passeatas, as concentrações-monstro na Sé e no Anhangabaú, o amarelo que usávamos nas roupas para simbolizar a adesão às diretas-já... tudo em vão. Algumas centenas de deputados haviam permanecido alheias à vontade nacional.

Sairíamos da ditadura pela porta dos fundos, como parece ser nossa sina. Do descobrimento do que já se sabia existir à independência para inglês ver, todos os momentos solenes da nossa História têm um quê de farsa e bufonaria. Mas, por Deus, daquela vez quase todos fizeram sua parte!

No rescaldo da derrota entraram em cena os   profissionais – conforme anunciou Tancredo Neves, aludindo a si próprio e a seus iguais. 

E, se poucos votos faltaram para o restabelecimento imediato das eleições diretas, muitos apareceram para ungir, por via indireta, o candidato da Aliança Democrática.

É claro que, no primeiro caso, os congressistas eram convidados a abrir mão de seu próprio cacife; e a segunda ocasião significava a hora das recompensas. Que foram prodigamente distribuídas.

Não entrarei no mérito do Governo Sarney e da lenta agonia que consome até hoje a democracia brasileira, como se o nascimento espúrio tivesse lançado uma sombra sobre o seu futuro. Mas, quero deixar registrada – mesmo que tanto tempo depois – minha indignação com o aborto de uma esperança.
Apesar da expressiva maioria em favor da emenda
Dante de Oliveira, ela não atingiu os 2/3 necessários

São raros os momentos em que há real interesse da população em influir nos destinos do País. E, cada vez que se ensaia um tímido despertar, surgem profissionais para conduzir os acontecimentos no sentido de um eterno retorno.

Nossa elite é sui generis: incapaz de formular um projeto nacional e de se unir em torno dele, alcança invejável coesão quando se trata de resistir às pressões que vêm de baixo. 

De empresários a políticos, passando por sindicalistas e acadêmicos, todos têm em comum a obstinação em não deixar a peteca escapar-lhes das mãos.

Daí o desencanto e o niilismo que grassam entre nosso povo. Quem ouve a voz das ruas sabe que o cidadão comum não confia verdadeiramente em nenhuma força do espectro político. Nenhuma.

E isto se deve, dentre outros motivos, ao balde de água fria sempre atirado no ânimo da multidão, como a garoa a nos castigar naquela noite em que acompanhamos mais uma traição à promessa de um futuro altaneiro, e voltei para casa sem palavras de amor para minha mulher nem paciência para ninar a criancinha, pois trazia a certeza, e os eventos posteriores só viriam confirmá-lo, de que naquele momento o Brasil tinha se f... (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 31 de março de 2021

31 DE MARÇO DE 2021: CELEBRAR O QUÊ, GENERAL? PANDEMIA, DESEMPREGO E FOME?

Ulysses Guimarães, ao proclamar
a Constituição de 1988
E assim chegamos a 31 de março de 2021, dia do 57º aniversário do golpe militar de 1964:
— com o país em frangalhos, agora governado por um capitão expulso do Exército, que acaba de provocar a maior crise nas Forças Armadas desde a redemocratização do país;
 em meio a uma pandemia avassaladora que já matou mais de 318 mil brasileiros e deixou 12,7 milhões de contaminados pelo coronavírus.

Mesmo assim, o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, encontrou motivos para convidar a população a celebrar a data em sua primeira ordem-do-dia. 

A resposta a esse escárnio veio na lata pelo governador de São Paulo, João Doria:
"Ao contrário do que declarou ontem o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, o Brasil não tem razão nenhuma para comemorar o golpe de 1964. Tem, sim, muitas razões para chorar a ditadura militar e os milhares de mortos e torturados na fase mais dura da história brasileira"
Comemorar o quê, general? 

Com os hospitais e cemitérios superlotados, 14,3 milhões de desempregados e mais de 10,3 milhões de famílias passando fome, segundo o IBGE, o Brasil se tornou o pior país do mundo para se viver. 

Vocês estão destruindo aquela que já foi a 6ª maior economia do mundo há 10 anos, e agora caiu para o 12º lugar, com tendência de baixa, colocando em risco as instituições democráticas, a federação e as relações internacionais, incapazes de proteger a Amazônia e enfrentar a crise sanitária sem precedentes, provocando deliberadamente o caos social em sua louca escalada autoritária e desumana. 


Comemorar o quê, general? 

A fome e o desespero grassam neste país novamente governado pelos militares, sem recursos para a educação e a saúde, famílias sem teto jogadas nas calçadas das grandes cidades, a violência urbana fora de controle, com as milícias à solta e bem armadas, a infraestrutura do país detonada, milhões de jovens desesperançados, sem trabalho e sem escola. 

Estamos chegando a abril e não temos até hoje um orçamento aprovado para 2021, com um ministério de incompetentes e lunáticos, verdadeiro catado do que o país tem de pior e mais repulsivo, e um Congresso dominado pelo fisiológico centrão, que só quer garantir recursos para suas emendas parlamentares, mordomias e privilégios para os militares. 

Nunca tivemos um governo como esse, tão distante dos anseios e demandas da população, que vive numa realidade paralela e deixa aos sobressaltos 212 milhões de habitantes a cada novo surto do capitão contra inimigos reais ou imaginários, uma população encurralada, impedida de sair às ruas pelo desmazelo do Ministério da Saúde, o boicote federal à vacinação em massa e às medidas de distanciamento social para combater a pandemia. 

Não basta o que vocês fizeram na longa noite dos 21 anos de ditadura militar, que ceifaram os sonhos de toda uma geração e deixaram como herança a hiperinflação e uma impagável dívida pública construída nos delírios do Brasil Grande
Comemorar o quê general? 


Vocês deveriam era pedir desculpas à Nação pelo mal que fizeram ontem e continuam fazendo hoje, quando se imaginava que esse passado das trevas estava para sempre enterrado no lixo da história.

Enquanto escrevo, sei que mais e mais brasileiros estão morrendo sem leitos, remédios e oxigênio nos hospitais, e nós agora ficamos aqui discutindo a crise militar era só o que faltava!–, deixando em segundo plano a pandemia ignorada pelo capitão em seus delírios golpistas. 

Aos 73 anos, general, não esperava viver tudo isso outra vez. 

Perdoem-me os leitores pelo desabafo, mas não dá para fazer de conta que nada está acontecendo, que o país não vai morrendo aos poucos, e tem alguma coisa para comemorar neste dia, um dos mais tristes da nossa história. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O BOZO PENSA QUE SALVARÁ SEU MANDATO GENOCIDA COM AS AQUISIÇÕES DE HOJE. SÓ QUE ESTÁ COMPRANDO PASTEL DE VENTO...

Sua Exª Torturador: Filinto Müller presidiu o Senado 
Hoje  é dia de leilão legislativo: quem pagar mais levará as presidências do Senado e da Câmara Federal, para nelas instalar seus paus mandados, aos quais caberá honrar as tradições de: 
— Filinto Müller (o torturador-mor da ditadura getulista, cujas atrocidades foram relatadas pelo jornalista David Nasser no livro Falta alguém em Nuremberg, o que não impediu de o considerarem digno de presidir o Senado em 1973, para servir a outra ditadura assassina); e
— Eduardo Cunha (2015/2016), corrupto com carteirinha assinada, que tentou salvar-se da Justiça pautando o impeachment da Dilma, mas acabou perdendo o mandato, a aposentadoria e a liberdade.

Pelo andar da carruagem, o mais provável é que os novos presidentes, arrematados pelo palhaço sinistro, sejam da estirpe dos acima citados, e não da de João Goulart e Ulysses Guimarães, que pelo menos tiveram alguns bons momentos. 

De resto, o Bozo parece aqueles piores alunos da classe,  que assistem às aulas mas não aprendem absolutamente nada.
Eduardo Cunha, um presidente da Câmara inesquecível...
Ele está enterrando o Brasil ainda mais na depressão econômica para comprar, com um
toma lá dá cá descarado de verbas e cargos em troca de cumplicidade legislativa (fala-se que o custo da operação para a viúva foi de 5 bilhões de reais!), dois sujeitos que, se hoje estão se vendendo repulsivamente a ele, amanhã se venderão repulsivamente a quem quiser derrubá-lo, desde que seja alguém com maiore$ mérito$.

Ou seja, o Bozo adquire, a peso de ouro de verdade, um pastel de vento, um ouro de tolo que de nada lhe servirá quando os donos do PIB resolverem afastá-lo por ser nocivo aos negócios.

Só idiotas não percebem que o melhor negócio do mundo, para uma republiqueta das bananas com elefantíase (nosso caso) é pegar algumas sobras do pacote de investimentos ambientais que EUA e Europa vão desencadear para reativar as atividades econômicas, na linha do Plano Marshall nos anos subsequentes à 2ª Guerra Mundial.

Os poderosos da economia não são idiotas e logo vão tirar do caminho os estorvos que se antepõem entre eles e o pote de ouro que já vislumbram no fim do arco-íris.

Mas, como perfeito idiota que é, o Bozo acredita que salvará seu mandato genocida com as
aquisições atuais... 

Não só vai ser expelido quando o poder econômico bem entender, como decepciona as últimas reses da sua boiada, ao passar recibo de que suas promessas de uma nova política não passavam de um grotesco estelionato eleitoral... 
(por Celso Lungaretti 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

WITZEL MERECE MESMO CAIR, MAS QUEM ORQUESTROU SUA QUEDA É PIOR AINDA

celso rocha de barros
O PRESIDENTE DERRUBOU UM GOVERNADOR?
Se o governador do Rio de Janeiro tiver caído por influência do presidente da República, a deterioração institucional brasileira deu um salto grande.

A decisão de afastar Witzel monocraticamente foi ilegal. Quem quiser saber por que, leia este artigo do professor Rafael Mafei Rabelo Queiroz, da Faculdade de Direito da USP. 

É possível que a decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, não tenha sido uma tentativa de conseguir uma vaga no Supremo. Mas é curioso que tanta gente no mundo da Justiça esteja tomando decisões claramente ilegais —a libertação de Queiroz, o dossiê contra os antifascistas, a perseguição a Hélio Schwartsman, o afastamento de Witzel —que coincidem perfeitamente com os interesses de Jair Bolsonaro, justamente o sujeito que vai decidir quem fica com a vaga no STF.

O afastamento de Witzel não é conveniente para Bolsonaro apenas porque o governador fluminense havia se tornado rival do presidente da República. No final deste ano, seja lá quem for o governador do Rio vai escolher o novo procurador-geral do Estado.

Bolsonaro quer influir nessa escolha para que o novo nome seja sensível aos interesses de seu esquema de corrupção familiar.

[A escolha terá que ser feita dentro da lista tríplice, mas nada impede que os bolsonaristas inventem um candidato até lá e trabalhem por ele.]

Se a decisão do STJ for um sintoma de aparelhamento da Justiça por Bolsonaro, pense bem no tamanho do que estamos discutindo.

Volte mentalmente até o dia da promulgação da Constituição de 1988 e tente explicar para Ulysses Guimarães que, 30 anos depois, o governador do Rio será afastado por decisão de um único ministro do STJ, com forte suspeita de que a coisa toda foi uma armação para resolver uns problemas do presidente da República com a polícia.

Depois disso, peça para o Doutor Diretas tentar adivinhar se, em 2020, o documento que ele acabou de aprovar ainda está vigente.

Longe de mim botar a mão no fogo pela honestidade de Wilson Witzel. Ele foi eleito com o apoio de Jair Bolsonaro. Ao contrário da família Flordelis, a família Bolsonaro nunca precisou do Google para achar gente da barra pesada 
No mesmo dia do afastamento de Witzel, aliás, rodou o Pastor Everaldo, velho chapa de Bolsonaro que  o batizou simbolicamente nas águas do rio Jordão. Foi tudo encenação: Bolsonaro continuou católico.

Everaldo também teria sido um dos responsáveis pela aproximação de Bolsonaro com o liberalismo econômico, e esse batismo tampouco parece ter sido lá muito para valer.

Mas para lidar com as acusações contra Witzel já existia o processo de impeachment, este sim claramente previsto na Constituição e já em curso no Rio de Janeiro. Qual a necessidade de uma decisão que coloca as instituições sob suspeita?

É muito grave, mas, ao que parece, ninguém se importa. Pelo contrário, parte do mundo político vem tentando se reaproximar de Bolsonaro.

O exemplo de Witzel deveria servir-lhes de aviso: ser adotado como aliado por Bolsonaro é como ser adotado como marido pela deputada Flordelis.

Mesmo depois das repetidas tentativas de envenenamento, o establishment brasileiro parece disposto a ir com Bolsonaro para a casa de swing. (por Celso Rocha de Barros)

sexta-feira, 26 de junho de 2020

GENÉRICO DAS "DIRETAS JÁ" EXIBIRÁ UMA MARATONA DE 100 MICRO-DISCURSOS EM 4 HORAS. VAI PARECER O HORÁRIO DO TSE...

ricardo kotscho
NADA A VER: NÃO CONFUNDAM DIREITOS
COM DIRETAS JÁ
A ideia do movimento Direitos Já era fazer um revival da campanha das Diretas Já, que foi o divisor de águas entre a ditadura e a democracia, em 1984. 

Mas tudo deu errado nesta tentativa grandiosa de montar um palanque virtual suprapartidário, com os ex-presidentes da República, além dos principais líderes da oposição e da sociedade civil. 

Para começar, em 1984 havia um grande líder, Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas, e uma luta unificada pela volta das eleições para a presidência da República, já nos estertores do regime militar. 

Ao lado de Brizola e Lula, doutor Ulysses comandou comícios de ponta a ponta do país, com todo juntos remando na mesma direção, gritando a uma só voz: Diretas Já!

Fui testemunha ocular desta história, que está contada no meu livro Explode um Novo Brasil – Diário da Campanha das Diretas

Ninguém mais defendia a ditadura àquela altura, a não ser os militares que estavam no governo do general Figueiredo e os deputados do centrão da época, o que restou da velha Arena.
Por que tentarem pegar carona, até no nome do movimento, em algo tão maior que 100 micro-discursos? 
Agora, o presidente eleito Jair Bolsonaro ainda mantém em torno de 30% de apoiadores fiéis e furiosos, acaba de adquirir o novo centrão de porteira fechada, e também está cercado de generais no governo, a maioria de pijama. 

De outro lado, temos uma oposição partidária completamente fragmentada, sem nenhum líder capaz de juntar os pedaços e que não se entende nem sobre qual deve ser a bandeira do movimento Direitos Já, criado por um dissidente tucano, o cientista social Fernando Guimarães, de quem eu nunca tinha ouvido falar. 

Trata-se de um fórum de debates que jamais saiu às ruas, nem antes da pandemia. 

O objetivo era criar um espaço "onde pudéssemos deixar as diferenças, as disputas, os projetos eleitorais de lado, para nos concentrarmos na defesa do estado democrático de direito, dos valores que estão na nossa Constituição". 
Figuras marcantes das Diretas Já. Lula, contudo, hoje se mantém distante das manifestações antifascistas
Até aí, estamos todos de acordo, assim como somos a favor da energia elétrica e da água encanada. 

E daí?, como indagaria o capitão Bolsonaro, que não foi nem citado no texto de apresentação da live programada para esta 6ª feira, às 19 horas, na página do Facebook do movimento Direitos Já

Dos ex-presidentes convidados, só Fernando Henrique Cardoso confirmou presença. 

Michel Temer chegou até a mandar um vídeo, mas desistiu por achar que no ato "há um tom crítico a Bolsonaro", no que foi acompanhado por José Sarney. Lula e Dilma agradeceram, mas dispensaram o convite. 

Como é que se pode imaginar um ato em defesa da democracia sem criticar quem mais a ameaça, com a escalada autoritária e anti-civilizatória do presidente da República, que está destruindo o país, tijolo por tijolo, acabando com os direitos dos trabalhadores e desafiando as instituições, com a fúria de um exército de ocupação?  

Cada um dos 100 participantes confirmados terá direito a uma fala entre um e dois minutos para apresentar suas visões de país.

Pelo jeito, não devem ter visões muito profundas. Mais fácil seria cada um mandar sua mensagem pelo Twitter. 

Os organizadores preveem que o evento deverá durar quatro horas. Melhor fariam se gastassem esse tempo exibindo um documentário sobre a campanha das Diretas Já, para mostrar aos mais jovens como se lutava por democracia na época da ditadura. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
Toque do editor — Concordo com quase tudo que o Kotscho coloca, menos quanto a não estarem dadas as condições para um movimento como o das Diretas Já. Pelo contrário, o momento é infinitamente melhor que o do lançamento das Diretas Já (foi acumulando forças a partir de então), pois agora temos um governo em frangalhos, prontinho para receber o tiro de misericórdia.

Mas, quem realmente deixou Bolsonaro grogue, segurando-se nas cordas, foram o Congresso, o Supremo, os governadores e os jovens que ousaram sair às ruas para defender a vida dos brasileiros que estão sendo exterminados pela Covid-19, cuja letalidade é maximizada pela sabotagem sanitária do dito presidente genocida. 

Então, em termos políticos, Direitos Já é uma iniciativa tardia, tímida, sem coragem para dar nome aos bois e, pior, sem o desprendimento que prevalecia na Diretas Já
Percebe-se claramente que alguns priorizam, isto sim, a melhora de suas chances eleitorais para 2022 e não o afastamento imediato de um presidente insano e catastrófico.

Refiro-me não só às escaramuças veladas entre os favoráveis a Lula e a Ciro, como também à exclusão de Sergio Moro, que ultimamente tem contribuído muito mais para a desconstrução do governo miliciano do que os presidenciáveis acima citados.

Serei inimigo visceral de Moro quando ele tentar a presidência, mas agora o que está em jogo é algo muito maior: salvarmos boa parte dos coitadezas que ainda morrerão na maior tragédia humanitária de nossa História. O resto tem de ficar para depois.

Por último: o formato prenuncia tédio infinito. Quem suporta 100 discursos de 1 a 2 minutos sem pegar no sono ou, pelo menos, cochilar? Vai parecer um horário eleitoral gratuito com elefantíase.

As Diretas Já permitiam que algumas dezenas discursassem durante as primeiras horas (mas, nem de longe 100, no máximo um quarto disso), mas o momento culminante era quando, no final e evidentemente com direito a mais tempo, falavam Brizola, Ulysses, Lula, governadores e grandes nomes da época. (por Celso Lungaretti)  
Bônus para os leitores: um documentário sobre o grande nome da esquerda 
nas jornadas das Diretas Já. Jamais esquecerei o ato na praça da Sé
em que ele começou a discursar sob vaias e acabou ovacionado
em delírio pela imensa multidão. Foi de arrepiar! (CL) 

sábado, 4 de maio de 2019

INCOMPATIBILIDADE COM A CIVILIZAÇÃO: BOLSONARO NÃO OUSA PISAR EM NOVA YORK NEM PARA RECEBER HOMENAGEM!

Esta foi a imagem vendida na campanha...
Talvez por não ter mentalidade religiosa, eu sou incapaz de negar outros méritos em meus adversários ideológicos, quando eles os têm.

Reconheço, p. ex., que o conservador Winston Churchill fez o que bem poucos fariam, ao conseguir mobilizar os britânicos para a resistência à aparentemente invencível máquina de guerra alemã, quando tantos outros dirigentes defendiam a abertura de negociações em posição de fraqueza, admitindo implicitamente a entrega da Europa para salvarem sua ilha.

Principalmente sendo brasileiro e sabendo da pusilanimidade da grande maioria dos mandatários de meu país em situações mais dramáticas, gostaria que eles tivessem um milésimo da coragem de Charles de Gaulle (que depois, infelizmente, estaria do outro lado das barricadas de 1968): ao ser alvo de atentados terroristas de extrema-direita, permanecia imperturbável, indiferente às balas que zumbiam ao seu redor, deixando aos seguranças a tarefa de evitarem que ele fosse atingido.
...e este o seu comportamento real.

Lembro-me do Ulysses Guimarães (que chegou a apoiar o golpe de 1964 antes de passar à oposição) num ato público das diretas-já em que a ditadura militar encheu de policiais com cães a praça que os oradores deveriam atravessar, no trajeto entre o hotel e o palanque.

Enquanto os jovens amarelavam, o velho avançou sem medo da cachorrada, exigindo que abrissem passagem para um deputado da República. O outros, heróis só no gogó, foram obrigados a controlar a paúra e ir atrás dele.

E mesmo um Fernando Collor, com tantos e tão graves defeitos, não se acovardou quando os simpatizantes de Leonel Brizola ameaçavam partir para a violência contra uma carreata de campanha dele em Niterói: foi em frente, mostrando o punho para os manifestantes adversários. Tal demonstração de firmeza convenceu os donos do Brasil de que ele era a melhor aposta da direita contra Lula.

Já o Jair Bolsonaro consegue ser um exemplo de pessoa em que absolutamente nada se aproveita. Não só suas convicções politico-ideológicas são abomináveis, como foge como um garotinho de todas as batalhas que têm de travar e, cúmulo dos cúmulos, deixa que sua propaganda o promova como o mito que não é nem nunca foi.

Será para sempre lembrado como o oficial encrenqueiro que aceitou pedir baixa do Exército para escapar de retaliações dos superiores, o candidato a uma eleição presidencial que fugiu vergonhosamente de debates eleitorais dos quais estava em condições de participar e o presidente que desmarcou viagem oficial por não ousar pisar em Nova York para receber um título de personalidade do ano depois que alguns civilizados deram declarações contrárias à homenagem (vide aqui).

"VALENTÕES NÃO AGUENTAM UM SOCO" – Depois que já tinha colocado o post acima no ar, tomei conhecimento do comentário do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, acerca de mais esta confirmação de que o exibicionismo machista de Jair Bolsonaro não passa de mais uma fake news:

O cala-boca de Blasio foi um arraso! Merece ser destacado em vermelho:
"Jair Bolsonaro aprendeu da maneira mais difícil que os nova-iorquinos não fecham os olhos para a opressão. 
Nós chamamos atenção para sua intolerância. Ele fugiu. Nenhuma surpresa —valentões não aguentam um soco. 
Já vai tarde, Jair Bolsonaro! Seu ódio não é bem-vindo aqui".  
Related Posts with Thumbnails